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quinta-feira, agosto 27, 2026

Reféns do Toque

 


Silvio Persivo

Meu pai, Sebastião Persivo, era um homem de múltiplos talentos. Meu irmão, Roberto, também. Escrevo isso, claro, em comparação às pessoas comuns. Papai sabia fazer móveis, cultivar a terra, criar animais, entender de motores e de máquinas, desenhar, escrever, fazer poesia, tocar violão e cantar. Foi também quem criou os dois primeiros supermercados de Fortaleza - o Aldeota, na Santos Dumont, e o Sino, próximo à praça do Teatro José de Alencar. Gerenciou e vendeu caixas registradoras, teve oficina de refrigeração, de grades e portões, criou cadeiras, teve armarinho e bar.

Não é o meu caso. Na vida, dediquei-me a produzir palavras -antes com lápis e caneta, depois diante da tela do computador. Como economista, participei da construção do Galeão, no Rio de Janeiro, ajudei a fazer planos e cidades. Como professor, escrevi livros, dei palestras, ensinei e aprendi. Mas qual o resultado concreto da minha atividade? Difícil mensurar. Em muitos aspectos, tudo o que fiz foi etéreo, poesia mesmo. Algumas pessoas me disseram que tive influência em suas vidas- mas é diferente de quem constrói uma cadeira ou uma mesa, com resultado útil, concreto, imediato. No passado eu não pensava assim; hoje penso que deve ser muito gratificante, talvez mais do que criar palavras, fazer algo assim.

Criar com as próprias mãos não foi a minha praia, e não será mais nesta altura da vida. Porém, diante de um mundo cada vez mais compartimentado, fragmentado e dependente da tecnologia, já pensei em ir morar em algum lugar e criar um nicho próprio, um local que não dependa do mundo externo.

O conforto que nos torna indefesos

Nos últimos anos, sofri um pouco com a mudança dos costumes - meus alunos já não gostavam de ler, de escrever, cada vez mais presos aos celulares e computadores. Como tudo na vida, há um lado bom e um lado ruim. A tecnologia é uma maravilha, mas, quando dá pane, deixa quem não tem conhecimento técnico indefeso, inútil, sem condições até de pagar uma conta.

Ter o Google, as IAs, a Meta, o X, a Apple e a Amazon é fantástico. Por outro lado, somos completamente dominados por essas big techs. Viramos seus bebês: não sabemos mais o que fazer sem elas. Ninguém se preocupa em se aprofundar, por exemplo, em conhecer os algoritmos - e é um erro, pois só recuperamos algo quando entendemos como funciona. As pessoas recebem tudo pronto. No passado, quando um automóvel dava problema, alguns de nós sabiam resolver. Hoje, sem um aparelho de checagem, nada se faz. Nem adianta empurrar o carro para pegar, como era comum. Parou, tá parado: é chamar a assistência técnica e ficar refém dos seus prazos. Tudo depende, na maioria das vezes, de um sistema operacional do qual não se entende nada.

O que sobra quando o toque falha?

Isso me faz pensar no futuro. Estamos criando gerações acostumadas à vida fácil de ter tudo com um toque. O que acontecerá amanhã, quando as cabeças de hoje-as velhas de amanhã- sumirem? De certa forma, formamos pessoas que não sabem fazer nada sem acessar uma IA. Vejo uma imensa quantidade de jovens (e não tão jovens) que não sabem usar um mapa: cresceram no GPS, no Waze, que os guiam de um lugar ao outro. Em países mais adiantados, já são os veículos autoguiados que os levam. Se amanhã houver uma pane geral e esses objetos deixarem de funcionar, serão capazes de atravessar a cidade? Será que, em algum momento, não iremos regredir?

Vou mais longe: será que, em milhões de anos, isso já não aconteceu? Fui longe demais-comecei nos devaneios sobre o futuro e voltei a um hipotético passado. Mas a hipótese de um bug geral no mundo é uma possibilidade real. Muitas coisas atuais dependem de conhecimentos avançadíssimos, que precisam ser mantidos- e, para isso, o estudo e a leitura são essenciais. As imagens serão capazes de conservá-los? Imagens também dependem de recursos tecnológicos.

Sistemas, como ensina a Lei de Murphy, tendem a dar problema. E isso pode acontecer com parques de computadores, sistemas de comando, robôs, sensores, satélites, drones- enfim, todas as formas de tecnologia. Resolver esses problemas dependerá sempre do nível de habilidade tecnológica das pessoas. Imagino uma catástrofe em que ficassem vivas apenas pessoas iguais a mim, sem a mínima condição de construir ou reparar um computador, incapazes de usar essa tecnologia por conta própria: como ficaria o mundo? Se sumissem os que hoje habitam seus feudos tecnológicos, como o Vale do Silício, os que mexem com robótica e IAs, com essas mágicas incompreensíveis para a grande massa-como ficaria o mundo?

De repente, a autonomia tornou-se uma questão sensível para mim. Com realismo, sei que não será um problema meu. Mas, por otimismo, confio que a inteligência humana dará um jeito. Ou não?

sábado, agosto 08, 2026

ALÉM DOS ALGORITMOS: A INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL AINDA NÃO SUBSTITUI O DISCERNIMENTO HUMANO

 


Vivemos um paradoxo fascinante. Nunca tivemos acesso a tanta informação - e, ao mesmo tempo, nunca foi tão difícil separar o que realmente importa do que é apenas ruído. A explosão exponencial de dados resolveu o problema do acesso, mas criou outros igualmente desafiadores: fraudes, desinformação e, principalmente, a angustiante pergunta- o que fazer com tudo isso?

