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terça-feira, abril 07, 2009

A COMUNICAÇÃO EM FOCO



Wolton, um pensador inquietante

Sem dúvida uma das mais brilhantes reflexões sobre a atualidade, em especial sobre as relações entre comunicação e sociedade, é a de Dominique Wolton, pesquisador do CNRS (Centro Nacional de Pesquisa), que, no seu último livro, McLuhan “Ne Répond Plus. Communiquer C’est Cohabiter (McLuhan não Responde Mais. Comunicar é Conviver) dispara suas idéias sobre assuntos que causam polêmica e despertam provocações e reflexões como afirmar que os jornalistas e políticos “Não escutam os homens de ciência...”. Nascido em 1947, em Duala, Camarões, é um dos pioneiros na França a se debruçar sobre a “comunicação”. Como afirma também “Comunicar é dirigir-se a um outro que não nos compreende porque não é nós mesmos. É construir uma relação com o outro sabendo que ele é um outro. Comunicar, no fundo, é aprender a conviver”.
Dominique Wolton tem um pensamento inquietante e permanente sobre a comunicação cujas raízes, confessa, remontam à sua infância africana. “No Camarões, quando menino, fiz a experiência, sem o saber, da alteridade. E com ela, da dificuldade de se compreender”. Tornou-se famoso graças aos livros Le Spectateur Engagé, um livro de entrevistas com Raymond Aron, e La Folle du Logis, um ensaio sobre a televisão que rapidamente se transformou na bíblia de todos os estudantes em comunicação e jornalismo por afirmações ousadas como “Quanto mais as tecnologias se aperfeiçoam, mais lenta se torna a comunicação humana”. Para ele: “Os cientistas criaram as ciências humanas, as ciências naturais... mas ainda não as ciências da comunicação. Ora, esse terreno de estudo é fundamental em nossa sociedade”. O que comunicar? Como podemos nos compreender? O que sabemos do “receptor”? São questões urgentes e candentes em tempos de meios de comunicação de massa. “Quanto mais as tecnologias se aperfeiçoam, tanto mais a circulação da informação é rápida e tanto mais lenta é a comunicação humana.”
Para Wolton o progresso (coisa que não acredito que exista) não vai mudar esta situação. Diz ele. “Os progressos da técnica, longe de gerar uma aldeia global, como pensava McLuhan, nos mergulham na torre de Babel. A multiplicação dos canais de informação, como o mostra a internet, favorece comunidades e redes. Permanecemos entre nós”. Por esta razão, Dominique Wolton é um advogado incansável das grandes mídias generalistas: “Elas exercem um papel capital em nossa sociedade. Seu desafio, que é o desafio da comunicação, é colossal: como se dirigir a todos quando cada um é diferente?”. Neste sentido é que, longe de desprezar a televisão, ele foi um dos primeiros a definir seu papel na cidade: criadora de vínculo social. “Como a imprensa generalista, ela permite ao cidadão sair de seus interesses pessoais e ir ao encontro da coletividade.” Interessante também, tem uma visão com a qual concordo, acredita que o leitor, o ouvinte, o telespectador tem um papel central. Trata-se de um dos poucos pensadores que crê que os telespectadores são mais inteligentes e menos influenciáveis do que se acredita. “O telespectador não é ingênuo. Ele não adere incondicionalmente e sem distância ao que lhe é mostrado: não é porque ele assiste que ele adere! Como em todas as indústrias da cultura, não é a demanda que cria a oferta, mas a oferta que cria a demanda.” Também acredito, e tenho insistido nisto, que as pessoas são muito menos guiadas por suas situações concretas do que por influência de idéias dos outros. Neste sentido acredito, como parece ser o caso de Wolton, na lógica das pessoas, mas, adaptadas a seus desejos e contingências.

segunda-feira, abril 06, 2009

A IMPRENSA PINTADA DE MARRON



É muito comum que, quando uma notícia não agrade a um político ou a um dirigente sua primeira reação seja desqualificar a imprensa. Uns mais tendentes a ter desejos ditatoriais nem precisam ter tantas noticias assim, pois, vive pensando em meios de cooptar, domesticar ou enquadrar a imprensa por meio seja de leis, seja de regulamentos ou até mesmo mandando, quando o jornalista é estrangeiro, para fora do país.
O engraçado é que se raciocina sempre como se a imprensa fosse capaz de manipular o público ou que os jornais só publicam aquilo que interessa aos agentes econômicos e políticos dominantes (se bem que no Brasil com a fortuna que o governo gasta em propaganda isto não está muito longe da verdade) ou que nada se publica sem que o dono, ou os diretores, tenham aprovado ou que a imprensa é “marronzista”, ou seja, se guia apenas pelo dinheiro.
Ora, apesar dos últimos resultados eleitorais terem derrubado a tese dos “formadores de opinião” o que se depreende deste tipo de pensamento é uma tese difícil de defender: o público dos meios de comunicação seriam uma tabula rasa com o qual, por exemplo, a Rede Globo faria o que bem desejasse. Nem parece que nós, humanos, raciocinamos por padrões lógicos, por suposições que consideram os nossos interesses procurando as opções mais prováveis ou exeqüíveis, chegando a conclusões prováveis, que podem nos conduzir à aceitação ou rejeição, simpatia ou antipatia, engajamento ou indiferença. Neste processo, muitas vezes, pesam muito mais as situações, as amizades, os compromissos financeiros, a situação econômica do que qualquer tipo de argumentos ou juízos de valor até mesmo dos nossos ídolos quanto mais de jornalistas ou intelectuais que se ouve ou lê, na maioria das vezes, esporadicamente. Em suma, a informação ganha sentido num contexto onde pesam os valores, a experiência ou o grau de informação. Por mais que meu conhecimento, por exemplo, de economia seja grande, nenhum leitor vai aceitá-lo simplesmente porque sou professor e exponho minhas idéias. Dentro do seu grau de conhecimento, é claro, que vai, em geral com o mínimo de esforço, analisar a mensagem, contextualizar o que pode aproveitar, e, o que não se bate com as informações já disponíveis na memória é simplesmente ignorado.
O que é mais interessante é que, na maioria das vezes, quem defende estas teses absurdas são pessoas que se dizem de esquerda, contrariando o pensamento das massas revolucionárias de Marx e adotando, ingenuamente, a visão das “massas passivas”, que é um conceito muito do agrado das teses fascistas de Le Bom e de Goebbels que sobreviveram a Hitler e se incorporaram, com alguma maquiagem, ao centro conservador ou liberal e, agora, são consideradas "de esquerda". A questão da informação não passa somente pela qualidade do jornal e do jornalista, mas, principalmente, pela educação do povo. Todos sabem que se há uma verdade é a de que os discursos do poder são unânimes na louvação dos feitos dos governos e governantes e, na sua essência, hipócritas. Todavia, as pessoas dependem, cada vez mais, do fluxo de informação. Hoje muito mais do que em qualquer outra época da História. Sem informação jornalística, o homem não consegue orientar-se bem, mas, o jornalista, como o político, é fruto de seu meio. Não se espera que no milharal nasçam rosas.

