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domingo, maio 30, 2010

Eles estão entre nós



“Viver é muito perigoso... Porque aprender a viver é que é o viver mesmo... Travessia perigosa, mas é a da vida. Sertão que se alteia e abaixa... O mais difí¬cil não é um ser bom e proceder honesto, dificultoso mesmo, é um saber definido o que quer, e ter o poder de ir até o rabo da palavra” (Guimarães Rosa)

Como não é segredo para ninguém gosto de ler. E, nos últimos dias, li um livro ultrainteressante denominado corretamente de "Meu vizinho é um psicopata", da psicóloga Martha Stout. Como o nome já aponta ela escreve sobre os psicopatas, mas, não quaisquer psicopatas e sim sobre aqueles que estão próximos a nós, aqueles que gozam de nossa intimidade, com os quais convivemos sem, muitas vezes, nos conscientizarmos que eles são psicopatas. O livro é muito bem feito tanto que começa por nos esclarecer o termo "psicopatia". Ela escreve que psicopatia é um termo mais popular para o distúrbio chamado de sociopatia. E classifica como psicopata uma pessoa que não tem vestígios de emoção, não sente culpa e é capaz de fazer qualquer coisa para saciar seus desejos, por mais simples que eles sejam. De tal forma que tramam, manipulam, roubam e até matam para alcançar seus objetivos. Claro que, sem muito trabalho, já comecei a pensar na quantidade de psicopatas que já conheci, inclusive muitos políticos bastante conhecidos e não, como costumamos pensar, os psicopatas de filmes de suspense e terror como os Hannibal, que são asassinos sanguinários ou mesmo serial killers. Pela primeira vez, me dei conta que esta não é a realidade. A realidade é que os psicopatas vivem entre nós, como se fossem "normais" e, a grande maioria deles, não tem sede de sangue nem vontade de matar. Eles são, na verdade, pessoas aparentemente comuns que só querem ganhar dinheiro, poder, influência, ser um grande empresário, um grande político, um governador ou presidente da república..Meu Deus! Agora, depois de tanto tempo, entendo do que são capazes! De tudo, absolutamente tudo. E, como não sentem culpa, remorso e nem nenhuma intenção de assumir as consequências dos seus atos estão completamente livres para culpar qualquer um. Por incrível que pareça os psicopatas só querem uma coisa: vencer. E o que me assusta (só agora vejo) é que eles estão vencendo.
Bem, raciocinando com lógica, isto não é de admirar. Afinal com a falta de escrúpulos que possuem e a capacidade de destruir a vida dos que atravessam seu caminho não é de espantar que consigam vencer. O problema real é que se é assim, na prática, desconfio que acabaremos ( se é que já não estamos) sendo governador por psicopatas. E a autora comenta que tratou de muitas pessoas que tiveram suas vidas devastadas por psicopatas com quem conviveram e que, muitas delas, chegaram até a tentar o suicídio. Vejam como os psicopatas são perigosos e imagine que a pior notícia vem aí: uma em cada vinte e cinco pessoas é um psicopata! Já pensou em que mundo perigoso nós vivemos? Você pode até ignorar o que estou dizendo (e a autora escreveu) e negligenciar, fingir que eles não existem, porém, o perigo está em que o psicopata pode estar na sua família, ser seu amigo ou você se apaixonar por ele, de forma que eles são perigosos e estão entre nós! Pode crer: mais cedo ou mais tarde você irá conviver ou já conviveu com um psicopata! Assim, tome cuidado, quando alguém estiver tentando justificar e defender alguém que lhe fez algum mal dizendo que ele é assim mesmo... sofreu muito... teve uma vida difícil e outras baboseiras, não vacile. Diga que tem razão, mas, se afaste. Este pode ser o seu psicopata.

segunda-feira, maio 24, 2010

COMO UM PASSARINHO



Hoje, infelizmente, devo fazer uma homenagem singela que não deve tocar senão aqueles que amaram seus cães e o perderam. È verdade que não se trata de uma experiência inédita e que, outras vezes, talvez, até tenha sentido mais, porém, é sempre uma dor, um sentimento quase de se perder um grande amigo quando se perde um cachorro. No caso, para ser verdadeiro, uma cachorra, a Jade, uma cofapizinha dessas bem sem vergonha que fazia jus ao nome. Era uma brava cachorra. Tanto que avançava sem medo em cães enormes e, muitas vezes, muito mais ferozes. Uma caçadora por excelência. Nada lhe escapava da atenção e pressentia tanto seus donos, os moradores, qualquer pessoa que se avizinhasse de nossa casa e latia, latia feito uma desesperada mesmo quando se tratava apenas da meninada que parava por ali para brincar ou namorar.
A falta da Jade, sei, ainda será sentida por um longo tempo. Foi uma cachorra fiel que, no entanto, não podia ver uma brecha no portão sem cair fora e passear na rua. Também comia tudo e com um desespero de quem passava fome, embora criada com ração, não perdia qualquer coisa que lhe dessem. De frutas a macarrão passando por doce ou por um osso ou um peixe e, enquanto teve saúde o apetite era imenso e infindável. Nada lhe escapava da boca. E era uma caçadora, pois, perseguia de baratas, ratos se houvesse e pombos, mesmo que, com estes, como via que a caçada era inútil, logo passou a conviver, o que a fazia ser objeto do achincalhe da Mag, minha mulher, que detesta a sujeira que os pombos fizeram e fazem nas paredes e nos toldos.
Histórias da Jade não faltaram para contar. De suas escapadas que davam trabalho para trazer de volta na medida em que fugia pelos quarteirões ou o fato de que, por mais que ralhasse com ela, minha moral era zero. Ela sabia que minhas ameaças eram ameaças apenas. Que, invariavelmente, iria lhe dar de manhã e de noite a ração e fazer cócegas com os pés na sua barriga. Só obedecia mesmo como um soldado ao general a Mag ou a Ana, que a criou e educou de que forma não sei, pois, era ineducável. A Jade era birrenta no sentido de que, quando contrariada, dava o troco e fazia coisas inexplicáveis como roer o para-choque do carro. Quem sabe a pintura tivesse algum sabor...
Apesar de ter começado o ano bem na medida em que lhe comprei uma ração especial e uns ossos para roer ela apresentava um bucho estranho, meio gordo. No começo se aventou a hipótese de falsa gravidez. Não era. Era um tumor que detectaram como câncer e como câncer ficou, pois, a desenganaram, apesar dos antiinflamatórios e a falsa impressão de que melhorava. Que não melhorava era claro pela quietude que tomou conta dela. Já não corria para a rua quando o portão se abria para o carro ou ia muito lentamente. O apetite esmoreceu. Comprei ração especial, passei a dar carne para ela e até comprei uns biscoitos de ossos, porém, sempre parecia mal alimentada e passou uns dias comendo só melancia e mamão. Nós sabíamos que seu fim era próximo e que era valente: não gemia, não parecia sentir dor fora dos olhos tristes com que nos olhava. Hoje, inesperadamente, morreu de uma hora para outra. Morreu mais silenciosamente do que viveu. Diria mesmo que morreu como um passarinho, mas, em nós, durante muito tempo, há de ecoar a ausência dos seus latidos.

quinta-feira, maio 20, 2010

NÃO É O QUE PARECE...



A CAUDA EXPOSTA
Sempre afirmo que o Partido dos Trabalhadores-PT tem um vicio de origem que usa como se fosse virtude: o estatismo. E quando falo em estatismo falo na tendência nem sempre oculta de tentar fazer prevalecer sua vontade como se fosse o “dono da verdade” e tivesse na mão a bola de cristal que desvenda o futuro de modo que pudesse, a partir do governo central, criar a sociedade desejável. É evidente que douram esta pílula com a propaganda e a missa ensaiada de que “fazem” a vontade do povo, porém, esta é, em geral, obtida por meio de convenções onde são maioria ou assembleias que dominam e, algumas vezes, por vontade expressa dos grandes e pequenos lideres. Não consta que Dilma, por exemplo, tenha vencido nem mesmo uma eleiçãozinha no Palácio quanto mais no partido para ser indicada candidata. Como nos melhores exemplos do comunismo internacional foi sacada pelo chefe e pronto. Efetivamente, como agora na eleição, tentam “dominar”, criar a hegemonia, ganhar a maioria da população, usando todos os métodos e meios.
È o caso visível do episódio da censura ao vídeo dos prefeitos na 13ª Marcha dos Prefeitos. Vetaram um vídeo que retrata as dificuldades dos prefeitos terem acesso a recursos porque a verdade da via crucis e o título de “Calvário” faria mal a campanha governista que, como Lula da Silva, prega que vivemos no melhor dos mundos possíveis e que está se fazendo o Brasil de uma hora para outra por encanto, a narrativa desmentiria. O episódio somente demonstra a escolha intelectual e a natureza do partido. Não há meio termo no tratamento que é dado as coisas. Ou se está com “eles”, ou seja, os iluminados que nos darão o novo mundo, ou se está contra e se vira tucano e adepto do FHC, como se o mundo se dividisse entre PSDB e PT. Nem o Brasil, justiça seja feita, é tão pobre de opções. O problema é que o PT continua ideologicamente a ser um partido de tradição leninista onde se sonha com o governo mandando na sociedade, com a vida pública sendo orientada pela “vontade dos homens revolucionários”, que enxergam o futuro, que sabem o que devem fazer e qualquer manifestação contrária à opinião de tais iluminados é vista como uma ameaça e deve ser banida. Assim os outros partidos, os intelectuais, quem não aceita uma sociedade de comando, quem não gosta de viver sendo mandado e quer pensar por conta própria ou expressa uma opinião contrária aos desejos do partido, acaba sendo atacado por discordar, por exercer a democracia. Assinala com extrema precisão o blogista Reinaldo Azevedo que “Se ‘O Partido’ está na oposição, cumpre mobilizar ‘a sociedade” contra o ‘estado autoritário’; se ‘O Partido’ está no poder, aí, então, mobiliza-se o ‘estado autoritário’ (que passa a ser ‘democrático’) contra ‘a sociedade’, que passa a ser manifestação do atraso” e, conclui, com brilho que “Em qualquer dos casos, quem se ferra é a liberdade, já que o único espaço legítimo de divergência passa a ser aquele que existe no ambiente do próprio ‘Partido’”. De fato, entendo que nem neste onde se exerce, hoje, com mão de ferro a vontade de Lula. Assim o PT se passou a conviver com a economia de mercado e a gere no Brasil e é o condutor da nossa economia ainda sonha com uma opinião única, com a “sociedade planificada” que já provou ineficiente e antiliberdade. Não é à-toa que Lula cultua Fidel e Chávez. O ideal dele, e do partido, continua no século passado, na via chamada de “revolucionária”, porém, que, na verdade, representa a morte da liberdade política. A supressão do vídeo sobre os prefeitos é a cauda exposta do animal escondido. O que se diz, porém, não adianta nada. O que vem de fora do partido está sempre errado.

