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quarta-feira, abril 30, 2025

O SUCESSO DO MOVIMENTO ANTI-PC

 


Há, agora, uma grande reação ao “politicamente correto” que, como não se pode desconhecer, está intimamente associado a um conjunto de normas sociais que pretendem evitar palavras e comportamentos que sejam considerados ofensivos ou discriminatórios. Há razões fundadas para isto, pois, o exemplo mais obvio é o de criticarem Monteiro Lobato por considerarem parte de sua obra infantil “racista” (qua!qua!) ou, outro exemplo absurdo, é de associar a Gilberto Freyre, um conservador, mas, reconhecidamente adepto da multirracionalidade, inclusive, de certa forma, seu livro é um elogio ao Brasil por sua miscigenação, de racista, anti-semita, xenófobo, machista e sei lá mais o quê. Vamos ser claros: Gilberto Freyre usa, e abusa, de adjetivos e de opiniões no seu livro (e ninguém é obrigado a concordar com elas), mas, enciclopédico como foi, escreve sobre quase tudo, de alimentação passando por agricultura e até mesmo genética, com tantas teses, dados e argumentos que seria impossível estar certo em todas. Como, porém, compreender o Brasil, e Portugal em parte, sem ler “Casa Grande & Senzala”? Pode-se acusá-lo de tudo menos de não ter escrito um livro importante e polêmico. Mas, pela ótica do politicamente correto, não muito diferente da inquisição, seus livros deveriam não ter sido escritos e, como foram, mereceriam a fogueira. E, no fundo é isto que faz com que o “politicamente correto” seja uma forma de totalitarismo. É, sem sombra de dúvidas, uma imposição de censura às ideias e aos comportamentos que limitam a liberdade de expressão. Mais do que isto, sob o argumento bom mocista de querer impor o que, supostamente, é bom, no fundo, existe a ideia de promover uma visão única, de homogeneizar o pensamento. É um ótimo instrumento para o controle social, de vez que todos os regimes totalitários desejam calar a voz dos opositores, seja impedindo suas falas, seja banindo a oposição, prendendo, acusando de “fake news” quem pensa diferente ou cancelando e, modernamente, retirando os meios de sobrevivência e até mesmo impedindo acesso às mídias sociais. A evidência moderna é a de que o “politicamente correto” tem servido muito para a manipulação do discurso público para moldar a percepção social (os anúncios politicamente corretos de hoje são peças toscas e, como diria o Falcão “Ó gente feia”) visando confirmar a narrativa dominante e usando, descaradamente, a demonização das divergências. Enfim, a intenção do politicamente correto de promover respeito e inclusão somente semeia controle, acirramento e ódio. Basta ver a perseguição feita aos humoristas que, hoje, fazem piadas com receio de ir para a cadeia. É como se, na vida real, não existisse preconceitos, rejeições, preferências, bondade, má intenção e mesquinhezes que, no fundo, representam quem somos e como ou quanto podemos melhorar.  Não será a nova fala, nem os eufemismos, redefinições ou invenções semânticas ou etimológicas que irão resolver as disputas humanas e suas diferenças ou aversões. Pode até parecer que resolvem, mas somente criam outras. O politicamente correto não é apenas autoritário. É sim uma manifestação do totalitarismo travestido de boas intenções.

 

domingo, março 30, 2025

O TRANSPORTE AÉREO PRECISA MUDAR DE MODELO


A GOL Linhas Aéreas divulgou que teve um prejuízo de R$ 6,07 bilhões em 2024, quase 5 vezes maior que em 2023, fruto da desvalorização cambial, do aumento de despesas financeiras e dos custos operacionais. Não é um fato isolado, pois a Azul, mesmo transportando 30,8 milhões de passageiros, uma alta anual de 5,4%, também reportou prejuízos, no ano de 2024, de R$ 8,2 bilhões. Como não sou um especialista em aviação, mas um curioso, sempre tenho me valido do conhecimento do meu colega de profissão, o professor Lucio Morais, da UNIR, Universidade de Rondônia, que me abastece de informações sobre o tema.

E foi através dele que soube que, no mundo, a desregulação do transporte aéreo (airline deregulation) ocasionou um crescimento de 1980, quando havia 640 milhões de passageiros, para, em 2019, existirem, voando pelo mundo, 4,46 bilhões, ou seja, quase 4 bilhões de passageiros incluídos no mercado em quatro décadas. Este é um dos problemas do Brasil: apesar de ter começado um processo semelhante, nos anos 2000,  com flexibilização da regulação de preços das passagens aéreas domésticas, criado um regulador civil ,com a criação da Lei da Anac, em 2005, e , antes do final da década, ter feito a flexibilização da regulação de preços das passagens aéreas internacionais, no entanto, apesar de outras medidas pontuais, o processo nunca foi concluído, de forma que continuamos a ter uma aviação muito mais regulada que  os EUA e Europa. Um dos problemas disto é que não existe, no Brasil, o mercado de transporte aéreo conhecido, no mundo, como low-cost (baixo custo), cujo surgimento foi um dos melhores resultados da desregulamentação. Esta inovação, no mundo, massificou o transporte aéreo. Em 2019 a participação de mercado das empresas de baixo custo foi de 44,5% na Europa, 35% na América do Norte e 32,5% na Ásia. E no Brasil ainda não chegou. Não há dúvida nenhuma de que são as falhas do governo que impedem sua existência e a consolidação da desregulação econômica do transporte aéreo no Brasil. Mesmo para um analista, sem tanto conhecimento, não existe um mercado de empresas aéreas low-cost por falhas do governo, legislações, regras ou práticas de (múltiplos) governos (incluindo Executivo, Congresso e Judiciário) que produzem custos mais altos e enorme insegurança jurídica e econômica na aviação. E o que temos tentado mudar esbarra sempre em problemas governamentais, como, por exemplo, a aviação regional. É uma constatação frustrante, mas não há para onde correr: as soluções dependem basicamente do poder público. Nós, aqui da Amazônia, do Norte sentimos mais do que outras regiões os problemas e os custos da aviação, porém não será possível mudar este panorama, que implica, em termos de país, que somente cerca de 16% das pessoas, com toda a facilidade de crédito, tenha acesso ao transporte aéreo, sem uma mudança das regras. São elas que causam prejuízo para a aviação existente e restringem seu enorme potencial de crescimento.  E a regulação que produz custos mais altos e enorme insegurança jurídica e econômica para as empresas, inclusive com judicializações completamente desnecessárias. A inevitável e indispensável conclusão é de que precisamos avançar urgente na desregulamentação do mercado de aviação para criar um mercado estável, consolidado e com concorrência para atender a enorme demanda contida do transporte aéreo.


quinta-feira, março 06, 2025

O SUCESSO DO DIA DO CONSUMIDOR

 


Criado pelo então presidente dos Estados Unidos, John F. Kennedy, para ressaltar que os consumidores tinham direito à segurança, informação e liberdade de expressão, como Dia Mundial dos Direitos do Consumidor comemorado, pela primeira vez, em 15 de março de 1962, a data provocou debates e estudos tornando-se um marco na defesa dos direitos dos consumidores. No Brasil, porém, isto aconteceu muito tempo depois e a comemoração se centrou mais em ações promocionais com foco nos clientes e se consolidou somente em 2014, muito por conta da iniciativa do comparador de preços Buscapé. Esta consolidação ocorreu em virtude da campanha que instituiu a data em parceria com mais de 500 empresas de e-commerce que atuavam nacionalmente, como Walmart, Americanas, Netshoes, Centauro, Dell e outras varejistas digitais que se engajaram na celebração no país.