Ilustração: A foto é do ilustrador e caricaturista Richard Fenton Oucault que criou o Yellom Kid, um menino criador de confusões, que deu origem ao termo imprensa marron ( por lá é yellow, amarela).

quinta-feira, março 26, 2009

A ÉTICA E AS EMPRESAS



Entre os especialistas em desenvolvimento há o consenso de que o estado é um mau gestor e seu aumento gera burocracia, corrupção e impede o estimulo a um ambiente adequado ao empreendedorismo, ou seja, quanto mais o estado intervém na sociedade maiores os obstáculos para criar uma iniciativa privada saudável e mais corrupção. No entanto, como agora vemos na avalanche de casos que provém do “Mensalão” passa por espionagens que envolvem o empresário Daniel Dantas e desemboca na prisão de dirigentes da Camargo Corrêa quando se trata de corrupção não é muito fácil isolar o público do privado. E nas obras, no lixo, no transporte coletivo e nos contratos de prestação de serviços há toda uma história a ser revelada e escrita.
É impossível não constatar que no meio dos escândalos públicos há sempre as impressões digitais de empresários e/ou de empresas privadas. E, por mais que se criem mecanismos para reforçar o comportamento social e ético das empresas, não se pode esconder que, nos escândalos do cotidiano, na maioria das vezes, estão envolvidas empresas de todos os tipos. Na busca do lucro fácil se abandonam às atividades de desenvolver melhorias em inovação e aumento da produtividade em troca de propinas e de crescimento rápido sempre com os riscos muito elevados que tais práticas acarretam, principalmente, com a atuação cada vez mais forte do Ministério Público e o fortalecimento das agências de investigação.
No Brasil, onde os mecanismos de acompanhamento e punição de tais práticas ainda são frouxos, há empresas, como ficou patente com as de Marcos Valério, que crescem com uma rapidez impressionante por ligações políticas. O problema parece ser que, quando se alcança um determinado tamanho, é impossível não ganhar visibilidade e não chamar a atenção para a forma como isto acontece, mas, o fato real é que, na guerra por espaços comerciais, na qual, em geral, o estado possui uma participação relevante seja como comprador, seja como concessionário ou meramente como facilitador de certas questões, o favor de agentes políticos, ou funcionários públicos, pode ser a diferença entre o sucesso e o fracasso, daí a facilidade para que se estabeleça algum tipo de relação que acaba sendo espúria. Segundo a Transparência Brasil um dado típico de tal simbiose é o fato de que, de todas as empresas que participam de licitações no país, 62% receberam pedidos de propinas ou outros tipos de pagamentos para conquistar contratos. Ou seja, embora a corrupção pública seja execrada não é possível dissociar a pública da privada.
O que acontece, na grande maioria das vezes, é que a punição se restringe aos gestores de recursos públicos que são, imediatamente, execrados sem que se dê maior atenção aos corruptores. No entanto, como comprovam episódios em que agentes públicos foram flagrados pedindo propinas que geraram CPIs, não há corrupto sem corruptor. Por isto mesmo na democracia é indispensável criar mecanismos e controles éticos na gestão do próprio negócio até para evitar as tentações. Afinal se, no mundo dos negócios, santos não prosperam, é muito melhor prosperar devagar e solidamente do que ultrapassar limites que põem em risco o próprio nome, o patrimônio e até a família que, muitas vezes, paga inocentemente os pecados empresariais.

quinta-feira, março 12, 2009

NÃO É TÃO SIMPLES



Afogados na marolinha

Quando um país que continua a ser o centro do mundo, como é o caso dos Estados Unidos, é abalado por uma grande crise com o grau de interdependência que existe na economia seria impossível o Brasil não ser afetado. Mas, no primeiro momento, qual foi a atitude de nossos dirigentes? Em 15 de setembro do ano passado, quando quebrava o grande e tradicional banco americano Lehman Brothers, o ministro Guido Mantega da Fazenda trombeteava com empáfia: "O problema é lá, não aqui". Dois dias depois era o próprio presidente Lula da Silva que fanfarroneava: "Ela (a crise) pode atingir, mas atingirá o Brasil menos do que em qualquer outro momento. Eu diria muito menor (do que as anteriores), quase imperceptível". E, em 5 de outubro, o tom não era menos otimista "Ela é lá (EUA) um tsunami, e aqui vai chegar uma marolinha, que não vai dar nem para esquiar".
Claro que não era bem assim. Não é bem assim. A posição boa do Brasil era (é) decorrente de seus saldos da balança comercial e do aporte de recursos externos, mas, o Brasil possui uma dívida grande, embora tenha trocado a externa pela interna. A boa economia e a boa matemática ensinam que não é possível se estar confortável quando se deve, quando se tem problemas na praça e quando esta apresenta momentos de tensão que abalam economias como da Alemanha e da Suíça. No mínimo, de responsáveis pela condução econômica do país, é de se esperar que se tomem medidas preventivas e se meçam as palavras que são utilizadas. A retórica de que a economia brasileira não seria afetada era vazia até porque já se sabia que estava sendo afetada pela queda das exportações, pela diminuição do crédito externo e pela fuga de capitais das bolsas. Até que se tomaram algumas medidas, porém, insistir no discurso de que os bancos oficiais sustentariam o crédito, manter os níveis da taxa de juros e não acelerar medidas concretas para que o mercado sentisse que projetos, como os de infra-estrutura continuariam em ritmo acelerado, foi um erro de avaliação e uma esperança infundada de que a sorte continuaria bafezando o governo. Não há sorte que resista aos fatos.
E eles se revelaram quando faltou crédito para projetos essenciais, como das obras de ampliação do caótico sistema portuário brasileiro estão seriamente comprometidos, por falta de crédito. O Brasil, por incompetência, perdeu a onda de capital abundante para concretizar os projetos de infra-estrutura, base do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento), agora os investimentos serão muito mais difíceis de serem concretizados, devido a falta de crédito em todos os mercados. O Brasil não é uma ilha. Não está imune à nada como comprova a onda de desempregos (8,5% dos empregos da indústria paulista perdidos nos últimos meses) e a apatia e inação do governo que, até março, só empenhou pouco mais de 6,09% dos R$ 20,5 bilhões que tem para aplicar no PAC e realizou apenas 0,65% num desempenho pífio. E, cortando, como tem feito, os juros de forma ortodoxa tende apenas a se afogar na marolinha que, se não for bem cuidada, se transformará num tsunami que nos levará ao atraso de ter um ano com crescimento zero do produto interno.

terça-feira, março 10, 2009

OS LAÇOS QUE OS UNEM SE ESTREITAM



O abraço entre os que se sabem impuros

Lembro de um candidato que passou vinte anos dizendo que “se eleito” mudaria completamente a face do país. Nunca antes neste país e, talvez no mundo, na verdade, alguém falou tanto em mudar quando Luiz Inácio Lula da Silva. Até mesmo no seu discurso de posse, nos idos de primeiro de janeiro de 2003, ainda assumiu dizendo que a palavra chave de seu governo era “mudança”. Mas o que mudou de fato? Um Senado presidido, pela terceira vez, por José Sarney, ou uma Câmara presidida, pela terceira vez, por Michael Temer? Ou será que a eleição de Fernando Collor de Mello, que chegou a ser sinônimo-mór de corrupção, para chefiar a Comissão de Infraestrutura que fiscaliza o PAC? Ou a mudança será de que Lula usa a máquina com a maior desfaçatez, com ar de dissimulação, para promover uma candidata de seu partido? Que, contanto, que alcance seus objetivos não importa que se destruam os partidos e o futuro do país? Que quanto mais fala menos as coisas acontecem na vida real?
Bem não se pode negar que, ao não mudar, ao manter o que era indispensável, como a estabilidade econômica, uma razoável responsabilidade fiscal, câmbio flutuante e inflação na meta, Lula não tenha mudado (suas posições antigas) e acertado. Porém, no que tange ao modo de fazer política não mudou absolutamente nada do que precisava ser mudado. Pelo contrário enraizou o clentelismo oficial com o bolsa família, sedimentou, com a cooptação dos sindicalistas no governo, o fisiologismo descarado e, ainda, com formas dissimuladas, como apontou o ministro Gilmar Mendes, alimentou o conflito no campo e, com práticas como a do Mensalão, o crime organizado na política nacional.
Convenhamos que os petistas têm razão quando dizem que não inventaram nenhuma podridão nova, mas, com marketing e o colaboracionismo omisso das oposições, tornam o jogo político cada vez mais um circulo vicioso onde a locupletação e o crime se lavam com a hegemonia política, daí que os escândalos se tenham tornado tão normais que não escandalizam mais ninguém. Seja o deputado que esconde um castelo ou um avião, o funcionário público com uma mansão, a venda de cargos na polícia ou ex-dirigentes públicos ostentarem vidas milionárias quando saem de seus cargos quando são (eram?) reconhecidamente sem posses. O fato é que, ao propiciar a vitória do que supostamente, seria o seu oposto, o agora senador Collor, Lula se mostra como um patrocinador do “é dando que se recebe”, um adesista militante e, portanto, fator de aceleração da degeneração política denunciada amplamente por Jarbas Vasconcelos. Seu comentário de que a vitória de Collor, com seu aval, na comissão do Senado, de que “O acordo que elegeu o Sarney, elegeu o Collor” é uma concordância com o que vem sendo feito e uma reconciliação com o ex-presidente alagoano que, sabiamente, retrucou Aluízio Mercadante, lembrando o caso dos aloprados, dizendo que “Não sou mais puro nem impuro do que ninguém”.

