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sábado, setembro 01, 2012

Cibalena para doença grave



Não resta dúvida de que a taxa Selic chegou, nos últimos tempos, aos seus patamares mais baixos. Mas, ironicamente, por mais que o governo alardeie sua política de juros baixos, a grande realidade é a de que, na prática, a queda dos juros não foi para todos. Aliás, a bem da verdade tem sido para muitos poucos. Embora os clientes se queixem da desinformação e das dificuldades de conseguirem taxas mais baixas no próprio banco ou ao tentar migrar a dívida para outra instituição, a verdade é que os bancos adotaram políticas que somente beneficiam os clientes que não tem necessidade de crédito, ou seja, efetivamente, o crédito está mais difícil de ser acessado, mesmo por quem tem conta salário, renda mais alta ou investimentos no banco.
Principalmente para quem já está endividado, a grande maioria das famílias brasileiras conforme informam as consultorias e pesquisas existentes, os bancos fecham a porta na medida em que, se oferecem crédito mais barato, é mais que provável que sejam tomados créditos mais baratos para apenas quitar créditos mais antigos com juros mais altos, o que, para eles, avaliam, não é um bom negócio. Assim, depois de tentarem conseguir benesses do governo sem efeito, uma das primeiras coisas que os bancos fizeram, com a queda dos juros, foi logo diminuir as possibilidades de acesso ao crédito automático e nos limites do crédito pessoal e, ajudado, pelo acesso que, agora, possuem limitaram os montantes a serem emprestados pelos indivíduos e firmas. O reflexo imediato ocorreu sobre o produto na medida em que o consumo tem sido alimentado pelo crédito e, como conseqüência, caiu o produto e o investimento, daí, os níveis rasteiros de crescimento dos últimos trimestres.
O governo até tenta com os bancos públicos reverter esta onda baixando juros, porém, é um esforço setorial e prejudicado pela própria burocracia dos bancos estatais que, numa compensação para impedir níveis mais baixos de lucros, adota práticas draconianas, como acontece com o Banco do Brasil que, ao arrepio da lei e do bom senso, dias antes do vencimento de parcelas de algum tipo de contrato já arresta das contas por antecipação o que será debitado, num claro desrespeito aos direitos do correntista. Como resumo da ópera, temos que a queda da taxa de juros que deveria beneficiar os clientes acabou por gerar uma contenção de acesso ao crédito que piora o endividamento e a vida das pessoas. E, como os bancos são ligados às financeiras e a compra de veículos e bens, há um endurecimento geral das negociações e da forma de tratar os clientes. No caso de parcelas vencidas de financiamento de veículos, por exemplo, se chega ao cúmulo de, por um atraso, de uma ou duas parcelas se lançar todo o débito nos órgãos de controle de crédito prejudicando sensivelmente quem já se encontra com problemas.
Neste momento em que a taxa Selic chega a 7,5%, o que se tem percebido é que, para o  consumidor, até agora, não se percebe os efeitos das medidas do governo de incentivo ao crédito e ao consumo, e por isto, sua postura tem  sido cautelosa.  Isto se reflete bem na queda do Índice de Confiança do Consumidor (ICC) que, recuou 1% de julho para agosto, depois de uma queda de 1,5% registrada no mês anterior. A constatação que se faz é a de que as medidas de estímulo não se refletiram no orçamento das famílias. No caso do governo, a economia feita com o menor custo dos juros, como também tem sido carreada para pagamento de juros, em nada refresca a economia. Não se sabe o que o governo irá fazer, porém, com o crédito contido, com as despesas públicas estacionadas, um endividamento alto e um menor investimento, somente por meios mágicos será possível fazer a economia alcançar um nível maior de crescimento, mesmo fazendo, como tem feito, desonerações setoriais que são como cibalena para doença grave.Pode até fazer com o doente se sinta bem, mas, não resolve.

sexta-feira, agosto 10, 2012

O fracasso anunciado do Brasil nas Olimpíadas de Londres




Como em muitos outros setores, os esportes sofrem da mesma doença do país: com uma agenda antiga e conhecida se avança muito pouco em relação à solução dos seus problemas. E como, quando agora nas Olimpíadas de Londres, repetem-se os fracassos nas competições culpa-se, injustamente, aqueles que, contra todas as expectativas, ainda conseguem, bem ou mal, representar nosso país. A grande realidade é que muito pouco se tem feito em relação às mudanças necessárias na gestão dos esportes do país, na criação de uma política efetiva de seu desenvolvimento. Apesar da existência de um pomposo Ministério, a partir de 2003, num lance de marketing do presidente Lula da Silva, se avançou muito pouco numa mudança das estruturas arcaicas que regem os esportes e na formulação e implementação de uma política governamental para o setor.
O foco do Ministério dos esportes tem sido a acomodação e a espetacularização das atividades esportivas. O que temos assistido mesmo é o gasto de energia e o esforço do Ministério dirigido para, junto aos organismos multilaterais do esporte, tornar o Brasil sede de competições. E, com o êxito obtido neste intento, vamos  realizar a Copa do Mundo de Futebol em 2014 e as Olimpíadas em 2016 no Rio de Janeiro. E enquanto se comprometeu já uma grande massa de recursos públicos que vão sendo desperdiçados com suntuosos monumentos em construção para esses megaeventos, que são instrumentos para as práticas dos esportes, não se aplica os recursos necessários em  projetos de formação de atletas que dariam muito maior retorno social.
A verdade incontestável é que os responsáveis que se sucederam no comando do Ministério  não conseguiram mudar a cara e a estrutura da política governamental do esporte. Na prática, pode-se afirmar que quase nada fizeram para popularizar e enraizar as atividades no tecido social, principalmente, incentivando os esportes nas escolas e comunidades que seria a forma mais simples e prática de desenvolvimento do que é salutar para um país. E, como é de se esperar, sem apoio, somente vicejam um ou outro talento por esforço próprio ou os esportes que se fortalecem como espaço mercantil, o “sportbusiness”.
É evidente que sem centros esportivos, sem a inclusão dos esportes nas escolas e comunidades, sem a formação de atletas, sem políticas públicas, o que se pode esperar é o resultado que se observa, agora, nas atuais olimpíadas. Somente com a generalização da prática esportiva, que representa melhoria das condições de vida para a maioria da população, derivada da democratização do acesso à prática esportiva, poderemos ser, efetivamente, uma potência nas olimpíadas. O vácuo da ausência de uma política pública, que resulta em alternativas individualistas e privatizantes da prática esportiva, torna o nosso esporte uma mercadoria cara e inacessível para a população pobre, daí, que se nada for feito para serem mudadas as nossas práticas, continuaremos a ter os mesmos pobres resultados nas próximas olimpíadas e teremos que assistir, em casa, a repetição dos fracassos atuais.

