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terça-feira, junho 19, 2007

PROTESTAR É PRECISO...

NADANDO CONTRA A CORRENTE
O poder, no mundo moderno, é invasivo. Diluindo as fronteiras entre o trabalho e o lazer, entre a casa e o escritório, entre o público e o privado, efetivamente, penetrou em todas as esferas da existência, e, numa mágica às avessas, mobilizou inteiramente o homem para se alienar pela busca incessante de mais riqueza, mais poder, mais ter. Assim o corpo, a afetividade, o psiquismo, a inteligência, a imaginação, a criatividade não são postas em prol do bem-estar próprio e geral e sim de uma filosofia invertida em que o que importa é ganhar dinheiro, ter sucesso a qualquer custo fechando os olhos para a miséria e a decomposição em volta. Porém, nenhum homem, ou sociedade, é uma ilha. Somos, cada vez mais, uma aldeia global, daí que ao violar, invadir, colonizar os outros em seu proveito os donos do poder plantam as sementes do seu próprio mal-estar. É impossível ser feliz num mundo totalmente desequilibrado.
Talvez, para piorar ainda mais as coisas, especialmente no Brasil, o poder está nas mãos dos que menos possuem preparo para exercê-lo e, como a inteligência é bem distribuída e os medíocres cientes de que somente pela força podem governar, o uso dos mecanismos de controle, como o capital, o Estado, a mídia e as instituições, tomam formas difusas que moldam a forma de pensar das pessoas. O poder, infelizmente, se exerce por dentro vendendo, por exemplo, a convicção de que a política é ruim, que todos os políticos são iguais, que todos roubam e que não vale a pena lutar por um mundo melhor. E como todos são iguais o negócio é se locupletar do que é possível. Como, para a grande maioria, é impossível ler através dos fatos o que o poder leva é ao conformismo, à vidinha sem objetivos nem grandeza, sem sonhos enfim.
É o que se prega, no momento, no Brasil que todos nós fiquemos conformados em ser homens-múmias. É certo que fora do sarcófago, mas devemos aceitar que este é o melhor dos mundos possíveis, que o Brasil nunca esteve tão bem, que, agora, não devemos ter pressa, que os 0,01% de aumento e os 2,8% de crescimento (aumentados por alquimia) é o máximo que se pode ter. Ao mesmo tempo que, por ações da Polícia Federal, se comprova que tudo é uma porcaria, que todo mundo é corrupto, até pelo exemplo de cima de adultério e de venda de bois, o melhor mesmo é a indiferença política que vem pela exaustão da luta. Afinal não vale a pena. Chegamos ao melhor que se pode chegar...Mas, nós, brasileiros, seres criados para o prazer e a felicidade, criadores do carnaval, não podemos aceitar ser o que o poder quer. O poder quer homens docilizados, inconscientes, vegetativos, conformados que digam sim. E nós, que não desistimos nunca, que, ontem, dissemos não ao poder centralizado e brutal, agora, diremos também não, ao descentralizado e mais brutal ainda. Não somos uma manada. Somos um povo. E, contra os anti-povo de direita e de esquerda, ainda iremos fazer deste país uma democracia de verdade.

O FANTÁSTICO CIRCO DA MÍDIA

Com a perda de dinheiro que os meios de comunicação enfrentam se, antes, já não existia, agora, é que não existe mesmo mais o tal do “jornalismo investigativo”. É pura conversa para boi dormir. As redações, seja do que for, possuem pouca gente (e sem grande experiência) para ir atrás das notícias e são pautados, ou seja, vão somente atrás do interesse do momento que, em geral, é o assunto dominante, daí a razão de que quando se fala do Vavá é só do Vavá, se do Renan é só do Renan, de Luana Piovani ter chamado Caetano de “banana de pijama”, é só de Luana ou, para ser temático, do aquecimento global.
Logo também o famoso "furo", a descoberta de uma notícia antes dos outros, só acontece movido por interesses. Normalmente quando uma fonte oficial, ou não, despeja um dossiê para atingir alguém por motivações políticas ou econômicas. É, sem tirar nem por, o que acontece agora com o festival de vazamentos de informações das operações da Polícia Federal ou com o circo da “venda” dos bois de Renan Calheiros. Claro que o senador não pode ser considerado nenhum santo, porém é muito suspeita a ânsia de investigação da acomodada e pacífica Rede Globo que, de repente, se torna investigativa. Está na cara que não é. Certamente é fruto dos adversários locais, ou federais, inconformados, quando ficou evidente a pizza, que partiram para quebrar a blindagem, por sinal frouxa, do presidente do Senado. Se absolverem, se arquivarem o processo contra Calheiros é o mesmo que dizer que se pode fazer qualquer coisa, mesmo documentada, que o Congresso absolve.
Na verdade, hoje, jornalismo investigativo virou isto: ações de pessoas ou grupos envolvidos numa briga qualquer vazam informações para a imprensa visando atingir seus adversários. A imprensa buscando afirmar a imagem de "independência" acaba sendo massa de manobra, se deixa manipular, por algumas manchetes sensacionalistas. Os policiais, como estão com a mão na massa, também ganham projeção com tais escândalos, vide elogios e o alto conceito em que a PF anda, de forma que o sucesso da formula está se espalhando tanto que até as policiais estaduais resolveram também aderir e uma exorbitou prendendo 2.532 pessoas num só dia. Pasmem 2.532 pessoas! Imagine como serão tomados os depoimentos (e quando), onde serão alojados e qual a justificativa para prender tantos de uma vez só! Agora que as manchetes estão asseguradas não há dúvida. E, de fato, durante algum tempo o circo da mídia deve ser alimentado por depoimentos, indícios & cia ltda., porém, como tem sido norma, o difícil será tomar conhecimento de punições, pois, na prática, fora as breves e rápidas prisões, as sentenças, como o jornalismo investigativo, não existem. É só mesmo jogo de cena e alimento para o circo. Que país!