domingo, maio 02, 2010

O esforço do governo Lula na busca do bom jornalismo



Embora o Partido dos Trabalhadores, e em especial Lula da Silva, reclamem muito da imprensa, tanto que se aproveita de qualquer ocasião, ou evento, para criticar e, muitas vezes, atacar a imprensa, que não se pense que não a usam exaustivamente. Lula só costuma bater quando lhe é conveniente. Em geral, quando repetem sem crítica os releases governamentais ou distribuem elogios não são mal vistas pelo presidente. Até, como se sabe, foi o mais generoso dos governos mesmo com jornais e revistas que, aparentemente, lhe são adversários, porém, que, no final, seguem uma estratégia governamental até porque lhe$ interessa. O problema é quando as mídias, mesmo com todos os vícios e jogos de interesse, adotam uma posição crítica, analítica, ou seja, tentam cumprir seu verdadeiro papel e investigar o que, realmente, o governo Lula fez de importante. Como o governo atual fez mais propaganda do que avançou na consolidação do país, é claro, que o governo não deseja que haja análise. Sua comparação é feita sempre em relação aos números passados, mas, o normal é que, apesar de tudo, o país cresça e, para ser mais fiel à realidade, o governo faz a comparação com o final do mandato de Fernando Henrique justamente quando todos os índices deterioram em função de que o PT iria assumir! Ou seja, o PT usa o desgaste que ele mesmo gerou para se elevar.
Na realidade não é, nem deve ser papel da imprensa adocicar coberturas oficiais e jogar confetes em governo. Jornalismo só existe quando é crítico e, antigamente, o próprio Lula cobrava contra os governos anteriores o fato de que a imprensa não fazia suficiente oposição, ou seja, Lula sempre gostou da imprensa quando está do lado dele. Mas, quem tem que fazer publicidade dos governos são as assessorias de imprensa e as agências de publicidade. A boa imprensa não pode se curvar aos interesses de quem está no poder. É assim que tem de funcionar. Que cada um cuide das suas respectivas funções, dos seus respectivos interesses. E somente neste tipo de ambiente, com posições pros e contras pode vicejar a democracia.
Na verdade o governo Lula segue a velha receita de todo governo: faz o maior e melhor uso possível dos espaços e, quando aparecem fatos que não lhe são favoráveis reage mal, tenta impor seu ponto de vista, reclama contra a divulgação, grita que há monopólio, conspiração e outras coisas. A verdade é que se acostumou mal a gozar da cegueira da imprensa com a qual teve uma relação muito estreita, na abertura política, nos anos 1980, no passado. Porém, o PT era oposição. Com a gradativa chegada do PT ao poder e a conquista da Presidência da República, as coisas mudaram e, mesmo o partido sendo vidraça, ainda continuou a ser tratado com muita benevolência. Até porque nunca antes neste país um governo gastou tanto com propaganda. São gastos anuais da ordem de R$ 7,7 bilhões. Este é o maior gasto que já se viu com a propaganda do Governo Federal, segundo a Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República, entidades da área e veículos especializados no setor. Os gastos do ano passado, foram de R$ 1,17 bilhão, superaram em 48% os R$ 796,2 milhões investidos no primeiro ano de governo. Os dados representam o total geral de ministérios e estatais. Para se ter uma idéia da força avassaladora disto basta ver que, em 2003, o governo Lula se promovia em 499 mídias (rádio, jornal, revista, televisão e internet). No ano passado, foram 7.047 veículos. Um incremento de 1.312%. E espacial, de vez que, no primeiro ano de governo, os veículos que divulgavam publicidade federal estavaam espalhados em 182 municípios. Hoje, estão por 2.184 municípios. Em suma, o PT é bom mesmo em propaganda, pois, aumentou, diversificou e regionalizou o uso da imprensa pelo governo distribuindo o bolo da propaganda oficial em mais fatias e distribuindo mais horizontalmente, ou seja, também os grandes jornais e fortes veículos de comunicação viram minguar as verbas publicidade. Mas, antes que pensem que foram para todos e aceitem a teoria da conspiração da chamada grande imprensa, que algumas vezes é caustica com o governo Lula, convém lembrar que a Rede Globo, a Folha & outros muitos importantes continuam a ser regiamente aquinhoados obtiveram empréstimos e financiamentos que FHC, por exemplo, havia negado. Ou seja, Lula só reclama da imprensa quando não serve aos seus interesses tanto que, para aumentar ainda mais seu esquema de propaganda, a partir desta segunda-feira, dia 3, coloca no ar a Rede Nacional de Comunicação Pública (RNCP). A RNCP é formada pelos quatro canais da TV Brasil, e vai alcançar 1.716 municípios. Ou 30,8% das cidades brasileiras, com um público estimado de cerca de 100 milhões de pessoas - mais da metade dos 190 milhões de habitantes. É mais uma tentativa de tentar minimizar o poder das grandes redes de televisão. Não vai dar certo. Nada que o governo faz dá certo, mas, demonstra que o governo tenta usar a propaganda da melhor forma possível para seus objetivos de moldar a opinião pública. Não basta domesticar a imprensa. O governo Lula quer dizer o que a imprensa deve fazer e noticiar. Esta é a essência do que entende como bom jornalismo. Neste sentido o bom jornalismo será sempre o melhor diário oficial que se puder editar.

domingo, abril 18, 2010

Os jornais não morrerão



Recentemente, mais precisamente no último dia 15 de abril, o Alto Madeira completou 93 anos. São poucos os jornais que alcançam tanto tempo, mas, há jornais que viveram, ou vivem, mais de 300 anos como o holandês Haarlems Dagblad, fundado em 1656 - 351 anos atrás. O campeão anterior era o sueco Post och Inrikes Tidningar, publicado diariamente desde 1645, segundo a Associação Mundial de Jornais, que parou de circular em janeiro, depois de 362 anos e passou a circular apenas na internet ainda que somente em três cópias de papel do jornal feitas e arquivadas em bibliotecas universitárias para manter a tradição. É fato que morte de jornal é muito comum, como de revistas e, mesmo hoje, apesar de ser uma mídia nova, de sites, mas, ao contrário das visões pessimistas de 50% dos editores de jornais, rádios e tevês dos Estados Unidos, que acreditam que seus veículos não vão sobreviver nos próximos anos sem que se descubram novas fontes de receita, não creio nesta profecia. Não é saudosismo, pelo fato de ter vivido em redações, ter sido até redator-chefe, uma palavra que, hoje, soa estranha.
Também não me baseio apenas na convicção do pesquisador e jornalista Clay Shirky, norte-americano, que acredita que sem os jornais ocorreriam mais corrupção, daí, a sua crença, para mim utópica, de que as pessoas perceberiam isto e buscariam uma forma de financiar a produção deste tipo de conteúdo. O raciocínio de Shirky me parece bom quando afirma que a rede desestabilizou os jornais por dois lados. O primeiro, pela migração dos anunciantes para as mídias on-line. O efeito de publicidades em jornais, rádios e televisões, por serem mais difusos, não garantem eficácia, a internet apresenta formas mais quantificáveis para avaliar o custo e o retorno da propaganda. O outro ponto seria a tendência dos leitores de usar a internet para personalizar os conteúdos que desejam ler. Quanto mais as pessoas interagem na rede, mais se trocam informações, menos os grandes portais detêm poder- o que é verdade em termos. Para Shirky a vantagem do jornal é que a rede não conseguiu superar o modelo dos jornais para realizar jornalismo de fiscalização. Este ponto de vista é sustentado pelo argumento de que, por circunstâncias históricas, os jornais concentram receitas de anunciantes que excedem seus custos, de forma que podem gastar para a produção de matérias de fiscalização do poder público. Assim haveria um efeito colateral como função social do jornalismo impresso que seria de coibir o mau uso do poder. Para ele, se não estivessem os diversos conteúdos sendo embalados e vendidos juntos, não existiria a fiscalização do poder público pelas mídias pela falta de receitas suficientes para que os veículos fossem independentes. Eles estariam vulneráveis para as sanções de grandes empresas e dos governos – os tradicionais grandes anunciantes. De fato concordo que a grande imprensa tem sido mais competente que a internet. E que esta não consegue financiar este tipo de conteúdo, mas, não concordo com Shirky que seja por ser caro e por não ter retorno imediato. Minha visão é a de que os jornais são um meio diferente e que sua fortaleza reside na análise, na opinião, no exame, digo mesmo que até na autópsia do fato. A internet não. É um meio em que se procura interação, imagem e não leitura. Para mim o caminho para a sobrevivência dos jornais deve também passar pelo bom jornalismo de fiscalização, mas, creio que o jornal há de sobreviver por ser um meio capaz ultrapassar a superfície da notícia, de gerar novas interpretações e debates. Para mim a internet, como comprovam a crença em noticias das mais absurdas, torna o leitor mais passivo, daí, minha crença de que os jornais sobreviverão sempre e sempre serão alimentadores, diria que até mesmo irão pautar, a internet como já fizeram com o rádio e a televisão. A crise do jornal é uma crise não do meio, mas, da criatividade e do empreendedorismo que estão faltando na sua direção.

