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domingo, fevereiro 15, 2026

CULTURA E GOSTO POPULAR: ENTRE A GRANDE ARTE E O VIRAL

 


Sinceramente, poucas vezes consigo me sintonizar com os pensamentos de Donald Trump - figura marcante no cenário político moderno e, como todo magnata acostumado a fazer o que quer, um egocêntrico. Apesar disso, não dá para negar que há momentos em que ele acerta a mão e acerta questões que muitos criticam com exagero. Por exemplo, a decisão de prender Maduro melhorou, ainda que parcialmente, o clima social e político na Venezuela, com milhares de pessoas sendo libertadas num processo que muitos veem como positivo.

Por outro lado, minha falta de interesse pelo Super Bowl é total. Trata-se de um espetáculo criado principalmente para o público estadunidense, e isso é legítimo- mas não consigo entender o entusiasmo global por ele. Ainda menos compreendo o fervor em torno de artistas como Bad Bunny- cuja música, para mim, simplesmente não ressoa.  Bad Bunny é hoje um dos maiores nomes da música latina no mundo, líder em números de streaming e presença global. Ele quebrou barreiras para artistas que cantam em espanhol e trouxe elementos culturais de Porto Rico para palcos como o do Super Bowl- algo que antes raramente acontecia.

Ainda assim, muitos veem seu show e estilo como ruins, repetitivos ou exagerados, declarando que ele “não canta bem” ou que sua presença em grandes eventos é fruto de um efeito de massa mais do que de um mérito artístico genuíno. Críticas online vão de comparações desfavoráveis com artistas populares locais até declarações duras como “Bad Bunny é pavoroso” e que sua fama seria apenas “histeria coletiva”.

É importante frisar que essa polarização não é incomum no debate cultural atual: enquanto uns o acusam de mau gosto e superficialidade musical- especialmente em performances como a do Super Bowl- outros celebram sua autenticidade e a maneira como ele representou a cultura latina em um palco global.

Do meu ponto de vista pessoal, o que se tornou predominante hoje é uma cultura que confunde quantidade com qualidade. O que viraliza na internet -muitas vezes impulsionado por algoritmos, marketing, memes ou incentivo financeiro- tende a ser visto como símbolo de sucesso, mesmo que não carregue profundidade artística. Esta valorização do sensacionalismo, do choque ou do bizarro como entretenimento contradiz a ideia tradicional de grande arte, que sempre exigiu complexidade, amadurecimento intelectual e um senso de grandeza que vai além do consumo rápido.

A arte de verdade aquela que desafia, ensina e transforma- exige silêncio, reflexão e reverência, coisas cada vez mais escassas em uma era em que tudo pode ser reduzido a padrões repetitivos e facilidades estilísticas. A música realmente memorável normalmente depende de composição cuidadosa, performance técnica e impacto cultural duradouro - características que, a meu ver, não se encontram tão facilmente nas tendências virais contemporâneas.

Por fim, embora eu me considere um elitista cultural, não ignoro completamente a diversidade de gostos nem descarto a relevância social de fenômenos populares- toda manifestação artística tem seu contexto e valor. Mas, penso que devemos diferenciar entre entretenimento efêmero e arte verdadeiramente significativa, e também compreender que o fato de algo ser amplamente consumido não garante automaticamente sua profundidade ou qualidade estética.

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CARNAVAL NO NORTE E OS DESAFIOS DA ECONOMIA CRIATIVA REGIONAL

 


Cidades do Norte do Brasil, como Belém, Manaus e Porto Velho, têm experimentado, nos últimos anos, uma transformação significativa em seus carnavais. Com a “Banda do Vai Quem Quer” de Porto Velho, como exemplo, e outros blocos tradicionais, essas festas vêm atraindo crescente número de turistas nacionais e internacionais, impulsionadas pela ampliação da malha aérea e pela valorização das experiências culturais e gastronômicas únicas da região amazônica. Os investimentos em infraestrutura e segurança têm permitido que as festas ampliem seu alcance, contribuindo para a geração de renda e empregos. No entanto, por trás dos números positivos e do crescimento turístico, persiste uma queixa recorrente: o carnaval do Norte e a economia criativa regional não recebem o mesmo apoio que as festas consolidadas do Sudeste e Nordeste do país.

Os blocos tradicionais e grupos culturais da região amazônica enfrentam um paradoxo: enquanto suas festas ganham visibilidade nacional e internacional, os organizadores relatam dificuldades crescentes para viabilizar os desfiles. As principais reclamações incluem a falta de apoio institucional consistente, exigências burocráticas excessivas e, em alguns casos, o uso político das festas por autoridades que veem no carnaval apenas uma plataforma para promoção pessoal, sem compromisso real com o desenvolvimento da cultura local. Esta contradição revela uma questão estrutural: a economia criativa do Norte permanece subfinanciada e subvalorizada em comparação com outras regiões do país, apesar de seu inegável potencial econômico e cultural. O resultado é um cenário onde o sucesso público das festas não se traduz em sustentabilidade para os produtores culturais que as constroem.