terça-feira, junho 05, 2007

KLEDIR RAMIL

O ARTISTA VISÍVEL
Fui, no Teatro Um do SESC, para o lançamento do livro de Kledir Ramil, “O Pai Invisível”, uma série de crônicas em que Kledir, de forma dinâmica e informal, relata as situações cômicas e surrealistas pelas quais um pai moderno tende a passar. No caso específico as que ele mesmo passou com os filhos adolescentes. Com maestria compara os períodos diferentes, ao relembrar seu próprio tempo de garoto, quando o ritmo e a posição do pai era outra. Kledir tem um estilo espirituoso, uma forma engraçada de contar histórias que são comuns e, ao mesmo tempo, únicas, dos problemas entre pais e filhos. Não há como não se identificar com o tema que é atual, difícil, complicado o que, mesmo com o tratamento jocoso, fica explícito a seriedade com que encara sua missão de passar algo de sua vivência. A tese que defende é ótima: se no início de suas vidas os filhos dependem dos pais para tudo, quando chega a adolescência, esquecem que o pai existe, e a impressão é que ele se torna um ser invisível. Mas, na verdade, não é bem assim: volta e meia será lembrado justamente quando gostaria de ser esquecido – para a carona de madrugada, para pagar o cinema, o tênis importado, levar os filhos e a galera num passeio que é a maior roubada. Pai é uma espécie de lona que não deve ser percebida enquanto o filho não erra o trapézio.
Kledir Ramil, um gaúcho torcedor do Internacional, nascido em 1953, consagrou-se na música com a dupla Kleiton & Kledir, tendo sido um verdadeiro ícone da modernidade das palavras, talvez gauchescas, porém que influenciaram toda uma geração. Impossível não lembrar de sucessos maravilhosos como “Deu pra ti”, “Nem Pensar”, “Paixão”, “Vira, Virou” e “Maria Fumaça” entre tantos outros. Não sabia muito sobre sua vida passada, nem presente, pois, a dupla desapareceu do cenário nacional, numa certa época, não sei se recolhido mais ao Rio Grande ou se a vida os levou por outros projetos. Sei que reencontrar Kledir, agora como escritor, foi um momento agradável sobre vários aspectos. Trata-se de um artista, de fato, preocupado com seu fazer e seu mundo, uma verdadeira antena da raça, que é de uma grande empatia com o público mesmo fora do espaço musical. Provou ser polivalente e até mesmo teatral, no melhor sentido do termo, ao saber explorar sua própria figura seja nas vídeocrônicas, seja no debate com o público, ao criar momentos de beleza, de descontração e até mesmo de surpresa ao apresentar o público o último tipo de videogame japonês, o bilboquê, aquele brinquedo de madeira que se deve encaixar numa ponta, conhecido por nós, embora não encontrável nos dicionários, como currimboque que, como rapaz de boa cepa, achou meio pornográfico. Não importa. Importa que Kledir é um talento multifacetado, embora, como música seja música, gostaria também de tê-lo ouvido cantar, embora lembrar “Churrasquinho de Mãe” de Teixeirinha, para nossa geração e adjacências, seja um plus. Viva Kledir! Que volte outras vezes ás margens do Madeira!

sábado, maio 05, 2007

NÃO SE FALA MUITO A RESPEITO DA....

A VIOLÊNCIA SILENCIOSA
São cada vez maiores, no mundo atual, os sinais de violência contra o outro. E a violência maior, na maioria das vezes, é invisível na medida em que, se uma morte por bala perdida causa comoção e horror ou, como recentemente, na Paraíba, um grupo de bandidos usa mais de cinqüenta pessoas como reféns para estabelecer uma barreira humana, afim de escapar da polícia, nos faz ver como os bandidos chegaram a uma audácia sem limites, o fato repercute, mas resulta das pequenas (e grandes) violências que se cometem no dia à dia.Isto, no entanto não acontece por acaso. È fruto do que a ex-juíza Denise Frossard alegava, numa entrevista a Marília Gabriela, que há a violência maior do uso do Estado contra o cidadão negando ou usurpando os seus direitos.
É preciso, aqui, relembrar que violência, derivado do Latim violentia, quer dizer qualidade do que é violento, ímpeto ofensivo, veemência, tirania, abuso de força e opressão, ou na sua forma jurídica, o constrangimento exercido sobre uma pessoa para a obrigar a fazer ou a deixar de fazer um ato qualquer, coação no seu sentido estrito. Assim entendido quem tem maior possibilidade de coagir? O governo, é claro. E se é um governo que não atende as classes mais esclarecidas, que não trata como iguais os cidadãos comuns, se divide a sociedade em classes e trata certas classes com evidente má vontade, desrespeito e até perseguição, enquanto concede benesses a quem julga necessário dentro de uma concepção própria de poder “republicano” isto é ou não uma violência? Assim como é ou não uma violência estimular a luta pela terra para que os sem terras arranjem um pedaço de terra para ingloriamente produzir com desvantagens imensas ate que o desânimo os leva sempre a serem expulsos de seus lotes? Ou não é uma violência, por exemplo, negar licenças sistematicamente para os grandes projetos de desenvolvimento da Amazônia? Ou impedir que madeireiros retirem madeira de áreas florestais enquanto se vendem grandes áreas para empresários externos? Ou, simplesmente, adequar a saúde dos pacientes do SUS aos recursos? Ou, dizer que não há filas na Previdência quando só atendem um número determinado por dia?
A violência, portanto é parte integrante de nossa realidade diária. Não é, com certeza, privilégio do governo atual, porém, com seu viés socialista de botequim, exacerbou-a num nível nunca antes visto neste país. Basta verificar o ministro da Previdência, apesar de reconhecer que o déficit no setor é do governo, desejar diminuir a pensão das viúvas.Ou a manutenção da CPMF ou a criação de um super-receita para cobrar mais por um subgoverno. A violência, portanto não se restringe aos assaltos, drogas, transgressões físicas, morais, sociais, etc... mas é um câncer que corrói o nosso tecido social e só desaparecerá na hora que a Justiça crie consciência que não pode ser um poder ancilar do governo e faça valer as leis para quem mais a desobedece. Quando o parlamento acabar com a excrescência das medidas provisórias. Infelizmente sem modificações nas leis, permitindo que processos contra os governo sejam protelados, se deixa a impressão de que o poder e o dinheiro podem tudo, cria a sensação de um vazio de horizontes, de falta de bons exemplos e até de que a família e a sociedade estão colaborando não só para o crescimento da violência, como para sua cristalização. É preciso dar um basta à violência do Estado e que este assuma suas obrigações de respeitar os direitos privados. Começando, por exemplo, a taxar menos os salários e mais os lucros, inclusive dos bancos.