quinta-feira, março 05, 2009

NO PALCO NOVAMENTE



Os irmãos siameses se reconciliam
Lembram de um ex-presidente que foi apeado do governo e já foi símbolo da corrupção? Ele foi o primeiro presidente do Brasil que afirmou que ia deixar a esquerda perplexa e a direita estupefata e tem o nome de Collor. Prometeu e cumpriu. Mas, sem prometer, mais longe foi Lula da Silva que alardeava fazer grandes mudanças na política e na economia. Não mudou nada e mesmo assim foi reeleito. Collor criou muitas frases de efeito como: "Tenho aquilo roxo" ou "O tempo é o senhor da razão" ou "Minha gente", mas, teve que renunciar por pressão pública e todo o aparato sindical contra ele. O Lula da Silva navega em águas mansas com frases: como "Eu não sabia", "Nunca na história desse país" ou “Companheiros”. Aparentemente, como disse o governador Aécio Neves, “Lula não é Collor”, porém, são, no fundo, muito parecidos. Basta comparar o depoimento de Lurian, por exemplo, com o factóide da “privatização”. Os métodos são os mesmos. O que se pode dizer é que, com o tempo, um ficou mais hábil do que o outro.
Se dúvidas havia de que se reconhecem como irmãos, depois que o senador Collor foi recebido no Planalto, sua volta triunfal à cena política elegendo-se presidente da estratégica Comissão de Infraestrutura do Senado, ao derrotar o PT, com o apoio de Lula, José Múcio, Renan Calheiros, o PMDB e o DEM liquida o passado como se ambos se perdoassem pelos excessos. E a coerência política anda tão fragmentada que o PSDB, num equívoco lastimável, se uniu ao PT para apoiar a derrotada candidatura da senadora Ideli Salvatti. Esta, uma guerreira permanente e inconsciente a favor do governo, teve que, abandonada pelo Planalto, assistir impassível à ofensiva do ministro de Relações Institucionais, José Múcio Monteiro, em favor de Collor e engolir as desculpas esfarrapadas do presidente de que fez o que era possível quando o líder do PMDB, Renan Calheiros, só mobilizaria sua tropa de choque para votar contra ela com o aval governista.
As ironias da situação são várias, inclusive porque, em 2007, quando Calheiros renunciou à presidência do Senado para não ser cassado, foi a brava Ideli que assumiu publicamente sua defesa para ser recompensada da forma que agora foi. Sobrou como consolação o senador Aloizio Mercadante (SP) ter sido duro com o PMDB ao dizer que "Foi uma aliança espúria que interferiu no direito legítimo e democrático do PT". Não compreenderam que foi um ajuste do passado. Um irmão devolvendo o resto do brinquedo que tomou do outro. Collor é Collor. Tanto que se revelou, mesmo que por uma alfinetada do senador Sérgio Guerra (PE), ao responder que "Sou um homem bastante experimentado e sofrido para chegar num momento como este e ouvir ironias. Aprendi a ser um homem cordial não somente pela educação que recebi, mas pelas experiências e pelos sofrimentos que colhi ao longo da vida pública. Mas não está apagado dentro de mim a vontade do debate, do enfrentamento e a coragem". Voltou ao palco.

terça-feira, fevereiro 17, 2009

JARBAS RASGOU A FANTASIA



Por mais que a grande imprensa tenha minimizado a verdade é que, desde que, em junho de 2005, o deputado Roberto Jefferson, do PTB, denunciou a compra sistemática de parlamentares para servir ao governo Lula, no esquema conhecido historicamente pelo nome de "Mensalão", um político não conseguiu um efeito tão devastador quanto o da entrevista do senador Jarbas Vasconcelos à revista Veja. Afinal Jarbas não é um político insignificante nem um neófito. Já foi duas vezes governador do seu Estado e é um dos fundadores do seu partido e, ao contrário de Jefferson, não tem o intento de vingança nem é um homem que almeje muito mais do que já obteve na política. De fato, o que fez foi um desabafo de alguém que se cansou de ver o controle do Planalto sobre o Congresso que dança sob a conveniência do lulismo deteriorando ainda mais os costumes políticos e se afastando da ética e do bem público que deve ser o norte da política.
Claro que não iria citar casos concretos nem dizer nomes, aliás, dispensáveis, porém, meteu sem dó o dedo na ferida que não é apenas do PMDB, que não é segredo para ninguém que se trata mesmo de uma confederação de líderes regionais, todos com os seus próprios interesses onde predominam as práticas clientelistas. Não é um apanágio do PMDB como explicou Vasconcelos, mas, de todos os partidos fisiologistas que usam os cargos como instrumento de prestígio político e se especializam na “manipulação de licitações, contratações dirigidas, corrupção em geral". Nem mesmo é novidade que "Boa parte do PMDB quer mesmo é corrupção." O que salta aos olhos é que o senador denunciou com muito mais veemência o clientelismo explícito do governo Lula da Silva que quer se perpetuar, à la Chávez, alargando o Bolsa Família, como bem disse Jarbas “O maior programa de compra oficial de votos do mundo”.
O que, de certa forma, motivou o desabafo é a geladeira em que colocaram um homem com a experiência de Jarbas Vasconcelos à margem da política nacional enquanto outras figuras menores, por serem coniventes com um sistema corrupto, não contribuem para mudar absolutamente nada para o país. A amargura do senador foi extravassada pelo fato de que considera inadmissível Renan Calheiros, depois de ser apeado da presidência por um escândalo, voltar a ser líder e Sarney que considera sem “compromisso com reformas ou com ética" ser guindado à presidência apenas por servir para manter os partidos numa relação essencialmente clientelística. Jarbas Vasconcelos não atingiu o PMDB, mas, uma estrutura clientelística e corrupta de manutenção do poder que quer se perpetuar. Jarbas Vasconcelos rasgou a fantasia de eficiência de um governo que tem sido excepcional em marketing e medíocre em resultados.

quinta-feira, fevereiro 12, 2009

UMA PALHINHA...