domingo, julho 22, 2012

Sinais econômicos de mudanças políticas



O Brasil, depois da redemocratização nos anos 80, experimentou o surgimento de uma redefinição dos papéis dos setores públicos e privados que resultou na consolidação de uma esfera autônoma da sociedade civil,na medida em que nosso país havia sido, mesmo durante todo o processo de modernização efetuado pelos militares, uma sociedade patriarcal e oligárquica que se destacava pelo sufocamento do setor privado sempre sujeito aos ditames do governante de plantão. A sociedade brasileira, mesmo com todos os avanços, jamais deixou de ser, efetivamente, uma sociedade mais estatal que de mercado porque o governo tentava controlar e ditar o que se deveria e como se deveria construir o desenvolvimento. No centro de tudo a falta de construção do que costumamos chamar de cidadania. Desenvolver, em seus termos finais, é construir a cidadania, permitir que os cidadãos possam ter as mesmas oportunidades, certeza de horizontes e justiça social.
Mas, somente com liberdade política e econômica é possível construir cidadãos. Minhas objeções aos programas assistencialistas não são porque não sejam necessários, mas, sim que devem ser meios de melhoria da vida e não fim ou solução para os que deles necessitam. E não posso deixar de confessar que, ao contrário do passado quando possuía uma crença no estado como agente de solução social, hoje, mantenho uma enorme margem de desconfiança de quem o prega como caminho de melhoria de vida. Afinal, quem defende sempre está empoleirado no poder e o poder, como bem sabe quem já se aproximou dele, não costuma ter preocupações que não sejam o da sua manutenção, seja das pessoas seja de partidos.
A história brasileira moderna, da construção de uma cidadania maior, de fato, não surgiu do estado, mas, da contestação ao estado, da criação de novos espaços e formas de participação e relacionamento com o poder público que foram construídos por demandas e lutas de resistência da população e de movimentos sociais que deixaram claro sua capacidade de auto-organizar-se e de lutar por seus direitos. Em parte a apatia política em que vivemos provém do desmanche que Lula da Silva realizou dessa agitação antigovernista expressa em greves e demandas públicas, ao cooptar os movimentos populares e sindicatos, e sedá-los com benesses e cargos públicos, despolitizando os setores mais reivindicativos e impedindo que houvesse um processo de crescimento dessas esferas. Hoje, o PT paga o preço de ter se descaracterizado, de empobrecer depois de ter sido o único partido que chegou a criar capilaridades sociais e as jogou fora pela manutenção do poder no curto prazo.
Como resultado da estagnação do processo político, o Brasil vive à míngua de novas ideias. A política, infelizmente com a ajuda da imprensa na sua grande parte, é gerida pelos balcões de negócios. Sem as reformas políticas, das relações de trabalho e tributária, cuja oportunidade de fazer é sempre protelada por medidas pontuais, nós estamos nos desindustrializando e ficando sem competitividade, sem futuro mesmo. Anunciam-se pacotes disto, daquilo e daquilo outro, mas, não se muda o rumo, não se tem a coragem de fazer o que deve ser feito. E empurrando com a barriga somente vamos de eleição em eleição vendendo a ilusão de que tudo está bem. Mas, como tudo tem limite, empurrar com a barriga é uma forma de agravar os problemas até que a insatisfação volte a empurrar a população contra o governo. E isto, por ironia, parece que irá acontecer não por meio da política, que dorme em berço esplendido, mas, pelos sintomas econômicos que se refletem nas greves, no endividamento e na queda do consumo. Fazendo mais do mesmo, como tem sido feito, as coisas tenderão a piorar. Não há refeição grátis, como sabem todos que precisam ganhar o pão de cada dia.

segunda-feira, julho 16, 2012

O descaso com a Hidrovia do Madeira



O agronegócio brasileiro é, sem a menor sombra de dúvida, um dos setores mais modernos e competitivos do país. E não é o mais, como todos sabem, pelos problemas derivados dos gargalos do transporte. Em especial é o agronegócio localizado no Centro-Oeste e no Norte do Brasil, com ênfase na Amazônia, quem mais paga pela falta de investimentos no setor.  Em Rondônia há, por exemplo, o caso mais emblemático de descaso com os transportes na medida em que todas as formas de transporte sofrem com a falta de atenção do Governo Federal. Se olharmos para o transporte aéreo, o Aeroporto Internacional Jorge Teixeira de Oliveira espera a quase uma década por deixar de ser internacional só nome e ser de fato local de voos para outros países. Em termos de transporte rodoviário é a BR-364, único elo de ligação entre a Amazônia Ocidental e o Sudeste, é palco de inúmeros acidentes por culpa das más condições de seu asfalto e, por fim, há o completo descaso que experimenta a Hidrovia do Madeira.
Recentemente, em reunião em que se discutia no Distrito Federal, num encontro promovido pela Agência Nacional de Águas (ANA) os problemas que o rio Madeira experimenta em consequencia das mudanças advindas das hidroelétricas do Complexo do Madeira, o presidente do Sindicato dos Empresários de Transporte Fluvial-Sindfluvial, Raimundo Holanda, um dos maiores conhecedores dos problemas do setor, disse com todas as letras que "não existe hidrovia" e que o "Madeira é um rio abandonado" justificando que faltam todos os requisitos que se exige de uma hidrovia ao Madeira na medida em que "uma hidrovia tem que ser balizada, sinalizada, dragada, para que se possa navegar diuturnamente". Segundo Holanda, no Madeira só é possível navegar "empiricamente" com a ajuda do caboclo que conhece a região. E esclareceu que a situação, hoje em dia, é muito pior, o risco muito maior, em face de que o Consórcio da UHE Santo Antônio "não informa o que vai acontecer, qual a previsão de enchimento ou esvaziamento do reservatório" aumentando dramaticamente os riscos da navegação. Há, por parte do pessoal da usina, segundo o próprio Holanda e todos os que se sentem prejudicados com a barragem, um distanciamento que se consolida pela imposição de um discurso técnico em que explicam que foram feitos todos os estudos e tomadas todas as providências. É tudo muito impessoal e bonito, mas, isto não impede que, na pratica, existam os desbarrancamentos que infernizam a vida de Porto Velho, Calama, Nazaré e outras margens dos rio nem os fortes banzeiros que arrastam arvores, modificam a topografia e colocam as embarcações em risco.
É impressionante o descaso das autoridades com um rio que, já há mais de dois séculos atrás, O Marquês de Pombal identificou como um elo de ligação entre o Atlântico e o Pacífico, mas, que, agora, mesmo já é responsável pelo transporte de 4 milhões de toneladas de soja e mais 3 bilhões de litros de combustíveis. São transportados pelo Madeira, estima-se, 400 mil carretas/ano. Aliás, o próprio Holanda explica que os derivados de petróleo provenientes de Manaus para Porto Velho custam, em média, R$ 60,00 o m3. Caso tivessem que vir de São Paulo teriam um custo de frete equivalente à R$ 380,00. Ou seja, apenas a diferença de frente, em torno de R$ 1 bilhão de reais/ano, já seria suficiente para justificar os investimentos na Hidrovia do Madeira. No entanto, apesar de sua grandeza e importância a Hidrovia do Madeira é uma prova do enorme descaso do governo com os problemas da Amazônia e do setor de transportes.