domingo, abril 15, 2007

A MANIPULAÇÃO OFICIAL

MALABARISMOS VERBAIS
Dizem-lá por Minas Gerais-que muita esperteza acaba sempre por comer o dono. É confiando na sabedoria mineira que vou esperar o desastre que ainda vai acontecer com o presidente Lula da Silva. Afinal, quero acreditar com Lincoln, que não se pode enganar todo mundo por todo o tempo. Veja, por exemplo, o comportamento de Lula no jantar com o PMDB quando se esforçou para limpar a barra de figuras que, num passado bem recente, os petistas só faltavam dizer que era a figura do diabo ou, pelo menos seu enviado. Lula, numa retórica demagógica, perguntou: "Qual cidadão de pensamento progressista em 1974 não votou no Quércia para senador? Quem é o progressista que, em 1978, não votava em Jader Barbalho no Pará para deputado federal?" É um contorcionismo espetacular, mas, o pior, é que a busca da limpeza de barra não pára nas palavras. Autorizado pelo Ministério das Comunicações Barbalho conseguiu transferir a concessão da TV Bandeirantes no Pará da empresa Rede Brasil Amazônia de TV para a firma Sistema Clube do Pará de Comunicação, da qual é sócio. A questão insanável é que a primeira estava imersa em dívidas com o fisco, a Previdência e o FGTS. O Sistema Clube Pará opera num azul de dar inveja. Ou seja, deixaram o mico para o governo e transferiram a renda para Barbalho. Uma maravilha!
Na verdade fatos para colocar Lula na parede não faltam. A questão real é que, como sempre se soube, não há oposição de fato. Quando o PT era oposicionista dominava toda o sistema sindical que era quem se movia para, supostamente, levantar as causas populares. Os sindicalistas ou estão no governo ou estão navegando em berço esplendido somente receando CPIs que mexam com as ONGs ou sindicatos por onde o dinheiro público mantém todos batendo palmas para um governo que somente faz um assistencialismo oficial bastante duvidoso. O “Apagão aéreo” acabou por desnudar o grau de incompetência do governo que, agora, anda cheio de receios com uma nova CPI do caos aéreo tanto que começou a afastar funcionários da Infraero como forma de afirmar que o governo está investigando. Vai ser difícil a oposição engulir por causa do advogado Roberto Teixeira, compadre e íntimo amigo de Lula, que teve um papel privilegiado na venda da Varig. Este é um dos motivos que assusta o governo. Há o temor de que o compadre do presidente se transforme no Paulo Okamoto da “CPI do Apagão aéreo” – Okamoto é o presidente do Sebrae, que pagou uma dívida de R$ 29,4 mil de Lula com o PT de forma bastante esquisita. O fato é que a compra da Varig pela Gol, um negócio de US$ 320 milhões, será um dos objetos de investigação da CPI do Senado, que acabou por privilegiar a Gol e a TAM. A convocação de Roberto Teixeira é certa. Resta saber se vão abrir sua caixa preta. Se isto acontecer talvez Lula tenha que fazer malabarismos na sua própria biografia. Basta que a oposição aterrisse e não seja apenas aérea como tem sido e não deixe os malabarismos verbais se transformarem em verdade pela manipulação do poder.

domingo, abril 08, 2007

MULHERES QUE FAZEM DIFERENÇA

ESSAS MULHERES MARAVILHOSAS E SEUS LIVROS INDISPENSÁVEIS
Falar de mulheres é falar de humanidade, de beleza e amor. Isto é mais verdade ainda quando se juntam mulheres e livros. E não consigo falar de livros sem lembrar os maravilhosos versos de Castro Alves:

“Oh! Bendito o que semeia/ Livros... livros à mão cheia.../ E manda o povo pensar!/ O livro caindo n'alma /É germe — que faz a palma, /É chuva — que faz o mar”.

No caso são as “benditas” que semeiam livros. Este texto é, na verdade, um reconhecimento e um agradecimento a três mulheres que, não somente por sua trajetória, como pela dedicação, o esforço e o trabalho de lançarem seus livros estão sedimentando a sociedade e a cultura de nosso Estado como já o tem feito, cotidianamente, sem o reconhecimento devido em suas tarefas diárias. È, de fato, uma louvação a três batalhadoras, guerreiras completamente distintas nas suas personalidades, porém com a vocação e o desejo de ser, a necessidade de criar, de fazer, de influir no nosso meio ambiente e, quando falo de meio ambiente o faço no sentido mais exato, no sentido que não distingue a Natureza da Cultura, que não isola o homem do seu mundo, mas procura dar à vida humana o significado mais profundo da igualdade e da beleza que requer as palavras não para o exercício do poder e sim para se doar ao próximo, pois a verdadeira liberdade consiste em ser livre para realizar o melhor que há em si que é sempre a auto-satisfação dos outros- o único meio real de se prosperar. Não há sociedade boa com violência, dominação e oportunismo.
Pedindo perdão pela digressão volto a elogiar os três livros lançados nos últimos quinze dias. O primeiro deles o de Marlene Rolim, “Gente Que Faz Rondônia-Fatos e Causos”, um livro de reminiscências e pesquisa que resgata uma parte importante da história de nosso Estado. O segundo de Mariluce Paes de Souza, “Governança no Agronegócio-Enfoque na Cadeia Produtiva do Leite”, que estuda uma cadeia importante de nossa economia sua estrutura, seus participantes e desempenho. Uma notável contribuição para melhorar o desempenho do setor. E, por fim, o livro de Carolina Rodrigues da Costa Doria, “Ecoturismo na Amazônia-Alternativa de Renda para as Comunidades Locais”, um exame da viabilidade do ecoturismo que vai além da Amazônia, feito em parceria com Claudia Azevedo Ramos. São sintomas de que Rondônia avança no sentido cultural, mas, principalmente, que a contribuição feminina para isto é, cada vez mais, importante. A estas maravilhosas mulheres os parabéns de todos nós que desejamos um Estado melhor e sabemos que sem cultura não há salvação.

domingo, abril 01, 2007

OLHOS E CÂMERAS TE PERSEGUEM...