Um grande jornal com grandes nomes



O Alto Madeira faz 93 anos. Não são muitos que podem se gabar de uma façanha deste tamanho. Basta verificar que, em termos cronológicos, o Correio Braziliense, o Jornal do Commercio de Recife, e o Jornal do Comércio do Rio de Janeiro são os mais antigos do país, mas, apenas para efeito cronológico, pois, muitas vezes, tiveram sua circulação interrompida. O jornal considerado mais antigo mesmo, em circulação permanente, é O Estado de São Paulo, que já completou 135 anos, mas, convenhamos, São Paulo é São Paulo. Completar 93 anos aqui é outra coisa. È mais que um atestado de competência. É mesmo uma glória. Ainda mais num país que começou a ter publicações periódicas com um século de atraso em relação aos demais países do novo continente numa região que se caracteriza mesmo é por ser e se manter selvagem inclusive comercialmente falando. Jornais e revistas na Amazônia são como plantas na natureza: nascem e morrem rapidamente. Muito mais no passado. Hoje isto acontece mais com os sites de noticias.
O certo é que, hoje, o Alto Madeira somente é superado em longevidade pelo Jornal do Commércio, de Manaus, o mais antigo em atividade na região, que foi fundado em janeiro de 2004. É um orgulho e uma tradição que foi mantida muito mais pela paixão pelo jornalismo, pela consciência de muitas pessoas de que se trata de um patrimônio cultural do Estado e pelo desejo de ter um jornal que seja o que um jornal deve ser: combativo e independente. Claro que não imparcial. Claro que não sem interesses. O mundo não é perfeito e o Alto Madeira é um retrato do mundo, do nosso mundinho, por isto mesmo, nem melhor nem pior do que ele é. Apenas tão somente um jornal do tamanho de nosso Estado e, por tal razão, como temos vocação para a grandeza, um grande jornal.
E é um grande jornal por razões muito claras. Sua longevidade se deve, em primeiro lugar, a que sempre foi o abrigo da notícia pela notícia. Quando ela existe e é verdadeira não se sonega. É publicada por mais que seja dolorida a publicação. È importante, é significativa vai ser publicada. È claro que este não é um processo imparcial. Todos os que fizeram o Alto Madeira sempre tiveram lado, opinião, alguns até certezas que se provaram infundadas, mas, jamais, e esta é uma norma que faz dele um grande jornal se negou voz ao outro lado. A crítica é feita, a notícia é dada, mas, também a quem se sente atingido é dado o direito de desmentir, de expor sua versão, de, quando for o caso, provar que se errou. E, quando o jornal erra, como já aconteceu diversas vezes, teve sempre o cuidado de se retratar, daí, sua credibilidade através dos tempos.
Porém, a grande realidade é que o Alto Madeira não seria o Alto Madeira sem ser, como sempre foi, um jornal aberto para os homens e as ideias. Pela sua redação passaram grandes jornalistas como Petrônio Gonçalves, Ary de Macedo, Vinicius Danin, Ivan Marrocos, Roberto Vieira, Sérgio Valente, Simeão Tavernard, Pedro Gondim, Kleon Maryan, Pedro Gondim, Edmar Coelho, o capitão Esrom Menezes, o Bahia e Paulo Correia para citar os já falecidos. Mas, ainda permanecem nomes como os de Ciro Pinheiro, Marlene Rolim, o próprio decano de nossa imprensa Euro Tourinho, Viriato Moura, Valdemir Caldas, Sued Pinheiro, Lúcio Albuquerque, Aluízio Pimenta, Marcus Vinicius Danin, Adelino Moura, Renato Rondon, Reis de Souza, Rocco, Aminéia Capistrano, Parayba, Antônio Roque e tantos outros que seria fastidioso enumerar. Quem quer encontra espaço no Alto Madeira e escreve o que quer sem censura e com liberdade. È por tal razão que me orgulho de também ter feito parte, um pouco, de sua história e comemoro feliz seus 93 anos certo de que, sem muito esforço, irá chegar, para nosso orgulho, aos cem anos cada vez melhor.

terça-feira, abril 13, 2010

A POSSIBILIDADE REAL DE UMA HERANÇA MALDITA



O governo Lula, o governo atual, não pode negar que teve um tempo longo de bonança internacional, ao contrário dos anteriores, e que, além disto, teve a seu favor a austeridade e a responsabilidade que Fernando Henrique implantou na economia. Em outras palavras, o fundamento dos bons tempos não foi de Lula, mas, de FHC. E, mesmo quando houve uma crise, como a de 2008, esta, pela primeira vez, com todos os problemas, veio a nosso favor, pois, deslocou o eixo do crescimento do mundo para a China e os emergentes, o que nos favoreceu. Enfim, Lula pegou um cenário internacional estável e construtivo. Deveríamos, isto sim, ter crescido mais. E crescer mais era o que Lula tinha se proposto e, convenhamos, falhou. O voo de galinha continua a ser a trajetoria da economia brasileira vide o resultado negativo de 2009 e a previsão positiva de 2010. E 2001?
Bem, os economistas bons acreditam que os Estados Unidos devem crescer algo em torno de 2,5%, já este ano, derivado de seu bom desempenho nas exportações e a forte desvalorização do dólar. A favor disto conta também a volta de investimentos em setores importantes, como o de energia, e, em alguns setores, tem havido uma redução mais acelerada dos estoques, bem como o mercado de trabalho parece estar mais estável, porém, só a obtenção de um crescimento, como o previsto, já influi sobre o resto do mundo. Também se, entre os emergentes, a bonança não é, não será, igual para todos se espera um crescimento de 9,5% da China, e há um grupo, que inclui a Ásia, os países petroleiros e o Brasil, em que o crescimento será muito forte. Embora existam atrapalhando os países bálticos, Europa Oriental, Grécia, Rússia, Argentina, Venezuela e México Com tudo isto, o PIB mundial deve crescer, em 2010, em torno de 3%. Ou seja, os quase 6% do Brasil não serão lá nenhuma Brastemp. E, em 2011, o crescimento deve voltar a se complicar. Por que?
Por causa da crise e das eleições o governo abriu as burras. Porém, se os gastos de consumo se elevaram, as próprias análises governamentais mostram que os investimentos no desenvolvimento da economia cresceram muito pouco. Mesmo admitindo-se que, como foi divulgado, a execução do PAC, que é a menina dos olhos do governo, tenha sido os 40% divulgados é muito pouco. Seja por demonstrar uma execução baixa, seja porque os problemas de infraestrutura e de investimentos requerem um esforço muito maior. E, para piorar, mesmo com tão baixo desempenho, os gargalos se acentuaram, inclusive na questão da mão de obra. Sobram empregos que exigem qualificações que os brasileiros despreparados não possuem. Assim, se todos consideram ser viável que o país cresça acima de 5%, em 2010, economistas sérios não acreditam que esta taxa seja sustentável ao longo dos anos. As pressões inflacionárias mostram que a economia doméstica está indo no caminho do aquecimento excessivo em 2010, daí, o desejo do Banco Central já expresso de aumentar os juros. É poristo que a oposição já está preocupada com os rumos do atual governo que aumentando os gastos, para a campanha eleitoral, criou mais pressões inflacionárias e uma situação fiscal muito mais apertada, o que pesa contra o ritmo de crescimento nos anos seguintes. A ironia é a de que ,quem tanto falou em herança maldita, pode acabar, de fato, deixando uma, se não houver uma condução melhor da política fiscal e monetária.

sábado, abril 03, 2010

Há solução para o trânsito de Porto Velho?



Bem, é verdade que se pode dizer que o problema de trânsito não é um monopólio de Porto Velho, mas, também se pode dizer que antes nós tínhamos um trânsito que se não era pacífico não tinha esta violência de agora, esta completa falta de regras e opções, os engarrafamentos, a grosseria, a falta de educação e, principalmente, o desagradável fato de que os acidentes se tornam rotina com os corpos estendidos no chão com escoriações e, muitas vezes, com a morte ceifando vidas preciosas. Num ambiente deste, diante do fato de que, mesmo quando se abre ruas, como a parte nova da Avenida Pinheiro Machado, muito pouco melhora é que se tornou também comum perguntar: se o trânsito de Porto Velho tem solução e quando ela virá.
Não se espera, certamente, como muitos ousados e mirabolantes pensam de um metrô nem mesmo da construção de viadutos que, dizem os especialistas, somente transportam o problema de um lado para o outro. Então qual a solução se solução existe? É claro que há soluções. Claro também que não é aceitável justificar os problemas com apenas com o crescimento da frota de veículos. Em parte o maior estímulo ao crescimento da frota reside na falta de um transporte coletivo que dê o mínimo de conforto e condições as pessoas e, ainda por cima, é muito caro pelo que oferece. Porém, qualquer que sejam as soluções elas passam por um estudo do sistema viário de Porto Velho que tem sido tratado com um amadorismo desalentador seja na hora de introduzir modificações, seja na hora de permitir, por exemplo, que prédios, inclusive públicos, agravem o problema ao levar para regiões já congestionadas mais circulação e, consequentemente, maiores problemas de circulação. Um exemplo bem negativo vem da própria Prefeitura que criou um centro de formação de professores, onde existe o Teatro Banzeiros, numa região central aumentando a quantidade de veículos na região central. Região, aliás, que já´deveria ter sido alvo de um tratamento prioritário tantos são os problemas de circulação por ali. Até mesmo o estacionamento é problemático e já pede medidas drásticas, talvez como estacionamentos subterrâneos ou pedágio urbano, quem sabe limitação de trânsito por final de placa do veículo ou mesmo a transformação em parte do centro num imenso calçadão.
Especulações à parte qualquer solução que se venha a implantar exige antes um estudo profundo da problemática, que, de forma simplificada, reside no excesso de veículos individuais circulantes em contraposição à falta quase completa de qualidade do sistema de transporte coletivo. Esta situação, evidentemente, pode ser extrapolada para todo o sistema, que, além de não ter sido concebido para a demanda atual (o último estudo sério do sistema viário foi feito na década de 80) ainda foi agravado pela facilidade de aquisição de veículos individuais aliado as vantagens de sua utilização cotidiana em contraponto com a ausência de transporte coletivo. O cidadão de Porto Velho precisa ter um carro, uma moto, uma bicicleta, um jumento que seja, pois, não pode contar com ônibus. Aliás, a alternativa que as pessoas tem é muita cara que é o táxi e, hoje, por mais incrível que pareça, o mototáxi que, apesar de todas as suas inconveniências e perigos, se tornou um alívio para as classes de renda mais baixa como meio de locomoção. De qualquer forma a solução do problema do trânsito de Porto Velho deve, necessariamente partir da avaliação do sistema urbano como um todo, e depois integrar um conjunto de diversas ações setoriais, inclusive com a criação de ciclovias, novas avenidas e ruas, em sistemas binários que ofereçam alternativas novas e a oferta de um bom serviço de transporte coletivo. È claro que a solução para o trânsito de Porto Velho existe e não deve ser única, nem exclusiva, porém, não virá se não houver uma cobrança política muito forte da população.