terça-feira, junho 26, 2012

O radicalismo verde é um atraso



Parece, apesar dos resultados pífios da Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável, a Rio+20 que o bom senso e o pensamento, de fato, científico voltaram a imperar, apesar do desagrado dos radicais "verdes" com o documento final da conferência. Em especial saí bastante abalado um dos principais pilares da estratégia ambientalista, que é o enfoque alarmista sobre as mudanças climáticas, em especial o sensacionalismo sobre o aquecimento global e os efeitos do carbono sobre a atmosfera.
Sobressaíram-se, e a falta de contestação demonstra a incapacidade de defender o contrário, as posições contestatórias da visão prevalecente sobre a suposta responsabilidade das ações humanas nas mudanças climáticas das últimas décadas. Na mídia, em especial na Rede Globo de Televisão, as notícias sobre temas climáticos eram, invariavelmente, comentadas por um pequeno grupo de cientistas e especialistas ligados ao Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) e defensores da agenda do aquecimento global antropogênico (AGA). No entanto, a situação começou a mudar no dia 3 de maio último, com a entrevista do climatologista Ricardo Augusto Felício, do Departamento de Geografia da Universidade de São Paulo (USP), no programa do Jô Soares, que despertou um grande interesse nas posições contestatórias ao cenário "aquecimentista", tendo Felício passado a ser solicitado para diversas entrevistas e palestras. Logo depois  um grupo de cientistas brasileiros fez uma carta aberta à presidente Dilma Rousseff, denominada de "Mudanças climáticas: hora de se recobrar o bom senso", enfatizando a inexistência de evidências físicas da influência humana no clima global, bem como sugerindo uma mudança de rumo nas políticas relativas ao tema. Entre os 18 signatários da carta estavam o próprio Felício, o geólogo Kenitiro Suguio, professor emérito da Universidade de São Paulo (USP), os físicos Luiz Carlos Molion, da Universidade Federal de Alagoas, e Fernando de Mello Gomide, professor titular aposentado do Instituto Tecnológico da Aeronáutica (ITA), o geólogo Geraldo Luís Lino, do conselho editorial do Alerta Científico e Ambiental, entre outros, e a carta recebeu os endossos de várias federações da agricultura e pecuária dos estados e ganhou tradução, em espanhol, da Fundación Argentina de Ecología Científica (FAEC), organização que se destaca por denunciar os excessos ambientalistas. No Canal Livre da Rede Bandeirantes também o físico Luiz Carlos Molion demonstrou, com excepcional brilho, que a tese de aquecimento antropogênico não se sustenta depois da mesma rede já ter exibido uma série de reportagens sobre a contestação ao alarmismo climático, que foi exibida no Jornal da Band, com o sugestivo título "Aquecimento global: uma dúvida conveniente", inspirado no documentário protagonizado pelo ex-vice-presidente estadunidense Al Gore. Porém, nada foi tão contundente quanto o climatologista estadunidense Richard Lindzen, do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), ter tido uma entrevista de página inteira, no caderno especial sobre a Rio+20, usando como chamada uma afirmativa do cientista de que "O movimento ambiental é imoral". Na entrevista, Lindzen critica duramente a agenda ambientalista e desqualifica vários dos argumentos habituais do movimento, ao qual acusa de pretender impedir o crescimento populacional e o desenvolvimento dos países pobres. A sua conclusão é contundente: "Precisamos esquecer o clima e nos focar nos problemas reais da Humanidade, como eliminar a malária ou garantir o acesso de todos à água limpa. Tudo isso custaria muito pouco e pode ter um grande efeito na qualidade de vida das pessoas. Combater as mudanças climáticas está tirando recursos que seriam mais bem usados em outras questões mais importantes." É a pura realidade. O radicalismo verde não ajuda em nada. Só atrapalha.