PRIVACIDADE É PARA OS ANÔNIMOS
Ser uma figura pública, que muitos almejam, tem suas vantagens e desvantagens. Principalmente para quem possui “problemas” no passado, mesmo que os outros não descubram, é uma eterna lâmina pendente sobre a pessoa. Um caso recente, e didático, é o do escritor Günter Grass que, em agosto passado, pegou os alemães de surpresa depois de confessar seu passado, que omitiu durante cinco décadas, de participação na tropa de elite nazista Waffen-SS. E o fez no seu livro de memórias disparando uma imensa polêmica e o alçando aos primeiros lugares, mas a um custo altíssimo para o prêmio Nobel de Literatura de 1999.
Na autobiografia, Grass contou lembranças da infância em Danzig, as vivências como soldado, o sofrimento da fome enquanto prisioneiro de guerra do Exército americano e o período em Paris, quando transferia para o papel “O Tambor”, seu grande sucesso literário. A narrativa vai até o ano do seu lançamento que se tornou seu primeiro e mais famoso romance. Mas a passagem em que revelou ter feito parte dos pelotões da Waffen-SS foi, sem dúvida, o detalhe que causou todo o alvoroço e as altas cifras envolvidas nas vendagens. A primeira edição desapareceu das estantes em poucos dias, mas, a imagem de Grass saiu bastante destroçada. Agora, no seu novo livro, cujo título é um trocadilho. É o nome pelo qual os alemães chamam o mais ingênuo e atrapalhado personagem da tradição circense, o palhaço dummer August (o tolo Augusto). Günter Grass se mostra, assim, como uma pessoa exposta ao ridículo, acusa a mídia de tê-lo feito de palhaço, de transformá-lo num bobo da corte. O auto-retrato dele com cara de derrotado sob um chapéu pontudo, ilustração para o poema que dá nome ao livro, é um dos desenhos mais expressivos do livro. Mas outra possível tradução para o título é 'agosto tolo', lembrando ter ocorrido no mês "maldito" o escândalo que acompanhou o lançamento, porém nem de leve, agora, há a repercussaão que as quase 500 páginas de Beim Hüten der Zwiebel (Descascando a Cebola, tradução literal, a ser lançado no Brasil pela Record no segundo semestre) alcançou. A recepção da imprensa ao novo livro é fria. Culpar a imprensa, quando os fatos da vida o machucam não é uma novidade propriamente, é, em geral, a forma que todos usam, inclusive os políticos, porém não seriam figuras públicas sem ela. E,efetivamente, as críticas, o destaque dos cadernos culturais dos periódicos alemães, tudo que isto tem sido classificado pelo autor repetidamente como uma “encenação mediática”, uma “tentativa de destruição”, que o “magoou profundamente”, é inerente a qualquer figura que ocupa o centro das luzes. Embora não possa negar que é um processo cruel, para quem o sofre, é preciso ver que ninguém reclama quando o processo é elogioso. Então a questão é que, no mundo moderno, não deixe suas mazelas à vista. Se, por exemplo, for roubar gravatas certifique-se que está no Brasil e que o local não tem câmeras. Quanto mais um pai bater numa filha....

quarta-feira, fevereiro 21, 2007

O PAC E A AMAZÔNIA

O Programa de Aceleração do Crescimento-PAC consiste num amplo conjunto de ações e de projetos de investimentos na infra-estrutura pública – que, se espera, deve aumentar também os investimentos privados. A expectativa despertada foi de que, na soma dos investimentos públicos diretos (R$ 63,3 bilhões nos próximos quatro anos), investimentos das estatais, financiamentos dos bancos oficiais e investimentos privados, seja alcançado um investimento da ordem de R$ 503,9 bilhões entre 2007 e 2010. Embora muito falado nem mesmo na apresentação do programa houve um detalhamento preciso da participação de cada setor na composição do montante, mas apenas o esclarecimento adicional da participação, em mais de R$ 106 milhões das estatais. Como objetivo final se encontra a pretensão de crescer 5% ao ano destravando a economia e obter um crescimento do PIB de 4,5% em 2007 e 5% ao ano entre 2008 e 2010 - contra uma média de crescimento entre 2% a 2,5 % nas duas últimas décadas. Os críticos dizem- com razão- que o programa não ataca os principais empecilhos ao crescimento- alta carga tributária, péssima estrutura dos gastos públicos e a elefantíase burocrática- mas, de qualquer forma, é melhor ter um plano do que nada.
A questão nossa é quais as vantagens do PAC para a Amazônia? Bem no geral, por setor, os gastos do PAC previstos privilegiam o setor energético com recursos da ordem de 274,8 bilhões, ou seja, mais de metade dos recursos, seguido dos setores social e urbano que abocanham outros R$ 170,8 bilhões. Porém quando se analisam os gastos por regiões se verifica que é no Sudeste que se concentrarão os maiores investimentos R$ 180,5 bilhões (3, 5 vezes o que será aplicado na região Norte) e no Nordeste R$ 80,4 bilhões. O Norte será contemplado com R$ 50,9 bilhões e o Centro-Oeste receberá apenas R$ 24,1 bilhões, ou seja, os dois juntos receberão menos do que a região Nordeste. A questão é que, em termos reais, os projetos que participam do PAC em relação à Amazônia são, de fato, projetos que já estavam programados. A rigor são projetos que estão, temporalmente, atrasados. São projetos de transportes, como as BR-319, 163, 230, 156 e BR-364, no trecho do Acre, que se arrastam por problemas de meio ambiente ou de verbas, bem como os de energia, como o gasoduto Urucu/Porto Velho, as usinas do Madeira, a de Belmonte, Serra Quebrada, linhões e outros investimentos que há muito já deveriam ter sido feitos. Nada de novo, portanto em transportes e energia. E no que tange as áreas social e urbana, além da falta de investimentos concretos e morosidade burocrática, são destinados apenas um percentual de 11, 9% para região com, talvez, mais uns 2 ou 3% advindos dos 8,7% destinados ao Centro-Oeste. Em suma, o PAC, em termos de Amazônia, se resume a uma reafirmação das prioridades do governo federal para a Amazônia. Se houver determinação para implantá-lo pode fazer diferença, mas, para quem acompanha o panorama amazônico, não trouxe nenhum subsídio, nada que se possa dizer enfim a Amazônia mereceu atenção. Neste sentido o PAC, para a Amazônia, é um vazio igual ao que temos sido para o planejamento federal.