domingo, março 21, 2010

SÓ A PRODUÇÃO PRODUZ O AVANÇO SOCIAL


Os reais construtores da modernidade

É incrível a falta de visão, em especial de políticos e sindicalistas, dos custos que recaem sobre o empresariado para manter seus negócios e como é difícil ser empresário neste país. Pior é que, como políticos e sindicalistas vivem de discussões, não percebem que os empresários desejam apenas que não perturbem as condições institucionais existentes, nem que façam leis e movimentos que lhes causem problemas e custos. Não há, muitas vezes, entre os políticos a menor noção dos danos que causam a iniciativa privada com projetos que, só em serem apresentados, obrigam os empresários a ter custos, a ter que sair de suas obrigações,que já são muitas, desperdiçar tempo e dinheiro para não ter seu negócio afetado por iniciativas muitas vezes cheia de boas intenções, mas, completamente equivocadas. Os exemplos mais recentes são, em Porto Velho, de projeto de lei que pretende fechar o comércio aos domingos e, no Senado, um projeto do senador Crivella que quer obrigar os donos de bares e restaurantes a cobrar 20% de gorjeta depois das 23 horas.
É impressionante, por exemplo, o que revela a pesquisa anual "Doing Business", promovida anualmente pela Organização das Nações Unidas que faz uma análise comparativa entre 183 países. Examinando a facilidade para a abertura de empresas, obtenção de alvarás, contratação de funcionários, registro de propriedades, obtenção de crédito, proteção de investidores, pagamento de impostos, comércio entre fronteiras, cumprimento de contratos e fechamento de empresas, verifica que o Brasil, sob a perspectiva geral da facilidade para fazer negócios, está na 129ª posição entre as 183 economias analisadas - dois pontos abaixo do relatório de 2009. Na América Latina, só ficaram abaixo Equador, Bolívia, Venezuela, Haiti, Suriname e Honduras. Os dados mostram que a economia brasileira se sai bem apenas no índice de cobertura de órgãos privados de proteção ao crédito, na transparência nas relações com investidores e no índice de eficiência na proteção a investidores (tudo na esfera de atuação privada), mas, até para pagar impostos o Brasil ocupa a 150ª posição. Os empresários brasileiros, segundo a pesquisa, têm que arcar com os custos de 2.600 horas anuais de trabalho para fazer frente à burocracia tributária. A média, na América Latina e no Caribe, é de 385,2 horas. Nos países de renda elevada (OCDE), de 194,1 horas. Mas, quem sustenta o governo são os impostos e, mesmo assim, se verifica que até para pagar os empresários sofrem. Não se leva em conta nem seu tempo nem seus custos e os políticos, em especial, fazem leis que os afetam sem se preocupar em quanto vai custar nem quantos empregos serão perdidos. É fácil fazer isto quando sabem que, de uma forma ou de outra, seus salários e privilégios estão garantidos no final do mês, mas, não é o que acontece com os empresários cujas folhas de pagamentos, os impostos, a manutenção do seu negócio, tem que ser buscada duramente nas vendas de cada dia. É muito fácil falar mal dos empresários, como fazem muitos políticos e sindicalistas, porém, fariam muito melhor tentando criar os empregos e a renda que os empresários criam para ver como a cor da chita é outra, quando se tem que ter a responsabilidade de manter empregos e criar riqueza num país que trata quem busca lucro como se isto fosse um pecado. Pecado mesmo é a cegueira de não ver que sem os empresários nossa sociedade não funciona bem e é somente graças a eles e não ao governo, ao qual somente se pede que não atrapalhe, que o Brasil tem avançado em direção à modernidade.

DISCORDAR É PRECISO


A necessidade da cultura do dissenso

Bem, confesso que, apesar da idade, que tende a me levar a ser mais sensato, se isto é possível, ainda me aferro a uma rebeldia que me faz ser contra as coisas que não concordo. Hoje muito mais maduro também com muito mais serenidade e capacidade de compreensão, porém, não com menos ardor ou resistência. De certa forma, às vezes, principalmente, quando o consenso, mesmo que errôneo, é muito grande me pergunto se vale à pena ser contra algo que as pessoas em geral não vêem erro. E, podem crer, isto me custou caro, muitas vezes, quando a única coisa que deveria fazer seria não dizer nada. E até ser recompensado por isto.
Felizmente, para me consolar da minha incapacidade de dizer sim, de balançar a cabeça em aprovação com o que não concordo, leio, em meu socorro, Cass R. Sustein, um professor de Direito da Universidade de Chicago (EUA), que defende que uma única manifestação individual que se opõe ao comportamento dominante, mas que é sensata e correta, pode desmobilizar toda uma conduta equivocada ou conformista da maioria das pessoas. Ufa! Que alívio! Por causa disto tomo a liberdade, a partir do pensamento de Sustein, de me opor à ideia ruim, e dominante, do senso comum de que os políticos podem fazer o que bem entendem e que é melhor as pessoas não baterem de frente com as autoridades. Não concordo e lembro o famoso caso da costureira Rosa Parks que, ao se recusar a ceder o lugar a um branco no ônibus, criou uma verdadeira revolução que iria alimentar todo o movimento negro norte-americano, ou seja, um pequeno gesto, de fato, muda tudo. É tanto a acumulação quanto o efeito borboleta, mas, como tudo na vida, tem seu tempo.
Interessante também é que Sustein sustenta que o conformismo é natural ao ser humano. Rotineiramente, até para se viver melhor, adotamos comportamentos aprovados pela maioria. Ou seja, buscamos naturalmente a aprovação dos outros e, para isto, muitas vezes, fazemos as coisas como todos fazem. Tendemos, portanto, mais para a concordância que para o dissenso, bem, como, exceto os encrenqueiros por natureza, evitamos situações em que somos a voz dissonante. Ocorre que o professor alerta que este tipo de atitude pode levar a variados problemas sociais, ao calar as vozes de mais inteligentes e de maior bom senso. Aqui me parece se enquadra bem a situação política brasileira atual que parece desvirtuada, com a oposição amortecida pelo conformismo ou pelo oportunismo, colaborando para que a sociedade permaneça inerte, sem fazer algo contra os desmandos políticos que chega ao cúmulo de querer fazer do errado certo, do desrespeito as regras uma constante, e da tentativa de continuidade de qualquer forma, inclusive com o uso escancarado da mídia, para vender como grandes realizações um governo cujos avanços foram mínimos numa época em que deveríamos ter crescido a taxas muito maiores e que, como maior pecado, ostenta os pífios resultados obtidos na área da educação que é a base do verdadeiro desenvolvimento.
O Brasil precisa de oposição que mostre como o governo Lula tem sido ineficiente na criação da cidadania e do desenvolvimento. Por isto é interessante ler Sustein que argumenta que as sociedades, organizações e grupos que punem os que discordam do pensamento ou das ideias dominantes tendem a ter menos êxito. É da diversidade de ideias que nasce o sucesso e não do pensamento único do nosso “iluminado” presidente. Mas do que nunca é preciso cultivar a cultura do contraditório. Estou convencido que é preciso incentivar o dissenso. O perigo real para o país é a continuidade, a concentração do poder político nas mãos de poucas autoridades e, como tem sido feito subrepticiamente, a tentativa de comprar ou intimidar políticos e cidadãos inclusive com a sistemática execração de que sejam de “direita”, “contra os pobres”, “elite” e por aí vai. È preciso sim divergir com argumentos e não hostilizar o próximo por ter opinião e contestar. São os autoritários que desejam o partido único, o pensamento único, o endeusamento da personalidade. Os democratas sempre serão a favor do dissenso.

quarta-feira, março 03, 2010

O PECADO CAPITAL



O governo Lula da Silva padece de um pecado capital que, por meio do marketing, consegue iludir os mais desinformados, transformando a força em fraqueza. Este pecado é o fato de ser um governo estatista, um governo que acredita que o Estado pode criar desenvolvimento quando, na verdade, o Estado vive do que arrecada da sociedade, logo, seu limites são definidos pelo que pode arrecadar de impostos, ou seja, tirar à força da iniciativa privada. Conseguiram, por meio da política, transformar o que foi mérito do governo FHC em crime como é o caso das privatizações. Ocorre que as privatizações não foram um fenômeno nacional. Muito ao contrário ela representou a falência do estado desenvolvimentista. Para quem fizer um esforço de memória, um esforço histórico, será fácil verificar que, antes de FHC, o Brasil se caracterizava por taxas de desenvolvimento negativo, alta inflação e falta de investimentos públicos na medida em que nem mesmo se tinha uma dimensão do tamanho da dívida pública. FHC nos legou a estabilidade, o controle das contas públicas e as condições essenciais para o crescimento. E atraiu mais Investimentos Externos Diretos-IED do que nunca, ao contrário, do governo Lula que, ao optar por uma visão mais estatista, atrai mais capitais de curto prazo, capitais especulativos.
Ocorre que, se o Estado pode criar PACs à vontade, não gera desenvolvimento, não cria renda, não cria empregos. Quem produz é a iniciativa privada. Também o Estado é travado pela legislação e a burocracia. Não é preciso muito argumentos para verificar que em razão disto, e também por um cultura de corrupção centenária, é administrativamente ineficiente. Basta lembrar que, quando a telefonia era gerida pelo governo, telefone era um bem caro e raro. Hoje, depois da privatização, está mais fácil do que banana. Alegam os opositores que a nossa telefonia tem um custo caro. Tem. Tudo é caro no Brasil pagando 46% de impostos diretos e indiretos. O fato é que o avanço da telefonia explica-se pela melhor administração, mas, também pelo fato de que o governo não tinha, e continua a não ter capacidade de investimentos. Todos sabem que o superávit primário precisa ainda de saldo no comércio exterior só para pagar os juros da nossa dívida. Daí que o investimento público é sempre baixo, sempre aquém de nossas necessidades. Em outras palavras: por mais que o discurso seja estatista a necessidade de capital faz o governo tender a precisar da iniciativa privada.
O exemplo maior provém de que, no 2º semestre de 2008, o presidente Lula anunciou a abertura de concorrência para a seleção de empresas privadas interessadas em operar aeroportos do país, sob o regime de concessão. Por este regime, o ativo continua propriedade da União, mas, a administração, a operação e os investimentos previstos são privados. Até anunciou que iria transferir para a iniciativa privada a construção e a operação de um novo aeroporto em São Paulo. Era o caos do apagão aéreo e o governo sem recursos para bancar o grande volume de investimentos exigidos apelava para tudo, afim de evitar o desgaste. Passada a crise tudo ficou na retórica, mas, o problema continua adormecido. Se o Produto Interno Bruto aumentar os 5,5% previstos para 2010, o risco de um colapso aeroportuário é muito grande. O ministro da Defesa, Nel¬¬son Jobim, voltou a falar sobre a retomada da proposta de atrair capitais privados para investimentos em aeroportos. Porém, a ungida do chefe para sucessora apresenta um plano que aumenta o problema: fala em estatizar energia, e, pasmem, telefonia. É uma questão complicada o mesmo governo que deseja, por questões ideológicas, mais estado sabe que não dispõe de recursos para cobrir os investimentos necessários. E o setor pú¬¬blico não pode seguir tomando em¬¬prés¬¬timos, que aumentariam ainda mais a já elevada dívida pú¬¬blica. Por causa deste pecado capital, o estatismo, é um governo contraditório: não querem o setor privado nos portos e nos aeroportos, nas estradas, no petróleo, na energia e na telefonias por considerarem que são setores que devem estar nas mãos do Estado (o que exigiria para ser feito mais empréstimos e mais despesas com juros). Aliás, é hilário na medida em que para o Estado investir mais só devendo mais e pagando mais juros o que vivem criticando. Esta grande incoerência faz com que fujam de mencionar a palavra “privatização” e engavetam ou adiam investimentos necessários por causa disto, porém, como no caso das usinas do Madeira, as obras que o governo consegue fazer e até acelerar são, justamente, as “privatizadas”. Ou as usinas de Santo Antônio e Jirau estariam no estágio em que estão se fossem feitas pelo governo? A verdade é que a “privatização” é indispensável, de vez que o governo não tem como investir em rodovias, ferrovias, portos, energia, armazenamento, telecomunicações, enfim, na infraestrutura que o País necessita. Logo estigmatizar a privatização e rejeitar investimentos privados por ideologia é uma grande estupidez política, principalmente, quando a economia brasileira cresce no cenário internacional e requer, cada vez mais, investimentos mais altos.