NA FOGUEIRA DO DEBATE
A provocação está feita para todos que, de uma forma ou de outra, dependem das mídias, porém, afeta mais particularmente os jornais. Já, no Alto Madeira, de domingo a provocação veio sob a forma da matéria de Antonio Nilton que sob o título “A Imprensa morreu. Viva a nova Imprensa” em que defende a tese de que só haverá salvação para os meios de comunicação se, e somente se, houver mais investimentos, mais criatividade e preocupação com os leitores. É um bom veio a ser explorado. Ou seja, a preocupação com o futuro dos jornais é uma preocupação bem nossa.
Mas não só nossa como comprova a reportagem de capa desta semana da revista Time que aborda exatamente os tempos negros vividos pelos jornais. O autor da análise é pessimista, pois, trata-se de Walter Isaacson, ex-editor da própria Time, que enfoca os jornais americanos apresentando números que comprovam a queda de faturamento das empresas de mídia, enquanto, contraditoriamente, se constata o aumento do número de leitores, em especial mais jovens, que, normalmente, rejeitavam o formato de jornal impresso. Issacsoon trava uma luta intelectual tentando encontrar caminhos para que as empresas possam sair da sinuca em que se encontram derivada de que a tecnologia democratizou o acesso à mídia global, dificultando os mecanismos de faturamento. Ou seja, como se pode ter acesso às publicações do mundo inteiro num simples clicar de botão qual o sentido de pagar pela notícia? É partindo desta premissa que Isaacson considera que as empresas de mídia estão seriamente ameaçadas e a profissão de jornalista também porque- diz ele- logo as empresas não mais poderão pagar salários justos a seus profissionais e, sem fontes de renda, as empresas desaparecerão.
Bem, a premissa dele me parece complicada na medida em que seu raciocínio é o de que ninguém vai assinar uma publicação se pode lê-la on-line sem pagar um centavo. De resto, com a crise econômica, segundo ele, as coisas ficam piores. E há, lá e aqui, muitas evidências a favor deste argumento. Todo mundo sabe das dificuldades de grandes jornais, inclusive do The New York Times. Ou de fatos acontecidos recentemente como a suspensão das edições impressas do Christian Science Monitor e o Detroit Free Press que são agora somente on-line. No Brasil, os mais notórios exemplos são a Tribuna da Imprensa, do Rio, e a Gazeta Esportiva, de São Paulo – um tradicional jornal de esporte, que somente ainda continuam gerando conteúdo na internet. A posição de Isaacson é dogmática. Crê que foi um erro a liberação gratuita de conteúdo e sugere um tipo assinatura eletrônica via pay pal como o Wall Street Journal. Não creio que seja o caminho. Acredito que a questão está mais ligada à falta de diversidade, de adaptação à clientela, de qualidade e de circulação do que qualquer outra coisa. Cada caso é um caso, mas, há empresas que estão aumentando seu faturamento e circulação e exemplos de jornais que são distribuídos de graça mostram que a tendência é mais para o “di grátis” do que tentar lutar contra o inevitável que é a liberdade de informação e a tecnologia.

quinta-feira, fevereiro 05, 2009

A TRAIÇÃO É A MARCA DO ATRASO



Esta semana fiz duas leituras completamente diferentes. Uma do escritor recém-falecido John Updike, reproduzida pela revista Veja, do seguinte trecho: “Minhas amizades com autores e críticos tentando seguir carreira nos países comunistas e do Terceiro Mundo tornaram-me um apreciador das liberdades e oportunidades que gozo como americano. Eu amo o governo do meu país por sua tentativa de, num mundo tão precário, preservar uma ordem pacífica na qual o trabalho é possível e a felicidade pode ser buscada não para o bem do estado, mas num estado que existe para o nosso bem. Eu amo o meu governo no mesmo grau e medida em que ele me deixa em paz”. É um depoimento sólido de quem vê como é difícil ter, e valorizar, a liberdade política. Neste ponto, não posso deixar de ser um admirador da democracia norte-americana, sem igual em criar espaço para o cidadão. Como brasileiro sei como o governo pesa no bolso e na vida criando obstáculos para que se tenha uma vida melhor. Porém, aqui, Updike, toca num ponto fundamental: a construção de respeito às regras, de confiança social mútua, de respeito aos valores.
È o grande contraste em relação à outra notícia que li sobre as eleições dos presidentes da Câmara e do Senado. Nela houve um jogo de enganos e de traições. Claro que o homem trai seu semelhante desde os tempos mais remotos. Pode-se dizer que é um traço inato da humanidade. Mas, a vida em sociedade somente progride, somente cria o que nós chamamos de desenvolvimento quando passa a haver o cimento da confiança entre as pessoas. Todas as culturas condenam a traição por ser um sintoma de atraso, de falta de desenvolvimento inclusive mental. É emblemático o beijo de Judas na face de Jesus que tornou-se símbolo máximo da traição dissimulada. O apóstolo matou-se sufocado pelo peso da consciência e, mesmo assim, o termo “Judas” é sinônimo de “traidor”. È triste ver que as eleições para as presidências da Câmara dos Deputados e do Senado são exemplos de como trair virou uma fato normal na busca de objetivos. Claro que trair na política não é novidade. Em geral os políticos traem prometendo coisas que não vão fazer. Triste, porém, é ver a desfaçatez com que os parlamentares falavam na traição de colegas como estratégia para eleger seu candidato e não se vê indignação nem protestos da opinião pública com o jogo de traições na cúpula do poder nacional. È um péssimo sinal. Quando trair vira um valor, é sinal de que há algo de muito errado na nossa sociedade. É uma questão de princípios. Princípios? Isto parece uma coisa do passado quando se observa que um mesmo partido age, em dois lugares de forma completamente diferente, de acordo com os seus interesses locais. O que vale é o poder a qualquer preço. Pode-se mantê-lo, mas, condenando a sua própria sociedade ao atraso.

Ilustração: http://www.lepanto.com.br/Imagens/Judas2.bmp

sábado, janeiro 31, 2009

A ILUSÃO DOS FÓRUNS




Todo ano, já se tornou uma tradição, tanto o Fórum Econômico Mundial como o Fórum Social Mundial, um contraponto supostamente de esquerda ao encontro que é considerado como cúpula dos capitalistas, ocorrem nesta época. . O interessante é que este ano os dois ocuparam muito menos as páginas dos jornais, apesar da escassez de noticias que o primeiro mês do ano sempre tem. Uma parte porque as estrelas desapareceram, ou andam meios ofuscadas; outras porque os eventos perderam parte de sua novidade e da capacidade de fornecer notícias diante da crise econômica que, em geral, somente abre espaço para os indicadores ruins.
Por sinal o Fórum Social Mundial ainda recebeu mais atenção do que o quase desaparecido Fórum Econômico Mundial que recebe todo ano, em Davos, durante uma semana, políticos, empresários e líderes religiosos. Com eles, chegam sempre grandes ou pequenas comitivas, que ocupam hotéis, frequentam restaurantes, cafés e lojas e dão brilho e movimento ao evento. O que os fóruns, com certeza, patrocinam é mesmo turismo tanto que, em entrevista à imprensa, o prefeito de Davos, Hans Peter Michel, disse que o setor mais beneficiado é mesmo o hoteleiro, já que 20% do faturamento anual dos estabelecimentos resulta da semana do fórum econômico.
Não há dados sobre Belém do Pará, sede do Fórum Social Mundial, porém, com a inundação de delegações que incluiu chefes de Estados sul-americanos como Chávez, Evo Morales, Rafael Correa e Lugo, afora Lula acompanhado de 14 ministros e incontáveis assessores, a colheita deve ter sido farta tanto que houve pessoas que ficaram zanzando atrás de acomodações. De qualquer forma um evento que, afirmam os realizadores, teve mais de 90 mil inscritos e que foi realizado em dois grandes campus universitário, agita uma cidade mesmo grande como Belém.
É notável mesmo é que, pelo que consegui ler a respeito, as únicas coisas em comum que os dois eventos tiveram foram críticas e congestionamentos de trânsito. È bem verdade que, em Belém, a razão do congestionamento foi a falta de organização, um detalhe comum na nossa história, enquanto por lá, em Davos, uma cidade de 13 mil habitantes, é normal que não suporte a chegada de uma grande quantidade de veículos. Lá os habitantes fazem quase tudo a pé, embora tenha veículos.
O certo é que eventos como os fóruns mundiais são interessantes por criar a ilusão de que seja possível reunir o mundo para encontrar soluções, todavia, quem tem espírito analítico e crítico sabe bem que muito pouco se muda nesses locais. È mais um mis em scéne. A vida se resolve mesmo é no dia à dia. Na contagem minúscula dos minutos. Os grandes palcos são só para os comunicados.