sábado, dezembro 09, 2006

SOBRE MEMÓRIAS & ALQUIMISTAS

Um passeio rápido sobre os transformadores da vida no passado
Quem não se interessou em algum momento por alquimia? Eu também tive meus momentos de alquimista assim como enveredei pelo espiritismo, por um xamanismo e acabei, pasmem, por criar o meu induísmo à brasileira. Pois, meus amigos, uma dia já sonhei em ser casto, quis mesmo ser santo...Muito do que estudei nesta época o tempo levou assim como alguns papéis velhos de formulas e receitas foram queimadas por uma empregada ciosa que não compreendeu jamais porque me irritei tanto por ter queimado os papéis velhos que só alimentavam as traças. Muitas memórias perdi assim na vida por falta de um bom hardware, pela ausência de um scanner, alquimias modernas que no passado seriam considerados palavrões. E o micro não deixa de ser uma alquimia bem moderna. Um micro (que funcione) não deixa de ser um milagre humano só equiparável ao celular, que-dizem-serão, em breve, um só ou outro, quem sabe de tais alquimias?
O raciocínio sobre o assunto me veio da lembrança de que os egípcios, antes da era cristã, adquiriram grande habilidade na extração e no trabalho com metais. Até mesmo na coloração da superfície dos metais e na preparação das ligas que imitavam a aparência do ouro e da prata. Na Alexandria estas práticas se combinaram com a astrologia e a magia dos babilônios e com a filosofia dos gregos, daí foi um passo para esta fusão de conhecimento, especulação e misticismo passar para a Síria e a Pérsia e mais tarde, no século VII, para a Arábia. Os árabes pegaram, então a palavra grega chemeia, que se referia à imitação do ouro e da prata, juntaram o artigo árabe al como prefixo, e nos legaram a alquimia. Que tinha uma organização e algumas premissas fundamentais:

1. Toda matéria é composta de uma mistura de terra, ar, água e fogo, em proporções variáveis.
2. O ouro é o mais nobre e mais puro dos metais, seguido pela prata.
3. Qualquer metal pode ser transformado em outro, por um processo chamado transmutação, que consiste em modificar as proporções dos quatro elementos básicos.

Os alquimistas buscavam firmemente a transmutação de um metal básico em ouro, se supunha, podia ser conseguida com o uso de uma substância indefinida, a pedra filosofal. Assim como viviam a procura do elixir da vida e da panacéia. O primeiro a fonte da vida imortal e o segundo a cura de todos os males. Graças a Deus a inocência faz parte de todas as épocas. E naquela, pelo menos, acreditavam em coisas concretas não em palavras. Os alquimistas não podem ser subestimados. Seu trabalho foi, na verdade, a base real dos químicos modernos e fizeram experimentos tão importantes quanto são, hoje, os seqüenciamentos genéticos ou as sínteses de uma nova droga ou fibra. Os alquimistas não eram místicos ou charlatães inevitáveis e muito do seu legado persiste até hoje. Suas tentativas de todas as possíveis combinações das substâncias conhecidas, durante muitos séculos, possibilitou a rejeição das que não interagiam, e o registro lento e metódico das combinações e receitas que fizeram a química evoluir. A Química não seria uma ciência sem os alquimistas que construíram, exemplo, o esmaltamento de louças por Jabir (cerca de 760-815), alquimista árabe que se tornou conhecido dos europeus como Geber. Ele escreveu em seu Livro das Propriedades, que viajou do Oriente para o Ocidente uma receita como a abaixo descrita:

Tome uma libra de litargírio (composto de chumbo e oxigênio), pulverize bem e aqueça suavemente junto com quatro libras de vinagre de vinho, até reduzi-lo à metade de seu volume original. Tome então uma libra de barrilha e aqueça juntamente com quatro libras de água, até reduzir seu volume à metade. Filtre as duas soluções até que se tornem límpidas, e acrescente gradualmente a solução de barrilha à de litargírio. Forma-se uma substância que se deposita no fundo. Jogue fora a água e deixe secar o resíduo. Ele se tornará um sal tão branco como a neve.

Ou seja, como fazer o chumbo branco, utilizado durante séculos na esmaltação de louça e na pintura. Não somente por meio de receita como também por nomear e organizar os elementos os alquimistas deram uma enorme contribuição como foi o caso do que foi considerado o maior dos alquimistas árabes, Rhazes (865-925), cujo nome significa "homem de Ray", uma cidade da Pérsia. Num dos seus livros descreve inclusive qual deve ser o equipamento de um laboratório. Suas sugestões incluem, entre outras coisas os seguintes equipametos e utensílios: forno, fole, cadinho, alambiques, conchas, tenazes, tesourões, tachos, balanças, pesos, frascos, vidros, caldeirões, fogões, filtros, estufas, fornalhas, pratos, funis, banheiras. Talvez, hoje, se classifique um laboratório assim equipado como um covil de bruxa ou uma cozinha, porém, seria muito moderno para época, assim como, hoje, os grandes computadores nos parecem risíveis. E não se poderia subestimar Rhazes que conhecia muitos compostos químicos, incluindo possivelmente os ácidos sulfúrico e nítrico, bem como classificou a matéria como animal, vegetal ou mineral. Os alquimistas não estão chegando, porém, olhando para a nossa realidade, bem que estamos precisando de alguns.

