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terça-feira, novembro 15, 2005

ELUCUBRAÇÕES SOBRE A ÉTICA

Afirma Émile Durhkhiem, na sua obra "Ética e Sociologia da Moral", que "o objeto da ética é, acima de tudo, estabelecer os princípios gerais dos quais os fatos morais são apenas aplicações particulares", portanto a Ética se constitui num sistema de princípios que tem por finalidade separar o certo do errado, o bem do mal, o justo do injusto por meio de explicações racionais diante dos atos humanos. Ou seja, na prática, a ética se reveste da racionalização do agir, embora com ele não se confunda, mas o guie. É preciso observar que a Ética tem seu surgimento, na Grécia, como um olhar sobre o sentido do poder político e os conflitos pelo seu exercício e sua organização. De forma que a especulação ética se erige como teorização da ação pública, que, em muitos casos possibilitou a paz graças à política. E desde então tem sido um instrumento, não só de auto-conhecimento, como também de reflexão sobre a natureza e o agir público pautado pela justiça. A Ética é, no fundo, uma racionalização do político como necessidade social e construção de uma sociedade centrada pela defesa de determinados valores consensuais.
Não pode, por conseguinte haver política sem ética, sem a explicação ética dos atos morais que estão em relação direta com sua aceitação pelos valores definidos historicamente como socialmente aceitáveis. Daí que o pensar ético não pode ser desvinculado da realidade histórica. Toda sociedade, de acordo com os padrões vigentes de sua época, conceitua o que é moralmente aceitável ou não. Porém os limites da ética são imprecisos e, socialmente, às vezes, maleáveis a ponto de existirem práticas pouco éticas que não são legalmente condenáveis, mas conhecidas e comuns. Entretanto, por mais que existam tais práticas, não se pode perder de vista que uma questão consiste na sua prática enquanto não publicamente exposta porque nem sempre o que é socialmente consentido é legalmente permitido. Uma coisa é um dirigente praticar Caixa 2 enquanto não se sabe do fato; outra é ser pilhado com o Caixa 2 ou confessar, publicamente, que usou Caixa 2. Só a confissão ou o espanto com que as recriminações sobre o fato são recebidas, de vez que “todos fazem” já demonstra a confusão ética, quando não a completa falta de ética.
Os episódios recentes da política brasileira, e as alegações de inocência quando as provas são contundentes, demonstram que, de fato, ou o agir é pouco ético ou, como uma realização do pensamento, demonstra a falta de valores morais ou mesmo de princípios que norteiem o agir. Não se trata de que faltem ao indivíduo, nem ao partido, nem a sociedade padrões éticos ou legais, mas sim de que, para as pessoas que assim agiram, seus fins justificam os meios ou não possuem o menor respeito pelos valores que organizam nossa vida social. De fato, como uma moral é um produto do meio, uma produção dos homens dentro de uma temporalidade objetiva, levando em conta as condições da existência, ao que parece, os participantes do poder conseguiram confundir certos valores ilusórios com os reais e invertendo as regras morais vigentes criaram uma moral especial que só eles mesmos entendem. É só o que é possível pensar para não ser injusto e não chegar a uma conclusão pior ainda que é a de que de tanto mentir já não conseguem separar o certo do errado, mas, até aí também, perderam completamente qualquer sentido ético o que fizeram. De qualquer forma o que acontece, hoje, no país desafia qualquer dos parametricos éticos de nossos tempos. É uma vergonha mesmo!

segunda-feira, novembro 14, 2005

A TEMPERATURA SOBE

A derrota do governo, com a prorrogação da CPI dos Correios até abril de 2006, aliada à fragilização acelerada do ministro da Fazenda, Antônio Palocci, deve adicionar novas preocupações aos problemas que rondam o Palácio do Planalto. E, de quebra, aumenta a tensão existente entre governo e oposição e entre o próprio executivo e o Congresso na medida em que, informalmente, o acontecimento aumenta as dissenções entre Lulla da Silva e Renan Calheiros que já acumulavam queixas mútuas. O mínimo que um fala do outro é que foi traído. De qualquer forma a prorrogação vai produzir indubitáveis efeitos sobre a instabilidade decorrente do avanço das investigações e deve ser um elemento a mais de acirramento das posições dado à proximidade das eleições. Também contribui para piorar o clima o destempero verbal de parlamentares, que por suspeitarem de ações contra si ou grampos de telefones, demonstram disposição de promover uma guerra aberta contra um governo cujas evidências de que, pelo menos, deixou que ocorressem fatos muito pouco éticos e que maculam qualquer administração por maior crédito que tenha tido. Diante de tais fatos só se pode esperar que a turbulência política venha a aumentar neste final de ano e no próximo. Por outro lado, a sociedade se demonstra sinais de que cansou da banalização dos escândalos nem por isto deixa de acompanhar, passiva, o longo calvário do governo e a sucessão de patifarias impunes para as quais esperam que, no fim, haja punição, embora uma boa parte pense que tudo vai acabar em pizza. E, colabora para isto o fato de que apenas Roberto Jefferson, justamente quem denunciou, é que tenha, até agora, sido cassado.
É também, no mínimo, constrangedor, e por tal razão o presidente da OAB, Busato, já assinalou como um fato suficiente para a solicitação de impeachment, que o presidente Lulla da Silva tenha, ao longo do processo, se contradito por diversas vezes chegando a ponto de, depois de dizer que não desejava impedir os trabalhos de nenhuma CPI, ter se empenhado, e o seu governo, para barrar a prorrogação das investigações. Claro que aos governos não interessam CPIs. Até porque se torna instrumento fácil para o palanque oposicionista, para a paralisia das votações do Congresso e, sobretudo, para revelar fatos, em geral, perigosos para o poder. O problema, no entanto, é quando um o chefe do Estado afirma uma coisa à nação e se comporta, na prática, completamente diferente. E, na verdade, o aumento da temperatura amplia, para muito além das CPIs, os problemas, pois não somente o governo se encontra paralisado, como o Legislativo, por exemplo, não pode mais conviver com a permanente paralisia de suas atividades. O Brasil, e seu povo, só espera que as investigações prossigam e a punições dos culpados aconteçam, mas também não pode se dar ao luxo de ver a administração pública parar do jeito que está acontecendo. É tempo das forças políticas compreenderem que é preciso posições mais definidas ou medidas mais drásticas. O país não pode parar apenas e exige que a questão política seja resolvida.

domingo, novembro 13, 2005

MUDAR NÃO MUDA NADA

O ministro Antonio Palocci, da Fazenda, adotou uma postura de continuidade e aprofundamento da política econômica do seu antecessor, Paulo Malan, sem qualquer inovação na área macroeconômica. Nem mesmo tendo um contexto internacional muito mais favorável, nos campos comercial e financeiro, do qualquer das pessoas que ocuparam o cargo não conseguiu produzir senão resultados medíocres, em termos de crescimento da economia brasileira. Palocci, que foi uma surpresa na medida em que sua experiência era meramente administrativa como ex-prefeito de Ribeirão Preto, agora, tem estado permanentemente, sob uma pesada artilharia graças aos indícios que se avolumam de que participou diretamente das articulações para montar o famoso Caixa 2 do PT e há até quem o aponte como o mentor intelectual das falcatruas atribuídas a Delúbio Soares, o que talvez já seja demais. Acontece que adotou uma linha de conduta, depois de ter ido bravamente para a linha de frente, responder as acusações de imitar seu presidente e havia se mantido num mutismo que se torna impossível de manter diante dos “cubodólares” que se tornaram patentes pelos depoimentos de Buratti e de Poleto, este único negando com a convicção dos réus. Em vista disto o desgaste era inevitável. E se acentuou com uma entrevista da ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, que fez uma crítica tanto inoportuna quanto sensata e pertinente aos planos de ajuste fiscal que vêm sendo elaborados pela equipe econômica. O ministro Palocci sentiu a pancada e magoado, segundo os jornais, se queixou a Lulla da Silva e até andou querendo tirar o time de campo. Vieram os desmentidos, por meio de fontes governamentais, e Lulla tratou internamente do caso, separadamente, com Palocci, Dilma e Paulo Bernardo, procurando uma conciliação de posições no fundo impossível de ser obtida. Não é somente pelos planos de ajuste fiscal como também porque a posição da ministra Dilma, justificada pela inoperância do governo, é que se faz necessário aumentar as despesas públicas, os investimentos e diminuir as taxas de juros como forma do governo ter meios de fazer frente as críticas de que é alvo. No entanto, de acordo com os planos existentes na Fazenda, os juros somente cairiam dependendo, em grande parte, do êxito de uma política que exigiria de emendas constitucionais. Essas emendas visam prolongar a vigência e ampliar o escopo da Desvinculação de Receitas da União, a DRU, e prorrogar, uma vez mais, a Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira, a CPMF. O que, nas atuais condições, parece pouco provável de ser obtido no Congresso. Comenta-se o ministro Palocci está de malas arrumadas. Já vai tarde. Palocci já deu a sua (péssima) contribuição ao país. Não se terá muita dificuldade de substituí-lo. Num governo decadente, como o de Lulla da Silva, a sucessão nos cargos se assemelha muito à sucessão na chefia de quadrilha de morros. Não falta quem, no momento, esteja atirando em Palocci de olho no seu assento. No governo atual, até segunda ordem, o crime compensa. Graças ao chefe que não vê, não enxerga nada como comprovado e tudo de mal que o governo faz, mesmo denunciado por seus próprios companheiros, é puro denuncismo. É, no mínimo, a conivência brincando de bom-mocismo. Pode até se segurar, mas mudar não muda nada. E aprofunda a crise e o que havia de ruim.

sábado, novembro 12, 2005

A FORMAÇÃO POLÍTICA DO JOVEM

Por mais que as pessoas desacreditem dos políticos e das instituições e reclamem, de forma generalizada, contra a impunidade existente ainda assim a crise política crônica atual tem um lado muito positivo. Este é o de que, invariavelmente, a política acaba sendo o centro das conversas ainda quando seja para criticar a última maracutaia descoberta sobre supostas ações de Gushiken ou de Palocci, a cara de pau de alguém em depoimento na CPI ou a fala evasiva e sinuosa de Lulla da Silva na televisão. O certo é que a política invadiu os espaços das conversas públicas mesmo que seja de modo bastante negativo. A massificação dos temas políticos, ainda que eivados de problemas criminais, todavia traz de volta à cena a necessidade de formação política e, notadamente, a participação dos estudantes e dos jovens, ceifada de forma trágica durante o golpe militar de 1964, seja pelo assassinato das lideranças mais pensantes, seja pela castração, em especial nas universidades, da discussão e do processo político. Tudo indica que os partidos políticos começam a despertar para a necessidade de inclusão dos jovens, daí a promoção de seminários, em diversas capitais e cidades visando à formação política, aproveitando o espírito crítico dessa faixa estaria ávida por uma organização política que empurre o Brasil para frente. Evidentemente empolgar os jovens, fazê-los participar do processo político não é fácil. A grande maioria dos jovens não tem interesse imediato por achar que política é enfadonha, é um setor da vida na qual a sujeira impera, de maneira que, inicialmente, poucos se dispõem a discutir as ações e práticas dos que se envolvem e praticam a política chamada profissional. Nem participar de partidos, principalmente quando, como agora, a devastadora crise do governo Lulla, que foi sinônimo de esperança e está virando símbolo de corrupção, deu um golpe mortal em muitos que despertavam para a atividade e, no momento, não sabem mais em que acreditar. Acrescente-se que a idade mínima para se exercer um cargo eletivo de deputado estadual, federal, senador, prefeito e vice, governador e vice, de 21 anos. Para vereador, a idade é de 18 anos, maioridade estabelecida pelo Código Civil, na pressuposição legal de que se devem assumir posições com mais maturidade. Porém isto não deixa de ser, nos tempos atuais, um desestimulo a participação da juventude que, precocemente, se julga preparada para participar de todos os escalões sociais. Ainda assim é preciso superar esses óbices à participação dos jovens que é a base para a formação de novos e autênticos líderes. Torna-se essencial que os jovens participem da política, dêem sua contribuição e se preparem para assumir e reformar os partidos que, infelizmente, perdem representatividade por não incorporar as demandas da população e servirem apenas como forma de controle das elites.
Só com a formação cultural-partidária da juventude e a recuperação do vigor dos partidos pela democratização e ascensão dos jovens aos postos diretivos com conhecimento de causa sobre a política poderemos, de fato, mudar os rumos do país. Esta a razão pela qual a esperança real de mudança reside na participação dos jovens na política.