Para reverter esse quadro e consolidar o carnaval do Norte como patrimônio cultural sustentável, algumas medidas podem ser implementadas:

1)    A criação de fundos permanentes para a cultura regional. Os fundos permanentes garantem previsibilidade aos produtores culturais, permitindo planejamento de longo prazo. Esses fundos devem ter critérios técnicos de distribuição, com participação de conselhos culturais representativos, evitando a distribuição política dos recursos;

2)    Desburocratização dos processos de licenciamento. A criação de balcões únicos para obtenção de licenças, alvarás e autorizações pode reduzir significativamente o tempo e o custo para organização dos blocos. Processos digitais e prazos claros também contribuem para maior transparência e eficiência administrativa;

3)    Programas de capacitação e profissionalização. Investir na formação de gestores culturais, técnicos de produção e empreendedores criativos fortalece toda a cadeia produtiva do carnaval:

4)    Editais com antecedência e continuidade. A publicação de editais de fomento com pelo menos seis meses de antecedência permite que os grupos se preparem adequadamente. Além disso, editais plurianuais oferecem segurança para projetos de maior fôlego e estimulam o desenvolvimento artístico consistente;

5)     Criação de espaços permanentes para ensaios e produção. A disponibilização de galpões culturais, centros de criação e espaços de ensaio gratuitos ou subsidiados reduz drasticamente os custos operacionais dos blocos e grupos;  

6)    Estruturação de programas de turismo cultural integrado. Articular o carnaval com outras manifestações culturais e atrativos regionais (gastronomia amazônica, turismo de natureza, festivais de música) pode ampliar o impacto econômico e descentralizar os benefícios para além do período carnavalesco.

Algumas cidades brasileiras demonstram como o apoio efetivo ao carnaval pode gerar resultados positivos para toda a comunidade. São exemplos, Salvador (BA), Recife e Olinda (PE), São Paulo (SP) e, mais recentemente,  Belo Horizonte (MG) e Florianópolis (SC).  São bons exemplos e é preciso entender que o carnaval do Norte possui características únicas que merecem ser preservadas e potencializadas. Para isto, é fundamental que as políticas públicas reconheçam essas especificidades e haja apoio para fortalecer as raízes culturais locais e valorização dos mestres da cultura popular.  Porém, um dos maiores obstáculos ao desenvolvimento sustentável do carnaval do Norte tem sido a instrumentalização política das festas. Quando autoridades utilizam os recursos culturais primariamente para autopromoção, cria-se um ciclo vicioso de dependência e instabilidade. A cultura não deve ser refém de ciclos eleitorais ou interesses políticos momentâneos. Cabe aos gestores públicos do Norte do país escolher: repetir modelos ultrapassados de apropriação política da cultura ou construir, em parceria com os verdadeiros protagonistas da festa, um carnaval que seja, de fato, patrimônio de todos e motor de desenvolvimento regional sustentável. A Amazônia tem muito a ensinar ao Brasil sobre diversidade, resistência e criatividade. Está na hora de seu carnaval receber o reconhecimento e o apoio que merece.

 

“TICKET DOURADO”, UMA INSTIGANTE REFLEXÃO FINANCEIRA

 


O livro "Ticket Dourado", escrito por Luciano Claudino e publicado pela LC Books, convida os leitores a refletirem sobre suas escolhas e comportamentos em relação à vida financeira. Em um contexto onde o endividamento é uma realidade para muitos, a obra se destaca por abordar de maneira acessível a importância da educação financeira e da liberdade econômica.

Uma das mensagens centrais do livro é que a clareza sobre o que fazer com o dinheiro não está atrelada à quantidade que se ganha, mas sim à consciência que se possui na construção de metas financeiras. Claudino argumenta que, para lidar bem com as finanças, é fundamental afastar as tentações imediatas e os medos que muitas vezes nos paralisam. O autor chama a atenção para a importância de um processo consciente na gestão financeira, algo que pode ser especialmente relevante no nosso país onde a falta de educação financeira é evidente.

Além de discutir valores teóricos, "Ticket Dourado" traz uma série de exemplos práticos sobre como se comportar em relação ao dinheiro. O livro funciona como um guia que, longe de oferecer fórmulas prontas ou promessas fáceis, apresenta caminhos tangíveis para uma relação mais saudável com as finanças. Os leitores são incentivados a adotar uma postura proativa em relação ao seu dinheiro, preparando-se para imprevistos e aprendendo a gerenciar riscos com calma e determinação.

Em um mundo onde a incerteza é uma constante e o acaso pode desempenhar um papel significativo, nos mostra que a educação financeira se revela como uma ferramenta vital para se ter liberdade financeira. Claudino enfatiza que o conhecimento sobre finanças é essencial para que as pessoas possam tomar decisões informadas e se sentirem mais seguras em suas escolhas. A leitura de "Ticket Dourado" se torna, portanto, não apenas uma busca por informações financeiras, mas um convite a uma transformação pessoal que visa libertar o indivíduo de padrões de consumo prejudiciais.

Outro aspecto notável da obra é sua linguagem direta e simples, tornando a leitura acessível a um amplo público. "Ticket Dourado" não se limita a especialistas em finanças, mas fala diretamente ao cidadão comum que deseja melhorar sua relação com o dinheiro. Esta abordagem descomplicada permite que cada leitor se identifique com os desafios apresentados, facilitando a aplicação dos ensinamentos no dia a dia.