quarta-feira, novembro 29, 2006

A INCIPIENTE ARTE DIGITAL

Um tempo, que me parece longínquo, me considerei um poeta. Uma ilusão talvez. Talvez nem mesmo existam mais poetas e a poesia seja um vicio do passado, de pessoas como o poeta Vinícius de Moraes, um Borges, um Neruda que fizeram com que as palavras contivessem emoção. A palavra, hoje, parece estar despida de sentimento, de teatralidade, de grandeza. Passou a ser um mero adereço do espetáculo. De certa forma a literatura, refém da vida, incorpora as novidades do cotidiano e não pode deixar de ter como matéria-prima a condição humana. Com as profundas mudanças tecnológicas a literatura também mudou, inclusive na forma de ser produzida. Lembro do escritor Joca Reiners Terron, autor de um caso clássico o seu romance “Hotel Hell”, sobre uma cidade degradada, que nasceu de seu blog (http://hellhotel.blogger.com.br/). Bem como livros que são, na verdade, posts de blogs, resgastes puros. Não parecem, porém distantes, na sua grande maioria, de sub-literatura com meu pedido de perdão antecipado para muitos bons intelectuais que os fazem. E, quando se trata de poesia, os produtos parecem piores, degradantes mesmo. Talvez, levando as ultimas conseqüências, a degradação da poesia seja a degradação da vida.
Do público é, certamente. E autor e público se modificaram com as múltiplas, as infinitas possibilidades tecnológicas. A interatividade, as obras coletivas e a comunicação instantânea até mesmo uma certa perda da autoria são fenômenos que ganham força hoje em dia. É possível que, como conseqüência das inovações, a poesia esteja migrando para outros espaços, a literatura mudando de forma e o sentimento de perda, de busca de uma poesia perdida não seja mais do que o anacronismo de um artista do passado que nem tomou consciência de que é um sobrevivente de um mundo que só existe ainda na sua memória. A Internet, imposição e progresso inevitável, com suas wikis e permissões facilitadas se tornou a grande mãe das idéias, a grande usina, a grande difusora de idéias, sejam boas ou não, com um amplo poder de comunicação e de mudança da produção, das técnicas e da estética.
Não vejo muitas coisas novas nem sequer novas técnicas na produção poética. A mídia e o público, com certeza, ficaram menos exigentes, embora existam núcleos muito intelectualizados e pouco influentes. Os recursos tecnológicos parecem ter encoberto a pobreza e até mesmo a miséria do conteúdo artístico. É possível que nos Estados Unidos ou em outros países desenvolvidos, o que se sabe que existe, por exemplo experiências com telas de textos programados, não necessariamente são bons exemplos de uma novidade em arte e nem no Power Point se vê um bom uso da técnica para a poesia. Os meios novos não tem sido bem utilizados para abranger o que se chama de arte ou da percepção do mundo dos artistas que parecem ainda pré-digitais. No fundo se existir a arte digital em literatura ou poesia parece ainda não ter um estatuto digno de ser percebido e difundido. A arte digital, pelo menos no que conheço, ainda me parece anêmica.

quarta-feira, novembro 22, 2006

AS FLORES DO EMPREENDEDORISMO

OU UMA REALIDADE EM MUTAÇÃO
Duas forças modernas praticamente desmontaram a capacidade dos trabalhadores de ter a mesma força de reivindicação do passado. A primeira delas foi a crescente utilização das máquinas nos diversos campos do fazer humano acabando com as tarefas repetitivas. Máquinas são, sem dúvida, uma solução muito mais prática, e confiável, para tarefas que exigem força, habilidade e que se repetem. A segunda foi a fragmentação da produção que, além de desterritorializar as fábricas, passou, por meio de redes, a aproveitar diversas formas antigas de trabalho como os dos free-lancers, o trabalho em casa, o trabalho parcial ou o pago por tarefa. Assim acontecem, ao mesmo tempo, duas condições que deixam órfãos populações inteiras que haviam desfrutado de certa estabilidade e poder contratual que, agora, se vêem desempregados ou obrigados a aceitar concessões ou situações precárias de emprego. Uma representada pela destruição de postos de trabalho (nas fábricas e escritórios) outra pela exigência crescente de maior escolaridade, pois o trabalho que se deseja, agora, é mental. Contra tais tendências não há como buscar abrigo no sindicato ou na lei. O sindicato porque se encontra esvaziado na medida em que o trabalhador não tem força para parar a produção e na lei na medida em que, como costume, tem que acompanhar as mudanças sob pena de penalizar toda a sociedade. Infelizmente o emprego da era industrial parece coisa do passado e, quem deseja sobreviver, tem que olhar para novas formas de criar riqueza buscando criar valor e renda.
No entanto o que se observa ainda é que mesmo as pessoas mais esclarecidas ainda pensam no presente com um olhar para o passado. Parecem, como observou certa vez Marx, pagarem, por não pensar, tributo aos mortos. É o que acontece comumente quando não compreendem que não bastam grandes projetos ou investimentos em infra-estruturas para criar desenvolvimento. Quando não compreendem que não é mais a indústria que gera empregos, mas sim o setor de serviços, a pesquisa, a tecnologia e o desenvolvimento de novos produtos. Impossível ter futuro sem conhecimento, sem educação, sem criar um ambiente que incentive o saber, a curiosidade, que crie nas pessoas o desejo de progredir, de buscar caminhos novos. Nestas condições não são pessoas que buscam empregos as que irão construir o progresso. São os empreendedores. Pessoas que desejam se arriscar, criar coisas novas, fazer seu próprio nicho. Este tipo de pessoas, porém não vicejam em ambientes burocratizados. São como flores que necessitam de ambiente propício, de um ambiente que, infelizmente, ainda não se construiu no Brasil de verdadeiro capitalismo. Um ambiente no qual o conhecimento, a criação de valor e o empreendedorismo sejam, realmente, valorizados.
Obs.: A ilustração é da notável artista sul-africana Georgia Papageorge.