sexta-feira, novembro 11, 2005

VERGONHA DE SER HONESTO

As manchetes dos jornais de Rondônia (e não está muito diferente no resto do país) são verdadeiras páginas policiais. Uma dá conta de que um vereador pode ser cassado por suposto crime de compra de voto, outra que professor vende provas ou um empresário é assassinado e, até nas manchetes secundárias, se sobressai à ameaça de morte que, por uma carta anônima, a deputada Ellen Ruth (PP) teria recebido. Pelo que se vê nas manchetes passamos a ser um Estado de desonestos, um País de ladrões, um campo de corrupção desenfreada, de impunidade, de desonestidade. Até parece que a honestidade deixou de ser uma virtude ou então passou a ser uma brincadeira da qual só os tolos ainda pretendem participar. Nem mesmo nos salva a execração nacional sobre "as roubalheiras", que sem punição, começa a ser uma manifestação infantil, se examinada seriamente. Há até mesmo um cansaço de grande parte das pessoas, e de alguns intelectuais, que acreditam que a proporção dos escândalos e o tamanho do roubo estão banalizando a questão, de tal forma que o melhor seria deixar pra lá. Ocorre que roubo é roubo, grande ou pequeno, tem como característica básica a falta de caráter de quem o comete e, se investido de função pública, pior ainda, pois não se trata apenas do roubo, mas também da traição ao mandato, a traição a quem, acreditando na democracia e nos partidos, coloca alguém em seu nome que, de forma torpe, pilha os cofres públicos. Neste caso o indivíduo não é só ladrão como se torna um deseducador na medida em que serve de referência para que outros o imitem e até superem. E, como assistimos nos depoimentos das CPIs, se constata que há muitas maneiras de ser ladrão do dinheiro público e, quando há dinheiro, como também se verifica, rapidamente se organizam as quadrilhas que, infelizmente, hoje, se encontram encrustadas em todos os poderes. O problema maior é que as autoridades estão, por inércia ou conivência, perdendo completamente a capacidade de se fazer respeitar, de tal forma que, imersos de uma forma ou de outra, na lama que escorre pelos palácios e repartições públicas terminam por ser exemplos negativos para toda a população seja porque não possuem a escolaridade necessária, seja porque até se jactam de não ter pisado nos bancos escolares. O resumo de toda esta situação é que estamos chegando ao ponto que vaticinou o grande Ruy Barbosa, ou seja, as pessoas de bem estão quase chegando a ter vergonha de ser honesto. E, do jeito que a coisa anda, ser honesto é ser um sério candidato aos programas assistenciais do governo federal que, aliás, possuem cadastros que, conforme verificado, não primam nada pela honestidade. Ou seja, a Fome pode ser zero, mas a corrupção atual está chegando perto do dez.

quinta-feira, novembro 10, 2005

O DESPREPARO DAS LIDERANÇAS

Nós todos sabemos que não vivemos uma época que se destaca propriamente por suas virtudes nem pelo bom comportamento das figuras públicas. Não se precisa fazer uma rememoração do ministro Nelson Jobim tomando banho de calção com o ex-presidente Fernando Henrique, nem lembrar de Lulla da Silva jogando papel no chão ou dizendo termos poucos condizentes com a liturgia de seu cargo para uma admiradora na platéia ou os pouco recomendáveis espetáculos proporcionados pelos Inocêncios, Valverdes e Heloísas ou, por fim, a pouco recomendável conduta do senador Arthur Virgilio afirmando que seria capaz de bater no presidente o que já não havia ficado bem nem num deputado jovem como ACM Neto. E, para completar, a pouca (e descortês) consciência da senadora solar, portando, em plenário, uma camiseta com o dístico “Fora Bush” que, em outros tempos, já seria tido como falta de decoro. Afinal Bush, por menos simpático que seja, é um presidente norte-americano e, como um convidado do governo brasileiro, deve ser recebido com respeito por mais inoportuna que seja sua visita.
Se bem que, de fato, a descompostura parece ter tomado conta do mundo inteiro, bem como o nível das lideranças anda muito baixo. Basta verificar a papagaiada de anti-cúpula, em Mar del Plata, feita na sexta-feira, quando, ao lado de Diego Maradona, o presidente Hugo Chávez procurando capitalizar o ódio contra George W. Bush e contra os Estados Unidos proporcionou um espetáculo de vale tudo de baixíssimo nível que, para ser suave se pode classificar como grosseria, porém a rigor foi pura baixaria. Não é admissível que um líder de um país, alguém que se compara a Simon Bolívar (que não merece uma referência tão bizarra) se dê ao desplante, certamente descontrolado por ser aclamado ali como o novo líder da esquerda sul-americana, puxou o coro com a platéia: "Alca, Alca, Alca, al carajo". Convenhamos que poderia ter poupado nosso continente de um espetáculo que visto de fora, além de deprimente, colabora para sejamos desvalorizados por falta de postura e consciência política.
De todos estes fatos o que se ressalta é que, apesar de termos avançados em termos de democracia e de fortalecimento das instituições, com certeza, ainda falta muito para que nossas lideranças venham a corresponder aos anseios das nossas populações de que possam não somente ter uma visão das demandas públicas, conhecimento para resolvê-las, bem como um comportamento compatível com as altas funções que ocupam. Não só no Brasil, mas em toda a América Latina, o que se observa é que não construímos ainda estruturas políticas capazes de impedir que pessoas despreparadas, inclusive sob o ponto de vista democrático e cívico, ocupem altas funções, daí a falta de decoro, os escândalos e o triste espetáculo de que pessoas que nos representam passem para o público o despreparo para o exercício de funções tão importantes.

quarta-feira, novembro 09, 2005

A SONEGAÇÃO SOB A LUPA

Segundo cálculos da Receita Federal se somados os recursos não declarados por políticos investigados pelas CPIs, passando por estatais, prefeituras e alcançando as faculdades participantes do Programa Universidade para Todos-ProUni, para terminar em pessoas físicas e jurídicas, a sonegação no Brasil, em 2005, está em volta R$ 85 bilhões. Com a criação da Super Receita, que unificou as Secretarias da Receita Federal e da Receita Previdenciária, bem como a instalação de um supercomputador que controla as contas de toda a rede bancária o Leão ficou com as garras muito mais afiadas. Também, agindo com mais inteligência e capacidade informática, a Receita pretende atuando de forma forte tornar difícil não pagar impostos e ficar por isso mesmo. Este esforço já foi demonstrado, em 2004, quando as autuações da Receita chegaram a R$ 70 bilhões, o que, com o apoio do pessoal da Previdência, elevando o valor em 21,4%, deverá elevar ainda mais o grau e a capacidade de fiscalização. Na verdade os R$ 85 bilhões correspondem aoTesouro produzirá como superávit primário para pagar a conta dos juros. Alegam os técnicos da Receita que se este dinheiro entrasse nos cofres da União, muitos impostos não seriam aumentados e, outros, poderiam ter suas alíquotas diminuídas. Embora, na verdade, entre os contribuintes há a sensação de injustiça não apenas porque a carga maior recai em assalariados, profissionais liberais e autônomos e porque, nas atuais circunstâncias brasileiras, é um dinheiro muito mal aproveitado e que todos se queixam que não recebem retorno nenhum em troca. Afinal os serviços governamentais tem padrão de quarto mundo e os escândalos são de molde a respaldar um discurso anti-pagamento de impostos como forma de desobediência civil. É bem verdade que há muitos casos de maus pagadores. A Receita costuma tentar educar denunciando publicamente casos como o da empresa que optou pelo Simples, que previa um faturamento anual bruto de R$ 120 mil para micro e de R$ 1,2 milhão para pequenas empresas, mesmo tendo faturado R$ 2,5 milhões no ano passado, somente através de cartões de crédito. Existe ainda uma reconhecida quantidade de venda de produtos com notas frias, ou meia-nota, e o uso de créditos tributários fictícios. Por isto até setembro de 2005, as autuações da Super Receita bateram em R$ 43,8 bilhões, dos quais R$ 33,01 bilhões são sonegação de tributos federais. Mais R$ 10,79 bilhões são autuações por irregularidades nas conntribuições previdenciárias. Fiscais da Receita também estão investigam parlamentares e outras pessoas envolvidas nas Comissões Parlamentares de Inquérito, os famosos “recursos não contabilizados”, Caixa 2 mesmo. Porém a maior sonegação é atribuída ao setor comercial que foi autuado em R$ 7,7 bilhões neste ano, apenas nos primeiros nove meses. Depois veio a indústria, com R$ 6,3 bilhões e em terceiro lugar os prestadores de serviços, com R$ 4,3 bilhões. A unificação do trabalho da Receita Federal com a Receita Previdenciária permite um melhor cruzamento de dados, bem como o monitoramento dos cartões de crédito são monitorados aumentou a fiscalização. E, daqui para frente, com os mecanismos em pleno funcionamento e a Super Receita aprovada será muito mais difícil sonegar.

segunda-feira, novembro 07, 2005

A ALCA EMPERRADA

A imprensa brasileira se mostra surpresa com o fato de que, em sua visita ao Brasil, o presidente dos Estados Unidos, George W. Bush, numa sincera avaliação sobre as dificuldades para criação da Área de Livre Comércio das Américas -Alca, projeto co-presidido pelos Brasil e pelos EUA, que encalhou, até agora, só andou para trás, reconheceu que os obstáculos para o sucesso das conversações não residem apenas na resistência do Brasil e de outros países à idéia, mas à forte oposição que a Alca possui entre os próprios norte-americanos. Na Granja do Torto o presidente americano admitiu que a conversa com Lulla da Silva não produziu nenhum progresso sobre o tema, mas ressaltou que "Ele precisa ser convencido, da mesma forma que o povo dos Estados Unidos precisa ser convencido, que um acordo de comércio em nosso hemisfério é bom para o emprego, é bom para a qualidade de vida" e completou seu pensamento afirmando que "É importante que o povo brasileiro compreenda que esse acordo não acontecerá se o presidente Lula pensar que ele não é do interesse do povo (brasileiro)".Embora de positivo tenha sido acertado que os dois países trabalharão juntos para o progresso da Rodada de Doha na reunião ministerial da Organização Mundial do Comércio -OMC, no mês que vem em Hong Kong, que é a condição do Brasil para a retomada das negociações da Alca. É verdade também que as posições do Brasil e dos EUA são mais próximas em relação à dificuldade central das negociações - a redução dos subsídios agrícolas - do que a que enfrentam com a União Européia e especialmente da França, que resistem a reduzir subsídios e tarifas de produtos agrícolas.
A questão principal, no entanto é que os EUA são os EUA, ou traduzindo claramente o que disse a secretária Condoelleza Rice, “O poder conta”. Efetivamente os norte-americanos são contra a Alca porque, por experiência, sabem que perderão mais indústrias e empregos para o Brasil com a abertura. E o Brasil possui com a Alca uma oportunidade ímpar de crescimento mesmo que a um custo, relativamente baixo de, no começo, acumular saldos comerciais muito negativos. Na verdade a Alca é mais necessária ao Brasil, na situação atual, que aos Estados Unidos. É a falta de visão de futuro, um antiamericanismo infantil e a obtusidade de uma ideologia ultrapassada de esquerda e a falta de capacidade de negociar que emperra o andamento da Alca. Pior para o Brasil. Os xenófobos, todavia não enxergam isto. Acreditam que num mundo interdependente podem permanecer no atraso e criar uma “terceira via” que, até agora, tem sido tão inócua quanto nossa embaralhada política externa.