quinta-feira, fevereiro 11, 2010

Os movimentos pré-eleitorais



Aécio Neves não se pode negar tem o “feeling’ dos políticos mineiros. Mal teve certeza de que o PSDB não faria as prévias internas, com a matreirice mineira bem conhecida, anunciou sua desistência e candidatura ao senado. Foi um gesto calculadamente surpreendente ainda mais que ao se preparar para ser senador semeia ter uma maior importância no futuro que ser um vice, um mero apêndice do poder como costumam ser os vices. Em que pese o inconformismo de muitos que gostariam de subir ao poder com ele foi um atitude muito acertada. Como acerta mais uma vez, agora, quando se desliga do tiroteio entre tucanos e petistas que não lhe interessa nem faz ganhar nada. Melhor é se preservar para ser um negociador sem problemas e ileso de possíveis balas perdidas da disputa. O cálculo de Aécio é o mesmo de José Serra: ainda não é tempo de se expor ao desgaste de um tiroteio prematuro. Claro que isto é o oposto do que interessa ao governo. Afinal Lula lançou uma noviça política que precisa ser testada no fogo. Dilma, que é egressa do PDT gaúcho e foi devota do brizolismo, é uma cristã nova que precisa dos focos e das luzes da imprensa o que tem buscado desesperadamente e, diga-se de passagem, sem sucesso. Falta-lhe o carisma e a proximidade do povão que ninguém pode negar ao presidente operário.
O lançamento da candidatura de Dilma é uma operação arriscada que somente se justifica pela falta de opções dentro do partido. Com o Mensalão e suas conseqüências nefastas o PT perdeu todas as lideranças que poderiam ser uma opção e, a grande verdade, é que Lula da Silva não deu sombra para nenhuma grande liderança. Até mesmo promessas como Marta Suplicy ou Aluizio Mercadante se tornaram pífias apostas eleitorais até mesmo no seu próprio estado. Quem mais poderia ser? Tarso Genro? Um nome muito pouco palatável. Logo sobrou para Dilma, apesar das dúvidas não só das lideranças internas, como da coligação palaciana, sobre a viabilidade da candidatura da ministra. Lula, sem escolhas, tenta fazer da campanha presidencial um plebiscito entre ele e Fernando Henrique. FHC até o ajuda,porém, os problemas no caminho são imensos. Inclusive Ciro Gomes, anunciado como uma terceira força, que perde fôlego, porém, se sai arrisca facilitar a vida de Serra e até permitir que ganhe no primeiro turno. Pesquisas indicam que Serra lidera, mas Dilma cresce. Mas, a posição do tucano é imensamente confortável. Ainda mais que quando Dilma aparece, como em recente programa “Superpop” quando foi exibir seus dotes culinários, fez o programa repetir a menor média de ibope registrada do ano. A atração terminou a noite em 5º lugar –atrás de Globo, Record, SBT e Band–, quase empatada com a TV Cultura chegando ao pior momento do programa quando Gimenez se viu ultrapassada até pela minúscula e regional TV Gazeta, que marcava 2,1 pontos (“Caderno de Esportes”) contra apenas 0,6 ponto da Rede TV! –então em sexto e penúltimo lugar, quase empatada com TV Cultura. Ou seja, Lula que se cuide que, mesmo sem começar o fogo pesado, já teve pressão alta.

segunda-feira, janeiro 25, 2010

As ilusões nas manchetes



Se há uma coisa em que o governo atual do PT tem sido competente, como até o governador José Serra reconheceu, é no marketing. Não somente foi competente para eleger Lula como também tem sido em tornar certas afirmações muito discutíveis como é o caso de que o Brasil entrou na rota do desenvolvimento sustentável, que houve diminuição da desigualdade de renda, aumento da classe média, que o governo investe muito mais do que os governos anteriores ou ainda a ilusão de que o Brasil foi um dos últimos países a entrar na crise e um dos primeiros a sair com o corolário de que a economia brasileira seria hoje uma das mais sólidas do mundo. O que o não se diz é que, efetivamente, países como a China, a Índia, a Austrália, a Coréia do Sul, Polônia ou mesmo a Indonésia nem entraram em recessão e até cresceram enquanto nós passamos um primeiro semestre difícil e, no fim das contas, tivemos uma leve queda do produto.
Para quem acompanha os discursos do governo parece que vivemos no melhor dos mundos possíveis. Porém, a realidade desmente este discurso ufanista quando verificamos que as indústrias nacionais estão desaparecendo sucumbindo à competitividade por falta, principalmente, de educação, de pouca inovação, de investimento, de crédito e ainda por cima por ter, reconhecidamente, um dos piores ambientes de negócios do mundo (uma carga tributária pesada e uma legislação trabalhista que, sob todos os pontos de vista, é anacrônica e onerosa). Só mesmo do ponto de vista de quem arrecada, e arrecada muito, sem ter que gerar riquezas se pode vender a ilusão de que conseguimos criar uma economia que se auto-sustente. A maior comprovação disto é o enorme aumento da informalidade que se transforma nos camelôs, nos sacoleiros, nas estratégias de sobrevivência que passam pelo contrabando, a venda de produtos piratas e até mesmo o próprio crime.
É claro que, em ano de temporada eleitoral, tentará se vender, como se vendeu descaradamente, que o ano de 2009 foi o ano de grandes realizações e que só tivemos um resultado ruim por problemas externos, mas, que, em 2010, será diferente. Deve ser na medida em que o dinheiro que entrar no caixa do governo saíra correndo novos contratos, aumentos do funcionalismo e assistencialismo muitos já aprovados a toque de caixa no ano passado. È preciso, mais do que nunca, criar a ilusão de a economia vai bem para poder ganhar as eleições. Depois irá voltar a cair. E isto tem nome: voo de galinha. Que será nosso futuro se não caminharmos para uma política mais crítica capaz de reconhecer que só com um diagnóstico correto e fazendo as reformas necessárias o desenvolvimento será possível de fato e não apenas a ilusão que se vende nas manchetes.

terça-feira, janeiro 19, 2010

EU FIZ CHOVER...



Depois de mais de cinco anos volto ao Rio de Janeiro. Voltar ao Rio é uma experiência ao mesmo tempo inebriante, nostálgica e inesperada. Confesso que deixei de voltar, para lá, por ter me envolvido num tiroteio de AR-15 na Linha Vermelha, o que acabou com meu desejo de usufruir do lugar, que, por muito tempo, pensei seria minha morada e do qual não pensava em sair. Voltar ao Rio foi, portanto, rever um velho amor, voltar a constatar como o Rio de Janeiro continua lindo e com um plus que foi o de rever meu querido amigo Luiz Carlos Marques e minha irmã, Tirzah, a Mãe Isa de Água Santa, a quem devo muito pelo carinho, acolhida e apoio. Assim, devo confessar que voltei ao Rio como um filho pródigo volta para sua casa. E ainda tive o prazer de beber uns chopes no Mondego com meus sobrinhos Hilário e André que fizeram questão de me levar até o hotel numa prova de carinho com o tio desgarrado.
E foi uma volta anônima e triunfal. Que teve de tudo um pouco. Desde passear pelo calçadão da Nossa Senhora de Copacabana, beber um chope no Dom Luiz, comer sardinha no Beco das Sardinhas, ouvir música no Beco do Rato ou participar de uma roda de samba chuvosa no Largo da Nossa Senhora da Prainha bem ali ao lado do Angu do Gomes. Olhar a cidade da Urca ou beber um chope no Sindicato do Chopp reclamando do fechamento da Help também valeu ou passear de metrô para comprar algumas peças de informática no Shopping da Informática. Confesso que não tive animo de ir ao Canecão assistir o show de Ney Matogrosso. Não que ele não seja bom, mas, a chuva foi muito forte ao ponto do Luiz Carlos ter comentado que não precisava chover tanto para confirmar minha sina de que toda vez que vou ao Rio mal chego chove! E olha que faziam dias que a temperatura beirava os 40, 41 graus sem uma gota de chuva. Foi só chegar que fiz chover, como na música, fiz também relampear sem que o céu deixasse de ser azul e o Cristo Redentor me acenasse dizendo que um pau de arara de Rondônia havia aportado para constatar que o Rio continua lindo, aprazível, desfrutável, maravilhoso como só o Rio pode ser com ou sem choque de ordem.
O que posso dizer do Rio é que não vi nada, um traço sequer de violência. O que vi muito foram os bons shows da Lapa, o tráfego complicado da Avenida Brasil, que parece ser um problema eterno, mas, até parece menos problemático que o trânsito de Porto Velho, embora, pelo tamanho, mais demorado. A surpresa de ver que o Engenhão foi um grande achado, um estádio de futebol com todo conforto incrustado bem no meio do meio do subúrbio. E verificar também que, com o tempo, perdi alguma noção de localização, mas, não ao ponto de não reconhecer as vias principais como as do Centro, a 24 de Maio ou a Dias da Cruz, no Méier. Enfim foi uma viagem nostálgica, bela e curiosa que teve até o encontro com uma catita em pleno Petisco da Vila, em Vila Isabel, terra de Noel e Martinho, o que não impediu que bebesse ali um chope com colarinho bem gelado saudando o prazer de voltar a ver que o espírito carioca sobrevive com sua malícia, picardia e ritmo, tanto que o tamanho do rato, ao longo do tempo, foi se transformando tanto que, no fim, já se dizia que tinha sido um gato que transitou pelos salões da tradicional casa da Vila.