ZIZI, O DESERDADO CULTURAL



Começo por trazer à baila a palavra “cultura” que provém da língua latina, mais precisamente do radical da palavra que é o verbo colo, no sentido original “cultivar”. Daí o cultus (particípio de colo) que tem o sentido de cultura da terra de onde derivou “cuidar de”, “tratar de”, “querer bem”, “ocupar-se de”, “adornar”, “enfeitar” e, por fim, o sentido moderno de “civilização”, “educação”; e também de “adorno”, “moda”, “decoração”. É dos alemães, porém, a derivação mais rica, a palavra “cultura” num sentido mais amplo, para referir-se ao cultivo de hábitos, interesses, língua e vida artística de uma nação. Creio que, na língua portuguesa, não exista nenhuma outra palavra com sentido mais abrangente do que a palavra “cultura”. Por cultura se entende muita coisa, mas, essencialmente a idéia de totalidade humana. O que faz a diferença entre os homens e os animais, uma nação e um bando.
A ampla concepção de cultura me fez saudar como uma magnífica idéia a construção, no lugar do antigo mercado, bem no centro da cidade, de um “Mercado Cultural”. Nem mesmo me abalou o fato, na época lamentado por muitos, de fechar o Bar do Zizi. Raciocinava que para fazer do que restava ali um local de cultura bem que o Zizi poderia fechar pelos 180 dias previstos para, depois, ele e a cidade receberem um lugar muito melhor. Como a velhinha de Taubaté eu acreditei. Acenaram com a isca da cultura e nos prenderam na armadilha da burocracia, da falta de cumprimento de prazos, em suma, da falta de compromisso com o que foi divulgado e acertado.
Como sempre irão nos vender a idéia de que se trata de mais um “transtorno” que tudo, depois, ficará melhor. Pode ser. Mas é preciso lembrar a angústia, o sofrimento, o custo pessoal do Zizi. Ele, como muitos de nós, acreditaram que a obra seria feita em seis meses, porém, já se arrasta por mais de um ano. Era para ser inaugurada em setembro. Setembro passou e marcaram para dezembro. Dezembro se foi. Quem conhece o Zizi sabe que o bar sempre foi a vida dele, por 45 anos. Não se trata apenas de um trabalho, mas, de um comportamento, de uma cultura que se encontra interrompida, parada no tempo. Zizi, por incrível que pareça, vai todos os dias, nos mesmos horários de quando abria e fechava o bar, até lá à obra na esperança de que possa voltar ao seu cotidiano, à sua vida normal. Alguns freqüentadores também e até esticam até o Manelão para se queixar da falta que o bar faz. O Zizi anda meio cabisbaixo, cansado de esperar. Pode daqui a pouco ter um troço de desespero, magoado com a indiferença que se tem em relação ao problema. Desesperado para que devolvam sua vida, sua razão de ser, sua cultura, enfim. É um homem sem raízes sem seu trabalho e sem seu bar. É tempo de inaugurar a obra paralisada. Antes que seja tarde demais e o Zizi desabe sob o peso imenso da burocracia que o tornou um deserdado cultural.

Ilustração: Site Gente de Opinião

segunda-feira, janeiro 05, 2009

POBRES ESCRITORES...


Escritor, um mendigo moderno

Foi feito, em Brasília, com escritores e colunistas do Congresso em Foco, Marcelo Mirisola e Márcia Denser, uma discussão, no último dia 19 de dezembro, um debate mediado pelo jornalista e professor Sérgio Sá, sobre os rumos da literatura contemporânea, no Espaço Brasil Telecom, em Brasília. Destaco algumas das afirmações controvertidas que saíram do debate 1) O escritor José Saramago, Clarice Lispector e Virginia Woolf são chatos; 2) Personalidades como José Carlos de Oliveira, Paulo Mendes Campos e Nelson Rodrigues provavelmente não teriam espaço nos principais jornais do país, que fecharam suas portas aos escritores brasileiros; 3) A falta de originalidade e de grandes talentos marca a produção literária atual; 4) O escritor brasileiro é um pangaré, que vive das migalhas garantidas por seus contatos; 5) Os mais inventivos autores nacionais contemporâneos são ignorados pela academia; e 6) Escritores não lêem uns aos outros e não há nada interessante na literatura contemporânea.
É interessante que não consigam ver nada de interessante. No fundo confirmam que, no mundo atual, chegamos ao ponto que o conforto e o excesso fazem com que as pessoas se confinem no seu mundo e só tratem do que lhes interessa. De certa forma é isto que acontece tanto com a academia, como com o jornalismo ou mesmo com os escritores. È a razão também pela qual quem tem opiniões sólidas não é bem aceito. De fato não é fato que não exista originalidade nem personalidades nem escritos interessantes. Há demais. Há como nunca houve antes neste país, para usar uma frase de um leitor eventual, mas, a grande realidade é que tanto a academia como a literatura se perderam nos seus próprios nichos. Não interessam a ninguém. E quando interessam, como é o caso de Paulo Coelho, é mal visto, apesar de todo o bem que faz à literatura. E, não sei, como alguém pode se dizer intelectual e não reconhecer que Paulo Coelho é interessante por mais que não possa permanecer nem ser considerado um gênio da literatura. Mas, se não é um Pelé é um Ronaldo, o Fenômeno.
Claro que o escritor brasileiro vive de migalhas. Só há uma profissão quando se consegue viver dela. E para ser escritor é preciso ser editado, é preciso ser distribuído e divulgado. Os jornais no passado iam buscar os escritores para melhorar sua qualidade e atrair publico. Os escritores, hoje, somente aparecem no lançamento dos livros e se forem objetos da mídia. É mais fácil um Big Brother qualquer chamar a atenção para um livro seu do que um bom escritor. A questão real é a de que até os próprios escritores, mesmo os melhores, vivem de outras profissões. Ser escritor no Brasil é ser mendigo de benesses e produto de espanto. Quando alguém apresenta alguém que escreve e diz este é fulano de tal, escritor, invariavelmente se responde:-Ah! É? Qual livro? Depois da resposta certamente terá que explicar ou dar seu livro, pois, não terá, com certeza, sido lido.