terça-feira, novembro 01, 2005

UMA FORMA DE VIOLÊNCIA URBANA

Quando se pensa em violência no Brasil é difícil, quase impossível, ficar surpreso com alguma coisa. Seja em São Paulo, no Recife, em Salvador, ou no Rio de Janeiro, noticias sobre violência estão banalizadas. Acontecimentos sobre aumento de assaltos a residências, incursões em delegacias, quartéis, hotéis ou edifícios não surpreendem mais ninguém. No entanto há uma nova e surpreendente forma de violência que, principalmente em Porto Velho, e dizem que lá em São Paulo já virou rotina, está acontecendo que são os acidentes de motos. Pouco comentados pelos jornais, restritos aos casos mais graves, há, de fato, uma epidemia de acidentes que também ocorrem com bicicletas que chega ao cumulo de dois veículos de tal tipo se chocarem o que, à primeira vista, parece algo inconcebível.
Em parte os próprios motoqueiros são os grandes responsáveis pela maioria dos acidentes. Esses, pela legislação, não deveriam andar por entre os carros, só usar a esquerda e, em especial, nas avenidas de maior trafego deveriam andar numa velocidade reduzida. É tudo que não fazem. Não é incomum alguém abrir uma porta de um veículo e jogar longe um motoqueiro ou um veículo parar e acabar fechando outro porque este se encontra do lado errado. Pior que, algumas vezes, nem sequer usam o capacete ou possuem habilitação, porém, como é normal no ser humano, poucos estão dispostos a admitir seus erros. Não se pode dizer que o Detran, e a Polícia Militar, não tenham combatido esses comportamentos, porém são milhares de veículos e a batalha é inglória quando se sabe que não se tem equipamentos nem número de militares suficientes. Então a questão é mesmo de educação de trânsito. É preciso, urgente, inadiável, uma campanha sobre os enormes riscos a que estão submetidos motoqueiros e ciclistas. Se faz necessário que haja um debate sério sobre o tema, que se tome medidas drásticas para amenizar os constantes acidentes graves e menos graves que se observam.
È claro que isto também inclui a educação dos motoristas de veículos, inclusive os ônibus e os pesados que, valendo-se de sua massa, muitas vezes, desrespeitam os veículos mais leves em cruzamentos e estradas. Não se pode relativizar a responsabilidade de ninguém em relação ao trânsito. Afinal se são gastos milhões num inócuo plebiscito sobre comércio de armas qual a razão para que não haja nenhuma campanha séria sobre os acidentes de trânsito? Se estes matam, ou penalizam, milhares de pessoas todos os anos. A responsabilidade dos motoristas e motoqueiros, em geral mal-educados e ignorantes das leis, dos governantes e das polícias não pode ser relativizada. Esta é um forma de violência urbana que deve ser combatida com eficácia e educação. Não se pode aceitar que se transforme um meio de transporte, como carros, motos ou bicicletas, em armas. Quem dirige deve saber que velocidade e desrespeito as normas são crimes graves e devem, exemplarmente, serem punidos para impedir acidentes e mortes. Basta de violência.

A GESTÃO NÃO ADAPTADA

O enorme crescimento da economia brasileira, cuja partida se deu em meados do século passado, teve como uma das suas características mais marcantes a importação de ciência e tecnologia externa. Efetivamente a maior parte dos produtos complexos, como, por exemplo, automóveis ou eletrodomésticos, não foi criado por uma gradativa melhoria de nossos quadros científicos e sim pela importação de modelos criados em outros países e por nós utilizados para diminuir o “gap” tecnológico. É o que se chamou de “queimar etapas” para o desenvolvimento. Um efeito correlato de tal estratégia é que nos acostumamos a copiar os modelos externos e tê-los como padrão de qualidade o que, durante muito tempo, não somente desmereceu o produto nacional como gerou uma cultura de cópias. Semelhante comportamento se estendeu não apenas na questão técnica como também nas nossas instituições acadêmicas e na própria gestão governamental, nas entidades e empresas. Até na legislação isto é visível, pois, por exemplo, a nossa legislação ambiental é tida como “muito avançada”, isto é, os seus parâmetros estão deslocados da realidade brasileira. Nós legislamos como se estivéssemos no primeiro mundo e não numa sociedade marcada pela necessidade de gerar suas próprias instituições, cultura, padrões, modelos. Um dos males mais sensíveis dessas práticas decorre de que nosso ambiente de negócios tem suas próprias particularidades e, na maioria das vezes, modelos importados acabam gerando resultados indesejados e não alcançando a eficiência que obtém no berço de sua produção. Não é segredo para ninguém que a adequação e a eficiência de um modelo sempre dependerão de serem coerentes com os valores culturais de onde são aplicados. Quando são acritícamente copiados o que se observa é uma imensa distância entre a teoria e a prática que, se não fossem as circunstancias e os custos, poderiam ser encarados como exemplos de humorismo empresarial. Assim, como muitas pessoas estão acostumadas a verificar, o gerente centralizador utiliza livros da moda para incentivar a participação ou, como é muito comum, todos concordam com a nova forma de executar um plano que, obviamente, nunca saíra do papel. São contradições que, ao mesmo tempo em que revelam a flexibilidade, o “jeitinho brasileiro”, demonstram também que costumamos não criar tecnologias adaptadas à nossa realidade. A verdade é que, como em diversos outros campos, a importação pura e simples de tecnologias de gestão, ou até modismos de gestão, induz a bifurcação, nas empresas brasileiras, entre a teoria e a prática. Em geral, ao contrário da cultura de outros países, o brasileiro não discute com o líder ou com a autoridade, mas utiliza o que é factível no seu desempenho e afasta o que não tem utilidade para a ação. Talvez isto explique a razão pela qual há leis que pegam e as que não pegam.

segunda-feira, outubro 31, 2005

NÃO VAI PASSAR

Infelizmente o tempo demonstra que, com Lulla da Silva na presidência, a crise não vai passar. A crise, efetivamente, vai se incorporar à rotina. Afinal não existe a menor perspectiva de que as forças políticas se aliem para amainar o ambiente. A razão principal reside em que, mesmo sem maioria parlamentar, ainda quando a oposição se torna mais, serena é visível à incapacidade dos petistas de admitir o óbvio, que pisaram nos tomates e isto possui um preço. Querem impingir a lorota de que sua ação de aparelhamento do Estado, de corrupção sistêmica, com o fito de tomar o poder por um tempo indefinido com um projeto social-sindicalista, é a mesma coisa que o Caixa 2. Não é. Existiu muito mais seja mensalão, semanão, mensalinho, porém, nas palavras exatas de Roberto Jéferson o PT optou por “pagar as forças mercenárias para não dividir o poder”. E se deu mal.
O maior problema reside em que se torna impossível que o colapso do sistema político, seu travamento, não tenha reflexos sobre a situação econômica. É a máquina pública, que já não costuma andar, parada, são os investimentos paralisados, diante da incerteza, são as denúncias que não pararão de encurralar o governo porque, não se iludam, há muito mais. Se esta semana a questão é o dinheiro de Cuba, que já desespera muitos parlamentares, amanhã serão os fundos, depois Petrobrás, Furnas, Banco do Brasil, Secom- só para citar alguns problemas que irão explodir sobre o Planalto. Isto fora à possibilidade crescente que os bois de piranha, Delúbio e Silvio Pereira, resolvam abrir a boca, que dona Renilda, a calada senhora Marcos Valério, ou Zé Dirceu, acuado pela falta de perspectivas, não resolva se vingar.
Lulla é um refém da situação. Entrou no governo como um presidente forte, talvez o mais forte de nossa história, amparado por milhões de votos, porém não conseguiu, sem maioria parlamentar, mudar nada. E sucumbiu diante de um Congresso eleito na base de práticas clientelistas sem compromissos partidários ou programáticos, por não fazer o que se esperaria de seu discurso de vida e de campanha: lutar para mudar o ambiente político. Neste sentido, como ninguém governa sozinho, por vias indiretas, resolveu “comprar” sua maioria e, com a ajuda do PT, os recursos vindos de Marcos Valério comprovam, atolou-se na prática de formas escusas superando até as práticas mais horrorosas da direita mais empedernida.
È verdade que Lulla continua um candidato capaz de ir ao segundo turno. Apesar dos escândalos e da corrupção pública, com as perspectivas razoáveis da economia, principalmente uma grande massa amparada pelo assistencialismo ainda sustenta índices razoáveis do governo e até a estabilidade econômica. No entanto a ética e as ações de governo são o contrário do que o presidente e o seu partido sempre pregaram, daí a sensação, especialmente entre a classe média e os servidores, de que foram vítimas de um golpe eleitoral. Se, afirmam os especialistas, não há tempo para que o impeachment de Lulla seja devidamente providenciado, por outro lado, não há também nem capacidade nem força para alterar os dados da situação, de forma que, tudo indica, iremos navegar entre uma onda e outra de denúncias até que o próximo pleito possa julgar o atual governo e criar novas esperanças. Com Lulla da Silva a esperança está morta, enterrada, cimentada por Caixa 2, financiamento ilegal de campanha e promessas traídas.

sexta-feira, outubro 28, 2005

OS MEIOS E A MASSA

A verdade é que, no Brasil, afora os baixos índices de escolaridade, o sistema de mídia de massa também ajuda a desinformar as pessoas ,o que torna mais fácil ludibriar os eleitores, pois quase toda população carece de consciência política. De fato a opinião política da grande massa brasileira acaba sendo plasmada via televisão e, mais específicamente, nos jornais televisivos mais assistidos, e por isto mesmo mais censurados, a ponto de somente veicularem notícias superficiais, sem maiores análises e, muitas vezes, colocadas de modo parcial, ao sabor dos interesses do momento.
Acrescente-se ainda que, na verdade, a grande massa não assiste, na TV, nem mesmo aos noticiários quanto mais aos programas mais voltados as análises das questões públicas essenciais. E também porque muitos deles só passam em horários tardios ou em canais da TV paga. Assim, quem acompanha os fatos políticos, quem tem opinião própria, quem possui uma argumentação lógica é uma minoria cujos opiniões somem no meio de uma massas pouco esclarecida que é quem decide os destinos das eleições e, muitas vezes, em cima de promessas enganadoras
Não há formas, inclusive de quebrar este monopólio das comunicações, na medida em que a forma utilizada pelas emissoras existentes, além de um investimento de longos anos, se perpetua pelo uso de pesquisas de opinião e somente levam em conta a possibilidade de dar lucro ou não, aparecer, ou não, no Ibope. Assim somente se divulga idéias de grupos com interesses econômicos, ou políticos, por meio de acordos de reciprocidade, que envolvem receitas e, acabam, por levar a triste situação do atual escândalo do “Mensalão”, que nada mais é que o ápice de um esquema imoral e sem futuro para os objetivos reais da nação .
Neste contexto, a democratização da comunicação de massa é indispensável. A questão é que somente se pode fazer tal mudança pela via política e aí se volta a velha parábola dos ratos que deveriam colocar um guizo no gato. Se são os canais de TV abertos, que podem ser assistidos sem se ter que pagar pelo recebimento do sinal, são que o povo assiste como diversificar uma programação mais crítica (e fazer com que a população assista) sem que recebam receita dos espectadores se somente ganham muito dinheiro com propaganda? A formula da televisão estatal, como toda atividade estatal, está gasta pela sua inoperância e incapacidade explicita de gerar uma grade com condição de concorrer com as redes privatizadas. È um dilema a ser enfrentado.
É certo que há tvs estatais que fazem bons programas de cultura e de análises de fundo, mas não são boas de jornalismo nem conseguem ser boas de audiência. O ruim é que canais sob controle da iniciativa privada não garantem uma informação de qualidade e formadora da consciência política da população. Sem encontrarmos soluções para tal problema, de vez que os meios impressos e a própria Internet não se constituem, ainda, no mundo atual uma alternativa, corremos o sério risco de manter uma massa sumamente bem entretida, porém sem a menor consciência política.