O Dia do Consumidor, todavia no nosso país tem suas peculiaridades, pois além de ser voltado para celebrar os direitos dos clientes, também é uma ocasião para as empresas empregarem boas práticas no relacionamento com os clientes, bem como realizar campanhas com o objetivo de melhorar o engajamento do seu público buscando idealizá-los. Também, o que muitas empresas estão fazendo, é não se restringir apenas ao dia e sim dedicar uma semana inteira a oferecer ações e ofertas que podem contribuir para movimentar os seus negócios. No bom sentido, assim como aconteceu com a Black Friday, o que procuram é aproveitar uma data para criar uma estratégia de relacionamento e vendas. Muitas prepararam sob a denominação de “Semana do Consumidor” eventos, promoções e preços especiais para fidelizar os seus clientes e capturar novos clientes.  

Cada empresa tem suas características, seus planos de marketing e formas de relacionamento com seu público, mas é crescente o interesse que está despertando o Dia do Consumidor, que acontece no dia 15 de março, e está se tornando uma data tão relevante para o varejo que o Google já o considera uma das grandes datas do primeiro trimestre. E são tantas as ações promovidas, em termos de Brasil pelas empresas, que, com certeza, o Dia do Consumidor já se tornou parte do calendário de compras, e, cada vez mais,  os consumidores  estão tomando conhecimento da data e  se preparando para  as promoções e as oportunidades. Neste sentido o varejista que, atualmente, não se preparar para o Dia do Consumidor perde as chances de surfar numa nova brecha que pode ser um excelente momento para aumentar sua clientela e o faturamento. Quem tem utilizado muito bem a data são as empresas de e-commerce que andam aderindo e investindo forte na sua celebração. E isto tem se refletido claramente num aumento de mais de 90% nas buscas, no mês de março, do termo “Dia do Consumidor”, em relação à 2024, segundo o Google Trends, o que demonstra que a data vai se consolidar, efetivamente, como uma das melhores datas do comércio no primeiro trimestre do ano.

segunda-feira, fevereiro 24, 2025

ALÉM DA SUPERFÍCIE DO AMBIENTE DE NEGÓCIOS

 


Segundo o Sebrae, em 2024, no Brasil foram abertos 4.141.455 novos negócios, o que representa 9,9% de crescimento em relação ao ano anterior. Este resultado, sem uma análise, parece ser excepcional e indicar que a economia brasileira passa por um momento ímpar e que as políticas governamentais estimulam o empreendedorismo. Ledo engano. Se formos examinar atentamente o primeiro sinal que desmancha este olhar superficial é a constatação de que, nada mais, nada menos, que 2.100.000 negócios fecharam suas portas, o que representa 50,5% dos novos negócios. No setor varejista é pior ainda: para cada 10 novos negócios 6 fecharam suas portas, o que mostra que o ambiente de negócios está longe de ser favorável e em expansão. E, é preciso assinalar, que dos novos negócios 3,1 milhões foram Microempreendedores Individuais (MEIs, 74,4%) e 874,1 mil (21%), microempresas, ou seja, os novos negócios que surgem são predominantes pequenos, de uma faixa com pouco capital e alta mortalidade. Ainda mais o saldo líquido anual das empresas revela uma tendência preocupante quando examinado no atual governo Lula da Silva, pois, em 2022, foi de 778.749 empresas, caindo para 642.184 em 2023, e, em 2024, declinando para 628.554. Esta progressão, no governo atual, torna muito discutível as políticas atuais de estímulo ao comércio e ao empreendedorismo pelo resultado ser inferior ao último ano do governo Bolsonaro, principalmente levando em conta que este enfrentou uma pandemia. É difícil, portanto, defender a eficácia das políticas atuais em relação ao setor empresarial. Isto, aliás, se reflete nas queixas do empresariado que alegam que os problemas aumentaram no atual governo por conta de impostos, de alterações na legislação, aumento dos combustíveis, juros mais altos, problemas de câmbio e de inflação. Em suma: o ambiente de negócios ficou mais hostil do que era. Por conta, principalmente de uma carga tributária mais alta, de aumento da burocracia, da insegurança jurídica, que aumentou muito, embora o governo alegue que facilitou mais a abertura de empresas, efetivamente, no conjunto pioraram muito as condições estruturais para que as empresas passem da fase de abertura e sobrevivam ao longo do tempo. Pelo menos no que tange aos negócios a grande realidade que o problema não é de comunicação. Os publicitários oficiais têm se esforçado em promover fatos e números positivos, a imprensa também ajuda (e até esconde os negativos), porém a economia é uma ciência triste porque, no final, sempre o que importam são os índices, os números e, em particular, para as empresas e pessoas o impacto que sentem no bolso. É isto que separa a visão otimista que o governo tenta vender, via publicidade oficial, de quem tem ou abre um negócio e tenta sobreviver e progredir: não há um caminho onde não esbarre com o estado impondo dificuldades e ônus para os que produzem e desejam criar um negócio sustentável. Até mesmo quem mais ganha com os juros altos, o mercado financeiro, reclama do governo por sentir que o ambiente de negócios não é nada favorável para a economia real.

sexta-feira, fevereiro 14, 2025

GENTE DE OPINIÃO: UMA TRAJETÓRIA DE SUCESSO

 


De repente são 20 anos. De repente? Não, pois a história de sucesso do Gente de Opinião é uma trajetória que envolve muitas pessoas, muitas notícias, muito trabalho. Gente de Opinião, aliás, começou de uma forma singular: reuniu alguns jornalistas que participaram de um programa de TV, que teve curta duração com o mesmo nome. O que ficou alimentado por reuniões entre amigos na casa de Paulo Corrêa, redator por anos do Alto Madeira, entre outras atividades, foi a ideia muito democrática de dar voz as vozes dissonantes. Ao contrário de querer moldar a opinião das pessoas o Gente de Opinião surgiu da ideia de permitir o debate, as opiniões diferentes para que o leitor forme sua opinião. Esta base forte é o que gerou sua credibilidade e persistência. É claro que isto não seria possível sem o respeito irrestrito aos que escrevem, ou seja, o site, em momento algum, tolheu ou interferiu no que seus colunistas escrevem assim como procura divulgar as notícias sem pretender impor um ponto de vista. O ponto de vista quem deve ter é o leitor ou o colunista. Por esta posição é que conseguiu reunir em torno de si tantos e tão diversas personalidades de nossa imprensa e de nossa intelectualidade.

Nomes como os de Abnael Machado, Antônio Candido, Antônio Fonseca, Ciro Pinheiro, Carlos Henrique Angelo, Dante Fonseca, Francisco Matias, Leo Ladeia, Lucio Albuquerque, Marli Gonçalves, Orlando Jr., Osmar Silva, Paulo Saldanha, Robson Oliveira, Sandra e Samuel Castiel, Vinicius Carrilho, Silvio Santos, Viriato Moura e Yêdda Borzacov são exemplos, entre tantos outros, da diversidade, do ecletismo de temas e de opiniões que desfilaram pelo site Gente de Opinião nos seus anos de existência. Mas, há muito mais a ser dito e muito mais foi visto. Basta verificar que o canal de Youtube do site possui mais de 32 mil seguidores, afora o fato de que tem sido mantida durante todo este tempo uma parceria que assegura muito maior difusão e reconhecimento com o grupo SIC do jornalista Everton Leoni. É preciso também dizer que, além de tudo, o site tem sido um repositório de nossa história ao mante, e de tempos em tempos, recuperar palavras e fatos do passado seja por remeter a um vídeo ou notícia antiga, seja por manter a coluna de personalidades que participaram da construção do nosso Estado ou registraram suas opiniões em colunas. Neste sentido o Gente de Opinião possui um rico acervo que é fruto de um trabalho constante de acompanhar a vida e o cotidiano de nossa cidade e de nosso Estado, daí ser uma das principais fontes de pesquisa sobre a história de Rondônia. O maior legado, porém dos 20 anos do Gente de Opinião é o de informar sem fronteiras. Assim possui colunistas de todas as partes do país e abre seu espaço seja para leigos, seja para a comunidade acadêmica com a mesma generosidade e o objetivo único de informar. O que importa para o Gente de Opinião é dar informações a quem procura. É mostrar que a notícia importa e a grande protagonista de quem procura formar sua opinião. Viva os 20 anos do Gente de Opinião. Trazendo notícias e fazendo história.

