Silvio Persivo
Meu pai, Sebastião
Persivo, era um homem de múltiplos talentos. Meu irmão, Roberto, também.
Escrevo isso, claro, em comparação às pessoas comuns. Papai sabia fazer móveis,
cultivar a terra, criar animais, entender de motores e de máquinas, desenhar,
escrever, fazer poesia, tocar violão e cantar. Foi também quem criou os dois
primeiros supermercados de Fortaleza - o Aldeota, na Santos Dumont, e o Sino,
próximo à praça do Teatro José de Alencar. Gerenciou e vendeu caixas
registradoras, teve oficina de refrigeração, de grades e portões, criou
cadeiras, teve armarinho e bar.
Não é o meu caso. Na
vida, dediquei-me a produzir palavras -antes com lápis e caneta, depois diante
da tela do computador. Como economista, participei da construção do Galeão, no
Rio de Janeiro, ajudei a fazer planos e cidades. Como professor, escrevi
livros, dei palestras, ensinei e aprendi. Mas qual o resultado concreto da
minha atividade? Difícil mensurar. Em muitos aspectos, tudo o que fiz foi
etéreo, poesia mesmo. Algumas pessoas me disseram que tive influência em suas
vidas- mas é diferente de quem constrói uma cadeira ou uma mesa, com resultado
útil, concreto, imediato. No passado eu não pensava assim; hoje penso que deve
ser muito gratificante, talvez mais do que criar palavras, fazer algo assim.
Criar com as próprias
mãos não foi a minha praia, e não será mais nesta altura da vida. Porém, diante
de um mundo cada vez mais compartimentado, fragmentado e dependente da
tecnologia, já pensei em ir morar em algum lugar e criar um nicho próprio, um
local que não dependa do mundo externo.
O conforto que nos torna
indefesos
Nos últimos anos, sofri
um pouco com a mudança dos costumes - meus alunos já não gostavam de ler, de
escrever, cada vez mais presos aos celulares e computadores. Como tudo na vida,
há um lado bom e um lado ruim. A tecnologia é uma maravilha, mas, quando dá
pane, deixa quem não tem conhecimento técnico indefeso, inútil, sem condições
até de pagar uma conta.
Ter o Google, as IAs, a
Meta, o X, a Apple e a Amazon é fantástico. Por outro lado, somos completamente
dominados por essas big techs. Viramos seus bebês: não sabemos mais o que fazer
sem elas. Ninguém se preocupa em se aprofundar, por exemplo, em conhecer os
algoritmos - e é um erro, pois só recuperamos algo quando entendemos como
funciona. As pessoas recebem tudo pronto. No passado, quando um automóvel dava
problema, alguns de nós sabiam resolver. Hoje, sem um aparelho de checagem,
nada se faz. Nem adianta empurrar o carro para pegar, como era comum. Parou, tá
parado: é chamar a assistência técnica e ficar refém dos seus prazos. Tudo
depende, na maioria das vezes, de um sistema operacional do qual não se entende
nada.
O que sobra quando o
toque falha?
Isso me faz pensar no
futuro. Estamos criando gerações acostumadas à vida fácil de ter tudo com um
toque. O que acontecerá amanhã, quando as cabeças de hoje-as velhas de amanhã-
sumirem? De certa forma, formamos pessoas que não sabem fazer nada sem acessar
uma IA. Vejo uma imensa quantidade de jovens (e não tão jovens) que não sabem
usar um mapa: cresceram no GPS, no Waze, que os guiam de um lugar ao outro. Em
países mais adiantados, já são os veículos autoguiados que os levam. Se amanhã
houver uma pane geral e esses objetos deixarem de funcionar, serão capazes de
atravessar a cidade? Será que, em algum momento, não iremos regredir?
Vou mais longe: será que,
em milhões de anos, isso já não aconteceu? Fui longe demais-comecei nos
devaneios sobre o futuro e voltei a um hipotético passado. Mas a hipótese de
um bug geral no mundo é uma possibilidade real. Muitas coisas
atuais dependem de conhecimentos avançadíssimos, que precisam ser mantidos- e,
para isso, o estudo e a leitura são essenciais. As imagens serão capazes de
conservá-los? Imagens também dependem de recursos tecnológicos.
Sistemas, como ensina a
Lei de Murphy, tendem a dar problema. E isso pode acontecer com parques de
computadores, sistemas de comando, robôs, sensores, satélites, drones- enfim,
todas as formas de tecnologia. Resolver esses problemas dependerá sempre do
nível de habilidade tecnológica das pessoas. Imagino uma catástrofe em que
ficassem vivas apenas pessoas iguais a mim, sem a mínima condição de construir
ou reparar um computador, incapazes de usar essa tecnologia por conta própria:
como ficaria o mundo? Se sumissem os que hoje habitam seus feudos tecnológicos,
como o Vale do Silício, os que mexem com robótica e IAs, com essas mágicas
incompreensíveis para a grande massa-como ficaria o mundo?
De repente, a autonomia
tornou-se uma questão sensível para mim. Com realismo, sei que não será um
problema meu. Mas, por otimismo, confio que a inteligência humana dará um
jeito. Ou não?