A informação se tornou commodity; o discernimento, artigo de luxo

É tentador acreditar que a inteligência artificial possa nos socorrer diante desse dilúvio informacional. Mas, por mais poderosa que seja, nenhuma IA decidirá por você se deve entrar em um novo mercado, contratar um profissional-chave ou escolher um sócio. Decisões como essas dependem de fatores que não estão disponíveis em bancos de dados nem em relatórios automatizados: experiências vividas, comportamentos observados, histórico de relações e, sobretudo, reputação-algo que só se constrói na convivência humana.

Neste cenário, testar as próprias convicções e buscar perspectivas diversas deixou de ser um diferencial para se tornar uma necessidade. Respostas prontas raramente são boas respostas. O que realmente eleva a qualidade de uma decisão é a reunião de trajetórias, visões e experiências diferentes em torno da mesma mesa.

Quanto mais respostas a IA entrega, mais precisamos de quem saiba interpretá-las

O grande deslocamento do nosso tempo é este: a informação deixou de ser um recurso escasso, mas revelou uma qualidade verdadeiramente rara - a capacidade de interpretar mercados, confrontar visões e transformar conhecimento bruto em discernimento.

A inteligência artificial reduz drasticamente o custo de produzir conhecimento. No entanto, à medida que multiplica dados e respostas, mais se torna indispensável a presença de pessoas capazes de dar sentido a eles. A tecnologia ainda não consegue - e talvez nunca consiga - entregar o que há de mais valioso em processos decisórios complexos: contexto, credibilidade e análise criteriosa das situações.

O verdadeiro capital está nas comunidades e nos relacionamentos

O mesmo avanço tecnológico que automatiza análises também faz crescer o valor das comunidades, das relações de confiança e das pessoas com expertise real. Afinal, a IA é um artefato humano - uma ferramenta extraordinária, sim, mas que só será bem utilizada por quem possui condições de separar o joio do trigo, de distinguir informação relevante de ruído.

O desafio que fica para a educação - e para todos nós

Talvez o maior legado dessa era seja um desafio educacional profundo: formar pessoas com capacidade de lidar com a inteligência artificial sem se render cegamente a ela. Gente que mantenha uma visão crítica sobre o que a tecnologia pode, de fato, contribuir- e sobre aquilo que somente a sensibilidade, a experiência e o julgamento humano podem resolver.

No fim das contas, a pergunta deixou de ser "como acessar mais informações?" e passou a ser "quem tem a sabedoria necessária para interpretá-las?" -e esta resposta, felizmente, ainda depende de nós.

segunda-feira, julho 20, 2026

O Livro do Professor Amarildo Alvarenga sobre Reforma Tributária

 


Reforma Tributária: Um Guia Essencial em Meio à Incerteza- A Autoridade do Professor Amarildo Alvarenga em um Livro Indispensável

A Reforma Tributária, no ano em que vivemos sua fase de transição, tornou-se o assunto de maior urgência para empresários e empreendedores brasileiros. É preciso lembrar que o país operou por quase 60 anos sob um sistema tributário criado na década de 1960- o chamado "Manicômio Tributário"-, reconhecido como um dos mais complexos, ineficientes e caros do mundo. A Reforma representa, portanto, a maior mudança já vivida na área, pois altera a própria lógica estrutural de como o país cobra impostos, alinhando o Brasil ao padrão adotado por mais de 170 países.

No papel, a proposta parece extraordinária. Na prática, porém, é extremamente complexa. Estamos diante de transformações profundas, que envolvem:

1.     Extinção de cinco tributos-o sistema atual acaba com PIS, COFINS e IPI (federais), ICMS (estadual) e ISS (municipal);

2.     Criação do IVA Dual- em substituição, surgem a CBS (Contribuição sobre Bens e Serviços, federal) e o IBS (Imposto sobre Bens e Serviços, estadual e municipal), além do IS (Imposto Seletivo, para produtos nocivos à saúde e ao meio ambiente);

3.     Fim da cumulatividade- os impostos, que antes se acumulavam em cascata ao longo da cadeia produtiva, agora geram crédito integral entre etapas, incidindo apenas sobre o valor agregado;

4.     Tributação no destino- o imposto passa a pertencer ao município e ao estado onde está o consumidor final, e não onde o produto foi fabricado, encerrando a histórica "Guerra Fiscal" entre estados.

Para que esta mudança se concretize, será necessário que, entre 2026 e 2032, os sistemas antigo e novo coexistam. Isso obrigará as empresas- especialmente as pequenas- a adaptar softwares, treinar equipes e arcar com custos adicionais de contabilidade para lidar simultaneamente com as duas realidades tributárias. O custo de conformidade (compliance) ameaça asfixiar quem já opera com pouco caixa.

Sem entrar em outras complexidades técnicas, vale destacar que a essência do novo sistema de IVA está em um princípio simples na teoria, mas exigente na prática: as empresas compram de fornecedores, tomam crédito do imposto pago e o abatem do imposto devido na venda. Isto demanda algo que a imensa maioria das empresas brasileiras ainda não possui: organização e controle. Por isso, o papel do contador- para cálculos de precificação e para avaliar a permanência ou não no Simples Nacional nos próximos anos- se torna absolutamente fundamental.

Diante de um cenário tão desafiador, a informação correta fará uma diferença decisiva para as empresas.

Um Oásis no Deserto Bibliográfico

É exatamente por essa razão que a chegada do livro "Reforma Tributária do Consumo- Compreendendo pela Lógica de quem participou de sua construção", do Professor Amarildo Ibiapina Alvarenga, surge como uma obra indispensável para quem precisa se aprofundar no tema. A pré-venda está prevista para o final deste mês, com lançamento no final do mês seguinte.