quinta-feira, outubro 27, 2005

A CULTURA ENLAMEADA

É uma tristeza ver pessoas que, supostamente, são artistas e intelectuais se prestarem ao papel de fazer um manifesto apoiando José Dirceu e o governo Lulla da Silva. É, no mínimo, com tristeza que vê, entre elas, figuras relevantes como Emir Sader, Dalmo Dallari, Gianfresco Guarnieri, Paulo Betti e José de Abreu entre outros. Não se trata de que Dirceu não mereça que os amigos o defendam e até fiquem ao seu lado numa situação como a atual. Muitas vezes temos que ser solidários, mesmo sabendo que o amigo está errado, ou é criminoso. A questão é que não se pode tratar as coisas públicas como se fosse questão de lado, como se quem estiver de nosso lado tudo seja permitido e aos outros, partidos e pessoas não. Infelizmente, seja quem for que use a máquina pública, que desvie recursos que deveriam ser utilizados para melhorar o país, por mais que tenham um passado glorioso caíram no limbo, na lama, na vala comum dos criminosos.
Este episódio, além da mancha que deixa na capacidade intelectual e crítica dos apoiadores, revela também uma das causas que nos trouxeram à presente situação, qual seja a conivência de todos com uma espécie de ditadura mental que parece acometer à mídia e o sistema educacional quando toma partido de algum tipo de movimento na sua maioria ditado pelo ativismo comunista. Como ex-marxista, e, hoje, um livre-pensador, toda vez que me coloco contra bandeiras tidas como “sagradas” sou taxado de “direita” porque, na verdade, nesses nichos há, normalmente, uma unanimidade de pensar que me aterroriza por ser mera repetição de slogans e uma espécie de “politicamente correto” que passa a ser parte essencial e obrigatória da cultura vigente. Assim, com a queda do PT, agora há um substituição pura e simples (e adesão) ao P-Sol sem nenhuma auto-crítica em relação ao que aconteceu.
Não se pergunta, por exemplo, por qual razão o PT é criminoso. É criminoso não somente por ter frustrado as esperanças de milhões, porém também por adotar um comunismo cego que conspira, inclusive com a marginalidade, sem padrões éticos para criar uma república sindicalista e estatal. É criminoso por que roubou não para proveito de seus dirigentes, embora muitos tenham usufruído, mas para submeter todo o país as suas idéias, criar um suposto socialismo que se provou um regime ultrapassado, um dos piores sistemas que existiu no mundo.
Não se pode esquecer que o PT, que hoje reclama que está sendo linchado moralmente, jamais hesitou em difamar alguém se valendo de militantes de mentes intelectualmente fracas, mas eficientes em utilizar, sem maiores provas, acusações que funcionavam bem quanto menos eram sólidas e mais divulgadas, sempre no sentido de intimidar os adversários. A própria imprensa deveria fazer uma meã-culpa de ter omitido uma série de fatos que permitiram uma visão mais clara do aparelhamento e da ação deletéria dos dirigentes petistas. É esta falta de arejamento das informações, a falta de discussões, de fato, relevantes e intelectuais, que permitiram que se chegasse onde chegamos. E, por tal razão, ver um punhado de pessoas tidas como artistas e intelectuais participando de um manifesto igual a este mostra bem como a nossa educação e intelectualidade anda distante dos sonhos de um país desenvolvido.

quarta-feira, outubro 26, 2005

A URUCUBACA É INTERNA

O presidente Lulla da Silva em seus discursos vive jogando a culpa da situação política atual na oposição e nas “elites” que, supostamente, estariam utilizando a mídia para desestabilizar seu governo. No entanto o que se constata, quase todo dia, é que seu próprio governo, seu partido e ele mesmo não se cansam de produzir novos fatos que, invariavelmente, somente servem para desgastar mais ainda a imagem do governo. Não bastassem os problemas da aftosa, de corrupção sistêmica, de tráfico de influência dos parentes e auxiliares, agora, é seu vice, e ministro da Defesa, José Alencar, quem foi lançado à Presidência da República em 2006. Isto já seria desgaste bastante, mas teve mais, pois num discurso de pré-candidato, na festa de criação do Partido Republicano Brasileiro (PRB), legenda criada pelo vice e pelos evangélicos, Alencar voltou a atacar os "experts" da política de juros e sugeriu que o presidente faz discursos "demagógicos" e errou ao "prosseguir na política monetária neoliberal" dos antecessores. Alencar bradou contra as taxas de juros "estratosféricas e desproporcionais". Também atacou a falta de investimentos do governo em programas sociais e infra-estrutura juntando as duas coisas com as seguintes palavras que batem duramente na política econômica: "Nossas estradas acabaram, não temos recursos, a rubrica mais importante é da despesa da dívida, estamos a bel prazer dos experts do Copom; a filosofia do Copom está errada". E continuou: "Não estamos de acordo em assistir de braços cruzados ou indiferentes um país na estagnação, porque isso significa empobrecimento relativo". O curioso é que, depois, apesar de ser o segundo homem de Lulla da Silva e seu ministro, em entrevista, Alencar disse que não se sentia desconfortável com um discurso de oposicionista. E não deu nome de quem faz discurso demagógico ressaltando que "Foi uma citação genérica". E concluiu: "Acho que é muito comum dizer que o povo brasileiro tem direito a isso ou aquilo, ninguém vai mais acreditar em frases como essas." Ou seja, pintou o retrato, identificou e reconheceu as impressões digitais sem, no entanto dar o nome ao boi. O que se observa é que o ex-presidente da Câmara, deputado João Paulo Cunha, que foi muito criticado quando disse que o governo “bate cabeça” tinha toda razão. Não é que os oposicionistas ou elites ou quem quer que seja fique torcendo contra o governo. Nem precisa. Com tanta falta de coordenação, de habilidade, de criação de fatos negativos os problemas surgem da ação do próprio governo e do próprio partido. A urucubaca, se existe, é interna. Afinal não é a oposição que está começando a corrida eleitoral se lançando tão precipitadamente ao pleito do próximo ano, mas sim o substituto do próprio presidente. De fato isto sinaliza que o governo está acabado e que o presidente não precisa procurar adversários nas fileiras contrárias. Basta olhar para o lado. Seus maiores inimigos parecem ser seus próprios aliados.

O PAÍS SEM FUTURO

O Brasil, primeiro, foi a terra do Pau Brasil. Depois passou a ser a terra do açúcar, do café, do samba. Já foi a pátria de chuteiras, e, até, no cinema, o berço das chanchadas. Tudo isto parece, agora, muito distante. O ex-país do futuro chegou ao seu destino. É, sem favor algum, o país da desigualdade, da impunidade tendo como cereja, no alto do bolo, a mais deslavada e completa falta de vergonha pública.
É vergonhoso ver o presidente Lulla, cuja verborragia só concorre com a ineficiência de seu governo, afirmar, na Rússia, que a aftosa está debelada, justamente, quando se descobrem três novos focos. O mesmo presidente que, com o apoio de seu vice, e o novo presidente do PT, Ricardo Berzoini, defende a tese que o PT só cometeu os mesmos erros, normais, comuns dos outros partidos, ou seja, utilizou o caixa 2. Esqueceram, porém de combinar com o ministro da Justiça, Thomaz Bastos, que diz, até porque conhece leis, que caixa 2 é crime tipificado na legislação.
Não importa se Pedro Álvares Cabral fez ou se foi o senador Eduardo Azeredo. Caixa 2 não é como disse Delúbio Soares “piada de salão”. É crime e, como crime deve ser tratado, não importa por qual partido seja feito. O máximo, no entanto da completa falta de vergonha é que os criminosos já não tem vergonha de seus crimes. Comportam-se como Zé Dirceu, que vai atrás de todo mundo para dizer que é inocente, pois ninguém comprova seus crimes, ou o próprio Delúbio que faz festa de aniversário, no meio da maior crise da história brasileira, para dizer que nada está acontecendo. Mas, para desgosto, deles está. O país não agüenta mais a pizza que estão nos oferecendo de tão porca, imoral, imunda.
Constantemente assisto gestos de revoltas ou palavrões quando Lulla ou Zé Dirceu aparecem na televisão. Eles são a verdadeira urucubaba que pousou no país. Diogo Mainardi tem razão quando diz que é preciso, inadiável, urgente retirar Lula da Silva do poder. Com ele lá a crise não terá fim. Com ele lá vai continuar esta procura infindável de esconder o sol com uma peneira. E o país não avança, não prospera. Lulla não tem mais nada o que dar. Somente os erros de sempre, a mesma patuscada homérica de fazer discursos sobre programas que não andam e, passear, pelo mundo afora ganhando prêmios arranjados para encobrir a imensa falta de vergonha que grassa no seu governo e no seu partido. Está na hora de reconhecer que não dá mais. É um peso que o país carrega sem a mínima condição de melhorar mais nada. Está na hora de sair.

terça-feira, outubro 25, 2005

UM NÃO CONTRA A FALTA DE SEGURANÇA

Uma boa leitura do não
O resultado acachapante do “Não” no referendo sobre a não comercialização de armas não autoriza um certo ufanismo da Frente Pela Legítima Defesa, vencedora do referendo, que faz uma leitura errônea, ou mal intencionada, do resultado para, no Congresso, tentar modificar o Estatuto do Desarmamento. Este nunca esteve em discussão, mas apenas um artigo da lei do Estatuto que estabelecia o fim do comércio de armas e munições. O Que se deve entender a vitória do “não” se tratou muito mais de um “não” as políticas públicas de segurança, ao desempenho dos governos, de uma forma geral, e, em particular, ao do presidente Luiz Inácio Lulla da Silva, que, no passado, era um feroz crítico de tais políticas por não proporcionar as condições de paz ao povo, mas que, esquecido, ou desmemoriado, vê não somente a questão da segurança se agravar como não avançou (antes regrediu) um milímetro sequer no setor a ponto de, em certas cidades, o caos estar próximo de ser virar guerra civil tal o grau de violência. Também outra leitura desagradável do referendo pode ser a de estimular grupos de pressão a aproveitar-se do mecanismo de consulta para aprovar propostas indevidas. O próprio presidente do Tribunal Superior Eleitoral, ministro Carlos Velloso, em entrevista no domingo, declarou-se fervoroso defensor dos referendos. Faltou apenas dizer que um referendo tem custos elevados e, o inconveniente de subtrair poderes do Congresso, que, até onde se sabe deve existir para analisar e aprovar as leis, conforme estabelecem os princípios da democracia representativa e nossa Constituição. A democracia direta tem limites e devem ser utilizados para solução de problemas de caráter geral e relevantes-o que não era o caso inclusive do que foi feito, por sinal perfeitamente dispensável e pura pirotecnia que cobrou seu preço do próprio governo.Referendos são bons apenas para tópicos muito específicos, de baixa complexidade técnica. Não podem (e não devem) substituir o Congresso nem servir de alternativa para situações em que impasses normais na vida parlamentar bloqueiam a tramitação de certos projetos de lei na medida em que podem passar a ser uma prática que emperra e empurra decisões que, normalmente, exigem análise e estudos para um clima passional. O que é preciso entender é que o não só venceu porque os governantes se comportam como a governadora do Rio, Rosinha Matheus, que classificou o referendo como “um equívoco” (correto), mas ao dizer que “Acontece que esse assunto é polêmico e mexe com o emocional das pessoas. Muita gente de bem, lógico, está votando no Não. Como governadora que tenho acesso a estatísticas, pesquisas e projeções, afirmo que o desarmamento agregado a um conjunto de outras medidas é necessário para acabar com a violência”. Ou seja, como governadora não faz “o conjunto de outras medidas” necessária para acabar com a violência, porém quer que o povo acredite (quando pede para votarem sim) que os bandidos vão desistir de assaltar com todo mundo desarmado. São contra dirigentes assim que o “não” avassalador desabou de Oiapoque ao Chuí. É o não contra a inoperância do poder público na área de segurança pública. É um recado claro da insatisfação popular contra a falta de segurança e a ineficiência dos governos.