Por tudo isto "Ticket Dourado" é mais do que um livro sobre finanças; é um convite à reflexão sobre as escolhas que fazemos em nossa vida financeira. Luciano Claudino nos oferece ferramentas e caminhos para que possamos construir uma relação mais saudável e consciente com o dinheiro, um aspecto fundamental em um mundo repleto de incertezas. Com sua leitura clara e acessível, a obra se transforma em um guia importante para todos aqueles que buscam não apenas a independência financeira, mas também o autoconhecimento e a liberdade em suas decisões econômicas.

domingo, janeiro 11, 2026

NÃO SUBESTIME OS MAIS VELHOS: ELES SÃO VOCÊ AMANHÃ, SE SOBREVIVER

 


 A Nova Forma de Envelhecer que Está Redefinindo o Futuro do Brasil

O envelhecimento, tal como o conhecíamos, está passando por uma profunda transformação. Durante décadas, completar 60 anos significava, quase automaticamente, aposentadoria, desaceleração e recolhimento. Hoje, esta lógica já não se sustenta. Para milhões de brasileiros, essa idade marca o início de um novo e vibrante ciclo de vida, ativo, produtivo e cheio de significado.  Neste contexto surge o conceito de NOLT -New Older Living Trend (Nova Tendência de Vida dos Idosos). Mais do que um acrônimo, o NOLT representa uma mudança cultural. Ele rompe com a visão tradicional do “idoso” associada à fragilidade e ao fim de trajetória, e inaugura uma nova identidade: a de pessoas maduras que vivem com propósito, curiosidade e disposição contínua para aprender e evoluir.

Quem é o NOLT?

Diferentemente das gerações anteriores, o NOLT não espera o tempo passar. Ele faz o tempo acontecer. A maturidade, para esse grupo, não é sinônimo de limitação, mas de liberdade para recomeçar com mais consciência e menos medo.

Essa nova forma de viver a idade se manifesta em três pilares centrais:

1. Educação ao longo da vida

Os Nolts estão retornando às salas de aula, presenciais ou virtuais. Aprendem novas tecnologias, desenvolvem habilidades digitais e, muitas vezes, iniciam segundas ou até terceiras graduações. O aprendizado deixa de ser uma etapa da juventude e passa a ser um processo contínuo, alinhado ao conceito de lifelong learning.

2. Empreendedorismo sênior e reinvenção profissional

Com experiência acumulada e maior clareza de propósito, muitos Nolts transformam antigos sonhos em projetos concretos. Abrem negócios, mudam de carreira e empreendem com a coragem que só a maturidade proporciona. Recomeçar, aqui, não significa voltar ao ponto zero, mas avançar com bagagem e sabedoria.

 

3. Equilíbrio físico, emocional e social

O cuidado com a saúde vai além do corpo. Há uma atenção crescente à saúde mental, às emoções e à vida social. Os Nolts atuam como mentores, voluntários e líderes comunitários, mantendo relações ativas e significativas, fundamentais para o bem-estar e a longevidade.

A experiência como motor, não como peso

Para o NOLT, a experiência não limita- impulsiona. As decisões são tomadas mais por consciência do que por impulso, e os riscos são calculados com base em vivência. Essa postura gera um impacto direto na economia e na sociedade.

A chamada Economia Prateada deixa de ser um nicho e passa a ocupar o centro do consumo. Cresce a demanda por produtos e serviços que não sejam “para idosos”, mas para pessoas ativas, autônomas e exigentes. Da mesma forma, universidades e plataformas de ensino precisarão adaptar seus currículos, focando em transição de carreira, tecnologia e aprendizado contínuo.

Um Brasil cada vez mais NOLT

Atualmente, esta parcela da população já representa quase um terço dos brasileiros. Com o rápido envelhecimento da pirâmide etária, a tendência é clara: nas próximas décadas, os Nolts serão maioria. Isto tende a reduzir o preconceito geracional, o chamado etarismo, e a ampliar a valorização da mentoria, da troca intergeracional e do conhecimento acumulado.

Chamar alguém de NOLT é reconhecer que envelhecer mudou. É afirmar que esta fase da vida não se resume a encerrar ciclos, mas a escrever capítulos mais autênticos, livres e relevantes.

Viver bem depois dos 60 deixou de ser exceção. Tornou-se tendência. O futuro não pertence apenas aos jovens; pertence a quem, em qualquer idade, mantém a coragem de aprender e a disposição de evoluir. E tudo indica que este futuro será, cada vez mais, NOLT.

O “samba do crioulo doido” de 2026: crise no país e fé no próprio taco


08/01/26

O Brasil ingressa em 2026 vivendo uma contradição que desafia os manuais da economia tradicional, mas traduz com precisão a psicologia social do país. De um lado, os dados da pesquisa Hibou revelam um país operando em “modo de sobrevivência”: 39% dos brasileiros iniciam o ano endividados, e quase um terço desse contingente carrega dívidas expressivas, superiores a R$ 15 mil. De outro, a pesquisa Ipsos aponta que impressionantes 80% da população acreditam que 2026 será um ano melhor.

À primeira vista, os números parecem inconciliáveis. Estaríamos diante de um otimismo ingênuo ou de uma resposta emocional a um ambiente econômico e político cada vez mais adverso? A leitura do cenário macroeconômico não autoriza complacência. A inflação segue pressionando o custo de vida, as taxas de juros permanecem elevadas e o crédito se tornou um privilégio caro. O consumo “racional”, portanto, deixou de ser uma opção e passou a ser uma imposição. Não por acaso, metade dos brasileiros acredita que a economia nacional tende a piorar.

Diante desse quadro, o brasileiro médio ajustou suas expectativas e passou a “fazer conta”. O planejamento para 2026 revela prioridades claras e defensivas:

  • Qualificação profissional: investir em estudo aparece como estratégia para elevar renda e reduzir vulnerabilidades.
  • Corte de supérfluos: 48% admitem que pretendem economizar tudo o que for possível.
  • Consumo reprimido: em estados como Rondônia, onde o endividamento é elevado, o desejo por bens duráveis permanece latente, à espera de uma folga orçamentária que, hoje, só alcança cerca de 12% da população.