segunda-feira, janeiro 11, 2010

SEM DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL



O governo não faz o dever de casa

Sem dúvida está dando pano para as mangas a questão do Plano de Direitos Humanos do atual governo que, por decreto, quer impor certas teses polêmicas e recorrentes como a de subjugar a imprensa e rever a lei de anistia. Não se trata de, como tenta passar o presidente Lula afirmando que assinou sem ler, um simples caso de desatenção. A dura realidade é que existe, por detrás do decreto, a filosofia que o governo Lula, nestes últimos sete anos, desenvolveu de forma agressiva por meio de políticas que buscam ampliar a influência do Estado na economia e em todas as esferas da sociedade. Acontece que, de fato, quem move a economia não é o governo. É a iniciativa privada, daí, apesar dos inúmeros PACs, pois, já fizeram PAC de tudo e para tudo, o governo termina tentando desesperadamente fazer mudanças por decreto. A dura realidade é que o governo não gera desenvolvimento. No máximo cria o ambiente para gerar, daí, o governo Lula não ter tido sucesso em gerar o desenvolvimento sustentado. Como no governo FHC,o atual tem se caracterizado pela descontinuidade do crescimento com anos de índices altos seguidos de quedas. O famoso voo de galinha.
A razão para isto é simples. Não se preparou o país para um crescimento de longo prazo seja por falta de uma maior poupança interna, seja pela melhoria da educação, pela segurança institucional, pela diminuição do custo dos impostos ou pela desburocratização da sociedade, mas, principalmente também porque o país continua sem infraestrutura adequada para um ritmo de crescimento a taxas altas. E este sim é um papel essencial do governo que não tem sido feito. Claro que não faltam desculpas para explicar a ineficiência do papel do Estado como gerador das condições básicas e essenciais para o desenvolvimento econômico e social da nação. O governo Lula tenta caracterizar a precariedade da atual infraestrutura como resultado de décadas de descaso e de pouco investimento, porém, é preciso lembrar que já está no poder a sete anos, ou seja, já é um governo de longo prazo, portanto, não pode mais se eximir de sua parte de responsabilidade.
E suas falhas são gritantes quando se trata de obras de infraestrutura. Nem é preciso citar os casos escabrosos como o da “Operação tapa-buraco” das estradas brasileiras ou os gastos faraônicos em aeroportos, mas, basta dar uma olhada no balanço de obras do seu primeiro mandato e, também, os parcos resultados do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). Os números oficiais indicam que menos de 50% das metas planejadas do PAC foram atingidas e é preciso ver que aí se incluem os investimentos privados entre 2007 e 2009. Segundo a Associação Brasileira da Infraestrutura e Indústrias de Base (Abdib), o Brasil precisa investir R$ 88 bilhões a cada ano para equacionar os problemas. Estima-se que o governo petista investiu no período apenas R$ 24 bilhões/ano. Não faltam indicadores que mostrem a inércia do governo federal. Nos transportes, 70% da malha rodoviária estão ruins ou em péssimas condições de rodagem, daí as perdas na produção de grãos, que chegam a 12% da safra de arroz e a 7% da de soja. Sem falar nos números recordes de acidentes com mortes originados por estas más condições. Na área de energia, a recente queda em cascata da energia de uma das principais linhas de transmissão, a partir de Itaipu, deixando o Centro-Sul do país às escuras e, na sexta-feira passada, a queda em Rondônia e Acre são alertas sobre a falta de investimentos. E para o país crescer 4,5% ao ano, será preciso adicionar 4.100 megawatts de eletricidade/ano (pouco mais de um terço da capacidade de geração de Itapu). Sem isto, o risco de um novo apagão é enorme, nos próximos anos. Bastam estes dois setores para mostrar como a nossa competitividade é afetada pela falta de eficiência de um governo que cobra tudo do cidadão e da iniciativa privada, mas, apesar da intensa propaganda oficial, não tem feito seu dever de casa. Nem melhora seus gastos nem investe no que é essencial para garantir o crescimento econômico.

quinta-feira, janeiro 07, 2010

SOBRE A NECESSIDADE DE...



EDUCAÇÃO NO SHOPPING PORTO VELHO
Recentemente por uma questão de comodidade tenho ido muito, no período noturno, até a praça de alimentação do Porto Velho Shopping Center. Minha família até estranha por nunca ter sido dado a andar em shopping fora do Estado. O fato é que nós mudamos (mesmo um papagaio velho como eu) e assim passei a freqüentar o local., apesar da dificuldade que se tem de arranjar uma mesa e o problema de quem bebe um chopinho que é o de ter que levantar e ir comprar toda vez que precisa de outro. A questão, porém, que desejo tratar transcende a praça de alimentação e passa por dois problemas sérios e interligados: lixo e má educação.
É claro que a destinação do lixo, desde que os homens passaram a viver em grandes aglomerações, sempre foi um problema e um desafio. Com o surgimento das cidades, depois da urbanização crescente, o problema aumentou de maneira exponencial. Também não se desconhece que, em nenhuma outra fase do desenvolvimento humano, produziu-se tanta quantidade de lixo que derivam basicamente do aumento populacional e da intensidade da industrialização. Também não é novidade que, nesta questão, o Brasil ainda é um país muito atrasado. Em todos os sentidos: seja na destinação do lixo como nas tecnologias utilizadas no seu tratamento. Mais ainda: o comportamento de grande parte da população em relação ao lixo é primário e irresponsável. Claro que isto é um reflexo das condições de pobreza e da falta de educação, porém, sempre se espera que em determinados locais, como um shopping center, isto seja atenuado pela gestão e os cuidados que um investimento deste tipo requer. Infelizmente não é o que acontece no Porto Velho Shopping seja na praça da alimentação, seja em algumas lojas ou, dizem as mulheres, nos banheiros femininos, que se transformam em verdadeiras pocilgas e, neste caso, penso que se trata de um problema de pessoal ou de administração.
É verdade que a população de Porto Velho não colabora. Um exemplo bastante preciso disto é dar um pulo nas Lojas Americanas do shopping. Desconheço, e meu filho, Igor, que se diz um cliente cativo da loja em outros estados, disse que também não viu uma unidade desta rede tão dessarrumada e descuidada. Claro que vejo também a quantidade de gente que circula por lá e os absurdos que fazem de abrir embalagens que não se deve abrir ou, como foi comum neste fim de ano, fazer o absurdo de colocar os filhos sobre brinquedos da loja apenas para tirar fotos, além, das tentativas de furto que sempre existem. No entanto, o enorme fluxo de pessoas exige mais organização ainda e até mesmo um serviço de educar os clientes orientando sobre o que podem ou não podem fazer. Infelizmente é a nossa realidade: o Porto Velho Shopping também ao modernizar a comercialização terá exerce um papel educativo, pois, muitas pessoas, não sabem seus limites nem suas obrigações. Tanto que é comum na própria praça de alimentação não cuidarem de colocar as bandejas no local adequado, nem de jogar fora os resíduos nas lixeiras. Claro que a falta de educação e a maior dificuldade de tratar o lixo são coisas interligadas, porém, um estabelecimento complexo como é um shopping deve mobilizar seus lojistas e sua publicidade para a educação popular sobre o uso de um equipamento que é um dos sintomas de modernidade e de civilização e, por isto, deve ser tratado com o zelo e o carinho com que se prega ser indispensável tratar o meio ambiente. Há também o aspecto de embelezamento: o Shopping Porto Velho é um dos locais aprazíveis da cidade e, portanto, merece que a população cuide de ajudar a transformá-lo no centro de compras e lazer a que se propõe ser o que somente será possível com educação e bons cuidados ambientais.

domingo, dezembro 20, 2009

A HORA DE SERRA



A recente pesquisa feita pelo Instituto Vox Populi, para a revista IstoÉ, mostra que o governador de São Paulo, José Serra (PSDB), continua cada vez mais firme na liderança da corrida presidencial, com 39% das intenções de voto. Depois surgem empatados tecnicamente, em segundo lugar, Dilma Rousseff (PT), com 18%, e Ciro Gomes (PSB), com 17%. A pequisa ganha mais relevância por dois fatos recentes. O primeiro é que se trata da primeira pesquisa feita depois do programa partidário do PT, exibido no dia 10 último, em rede nacional centrado nas figuras de Dilma e de Lula da Silva. Assim o que os dados dizem é que, mesmo com a imensa exposição e com a ida de Lula e Dilma tentando transformar Copenhague em palco eleitoral, o desempenho da petista, tecnicamente, não variou em relação a outro levantamento do Vox Populi, feito dias antes de o PT ocupar o horário nobre da televisão por 10 minutos, e avançou apenas um ponto percentual, ou seja, dentro da margem de erro, em relação à pesquisa do Ibope. Em outras palavras, Dilma não decola e, para piorar, os especialistas, com bases nos dados da pesquisa, afirmam que com 41% de rejeição sua possibilidade de crescimento não é muito grande, em outras palavras, Lula transfere votos sim, mas, em grande parte já transferiu quase tudo que podia por Dilma ser uma completa desconhecida que ele vem tentando com enorme esforço transformar em uma figura pública.
O segundo fato relevante é, sem dúvida, a desistência do governador de Minas Gerais, Aécio Neves, que, com enorme bom senso e desprendimento pessoal, compreendeu que a hora é de Serra abrindo caminho para a passagem de quem apresenta, como na eleição anterior, o maior cacife eleitoral. É um gesto que, de um lado, fortalece a candidatura de Serra, mas, por outro não deixa de também dar maior dimensão à própria figura do governador mineiro que poderia tentar fazer o que Alckmin fez e acabou sendo um desastre para seu partido. Sendo um político novo e com amplo trânsito com o governador paulista a saída de Aécio é um passo estratégico para fortalecer sua imagem pública e, eleito, como será, senador numa futura administração tucana terá um imenso espaço para consolidar-se com uma opção presidencial no futuro.
Tudo parece indicar que a hora é mesmo de Serra. Afinal os dois mandatos de Fernando Henrique e de Lula foram conseguidos graças a manter patamares de intenções de votos semelhantes aos ostentados por Serra e, para melhorar sua situação, depois dos problemas em que Temer esteve envolvido a sugestão de Lula de três nomes para vice azedou as relações PT/PMDB. O que deve ficar pior na medida em que as eleições nos diretórios estaduais de ambos os partidos escancarou o racha nos interesses estaduais mostrando que a repetição da aliança com o PMDB nos Estados está cada vez mais complicada. Em conversa com auxiliares nos últimos dias, o presidente Lula da Silva admitiu que, em pelo menos cinco Estados importantes, seu candidato terá que subir em dois palanques (Minas Gerais, Bahia, Rio de Janeiro, Santa Catarina e Pará), mas, há problemas em outros estados que nem se pensava como em São Paulo, Ceará, Paraná e Goiás com sérias dificuldades de soldar uma união em torno de Dilma. Há mesmo no PT quem considere que seria bem melhor trocar de candidato.