quinta-feira, janeiro 23, 2025

REVOGAR AS NORMAS FOI UMA DECISÃO ESTRATÉGICA

 


Embora grande parte do próprio governo trate a revogação das novas normas da Receita Federal como uma derrota, de fato, não é. A revogação foi a minimização de um grave erro político e econômico. Não se justifica nem mesmo pela necessidade de caixa na medida em que não houve nenhuma avaliação dos efeitos econômicos terrivelmente fortes da medida. Não se trata, como tentaram dizer, de fakes em relação à taxação do Pix, mas sim que a medida, além de invadir fortemente a privacidade das pessoas, somente se justifica como uma forma de fiscalização quase total dos atos econômicos. Claro que é uma tentativa de minimizar a sonegação, mas num ambiente de diminuição da atividade econômica e de aumento da carga tributária com inflação, se trata, na prática, de uma forma de, no presente, dificultar a vida das pessoas e, no futuro, aumentar receita, pois a movimentação financeira de qualquer empresa ou cidadão sempre será muito acima de seus rendimentos. No mínimo, se teria que explicar o que, hoje, não é necessário, ou seja, de qualquer forma é o governo obrigando o cidadão a fazer o que não quer e, pior, não em virtude de lei, mas por força de normas feitas por burocratas, o que, aliás, acontece demais no nosso país. A alegação de que a medida permitiria a identificação de movimentações suspeitas e o combate a fraudes, embora verdadeira, com os valores baixos com que foi editada, porém iria permitir à Receita Federal cruzar dados e fiscalizar pessoas físicas ou jurídicas de empresas e famílias com rendas muito pequenas. Assim seria um novo instrumento fiscal potencialmente prejudicial à população de baixa renda, especialmente à grande parcela de trabalhadores que vivem na informalidade. Por mais esforços que o Governo e a Receita Federal tenham feito de comunicação os trabalhadores sentiram que seriam prejudicados, daí a grande pressão popular. Os informais de áreas como cabeleireiros, manicures, pipoqueiros, vendedores ambulantes, garçons, motoristas de aplicativos, diaristas e até flanelinhas entre tantos outros, perceberam que se o monitoramento fosse adiante, a solução era abandonar o Pix, que facilitou a vida deles, e voltar a solicitar pagamento em dinheiro. Um imenso retrocesso. Nenhum argumento seria capaz de justificar ou tornar palatável uma medida tão impopular. O governo teve que voltar atrás ainda que, para salvaguardar a pele, argumentando que irá fazer uma medida provisória. Se fizer irá desencadear outro tsunami. Não é uma questão de política. É uma questão econômica que, seguramente, não cria impostos, mas cria dificuldades e a possibilidade de cobrança posterior de multas e impostos. O governo, acredito até que orientado pelo novo gestor da comunicação, de olho em 2026, tomou uma decisão estratégica. O desgaste de um tipo de medida desta seria, e será se retomada, muito grande, especialmente porque, efetivamente, atinge os pequenos empreendedores e os mais pobres. Não há comunicação possível capaz de esconder o que dói no bolso.

 

NOVAS REGRAS SUFOCAM O SETOR INFORMAL

 


As novas regras da Receita Federal, por mais que tentem dizer o contrário, se destinam a arrecadar mais. Nenhum analista que se preze dirá o contrário. É um aperto- é dos grandes- sobre o setor informal, em especial os micro negócios e profissionais liberais. O maior problema é que, além de mexer com os setores mais pobres da sociedade, incomoda todo mundo e, no limite, invade a vida particular das pessoas. Quem, por exemplo, dividir despesas, jogar em conjunto, tiver atividades sociais em que recebe dinheiro alheio ou até tiver uma amante está sujeito a ter sua vida devassada. Por mais que se tente, com publicidade ou declarações de autoridade, imputar as Fake News as repercussões negativas, há o fato incontestável que o estado aumenta sua lupa sobre os recursos privados de uma forma quase total. Ao, praticamente, invadir todos os espaços econômicos, o governo passa a ter um controle sobre a vida das pessoas que jamais teve. Acompanhar toda a movimentação financeira das pessoas não é a mesma coisa que taxar apenas a renda, pois há relações sociais, inclusive de quem já pagou imposto de renda, que são informais e não se justifica o governo, a partir do montante que a pessoa movimenta, exigir explicações que ninguém quer dar. Quem não se sente ruim em todo movimento que fizer ter que explicar? Muitas vezes divórcios acontecem por causa similar.  Além do mais, em especial nos negócios informais, grande parte do que se movimenta não é renda e sim insumos ou algum tipo de necessidade que o informal possui para ganhar dinheiro. A verdade que, em geral, esta renda de grande parte deles, não é renda e também, mesmo o que é, não é taxada. Mas, convenhamos, taxar pipoqueiros ou moto boys, embora vá acrescentar recursos ao governo, implica em tornar uma vida que já é difícil mais difícil ainda. Há sim clandestinidade nestes ganhos e somada é significativa, porém, convenhamos, se taxados o custo de seus trabalhos será muito maior, com impactos significativos, na inflação e com um problema adicional: os mais pobres não possuem, na sua quase totalidade, um acompanhamento de seus negócios. Muitos nem sabem quanto movimentam e serão a essas pessoas que, no fim do ano, serão apresentadas contas que não terão como explicar nem saber como enfrentar a questão. O que sempre se espera de um governo, ainda mais de um que, supostamente, é voltado para o social, é que não dificulte a vida das pessoas e é isto que o governo está fazendo com sua voracidade fiscal. Não há estratégia de comunicação capaz de esconder o que dói no bolso e vai doer em especial sobre os informais que serão detectados e cobrados por recursos que não terão: a grande maioria se vira para sobreviver. Afora outros impactos colaterais como gastos com contadores ou perda de ajudas sociais. A vida de grande parte da população mais pobre não ficará apenas mais complexa e sim muito mais difícil. O estado, de fato, não somente atrapalha a vida do microempreendedor somente. Com as novas medidas o irá impedir de ter a possibilidade de se capitalizar, de ascender socialmente. É uma medida que, se não for revogada, irá corroer, com certeza, o que ainda resta de credibilidade do governo federal.

domingo, dezembro 22, 2024

POR UM NOVO OLHAR PARA 2025

 