O ambiente político adiciona ainda mais incerteza ao cenário. Com eleições presidenciais no horizonte, a desconfiança nas instituições permanece profunda. Segundo a Ipsos, 51% dos brasileiros acreditam que haverá protestos contra o governo em 2026, enquanto 60% demonstram temor até mesmo de episódios extremos, como ataques terroristas. Trata-se de um sintoma claro de insegurança institucional e de erosão da confiança pública.

Curiosamente, a válvula de escape não está fora do país. O custo elevado das viagens internacionais- agravado pelo câmbio desfavorável- afastou até mesmo o sonho de acompanhar eventos globais, como a Copa do Mundo. Em seu lugar, ganham espaço o turismo doméstico e pequenos “presentes para si mesmo”: gastos pontuais, simbólicos, que funcionam como compensação emocional em um cotidiano marcado por restrições.

Resta, então, a pergunta central: há lógica em acreditar que 2026 será melhor (80%) enquanto se projeta uma piora da economia (50%)? A resposta não está na irracionalidade, mas em uma dissociação cada vez mais clara entre o “eu” e o “Estado”. O brasileiro deixou de esperar soluções vindas do governo ou de mudanças estruturais de curto prazo. O otimismo que emerge é individual, pragmático e defensivo. A crença não está no país, mas na própria capacidade de adaptação, no esforço pessoal e na possibilidade de uma “virada de chave” privada. É a aposta no próprio taco.

Neste sentido, a esperança deixou de ser passiva e tornou-se instrumental. É uma ferramenta de sobrevivência, não uma aposta política. Se 2025 foi rotulado como “ruim” por 61% da população, 2026 surge como o ano da aposta no próprio taco. O brasileiro entra no ringue consciente da hostilidade do cenário, mas decidido a não jogar a toalha.

Talvez seja esse o mais sofisticado “samba” já produzido pelo país: o de quem dança conforme a música, mesmo quando a orquestra está desafinada- e o salão, quase vazio.

Ilustração: Imagem digital gerada pelo Manus

Reflexões Transitórias de Fim de Ano

 


26/12/25

Sim, minha querida, estou preso em mim mesmo. Nunca poderei deixar de ser eu mesmo. O mundo, o meu amor por você somente pode existir se meu “eu” existe e ninguém poderá ser o que sou. Sim, com egoísmo, ou não, eu sou eu mesmo e mais ninguém. Nós amamos por amarmos a nós mesmos. Nada que nos digam muda o fato de que este mundo somos nós. E se há outro não o poderemos sentir. Nele nada somos. Isto também nos fornece a consciência do transitório, da finitude: continuarão, depois de nós, a existir as coisas que amamos, os filhos, os amigos, os outros, as árvores, a beleza dos lugares, o maravilhoso fim de tarde do Madeira, o mar, o céu ou as músicas. O vinho, o bar, o café, sei lá o que mais. Tantas coisas que nos fizeram felizes, ou não. O sol, o sol forte, do qual nos queixamos nos dias de calor.  E reclamar do sol é reclamar da existência. É como reclamar do sono, o mais próximo do não ser. E se não conseguimos dormir, compreendemos a sua benção. Sono, uma amostra da não-existência, que nos faz entender nossa diferença do animal, a consciência. Ou talvez não. Talvez também tenham a consciência da finitude. Talvez não. A palavra deve ser o a chave da representação, ter o receio da imaterialidade. A representação que nos leva a estar acima da dor existencial. Falamos de felicidade, quando não há satisfação verdadeira ou sólida. Com o tempo, através dele, sabemos que somos ignorantes, que não saberemos o que precisamos saber. Por isto, talvez, as palavras de Jesus de que melhor seria não ter nascido. É que nascer é a perda da não-existência, o milagre transitório da consciência. Que nós, incapazes de suportar a ideia da morte, desejamos superar por meio de obras, ou por um ser divino-que só pode ser real por nossa fé. Pelo conhecimento, por nossa ignorância, não podemos demonstrar que, de fato, exista, porém não existir contraria nosso desejo e lógica. Se pudesse rir das minhas reflexões, riria. O riso é a forma superior da dúvida. Mas, se posso rir de mim mesmo, consciente, não consigo pensar em rir quando, a imaterialidade vier. E, nisto, como os que pensam, sinto a inutilidade da vida, a falta de sentido. Por sermos, para nós mesmos, o fato mais importante e, por sabermos que, com a nossa morte, morre um mundo. E esta consciência, pior para quem pensa, se torna mais forte com a idade. Antes uma bela mulher, um jantar, uma música, um vinho, um poema podiam, por algum tempo, ser o remédio para superar a dura reflexão. E oprimido pelos pensamentos recaio em Mateus 12: 43-45, que diz que o homem que procurou descanso, depois de ter expulso um espírito imundo, volta para casa e traz consigo mais 7 espíritos que tornam seu estado pior. Bem o que pretendo dizer com isto? Não sei. Apenas que o tempo é um moinho na sua forma selvagem de moer os sonhos e a vida. E que não somos donos de nosso destino. E que pode tudo acontecer que não estarei sozinho. Com todos os problemas sei que amo e sou amado- e isto é tudo que um homem pode querer ainda que o amor também seja transitório. E que a memória amanhã continue a existir.   

Ilustração: UOL. 