terça-feira, dezembro 30, 2008

REFLEXÃO DE FIM DE ANO



Os bons navegadores-dizem os velhos pescadores do meu perdido Ceará-são como os rios que contornam os obstáculos, simplificam a vida. Assim, logo depois de um momento em que, pelo menos em tese, deve ser de renovação da esperança, de renascimento, de lembrar que Jesus, seja santo, filho de Deus ou mito, nasceu numa manjedoura para nos salvar, não é hora de ficar chorando as pitangas ou lamentando os acontecimentos. A vida é bela, principalmente pelo inesperado. Por ser uma gangorra onde os sem memória e os sem escrúpulos sempre pagam pelo que fazem quando pensam que são espertos. Uma nação, é preciso saber, não se faz com discursos, espertezas, mistificação. Isto é o auto-engano. Uma nação se faz com pessoas que respeitam as regras, que compartilham projetos, ideais e criam um grau de confiança mútua nos quais as leis são simples confirmação de uma forma de viver que se vive.
Vivemos tempos sumamente interessantes nos quais parece ser impossível ser alguém socialmente sem se deixar vencer pelas teses vigentes de que o que vale é o poder a todo custo ou o ter a qualquer custo também. Até nas novelas globais os mocinhos, agora, são bandidos sejam da alta, da média ou baixa camada. Nunca antes neste país a falta de educação, de respeito aos valores humanos e ao bom comportamento social estiveram tão em alta enquanto se tecem loas aos “melhores índices econômicos de uma década”. Efetivamente não há nada de muito novo no que acontece. Estamos numa época em que os mais velhos, abusados e maus costumes fazem os novos dias. Numa época em que as palavras perdem o sentido para coonestar a farsa dos bons tempos que a mídia propala, mas que não chegam, de fato, ao povo, que iludidos por migalhas e pelo alargamento do crédito se embalam num consumismo sem base, que, como corolário, deve trazer, no futuro, somente dor e desespero.
A verdade verdadeira é que, por mais que a luta tenha sido grande e o caminho árduo, nós mudamos muito pouco do que herdamos de nossos pais. Pode-se até dizer que “ainda somos os mesmos” apenas vivemos um pouco diferentes e mais rápidos. É a certeza de tal rapidez que me embala nestes dias que são tão antigos e, ao mesmo tempo, tão novos. Já existiram inimigos, verdades e muros tidos como eternos que, como por encanto, sumiram e são, hoje, só lembranças. Este tempo atual, com todas as suas nuances de engano e de metamorfose, também irá passar. E é belo saber que os Judas, por mais punhados de moedas que recebam, não escapam do remorso e da história que, embora escrita pelos vencedores, somente recolhe os que resistem, os que lutam sempre, os indispensáveis. A vida é bela. A vida é renovação. E a renovação como o tempo é irreversível. Os ventos da liberdade e da consciência sempre soprarão para o lado da verdade de forma, companheiros, que espero, luto, sonho com o amanhã melhor. Se há uma coisa que é imprescindível não é ganhar, mas sonhar pela esperança que um dia há de colorir a vida depois dos tempos da escuridão. È imprescindível sonhar. E, mais ainda, sonhar o sonho impossível de um amanhã de paz, de liberdade e de democracia.

segunda-feira, dezembro 01, 2008

A LACUNA DA GRANDE TEORIA



Pós-Modernidade e teorias

O conceito de modernidade, sem dúvida, aparece inúmeras vezes em Baudelaire que a vê como "O transitório, o fugaz, o contingente, é a metade da arte, cuja outra metade é o eterno e imutável", de forma que a experiência moderna se move entre os dois pólos de referência. Por suposto, os que lhe seguiram, traçaram a pós-modernidade como o lado fugaz e contingente da afirmação de Baudelaire, ou seja, no fundo a pós-modernidade não seria algo inteiramente novo com respeito à condição moderna, mas, sim o seu aprofundamento. Na prática, invés de ruptura entre os dois conceitos há continuidade na medida em que, em ambos, se percebe que a efemeridade, a transitoriedade e a fragmentação são próprias de ambas as épocas.
O que se observa, quando se compara as categorias do modernismo e pós-modernismo, é que ambas são pouco explicativas fora do conceito de capitalismo. Na verdade, a rigor, a modernidade que os pós-modernos pretendem transcender é apenas a falta de explicação para fenômenos fragmentários que nem o estado da arte nem a razão instrumental conseguem enquadrar nos conceitos que manejam e se cria, até mesmo, uma aversão por qualquer projeto que procure uma explicação universal através do desenvolvimento da razão e da ciência por conta da incapacidade de ter uma teoria globalizante. A forma, então, de escapar da incapacidade da razão é a criação de teorias minimalistas, de metadiscursos ou a própria negação da ciência que demonstram somente uma crise da filosofia iluminista.
Neste particular, ressalte-se que, quando ainda se falava de modernidade, Adorno e Horkhemeir já ressaltavam a traição aos ideais, inclusive marxistas, na medida em que um projeto de libertação tornara-se um sistema de dominação. Outros, como Nietzsche, Shelley e Byron propunham a experiência estética subjetiva frente à razão objetiva como forma de fugir do dilema, mas, perspicaz, Benjamin ressaltava que metanarrativas sobre o capitalismo não são necessariamente excludentes com o reconhecimento do valor da fragmentação nem iluminadoras.
O problema real continua a ser que a fragmentação, a especialização, a diversidade, enfim os elementos que configuram esta coisa opaca e multifacetada que se convencionou chamar de globalização nos impede de ter uma visão dos processos gerais nos quais nos movemos e obstrui o pensar sobre o capitalismo, inclusive por ter explodido certos conceitos marxistas que seriam essenciais para se ter uma visão global. Isto é o que leva a muitos dos grandes pensadores, como por exemplo, Foucault e Lyotard, a um anarquismo estetizante e, mesmo, ao niilismo. É a falta de categorias com que pensar a realidade e a assimilação das diferenças pelo capitalismo que impõe o modismo também nas ciências como uma forma de ocultar e de renovar pela conservação. Contra o neoconservadorismo, o niilismo e a falta de pensar, que, no fundo, são o pós-modernismo, somente é possível o combate com uma grande teoria que, infelizmente, não se enxerga no horizonte.

sexta-feira, novembro 28, 2008

UM LIVRO DO PRESENTE



O “1808” DE LAURENTINO GOMES

O jornalista Laurentino Gomes, como resultado de dez anos de um trabalho de investigação histórica, conseguiu fazer com o livro “1808” um feito dos mais relevantes que foi o de transformar história em literatura de qualidade ou criar uma literatura histórica. Sob o pretexto de tratar dos 13 anos em que a Família Real Portuguesa residiu no Brasil, desde a sua saída de Portugal em novembro de 1807 até o retorno em julho de 1821, Gomes o que faz, de fato, é recuperar toda a atmosfera da época com maestria e rigor a ponto de mencionar acontecimentos que escapariam ao historiador profissional como a menção ao meteorito de Bendegó, encontrado em 1784 em Monte Santo, sertão da Bahia, exposto no Museu Nacional, no Palácio São Cristóvão no Rio de Janeiro, no qual reinou o único soberano europeu a por os pés em terras brasileiras e ainda aproveitando para acentuar o “esquecimento” de sua passagem por ali, o que não deixa de ser um traço típico da falta de memória nacional.
Memória que, de fato, não é jamais esquecida na medida em que, ao se ler o livro, percebe-se a razão para a forma caricata com que, hoje, se trata de D.João VI e sua corte. È, no frigir dos ovos, uma busca da fuga da origem dos pecados capitais que nós trazemos de berço. Não é à-toa que 1808 é resumido pelo autor “como uma rainha louca, um príncipe medroso e uma corte corrupta que enganaram Napoleão e mudaram a História de Portugal e do Brasil”. Quando, como é feito no livro, se volta ao passado é que nos deparamos com os tempos caricatos de agora vestido com roupas antigas, porém, as fortunas que se fazem da noite para o dia às custa do erário público, o desprezo pelas normas, o gosto por tirar vantagens e o imediatismo como panacéia para a falta de aplicação e de estudos transparecem como uma herança que, inutilmente, se procura apagar seja por esquecer fatos ou minimizar pelo ridículo o que poderia ser um aviso sobre as práticas do presente.
Quem lê com atenção verifica que, malgrado seus defeitos ou erros, D. João com sua vinda consolidou o Brasil como um país integrando suas regiões e modernizando, até onde foi possível, uma região que dormia em berço esplêndido. Sem dúvida entre os grandes méritos de “1808”, além de ser um livro que se lê de um fôlego só de tão gostoso, está o de resgatar a história da corte portuguesa no Brasil e de tornar acessível a muito mais leitores um pedaço da história brasileira que ainda continua precisando de muito mais luz. É um livro primoroso também pela minuciosa consulta a fontes e ao olhar caleidoscópico que o autor faz da época. Não precisa da recomendação de ninguém, mas, se me perguntarem subscrevo que se trata de uma leitura indispensável.