O POVO DISSE NÃO PARA A SEGURANÇA

Uma boa leitura do não
O resultado acachapante do “Não” no referendo sobre a não comercialização de armas não autoriza um certo ufanismo da Frente Pela Legítima Defesa, vencedora do referendo, que faz uma leitura errônea, ou mal intencionada, do resultado para, no Congresso, tentar modificar o Estatuto do Desarmamento. Este nunca esteve em discussão, mas apenas um artigo da lei do Estatuto — o que estabelecia o fim do comércio de armas e munições. O Que se deve entender a vitória do “não” é que se tratou muito mais de um “não” as políticas públicas de segurança, ao desempenho dos governos, de uma forma geral, e, em particular, ao do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que, no passado, era um feroz crítico de tais políticas que considerava ineficientes por não proporcionar as condições de paz ao povo, mas que, esquecido, ou desmemoriado, vê não somente a questão da segurança se agravar como não avançou (antes regrediu) um milímetro sequer nas políticas do setor a ponto de, em certas cidades, o caos estar próximo de ser visível nos tiroteios no meio das ruas e no fechamento de estabelecimentos comerciais por medo aberto dos assaltos e da violência. Também outra leitura desagradável da negativa do referendo pode ser a de estimular grupos de pressão a aproveitar-se do mecanismo de consulta para aprovar propostas indevidas. O próprio presidente do Tribunal Superior Eleitoral, ministro Carlos Velloso, em entrevista no domingo, declarou-se fervoroso defensor dos referendos. Faltou apenas dizer que um referendo tem custos elevados e, o inconveniente de subtrair poderes do Congresso, que, até onde se sabe deve existir para analisar e aprovar as leis, conforme estabelecem os princípios da democracia representativa e nossa Constituição. A democracia direta tem limites e devem ser utilizados para solução de problemas de caráter geral e relevantes-o que não era o caso inclusive do que foi feito, por sinal perfeitamente indispensável e pura pirotecnia que cobrou seu preço do próprio governo.Referendos são bons apenas para tópicos muito específicos, de baixa complexidade técnica, sem muitos problemas que envolvam grandes diferenças de caráter político, econômico e social. Não podem (e não devem) substituir o Congresso nem servir de alternativa para situações em que impasses normais na vida parlamentar bloqueiam a tramitação de certos projetos de lei na medida em que podem passar a ser uma prática que emperra e paralisa decisões que, normalmente, exigem análise e uma definição dos representantes legais da população que devem ser preparados e/ou buscar pessoal técnico capaz de achar boas soluções e viabilidade. O que é preciso entender é que o não só venceu porque os governantes se comportam como a governadora do Rio, Rosinha Matheus, que classificou o referendo como “um equívoco” (correto), mas ao dizer que “Acontece que esse assunto é polêmico e mexe com o emocional das pessoas. Muita gente de bem, lógico, está votando no Não. Como governadora que tenho acesso a estatísticas, pesquisas e projeções, afirmo que o desarmamento agregado a um conjunto de outras medidas é necessário para acabar com a violência”. Ou seja, como governadora não faz “o conjunto de outras medidas” necessária para acabar com a violência, porém quer que o povo acredite (quando pede para votarem sim) que os bandidos vão desistir de assaltar com todo mundo desarmado. São contra dirigentes assim que o “não” avassalador desabou de Oiapoque ao Chuí. É o não contra a inoperância do poder público na área de segurança pública.

quinta-feira, outubro 20, 2005

É PRECISO PENSAR O BRASIL

Embora cultive o otimismo não posso esconder o fato de que, como analista, ainda penso que as grandes crises estão por vir. Não só as ambientais, como a seca na Amazônia, ou os furacões no hemisfério norte, principalmente, as políticas. E isto é mais grave porque, infelizmente, neste momento, não temos teorias pensadas sobre a nossa realidade, nem lideranças capazes de apontar caminhos, ou seja, não estamos preparados para fazer com consciência as mudanças que devem ser feitas.
Infelizmente, repito, seja no ambiente político, seja no ambiente intelectual há a ausência de um pensamento original, de um pensamento brasileiro que separe o útil do inútil, o aplicável do inaplicável na nossa realidade. Falta pensar o Brasil atual, o Brasil não isolado do mundo. È preciso pensar o Brasil no mundo, pois estamos numa fase em que não há solução possível para a realidade brasileira sem levar em conta o contexto mundial. Não podemos nos deixar levar por falsos diagnósticos, voltados para o passado, que querem, pela recusa cega à mundialização, que querem retornar aos tempos em que o país desejava ser uma autarcia. A mundialização se tornou um fenômeno do qual não há como escapar. Fora dela não há qualquer sentido de progresso. Se, é claro, que devemos combater seus males, com a inteligência e a paixão possível, não podemos nos iludir quanto à inevitabilidade da globalização capitalista. A questão, porém é outra: de como, apesar dela, poderemos usar a inteligência e o saber para melhorar o Brasil no mundo e como fazer a defesa dos interesses da humanidade contra as possibilidades de catástrofe que este modelo embute. Não é possível, nem provável, que vá se ter sucesso, por exemplo, rompendo com o imperialismo, adotando uma posição radical sobre o pagamento das dívidas. No entanto é possível criar uma política de desenvolvimento não predatória, que não destrua as nossas reservas naturais, que leve em conta o meio ambiente e uma melhor distribuição de renda. Com tanta desigualdade, sem dúvida, o Brasil não poderá ser uma nação importante neste jogo, daí a necessidade inadiável, a urgência em pensar o nosso país. Em criar, de fato, uma política de educação e de distribuição de renda sem as quais as tragédias possíveis serão bem maiores que os mensalões, as secas e aftosas na moda. É preciso pensar o Brasil.

terça-feira, outubro 18, 2005

TRISTE BRASIL, Ó QUÃO DESSEMELHANTE!

Quem mostra é o último Relatório de Desenvolvimento Humano, da ONU, que o Brasil é o quinto mais desigual do mundo: perde apenas para a Namíbia, o Lesoto e a República Centro-Africana, países africanos, e o Paraguai. O documento foi feito pelo Programa das Nações Unidas pelo Desenvolvimento-PNUD, no qual também esta explícito que os 10% mais ricos do Brasil faturam 68 vezes mais que os 10% mais pobres, ou seja, uma desigualdade que deveria, no mínimo, ser o objetivo central da política econômica desenvolvida no país.
Porém, como acontece desde que foram implantados os governos militares, os objetivos até podem ter sido de desenvolver, porém jamais de distribuir renda mesmo depois que o bolo cresceu. Todas as políticas públicas têm sido concentradoras com os ricos ficando mais ricos e os pobres ficando cada vez mais pobres. Nem mesmo com a volta da democracia o Brasil deixou de continuar seu inexorável destino de ser um dos países com a maior concentração de renda do mundo.
A palavra distribuição de renda, embora extremamente usada nos discursos, foi, nos últimos oito anos de Fernando Henrique e, mais agora na gestão Lulla da Silva, um tema recorrente, mas que não se traduziu, em momento algum, em prioridade de governo. A prioridade tem sido o ajuste das contas públicas feito via política monetária com juros altos para segurar a inflação e corte nos investimentos e nos projetos sociais. Daí o endividamento, o aumento dos lucros bancários, o sufoco do setor produtivo, o nível de emprego estagnado e a renda do trabalhador decrescente sem contar com a constatação de que a classe média vai desaparecendo tragada pela não recomposição das perdas, a alta carga tributária e a inflação.
O mais grave no relatório do PNUD é verificar que, no caso do Brasil, a transferência de 5% da renda dos mais ricos para os mais pobres seria bastante para tirar da miséria 25 milhões de pessoas. Ou seja, só isto já garantiria o sucesso de qualquer governo comprometido realmente com a melhoria da distribuição de renda. No entanto o governo atual, comprovadamente, tem gastado mais com propaganda do que com programas sociais ou com o microcrédito. Na verdade são desenvolvidas políticas compensatórias, como os programas de transferência de renda, como restaurantes populares ou farmácias populares, mas não reduzam a desigualdade, embora seja, importante para a sobrevivência das parcelas mais pobres da população. Não adianta o Brasil registrar números positivos na economia quando se mantém a mesma fórmula de concentração da renda nas mãos de poucos. Não há forma do Brasil encontrar o seu caminho sem diminuir a desigualdade e, infelizmente, o atual governo se mostra incapaz de dar respostas eficazes aos problemas nacionais.

quarta-feira, outubro 12, 2005

O RISCO LULLA

Tá na hora! Tá na hora!
Quando Lulla da Silva derrotou o suposto modelo neoliberal de FHC surgiu como a vitória de um projeto que prometia esperança, prioridade do social e uma mudança radical no modelo econômico brasileiro do qual se esperava, supostamente, que levasse a uma modificação dos padrões históricos de desigualdade do país. Hoje, infelizmente, nada mais resta de qualquer dessas promessas.
Lulla é uma espécie de zumbi cujo mau-cheiro se descobre em cada passo de seu governo, em cada gesto, em cada fala e em cada companheiro ou parente. Uma hora é o filho, outra hora é o irmão, outra hora são os gastos de cartões de crédito e, quando se espera que a coisa vá amainar, aparece o Ministério Público mostrando que o filho de Zé Dirceu teve Waldomiro como “procurador” de seus interesses na Casa Civil. É a deterioração completa do mais importante partido brasileiro, referência internacional de esquerda, que, ironia, tem, agora, como esperança maior eleger Berzoini, o do prêmio de crueldade, para se refundar. Está refundido por natureza.
Nada mais resta da bela trajetória de um partido e de um dirigente, Lulla da Silva, que marcaram a política brasileira brandindo a ética na política e a prioridade social. Ambas as bandeiras, sujas de lama, se foram pelos ralo substituídas pelas malas e cuecas recheadas de dólares, pelos publicitários com contas no exterior, por uma corrupção sistêmica e sindical que aparelhou o Estado e, descoberta, parece estranha aos próprios membros do partido, mas é o retrato da distância entre a cúpula do partido e seus militantes quanto mais do povo que acreditou nas falsas promessas. Lulla se fosse capaz de auto-crítica renunciaria. Como não é capaz terá que ser apeado. Cada vez mais será uma questão de governabilidade ou a classe política, cega, estará caminhando para que a desesperança faça nascer um novo período ditatorial.

sábado, outubro 08, 2005

BOM, MAS NÃO TANTO

Este projeto de transposição do rio São Francisco é considerado, por muitos estudiosos, um despautério. Sem entrar em aspectos técnicos somente o fato do rio precisar ser revitalizado já se constitui num fator preponderante para desaconselhar sua execução. Mas, infelizmente, o governo Lulla da Silva possui propensão para bater cabeças e, insiste, em fazer projetos problemáticos e não cuidar dos mais simples e, evidentemente, indispensáveis, como a recuperação da malha viária ou fazer investimentos em ferrovias.
Quem procura acha. E encontrou, lá no sertão, um bispo cabeçudo que daria sua vida em troca de uma causa nobre. Por mais que sejamos contra a intromissão de religiosos em problemas leigos usando sua condição institucional não há como não louvar o ato, embora ressaltando que é uma insensatez impedindo uma outra maior. Ainda que o ato não seja muito educativo e, pode, resultar em imitações nefastas que ceifem vidas. Afinal nem sempre pode se esperar bom senso dos políticos. Neste caso, até pela situação, houve. O governo bem que poderia aproveitar este primeiro passo e, invés de fazer discursos unilaterais, buscar mais dialogo com a sociedade e ser mais eficiente na ação. Ainda possui capital político para melhorar, porém tem que sair do seu castelo como fez agora. Voltar atrás, às vezes, é um bom sinal. Porém, logo depois, o governo diz que não é bem assim...Dá para se perceber que cumprir os acordos não é o seu forte.

sábado, setembro 24, 2005

MANIFESTO ANTI PIZZA

Por favor, pizza não! Nada contra tão saboroso prato, porém pizza deve ser feita em local adequado, com ingredientes corretos, com a mão de quem sabe manejar com carinho e gosto uma comida que, por sua universalidade e tradição, deve ser motivo de orgulho e de prazer. Façamos pizza como deve ser: com a reverência, os ritos e a preparação devida a um prato tão saboroso.
Senhores parlamentares não façam concorrência aos "pizzaiolos". Inclusive por razões pessoais, de vez que seu mandato pode ir para o local errado com a indigestão que, certamente, virá. Caras Excelências, podem crer, pizza por aí não dá. O melhor mesmo é comer pizza em outro canto e fazer o que deve ser feito: apurar, punir e cassar. Pizza não! È o manifesto de toda a nação. Se querem fazer façam, porém podem crer os culpados e os omissos serão punidos. É esperar para ver.