Split Payment: O Grande Desafio para os Negócios em 2026

 


A partir do próximo ano, o Brasil, por força da reforma tributária, irá começar a implantar o split payment, um mecanismo que modifica a forma como os tributos são pagos nas transações comerciais. Embora, em 2026, seja somente um período de testes e um ensaio geral já será preciso os empresários se preocuparem com o que irá acontecer. Com esta medida, o valor do imposto será automaticamente separado do montante da mercadoria ou serviço no momento da transação. O governo afirma que a implementação ocorrerá de forma simultânea nas operações de varejo e nos principais instrumentos de pagamento eletrônico, trazendo inovação, eficiência e justiça fiscal. No entanto, esta mudança pode representar um grande desafio, especialmente para micro e pequenos negócios e empresas de varejo com margens de lucro reduzidas.

O split payment (pagamento dividido)  é uma forma de gestão tributária em que a alíquota do imposto é descontada automaticamente na hora da venda, separando o valor do tributo do valor da mercadoria ou serviço. Esta prática busca aumentar a eficiência tributária e a rastreabilidade das operações, mas pode ter sérias implicações para os negócios. Embora o governo apresente o split payment como uma solução inovadora, os efeitos adversos para micro e pequenos empreendimentos são evidentes: Em primeiro lugar, com a tributação imediata, o capital de giro das empresas será severamente impactado, dificultando a manutenção da operação diária. O que deve gerar a necessidade de capital para cobrir a tributação, o que pode levar pequenos empresários a buscar crédito bancário, aumentando o seu endividamento. A pressão financeira também pode resultar em um aumento da insolvência entre pequenos comerciantes, colocando em risco a sustentabilidade de muitos negócios.

Um segundo problema advém de que a implementação do split payment não se resume apenas à separação do tributo durante as transações, pois exige à adequação dos Sistemas de Pagamentos.  As empresas precisarão atualizar seus sistemas para se adaptarem ao novo modelo, bem como será necessária uma coordenação complexa entre bancos, emissores, adquirentes e o governo. As empresas precisarão investir em tecnologia para garantir conformidade. Esta transição deve gerar custos elevados para empresas de todos os portes e aumentar a complexidade operacional. Especialistas também alertam que a adoção do split payment pode resultar em aumento das tarifas e custos adicionais que serão repassados aos consumidores. Tal aumento dos custos operacionais pode levar a uma diminuição da concorrência no setor. A complexidade do novo sistema pode ser especialmente desafiadora para microempreendedores e trabalhadores informais, que podem se ver excluídos das plataformas digitais. Além disto, a relação de "tutela" do Estado sobre o caixa privado, gerada pelo recebimento imediato dos tributos, pode criar um ambiente de desconfiança e insegurança financeira.

O conceito de split payment não é novo e já foi implementado em outros países, geralmente em setores críticos. No entanto, onde foi aplicado amplamente, resultou em impactos negativos significativos no caixa das empresas. No Brasil, os setores mais afetados devem incluir Varejo, Serviços, E-commerce, Fintechs e pequenas operações informais. Enfim, o split payment se apresenta como uma inovação no sistema tributário brasileiro, mas é crucial que empresários e pequenos comerciantes estejam cientes dos desafios que esta mudança pode acarretar. A adaptação a este novo modelo pode complicar ainda mais o cenário econômico do próximo ano, exigindo planejamento e estratégias adequadas para mitigar os impactos.

Ilustração: e-Auditoria. 

ESPERANDO PARA VER O QUE FAZER

 11/11/25

É inevitável que, quando chega o fim do ano, as pessoas e as empresas recaíam no ciclo de sempre: analisar o que se passou, verificar os erros e os acertos e buscar formas de melhorar o futuro. As formas para isto são diversas, principalmente num ano, como foi o de 2025, marcado pelas dificuldades e pela incerteza. Talvez muitos digam que a incerteza é um traço do mundo moderno, porém, até para nos sentirmos confortáveis, sempre buscamos minimizar os desafios por meio de vislumbrar os cenários possíveis. E, pelo menos no Brasil, as inseguranças aumentaram sensivelmente, de modo que construir cenários se tornou uma tarefa imensamente complicada. Daí que, se normalmente, as pessoas já se voltam para videntes, cartomantes, sensitivos e quejandos, na medida em que 2025 se aproxima do fim aumentam as demandas pelos que possam desvendar os véus do futuro. Aparece de tudo: de leitores de mão passando por búzios, tarot, especialistas em reprogramação mental, numerólogos e, mais recentemente, os que usam a física quântica e/ou equilibram as auras por meio de passes que modulam a frequência energética individual.  

Quem sou eu para discutir a influência dos astros, os fins e os inícios dos ciclos planetários, identidades energéticas, campos vibracionais, a potência do campo eletromagnético do coração ou como os pensamentos positivos, a alegria e a gratidão mudam as perspectivas e o futuro? Efetivamente, depois de décadas de vida estou mais perto de Sócrates do que nunca e, por mais que tenha procurado me manter antenado com este mundo, devo dizer que sou um barco desgovernado que, num país que mais parece um mar bravio, procura não afundar durante a tempestade. A rigor, depois de alguns problemas incomuns, tento apenas terminar o ano sem me sentir doente, mas, com certeza, de ser incapaz de absorver a sobrecarga digital, a desinformação geral, a estrutura multimídia vigente, que não me parece muito razoável, e a surpresa e o encanto de passar por algumas experiências imersivas que me conscientizam, cada vez mais, da minha transitoriedade e insignificância. Até tive a impressão errônea de que terminava um ciclo. Nada terminou, de fato, depois que passei por um período de turbulência, apenas consegui concluir que os problemas continuam os mesmos e que não tenho muito como, nesta altura do campeonato, mudar os resultados. Estou, mais ou menos, na mesma situação dos times da série A que tentam escapar do rebaixamento. Enfim, minha grande ambição é chegar ao fim do ano não me sentindo doente. Já em relação à 2026, sinceramente, não sei bem o que vou fazer. E, usando a metáfora do barco, estou mais esperando ver se a chuva e as águas vão se acalmar.