domingo, junho 03, 2012

MARCANDO PASSO



Há uma lenda urbana, muito ajudada pela crise da economia mundial de 2008, de que o Brasil se tornou mais importante e vai bem pela forma como suportou os efeitos da crise internacional em meio à piora das outras nações e que o país estaria numa espécie de lua de mel com o mercado internacional. Ora, costuma-se dizer que dinheiro não tem pai, nem mãe, nem pudor: vai para onde pode ter maior retorno e, no nosso caso, com as altas taxas de juros, talvez, as maiores do mundo, não é de supor que haja muito problema do capital especulativo vir buscar seus ricos dividendos por aqui. Urge acentuar que o que se comemora como melhora, a queda do risco Brasil, é, na verdade, a sinalização de que se pode vir sem receio buscar os maiores juros sem impostos no nosso mercado.
Temos estabilidade? Temos sim. Mas, esta estabilidade que significa, na prática, apenas que pagamos regularmente os juros da enorme e crescente dívida brasileira, não será capaz de nos garantir um futuro promissor sem as reformas reclamadas imemorialmente e sem atacar os problemas eternos da educação, das deficiências na área de infraestrutura, que continuam a engolir a nossa produtividade e competitividade, bem como o peso insustentável de um sistema tributário arcaico e complexo, que ajuda a inflar o chamado custo Brasil. Contra o otimismo governamental,que empurra com a barriga os problemas, se assiste a um processo gradativo de desindustrialização e a repetição do denominado “voo de galinha” que é a monótona repetição de um ou dois anos de crescimento alto, seguido de medidas de repressão contra inflação na medida em que não existe nem capacidade produtiva, ne  investimentos para se construir uma sustentabilidade de longo prazo.
Agora mesmo assistimos as previsões de crescimento para 2012 caindo rapidamente e crescendo o número de analistas que preveem um avanço para o Produto Interno Bruto (PIB) igual ou até mesmo inferior aos 2,7% registrados no ano passado. O resultado do PIB, divulgado na última sexta-feira pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), demonstra que o país praticamente parou no primeiro trimestre deste ano, com um crescimento de apenas 0,2% em relação aos três últimos meses de 2011 e de 0,8% em relação ao mesmo período do ano passado. Foi o pior desempenho entre os países dos Brics e isto irá se repetir se não houver uma política para que tenhamos os necessários ganhos de produtividade, poupança e investimento para dar um novo impulso à economia brasileira.
Ninguém contesta que seja correto o governo tomar medidas para incentivar o mercado interno, mas, não faz seu dever de casa, como ocorre na China com a redução dos gastos públicos que possibilite aumentar seus investimentos. Ao contrário da China, com uma situação fiscal mais equacionada, o Brasil tem gastos elevados que limitam o seu aumento de investimentos e inibe maiores desonerações. Com carga tributária elevada, problemas de infraestrutura e burocracia, além da baixa taxa de investimento e sem fazer as melhorias devidas nas são áreas de educação, saúde, produtividade e ambiente de negócios, todo o otimismo que alimentamos será vão. Enquanto nossos dirigentes vivem se gabando de que estamos melhor que os outros continuaremos marcando passo. Não existe omelete sem quebrar os ovos.

segunda-feira, abril 30, 2012

Primeiro é preciso fazer o dever de casa



A Ata da 166.ª reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) demonstra que o governo tem uma visão otimista da economia na medida em que sinaliza que o processo de redução da taxa básica de juro (Selic) não acabou, todavia, o sujeita, como é natural, à evolução da economia internacional e nacional. Fica claro que, para o governo, mesmo com o ambiente internacional continuando preocupante, a situação é boa na medida em que cria um ambiente de contenção dos preços e permite ao Brasil captar recursos externos em melhores condições, embora o Copom não toque na questão de que isto se faz por meio das importações e em detrimento da indústria nacional.
Há uma crença no voluntarismo quando as autoridades creem que a demanda interna poderá melhorar por meio das medidas tomadas para dinamizar a indústria e diminuir o custo dos juros, bem como, pontualmente, se ter desonerado certos ramos industriais. Não se toca, na ata, no entanto, na questão central do aumento da carga tributária nem na má distribuição e no corte dos gastos com os investimentos. É verdade que não faz parte da atribuição da autoridade monetária tratar de tais problemas, mas, ao exaltar a atual política fiscal se procura, de fato, acentuar que as perspectivas para a inflação são boas e se neglicencia os efeitos de uma desvalorização do real e da possibilidade concreta de um aumento dos derivados do petróleo mudar completamente o panorama. A questão é que o governo alardeia o lado positivo do que faz sem levar em conta que somente mudando a competitividade (impossível de se obter sem mudanças substanciais) não se ataca os problemas que conservam a economia nacional num puxa e encolhe, num sobe e desce.
Neste sentido nem adianta discutir os limites da redução da taxa Selic no contexto atual, que, para muitos, seria de 8,75%. O problema é que, mesmo com os significativos cortes, e com a agressiva postura do governo de fazer com que o Banco do Brasil e a Caixa Econômica cortem seus juros (ainda de forma tímida), mesmo com as finanças públicas em ordem, o financiamento do déficit público exige uma elevação constante da carga tributária, que figura entre uma das mais fortes causas da falta de competitividade da economia brasileira. A ofensiva do governo por melhorar o custo e o nível do crédito tem, por tal motivo, tido pouco efeito porque na raiz dos problemas está o fato de que o governo tem políticas contraditórias, a incapacidade crônica de fazer o que deve ser feito e uma dívida interna elevada que demonstra que, para poder cobrar dos outros, é preciso, primeiro, fazer o dever de casa. E fazer o dever de casa é melhorar o gasto público e, gradativamente, se livrar de ser um eterno devedor.