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sexta-feira, setembro 23, 2005

A Indústria de Projetos Inúteis

O presidente Lulla da Silva sancionou, hoje, dia 23 de setembro de 2005, o projeto Fábrica de Escola. À primeira vista um excelente projeto que tem como objetivo incluir no mercado jovens de 16 a 24 anos pertencentes a famílias com, no máximo, renda de 1,5 salário e que estejam regularmente matriculado numa escola. Também louvável a preocupação de buscar parceria junto ao empresariado e as instituições com fins não lucrativo.
No entanto o real problema de projetos iguais a este é o de que o governo não se propõe a bancar os seus custos. Assim, além de repassar a execução para a iniciativa privada exige que esta durante o prazo mínimo de seis meses ofereça aos participantes uniformes, alimentação, vale-transportes e seguro pessoal e de acidentes. Não bastasse exige uma série de esforços burocráticos de acompanhamento, apresentação de comprovantes e prestação de contas, ou seja, o governo entra com uma parcela mínima de recursos e empurra o problema para os outros. É verdade que paga aos jovens que fazem o curso profissionalizante uma bolsa auxilia de R$ 150,00 (cento e cinqüenta reais), porém isto serve mais para distorcer a seleção do que para ajudar o projeto, pois, nesta faixa de renda, muitos vão fazer somente para ter acesso aos recursos invés de buscar a capacitação.
É triste, portanto verificar que uma prática antiga continua em pleno vigor: a do governo fingir que trata dos problemas criando projetos sem recursos e sem possibilidade de modificar de fato a realidade. È uma indústria de projetos inúteis que só cria burocracia e só dá resultado nos poucos casos em que algum funcionário público abnegado ou alguém com características invulgares de sacrifício em prol dos outros utiliza os parcos recursos para gerar algo maior. Na maioria das vezes acontece como acontece com os cursos do FAT são feitos para serem feitos, apressadamente, com os recursos mal gastos quando não desviados e servem meramente para algumas entidades que o aplicam de forma mais satisfatória ainda que com grande sacrifício pelo fato dos recursos não serem suficientes para bancar os custos.
É mais triste ainda verificar que as boas idéias, principalmente para os jovens, continuam sendo utilizadas apenas para demagogia e publicidade. Que para o segmento mais importante e mais sofrido de nossa sociedade, os jovens, cujas despesas deveriam ser consideradas investimentos, continuam a não existir recursos e tudo que é feito depende muito mais de pessoas que, voluntariamente, se sacrificam para criar um mundo melhor.

quinta-feira, setembro 22, 2005

O SILÊNCIO É UMA FORMA DE PODER


O Discurso Imperial
A professora Marilena Chauí, a quem não se pode negar o brilho de uma inteligência sutil, possui uma lógica toda particular e digna de estudos. Principalmente depois de ter ficado tanto tempo calada diante da partidarização da máquina pública, da sindicalização do governo e da corrupção sistêmica seguida de assalto aos cofres públicos patrocinada por Dirceu, Genoíno, Delúbio & outros inocentes, agora, explica, em carta aos seus alunos, que nunca esteve calada. E aponta o culpado: a mídia. Aí, há de se convir, sem muita originalidade.
Original, sem dúvida, é sua capacidade de reconstituição histórica. Somente pinça, convenientemente, os fatos que podem sustentar sua tese de que Lulla e o PT são estigmatizados pela mídia quando nenhum outro partido teve tanto espaço nem foi menos questionado em suas práticas. Ela, todavia só enxerga o fato iniludível de que Lulla da Silva, por não gostar de ler e de estudar, conforme comprovado pela prática, foi sempre acusado de ser despreparado para o cargo de presidente da República. Incompreensíveis não são as críticas que foram feitas, mas a falta de estruturas políticas que permitam isto e a omissão da mídia em relação aos “erros” que os companheiros já apresentavam ao longo do tempo.
No entanto a professora, como de resto uma enorme ala do PT, ou por cegueira ideológica ou por incapacidade de lidar com o real, apesar de afirmar que sempre esteve “consciente dos limites” dos meios de comunicação que, para ela, é “um campo público de direitos regidos por campos de interesses privados” (o que se pode dizer de qualquer campo, aliás, inclusive o próprio estado), não via nenhum problema nisto quando a mídia ajudava o PT a ser majoritário, agora, porém, quando seu partido fez do setor público um campo de interesse e da corrupção privada relembra, no melhor estilo delubiano, que, num artigo do ano passado, quando explodiu o caso Waldomiro já havia prescrito da solução maravilhosa: a reforma política!
E, num trabalho teórico maravilhoso, termina por se considerar “a vitima” da mídia (mídia, por certo, é uma abstração pouco digna se considerada como um conjunto). No fim traça seu auto-retrato: uma mulher, intelectual, petista que, para seu próprio espanto, se tornou uma torturada pela imprensa que quer, de qualquer forma, arrancar palavras de uma pobre professora que somente desejava falar quando conveniente. Neste sentido bastante coerente com o comportamento de Lulla da Silva que fez o possível para criar uma imprensa domesticada, cândida e servil seja centralizando verbas seja tentando criar mecanismos legais de coerção ou só permitindo acesso aos cordeirinhos que repetissem o discurso encomendado.
Espantoso, de fato, é que uma intelectual, uma pensadora adote o silêncio quando se precisam de vozes que esclareçam e guiem, inclusive seu próprio partido, num momento de confusão e escuridão. Se bem que fica evidente que seu foco é Spinoza, que não gosta de pensar sobre o real, pois até ao escolher o título de um ciclo de conferências não refletiu sobre o futuro e ainda culpa a imprensa por fazer uma correlação tão óbvia quanto ligar Pinochio com as mentiras da cúpula petista. E não há dúvida que dá a mínima para contradições na medida em que, como figura pública, o seu “Não falo”, por si só, já equivale a um discurso. E um discurso imperial. Afinal somente quem tem poder pode se dar ao luxo do silêncio.

quarta-feira, setembro 14, 2005

A Lógica dos Trópicos

Embora a ciência seja o que os cientistas concordem com o que ela é, no entanto há alguns consensos explícitos mesmo nas complexas Ciências Sociais. Assim é indiscutível, que, nas sociedades de mercado, a produção é resultado da iniciativa privada e o governo, quanto mais cobra impostos, mais participa da produção nacional dela retirando recursos, menos bem faz. É uma lógica que parece não funcionar nos trópicos, especialmente no Brasil. Basta verificar o relatório do Banco Mundial denominado “Fazendo Negócios 2006: Criando Empregos”. Lá se constata, a partir da análise de 10 tópicos que o Brasil é um dos piores lugares do mundo em termos de ambiente para negócios e investimentos.
Para se ter uma idéia clara o estudo, que abrangeu 155 países, o Brasil aparece em 119º lugar depois de quase todos os países da América do Sul. Pasmem, em termos de ambiente para investimentos, estamos depois da Bolívia (111º lugar), do Paraguai (88º) e do Uruguai (85º) anos luz longe da Argentina (77º) e do Chile (25º), o melhor posicionado da região. Sabe qual a razão? Abrir uma empresa brasileira e os gastos com impostos são tópicos nos quais estamos entre os mais atrasados do mundo. Uma empresa brasileira consome 2.600 horas/ano somente para pagar impostos sendo estes, a burocracia e o caro e complexo sistema judicial considerados entraves imensos para o desenvolvimento dos negócios.
Em suma a nossa lógica é uma lógica perversa. O Estado que deveria criar um ambiente para a geração de riqueza e de empregos é o principal obstáculo para a livre iniciativa, daí os elevados níveis de informalidade que crescem na medida em que é impossível ser empreendedor num ambiente no qual se é perseguido pelos burocratas e pelos impostos. E para quê? A resposta mais evidente é que os mensalões, malas e cuecas da vida se alimentam, justamente, de criar facilidades para os espertos, porém, com um ambiente, assim não se cria prosperidade nem desenvolvimento. È a triste lógica dos trópicos.

sábado, setembro 10, 2005

VOU ME EMBORA PRO BUTÃO!

Sob o ponto de vista espiritual e ético há uma medida de felicidade comum a todos os homens: a posse do necessário para a vida material, ter a consciência tranqüila e fé no futuro. Já os mais materialistas são adeptos de que a medida da felicidade depende de cada um. Os consumistas dizem que o dinheiro não compra a felicidade e sim manda buscar! Há até pesquisadores que já estimaram o custo da felicidade: US$ 25 mil dólares/ano. Dizem, no entanto que só existe uma correlação entre renda e felicidade nos patamares mais baixos, pois a partir dos citados 25 mil a renda passa a não influir muito no grau de felicidade, embora, em geral, os muito ricos sejam mais felizes. O que é incontestável é que a falta do dinheiro atrapalha muito a felicidade. E isto posso afirmar, para vocês, com conhecimento de causa.
No Brasil sei que o economista Eduardo Giannetti da Fonseca, professor do Ibmec, se ocupa do tema e até esteve em Oxford, na Inglaterra, por três meses e meio a convite do Center for Brazilian Studies, no Saint Anthonys College, fazendo pesquisas sobre os custos escondidos da civilização. Giannetti não vê uma relação simples entre indicadores objetivos e subjetivos de bem-estar, pois não detectou uma correlação entre os indicadores objetivos e os subjetivos, ou seja, nem sempre quando o material melhora o espiritual acompanha. Assim a felicidade entre os povos, ricos e pobres, não varia muito apesar da diferença de renda e mesmo entre os povos que melhoraram, às vezes até quadruplicaram seu nível de renda, o bem-estar não melhorou na mesma proporção. A questão mesmo se situa em que, no mundo moderno, a riqueza e o consumo, em especial, estão se tornando o padrão dominante de medida da felicidade. Não é um padrão bom, confiável nem sequer muito desejável, pois pode ser a fonte de muitas frustrações.
O certo é que não se pode medir felicidade, porém tem muitos pesquisadores tratando do tema e tentando. Até já se constatou, por exemplo, que os casados são mais felizes. E criaram uma medida da felicidade para os países entre 0 e 10 na qual o Brasil estaria, como os demais países, da América do Sul entre 6 e 7, porém muito menos feliz do que se imagina. Pensar sobre a felicidade é uma questão séria. Sou mais pela constatação simples de que felicidade corresponde a se sentir feliz com a vida que leva. E fico com inveja mesmo é do Butão. Lá o rei Singye Wangchich adotou como medição do produto o FIB- Felicidade Interna Bruta e suas políticas públicas, a partir dos anos 70, possuem como objetivo aumentar a felicidade da população. Vou me embora pro Butão! Mesmo sem ser amigo do rei já gostei!

quarta-feira, setembro 07, 2005

CULTURA E LIVROS

Não posso me esquecer de Castro Alves em “O Livro e América” onde diz: “Por isso na impaciência/Desta sede de saber,/Como as aves do deserto/As almas buscam beber.../Oh! Bendito o que semeia/Livros... livros à mão cheia.../E manda o povo pensar!/O livro caindo n'alma/É germe — que faz a palma,/É chuva — que faz o mar”. E dele pulo para Oswaldo Siciliano, que vive de livros, e afirma: “Esperamos que o índice de leitura per capita (do Brasil) salte de 1,8 livros/ano para 3 livros até 2022”. A média dos países desenvolvidos é de 5,5 livros/ano. Isto mostra que a cultura, que é fundamental para atender às necessidades de geração de emprego, renda e melhoria de vida brasileira, e também a falência da educação que resulta no analfabetismo vigente, inclusive político. Quem não lê é um cego com bons olhos. È claro que a questão do livro passa pelo baixo poder aquisitivo de nossa população, mas também faltam boas bibliotecas, mais livrarias e marketing e distribuição dos livros. É essencial que os bons governos, se é que ainda existem ou existiram, lutem pela melhoria da escolaridade e pela valorização do livro para que a leitura deixe de ser uma coisa elitista. Infelizmente sem leitura, sem livros, não há cultura nem desenvolvimento. Precisamos brigar por mais bibliotecas, livrarias, campanhas para livros. Até me anima, por mais que promova seu comércio, o fato da TV Globo fazer campanhas por seus autores, colocar livros nas mãos dos artistas de novelas. Contra os que, por exemplo, atiram contra Paulo Coelho sempre pondero que, além de um texto bom, sua grande obra reside em fazer com que os brasileiros (e outros também) leiam. Qualquer governo que mereça o nome deve, no mínimo, criar mais bibliotecas, fazer campanhas pelos livros, ajudar a publicá-los e torná-los o mais barato possível. É um programa mínimo de governo, mas, sem cultura, estamos condenados a repetir a saga de eleger os oportunistas e ignorantes de sempre. Livros, livros.