Ilustração: Sementes da Fé. 

 

 

 

A Taxa de Desemprego

 25/10/25

Baixa taxa de desemprego: pleno emprego ou ilusão



Baixa taxa de desemprego: pleno emprego ou ilusão - Gente de Opinião

A taxa de desemprego no Brasil manteve-se em 5,6% no trimestre encerrado em agosto de 2025, segundo dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O resultado repete o menor patamar da série histórica iniciada em 2012 e representa cerca de 6,1 milhões de brasileiros desocupados, o número mais baixo já registrado. À primeira vista, os números indicam um mercado de trabalho sólido. Contudo, economistas e analistas alertam que a aparente bonança esconde uma realidade marcada pela informalidade, subocupação e precarização das relações laborais. Isto se baseia em que para ser considerada desempregada, a pessoa precisa atender a três critérios definidos pelo IBGE-Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística:

1)   não ter trabalhado sequer uma hora na semana de referência;

2)   ter procurado trabalho nos últimos 30 dias; e

3)   estar disponível para assumir uma vaga, caso surja.

Estas condições deixam fora da estatística milhões de brasileiros que, embora desejem trabalhar, não possuem meios financeiros para procurar emprego-como o custo de transporte- ou estão subocupados, isto é, trabalham poucas horas por semana em atividades eventuais sem contar os que vivem de subsídios do governo, como o Bolsa Família.  Além disso, há o grupo dos desalentados, que desistiram de buscar emprego por falta de oportunidades ou desânimo com o mercado. Embora invisíveis nas estatísticas oficiais, eles representam uma parcela expressiva da população em idade ativa.

É preciso acentuar que de acordo com o IBGE, cerca de 39 milhões de brasileiros estavam na informalidade em agosto de 2025, o que equivale a 38% da força de trabalho ocupada. Esses trabalhadores não têm acesso a direitos básicos, como férias remuneradas, descanso semanal e 13.º salário. Outro ponto preocupante é o avanço das plataformas digitais de trabalho- motoristas, entregadores e prestadores de serviços por aplicativos- que, apesar de representarem uma nova dinâmica no mercado, operam sem garantias trabalhistas e sob forte pressão econômica. Segundo a economista Maria Silva, pesquisadora da Universidade de Brasília (UnB), “a atual taxa de desemprego mascara a deterioração das condições laborais. Há uma geração inteira que trabalha mais, ganha menos e vive sem proteção social”. O discurso de “pleno emprego”- sugerido por parte do mercado financeiro e autoridades-ignora o caráter limitado da metodologia oficial. Embora o número de pessoas ocupadas tenha aumentado, a qualidade dos empregos criados caiu, com expansão de postos informais e temporários. Além disto, o poder de compra dos salários permanece em queda devido à inflação e ao aumento do custo de vida. “Mesmo com uma taxa de desemprego baixa, o trabalhador brasileiro está em situação pior do que há dois ou três anos”, observa o economista Ricardo Teixeira, da Fundação Getúlio Vargas (FGV). A redução da taxa de desemprego é positiva, mas não pode ser confundida com progresso social. O verdadeiro indicador de bem-estar laboral vai além do número de pessoas empregadas-passa pela qualidade das condições de trabalho, pela segurança de renda e pela preservação dos direitos trabalhistas. Enquanto essas dimensões não forem incorporadas à análise, o “pleno emprego” continuará sendo uma ilusão estatística- e o trabalhador brasileiro, a parte mais frágil dessa equação. E o que vale para o Brasil vale para Rondônia onde apesar de ser vangloriar de manter o segundo lugar em taxa de desocupação do país apresenta, em Porto Velho, um imenso contingente de jovens desalentados, que não procuram mais empregos porque não conseguem (ou não existem). São jovens, em geral, sem experiência de primeiro emprego e que precisam de aprendizado e medidas que estimulem serviços de alta tecnologia, de maior valor agregado e produtividade para poderem ser aproveitados. 

quinta-feira, setembro 25, 2025

O REI QUE NUNCA PERDEU A COROA

 


É impossível, e centenas de tentativas já provaram isso, desmerecer o notável e duradouro sucesso de Roberto Carlos. Ele reina absoluto na música brasileira há décadas, tornando-se um fenômeno que transforma até canções simples em sucessos inesquecíveis, cheios de brilho e vida. Não há como negar o imenso talento de alguém que conseguiu se enraizar na memória musical de tantas gerações. E, convenhamos, essa longevidade não se constrói sem muito trabalho, empenho, uma disciplina incomum e, sobretudo, um carisma inegável.

Manter-se no topo, sob os holofotes, através de tantas mudanças na mídia e na indústria musical, é uma façanha. Para continuar relevante e expandir seu público para as novas gerações, o Rei demonstra não apenas talento musical, mas uma intuição afiada e uma capacidade única de sintonizar com os desejos do público.

O sucesso sempre foi uma gangorra, e permanecer no alto, como Roberto Carlos, exige um padrão de qualidade e a capacidade de adaptar a sua obra. Isso, sem dúvida, mata de inveja os críticos que, na falta de argumentos melhores, insistem que ele se baseia apenas em uma "fórmula pronta" de canções "sentimentalóides". A ironia é que ele, que foi um triturador de tradições com a Jovem Guarda, hoje é chamado de "tradicionalista". Mas essa "tradição" é, na verdade, a autenticidade de um artista que se manteve fiel a si mesmo.