terça-feira, novembro 21, 2006

A CAUDA LONGA

O jornalista Chris Anderson escreveu que 99% dos CDs vendidos no mercado norte-americano não são mais prensados e o mesmo ocorre na área de vídeo onde, dos 200 mil DVDs produzidos nos EUA nos últimos cinco anos, apenas 3 mil estão disponíveis nas locadoras do país. São dados semelhantes, colhidos no livro The Long Tail (A Cauda Longa), em que Chris analisa as causas e conseqüências da queda da chamada cultura dos hits (grandes sucessos) e a extraordinária ascensão de nichos de mercado altamente segmentados e personalizados. Para ele, o mais interessante é que o crescimento dos nichos de consumo não significa a morte dos mercados de massa. Na verdade implica numa modificação do varejo convencional e numa revisão estratégica drástica dado o aumento da oferta gerada pela internet e direcionada a mercados segmentados. È fato que o caso da música é exemplar. Até a virada do século, as lojas de CD eram as únicas com espaço físico suficiente para estocar uma maior variedade de títulos e estilos musicais. Como a venda era altamente concentrada, as gravadoras se acostumaram a investir nos grandes sucessos, que eram rapidamente consumidos no varejo, evitando que as lojas acumulassem grandes estoques. Caso semelhante ocorre com os CDs que também ilustra a lógica de funcionamento do varejo quando a oferta é limitada pelos custos operacionais. Um mercado como este possui a inevitável tendência de criar grandes sucessos pela homogeneização do consumo. Em mercados assim, com o comércio eletrônico, as operações ficaram descomplicadas. Não mais se empacota, transporta e estoca CDs. As músicas agora são multiplicadas, transmitidas e reproduzidas de forma digital, com custos praticamente nulos de armazenagem e distribuição. Com isto obras mais diversificadas, voltadas para públicos menores e especializados se tornam competitivas em termos de preços e a oferta se torna infinita.
Não se tem ainda uma conseqüência final do fenômeno que está sendo estudado por especialistas num novo livro, chamado de Cauda Longa 2, na qual se defende que a soma dos mercados segmentados em determinados setores pode produzir receitas superiores às de uma rede de supermercados como a Walt-Mart. A questão é saber que ramos do varejo se adaptam melhor ao processo da Cauda Longa e qual a rentabilidade mínima para garantir a sustentabilidade de um site de comércio eletrônico. Não se trata de uma tarefa fácil nem que seja resolvida logo, mas já existem avanços neste sentido. O certo é que o fenômeno da cauda longa é uma característica dos nossos dias.

quinta-feira, outubro 26, 2006

O PARASISTISMO OFICIAL

Lulla da Silva, quando chegou ao governo, não tinha, a rigor, plano algum. No máximo uma cesta de idéias de como governar o país. Com a pasteurização do “Lullinha Paz e Amor” de Duda “Dusselford” Mendonça ganhou. E, por sugestão dele, que precisava de um argumento forte de propaganda, o neo-presidente se apegou a um tema que só raspava: acabar com a fome. Criou o carro-chefe do programa Fome Zero que, mesmo herdando de FHC toda uma rede de política social não saiu do papel. Vieram os grandes escândalos que começaram com Waldomiro Diniz, continuaram e se aprofundaram com os empréstimos falsos do PT, com o aparecimento de Marcos Valério e o incomensurável e jamais medido pagamento do “Mensalão”. E foi o que se viu: centenas de parlamentares e companheiros atolados até a tampa, mas passou. Tudo passa. Quando tudo parecia entrar na senda do esquecimento aparece Marinho pegando a propina dos Correios e Roberto Jefferson, o do cheque em branco, botou a boca no mundo revelando que a mãe da corrupção estava no Palácio do Planalto. Caiu José Dirceu, José Genoíno, com dólares na cueca, Gushiken, Marcelo não tão Sereno, Silvio Land Hoover Pereira. Até se pensou que era demais que era o fim. Não era. Apareceu o escândalo da República de Ribeirão Preto, com a mansão e Mary Córner no meio, que desembarcou na quebra do sigilo de um pobre caseiro que revelou (imagine!) que haviam se juntado o ministro Palocci, o presidente da Caixa e assessores até do Ministério da Justiça para desmoralizá-lo. Até na eleição apareceu, com a copa, cozinha e secretário do presidente, a compra do fajuto dossiê Vedoin. Lulla fragilizado (e sem que o retirassem do governo como era devido) com o poder da caneta na mão se pôs a fazer o que sabe: política. Comprou os apoios que pode (e a presidência sempre pode muito) e resolveu partir para agradar a massa. Lulla, no entando sempre faz o oposto do que diz. Assim se disse que ia acabar com a fome, na verdade, resolveu perenizá-la para uso político. É o caso do programa Bolsa Família. Acabar com a fome (não é fome. Pessoas com fome morrem, mas insuficiência alimentar) é eliminar as causas que levam onze milhões de famílias - especialmente no Nordeste - a não ter como viver com a dieta recomendada como mínima pela ONU. Ou seja, terem acesso a emprego e renda. Serem cidadãos pelo seu trabalho. Não é receber mensalmente cestas de alimentos básicos. Só em situações especiais de calamidade se faz isto. A continuidade indefinida de um projeto assim conduz ao conformismo e à inação. Afinal por que trabalhar se a comida chega de graça? Aceitar como válida a tese da manutenção permanente de um programa assim (cujos males Malthus já apontava mais de 200 anos atrás) é considerar a fome socialmente irremovível. E como a oferta de recursos sem esforço de qualquer coisa gera sempre uma procura crescente a cada dia vão surgir no país todo um número cada vez maior de pessoas que não querem trabalhar em busca das cestas mágicas. È a consolidação da política peleguista de Lulla da Silva nos sindicatos e ONGs na sociedade. E, como sempre, paga com o dinheiro dos impostos públicos. É o “parasitismo oficial”, a perpetuação de um grupo político pela venda oficial do voto disfarçado de política social. Quero minha cesta básica tipo classe média.

domingo, outubro 15, 2006

DE ONDE VEIO O DINHEIRO?