sexta-feira, novembro 21, 2008

O EU COMO ESPETÁCULO



Reflexões a partir de um grande livro

Estive no Sempre um Papo no Sesc Esplanada, no último dia 19, para ouvir Rômulo Avelar sobre gestão cultural o que é sempre um convite à reflexão. Não me prenderei ao evento em si nem ao saber reconhecido do mineiro que, para quem conhece ou teve ensejo de ouvir, qualquer comentário é dispensável. O livro de Avelar, O Avesso da Cena, é uma espécie de bíblia sobre a produção cultural, o que lhe empresta uma beleza e uma magnitude ímpar. Ocorre que se trata de um “livrão” em todos os sentidos. Com uma belíssima capa, 490 páginas pode até ser usado, num grande desvio intelectual, como uma arma. Assim não teve como não surgir o inevitável comentário de um dos presentes que, pela quantidade de pessoas que o adquiriram, muitas das obras se tornariam um belo item de decoração, ou seja, teriam um destino que seria o avesso da obra. Uma coisa leva a outra.
È que vivemos numa época do fácil e do rápido, do fast-food e da literatura de notas. Hoje a grande maioria não lê mais nem os pequenos quanto mais grandes livros. Hoje se criou até mesmo horror às longas ficções que fizeram a glória dos escritores oitocentistas. Não se tem mais tempo ou disposição para ler, porém, contraditoriamente, sempre aparece tempo para acompanhar um caso de seqüestro ou a briga de casal das celebridades midiáticas ou fatos similares que parecem novelas, em que a vida cotidiana surge ficcionalizada e se nutre da curiosidade que a vida alheia sempre desperta. Ibope certo como é o caso dos “reality-shows”.
Chama a atenção o fato que o excesso de espetacularização ande acompanhado pelo desejo de realismo. O marketing que se apresenta como informação verdadeira é cheio de charme e, de certa forma, se ancora na solidão como um ingrediente fundamental da vida moderna. Não por acaso é uma solidão que quer ser espetáculo, que não quer se sentir só e busca as luzes seja das lentes das câmeras ou de uma webcam caseira. A verdade é que é uma solidão que quer testemunhas, que precisa da platéia para se sentir viva, porque, no mundo do espetáculo e da visibilidade, não ser visto é não existir. Esta a razão do desespero que leva muitas pessoas a se mostrar, a querer ser visível a qualquer preço, espetacularizando o próprio eu e tornando sua intimidade o espetáculo. A leitura perdeu o espaço da ficção para a imagem. E a imagem precisa do olhar alheio para se confirmar como existente, ou seja, a subjetividade desaparece; desaparece o estar só na medida em que não há mais a interioridade como forma de construção do mundo e eixo da existência. Hoje só é o que se vê. As diferenças entre a essência e a aparência se perderam no meio do espetáculo. Só há a encenação, o parecer, as imagens que precisam do avesso da cena na vida real. O eu é uma marca que precisa ser cuidada. Não por acaso se fala em cuidar da imagem e cuidar da imagem é aparecer. É preciso aparecer para ser alguém. E um grande livro leva muito tempo para ler. Só se aparece com ele nas cenas de novelas.

quarta-feira, novembro 05, 2008

CRIATIVIDADE PORTOVELHENSE



Turista de shopping

Que Rondônia é um estado em formação, um estado jovem, ninguém duvida. Porém, também já está criando uma tradição, festas, ditos, costumes e falares que são bastante típicos e mostram nossa adaptação e criatividade. É evidente que esta cultura em formação é mais forte em regiões mais tradicionais como Guajará-Mirim, em cidades ribeirinhas menos influenciada pelos migrantes, mas, também em Porto Velho, uma capital marcada pela tradição cosmopolita mesmo com a improvisação urbana e de infra-estrutura que ainda apresenta. Porto Velho ainda é a menina-moça cheia de espinhas que poucos adivinham será modelo internacional.
Especificamente em Porto Velho a mistura de raças, costumes e falares é um traço típico de uma cidade que já começou internacionalizada. Não se pode nem se deve esquecer que, quando se idealizou a cidade para apoiar a Estrada de Ferro Madeira Mamoré, foi criado um núcleo urbano moderno com água tratada, energia elétrica, saneamento e até jornal em inglês que, na sua época, era mais organizada que o Rio de Janeiro, então capital do país. Não há dúvida que há contribuições, em especial lingüísticas de todos os lados, todavia, por tempo de serviço acabou prevalecendo às colaborações que vieram dos nossos vizinhos nortistas, o Amazonas, o distante, mas influente no passado, Pará e, mesmo através deles, de estados do Nordeste. Há uma herança, que já foi mais evidente, na fala cantada do porto-velhense, no sotaque local, dos nordestinos, especialmente os cearenses. Expressões como o nosso tradicional “quissó”, ou seja, quente “pra danar” (demais) é característico do Ceará, tanto como o conhecido “ramupubanhu (= vamos pro banho) que agrega o “ramu” (vamos, cearense) ao banho (nosso) que, por lá, até por falta de água não é comum. Do mesmo berço provém expressões como “leso” (abestalhado) ou se “lascar”, que não é se partir em pedaços e sim perder o rumo, a direção, ficar perdido para não cair no palavrão.
Há muito mais, contudo, não me guia fazer uma incursão pelo falar portovelhense e sim louvar sua criatividade e adaptação que é famosa pelo “saquinho”, a tecnologia que foi usada para não precisar usar os cascos de refrigerantes. É uma prova de que somos mais antropofágicos do que os modernistas poderiam imaginar, mais criativos ou iguais aos japoneses brasileiros. Agora, por exemplo, damos mais uma prova disto com a inauguração do Porto Velho Shopping. Não é que aproveitando a oportunidade alguns empreendedores criaram, a partir da periferia, as excursões para o shopping! Pois é. São uma realidade os ônibus fretados especialmente para levar pessoas para conhecer e fazer compras nos shoppings e, em alguns, até guia e orientação já existe. Em que outro local do mundo seria possível criar turista de shopping? Só mesmo em Porto Velho.

terça-feira, novembro 04, 2008

O REAL VAZIO DA AMAZÔNIA


A Amazônia sem projeto
Ninguém que pensa sobre a Amazônia pode deixar de reconhecer que há uma lacuna entre o fervor religioso do ambientalismo e de suas teorias de desenvolvimento sustentável e a realidade do primitivismo da forma como a Amazônia continua a ser ocupada. Inclusive também é muito pobre a perspectiva que oferecem para os amazônidas de aceitar que as terras em que vivem virem parques para benefício da humanidade sem contrapartida para seus desejos de desenvolvimento ou, como tentou, e ainda tentam implantar, algumas ONGs uma área dividida em grandes reservas também sem atividades econômicas para usufruto delas e de algumas tribos indígenas numa reprodução ampliada da falta de bom senso de Roraima na qual o Estado se tornou menor do que a reserva indígena.
Não é, certamente, este o caminho que os amazônidas desejam. Em especial os amazônidas de Rondônia, do Mato Grosso, do Pará e de Tocantins, para só citar os mais visados, que desejam a preservação sim, porém, com direito ao desenvolvimento. E isto é possível. Não o é, todavia, com a completa falta de respeito que se tem tido em relação aos nossos pensamentos e as nossas vidas. A grande realidade é que em gabinetes e em mesas de bares todos dão palpites ou até criam movimentos para “salvar a Amazônia” como se, entre nós, não houvesse pessoas normais, capazes, em muitos sentidos muito mais capazes dos que desejam solucionar nossos problemas, e a aqui houvesse um imenso vazio de cultura. Não é assim. Em Rondônia, já na década de oitenta, por exemplo, um grupo de técnicos locais gerou o que seria uma solução: um zoneamento econômico ecológico. Aliás, desrespeitado, rasgado, renegado e desprezado ainda resta resquícios de uma experiência que, hoje, já tem por volta de vinte anos e que, para inglês ver, os órgãos federais dizem que é uma forma de solução. E é, mas, é preciso que existam efetivamente os zoneamentos que não sejam as peças de ficção que servem meramente para o discurso que encobre apenas a criação de restrições para as atividades produtivas na Amazônia.
A Amazônia continua a ser a grande esquecida da realidade brasileira. O discurso e a prática que, hoje, continua a existir, piorado, diga-se de passagem, é o de que não se pode desmatar, que é preciso preservar, mas, ninguém explica nem busca produzir formas para as pessoas sobreviverem e melhorar de vida. O resultado é o de que entra mês e saí mês e somente se faz a exaltação ou a reclamação sobre os dados de desmatamento. Tudo vão. O desmatamento, no quadro atual, é inevitável. Sem criar um zoneamento de fato, sem aumentar os recursos para pesquisa, sem fomentar a vinda de pesquisadores, sem criar projetos efetivamente viáveis, sem ouvir e escutar as vozes da Amazônia, sem criar formas das pessoas terem emprego e renda, o lenga-lenga da preservação só servirá para que as Marinas e os Mincs apareçam na mídia como salvadores da pátria, de uma pátria que nunca será salva. É preciso, urgentemente, um projeto real para a Amazônia. E acabar com discursos vazios e sem sentido.