Muitos cobraram dele uma atuação política ou uma renovação estética, o que seria desonestidade intelectual. Roberto Carlos sempre foi o que se propôs a ser: um artista que busca exercer sua arte da melhor maneira possível. E, nessa jornada, ele só se aprimorou, em grande parte com a ajuda fantástica do maestro Eduardo Lages, seu arranjador e produtor musical por mais de 40 anos, e de uma plêiade de músicos excepcionais.

É comum também atribuir seu sucesso aos especiais de fim de ano na TV. A verdade é que a Globo não o manteve no ar por acaso; Roberto Carlos sempre esteve no topo. Não se fala em sucesso musical no Brasil sem pensar em seu nome.

Enfim, ele foi, é e continua a ser o maior sucesso da música brasileira por sua coerência, visão de vida e carisma extraordinário, que continuam a seduzir multidões e a criar sonhos. Sua voz pode ter envelhecido, como acontece com todos que não morrem, mas seu público fiel jamais irá faltar. Ele só parará de cantar se assim quiser. Pode falhar em uma canção ou outra, mas nenhum outro intérprete, até hoje, se compara a ele. Que os invejosos morram de inveja. Ele continua a ser o maior fenômeno da música brasileira.

 

 


A ENCRUZILHADA DA ECONOMIA BRASILEIRA

 

O Brasil, como sabiame
nte disse Tom Jobim, "não é para principiantes". Essa frase se aplica perfeitamente aos desafios econômicos que o país enfrenta, especialmente quando se olha para a desindustrialização. É um problema de longa data, agravado por um ambiente de negócios hostil, marcado por burocracia excessiva, alta carga tributária e insegurança jurídica.

O cenário é alarmante. Em agosto, a Sondagem Industrial da Confederação Nacional da Indústria (CNI) revelou o pior desempenho do setor desde 2015, com queda na produção e redução de empregos. Essa situação não é culpa dos empresários, que lutam para manter seus negócios, mas sim de um sistema que dificulta a competitividade.

A situação é ainda mais complicada com o avanço de plataformas de e-commerce chinesas como Shein, AliExpress, Shopee e Temu. O Brasil é o único país do mundo onde todas essas gigantes operam conjuntamente, criando uma concorrência predatória. A Confederação Nacional do Comércio (CNC) aponta que, entre 2019 e 2024, as vendas online no Brasil cresceram 75%, impulsionadas por essas plataformas que oferecem preços baixos e vantagens fiscais.

Para as empresas brasileiras, especialmente as pequenas e médias, competir com um país inteiro é quase impossível. O resultado é um dilema crucial: a produção nacional versus preços mais baixos. Essa concorrência desleal, com plataformas estrangeiras submetidas a uma carga tributária menor, coloca a indústria e o varejo brasileiros em uma posição de desvantagem.

O dilema é claro: ou o país protege seu mercado interno para garantir a sobrevivência da indústria, ou assiste à aceleração da desindustrialização, voltando a ser uma economia primário-exportadora. Proteger a indústria não significa fechar o mercado, mas criar condições para que ela se modernize e se torne competitiva.

Ignorar essa realidade é entregar o futuro da economia a mercados e produções estrangeiras. Estamos em uma encruzilhada, e a decisão que for tomada agora terá um impacto decisivo no futuro do Brasil. O que o Brasil deve fazer para resolver essa situação? É uma questão decisiva para o nosso futuro.

 

 

domingo, setembro 21, 2025

Confraria 30+: Churrasco, Memória, Livro Exemplar

 


Na residência do Oscar Pirani, com a presença de Lúcia Reis e sua adesão à Confraria 30+, que patrocinou um churrasco variado, com bebidas, numa homenagem aos componentes da confraria. Não se poderia ter anfitrião melhor para uma confraria que reúne os jornalistas (no sentido geral porque nela há jornalistas empresários, redatores, repórteres, pessoal de televisão, de jornal e sites tendo em comum o longo tempo na atividade). Talvez até possa ser injusto com algum deles porque sou um participante quase que ocasional da turma, mas, me parece que, nomes como os de Lúcio Albuquerque, Abdoral Cardoso (Bidu), Carlos Araujo, Osmar Silva, Montezuma Cruz, Leo Ladeia, Marco Aurelio Anconi são os mais atuantes. Como se vê é um time de primeira mesmo sem considerar outros não menos significativos como os de Luiz Carlos Ribeiro (Luka), Jussara Gottlieb, Adaides Batista dos Santos (Dadá), Juscelino Amaral, Nilton Salinas, Mara Paraguassu, Mirian Penha Franco, Maríndia Moura, Edson Lustosa e do radialista Edson dos Anjos.

Os encontros, que são feitos aos sábados, sempre acontecem em algum restaurante, mas a generosidade do Oscar Pirani propiciou um dia diferente e festivo na medida em que foi uma reunião mais privada e, por isto mesmo, mais descontraída, de vez que, em locais públicos, se torna impossível uma turma assim não ter como deixar de atender amigos ou admiradores que sempre que os veem não perdem a oportunidade de lembrar de algum fato, noticia ou, simplesmente, dar um alô.