sexta-feira, abril 06, 2012

Sem nada de novo no horizonte


Li um artigo do deputado José Aníbal, cujas boas intenções e o desejo de ver um país melhor me parecem incontestáveis, com o nome de “O fim da política sem sonho” em que louva o fato do PSDB ser um partido “que tem uma história de bons serviços prestados ao Brasil” e, que, por tal razão, precisava se renovar, daí, as prévias para a prefeitura de São Paulo, que, segundo ele, estabeleceu a representatividade partidária como critério para definir o candidato e, como resultado, foi um sucesso para rejuvesnecer o partido. O deputado, considera com razão, que nunca existiram tantos partidos e tão governistas, mas, a meu ver, erra feio quando afirma que, com as prévias, o seu partido voltou a fazer política.
Infelizmente não é verdade. Se há um partido que fez e faz política este, podem dizer o que quiserem, mas, é preciso reconhecer sua capacidade, é o Partido dos Trabalhadores, o PT. E faz política por ter conseguido se incrustar nas bases ao ponto de ter feito- como fez nos últimos anos- uma completa despolitização da política. A grande realidade é que, sob a batuta de Lula da Silva, o PT foi se infiltrando, utilizando com maestria a filosofia gramsciana da influência intelectual, em todas as organizações sociais, em especial nos sindicatos de trabalhadores, de tal forma que, quando Fernando Henrique era governo, teve que enfrentar, em condições externas adversas, uma enxurrada de greves e manifestações que chegaram ao ponto de pedir seu afastamento. Onde essas combativas organizações estão durante os mandatos petistas? A resposta é fácil de ser dada. Basta verificar quem ocupa postos significativos e rentáveis de governo, quem são as organizações que abocanham verbas públicas quase sem controle, nem cobrança de resultados. O PT que mobilizou as bases com promessas de mudanças é o mesmo que, no governo, as desmobilizou com os recursos públicos cooptando suas lideranças, daí, a enorme despolitização. As representações sociais, incluindo aí as grandes e tradicionais, perderam todo e qualquer compromisso com suas bases.
É neste contexto que qualquer partido, para fazer política, de fato, precisa mudar seu comportamento e acabar com o caciquismo e com a imobilidade. Neste sentido fazer as prévias é um fato novo, realmente, num partido como o PSDB onde a cúpula decidia sem ouvir as bases. Porém, somente isto não basta. É indispensável que os partidos passem a estudar a realidade, contestem os dados e o marketing político do governo. É indispensável que passem a vocalizar as aspirações populares. Deixem de ser o instrumento de políticos para ser o instrumento da política, ou seja, passem a formar lideranças, a discutir problemas locais e nacionais, a se insurgir contra um governo que, supostamente, construiu um país novo. Novo em que? Na dívida pública imensa, no endividamento em massa, na desindustrialização progressiva? No pagamento insuportável de juros? Na maior carga de impostos do Ocidente? Fazer política é desmanchar o conto de fadas de que estamos no melhor dos mundos possíveis. E, mesmo o PSD, que se construiu e pretende ser uma alternativa nova, ainda não deu um passo na direção de se postar como alternativa. Política com sonho é propor uma alternativa viável ao que aí está. E a sonolência e a preguiça com que os partidos se movem só faz bem ao PT. Que me desculpe o deputado José Aníbal, mas, não há nada de novo no horizonte.

domingo, março 25, 2012

O Público e o Privado


Só o subdesenvolvimento ainda permite que se fale e se discuta a morte do socialismo, que se provou não utópico, mas, impraticável. Quem é de esquerda, no mundo atual, não luta por socialismo mais e sim por melhor distribuição de renda, por educação e por inclusão social. Por sinal, recentemente, David Rothkopf, o executivo-chefe e editor-geral da revista “Foreign Policy”, lançou um livro, intitulado “Power, Inc.”, sobre a rivalidade entre as grandes empresas e o governo, no qual aborda qual será o futuro do “capitalismo” e a forma que ele terá nos Estados Unidos ou em qualquer outro país. Com perspicácia argumenta que, enquanto na maior parte do século XX a grande disputa no mundo foi entre o capitalismo e o comunismo, com a vitória do capitalismo, a grande disputa no século XXI será sobre qual versão do capitalismo vencerá, qual será a mais eficiente para gerar crescimento e se tornar o tipo de capitalismo mais imitado.
No livro pergunta se “Será o capitalismo de Pequim, com características chinesas?” ou “Será o capitalismo do desenvolvimento democrático da Índia e do Brasil? Será o capitalismo empreendedor do estado pequeno de Cingapura ou Israel? Será o capitalismo europeu com rede de segurança? Ou será o capitalismo norte-americano?”. Mas, ele mesmo, se indaga se o capitalismo norte-americano hoje é sustentável e se permitirá que a grande nação prospere no século XXI. De certa forma Rothkopf põe em dúvida um aspecto vitorioso do capitalismo norte-americano que os outros tentaram imitar: o sucesso dos Estados Unidos em conseguir equilibrar, de forma saudável, o público e o privado. Lá, como pode bem se observar, o governo fornece, com competência, as instituições, leis, redes de segurança, educação, pesquisa e infraestrutura para fazer com que o setor privado inove, invista e assumindo os riscos, promova o crescimento e os empregos de uma forma democrática e competitiva.
Muitas pessoas não percebem, mas, este é um aspecto dos mais difíceis para se manter um equilíbrio adequado. No Brasil é evidente que há uma distorção- que já foi muito maior- do poder público, que interfere demasiado na vida privada, e promove, até hoje, um verdadeiro saque dos recursos da sociedade, via impostos, com uma péssima prestação de serviços. E a verdade é que, quando o setor público oprime o privado, além de promover uma regulação asfixiante, na prática, engessa o crescimento por meio da dívida pública e pela disputa do mercado que deixa de ser feita pela competitividade e passa a ser feita via política gerando os problemas de todos nós conhecidos, diagnosticados e jamais resolvidos. Os Estados Unidos, porém, sofreram, recentemente, do fenômeno oposto, a falta de regulação, a crise dos subprime de 2008, que foi um sintoma de que o setor privado invadiu o público e a regulação adequada deixou de ser feita. O bom, nos Estados Unidos, é que quando os erros são detectados, se pune e a opinião pública pesa para consertar as coisas. Mesmo assim se sabe que existem muitos problemas entre o ideal e a realidade.
O certo, no entanto, é que o capitalismo pode, ou não, ser compatível com uma boa distribuição de renda e com qualidade de vida. Em parte isto depende de um bom equilíbrio entre o público e o privado, da educação da população e da liberdade de imprensa. Os EUA provam que o capitalismo funciona melhor quando há este equilíbrio. Por tal razão precisamos, no Brasil, buscá-lo e jogar para a lata de lixo o caricatural debate entre governo e mercado (socialismo ou capitalismo) que é um debate para lá de ultrapassado. Quem o usa pode saber muito de poder, mas, esqueceu o que é história e conhecimento.