terça-feira, outubro 28, 2008

O PESO DECISIVO DA MÁQUINA PÚBLICA

A mudança é o que deve caracterizar o estado democrático. O verdadeiro democrata é aquele que, mesmo estando no poder, procura realizar a vontade do seu povo e não se eternizar no trono. Compartilho da opinião de que se não há mudança não há é mesmo política. Há a imposição de um pensamento único, de um poder único que, em geral, ignora os desejos da comunidade seja de que haja uma saúde melhor, um transporte público e uma coleta de lixo de qualidade ou, simplesmente, que não mudem o nome ou a mão de uma rua sem que a vontade da comunidade seja ouvida. Assim, por definição, entendo como o filósofo francês Comte-Sponville que a "a política é como o mar; não pára de recomeçar". Por tal razão entendo que a reeleição (que poderia até ser um instituto útil) nas condições atuais é a anti-política, uma opção que, se não for mudada, tende cada vez mais a impedir a mudança.
E quem comprova isto é a história. Basta ver que, desde que aprovada a emenda da reeleição em 1997, que permitiu que chefes dos executivos federal, estadual e municipal pudessem concorrer a um segundo mandato consecutivo, os índices de recondução somente têm aumentado. Se, nas primeiras eleições (em 2000 e 2004), mais da metade dos candidatos que concorreram à reeleição obtiveram êxito quando consideramos a última, sem contar com as disputas do 2º, os índice de prefeitos reeleitos alcançou 70%! E, como se observa, o Estado do Ceará é um exemplo, recordista da recondução de prefeitos com 75% reeleitos, quanto mais pobre mais fácil a manipulação do eleitorado. Será que a administração dos prefeitos é tão boa que de cada dez prefeitos 7 tenha sido reeleitos? Claro que não. A máquina pública neste contexto é uma arma poderosa, principalmente, depois que inventaram o clientelismo oficial dos bolsa famílias. Afora que, nunca antes neste país, existiram tantos cargos comissionados que, como se sabe não querem perder a boquinha, logo foram os primeiros a serem flagrados balançando bandeirinhas nos pit-stops, com gosto ou sem gosto. Sem contar que a intensa propaganda paga que anunciavam os maiores programas do mundo que, se analisados, seria possível verificar possuem resultados medíocres ou um pouco pior.
A grande realidade é que o eleitor ao reconduzir um prefeito, um governador ou um presidente não possuem os mínimos dados para avaliar o seu desempenho. Não se lembram quais foram as promessas do passado nem avaliam o que melhorou ou o piorou. Se há, ou não, melhorias efetivas na saúde na segurança ou na educação.Se o fizessem veriam que os altos índices de reeleição não estão associandos a boas gestões e sim a muito mais dinheiro, mais propaganda e mais clientelismo. Embora esperando que não aconteça é possível que, com a crise mundial, os prefeitos recém-eleitos tenham com comprovar uma maior capacidade para gerir os bens públicos num período de maiores dificuldades e menos recursos. Será uma prova de fogo. Por ora, o segundo turno está aí comprovando com a eleição de Kassabe, Paes e Márcio, o que pesou mesmo foi a máquina pública.

Ilustração: www.rdnews.com.br

segunda-feira, outubro 27, 2008

UM TITÃ DOS NEGÓCIOS

A Marca de Farquhar

Sem dúvida que Percival Farquhar é uma figura controvertida. O que não se pode negar, no entanto é que foi um visionário com o desejo de estabelecer, o que até hoje não foi feito, que é implantar um sistema ferroviário que abrangesse toda a América Latina. Inegável também que, para um filho de quacres que se formou em engenharia pela Universidade de Yale, naquela época ter um grande número de ferrovias no Brasil, de estradas de ferro na Rússia e minas de carvão na Europa Central, além de engenhos de açúcar em Cuba, não era uma tarefa fácil. No Brasil historiadores apontam que tornou-se o maior investidor privado do Brasil, entre 1905 e 1918, e que seu império se rivalizou com o do Conde Francisco Matarazzo e com o de Irineu Evangelista de Sousa, o Visconde de Mauá. E, sem sua ajuda financeira, Assis Chateaubriand não teria feito seu império de comunicações.
Uma acusação que lhe é feita é a de que suas empresas viviam de favores públicos, como se não fosse o modo de agir da época. Em razão dos governos serem muito intervencionistas se tornava impossível fazer grandes projetos sem sua proteção. O que não se diz é que graças a sua iniciativa surgiram inúmeros serviços públicos nas áreas de gás e iluminação, telefonia, hotelaria, madeireiras e inclusive a Vale do Rio Doce, bem como portos e ferrovias. Daí não ser de espantar que digam dele que "teve mais fome de terras do que qualquer personagem da história da América Latina desde o tempo dos incas" (palavras de seu biográfo Charles Gauld). Para quem, como ele, levantava altas somas para financiar seus projetos (dizia-se capaz de financiar qualquer coisa) é evidente que também foi muito hábil na autopromoção de sua imagem, sempre se esforçando para aparecer na imprensa como sendo um exemplo de capitalista norte-americano altamente bem sucedido, um ícone do empreendedorismo, o que não podia deixar de lhe render alguns admiradores na mesma proporção que despertava inveja e até mesmo ódio. Um estrangeiro de sucesso em países alheios, e com idéias próprias, não era para muitos o melhor dos visitantes, principalmente, com negócios rentáveis. E, como Charles A. Gauld, reconhece "O gênio de Farquhar estaria mais do lado da visão e da capacidade de levantar dinheiro para expandí-las do que da administração eficiente e da economia de custos nas suas 38 empresas."
Sua chegada ao Brasil se deve ao distrato com o Bolivian Syndicate e ao compromisso assumido pelo governo brasileiro de construir a Estrada de Ferro Madeira-Mamoré, considerado “um empreendimento obscuro e assombroso, anárquico e absurdo”. Muitos alegam as mortes e os danos ambientais como seu legado, porém, julgam o passado com os olhos do presente. Percival Farquhar é uma figura polêmica, mas, sua grandeza se reflete em que sem seu empreendedorismo Porto Velho não existiria e, sem dúvida, o Brasil de hoje demoraria muito mais a ter os contornos modernos que já possui. Se foi um pirata, como diziam, foi um pirata com visão construtiva. Sua marca de empreendedor permanece muito além de sua vida.