O que torna esse livro particularmente valioso não é apenas seu conteúdo, mas a autoridade de quem o escreveu. Amarildo Alvarenga é Auditor Fiscal da Sefin/RO e Professor de Direito Tributário, com participação ativa nos Grupos de Trabalho do CONFAZ e do COMSEFAZ- responsáveis pela elaboração dos projetos que resultaram na aprovação da EC 132/2023. Além disso, integrou o Pré-Comitê Gestor do IBS e o Programa de Assessoramento Técnico à Implementação da Reforma da Tributação sobre o Consumo (PAT-RTC), que elaborou o PLP 68 – LC 214/2025, e fez parte da Comissão do CGIBS encarregada de redigir o Regulamento do IBS.

Em outras palavras: não se trata de um comentarista externo, mas de alguém que esteve dentro da sala onde a Reforma foi construída, peça por peça.

Didática Rara em Tema Técnico

Como leitor e professor de obras técnicas, é raro encontrar quem saiba transformar temas complexos em uma leitura capaz de prender a atenção e, ao mesmo tempo, esclarecer. O Professor Amarildo parece ter nascido com este dom. Sua escrita é envolvente, fluida, simples e, sobretudo, didática- inclusive na forma como organiza o livro, priorizando o que é essencial, simplificando conceitos e clarificando questões da Reforma sem jamais perder a profundidade técnica necessária.

Otimismo do Autor vs. Cautela que Persiste

É importante destacar, com honestidade, que o Professor Amarildo tem uma visão consideravelmente mais otimista sobre os efeitos da Reforma do que a exposta neste texto quanto aos riscos para pequenas empresas- e é possível que ele esteja certo; se assim for, será uma boa notícia para todos. Contudo, o que não se pode negar, independentemente da divergência de prognósticos, é o vasto conhecimento do autor sobre o tema. Em uma área onde ainda não existe bibliografia sólida e amplamente acessível, sua obra se apresenta como um dos poucos oásis em um imenso deserto de incertezas.

A expectativa é grande para que o livro seja lançado o quanto antes- inclusive para que, a partir dele e com a participação direta deste mestre, seja possível promover discussões que tornem a Reforma Tributária mais compreensível e ajudem a construir a estabilidade jurídica e fiscal que todo o país almeja. O que todos nós, professores, pesquisadores, técnicos governamentais, empresários, realmente, desejamos é que a Reforma Tributária traga uma efetiva melhoria no ambiente de negócios promovendo a estabilidade econômica e institucional, o que não acontecerá sem conhecimento, daí que iniciativas como a da publicação deste livro deve merecer de nós toda atenção e apoio em prol do nosso futuro.

sexta-feira, junho 19, 2026

HUMBERTO DA SILVA GUEDES E O PLANEJAMENTO QUE MOLDOU UM ESTADO

 


Quem acompanhou a história de Rondônia nas últimas cinco décadas reconhece três nomes como protagonistas da grande virada do então Território Federal: Silvio Gonçalves de FariasHumberto da Silva Guedes e Jorge Teixeira de Oliveira - todos com trajetória militar e presença decisiva em momentos-chave. O último deles a partir desta vida foi Humberto da Silva Guedes, em 18 de junho, aos 103 anos.

Penúltimo governador do Território Federal de Rondônia (1975–1979), nomeado pelo presidente Ernesto Geisel, Guedes chegou a Porto Velho herdando uma estrutura mínima: governador, um secretário de governo e poucos departamentos para administrar um território vasto, com apenas duas cidades consolidadas - Porto Velho e Guajará-Mirim- e cerca de 140 mil habitantes. A máquina pública mal dava conta do básico.

Com o avanço do processo migratório e a chegada de colonos via projetos do INCRA-como o Projeto Integrado de Ouro Preto, voltado à agricultura familiar com café e cacau-, as deficiências ficaram escancaradas. Para Guedes, militar de formação e intelectual de visão humanista e planejadora, Rondônia era uma missão: era preciso construir um Estado - de verdade, com bases sólidas.

Planejar antes de crescer

Sua aposta foi clara: sem planejamento, não haveria futuro sustentável. Reformou a estrutura administrativa, criando a Secretaria de Planejamento, e contratou o professor Charles Muller (UnB) para coordenar estudos de viabilidade econômica que demonstrassem a capacidade de Rondônia sustentar-se como Estado. Estes estudos, as equipes de planejamento que criou, embasaram, anos depois, a obtenção dos recursos do POLONOROESTE junto ao Banco Mundial.

Na mesma direção, convocou arquitetos, geógrafos e urbanistas-entre eles o célebre Milton Santos - para pensar a hierarquização urbana e o ordenamento territorial. Cidades que hoje são municípios consolidados, como Mirante da Serra, nasceram de um trabalho cuidadoso de equilíbrio econômico e espacial, executado por técnicos locais comandados na época pelo secretário de planejamento, Luiz César Auvray Guedes, como Jorge ElageJosé MeschLuiz Antônio da Costa e Silva, Maurílio Galvão, Álvaro Lustosa Pires, Pedro Albino de Aguiar, Letácio Lucena, Jussara Gottlieb, José Aldenor Neves, Rosália Maria Passos entre muitos outros.

Um legado que o tempo confirmou

O planejamento desta época gerou frutos que atravessaram décadas. Rondônia desenvolveu o primeiro Zoneamento Socioeconômico e Ecológico (ZSEE) do país, que deu origem ao PLANAFLORO, iniciativa pioneira de harmonização entre crescimento econômico e proteção ambiental na Amazônia.