segunda-feira, dezembro 14, 2009

A agropecuária sob uma nova inquisição



Recebi da Associação dos Pecuaristas de Rondônia-APR/RO o livro de Nelson Ramos Barretto e Paulo Henrique Chaves “Agropecuária-Atividade de Alto Risco” editado pela Editora Artpress. Que a agropecuária é uma atividade de alto risco, para quem é economista como sou, não é nenhuma novidade. Pode-se dizer até como Sherlock Holmes que “È elementar, meu caro Watson”. A questão é que o livro é de grande valia e revelador das dificuldades adicionais que, no Brasil, o agronegócio tem que enfrentar e vencer. Neste sentido é um livro indispensável por revelar muita coisa que permanece oculta sob os conhecidos chavões sociais que são alimentados por um projeto de estatização que, em nome de uma suposta pobreza, na verdade solapa a eficiência econômica e os valores democráticos.
É espantoso o que o livro elenca de leis prejudiciais, de intervenções maléficas do governo que são, sempre, contra os que trabalham por criar riquezas a partir da terra. Principalmente são dissecadas as formas solertes de atentado contra o direito de propriedade, que é uma ameaça constante brandida contra o setor pelo Movimento dos Sem Terras-MST, alimentado por verbas públicas e, muitas vezes, por organizações religiosas que ultrapassam os limites de seu sacerdócio para, em nome de uma melhor distribuição social, fazer política ignorando que, conforme as palavras de Jesus, a função religiosa se destina a modificar a realidade não pela insuflação ao ódio e a luta de classes, mas, pela mensagem do amor.
Como muito bem acentua o livro a questão da reforma agrária, na atual realidade, “é uma incoerência governamental inusitada no planeta” na medida em que, como comprovado pelas próprias pesquisas públicas, os novos assentamentos, quando conseguem produzir, produzem uma quantidade irrisória e sem sustentabilidade econômica, além de ser comprovado que respondem por 20% do desmatamento da Amazônia. Efetivamente os assentamentos rurais, com áreas cada vez menores, que, supostamente, deveriam ser para diminuir os conflitos no campo e proporcionar aumento da produção proporcionando renda aos “sem terras” somente tem servido para criar uma indústria de vendas de lotes e aumentar a tensão no campo. Neste sentido o livro é precioso ao acentuar que “Há no país cerca de 4,5 milhões de propriedades rurais, número equivalente à soma das propriedades rurais dos Estados Unidos, Canadá, Austrália e Argentina juntos” e que, apesar do governo destinar ao Ministério do Desenvolvimento Agrário, em 2008, R$ 2,5 bilhões, cerca de duas vezes e meia o que destina ao Ministério da Agricultura e Pecuária o que se faz, de fato, é incentivar problemas no campo e a destruição do meio ambiente, pois, apesar de hostilizado por agroreformistas, organizações religiosas e ONGs é o agronegócio quem produz com eficiência. E o agronegócio produz para sustentar seus algozes na medida em que, para as empresas e empreendedores são exigidos índices de produtividade enquanto nada é exigidos dos assentados. Ou seja, é uma aberração que se consolida ainda mais com as exigências feitas por leis esdrúxulas, como a do georeferenciamento, que demonstra a intervenção desastrada, estapafúrdia e ditatorial de um estado que oprime a quem lhe dá o pão e o leite. Recomendo a leitura que é esclarecedora sob todos os pontos de vista.

sábado, dezembro 05, 2009

Pela internacionalização do Aeroporto Jorge Teixeira



O Brasil, todos sabem, é um país continental que possui 5.507 municípios. Só isto já demonstra a importância dos transportes, mas, quando se pensa em transporte no país ainda se pensa, essencialmente, em estradas embora todos saibam que as hidrovias e as ferrovias deveriam ter tido mais atenção e investimentos. O fato inconteste é que sem transporte o Brasil foi, no passado, um país desarticulado, um imenso arquipélago com ilhas isoladas, vivendo em função dos seus limites territoriais. Somente com a construção de Brasília e com a visão grandiosa de JK de abrir estradas, com todos os erros dela decorrentes e perpetuados, uniu os 8.5 milhões de quilômetros quadrados de nosso território por uma malha rodoviária em condições ruins e em detrimento da rede ferroviária e da navegação de cabotagem, todavia, consolidou de fato um país.
Até hoje falta uma política de transporte eficiente em nosso país o que causa graves prejuízos à nossa economia. Recentemente um estudo do Banco Interamericano de Desenvolvimento-BID, por exemplo, demonstrou que esta é uma grave falha que implica no fraco desenvolvimento dos paises latino-americanos de uma forma geral. O que pouca gente não sabe é que existem poucos países continentais como o nosso. Contam-se nos dedos, pois, há apenas do nosso tamanho os Estados Unidos, Canadá, Austrália, China e Rússia. E, em países assim, tudo é longe e a única ferramenta eficiente para a sua sustentação econômica, integração e desenvolvimento são as asas de seus aviões. O conceito que fazemos de transporte aéreo é que os aviões servem somente para transportar executivos e turistas ricos em suas viagens de negócios ou férias, mas, não é verdade. Efetivamente a maior parcela de eficiência e rapidez dos serviços que recebemos é proveniente da eficiência dos nossos aviões. Nem precisamos lembrar dos casos extremos de resgate aeromédico, transporte de órgãos para transplantes, todavia, há muitos outros como os correios, compensação bancária, compensação de vale refeição e cartões de crédito, jornais e revistas para regiões remotas, encomendas urgentes, peças de reposição, deslocamentos urgentes, viagens a negócios, turismo, pulverização das lavouras, enfim, são inúmeros os casos em que se depende da eficiência dos nossos aviões. E o Brasil possui a segunda maior frota de aviação geral do mundo, a segunda maior frota de helicópteros, aviões agrícolas, aeronaves executivas e a segunda maior infraestrutura aeroportuária do planeta. Se tudo isto parar durante duas semanas imagine o caos que não teríamos. Aliás, já tivemos com o apagão aéreo um aperitivo disto. Porém, quem mais sentiria seriam os executivos. Já pensou um executivo se deslocando num carro ou ônibus de Porto Alegre à Porto Velho para uma reunião de negócios? Lembro sobre a importância do transporte aéreo para cobrar a internacionalização do Aeroporto Jorge Teixeira que só existe de internacional o nome. Qual a razão para tão pouco empenho em internacionalizar nosso aeroporto quanto ele é essencial para a integração latino-americana? Este mês mesmo tivemos a visita de uma comitiva de peruanos que teve de ir até São Paulo para vir à Porto Velho. O mesmo acontece com chilenos e bolivianos. È incrível que o aeroporto internacional de São Luiz viva às moscas, sem turistas e nós, aqui, com uma grande demanda não podemos ter voos internacionais por falta de alfândega. È preciso que nossas lideranças políticas despertem e se mobilizem pelo transporte aéreo que, no nosso caso, exige, impõe uma rápida internacionalização efetiva do aeroporto do Belmont. A integração, a Saída do Pacífico se fará pelas estradas, porém, os executivos para fazer negócios precisam do transporte aéreo, daí, ser imprescindível nosso aeroporto ser internacional diminuindo as distâncias e criando a rapidez e a proximidade indispensável para que nossas relações com os vizinhos se concretizem e se fortaleçam. Internacionalização já!

quarta-feira, novembro 18, 2009

AINDA SEM COMBUSTÍVEL PARA DECOLAR



Quem entende de economia, e se preocupa com o país, sabe que, para existir de fato um crescimento sustentável, é preciso que o país cresça durante, pelo menos, uns quinze anos acima de 5% ao ano. O cálculo tem uma razão de ser e se baseia no crescimento populacional, na renda nacional e na necessidade de manutenção de um patamar de investimentos mínimos. È claro, que o governo atual, afirma, ufanisticamente, que o país está no rumo certo, que, agora, as coisas se ajeitaram e que o Brasil vai decolar. É o papel dele e todo governo faz isto, embora o de Lula da Silva tenha uma grande eficiência na propaganda. Aliás, nunca antes neste país um marketing governamental de tão repetido teve tanto efeito.
A questão, porém, quando examinada do ponto de vista econômico, repousa em que o grande mérito do governo Lula tem sido o da expansão do crédito. Se, para ter investimentos é preciso consumo, como nos ensinou na prática Keynes, o consumo hoje, no Brasil, está muito apoiado no crédito, daí não se poder ter previsões otimistas sobre o nosso futuro na medida em que seus pés são de barro. Como se sabe o consumo feito em cima do crédito tem limites evidentes, entre os quais se inclui o da capacidade de produção. Sem a certeza de um consumo permanente não se produz e o normal é que se importa, mas, não é viável ser um país que importa tudo e se limita a exportar “commodities”, como parece ser a trajetória brasileira.
A realidade nua e crua é que o consumo das classes C, D e E avançou muito, todavia, não se baseia numa melhor distribuição de renda nem mesmo no decantado Bolsa Família, mas sim na tomada de crédito e numa "demanda reprimida" que é muito mais reflexo da carência de bens que vem sendo atendida com o comprometimento do futuro. O Bolsa Família, assim como as aposentadorias, tem sido a base de um endividamento que saca sobre o futuro e mantém artificialmente uma demanda que é feita mais por necessidade que por um consumo consciente. O grave disto é que, como indicam as estatísticas, não há uma formação líquida de capital, ou seja, naturalmente não se atrai capital produtivo, para crescer o produto interno, nem o governo tem uma política para atrair investimentos produtivos, que geram emprego e renda de forma sustentável. E, sustentado numa política monetária ortodoxa, sempre que o produto cresce se aumenta a taxa de juros porque a economia se aquece, o que gera um "círculo vicioso", de vez que sobem os custos para o empresário captar dinheiro, o que inibe o investimento produtivo. Esta é a razão primordial pela qual, seja com FHC ou Lula, permanecemos presos ao “voo de galinha” alternando taxas altas e baixas do produto. Soma-se a isto a falta de infraestrutura no país para permitir mais investimentos. Assim, apesar da aparente segurança com que enfrentamos a crise mundial, para ser um país de futuro, ainda precisaremos de muitas reformas e de investimentos na educação, na economia e na infraestrutura, para que o crescimento sustentável não fique apenas na propaganda oficial.

Ilustração: The Economist

segunda-feira, outubro 26, 2009

ACIMA DO BEM E DO MAL



Se há uma constatação ultimamente sobre o comportamento de Lula é o de que, para quem não lê nada, parece que ele andou lendo a Bíblia. No entanto, como parece que faz parte do seu comportamento e de seu partido, ele fez dela uma leitura muito peculiar. Assim, o neo-divino-sindicalista se apresenta como quem abriu o mar que separava o Rio de Janeiro das Olimpíadas, faz a água se multiplicar no São Francisco como meio para que se multipliquem os peixes dos votos, ceia com os neo-apóstolos do PMDB para selar uma aliança para 2010 e, num sincretismo inédito, até tenta conciliar Jesus Cristo com Judas para explicar suas laicas razões para uma coalização tão esdrúxula, pelas características da política brasileira, que, pelo que deixou entrever, se Jesus Cristo tivesse que trilhar seus caminhos teria que fazer aliança até com o diabo. Deus me livre de tentar explicar ou criticar tão complexas elucubrações, mas, seria bem melhor do que utilizar metáforas religiosas distorcidas, se Lula, que é adepto do simplismo em tantas coisas, também o fosse na questão do bem e do mal, na questão da ética que, como bem lembrou, de forma até suave, Dom Dimas, não permite dualidade nem interpretações, ou se é puro ou não é. E, no caso de Lula, parece fora de questão que se juntam os lados santos com outros tão sombrios que a sombra do diabo parece muito maior.
Num balanço o quanto possível isento Lula fez alguma coisa em dois governos? Fez. Não sejamos injustos, apesar de que sua popularidade atual ser feita mais dos erros que dos acertos, de uma propaganda consistente, centralizada, contínua que não encontra adversários na medida em que as forças de oposição, em especial os sindicatos, foram calados pela cooptação e a imprensa, que o governo alega ser contra ele, é, fundamentalmente, monolítica e acritica na difusão de seus “memoráveis” feitos a ponto de quem aponta os problemas de má execução governamental, de aparelhamento e de uso da máquina ou de trapalhadas na área internacional como o apoio a Chávez, os erros com a Bolívia e Paraguai e o monumental tropeço de Honduras recebam a pecha de antinacionalistas ou de “direitista”. È tão flagrante o cerco à imprensa que será impossível, mesmo entrando no Google, encontrar uma foto de Lula com José Dirceu ou com Delúbio Soares. Por que será? Ao menos, na publicidade parece que o “puro” se afasta dos pecadores.
Há, porém, fatos que não se pode apagar. A grossa bandalheira do Mensalão é um deles. A união com as figuras que demonizou no passado, como José Sarney, que sustenta na presidência do Senado, o apoio a figuras como Fernando Collor, Renan Calheiros, Jader Barbalho ou Romero Jucá ou a necessidade de esvaziar comissões parlamentares, como as da Petrobras ou do MST, são mais importantes que as reformas necessárias para o país, que as ações que poderiam melhorar nosso futuro. Tudo se obscurece diante do único plano real: eleger o sucessor, ou melhor, a sucessora. O grande problema é que, para ser o “divino” Lula queimou todos os seus aliados, como Zé Dirceu, Mercadante, Antonio Palocci e tantos outros. Pegou o possível que é Dilma, mas, será preciso um milagre de verdade para soldar na marra as barganhas e conchavos que se fazem necessário para seu projeto ter o mínimo de viabilidade. De qualquer forma vai passar o seu último ano não querendo consertar o país e sim querendo submeter o país à sua vontade. Não parece ser uma tarefa de quem trabalha pelo bem, mas, como se sabe os deuses, mesmo sindicalistas, se consideram acima do bem e do mal.