sábado, setembro 03, 2005

O CUSTO DA PRESERVAÇÃO

A preservação ecológica é um dos temas dominantes nas revistas e em qualquer projeto de governo e assume uma importância maior ainda quando se trata de uma região amazônica que é sempre objeto de matérias em que se critica o seu desmatamento. Ora, é óbvio, ninguém discute a questão de que seja necessário cuidar dos recursos dessa região que é a maior reserva florestal do mundo, porém há, em relação ao nosso território, um exagero que não é acompanhado dos recursos indispensáveis para contrabalançar a renda que estamos perdendo com o não aproveitamento das riquezas naturais. Agora os países mais ricos do mundo, o famoso grupo G-7, somente aceitam projetos para a proteção da floresta tropical, mas ficam calados quando se cobra mais verbas para outros projetos da região, cujos recursos alocados é insignificante, e até se opõem denodamente à projetos essenciais para o nosso desenvolvimento.
Na verdade o Programa Piloto para a Proteção das Florestas Tropicais Brasileiras, mais conhecido como PPG-7, pode até ter recursos, como dizem, recursos no valor de US$ 1,5 bilhão de dólares, mas a pergunta correta é para serem gastos em que? Não será na manutenção das pessoas, quando muito em infra-estrutura, porém somente aquelas que não gerarão maior desenvolvimento. Se bem que o grosso do programa consiste de pesquisas. Como tais pesquisas, assim como foi a implantação do SIVAM, requer uma capacitação e equipamentos que não são produzidos na própria Amazônia os efeitos multiplicadores regionais são pouco sentidos localmente. O exemplo de Rondônia é gritante. Embora os recursos do PLANAFLORO, programa que instituiu o zoneamento econômico ecológico de Rondônia, tenham sido importantes para consolidar determinadas estruturas seus efeitos foram muito pouco sentidos na economia não só pela diluição, ao longo do tempo, mas pela necessidade de muitas empresas externas para sua consecução. Na verdade o Estado estaria pior sem a vinda dos recursos, mas esses se destinaram a organizar espacialmente o Estado e foram insuficientes para gerar um impacto maior impulsionando a economia. Não será diferente com qualquer recurso para a proteção ambiental ainda mais se considerarmos que uma parte acaba sendo destinada à fiscalização e a burocracia que tem dificultado as atividades extrativas, sobretudo madeireiras.
O grande problema é o da premissa de que o desenvolvimento sustentável além de ser um objetivo desejável é também economicamente mais produtivo e interessante. A tese é boa, mas a realidade esta longe dessa utopia, pois é possível que se houvesse uma contabilidade ambiental, isto é um balanço dos recursos desperdiçados e das externalidades, ou seja, das conseqüências que os danos ambientais trazem sobre outras pessoas ou firmas, socialmente, se poderia comprovar o fato, mas, nos tempos atuais, individualmente, ou em termos de empresas, os custos de preservação são altos e não há como arcar com eles. Uma comprovação evidente é a de que no nosso Estado as exigências sobre o setor madeireiro exterminaram com mais de 2/3 das empresas existentes na década passada e ameaçam exterminar mais, sem resultados melhores em relação ao desmatamento. Se, principalmente para as pequenas empresas o setor tornou-se inviável pelos elevados custos, isto não alivia a natureza porque vão migrar para outras atividades, como a pecuária, que também exigem desmatamento. Sob o ponto de vista ambiental isto é bom? É duvidoso. Sob o ponto de vista da renda e do emprego é péssimo. Não adianta políticas de fiscalização ou debitar o fato ao subdesenvolvimento, mas à questão econômica. Aqui vale



a pena lembrar as palavras esquecidas de um ex- Prefeito de La Paz, Luiz Alberto Erena Valle, que disse que os países ricos que nos cobram agora a conservação das florestas, que dizem para não queimarmos ou cortarmos, não dão respostas para como iremos viver. Eis a questão básica: preservar sim, mas e o custo da preservação quem banca? Ou teremos que nos conformar com a pobreza em nome da ecologia? Pimenta nos olhos dos outros sempre foi refresco.

segunda-feira, agosto 29, 2005

MARX E A CRISE BRASILEIRA

Embora Marx tenha sido um pensador do século XIX em muitos pontos, sem dúvida, foi um homem além do seu tempo. Entre suas geniais premonições, que julgava ser ciência por ter alguns indícios que abalizavam sua opinião, ficaria, certamente, deliciado com o governo Lula da Silva (que não hesitaria em chamar de direita deslavada) como uma farsa, como repetição histórica do governo Collor de Mello. Há, no entanto pontos nos quais quedaria perplexo e, com certeza, teria que repensar muito do que disse. Por exemplo, é de sua lavra o seguinte texto explicando o seu método: “Minha investigação desembocou no seguinte resultado: relações jurídicas, tais como formas do estado, não podem ser compreendidas nem a partir de si mesmas, nem a partir do assim chamado desenvolvimento geral do espírito humano, mas, pelo contrário, elas se enraízam nas relações materiais de vida, cuja totalidade foi resumida por Hegel sob o nome de ‘sociedade civil’, segundo os ingleses e os franceses do século XVIII, mas que a anatomia da sociedade burguesa deve ser procurada na Economia Política”. Bem, de fato, hoje, a economia sustenta a fantasia da sociedade brasileira, porém como é possível explicar que um presidente sem a mínima condição mais permaneça intocável? Claro que a explicação é política. Marx quebraria a cabeça para explicar o surrealismo de nosso país. Ou chegaria a conclusão que a economia, como fonte de explicação tem suas grandes limitações ou faria, como muitos intelectuais sempre fizeram quando entender exige esforço: ou enterram o pescoço na areia ou simplesmente creditam o problema aos trópicos. Afinal até boi voa ao sul do Equador.

sábado, agosto 20, 2005

NA PRÓPRIA PELE

As acusações do ex-assessor de Palocci, Rogério Buratti, por menos fé que mereçam, revela um aspecto inquietante da vida pública nacional: a de que, a rigor, o julgamento de autoridades políticas se processa, antes de qualquer investigação ou tribunal, na imprensa. Talvez isto não se se constitui um problema se a imprensa tivesse o zelo de checar as informações ou até mesmo silenciar sobre os casos em que a simples menção da autoridade implicasse em nodoas na sua reputação, como no caso atual do ministro da Fazenda. A questão e, isto é inegável, é que, com tanto escândalos, com tantas provas evidentes de corrupção e a negativa deslavada (e com defesas irracionais) tornam inócuas qualquer negativas, ou seja, há um clima no qual qualquer autoridade acusada já é, praticamente, culpada por antecipação. Em parte pela razão de que, recentemente, tudo que se negava existir era comprovado como existindo, logo em seguida, como tem sido na infindável novela do “Mensalão”. Neste caso atual, embora não se possa negar o indubitável trabalho que as promotorias tem realizado, a divulgação de acusações, durante um processo investigativo, cujas repercussões abalam inclusive a economia nacional não deixam de ser um excesso, uma necessidade dispensável de holofotes em cima da palavra de um delator premiado que, possivelmente, tem magoas do seu ex-chefe inclusive, como revelou de forma indireta, por este ter sustado a propina da G-Tech impossibilitando a mudança de contrato. Não se trata aqui de isentar Palocci de culpa, porém até agora os indícios são muito frágeis. Trata-se apenas de que só há a palavra de quem é reconhecidamente criminoso e que, como deixou claro, ao afirmar se sentir “abandonado” disposto a salvar o próprio pescoço a qualquer preço. Neste sentido não seria muito recomendável que se desse publicidade aos fatos antes de ter indícios mais concretos. Claro que a investigação não está sendo feita em sigilo, mas, independente de quem seja o acusado, as pessoas tem um nome a zelar e depois de expostas nos meios de comunicação reverter certas situações é muito complicado. Ou seja, divulgar notícias baseadas em suposições e indícios frágeis é linchar moralmente as pessoas antes de ter direito à defesa. Depois mesmo que inocente o escândalo da primeira página vira uma notinha de desculpas nas páginas intermediárias. Sou totalmente contra ao amordaçamento do Ministério Público, mas, como nem todos os seus membros possuem a maturidade de saber usar seus poderes, deveria haver uma maior discussão interna do que devem e não devem divulgar e não uma defesa corporativa dos seus membros que extrapolam na busca de seus quinze minutos de fama. O denuncismo é muito ruim mesmo quando correto. Assim deve-se investigar mais antes de divulgar algo que atinja a imagem das pessoas. O irônico da questão Palocci é que foi o PT que incentivou pessoas a agirem assim e, agora, sente as dores na própria pele.

domingo, agosto 14, 2005

A Trágica Farsa da Esperança

Nunca, na história de nosso país, um discurso foi tão silencioso. Terminados, os 9 minutos em que Lula da Silva falou, espremidas suas palavras, havia um suculento gosto de nada. Não dá nem para dizer o que faltou à sua fala. Faltou sangue, substância, coragem, verdade e até ser mais arrojado em defesa própria e de seu governo. Não foi apenas pouco, “insuficiente”, como disse Tarso Genro, ou “insatisfatório”, como disse o senador Suplicy, ou ainda “pífio” , como acusou Arthur Virgilio, foi, para ser claro, vergonhoso.
Como pode um presidente, numa crise ética e moral, ir prestar esclarecimentos que nada esclarecem? Aliás, demonstram sua absoluta incapacidade de reconhecer claramente os erros que cometeu, bem como dar nomes aos bois. E fica se procurando quem disse, dias atrás, que perderia votos, mas não perderia a vergonha na cara. Sua dificuldade de tocar no assunto só foi menor do que seu desconforto visível no fato de não ter sequer a coragem de encarar as câmaras, ou seja, confirmou a suposição geral de que apenas recitava um discurso de ocasião, sem convicção, sem vontade e sem sinceridade. O que deixou transparecer foi à imagem de um ator que não acredita mais na peça na tentativa inútil de salvar o espetáculo ruim.
Um exame do discurso mostra, que até o próprio texto colaborava para o bisonho desempenho. O auto-elogio a um governo que se caracteriza pela inação e omissão ocupou metade do tempo. E, só no final, surge o verdadeiro motivo do discurso: o imenso lodaçal que só agora enxergou. Só agora abriu os olhos para a incomparável roubalheira, a imensa rede de desatinos, de desmandos, de locupletação do erário público. Incrível que, só agora, quando a lama ameaça ultrapassar a cabeça, comece a sentir o mau cheiro do PT, da gangue que o cercou e dirigia os destinos do país. Só agora Branca de Neve acordou. Porém é tarde. O sapo jamais voltará a ser príncipe. Seu destino é permanecer e chafurdar na lama, digo lagoa. E não há nem um beijo salvador. Duda Mendonça que havia feito a plástica, agora, surge também para acabar com a própria obra, para salvar o pescoço, temeroso de se transformar num novo Marcos Valério.
Tristemente se constata que o autoproclamado mais ético dos governantes se finge de bobo, de pateta, para tentar afastar a crise. Mas, ao se aceitar sua versão, não há como não bater na sua testa o carimbo de desinformado e, por desdobramento, considerá-lo o que negava ser: o mais despreparado dos nossos presidentes. De qualquer forma o resumo da opera não é propriamente digno de figurar no rol dos grandes espetáculos. No fundo somente pode aspirar a ser uma farsa burlesca a ser encenada em teatros de segunda categoria. Pobre Brasil cuja esperança morre sempre na janela de medo ou de falta de vergonha.