Hoje, o Estado se destaca pelo crescimento do PIB e por um equilíbrio territorial invejável- características que remetem diretamente às fundações lançadas naquele período. Muito se deve ao trabalho e à determinação de quem migrou e construiu. Mas há uma dívida de reconhecimento que Rondônia ainda não quitou com Humberto da Silva Guedes: foi ele quem, antes de qualquer outro, enxergou o Estado que Rondônia poderia ser - e trabalhou para torná-lo possível.

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Obs.: Ao partir aos 103 anos, Guedes deixa não apenas a memória de um gestor competente e dedicado, mas a marca indelével de quem ajudou a desenhar a Rondônia que existe hoje.

quinta-feira, junho 11, 2026

UMA TÊNUE LUZ NO FIM DO TÚNEL

 


No berço da democracia grega, os sofistas compreenderam uma verdade fundamental: a sobrevivência da pólis dependia da palavra e da discussão. Longe de oferecerem dogmas prontos ou verdades reveladas, eles entregaram aos cidadãos uma ferramenta profundamente libertadora: a retórica. Ao ensinar a arte de argumentar, defender e refutar, os sofistas democratizaram o poder, permitindo que a ordem social deixasse de ser um decreto divino para se tornar um objeto de constante debate e reescrita. A palavra, a partir dali, abandonou o papel de espelho passivo da realidade para se converter na própria forja onde se molda a geopolítica e a vida pública.

Grandes pensadores e historiadores da filosofia já demonstraram que os sofistas foram os arquitetos de uma formação voltada para a virtude prática. No entanto, foi G. W. F. Hegel quem os apontou como os grandes responsáveis pelo despertar da subjetividade livre. Para ele, foi através do movimento sofístico que o espírito humano reconheceu a si mesmo como medida e motor da realidade, rompendo com a submissão cega aos costumes tradicionais.

Por outro lado, Karl Popper identificou nessa mesma atitude as sementes do falibilismo democrático. Popper enxergava na rejeição sofística aos dogmas absolutos a base indispensável para uma comunidade livre, onde nenhuma autoridade detém o monopólio da verdade e todas as certezas estão sujeitas ao escrutínio, à crítica e à revisão pública.

A importância dessa constatação reside em um fato crucial: sem um critério divino ou natural para arbitrar nossas disputas, cabe a nós-na arena escorregadia e dúbia da linguagem- construir os consensos provisórios que sustentam a convivência. O relativismo sofístico é, portanto, a recusa da tirania do absoluto em favor da negociação democrática e da busca por uma coexistência pacífica.

A Educação como Arma de Emancipação

Assim, a promessa sofística de ensinar a areté — a excelência cívica combinada à destreza argumentativa — desferiu um golpe mortal no domínio aristocrático. A educação transformou-se em um instrumento formidável de emancipação, baseado na premissa de que qualquer cidadão, munido da arte da palavra, é capaz de intervir nos destinos da sua comunidade e alterar o curso da história.

Sob essa ótica, o mundo humano é uma construção eminentemente humana:

  • As instituições;
  • A moralidade;
  • A própria ideia de justiça.

Tudo isso nada mais é do que um conjunto de convenções tecidas no calor do debate público. O mundo social é uma obra de arte coletiva, uma invenção permanente que exige manutenção contínua.

O sentido último dessa visão é o de que a verdade não é uma relíquia perene, embalsamada e guardada no silêncio dos templos. Ela é como um rio vivo em constante transformação; ou, talvez, um feixe de forças em perpétua mutação de sua resultante. Se existe alguma concretude, é a de que a verdade se modifica, se desloca, se expande, se retrai e renasce do atrito dialógico entre os atores sociais. Aqui, estilhaça-se sem pena nem saudade o ideal platônico de uma certeza imóvel, tão distante da complexidade das sociedades reais.

Contemporâneos do Discurso

Nesse aspecto, os sofistas são nossos estritos contemporâneos. Eles entenderam que a verdade resulta da dança e do compasso da vida política. O dissenso e a articulação de perspectivas divergentes não são ameaças à verdade; são, na realidade, sua única possibilidade de existir. Esta é a base que torna a liberdade de expressão indispensável.

Ao circular pelo tecido social, o discurso recorta a realidade, costura novos sentidos e cria novos mundos por onde passa. A verdade deixa de ser esculpida na pedra e passa a ser construída em qualquer espaço: na terra, no mar, no ar ou nas mídias sociais. A política torna-se um espaço de reinvenção contínua — onde, paradoxalmente, até a mentira tenta se impor como verdade ao tentar restringir a palavra alheia. Para os sofistas, a palavra é a própria respiração da democracia.

Só há democracia liberal e pluralismo- mesmo diante da inevitável falibilidade das instituições-quando a sociedade reconhece a necessidade do atrito de posições. A tradição sofística se ergue:

1.     Cada vez que um cidadão levanta a voz contra a tirania do pensamento único;

2.     Cada vez que uma sociedade reescreve suas próprias leis;

3.     Cada vez que um argumento triunfa pela luz da razão pública.

Por mais escuros que pareçam os caminhos e por mais negros que se desenhem os horizontes, os sofistas nos deixam um facho de luz. Enquanto houver alguém capaz de lembrar que a liberdade humana é uma construção coletiva-que não repousa em certezas absolutas nem nas mãos de "iluminados", independentemente dos altos cargos que ocupem-, o tempo e a razão dos discursos nos guiarão. Apesar dos altos custos, eles sempre nos conduzirão de volta a uma verdade democrática, por mais efêmera que ela possa ser.

sábado, junho 06, 2026

A ILUSÃO DA AUTENTICIDADE: COMO A IA REDEFINE A CRIAÇÃO E O TRABALHO

 


Silvio Persivo 

Não há, no mundo contemporâneo, como fugir da tecnologia e de seus avanços. Pouco importa a resistência subjetiva de cada um: as inteligências artificiais já se tornaram presença ordinária na vida cotidiana. Estão nos aplicativos de transporte, nos mecanismos de busca, nos mapas, nas recomendações de consumo, nos sistemas de atendimento, nas ferramentas de escrita, nas imagens, nos vídeos, nas traduções e até nas pequenas decisões que organizam a rotina. Em muitos casos, quando falta uma palavra, uma estrutura, uma síntese ou uma solução rápida, recorremos ao Google, ao Gemini, ao ChatGPT, ao Claude ou a alguma ferramenta equivalente. A IA deixou de ser promessa distante. Passou a ser uma infraestrutura silenciosa da experiência contemporânea.