Quando chega o fim do ano, por mais difícil que a vida esteja, as esperanças são renovadas. Até quando se pretende negar sempre colocamos uma boa carga de expectativas positivas em relação a um ano que se inicia. No mínimo idealizamos uma mudança que pode incluir novos projetos, planos nunca realizados, sonhos que serão somente sonhos. Por isto sempre celebramos o fim do ano por meio de festas que, esperamos e torcemos, seja um marco para um novo (e feliz) tempo. A verdade é que sempre deixamos para trás o ano que termina com a esperança de que ingressamos numa nova etapa da vida inevitavelmente- desejamos ou acreditamos mais brilhante e de maior prosperidade. Bem isto não nos deixa, porém isento da oportunidade de verificar que, no começo do ano, os “especialistas” apostavam num futuro previsível e projetavam, por exemplo, o dólar a R$4,90, a Selic a 11,75%, o Ibovespa a 132 mil pontos, e o S&P 500, em reais, alcançando 4.700 pontos. Que otimismo, hein! A realidade de dezembro, porém é outra: o dólar disparou para mais de R$6,00, a Selic flutuou para baixo, mas apenas levemente (11,25%), o Ibovespa fechou em 125 mil pontos, abaixo das expectativas e a inflação subiu. E, se formos nos basear na realidade brasileira as nuvens no horizonte não nos deixariam sonhar com um ano novo muito melhor. Aqui, porém vamos nos valer de um pensador brasileiro excêntrico já falecido, o nosso inesquecível Paulo Francis que escreveu, com muita propriedade, que “A vida é muito mais variada, anárquica e imprevisível do que sonham os ideólogos”. Porém, nossa ideia não é a de descartar nem a realidade nem as previsões, sejam otimistas ou não. Afinal elas podem nos fornecer, sim, pistas sobre o futuro, sobre os cenários possíveis e nos prevenir sobre os problemas que sempre existirão. Nós, no mundo moderno, temos é que nos acostumar a conviver com as incertezas e buscar formas de ter um portfólio diversificado de projetos e investimentos que reduzam nossas dependências do imprevisível. Difícil é, mas não impossível. A grande verdade é a de que vivemos tempos de mudanças tão rápidas que nem dá tempo de sentir que o futuro chegou e, muitas vezes, continuamos a olhar para o presente com os olhos do passado, de modo que nos sentimos completamente despreparados para o que acontece. Então o que me move é convidá-los para a aventura de olhar 2025 com um olhar diferente. Pensar no que é possível mudar nas nossas práticas diárias para nos sentirmos mais leves, ter uma forma menos difícil de viver. Olhar as coisas sobre uma nova perspectiva, com certeza, fará uma enorme diferença. Talvez se aventurar tendo em vista às tendências tecnológicas como mudar nossos processos, como inovar o que fazemos. Até mesmo procurar realizar uma integração sobre as novas tecnologias e o nosso cotidiano. Sei que não se trata de uma tarefa simples, mas pode ser altamente recompensadora. As mudanças começam por perguntas novas, por buscar parcerias, novas possibilidades, em olhar o que fazemos de outra forma. Não há mudanças rápidas. Elas começam com pequenos gestos, por mudar o que se faz no dia a dia. Olhar as coisas com um novo olhar é o caminho para um 2025 melhor.

Ilustração: Vida Simples.

sábado, dezembro 07, 2024

ACORDO MERCOSUL-EU E SEUS EFEITOS

 


Nesta última sexta-feira (6) foi anunciado o acordo comercial firmado entre o Mercosul e a União Europeia. O governo brasileiro comemorou o fato como um caminho para a ampliar a relação comercial com o segundo principal parceiro comercial do Brasil, e prevê um efeito positivo de R$ 37 bilhões até 2044. Há motivos afinal isto representa a maior parceria de comércio e investimento do mundo, beneficiando ambas as regiões e atingindo 718 milhões de pessoas e economias que representam um total de 22 trilhões. Mas, mesmo sendo um acordo ganha-ganha no geral, todavia há diferenças na forma como atinge os países e os setores. Basta ver a reação de agricultores franceses que dizem que o acordo é o fim da agricultura local e a ministra de Comércio Exterior da França, Sophie Primas, afirmou que lutará contra a aprovação do acordo, quando houver a votação interna. É preciso ver que para que o tratado seja assinado, e entre em vigor, são necessárias ainda a aprovação por duas instâncias dos países da União Europeia: o Conselho de Ministros e o Parlamento Europeu, sediados em Bruxelas, capital da Bélgica. O grande objetivo do acordo, além de outros temas que contempla, é a redução das tarifas de importação entre os blocos que pode ser imediata ou gradual (em até 15 anos), dependendo dos setores. Esta liberação deve atingir 91% dos bens que o Brasil importa da União Europeia e, do outro lado, 95% dos bens que o bloco europeu importa do Brasil. Um dos efeitos será o aumento das exportações do agronegócio, que um estudo do IPEA prevê ganhos acumulados de produção da ordem de US$ 11 bilhões, até 2040, enquanto o saldo da indústria da transformação seria mais modesto, com ganho de somente US$ 500 milhões no mesmo período. Aliás, segundo o estudo, vamos ter ganhos de produção em quase todos os setores do agronegócio e perdas concentradas em alguns setores industriais. Há a possibilidade do consumidor ser beneficiado com o barateamento de produtos importados, como azeites, queijos, vinhos e frutas de clima temperado (frutas secas, peras, maçãs, pêssegos, cerejas e kiwis), bebidas e laticínios, porém isto depende também da taxa de câmbio e de outros fatores que afetam os produtos. Também o consumidor pode ter benefícios indiretos graças à modernização da produção brasileira que poderá fazer a importação de máquinas e insumos a preços menores.  A indústria brasileira terá que se reinventar na medida em que deve ter quedas em setores como veículos e peças, têxteis, farmacêuticos e equipamentos eletrônicos, embora a perspectiva seja de crescimento de outros setores, como calçados e artefatos de couro, celulose e papel, e outros equipamentos de transporte (o que não é automotivo, como aviões e navios). Esta preocupação com os setores mais vulneráveis esteve presente na negociação, pois foram feitas salvaguardas no acordo para evitar uma enxurrada de importações no setor automotivo e estimular investimentos para a produção no Brasil. A Europa aceitou essas condições por causa da crescente presença chinesa no mercado automotivo brasileiro, setor que historicamente tem forte atuação de multinacionais europeias, como Fiat e Volkswagen. Neste sentido o acordo deve afetar o setor automobilístico chinês, de vez que a suspensão de tarifas para carros da Europa altera a competitividade das marcas chinesas. Mas, resumindo o acordo é muito positivo para o Brasil por, ainda segundo o IPEA, as trocas comerciais com a UE provocarem um crescimento de 0,46% do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro até 2040. E, embora aumente a exportação de produtos agrícolas e a importação de bens industriais pode, na prática, representar a modernização das fábricas brasileiras e uma maior integração do país às redes de produção dos países europeus.

segunda-feira, novembro 25, 2024

TEMPOS DIFÍCEIS

 


Que tempos não são difíceis? Há tempos que não o são? Sei lá. Sei que é difícil viver em qualquer época e, como não vivemos as outras, a nossa sempre nos parece a pior de todos os tempos. A questão de medir as dificuldades não pode, porém ser separada do tempo que nos foi dado viver. E, mesmo neste tempo, as dificuldades, como aquele sábio senhor disse, como todas as outras coisas são relativas. Inteligências geniais como as de Balzac, Shakespeare, Dostoievski, Proust e Fernando Pessoa escreveram o necessário sobre a natureza humana e os tempos difíceis. Recordo, por ser inesquecível a passagem de Falstaff reclamando de sua época (“Que tempos são esses?”). Nem vou citar o clássico em que se afirma que o mundo está fora do eixo. Não sei se sempre esteve ou se está sempre se desviando lentamente, mas falar de tempos difíceis no Brasil é como chover no molhado. Basta pensar que, por aqui, os tempos difíceis são propagados musicalmente. Quem não lembra do Legião Urbana “Nas favelas, no senado/Sujeira pra todo lado/Ninguém respeita a constituição/Mas todos acreditam no futuro da nação/Que país é esse?/Que país é esse?/Que país é esse?”. É um país sui generis que suporta, sambando, jogando futebol e fazendo piada, a repressão, a censura, a vida em permanente temor, a angústia cotidiana e compulsória, sem jamais constituir uma sociedade verdadeira, de vez que o individualismo e uma espécie de “pragmatismo canibal”, nos anima a transformar em memes mesmo as coisas mais dolorosas. E quando não se pensa que se possa piorar mais as coisas sempre se arranja um meio, um modo, um jeitinho brasileiro de torná-las pior. Até que chegamos a uns tempos em que a desconexão, as leis e o poder se tornaram quase irreais e, ao mesmo tempo, muito mais poderosas. Imersos numa aldeia global, num envoltório hiperconectado por celulares e redes sociais, assistimos impotentes serem impostos, sem pensar no bem comum, as pautas mais loucas. Por exemplo, agora discutimos a ideia de reduzir a jornada de trabalho, segundo dizem para proporcionar mais o tempo livre, mas será possível fazer isto por decreto? Será que esta medida não irá trazer uma queda da renda? Da produtividade e competitividade do país? A ideia tentadora, e fácil, não pode, por exemplo, afora quebrar empresas e desempregar,  atrair os de menor renda, com mais horas livres, para o mundo das apostas, do dinheiro fácil e rápido, para buscar saídas financeiras imediatas?  A combinação também desconexa do que se legisla com a realidade brasileira parece se acentuar cada vez mais. É como se os poderes públicos marchassem contra a modernidade ao querer agir como se pudessem nos trazer o futuro, iluminados que são, apesar de nós, pobres brucutus, não desejarmos o que nos é imposto. Enquanto reclamamos da inflação, do descontrole das contas públicas, dos impostos altos e da burocracia as respostas que recebemos não criam nem falsas esperanças de que seremos atendidos. Neste passo, como o desenvolvimento só é possível pela construção de um projeto de país e é impossível fazê-lo sem que as pessoas possam ter liberdade de opinião e se sintam representadas, os tempos ficam ainda mais difíceis. E todas as esperanças se esvaem no vazio brasileiro da falta de representação.