Ilustração: http://monolitho.labin.pro.br/?attachment_id=7516

segunda-feira, março 12, 2012

O pensamento sem progresso


Devo dizer que não me sinto velho, embora os sinais da velhice sejam evidentes nos cabelos brancos, muitas vezes, na falta de forças e ainda, outras vezes, em algumas novas dores que sempre acompanham a idade. Fora isto, vou muito bem obrigado e, posso dizer, sem susto, que não me arrependo de muitas coisas, embora, vez por outra, um remorso irremediável me venha não de pecados ou prazeres, mas, do que não fiz, do que não ousei e da pessoa que poderia ter sido, talvez, melhor. Dói em mim mais as palavras de amor que não disse e até mesmo o amante melhor, o pai, a pessoa mais capaz que deveria ter sido. Mas, o que não fui, hoje, é tempo perdido. De qualquer forma creio, com um pensamento com um viés tipicamente induísta, que avancei na lenta estrada da matéria. Talvez seja um julgamento benevolente, mas, me consolo pensando que somos todos benevolentes conosco mesmos.
Apesar deste tom intimista, na verdade, minha intenção é outra. Embora mesmo não me julgando um grande pensador sempre procurei refletir. E fico sempre pasmo como o pensamento brasileiro pouco, muito pouco, avançou dos anos verdes de minha vida até agora. Ainda vivemos, e mesmo à força me incluo, entre maniqueísmos tolos, como esquerda/direita, puros e corruptos, inocentes e pecadores, ateus e cristãos, enfim, no círculo tolo dos antagonismos superficiais. Enfim, o nosso pensamento continua subdesenvolvido. É sempre a expressão da ideologia do momento, uma pobre subcultura de outros pensadores. E não me espanto mais porque na nossa universidade ( eu que confesso, como todo jovem, já fui um marxista) há somente o grande e eterno pensamento único de um marxismo vulgar, e cheirando a mofo, que se difunde, de forma subreptícia, pela imprensa. Não importa que Stalin tenha feito o que fez, que Mao não tenha sido aquele velhinho manso que aparentava, nem que Fidel seja uma imensa múmia que embalsama o futuro de Cuba, nem que os muros de Berlim tenham caído ou que não existam mais pilares na arquitetura intelectual de Marx: a culpa de tudo é do capitalismo. Mesmo que o capitalismo, hoje, possa ser qualquer coisa. E quem fala sobre ele, na maioria das vezes, não sabe o que é, nem conhece o mínimo sobre suas bases econômicas. E com o mundo multifacetado atual nunca compreenderão.
A realidade é tão complexa que, ao tirar das pessoas a possibilidade de entender o mundo, de refletir, de buscar a experiência e o conhecimento, como medida das coisas, estas se encolhem na ideologia que não oferece meios de aferição, mas, juízos de valor a partir de seu quadro limitado. Muitos jovens, hoje, apesar do pouco saber, do pouco estudar, ao contrário do passado no qual se respeitava a experiência, estão repletos de respostas obtidas por um sistema pronto e acabado na cabeça deles. E aí de quem não aceita suas ideias na medida, é claro, em que elas são o supra-sumo do saber. Interessante é que nem mesmo enxergam, na sua cegueira completa, o quanto de totalitarismo embutem nesta forma de ver o mundo e as pessoas. Na cabeça de muitos deles tudo é política. Tudo deve se subordinar a ideia que possuem de que são os libertadores, os arautos de uma nova ordem que, para nós, mais velhos, não passa de uma mera repetição de slogans batidos do século passado, onde estes novos encantadores de serpentes tentam tocar, com uma flauta nova, a velha música, como se fosse a redenção dos ouvidos modernos. A pobreza é tão grande que até mesmo quem faz arte é vilipendiado por não fazer uma arte engajada. Para alguns deles a questão é que a bela voz do Gilson ou do Catê, os versos bonitos de um Bolívar Marcelino ou os quadros de Zogbhi ou de Rita Queiroz ou o som do bandolim de Lito Casara não importam como arte, exceto se os artistas lutarem contra o capitalismo, se forem contra as usinas do Madeira ou contra o desmatamento da floresta. Não há dúvida que devem ter razão e, pensando desta forma, é que nós tivemos todos os gênios russos e cubanos que as revoluções comunistas geraram e ninguém, até hoje, sabe quem são. A arte só em ser arte já é libertadora. E toda arte subordinada à política é puro lixo.

Ilustração
: cocacolaquente.blogspot.com

sexta-feira, janeiro 20, 2012

O Abandono das hidrovias


Uma matéria do Valor Econômico, de 13 de janeiro último, mostra que as metas de investimentos em hidrovias, anunciadas pelo governo federal para o ano passado não foram alcançadas e que tudo o que estava previsto, cerca de R$ 2,7 bilhões em investimentos em projetos como a hidrovia do rio Madeira e a expansão da hidrovia do Tocantins, permanecem no papel. O Ministério do Transportes em resposta as perguntas do jornal evitou falar em abandono do programa e garantiu que as 22 obras previstas estão em execução, enquanto outras 80 se encontram em "ações preparatórias". Infelizmente, e os problemas de navegação no rio Madeira atestam, não há explicações para a demora na execução de obras estruturais que impedem que se utilize o enorme potencial deste modal de transporte.
O próprio superintendente de Navegação Interior da Antaq, Adalberto Tokarski, atestou a inoperância da execução do que estava previsto, ao afirmar que "Não houve avanço no Madeira e as pessoas da região estão preocupadas, por causa do assoreamento. Essa é uma obra estratégica para o setor". Para ele, se o governo tivesse feito as ações anunciadas, teria expandido a capacidade da hidrovia do Madeira, dos atuais 8 milhões de toneladas anuais, para um potencial de 20 milhões de toneladas. E o potencial, diga-se de passagem, seria muito maior se feita a construção de eclusas nas barragens das usinas hidrelétricas de Jirau e Santo Antônio, que estão sendo construídas no rio Madeira e, seguindo, a tradição nacional de descaso com a navegação fluvial, a construção simultânea das eclusas não está sendo executada, como recomenda a racionalidade econômica.
O que se vê, realmente, é o descaso com o modal hidroviário que têm afetado, inclusive, projetos concluídos, que têm sido subaproveitados, sem os investimentos necessários para solucionar problemas que impedem a sua plena utilização. É o caso exemplar das eclusas da hidrelétrica de Tucuruí, no rio Tocantins, inauguradas em 2010, que utilizam apenas 1% do seu potencial. O problema se deve ao chamado Pedral do Lourenço, um conjunto de rochas que aflora no rio e prejudica a navegação. Com isto, o potencial de transporte de cargas na hidrovia, de 70 milhões de toneladas anuais, fica reduzido a pouco mais de um milhão de toneladas. As obras para a remoção das pedras, orçadas em R$ 500 milhões, já figuraram no PAC, mas, sem que ninguém explique a razão, foram excluídas. Similar é o fato de que não foi realizada a dragagem, sinalização e balizamento ao longo de 1.115 km de extensão do rio Madeira.
Enquanto não se realizam as necessidades mais evidentes o governo faz propaganda e anuncia o plano hidroviário, na segunda etapa do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC2), que foi elaborado pelo Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT) e a Agência Nacional de Transportes Aquaviários (Antaq) e o lançamento de licitações, pelo DNIT, para contratar estudos de viabilidade técnica, econômica e ambiental de várias hidrovias potenciais, mas, que pelas previsões, a expectativa é de que os estudos sejam concluídos em até dois anos.
O que fica patente é que, por mais que o discurso seja outro, a inércia e o descaso continuam a perpetuar o abandono histórico do aproveitamento hidroviário da enorme bacia hidrográfica nacional (a terceira do mundo em extensão) o que, juntamente, com a falta de investimentos em ferrovias, terminam por manter a nossa matriz de transporte dependente das rodovias, o que encarece, em muito, o custo do transporte do país.