Essa presença, entretanto, não deve ser confundida automaticamente com democratização plena da comunicação, nem com um novo renascimento criativo, como alguns preferem anunciar com entusiasmo quase publicitário. A inteligência artificial é uma ferramenta extraordinária, mas continua sendo ferramenta. Como toda tecnologia de grande impacto, ela entrega soluções e inaugura problemas. Amplia capacidades, mas também desloca competências. Facilita processos, mas fragiliza funções antes consideradas estáveis. Em termos econômicos e sociais, não apenas cria novas ocupações: também enfraquece, substitui ou reconfigura formas inteiras de trabalho. E, no caso da IA generativa, há um ponto ainda mais delicado: sua capacidade de abalar a própria ideia de autenticidade.

Tomemos a criação de uma música. Ela pode nascer de uma letra fornecida a uma ferramenta generativa, de um trecho cantarolado pelo usuário, de uma sequência de notas sugerida por ele ou de um simples comando escrito em linguagem natural. Nesse cenário, quem é o autor? A pessoa que teve a intenção inicial? A máquina que combinou padrões? A empresa que desenvolveu o sistema? Ou o conjunto invisível de obras, dados e referências que alimentou o modelo? A resposta não é simples, porque a criação passa a ocorrer numa zona intermediária entre intenção humana, memória tecnológica e recombinação algorítmica.

Há quem sustente que nada produzido por IA pode ser verdadeiramente autêntico, pois sistemas artificiais não possuem consciência, experiência vivida, dor, desejo, memória existencial ou interioridade. Sob esse ponto de vista, a autenticidade não seria apenas resultado formal, mas expressão de uma presença humana concreta. Uma obra poderia ser tecnicamente eficiente, esteticamente convincente e até emocionalmente persuasiva, mas ainda assim careceria de origem interior. Seria uma aparência de criação, não uma criação no sentido pleno.

Por outro lado, também se pode argumentar que a intenção humana permanece decisiva. Sem o impulso de quem pede, orienta, escolhe, corrige, rejeita, combina e finaliza, aquela obra específica talvez nunca existisse. A IA, nesse caso, funcionaria como extensão de capacidade, não como substituta integral da autoria. Assim como a câmera não eliminou o olhar do fotógrafo, e o software de edição não anulou o diretor, a IA talvez não elimine necessariamente o criador. Ela apenas desloca o centro da criação para uma relação mais complexa entre comando, curadoria, repertório e decisão.

A questão, portanto, não é apenas técnica. É cultural, moral e institucional. A autenticidade importa porque sustenta a confiança. Em sociedades já marcadas pela desconfiança nas instituições, pela manipulação narrativa e pela erosão dos critérios de verdade, a expansão de conteúdos artificiais pode aprofundar a sensação de impessoalidade. Quando não se sabe se uma mensagem nasceu de uma consciência real ou de um sistema treinado para simular presença, a comunicação corre o risco de perder densidade humana. O problema não é apenas a IA produzir textos, imagens ou vozes. O problema é a dissolução gradual da diferença entre presença e simulação.

Ainda assim, a experiência cotidiana revela ambiguidades. Há pessoas que percebem nitidamente a frieza de certos conteúdos gerados por IA. Outras, porém, encontram em agentes artificiais uma forma de diálogo mais paciente, mais organizada e até mais acolhedora do que aquela oferecida por muitos interlocutores humanos. Uma amiga querida, por exemplo, conversa com um agente de IA que atua como professor de inglês e sente que ele a compreende melhor do que seu próprio psicólogo. O exemplo pode parecer desconcertante, mas expõe um ponto central: a autenticidade, para muitos, já não depende apenas da origem da mensagem, mas do efeito subjetivo que ela produz.

Esse deslocamento aparece também no trabalho intelectual e profissional. O economista Ricardo Amorim, em palestra recente, afirmou que suas apresentações melhoraram com o uso de ferramentas de IA, especialmente na preparação de gráficos, análises e materiais visuais. Ninguém deixará de reconhecer aquelas palestras como dele apenas porque parte da execução foi auxiliada por sistemas artificiais. A autoria, nesse caso, permanece associada à visão, à seleção, à responsabilidade e ao uso inteligente da ferramenta. A IA eleva a entrega, mas não substitui necessariamente o juízo humano que dá direção ao conjunto.

O mesmo raciocínio pode ser levado à moda, ao design, à arquitetura, à publicidade, à música, ao jornalismo e às artes visuais. Se um criador de prestígio internacional desenvolve modelos com auxílio de IA, o público provavelmente continuará atribuindo a ele a autoria, desde que reconheça coerência estética, intenção criativa e responsabilidade pelo resultado final. A confiança no nome, na trajetória e na assinatura ainda pesa. Contudo, à medida que o uso da IA se generaliza e raramente é declarado, torna-se cada vez mais difícil distinguir o que nasceu de elaboração direta, de colaboração tecnológica ou de mera terceirização algorítmica.