Como sempre a convivência com esta turma é muito prazerosa e ainda foi melhor por ter recebido de presente do Carlos Araujo o seu livro, com Hélio Vieira e Francisco Matias, “A Trajetória da Advocacia em Rondônia”, em sua segunda edição. É um livro precioso na medida em que recupera uma parte significativa da história da defesa da cidadania em nosso Estado. Por diversas vezes tenho reclamado de amigos meus talentosos, e com um grande legado ao ex-Território e ao atual Estado de Rondônia, por não registrarem o nosso passado. Aqueles que viveram as dificuldades de um tempo não tão distante, em termos de história, quando Porto Velho, Guajará-Mirim e algumas poucas localidades eram tudo que existiam escreveram muito pouco sobre o que se passou. Tanto que se contam nos dedos os que deixaram registros significativos desde Bohemundo Alvares Afonso, talvez, somente Antônio Catanhede e Esron de Menezes me venham à memória. Mais recentemente me lembro de Yedda Borzacov, com sua obra sobre os logradouros de Porto Velho e outras obras, Dante de Oliveira, que, recentemente, com o Lito Casara lançaram, em dois tomos, “Barranco Alto” recuperando a história maravilhosa e pouco conhecida de Américo Casara, um desbravador da Amazônia e de nosso território. No entanto, há toda uma história muito rica dos últimos 50 anos que deveria ser objeto de muitos livros de pessoas que, ainda vivas, possuem memórias dessas épocas e dela participaram ativamente. E fiquei mais feliz ainda pelo fato desta segunda edição trazer a história da implantação, na Fundação Universidade Federal de Rondônia-UNIR, do primeiro curso de Direito, inclusive com alusão importante ao papel que o seu primeiro reitor Euro Tourinho Filho teve e que, muitas vezes, tem sido esquecido. É um livro que serve de exemplo para muitas outras entidades e pessoas que necessitam preservar sua história, que é a nossa também. Grato Carlinhos pelo presente que se estende a todos que contribuíram para esta reedição- vivos ou mortos-deixaram um registro importante de parte de nossa história.

terça-feira, agosto 26, 2025

Uma reflexão sobre a morte, a imortalidade e suas visões

 


ORGANIZANDO A MORTE:  NO RITMO DO CANDOMBLÉ, DA CIÊNCIA E DA MEMÓRIA

(Para o cantador da vida José Valdir Pereira, um preservador de memórias)

Silvio Persivo

Vou me valer do candomblé, que  nos lembra uma verdade profunda: a morte não é um fim abrupto, mas uma transição. "Continuidade, não fim" é a essência que guia a compreensão de Orum, o espaço onde a pessoa se transforma em ancestral. Nesta visão, a morte é parte de um ciclo vivo, em que o indivíduo não desaparece, mas ingressa em uma nova função dentro de um todo que permanece. O guardião Iku, nesta tradição, emerge como a força que conduz os espíritos. Não é visto como inimigo nem como algo externo ao equilíbrio natural; é parte do vasto ecossistema espiritual que sustenta a ordem do cosmos. Esta percepção aproxima a morte da própria vida, em uma dança contínua que mantém a harmonia entre o que foi e o que será.

Por isto o uso do branco no luto, associado a Oxalá, simboliza paz, pureza e proteção. É a cor que acolhe a passagem, marcando o momento de transição com uma energia de serenidade. Os cantos, rezas, oferendas e a presença coletiva atuam como bússolas emocionais e espirituais, oferecendo consolo, sentido à perda e acolhimento aos enlutados. Nessas práticas, o laço entre os vivos e os falecidos não se rompe; ele se transforma e se expande pela ancestralidade que nos conecta.  A ideia de que laços são eternos pode soar paradoxal frente ao impulso humano por explicações racionais. É verdade que, quando nos faltam explicações, criamos lendas, crenças e mitos. Mesmo assim, muitos de nós, que tentamos ser mais céticos, reconhecemos uma transformação fundamental na maneira de entender o mundo: Lavoisier nos lembra que “nada se perde tudo se transforma”. Assim, a memória, a presença dos ancestrais e a prática espiritual continuam vivas dentro de nós, moldando escolhas, valores e identidades. Neste sentido, a crença na continuidade não é apenas consolo; é uma forma de preservação do que nos torna humanos.

Esta visão não nega a ciência; pelo contrário, a coloca em diálogo com ela. A percepção de que a consciência pode permanecer de alguma forma, seja na memória coletiva, na herança de ensinamentos ou na continuidade de rituais, resiste à dissolução absoluta. Mesmo quando sentimos o peso da ausência, a lembrança, os ensinamentos e o legado daqueles que partiram permanecem. E é neste sentido que a ideia de eternidade se aproxima da nossa experiência cotidiana: não como imutável imortalidade física, mas como uma presença contínua que se reencontra na prática, no afeto e no compromisso com o bem comum. Em última análise, a experiência humana de luto e memória se entrelaça com a sabedoria ancestral que preserva a paz, a dignidade e o sentido da vida. O Candomblé oferece, assim, não apenas um ritual de despedida, mas um mapa para entender a continuidade: a morte como passagem, a ancestralidade como presença, e a prática coletiva como abrigo que nos impede de nos  perdermos no vazio, que a ciência diz que é o nosso fim, ser o que fomos: matéria sem consciência.

Numa forma simples de dizer:  penso que sim, a continuidade da vida, em sentido amplo, nos torna eternos. A partir desta percepção, a “ausência”, com a morte não estarei aqui,  não é o fim do ser, mas a passagem para uma forma de presença que molda quem somos. No entanto, reconheço o peso da mudança-a percepção de que vou sentir muita falta da consciência que temos do mundo, do nosso senso do eu e do nosso tempo partilhado com os outros. Isto é a vida e também a morte. Afinal vivemos  morrendo e acumulando, enquanto possível, memórias.

Ilustração: Issuu.