quinta-feira, novembro 14, 2024

OS PROVÁVEIS EFEITOS NEGATIVOS DE UMA JORNADA MENOR DE TRABALHO

 


Na imprensa, e entre os adeptos de soluções fáceis para os problemas sociais complexos, ganhou imenso espaço, e a adesão espantosa e, possivelmente, interesseira de 193 deputados, a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que acaba com a jornada de trabalho na escala 6 x 1 (seis dias de trabalho para um de descanso) de autoria da deputada Erika Hilton.  A proposta de PEC se inicia equivocada pela própria justificativa, de vez que pautada na preservação da saúde e do bem-estar do trabalhador. Claro que criando a expectativa de que, com mais dias de descanso, o trabalhador tenha mais saúde e seja mais produtivo, o que também beneficiaria as empresas. Ainda  se argumenta que a medida já foi testada em programas pilotos em outros países. Isto é verdade, mas são países com muito melhores condições, melhor ambiente de negócios e maior renda do que o Brasil. Independente disto qual a necessidade e a viabilidade de propor uma mudança tão brusca? Ora a Constituição Federal permite a redução da jornada de trabalho por meio de acordos coletivos (art. 7º, inciso XIII), ou seja, os sindicatos podem negociar diretamente em favor de suas categorias, de modo que a atual redação constitucional permite flexibilidade e adaptação de acordo com a realidade econômica de cada setor. Em termos claros não há necessidade nenhuma. E a viabilidade? O senador e presidente do PP, Ciro Nogueira, foi incisivo quanto a isto ao dizer que “É uma ideia tão boa como, por exemplo, aumentar o salário-mínimo para R$ 10.000,00. Quem pode ser contra? Agora, dizer que é viável no Brasil de hoje é mentir para a população”.  Mas do que mentir é criar uma falsa esperança. Sob o ponto de vista econômico é uma medida desastrosa. Qualquer economista que mereça o nome, considerando a conjuntura econômica de incertezas em que vivemos e a enorme maioria de micro e pequenas empresas (as grandes empregadoras de mão de obra) podem facilmente listar os efeitos que são previsíveis: em primeiro lugar, aumento dos custos trabalhistas devido à redução da jornada sem redução dos salários (se cumprida a lei), depois, como consequência lógica, elevação dos preços dos produtos para cobrir os custos mais altos. Daí, diminuição do poder de compra dos consumidores e redução dos lucros empresariais, com o provável fechamento de micro, pequenas e médias empresas e aumento do desemprego. O impacto negativo na arrecadação de impostos e nas contas públicas é o toque final. Porém, outros cenários podem ser piores ainda com a pejotização, ou seja, os trabalhadores serem obrigados a criar empresas para poder trabalhar e a substituição massiva de mão de obra humana por automação. Não se descarte também a possibilidade de recessão.  Melhorar ambiente de trabalho todos querem, mas é indispensável considerar a realidade econômica do Brasil, bem como a preservação das empresas e a manutenção dos empregos. É nocivo que propostas que envolvem tanta complexidade não sejam discutidas de modo aprofundado e técnico no Poder Legislativo. Não existe forma de preservar a saúde do trabalhador, e seus empregos, sem considerar a sustentabilidade das empresas, pilares essenciais para o funcionamento da economia nacional.

Ilustração: Folha-UOL.

 

segunda-feira, setembro 09, 2024

Um Brinde em Nome do Santo



Neste agosto, por uma série de razões, inclusive uma palestra que tive de ministrar sobre a questão da estabilidade e do desenvolvimento no Brasil, acabei deixando para lá a homenagem devida ao nosso santo Arnaldo de Soissons (1040–1087), também conhecido como Arnold ou Arnulf de Oudenburg. Ele é um santo católico belga, padroeiro dos coletores de lúpulo e dos cervejeiros. Nascido na vila de Tiegem, na região de Flanders, Santo Arnaldo foi um soldado antes de se estabelecer na abadia de São Medardo, em Soissons, na França.Nos seus três primeiros anos de vida religiosa viveu como eremita e depois assumiu o posto de abade no monastério. Segundo a sua hagiografia, o santo não queria o título e tentou fugir, mas um lobo o forçou a voltar. Cerca de 1080 foi nomeado bispo de Soissons.  Um padre, anos depois, tentou tomar seu lugar como bispo, o que interpretou como um sinal e renunciou o episcopado, retirando-se para fundar o mosteiro de São Pedro, em Oudenburg, onde começou a fabricar cerveja- uma bebida tida como imprescindível, com a epidemia da Peste Negra na Europa e sem abundância de água própria para consumo. Santo Arnoldo promoveu o consumo de cerveja entre os camponeses da região, como um “dom da saúde” que a bebida evocava. Efetivamente, naqueles tempos, seus esforços fizeram muito pela população local ao ensinar a fazer cerveja e a bebê-la ao invés de água. Como não existia saneamento básico, somado a que na produção de cerveja se fervia o mosto acima da temperatura de pasteurização (não havia pasteurização ainda), era realmente mais saudável beber cerveja que água (esta é uma opinião bastante moderna e, hoje, bastante difundida) .  Seu trabalho salvou muitas vidas e sua fama em relação à cerveja se espalhou. Muitos milagres foram atribuídos a ele. Por exemplo, o teto da cervejaria da abadia desabou, comprometendo o abastecimento. Santo Arnoldo, então, pediu a Deus para multiplicar as sobras   da bebida e suas preces foram atendidas, para a alegria dos monges e da comunidade. Também introduziu novas técnicas na fabricação da cerveja. Montando um cesto para formação de colmeias, percebeu que os cones de palha serviriam como filtros. Daí que em muitas pinturas, ou representações suas, apareça retratado segurando cestos com abelhas ou segurando uma espécie de pá usada para macerar o malte. Há outros santos que são tidos também como padroeiros da cerveja, como São Columbano, São Patrício,  Santo Arnulfo de Metz, São Venceslau e Santa Brígida de Kildare e Hildegarda de Bingen. Nada estranho porque a fabricação de cerveja é imemorial, segundo consta foram os sumérios, 8 mil anos atrás, que iniciaram sua produção, mas o nome cerveja vem mesmo dos gregos e romanos, que aprenderam a arte da fabricação com os egípcios. Vem mesmo é de Ceres, a deusa da agricultura, dos grãos. Ou seja, do pão e da cerveja. Ceres visia, termo que deu origem à palavra cerveja, que significa “Aos olhos de Ceres”. Santo Arnaldo morreu jovem, com 47 anos, e foi canonizado no ano de 1121 depois de seus milagres serem reconhecidos pela Santa Sé. A festa litúrgica é comemorada no dia 14 de agosto. Um brinde a Santo Arnaldo de Soissons, pois!