domingo, janeiro 15, 2012

O sucesso da campanha anti-amazônica


A revista Veja, patrocinou uma pesquisa internacional sobre a imagem do Brasil no exterior cujo resultado mais significativo é o de revelar a eficiência do lobby de mais de duas décadas do movimento ambientalista-indigenista, para submeter o País, e a Amazônia em particular, como alvos prioritário de uma agenda antidesenvolvimentista, que, em particular, visa, a qualquer custo, manter a Amazônia no estado mais "natural" possível. O sucesso deste tipo de campanha é visível quando se observa que, num contexto em que o País obteve resultados positivos, mais da metade dos entrevistados considerou que a importância ambiental global da Floresta Amazônica justifica restrições à soberania brasileira sobre a região. A pesquisa foi efetuada pela CNT/Sensus em 18 países (Argentina, Brasil, Chile, Colômbia, México, EUA, Portugal, Espanha, França, Itália, Inglaterra, Alemanha, Rússia, China, Japão, Índia, Líbano e África do Sul), com 7.200 pessoas entrevistadas.
Quando se toca na Amazônia, a reportagem utiliza a expressão "a floresta da mãe joana" para apresentar os resultados de alguns países individuais - no caso, EUA, França, Alemanha, Rússia, Japão e África do Sul. E destaca que a combinação das respostas "O Brasil deve preservar a floresta de acordo com regras internacionais" e "A floresta deve ser internacionalizada" superou a combinação "Quem cuida da floresta é o Brasil" e "O Brasil deve preservar a floresta de acordo com as regras do país", na França (77% x 23%), Alemanha (74% x 22%) e Japão (77% x 19%); nos EUA, deu empate técnico (44% x 43%). Ou seja, apesar do Brasil ter uma das legislações mais avançadas do mundo no setor, de ser o país com o maior número relativo, e absoluto, de reservas ambientais e indígenas, tudo se submete as teses esdrúxulas, porém, eficientes do discurso ambientalista.
O texto ressalta que a ideia da "internacionalização" da Amazônia como "um equívoco tamanho gigante" e um "delírio", porém, na prática, a realidade é outra. É patente a enorme submissão das políticas da Amazônia aos ditames do lobby ambientalista. Nas ultimas décadas os movimentos ambientalista e indigenista internacionais tomaram de assalto a formulação das políticas públicas nacionais referentes à região e, internamente, já conseguiram impor uma considerável redução de soberania, para a qual os brasileiros ainda não despertaram. Sufocados pelo discurso das mudanças climáticas e do elevado desmatamento o sucesso da “internacionalização” foi obtido com a cumplicidade passiva dos sucessivos governos brasileiros desde a presidência de José Sarney, em especial, com o apoio do Itamaraty, que tem tido grande influência na acomodação do País às pressões internacionais nestas áreas. Assim, o que se vê, é que quem menos tem importância nas políticas da Amazônia são seus governantes e sua população submetida a políticas meramente restritivas e sem horizontes de melhoria para sua qualidade de vida.
Por conseguinte, a "internacionalização" da Amazônia não é uma perspectiva futura, nem necessita de uma eventual decretação da região como área sob jurisdição das Nações Unidas ou de uma invasão militar clássica; ela é um fato real, cotidiano e presente, na aceitação das demandas e na submissão às pressões ambientalistas e indigenistas, tanto por formuladores de políticas, como por formadores de opinião e outros setores da sociedade brasileira. Se for preciso demonstrar basta verificar o estrago feito em Roraima, contra o seu governo, bancada federal do estado e população, que foram esmagados para se determinar a demarcação em área contínua da reserva indígena Raposa Serra do Sol, em 2005. Agora mesmo se assiste a algo semelhante quando, numa demanda absurda, se propõe o aumento da área dos Karitianas, nos municípios de Porto Velho, capital de Rondônia, e Candeias do Jamari, para atender 400 índios que, além de aculturados, a maioria nem vive na reserva, inclusive os únicos dois caciques que apóiam a proposição. Para quê? Para somente satisfazer as demandas internacionais que pretendem impedir, a todo custo, que a Amazônia tenha soberania e autodeterminação.