É nesse ponto que a discussão sobre direitos autorais, crédito e transparência se torna inevitável. A sociedade precisará redefinir o que entende por criação, autoria, originalidade e autenticidade. Não será suficiente repetir categorias antigas diante de instrumentos que alteram o processo criativo desde a origem. Também não será sensato demonizar a tecnologia como se ela fosse intrinsecamente fraudulenta. O desafio está em reconhecer a potência da ferramenta sem abdicar da responsabilidade humana por seu uso.

Talvez a conclusão mais honesta seja admitir que a autenticidade nunca foi uma pureza absoluta. Toda criação humana nasce de influências, memórias, imitações, referências e recombinações. A diferença é que a IA torna esse processo mais acelerado, opaco e industrializado. Ela revela, com brutal clareza, algo que o ego artístico muitas vezes prefere esquecer: há menos novidade debaixo do sol do que gostaríamos de admitir. A originalidade absoluta talvez seja rara; a responsabilidade pela intenção, pela escolha e pelo sentido, porém, continua sendo profundamente humana.

Assim, a pergunta decisiva não é apenas se uma obra feita com IA é autêntica. A pergunta mais séria é quem responde por ela. Quem assume sua intenção, seus limites, suas consequências e sua verdade possível? Se houver consciência, curadoria, responsabilidade e transparência, a IA pode ampliar a criação sem destruí-la. Mas, se for usada para mascarar vazio, simular profundidade ou substituir discernimento por aparência, então não estaremos diante de uma nova autenticidade. Estaremos apenas diante de uma ilusão tecnicamente bem produzida. 

Fonte: Publicado originalmente em https://oticadarazao.com/the-illusion-of-authenticity-creation-and-work/

quarta-feira, maio 27, 2026

O DECRETO DA MORDAÇA DIGITAL

Há momentos em que o silêncio deixa de ser prudência e passa a ser cumplicidade. O Decreto nº 12.975/26 é um desses casos. Sua publicação deveria ter provocado reação imediata e contundente de juristas, jornalistas, entidades civis e todos aqueles que  compreendem o valor da liberdade de expressão numa democracia. Entretanto, o que se viu foi uma aceitação resignada, quase burocrática, de uma medida que representa um dos mais graves avanços do poder estatal sobre a livre manifestação no ambiente digital.   O governo apresentou o decreto como simples regulamentação da decisão do Supremo Tribunal Federal sobre o Marco Civil da Internet. Não é. Trata-se, na verdade, de um novo estágio de controle estatal sobre o debate público, construído a partir da combinação entre ativismo judicial e expansão regulamentar do Executivo.

O Marco Civil da Internet nasceu como referência internacional exatamente porque estabelecia um equilíbrio delicado entre liberdade de expressão, responsabilização e segurança jurídica. Seu núcleo central era claro: plataformas digitais não poderiam ser responsabilizadas automaticamente por conteúdos de terceiros sem ordem judicial prévia, salvo exceções específicas previstas em lei. Isto evitava que empresas privadas se transformassem em tribunais de censura preventiva.  A recente decisão do STF já havia enfraquecido esta lógica ao ampliar os incentivos para remoção de conteúdos, mesmo sem decisão judicial definitiva. O decreto agora vai além: cria uma estrutura administrativa permanente de vigilância e supervisão do ambiente digital.

As plataformas passam a ser obrigadas a monitorar “riscos sistêmicos”, manter estruturas internas de controle e compartilhar informações com o poder público sob supervisão da Agência Nacional de Proteção de Dados (ANPD). E aí surge o primeiro problema jurídico grave: a ANPD não foi criada para arbitrar o debate público.  Sua função legal é proteger dados pessoais, garantir privacidade e disciplinar o tratamento de informações. Transformá-la em órgão fiscalizador de moderação de conteúdo, gerenciamento de riscos narrativos e circulação de opiniões significa atribuir-lhe poderes que simplesmente não existem na legislação. Na prática, o governo desloca para uma agência administrativa uma função típica de controle político da informação.  Isto não poderia ser feito por decreto. Se o Estado deseja alterar regras sobre liberdade de expressão e responsabilidade das plataformas, deve fazê-lo por meio de lei aprovada pelo Congresso Nacional, após amplo debate público. É exatamente isto que determina a Constituição ao estabelecer a separação dos poderes e a competência legislativa do Parlamento.

O Executivo, porém, escolheu outro caminho: governar por regulamentos expansivos, reinterpretando competências administrativas para alcançar objetivos políticos que não conseguiu aprovar democraticamente. A situação se torna ainda mais preocupante quando se observa o papel atribuído à Advocacia-Geral da União (AGU). O decreto permite que a AGU faça notificações relacionadas a publicidade “enganosa”, “abusiva” ou “fraudulenta” vinculada a políticas públicas. À primeira vista, pode parecer razoável combater fraudes e manipulações. O problema está justamente na elasticidade desses conceitos quando transportados para o terreno político. Quem definirá o que é “enganoso” numa crítica ao governo? Quem decidirá quando uma campanha contrária a determinada política pública ultrapassa os limites da contestação legítima? O próprio governo?

O risco é evidente. Críticas severas a programas oficiais, campanhas organizadas contra medidas do Executivo ou manifestações políticas contundentes poderão ser enquadradas como conteúdo problemático sujeito à intervenção estatal. Isso significa entregar ao governo instrumentos indiretos de controle sobre seus próprios críticos.  Em qualquer democracia madura, o Estado não pode ocupar simultaneamente o papel de parte interessada no debate político e árbitro daquilo que pode ou não circular publicamente. Quando isto acontece, o espaço da divergência deixa de ser livre e passa a existir sob tolerância condicionada do poder.