Uma Tarde no Sítio do Yamaguchi


Uma das boas coisas da vida, sem dúvida, é comer. E comer bem é um dos prazeres mais requintados que se pode ter. E, como não poderia deixar de ser, são os japoneses, com suas tradições e criatividade que nos deram o  sashimi, que significa "corpo furado", onde "
刺身 = sashimi = 刺し = sashi ("perfurado", "preso") e  = mi ("corpo", "carne"), que, segundo alguns, deriva da prática de fincar o rabo e a barbatana do peixe às fatias de modo a identificá-lo. Deve-se ao Miyoshi à inclusão do sashimi e do sushi no nosso estado.  Confesso que pouco sei, ao contrário de meu filho Igor Persivo, que já até trabalhou fazendo comida japonesa, como fazer. Sei, e gosto muito, é de comer. E passei, pelo menos, três décadas comendo no Restaurante Oriente, o primeiro e por muito tempo o mais importante da culinária japonesa em Porto Velho, mas só no sábado (27 de julho) foi que conheci quem criou o restaurante, que tanto gostava. porquê fui a convite do José Valdir Pereira, escritor, um dos fundadores da UNIR, no sitio do Yamaguchi, com as companhias de Lito Casara & Tunai Melo. Foi uma tarde muito especial. Em primeiro lugar porque vivemos, em universos paralelos na mesma época. Yamaguchi foi peça importante da administração municipal de Chiquilito Erse em tempos passados, teve uma participação significativa no crescimento de Porto Velho abrindo novas ruas e resolvendo problemas urbanos e, por uma questão de círculos de amizade, pouco nos encontramos no passado. Então fizemos uma espécie de reconhecimento, recobramos as memórias de quando Porto Velho somente ia até a rua Joaquim Nabuco, talvez até o mercado do Km1. Histórias & estórias (de bons pescadores) não faltaram, como o acolhimento da família aos amigos foi fantástico, com aquele zelo e amor que os orientais possuem pelos amigos. O Márcio Yamaguchi, um dos filhos que continuam no ramo de restaurantes, não nos deixou um minuto sem atenção até arranjando vinho, quando o estoque acabou. E o violão de José Valdir, o bandolim mágico de Lito Casara e a palhinha de Tunai Melo cantando fizeram a tarde maravilhosa. Yamaguchi mostrou o carinho com que trata o seu sitio, que fica na junção de dois rios, não lembro agora mais os nomes, sei que um é o Candeias e, discretamente, nos encantou com sua elegância e recepção. Nem vou falar mais da qualidade da comida que nos ofertou porque o comentário é dispensável, mas é preciso dizer que se trata de um grande empreendedor, pois no difícil ambiente de negócios do Brasil chegou a ter 200 empregados. Sei como isto não é fácil ainda mais num ramo que exige atenção constante. Para viver melhor diminuiu, ou melhor, saiu dos negócios para voltar “para o melhor lugar”- como diz a canção de José Valdir-em homenagem à Porto Velho. Os filhos, Márcio, aqui, e uma filha, lá em Saco Grande, Florianópolis, porém continuam a tradição de bem servir comida de qualidade. Esta é, como escritor, a minha forma de agradecer todo o carinho que recebemos e o prazer de termos compartilhado bons momentos. Meu preito a Yamaguchi e família, que deve ter muito orgulho de seu patriarca, uma grande personalidade de nosso Estado. 

Inflação em ascensão tende a aumentar a pressão política


Embora exista toda uma estratégia operacional que se baseia em tentar criar otimismo sobre a conjuntura econômica, que inclui uma pasteurização da grande imprensa sobre os dados negativos, no entanto a grande realidade é que o Brasil vive tempos muito difíceis e não há como esconder. O governo federal, nos tempos atuais, optou por uma linha na qual não contempla os interesses nem das atividades produtivas nem dos trabalhadores. É emblemático desta opção o fato de que não somente, de diversas formas, aumentou os impostos, por leis ou decretos ou ainda pelo corte de subsídios, como não tem melhorado a renda dos salários, exceto para as poucas camadas do serviço público que lhes dá sustentação, como o legislativo, a justiça e o setor de arrecadação. A recente, e longa, greve dos técnicos e professores de ensino superior, que, no seu todo, ainda não acabou, é bem representativa disto, pois impuseram, com alguns benefícios cosméticos, 0% de aumento, no presente ano, alegando, o que não tem substância, 9% dado no ano passado, sem considerar a inflação do ano nem as perdas de anos passados, longos anos, aliás, em que os servidores públicos não tem recebido nenhum aumento. Em certos setores da educação a situação de professores, em especial os novos, chega a ser dramática. Mal conseguem prover a própria subsistência enquanto veem os preços de seus livros, de cursos que desejam fazer e de coisas básicas, como aluguel e plano de saúde, darem saltos enquanto seus salários minguam com a inflação. Lula, que não tem problema nenhum de sobrevivência e pode se dar ao luxo de viajar pelo mundo, fala, beatificamente, em compreensão, em olhar para o que foi dado como se fosse possível pagar as contas com promessas sobre a possibilidade de serem compensados no futuro. O problema presente é que até mesmo a inflação oficial, que tende a subir, está subestimada. Não somente porque o próprio órgão que realiza o seu levantamento mudou a forma de aferir os preços como também existe, cada vez mais, presente o fenômeno da reduflação, uma tática dos fabricantes de reduzir o conteúdo dos produtos para manter os preços, diminuindo o poder de compra dos consumidores,  segundo um estudo recente do Instituto Brasileiro de Planejamento e Tributação (IBPT) em cerca de 4%. É um fenômeno que acontece, e as evidências são flagrantes, nos alimentos e produtos de higiene atingindo de forma drástica, principalmente as famílias de menor renda. Na prática se paga o mesmo valor para consumir menos. E os preços das verduras e frutas também dispararam. Só os que não vão aos supermercados e mercados não conseguem ver. Não há solução fácil à vista quando o governo não controla suas contas e o chefe da nação ainda ajuda a espiral inflacionária falando contra a política monetária e faz o dólar subir mais e mais. Os erros de política pública estão se fazendo sentir fortemente no poder aquisitivo das pessoas. E, com o endividamento, que já é alto, a pressão política tende a subir nos próximos meses, inclusive por conta do período eleitoral. 

domingo, julho 07, 2024

O Despertar para o turismo: a 1ª Expoturismo Rondônia 2024

É extremamente oportuna, e estratégica, a realização, nos próximos dias de 4 a 6 de julho, o Centro de Eventos do Sesi, em Porto Velho, da 1ª Expoturismo Rondônia 2024. O Governo do Estado, por meio da Secretária de Desenvolvimento e da Superintendência de Turismo, e o Instituto Fecomércio/RO estão de parabéns, pois acertaram em cheio na decisão de promover o turismo estadual. Não apenas pelo evento em si, que se pretende único e grandioso, com mais de 80 expositores, praça de alimentação, uma programação extensa com nomes expressivos, mas pela janela de oportunidade que no momento se apresenta. Em recente estudo o   Conselho Mundial de Viagens e Turismo (World Travel & Tourism Council-WTTC), em conjunto com a VFS Global, líder em serviços de terceirização, denominado de Unlocking Opportunities for Travel & Tourism Growth in LATAM” (“Abrindo oportunidades para o crescimento de viagens e turismo na América Latina”), mostra que setor de viagens e turismo é muito expressivo na região, com uma contribuição de mais de US$ 629 bilhões para a economia em 2023, acolhendo 86 milhões de viajantes internacionais. Além de estimar que o crescimento do setor de viagens e turismo da América Latina pode injetar quase US$ 260 bilhões à economia da região e criar quase oito milhões de novos empregos nos próximos 10 anos. Na verdade aponta que o crescimento potencial depende de políticas públicas para conquistar um salto anual de 3,4%, atingindo uma contribuição de cerca de US$ 909,2 bilhões de dólares. É um cenário promissor considerando ainda mais que, em 2024, as expectativas são de que será alcançado um recorde de uma contribuição para o PIB regional de mais de US$ 650 bilhões, bem como a criação de um milhão de empregos adicionais elevando o total de pessoas que vivem da atividade de 24,6 milhões para 25,7 milhões. Em outras palavras, há um mercado imenso para ser conquistado e, neste particular, nos últimos anos o setor testemunhou um notável crescimento que pode, e deve, ser aproveitado melhor pela região amazônica, onde nos inserimos. Porém, é evidente, isto não será feito sem apoio estatal e sem a organização da recepção ao turista, o que inclui, além da melhoria da infraestrutura e educação para melhorar a hospitalidade dos visitantes, proteger a biodiversidade, a natureza e divulgar, via digital, os atrativos e belezas disponíveis. Enfim há um imenso trabalho a ser feito que deve começar pelo alfandegamento do aeroporto e a construção de uma nova pista, mas que passa também por investir na conscientização da população sobre a importância do turismo para a renda interna. Neste sentido esta 1ª Expoturismo surge com o apelo de ser o grande despertar para as oportunidades existentes, daí ser importante ir conhecer e participar do evento. 