quarta-feira, agosto 10, 2005

13 DE AGOSTO-DIA DO ECONOMISTA


Embora devido a sua amplitude, ao desconhecimento do público em geral e as dificuldades advindas de suas técnicas e do jargão dos seus profissionais ser economista é uma profissão que, ao longo do tempo, tende a ganhar cada vez mais espaço na sociedade. Isto se explica, principalmente porque se trata do estudo, por excelência, do funcionamento da sustentação de todo o arcabouço social, ou seja, o econômico trata, no seu cerne, de como os homens produzem seus meios de subsistência e de manutenção, de como transformam a natureza em bens e serviços para satisfazer suas necessidades. Nenhuma outra profissão concorre tanto para se ter uma noção ampla do funcionamento da sociedade, daí o economista aparecer como um profissional de profundo conhecimento teórico que, muitas vezes, se intromete na seara alheia, mas, por seus métodos, possui capacidade de tomar a melhor decisão, maior conhecimento do cenário de fundo e se destaca, quando capacitado, pela excelência em assessorias e consultorias. Neste sentido a amplitude do espaço do economista pode ser medido pelos campos em que atua: 1 –Análise e pesquisas da Conjutura Econômica;2- Elaboração de projetos de viabilidade econômica; 3- Arbitragem e perícia; 4- Consultoria em aquisição, incorporação e fusão de empresas; 5 - Diagnóstico, estudo e orientação econômica de empresas; 6 - Desenvolvimento e planejamento econômico;7 - Projetos e orientação Financeira;8- Mercado financeiro;10 – Assessoria de Projetos Agroindustriais/agrobusiness;11- Projetos de infra-estrutura;12- Comércio exterior;13 - Elaboração de estudos de merdcado;14 -Orçamentos públicos e comerciais;15-Marketing e Logística.
Esta é uma enumeração que mostra que o economista tem um mercado de trabalho bastante diversificado, inclusive em órgãos e empresas públicas ou privadas, de vários segmentos produtivos. A visão ampla do economista é necessária, principalmente em ambientes de incerteza, como o de nosso país, onde um bom conhecimento da realidade de mercado e do ambiente político-legal permite, dentro do possível, planejar as ações estratégicas, analisar o retorno dos investimentos da empresa e o comportamento da demanda, entre outras atividades de simulação de cenários futuros possíveis.Enfim cabe ao economista analisar os fatores que influenciam a economia nacional e mundial, daí a necessidade de qualificação. Os empregos, hoje, para os economistas estão restritos na medida em que apenas as grandes organizações, instituições de pesquisa, universidades e instituições financeiras investem na contratação destes profissionais, porém nos cursos que investem e preparam os alunos durante sua formação poucos se queixam de falta de oferta de empregos. Isto é ainda mais evidente nos países desenvolvidos onde a profissão é objeto de desejo. Por exemplo, nos Estados Unidos, nos últimos cinco anos, dados de 2004 quando em 272 escolas de nível superior foram formados 16.411 economistas, o número de profissionais da área aumentou em 40% mostrando a valorização e a procura pela profissão. Como, pela Lei nº 1441, de 13.08.1951, sancionada pelo presidente Getúlio Vargas, regulamentando a profissão de economista no país, se comemora o dia 13 de agosto como dia do Economista, nosso objetivo é o de incentivar um maior conhecimento sobre a profissão e parabenizar os colegas pela data.

terça-feira, agosto 09, 2005

A Favor do Economista

De acordo com dados do Inep -Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira, autarquia vinculada ao Ministério da Educação, não chegam a 70 mil o número de aluno matriculados nos cursos de Economia do país, embora, entre 2000 e 2003, haja crescido, em 9,9%, o número de economistas formados. No entanto o que mais tem chamado a atenção é o fato de que, nos anos iniciais do século XXI, os cursos de administração alcançaram, com 565 mil matrículas em 2003, o primeiro lugar no ranking nacional da preferência dos universitários, enquanto nas carteiras dos cursos de economia sentavam pouco mais de 10% deste total. Há, portanto uma tendência de diminuição do interesse pelas Ciências Econômicas que está na contramão, por exemplo, dos Estados Unidos onde, entre 2000 e 2004, 16.411 diplomas de Economia foram outorgados com um aumento de 40% em relação aos cinco anos anteriores.
Como explicar tal desinteresse, justamente, quando o diploma de Economia se torna, em todo mundo, um crescente objeto de desejo? Não há dúvida que, de uma parte, existe o fato de que ser economista exige mais do aluno. Não é só o tempo maior, como a maior exigência de matemática, leitura e raciocínio, embora isto pese. É também que há uma grande desinformação a ponto de muitos acreditarem que Administração dá uma formação mais abrangente, que o economista somente lida com mercado financeiro ou a visão, completamente distorcida, de ser uma profissão ligada a planos econômicos mirabolantes e fracassos recorrentes, ou seja, em geral, avaliam que o curso de administração é mais amplo, com uma formação que pode abrir mais portas para o mercado. Esta percepção tem mantido os jovens longe dos cursos de Economia. O mais estranho é que isto ocorre quando os economistas, ao contrário do que se pensa, têm visto seu campo de trabalho aumentar seja por causa das exigências da globalização, seja pela crescente necessidade de se entender as recessões e crises ou pelas questões ecológicas e de desenvolvimento sustentável.
Em Rondônia este desinteresse é facilmente compreensível. Com um campo de trabalho reduzido pelo desmantelamento governamental do planejamento e da pesquisa, bem como a desvalorização dos projetos de longo prazo, substituídos pelo “fazejamento”, a ação meramente reativa, o economista não possui dados essenciais para trabalhar como séries históricas, índices e relatórios. Na verdade, em termos de operacionalidade, exceto sob o ponto de vista da informática, há um evidente retrocesso nos padrões do desempenho público em relação às décadas passadas. Assim a desvalorização do economista representa, na prática, o abandono de uma melhor qualidade de vida e de um desenvolvimento mais rápido. Como disse, certa vez, o Dalai Lama sobre a necessidade, ou não, de um guru para a elevação espiritual que é possível sem ele, mas sua presença poupa tempo. O mesmo fenômeno se verifica em relação ao economista. Sem ele é possível criar desenvolvimento, mas sua presença poupa tempo, muito tempo, e recursos.

quarta-feira, agosto 03, 2005

Ninguém Merece

José Dirceu venceu sua primeira prova de amargura. O que não quer dizer que convenceu. Nem mesmo seu mais fiel adepto se arrisca a dizer que ele diz a verdade. Impossível crer que um esquema tão grande seja fruto de Delúbio, que não prima pela organização, ou de Silvio Pereira, um primário deslumbrado, ambos sem condições de ter acesso privilegiado a informações que seriam indispensáveis para movimentar tantos recursos, estabelecer tantas ligações que passam todas pelos interesses do governo. Para crer no depoimento de Dirceu é preciso descrer de todos que afirmam que, em suas mãos, repousavam a organização e a coordenação do governo e do partido. É como se não tivesse um plano, não tivesse metas nem objetivos, não fosse meticuloso na manipulação de situações e informações. Em outras palavras o homem que depôs não esteve no governo-tal a diferença.
Também impossível acreditar que não tivesse importante papel na definição de nomes, acordos e nomeações. Que, como afirmou, não tivesse informações privilegiadas de Abin, Polícia Federal e todo um aparato, que quem está no alto da pirâmide não deixa de usar, ainda mais quando se trata de alguém, como ele, controlador, centralizador, forjado na clandestinidade a trabalhar em silêncio para sobreviver. Suas afirmações estiveram eivadas de seu caráter: por demais dúbias. Não dizia que não disse. Procurava dizer que Roberto Jefferson queria lhe atribuir uma responsabilidade que não era sua, no entanto, foi, ou não foi, o homem forte do governo? Foi. E, num partido cujas discussões eram colegiadas, mas a decisão centralizada. Quem respondia pelo seu núcleo? Lula, Zé Dirceu, Delúbio, Gushiken. Talvez Genoíno, Pereira ou Sereno, mas é menos provável.
Como também não é verdade que não se procurou aparelhar o governo. Tanto é que os ministros não tinham direito de nomear os seus assessores e, muitas vezes, mudaram regras para “premiar” companheiros em posições para as quais não possuíam o devido preparo. E, ao contrário do que disse o ex-ministro, a composição não obedeceu aos mesmos critérios dos governos anteriores. Nenhum centralizou, inclusive com senhas, os postulantes nem os submeteu a um crivo meramente partidário. E nenhum outro dissolveu as diferenças entre o governo e o partido, entre os contra e os a favor de seu projeto, inclusive punindo mesmo os que estavam no seio de sua agremiação.
O problema é que a “tragédia” que se abateu sobre o PT tem nomes, sobrenomes e história. Não é do PT. É de uma cúpula que, em nome do partido, quis “mexicanizar”, ou melhor, “chavinizar” o país para permanecer escanchados no poder. E pisaram sem pena em quem se opôs aos seus desejos a ponto de que a imensa quantidade de denúncias vem do não menor cordão dos machucados, dos que, apesar de fiéis ao governo e ao PT, foram espezinhados por não se aliar com os donos do poder. O problema do depoimento de Zé Dirceu não é o de que a Globo tenha perdido um grande ator. É o de que o roteiro é obsceno, a trama imoral e os motivos de envergonhar um frade de pedra. Sou obrigado a concordar com o irmão siamês de Zé: o Brasil não merece isto. Que, pelo menos, seja uma lição para melhorar a qualidade da política no país.

segunda-feira, agosto 01, 2005

A Ética nas Empresas

Há, entre os economistas e cientistas sociais, a convicção de que o aumento do estado, e por conseqüência o aumento da burocracia, gera corrupção e impede a economia de estimular um ambiente adequado ao empreendedorismo, ou seja, quanto mais estado mais obstáculos à iniciativa privada e mais corrupção. No entanto, como agora vemos no caso do “Mensalão”, isto não quer dizer que o setor privado prime pela ética. Impossível não constatar que no meio dos escândalos públicos há sempre as impressões digitais de empresas privadas. E, por mais que venham sendo criados mecanismos para reforçar o comportamento social e ético das empresas, não se pode esconder que, no cotidiano, na maioria das vezes, estão envolvidas grandes empresas, empresas que faturam milhões e preferem investir recursos em propinas e em campanhas eleitorais a desenvolver melhorias em inovação e aumento da produtividade.
No Brasil, onde os mecanismos de acompanhamento e punição de tais práticas são frouxos, há empresas, como ficou patente com as de Marcos Valério, que crescem numa rápidez impressionante graças as suas ligações políticas. Esta a razão pela qual numa pesquisa realizada, em 2000, pelo Instituto Ethos, especializado em responsabilidade social, todas as 442 empresas consultadas responderam os questionários se autoavaliando, em termos de ética nas suas práticas, com notas abaixo de 5, numa pesquisa com notas no máximo de 10, numa evidente confissão de que suas relações com seu público não se pautam propriamente pela ética.
O problema parece ser que, quando se alcança um determinado tamanho, é impossível não se entrar em guerra por espaços comerciais nos quais, em geral, o estado possui uma participação relevante seja como comprador, seja como concessionário ou meramente como facilitador de certas questões. Daí é um passo para que se estabeleça algum tipo de relação que acaba sendo espúria. Segundo o diretor executivo da Transparência Brasil, Cláudio Weber Abramo, de todas as empresas que participam de licitações no país, em pesquisa realizada pela ONG, 62% receberam pedidos de propinas ou outros tipos de pagamentos para conquistar contratos. Ou seja, quando se fala em corrupção é impossível dissociar o público do privado. A visão que se tem de que o setor público é muito mais corrompido vem de que, em geral, os processos atingem os gestores de recursos públicos que são, imediatamente, execrados publicamente sem que se dê maior atenção aos corruptores. Como ensina Abramo: “O setor privado sempre tem mais força para se manter distante dos escândalos, em geral as estratégias de investigação evitam agredir as empresas, são questões táticas”. A recente exposição das conexões do publicitário Marcos Valério com o Partido dos Trabalhadores tem de incomum uma mistura entre o público e o privado que inverteu os tramites normais de investigação: não se sabe ao certo o que é público ou privado. O episódio, no entanto, é uma lição para empresas que abandonam as boas práticas e entram no canto de sereia dos políticos na busca de enriquecimento fácil. È impossível passar pela lama sem se sujar ou, como no caso atual, se atolar nela. Mostra também que é indispensável criar mecanismos e controles éticos na gestão do próprio negócio até para evitar as tentações. Afinal se, no mundo dos negócios, os santos não prosperam, não se deve dar espaço para ultrapassar limites que põem em risco o próprio nome e patrimônio duramente construído.