O efeito prático do decreto também é previsível. As plataformas digitais passarão a operar sob permanente ameaça regulatória. E empresas privadas movidas por lógica econômica não agirão como defensoras heroicas da liberdade de expressão diante da possibilidade de sanções estatais. Farão exatamente o que qualquer ser racional faria: remover preventivamente conteúdos considerados potencialmente problemáticos. Se manter uma publicação no ar pode gerar investigação, multa, desgaste institucional ou conflito com autoridades, enquanto removê-la dificilmente produzirá consequências jurídicas relevantes, a tendência natural será eliminar primeiro e discutir depois.  Nasce, assim, um sistema de censura indireta. O Estado não precisa proibir explicitamente determinado conteúdo. Basta criar um ambiente regulatório suficientemente ameaçador para que as próprias plataformas realizem a filtragem prévia.

O mais preocupante é que isso ocorrerá em temas essencialmente interpretativos e políticos. O decreto evita usar expressões desgastadas como “desinformação” ou “ataques à democracia”, mas remete a categorias penais relacionadas ao Estado Democrático de Direito, discurso de ódio, discriminação e incitação.  São conceitos extremamente complexos, dependentes de contexto, intenção, interpretação jurídica e análise probatória cuidadosa. Não raramente, os próprios tribunais levam anos para decidir casos dessa natureza, muitas vezes reformando entendimentos anteriores.

Expressões como “grave ameaça”, “incitação” ou “discurso de ódio” não possuem aplicação automática nem objetiva. Seu uso exige ponderação constitucional delicada entre liberdade de expressão, proteção institucional e direitos individuais.  Entretanto, plataformas digitais não possuem vocação, legitimidade nem estrutura para realizar este tipo de juízo constitucional sofisticado. Diante da dúvida, escolherão sempre a opção de menor risco: retirar o conteúdo do ar.  Isto gera um efeito devastador sobre o debate público. Não apenas conteúdos efetivamente ilícitos serão removidos, mas também críticas contundentes, opiniões controversas, interpretações divergentes e manifestações politicamente inconvenientes. A consequência inevitável é o empobrecimento do espaço democrático.

O aspecto mais grave, contudo, talvez seja o contexto político em que o decreto surge. Não se trata de episódio isolado. O governo já tentou aprovar o chamado Projeto de Lei das Fake News; pressionou pela responsabilização ampliada das plataformas; utilizou a AGU contra conteúdos críticos a projetos oficiais; e buscou restringir impulsionamentos de natureza política.

O decreto aparece como continuação dessa estratégia por outros meios.

Quando iniciativas legislativas fracassam no Congresso, recorre-se ao Judiciário. Quando o Judiciário produz decisões favoráveis, utiliza-se o aparato administrativo para consolidar e expandir seus efeitos. Forma-se, assim, uma engrenagem institucional de controle gradual do ambiente informacional.  O argumento utilizado é sempre sedutor: combate à desinformação, proteção democrática, defesa institucional, enfrentamento do discurso de ódio. Nenhuma democracia pode, evidentemente, tolerar crimes, ameaças reais ou violência organizada. O problema começa quando conceitos amplos e subjetivos passam a justificar mecanismos permanentes de monitoramento e controle estatal da circulação de ideias.

A história demonstra que instrumentos criados para atingir supostos “extremistas” raramente permanecem limitados a eles. Mais cedo ou mais tarde, acabam alcançando opositores legítimos, críticos do governo, jornalistas independentes e cidadãos comuns. Democracias não morrem apenas por golpes abruptos. Muitas vezes, deterioram-se lentamente por meio de regulações sucessivas que reduzem gradualmente o espaço da discordância. Por isto, o debate sobre esse decreto não é técnico nem burocrático. É um debate sobre os limites do poder estatal numa sociedade livre.

Aceitar que órgãos administrativos passem a supervisionar a circulação de opiniões políticas; admitir que plataformas sejam pressionadas a remover preventivamente conteúdos; permitir que conceitos vagos sejam usados para disciplinar o debate público; tudo isto significa normalizar práticas incompatíveis com uma democracia liberal madura. A liberdade de expressão existe justamente para proteger manifestações incômodas, críticas duras e opiniões divergentes. Não precisa de proteção estatal aquilo que agrada ao poder. O que necessita proteção constitucional é exatamente o discurso que incomoda governos, desafia consensos e contraria narrativas oficiais.

O Decreto nº 12.975/26 representa, no frigir dos ovos, uma tentativa de ampliar mecanismos de controle social sobre os meios digitais de manifestação pública. E isso deveria alarmar qualquer pessoa comprometida com a democracia, independentemente de posição ideológica. O próprio governo atual deveria ter receio deste tipo de instrumento na medida em que se encontra em baixa na porta de uma eleição. É preciso ter em conta que governos passam. Mas, instrumentos de censura, uma vez criados, quase nunca desaparecem.

 

O DESENROLA NÃO DESENROLA

 


O Desenrola surgiu com a promessa de aliviar a vida financeira dos brasileiros em um país marcado por crédito caro, renda comprimida e inadimplência crescente. Contudo, o programa não enfrenta as causas reais do endividamento. Seu principal problema é trabalhar com parâmetros distantes da realidade das famílias ao focar em dívidas muito baixas, como débitos de até R$ 100,00 ou o uso limitado do FGTS. Na prática, o endividamento no Brasil é estrutural e envolve valores muito superiores, inclusive entre os mais pobres.  Antes do programa, em maio de 2023, o país possuía 71,9 milhões de inadimplentes. Após renegociações e exclusão de pequenos débitos, cerca de 15 milhões de pessoas foram beneficiadas. Ainda assim, em março de 2026, o Brasil atingiu novo recorde: 82,8 milhões de inadimplentes. Ou seja, o problema retornou ainda maior. O Desenrola produz apenas alívio temporário, sem alterar as condições que geram o endividamento.