O PASSADO QUE MOLDOU O PRESENTE

                       O primeiro secretário de Planejamento de Rondônia, Luiz Cesar Auvray Guedes, esperando do lado esquerdo da foto, pelo governador Humberto Guedes, à frente dos demais, na abertura de ruas de Ariquemes. 

Dizem que os velhos vivem de lembranças. Bem, na minha cabeça, mesmo sabendo que sou um velho ainda continuo, mais ou menos, novo na medida em que ainda alimento sonhos. De forma que não sou um saudosista nato. Preciso que alguém me motive para voltar ao passado. E isto aconteceu, nos últimos dias, por conta do Lucio Albuquerque, ex-editor do Alto Madeira, que me fez retroceder no tempo ao perguntar sobre a passagem do geografo Milton Santos em Rondônia. É uma das histórias pouco conhecidas sobre o nosso Estado que, ao contrário do que se pensa, não cresceu sem planejamento. E isto se deve, sem dúvida, ao ex-governador Humberto da Silva Guedes e ao Capitão Silvio Gonçalves de Farias. O coronel Guedes, que na sua gestão elaborou o POLONOROESTE, programa que permitiu depois asfaltar a BR-364, com apoio da Superintendência de Desenvolvimento do Centro-Oeste-SUDECO, além de criar uma estrutura administrativa diferente para o Território, criando as secretárias, contratou as primeiras equipes técnicas, e arregimentou a Universidade de  Brasília, além de outros especialistas de vários setores, como, por exemplo, os arquitetos Paulo Zimbres, que criou o primeiro sistema viário de Porto Velho, Paulo Magalhães, Silvio Sawaia, Antonio Carlos Cabral Carpintero e Roberto Monte-Mór, artífices da hierarquização urbana existente na época. São desta época o primeiro plano de Educação, de Saúde, de estradas, e a própria criação do DER, o Sistema Viário de Porto Velho, a abertura de novos municípios (foram criados mais sete municípios pela Lei 6.448, de 11 de outubro de 1977), um projeto de hierarquização urbana do Território e até um grande estudo para habitações adaptadas à região. A principal contribuição de Milton Santos foi ter feito um trabalho, com o apoio de técnicos locais, pensando o futuro,  que gestou os Núcleos Urbanos de Apoio Rural - NUARs, muitos dos quais, como os de Mirante da Serra ou Nova União, transformar-se-iam em futuros municípios. A idéia central foi a de distribuir a ocupação urbana espacialmente e dar apoio aos projetos de colonização para impedir a migração da população rural para os grandes centros. Se Rondônia, hoje, tem a pujança que possui, uma distribuição econômica equilibrada, vem deste trabalho de Guedes e do Capitão Silvio, que teve a notável contribuição de Milton Santos. Antes todos os centros urbanos ficavam na BR-364, inclusive por questão de acesso, Depois os novos municípios surgiram em cima dos locais planejados. Rondônia não é fruto do acaso. Há por trás de seu crescimento todo um trabalho de planejamento que teria continuidade com o Zoneamento Econômico Ecológico, uma ideia de técnicos locais para conter o desmatamento e unir economia e ecologia, que gerou a preservação e a criação de mais de sete dezenas de reservas. Esta, porém é uma outra história que deveria ser contada pelos seus principais autores, pessoas com grandes serviços prestados à Rondônia, como Joel Mauro Magalhães, Maria Emilia Silva e Emanuel Fulton Madeira Casara (Lito Casara). 

quarta-feira, maio 29, 2024

E Assim Foi

 


Seria impossível contar esta história sem que tivesse chegado em minhas mãos os alfarrábios de Luiz Ehrich de Menezes, do qual, no fim, sou um mero repassador. Ehrich, que foi vereador e virou nome da Câmara Municipal de Costa Marques, escrevia sobre fatos e coisas do Guaporé, pioneiro daquele município e profundo conhecedor de sua história. Um pesquisador no melhor sentido e tão enraizado na sua terra que afirmava que “sair daqui é uma questão de tempo, tempo do Guaporé secar e a serra mudar”. É dele a lembrança de Roman Corcova, um boliviano culto, boa praça, mas que falava tão devagar que, entre uma palavra e outra, levava, talvez, quatro minutos. Não que fosse gago. Era por ficar pensando na palavra seguinte. Muito dele o modo de falar. Um dia contou para o Luiz que, no porto, viu um fogo andando debaixo de uma mangueira que o impressionou tanto que marcou o lugar com um prego. Isto tinha sido quatro ou cinco anos antes. E o fenômeno repetiu-se na noite passada. Como tinha quatro barqueiros sem fazer nada no porto de Versalhes, então, Luiz propôs cavar um buraco no local para encontrar um possível tesouro enterrado. Como lá estava animado com a chegada da Coroa do Divino, para despistar, diríamos que estávamos cavando um sanitário. Roman se encarregou de conseguir as pás, enxadas e picaretas. E, da parte de Luiz Ehrich, entraria com os homens e a bebida. E assim foi feito. Mediu-se um buraco de dois metros por três, arranjou-se latas e cordas e lá pelo meio dia iniciou-se a abertura do buraco. Passavam pessoas e perguntavam o que se estava fazendo e a resposta era sempre a mesma: um sanitário para a comunidade. E os homens cavando até cair a noite e, de noite, continuaram com uma lâmpada Aladim. Com um metro encontraram o prego. Inexplicável como parou naquela fundura. Alcançava já os três metros quando a terra deixou de ser como virgem e virou superficial com vestígios de cacos de cerâmica misturada com terra negra. E prosseguiu, de forma redonda, com apenas um metro deixando de ser uma cavação uniforme. O serviço avançou mais rápido e, de madrugada, já tinha cinco metros de fundura quando terminaram os vestígios de terra não virgem. Um dos barqueiros de nome Rafael disse “Sabe, seu Luiz. Eu acho que somente enterra dinheiro ou riqueza quem é velho e velho não iria ter forças para cavar tão fundo. Quem tem forças para cavar são os novos e a gente nunca enterrou dinheiro, portanto estamos trabalhando feito bestas”. Foi a senha para desanimar de buscar o tesouro e deixar para lá. Não foi um trabalho vão. Dizem os cablocos que o que tem que ser tem muita força. E o buraco serviu mesmo para fazer um sanitário para a comunidade. Tinha que se fazer um sanitário mesmo, não é?