quarta-feira, outubro 14, 2009

POR UMA NOVA POLÍTICA PARA A AMAZÔNIA



Copenhague pede um ponto de inflexão
Em dezembro próximo se realiza a Conferência de Copenhague, na Dinamarca, cujo principal objetivo é o de atualizar as decisões tomadas, em 1977, em Kyoto, no Japão, quando os países participantes da Convenção do Clima iniciaram uma tentativa de evitar o aquecimento da atmosfera e as mudanças climáticas que, naquela época, já apresentavam os sintomas que, hoje, são muito mais visíveis e já era claro o papel fundamental da queima dos combustíveis fósseis (petróleo, carvão e gás) como uma de suas causas. Ocorre que uma coisa são as boas intenções; outra é, malgrado elas, o desprendimento necessário para reduzir os padrões de riqueza e de consumo ou encontrar substitutos adequados (e econômicos) para as formas vigentes de energia. Um balanço evidente é o de que somente um grupo de países europeus levou a tarefa a sério. E os países em desenvolvimento, os denominados emergentes, em especial a China, Índia e o Brasil, sempre tiveram mesmo como meta o desenvolvimento (crescimento melhor definiria a meta) do que diminuir as emissões e prejudicar o aumento dos seus produtos internos. O certo é que se avançou muito pouco, apesar de se constatar que com os avanços da tecnologia se produz muito mais com menor gasto e também se usa muito mais fontes de energia renováveis, porém, o esforço ainda é diminuto em relação aos danos que se causa ao planeta.
Claro que não é um esforço simples nem fácil. Olhando para o passado se vê que os países ricos poluem a mais de cem anos e que só agora os países em desenvolvimento se tornaram emissores importantes, daí o argumento, até certo ponto lógico, de que é injusto exigir que estes países reduzam as emissões, exceto se pagos pelos ricos. A lógica termina de ser lógica quando se verifica que, ao poluir, estamos prejudicando a nós mesmos, logo não se trata de uma tarefa dos outros, mas, nossa na medida em que a questão é de sobrevivência mundial. Também os tempos são outros. Quando os países desenvolvidos poluíram não tinham a consciência que existe hoje. No entanto, apesar da entrada no palco muito depois, os emergentes respondem atualmente por metade das emissões de gases de “efeito estufa”, ou seja, a participação dos países em desenvolvimento é essencial para qualquer esforço sério de melhoria climática.
É preciso que haja, por parte de todos, um maior comprometimento para que se reduzam as emissões para algo entre 25% a 40% até 2020, o que é uma meta factível, e a Conferência de Copenhague pode ser um marco desta mudança que deve preencher o fosso entre discurso e ação. O Brasil deve ter um papel maior e deve ultrapassar o discurso que tem sido sua única contribuição real. Neste sentido é preciso rever, em primeiro lugar, sua política ambiental para a Amazônia na medida em que é o desmatamento nossa fraqueza maior e este não será, como já se comprovou, reduzido efetivamente com a mera ação repressiva. É preciso mudar a política ambiental para a Amazônia e prover meios para que haja preservação sem impedir a sobrevivência e o desenvolvimento de sua população.

sábado, setembro 26, 2009

A Hora das Hidrovias



O nome deste artigo é o título de um livro, se bem que também com o subtítulo “Estradas para o Futuro do Brasil” de Geraldo Luis Lino, Lorenzo Carrasco e Nilder Costa, que me foi presenteado pelo Sebastião Conti sempre atento aos problemas relativos à Rondônia. O tema, além de fascinante, deveria ser prioridade máxima nacional dado que o transporte hidroviário é o mais barato e eficiente para movimentação de grandes cargas a longa distância. Acrescente-se que o Brasil, o dado consta do livro, tem 44.000 km de vias navegáveis das quais se utiliza apenas 8.500 km e a maior parte na Amazônia. É uma prova de nossa ineficiência no setor, pois, os Estados Unidos utilizam regularmente 47.000 km, a União Européia 37.000 km e a China mais de 100.000 km. Existem razões históricas para semelhante descaso, porém, nos encontramos num ponto de inflexão na medida em que este passou a ser um gargalo decisivo para o nosso desenvolvimento.
Em apoio a esta tese, pelo menos, surgiu uma boa novidade quando em entrevista ao jornalista Sérgio B. Mota, do Monitor Mercantil (2/09/2009) o superintendente de Navegação Interior da Agência Nacional de Transportes Aquaviários (ANTAQ), Alex Oliva, que, afirmou que novas hidrelétricas somente seriam aprovadas se forem acompanhadas de eclusas, no âmbito da Política Nacional de Recursos Hídricos (de 1997), que estabelece o uso múltiplo dos rios. Segundo ele, a determinação já valerá para as duas usinas do rio Madeira - Jirau e Santo Antônio, ou seja, as eclusas passam a ser uma prioridade e que 2010 será o ano das hidrovias. É preciso que, efetivamente, esta intenção se transforme em realidade, de vez que quando se defende, como tantas vezes tem se defendido a integração sul-americana nos discursos, o que não se destaca como essencial é que ela somente acontecerá com infraestrutura, com a integração física do continente. Só acontecerá com a implantação de um sistema moderno e eficiente de transportes e energia que integre o Centro-Oeste, a Amazônia Ocidental brasileira e a Bolívia por meio do que já se convencionou chamar de “corredores de desenvolvimento”. Para tanto as hidrovias são fundamentais inclusive como a visão premonitória do engenheiro militar Eduardo José de Morais, em 1869, já pregava via a ligação das duas maiores bacias continentais, a do Amazonas e do Prata. Visão retomada com maior abrangência pelo professor baiano Vasco Azevedo Neto, que defendeu o projeto que batizou de “Grande Hidrovia” centrado no eixo Orinoco-Amazonas-Prata. Nós, de Rondônia, da Amazônia, precisamos entender que a hora é esta. Precisamos das hidrovias como meio de transporte assim como não podemos abrir mão de exigir mais ferrovias. No entanto, com o Complexo do Madeira, as eclusas e as hidrovias se tornarão um imperativo amazônico e nacional. Elas serão o caminho inicial e inevitável da integração sul-americana.

quinta-feira, setembro 24, 2009

Uma grande gafe diplomática



Esta questão de Honduras é complicada e complexa, mas, de forma indevida, o Brasil acabou por se envolver em problemas internos de outra nação. È preciso lembrar que José Manuel Zelaya Rosales foi eleito presidente de Hon¬¬duras em 2005 e que, recentemente, anunciou a intenção de realizar uma consulta popular para verificar a possibilidade de que a população hondurenha, nas eleições gerais previstas para o mês de novembro deste ano, se manifestasse também sobre uma mudança da Constituição da República de Honduras. Não uma mudança qualquer, mas, sim uma tentativa de continuidade no poder contra a qual o Congresso Nacional daquele país manifestou-se contrario e, inclusive, aprovou uma lei para impedir a realização de qualquer espécie de referendo ou plebiscito nos 180 dias antes das eleições. Com isto, a consulta de Zelaya não teria validade jurídica e também o chefe do Estado Maior das Forças Armadas, Romeo Vasquez, recusou-se a dar apoio logístico à consulta tendo, por isto, sido afastado de suas funções. Para, supostamente, enterrar de vez a pretensão de continuidade de Zelaya uma decisão judicial, avalizada pela Su¬¬prema Corte, indicou que a consulta era in¬¬constitucional. Mas isto não o demoveu de suas intenções de se perpetuar no poder, daí que se há um golpista este é o próprio Zelaya.
Somente a visão torta de que, contra as leis e os poderes constituídos, a decisão deveria estar nas mãos do povo é que sustenta que Zelaya teria sido vítima do golpe, mas, de fato, em 28 de junho, quando os militares invadiram o palácio presidencial, prenderam o presidente e o enviaram para fora do país estava, como no passado fizera o Marechal Lott no Brasil, evitando o golpe. Com Zelaya fora do poder, o governo não foi reconhecido e nem aceitou os reiterados convites da Organização dos Estados Ame¬¬ricanos para uma solução negociada. E Zelaya lançou uma campanha cujo mote era: pátria, restituição ou morte. É um direito dele, mas, qual a motivação de outros países para embarcar numa barca furada desta? De qualquer forma tudo estava bem enquanto as manifestações sobre a situação de Honduras concentravam-se no campo dos apelos diplomáticos, mas, com a volta Zelaya ao país tudo mudou. Não somente por ter tido apoio da Venezuela para ser levado até lá como pelo fato de que, a partir da embaixada brasileira, mesmo sem pedido de asilo político, passou a conduzir ações políticas que não condizem com o comportamento que nosso país deveria adotar, caso Zelaya estivesse na embaixada sob a condição de asilado político. Sem exigir esta condição para a permanência do político na sua embaixada e o deixando incitar a população, o Brasil não somente toma partido como transforma sua embaixada num centro de insurreição política. Tanto que ninguém na embaixada se opôs a Zelaya fazer discursos para o povo diretamente do prédio. É contra nossa tradição diplomática este tipo de comportamento que age de modo a interferir em assuntos internos de outra nação. Não se pode negar a hipótese de excessos por parte das forças hondurenhas, mas é inegável que Zelaya contribuiu para incitar a violência em Honduras. E o pior de tudo com a conveniência e o aval do governo brasileiro. É mais uma triste erro de nossa diplomacia recente que, agora, terá que dar um jeito de sair desta enrascada.