O erro central está em tratar a inadimplência como algo passageiro, quando ela decorre de fatores permanentes: baixo poder de compra, inflação do custo de vida e juros elevados. Para milhões de famílias, o crédito deixou de ser instrumento de consumo e passou a funcionar como complemento de renda. Cartão de crédito e cheque especial financiam despesas básicas como alimentação, energia e água. Com juros entre os mais altos do mundo e forte concentração bancária, pequenas dívidas rapidamente se transformam em bolas de neve.  Ao limpar o nome do consumidor sem elevar renda nem reduzir juros, o programa apenas devolve o cidadão ao mesmo sistema que produz nova inadimplência. O ciclo se repete: endividamento, renegociação, breve alívio e novas dívidas. Além disto, sucessivos programas de renegociação criam expectativa de futuros descontos, enfraquecendo a disciplina de pagamento.

O uso do FGTS revela outro equívoco. Criado para proteger o trabalhador e financiar habitação e infraestrutura, o fundo passa a cobrir distorções do sistema financeiro, reduzindo recursos importantes para investimentos e empregos. Por isto, o Desenrola tem caráter apenas paliativo. Sem aumento real da renda, redução consistente dos juros, maior concorrência bancária, educação financeira e crédito sustentável, o programa funciona como analgésico: reduz momentaneamente a dor, mas não cura a doença. A inadimplência no Brasil não é um fenômeno marginal, tampouco concentrado em pequenos valores ocasionais. Ao atuar sobre valores simbólicos, o Desenrola cria a ilusão de solução, mas não altera o quadro real.

(Publicado em primeira mão no dia 16/05/26 no Estado de São Paulo-Economia) 

AS NARRATIVAS DO PODER: O ESCÂNDALO DO SPLC E SEUS ECOS

 


Embora, por razões que demonstram os interesses envolvidos, razão pela qual a imprensa brasileira pouco tem divulgado, o grande escândalo recente das acusações envolvendo o Southern Poverty Law Center (SPLC) não são apenas mais um escândalo financeiro nos Estados Unidos. Elas tocam em um ponto sensível e cada vez mais relevante nas democracias contemporâneas: quem define o que é “extremismo” e com quais interesses.

Foi verificado que a SPLC, posicionada como referência no combate ao racismo e aos grupos de ódio, financiava, de forma indireta e encoberta, indivíduos ligados justamente a organizações como a Ku Klux Klan e a National Alliance. Ou seja: alimentavam o fenômeno que sustentava sua própria existência institucional. Mas há um aspecto ainda mais controverso -e politicamente explosivo. Críticos do SPLC afirmam que, ao longo dos anos, a entidade ampliou de forma significativa o conceito de “extremismo”, passando a incluir não apenas grupos violentos, mas também organizações conservadoras, religiosas e pró-família. Em alguns casos, associações de mães e de católicos tradicionalistas foram enquadrados como ameaças ideológicas, o que levanta dúvidas sobre a objetividade dos critérios usados. Esta expansão conceitual não é trivial. Ao rotular determinadas posições morais ou culturais como “extremistas”, cria-se um ambiente em que divergência política pode ser reinterpretada como risco social. O efeito prático é a deslegitimação de vozes dissidentes- não pelo debate de ideias, mas pela classificação. Basta pensar, por exemplo, chamar alguém de nazista!

As declarações do procurador interino Todd Blanche reforçam a gravidade do caso. Ao afirmar que a organização “fabricava o racismo que alegava combater”, ele sugere não apenas irregularidades financeiras, mas a possível instrumentalização de uma narrativa para sustentar poder político, influência institucional e arrecadação bilionária. Este tipo de dinâmica não é exclusivo dos Estados Unidos. No Brasil, observa-se um movimento semelhante - ainda que com características próprias- no qual determinados grupos e correntes de pensamento são rapidamente associados a rótulos como “extrema direita” ou “antidemocráticos”, muitas vezes sem distinções claras entre posições conservadoras legítimas e discursos efetivamente radicais.

A consequência é um ambiente de crescente polarização, no qual o debate público perde densidade e se torna refém de classificações simplificadoras. Em vez de discutir ideias, discute-se identidades políticas previamente rotuladas. E, neste processo, instituições, plataformas digitais e até mecanismos de regulação passam a exercer um papel cada vez mais ativo na filtragem do que pode ou não ser dito. Sem contar que, sob a justificativa de proteger a sociedade, se passa, na prática, a censurar as redes sociais e impedir a livre expressão do pensamento. Pior ainda: criando o medo de ser perseguido ao expressar suas opiniões.

O caso do SPLC, portanto, vai além de um possível escândalo financeiro. Ele expõe um modelo de atuação que combina três elementos poderosos: produção de narrativas, influência política e capacidade de mobilização financeira. Um modelo que transforma a denúncia em instrumento e o discurso moral em ativo estratégico. Em última instância, a questão que se impõe é clara: quando o combate ao extremismo deixa de ser um compromisso legítimo e passa a ser uma ferramenta de poder? A resposta, seja nos Estados Unidos, ou no Brasil, define os limites entre proteção democrática e controle ideológico- uma linha tênue que, uma vez ultrapassada, dificilmente é restabelecida com facilidade. E, não se pode negar, que no Brasil tem sido, repetidamente, ultrapassada. É claro que, com boas justificativas, pois aos lobos não custa muito vestir peles de cordeiro.