Quem acompanhou a
história de Rondônia nas últimas cinco décadas reconhece três nomes como
protagonistas da grande virada do então Território Federal: Silvio
Gonçalves de Farias, Humberto da Silva Guedes e Jorge
Teixeira de Oliveira - todos com trajetória militar e presença
decisiva em momentos-chave. O último deles a partir desta vida foi Humberto
da Silva Guedes, em 18 de junho, aos 103 anos.
Penúltimo governador do
Território Federal de Rondônia (1975–1979), nomeado pelo
presidente Ernesto Geisel, Guedes chegou a Porto Velho herdando uma
estrutura mínima: governador, um secretário de governo e poucos departamentos
para administrar um território vasto, com apenas duas cidades
consolidadas - Porto Velho e Guajará-Mirim- e cerca de 140 mil
habitantes. A máquina pública mal dava conta do básico.
Com o avanço do processo
migratório e a chegada de colonos via projetos do INCRA-como
o Projeto Integrado de Ouro Preto, voltado à agricultura familiar
com café e cacau-, as deficiências ficaram escancaradas. Para Guedes, militar
de formação e intelectual de visão humanista e planejadora,
Rondônia era uma missão: era preciso construir um Estado - de verdade, com
bases sólidas.
Planejar antes de crescer
Sua aposta foi
clara: sem planejamento, não haveria futuro sustentável. Reformou a
estrutura administrativa, criando a Secretaria de Planejamento, e
contratou o professor Charles Muller (UnB) para coordenar
estudos de viabilidade econômica que demonstrassem a capacidade de Rondônia
sustentar-se como Estado. Estes estudos, as equipes de planejamento que criou,
embasaram, anos depois, a obtenção dos recursos do POLONOROESTE junto
ao Banco Mundial.
Na mesma direção,
convocou arquitetos, geógrafos e urbanistas-entre eles o célebre Milton
Santos - para pensar a hierarquização urbana e o
ordenamento territorial. Cidades que hoje são municípios consolidados,
como Mirante da Serra, nasceram de um trabalho cuidadoso de
equilíbrio econômico e espacial, executado por técnicos locais comandados na
época pelo secretário de planejamento, Luiz César Auvray Guedes,
como Jorge Elage, José Mesch, Luiz Antônio da
Costa e Silva, Maurílio Galvão, Álvaro Lustosa Pires, Pedro Albino de Aguiar, Letácio
Lucena, Jussara Gottlieb, José Aldenor Neves, Rosália Maria Passos entre
muitos outros.
Um legado que o tempo
confirmou
O planejamento desta
época gerou frutos que atravessaram décadas. Rondônia desenvolveu o
primeiro Zoneamento Socioeconômico e Ecológico (ZSEE) do país,
que deu origem ao PLANAFLORO, iniciativa pioneira de harmonização
entre crescimento econômico e proteção ambiental na Amazônia.
Hoje, o Estado se destaca
pelo crescimento do PIB e por um equilíbrio territorial
invejável- características que remetem diretamente às fundações lançadas
naquele período. Muito se deve ao trabalho e à determinação de quem migrou e
construiu. Mas há uma dívida de reconhecimento que Rondônia ainda não quitou
com Humberto da Silva Guedes: foi ele quem, antes de qualquer
outro, enxergou o Estado que Rondônia poderia ser - e trabalhou para torná-lo
possível.
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Obs.: Ao partir aos 103
anos, Guedes deixa não apenas a memória de um gestor competente e dedicado, mas
a marca indelével de quem ajudou a desenhar a Rondônia que existe hoje.
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