quarta-feira, janeiro 11, 2012

Vargas Lhosa e as ilusões atuais


Acabei de ler o excelente livro de Ricardo Setti “Conversas com Vargas Lhosa-Antes e Depois do Nobel” em que o romancista peruano Mario Vargas Llosa, de 75 anos, que concorreu à presidência de seu país em 1990 e ganhou o Nobel de Literatura, é entrevistado sobre política, literatura, sobre o ofício de escritor e sua própria, e rica, experiência e carreira. Falar sobre Vargas Lhosa é chover no molhado. Figura humana notável, escritor profícuo e de clássicos como “Conversa na Catedral” ou “Pantaleão e as Visitadoras”, entre outros, não precisa ser louvado e sim lido, que é a forma real de reconhecer seu trabalho e talento. Vargas, porém, nas suas entrevistas a Setti, toca em questões que são cada vez mais atuais como é o caso da dificuldade de se cultivar a democracia, de se ter coerência, de se ter um comportamento, de fato, de pessoa humana e responsável na América Latina onde, constata, as ideologias, as visões distorcidas, pesam mais do que a realidade. Vargas, que desejava apenas ajudar seu país, mostra que pagou um preço elevado, mesmo com toda notoriedade que possui, por sua retidão, por pensar, refletir e ter idéias. A política, infelizmente, é feita pelo poder pelo poder, pela mediocridade, portanto, é a lógica do imediatismo, a desconsideração pelo outro e, muitas vezes, sua demonização.
Mais do que nunca, as nossas sociedades, na América do Sul, contaminadas de um marxismo oco, maniqueísta, que infestou os intelectuais preguiçosos, junto com a politicagem de oportunismo e resultados, tem nos levado a comportamentos irracionais, como a tentativa de setores sociais de tentar, por meio de leis e regulações, nos impor a igualdade e a cidadania o que resulta em equívocos como, por exemplo, de não permitir que os jovens de menos de dezoito anos trabalhem, embora, ao mesmo tempo, sejam bombardeados por propagandas que incitam ao consumo e exigem dinheiro. Como não dá certo pretendem regular também a publicidade e a mídia. É um grande engano pensar que se pode domar o homem e a sociedade retirando seu livre arbítrio, seu poder de decisão. È preciso ensiná-lo a pensar e não deixar que outros decidam, pois, alguém decide, ao fazer leis ou aplicar regulamentos, o que se pode, ou não, fazer.
Vargas, com razão, nos mostra que a democracia é uma flor frágil que depende da capacidade que temos de lutar por liberdade política e de opinião. Precisamos não apenas fornecer direitos e não dar, principalmente aos jovens, a sensação de que tudo lhes é devido. É esta política insana de criar facilidades, em nome do povo, que faz com que se pense que é factível ter direitos sem ter responsabilidades, que faz com que os jovens se casem e se descasem, porque esperam que o outro seja uma fonte de prazer permanente; que não se permite dar uma palmada no filho, sob pena de ter problemas, e não se pune o filho que, sob este argumento, chantageia os pais ou os menores infratores que dizem, sem o menor pudor, que não podem ser presos. Vargas nos lembra que, para criarmos uma sociedade que não seja apática, que não seja, como os animais, interessada apenas em comer, fazer sexo e dormir, é indispensável que se ensine que não há almoço grátis, que não é possível bem-estar sem determinação, sem trabalho árduo e sem perseverança. Não adianta ser a sexta economia do mundo sem uma ordem social coerente, sem uma sinalização de que para ser cidadão é preciso fazer escolhas conscientes e estas não virão de pessoas que não fizerem esforços, que não tiverem escolaridade, cultura e respeito pelas leis.

Foto: Coluna de Augusto Nunes/Veja/Editora Abril

sexta-feira, janeiro 06, 2012

Em prol do futuro do Brasil


A grande mudança no Brasil atual, e na vida dos brasileiros, apesar da política e dos politiqueiros, se fez quando, em 2004, foi implantado o Plano Real e, por fim, se dominou a inflação recuperando a possibilidade de se planejar a vida financeira e saber dos custos reais da produção. E, também apesar de tudo que se diz, em especial contra os economistas, não houve no Plano Real nenhuma novidade, nenhum avanço teórico em economia. Foi apenas a aplicação do que já se sabia a, pelo menos, cinqüenta anos. Na verdade, a MP que criou o Plano apenas passou do Executivo para o Legislativo a capacidade de emitir moeda e, afora outras medidas, se elevou o depósito compulsório às alturas. O que havia mudado? Apenas as condições políticas e, sejamos justos, o saudoso presidente Itamar Dantas teve a coragem de fazer o que precisava ser feito. Com a estabilidade o Brasil avançou muito. No entanto, o Plano Real sempre foi um plano de estabilização, de controle das contas e equacionamento das dívidas. Nunca foi um plano de desenvolvimento, como quiseram cobrar dele. Daí, as taxas baixas de crescimento.
Porém, para crescer seriam necessárias as reformas, a tributária, a trabalhista, a melhoria do ambiente econômico, medidas vitais para diminuir o reconhecido "Custo Brasil". Não temos avançado nos anos finais de FHC, nem nos últimos oito anos de Lula, nem neste primeiro de Dilma. Os efeitos são visíveis: os produtos básicos respondem por 72% das exportações, enquanto bens industrializados recuam (o mais sintomático é a queda da venda de automóveis). A indústria nacional reclama do câmbio, mas, a questão real é mesmo a competitividade. Nenhuma competitividade será possível com uma carga tributária excessiva (inacreditáveis 36% do PIB), as mais altas taxas de juros do mundo, condições de crédito de longo prazo pouco favoráveis, legislação trabalhista engessada, esclerosada e uma burocracia onerosa e discricionária que cria a toda hora, cada vez mais, encargos para a iniciativa privada, sem que as empresas possam fazer coisa alguma contra esses fatores negativos, que dependem de políticas governamentais.
Acrescente-se que a isto somam-se outros custos paralelos, como os da estrutura no sistema produtivo, em especial dos transportes. São absurdos nossos fretes o que, com a falta de segurança, se agregam os custos de roubos. Sem falar na falta de qualidade da mão de obra, no desperdício e tantos outros males que nos afligem e que elevam os preços finais dos bens aqui produzidos. Nas licitações públicas, como uma franca admissão do fracasso na solução dos problemas, se admite uma diferença de 15% em favor da indústria nacional. Isto, porém, como tantas outras coisas, são paliativos. O governo federal não pode mais fazer, como tem feito, políticas tópicas, mudanças micro. É hora de grandeza, de abandonar a falsa solução de barreiras protecionistas e reservas de mercado. É preciso ter coragem de criar, de fato, o Brasil que se promete. E este não será feito sem políticas macros, sem coragem e sem reformas.
Ilustração: janinealves.blogspot.com