sexta-feira, maio 24, 2024

Recordando para Manter a Chama da Esperança


É verdade que não devia contar. Mas, com o tempo sempre a língua vai ficando solta e se perde até o receio de passar por vaidoso. O fato é que vivi uns tempos num seringal e matei muitas onças. Não foi por prazer nem por medo. Muitas vezes para salvar as galinhas ou um cachorro com o estranho nome de Cipó, só por ser um tanto compridinho. Lembro que não tive medo, exceto uma vez quando, inesperadamente, topei com uma no caminho. Matei algumas onças calmo, tranquilo, como se fosse um mateiro velho, um caçador experimentado. Só tinha um problema: depois, quando via o animal morto, me dava uma tremedeira incontrolável. Não sei se acontece com outros assim, mas tive essas reações retardadas. Um amigo meu de caçada me consolou afirmando que na hora de matar onça minha fleugma era britânica e que me comportava como um bom político que, mesmo culpado, frente à uma comissão de inquérito, se mantém como se estivesse explicando o óbvio. Hoje, certamente, diria como um dilapidador do erário público, mesmo diante da avalanche de lama e de denúncias, se diz inocente. Até mesmo o mais inocente do mundo. Não quero, no entanto, entrar neste campo da política até porque sou um tanto cético quanto à realidade dela e, aprendi, ser melhor ficar distante desta arena. Melhor é deixar o barco correr porque somente sobra para nós, aqui embaixo, os contribuintes. Não sou juiz para andar atrás de rombos, ocasionais ou não, bem ou mal remendados, nem tenho razões para avaliar o desempenho de algum piloto. Quero é ir empurrando o barco, pescando, quando posso, meu peixe e viver minha vida mansa. Nada de azucrinar comandante, de vez que, se o barco afunda, vamos pagar o pato e ganhar o que Maria ganha na capoeira. Se o barco está à deriva, ou não. Se o homem mente muito ou pouco, não sei, nem quero saber. Meu desejo maior é que o bom Deus permita que as coisas se arranjem, que possamos ter uma trajetória melhor do que a dos juros e dos preços altos. O que almejo mesmo é conservar a fleugma dos ingleses que já tive, nos velhos tempos do seringal, quando matava onças até sem ter balas de reserva. Não permanecer apático, não. Pode ser que, depois dos tempos ruins passados, até volte a reação retardada da tremedeira. Com certeza procuro ser mesmo é um bom brasileiro. Até com as coisas indo ruins continuar acreditando no futuro. Mais do que nunca é preciso cultivar a esperança. Afinal os aviões decolam contra o vento. E, hoje, sinto até vergonha de pensar que já matei onça. 

Ilustração: Biologia Net. 

A Lição do Rio Grande do Sul

 


O que, sem politizar no sentido menor, mas pensando na grande política, o que nos mostra o desastre das enchentes no Rio Grande do Sul? Mostra que, quando baixar as águas, ficará clara a incompetência do governo para cuidar dos problemas da sociedade. A questão mais evidente é a de que a defesa do estado como solução traz no seu bojo a ideologia de seja possível superar a impossibilidade de fazer a coleta, reunir e analisar as informações dispersas, de forma a se ser eficiente a partir de um poder central. No fundo isto é o que Mises denominou de “arrogância fatal”, para ele um perigo original que dorme dentro dos seres humanos, que é a tentação de pensar que pode ser capaz de controlar todas as coisas (aliás, outra forma disto são os modelos econômicos), o que, ao fim, é uma tentação de crer que somos Deus. Crer que o governo será capaz de criar uma sociedade melhor não é somente um erro intelectual, mas também uma ideia profundamente antissocial  na medida em que, quando se submete a liberdade, seja de ter, de se expressar e até mesmo empresarial, se violenta a individualidade, a capacidade do ser humano de escolher seus caminhos, à coletividade, isto sempre se faz, a partir de um partido, uma religião ou um estamento que dita o que a sociedade deve fazer. E daí, quando existe um comando, um pensamento, regras estabelecidas que impedem o dissenso como se pode garantir que se adote o melhor caminho? Como conservar a democracia? Como impedir que uma parte da sociedade garanta seus interesses em detrimento do todo? Além do mais, quando examinamos a fundo, o estado não cria nada. O estado, todos sabem, vive de impostos, ou seja, retira sua sobrevivência do que a sociedade produz, logo quanto mais cresce sua burocracia, quanto mais aumenta impostos, quanto mais suga os recursos, menos contribui para a liberdade, para uma sociedade melhor. E quando se tem regimes nos quais é impossível exercer o direito de criticar o governo, menor se torna a transparência e mais difícil fica da sociedade evoluir porque os recursos, sem fiscalização e sem observar as necessidades sociais, serão usados mais para satisfazer os caprichos dos governantes de plantão do que para o bem social. A enchente no Rio Grande do Sul é uma grande comprovação desta verdade. As ações dispersas das instituições, empresas e pessoas foram muito mais eficientes e mitigadoras da tragédia do que as ações governamentais. É preciso que a sociedade brasileira compreenda a lição e caminhe para termos uma sociedade com menos governo e mais liberdade, se desejamos conservar o ideal de um futuro melhor.

Ilustração: Infomoney. 

quarta-feira, abril 24, 2024

UM LIVRO DEMASIADO HUMANO

 


Recebi, por intermédio do influenciador cultural Vasco Câmara, o livro de João Luís Gonçalves “Cidadãos com Deficiência-Visão Histórica”, da Edições Vieira da Silva, de Lisboa, editado o ano passado, inclusive com dedicatória do autor. É preciso esclarecer que João Luís Gonçalves já é um autor conhecido por mim, mas seus livros anteriores versavam mais histórias, lendas, revoltas, sobre direito e até sobre o imposto, mas não sobre deficientes, que se trata de um tema muito importante e também, por outro lado, muito esquecido por se centrar numa faixa de pessoas minoritárias e, em geral, até mesmo mais discriminadas do que deficientes. Afinal, de uma forma ou de outra, todos nós somos deficientes. No livro João Luis, que já exerceu a função de Procurador da República em vários tribunais portugueses e, nos últimos anos, exerceu funções no Tribunal Administrativo de Funchal e de Loulé, bem como no Tribunal da Família e de Menores de Faro e, atualmente, como Procurador Geral-Adjunto do Tribunal Administrativo do Sul (Lisboa) nos brinda com muito mais do que uma visão apenas histórica da questão da deficiência. De fato, apenas sei que é sócio da Associação Portuguesa dos Deficientes, seu livro é um trabalho muito importante não apenas por buscar as raízes da questão da deficiência, e da forma como nos tempos mais remotos está já era motivo de discriminação na medida em que, mesmo nos povos mais antigos, se exigia que as pessoas fossem saudáveis e fortes para se defender, caçar e recolher alimentos. Também lembra que os cidadãos com deficiência, sem possuírem nenhum direito, eram eliminados por se constituir um encargo para seus familiares e comunidades. Até mesmo do livro Levítico relembra que Deus disse a Moisés que o homem cego, coxo ou com outras deformações não poderia ser sacerdote, o que mostra o arraigamento do preconceito inscrito até mesmo na religião. O que é muito importante, além da perspectiva história, é que João Luís Gonçalves mostra seu notável conhecimento sobre o tema ao fazer uma digressão sobre o tema que passa pelos seus aspectos religiosos, filosóficos, sobre a evolução dos direitos, o papel da igreja, pelo pensamento de muitos filósofos, sobre a tentativa de eugenia nazista, esterilização, estatísticas e até sobre a pandemia de Covid 19, sem perder a noção de ressaltar que a deficiência, efetivamente, nada tem a haver com o corpo, mas sim com a forma como a sociedade trata as pessoas. Também elenca uma série de entidades que apoiam os cidadãos com deficiência, o que, logicamente, está mais afeto à Portugal. Em muitos momentos fica evidente que a evolução do direito nem sempre é acompanhada pela realidade. O que, sem dúvida, também acontece no Brasil, porém um livro como este nos faz refletir sobre o quanto ainda estamos distantes de uma sociedade realmente digna, que olhe para os outros com a dignidade que deve ter. Só posso agradecer ao ilustre autor por me dar a oportunidade de aurir seus conhecimentos e, principalmente por tratar de um tema que honra seu autor. Afinal não precisamos perguntar por quem os sinos dobram.