Na verdade nunca vi o PT como um partido muito diferente dos outros mesmo que tenha começado, supostamente, entre os metalúrgicos. Trabalhadores mesmos não criam partidos, trabalham. E sempre me cheirou mal sua insistência na questão ética. A honestidade deve ser um valor intrínseco e não ser apregoada como monopólio de alguns homens, espécie que se sabe sempre frágil diante do poder. E assim foi.
Lula eleito logo surgiam indícios de que seu governo não seria muito diferente moralmente falando, mas foi. Logo surgiu o Sr. Waldomiro Diniz, assessor direto do Sr. José Dirceu, então Ministro Chefe da Casa Civil, recebendo propina de um empresário de bicho. E, na sua esteira, apareceu um gigantesco esquema de compra de parlamentares pelo Governo para compor maioria na Câmara dos Deputados. O caso também teve como detonador outro nomeado do governo flagrado pelas câmeras no exato instante em que aceitava suborno.
Da denúncia foi um passo para a queda de altas personalidades do governo intimas do presidente como José Dirceu, o Presidente do PT, José Genoíno; o tesoureiro do partido. Delúbio Soares; o secretário Sílvio Pereira, do famoso Land Rover recebido de presente a troco de nada. E não parou: houve a quebra do sigilo do caseiro da mansão do Lago Sul brasiliense, conhecida como República de Ribeirão Preto, que levou o então ministro Antônio Palocci, e o presidente da Caixa Econômica Federal, Jorge Mattoso, a renunciarem, embora, agora, Lula diga que os demitiu. Todos amigos do presidente, do seu círculo intimo de auxiliares, inclusive o japonês Gushiken, envolvidos maracutaias tecidas dentro do Palácio. O presidente de nada sabia.
Não deu para ignorar, no entanto o parecer do Procurador-Geral da República que denunciou quarenta pessoas ligadas ao governo por formação de quadrilha inclusive taxando-os de "organização criminosa". Quando se pensava que, pelo menos, na época eleitoral iriam parar não é que aparece a distribuição ao PT de cartilhas da Secretaria de Comunicação da Presidência, um abuso que já comprometeria a legitimidade das eleições e caracteriza o uso da máquina pública. Não foi o bastante. O hábito do cachimbo entorta a boca. E, quase na hora de votar, surge o escândalo do Dossiê Vedoin com figuras como as de Freud Godoy, assessor pessoal do Presidente desde 1980; Jorge Lorenzetti, churrasqueiro da família; Oswaldo Bargas, marido da secretária particular e o próprio Ricardo Berzoini, presidente do PT, mas o presidente, coitado, novamente, de não sabia de nada sabia. Ou seja, é impossível confiar num dirigente que nada dirige nem de nada sabe, se formos acreditar nele. Se não acreditarmos é usar a lei para retirá-lo do cargo independente de eleição. Não se trata de golpe como dizem os petistas. Golpe é usar e abusar como fazem de ultrapassar a lei em proveito próprio. Há razões jurídicas fortes para a impugnação do PT e de Lula. Golpismo é querer que se ignore que a cúpula do partido, no mínimo, pretenderam acabar com a oposição e que utilizam de tudo para intimidar e se manter no poder a qualquer preço para impor, de forma solerte, ao país idéias anacrônica e o atraso. E continua sem resposta a questão principal: de onde veio o dinheiro? É impressionante o descaso com uma pergunta tão importante. Afinal esta eleição terá sido fraudada se não existir uma resposta de onde veio R$ 1,75 milhões. Como já se sabe que foi o PT, seu dirigente maior, o senador Mercadante, o circulo intímo do presidente e o diretório de São Paulo que estão envolvidos a eleição de Lula não terá nenhuma legitimidade se não for respondida a pergunta crucial: de onde veio o dinheiro?

domingo, outubro 08, 2006

A ILUSÃO DA PROPAGANDA

FHC BATE LULLA NOS PROGRAMAS SOCIAIS
Nos últimos tempos a capacidade de fazer propaganda do governo Lulla da Silva tem levado, boa parte por oportunismo, os meios de comunicação a comer moscas. Muitos repetem, acritícamente números que não se justificam em relação aos programas sociais. Em particular não dizem que, no governo FHC, entre 1995 e 2000, foi criada uma rede de proteção das classes mais pobres com 12 programas sociais diferentes, para fornecer benefícios regulares para 37,6 milhões de pessoas pobres (9,8 milhões de famílias). Os recursos utilizados para tal, em 2002, foram acima de R$ 30 bilhões. Este valor ultrapassou o total arrecadado com o Imposto de Renda no país, da ordem de R$ 20,2 bilhões.O Bolsa-Escola, o Vale-gás,o Bolsa Renda, o Bolsa-Alimentação, o PETI, todos são filhos do programa Comunidade Solidária, que garantia até 90 reais mensais às famílias, só que de forma diferenciada, por exigir reciprocidade dos assistidos. Em 2001 também foi criado o Fundo de Combate à Pobreza que garantiu recursos para esses programas. O que fez o governo Lulla ? Depois do retumbante fracasso do Programa Fome Zero, juntou os 12 programas de FHC num só rebatizando-o de Bolsa-Família. Qualquer medição isenta vai verificar que, com o nome atual de Bolsa-Família o programa atinge 11 milhões de famílias (somente 2 milhões a mais que os programas de FHC ). E se gastam os mesmos R$ 50 bilhões de antes. Apenas cada família recebe, em média, menos. E, aqui o lado negativo de péssimo efeito social, as pessoas recebem para não fazer nada! Este foi o grande avanço de Lulla: estimular as pessoas a se acostumarem ao assistencialismo. Alckmin, e daí seu desastre eleitoral, no Nordeste, quando diz que vai manter mais exigir contrapartida. É um tiro no pé. Eles estão acostumados a receber em troca de nada. A ironia é que esta é a grande realização do governo Lulla da Silva, seu maior cacife.
Logro semelhante é vendido em outras áreas. Veja, por exemplo, a saúde que atendeu, em 2002, 54,9 milhões de pessoas pelo programa Saúde da Família, ou seja, um em cada três brasileiros. As equipes do programa eram 328 em 1994, passando para 16.657 em 2002, um aumento de praticamente 5000%. Os agentes comunitários de saúde passaram de 29 mil, em 1994, para 174 mil em 2002. O projeto de lei dos genéricos virou lei, em 1999, mas no final de 2002, já existiam 696 medicamentos genéricos registrados,envolvendo 37 laboratórios. Cerca de 95% do mercado passou a ser atendido com os genéricos, em média, 40% mais baratos. Divulgados em maio de 2002, os resultados do censo 2000 apontaram uma queda histórica na mortalidade infantil brasileira ao longo da década de 1990. A redução foi de 47,8 óbitos por mil nascidos para 29,6. A expectativa de vida passou de 63 para 69 anos. Também aqui os programas de saúde do governo Lulla sé mudaram de nome, porém são a continuidade, os mesmo de FHC. Não mudou absolutamente nada. Só gasta muito mais com a propaganda de resultados que, a rigor, são frutos da gestão passada. Não é diferente na educação, pois, em 2002, o país tinha acima de 97% das crianças de 7 a 14 anos na escola, contra 88,6% em 1993.Entre 1994 e 2001, as matrículas no ensino fundamental cresceram 12,7%, um total de 3,3 milhões de matrículas a mais. As matrículas no ensino superior oficial cresceram de 971 mil em 1994 para 1,8 milhões em 2000.O governo FHC criou o FUNDEF para incentivar e melhorar o estudo fundamental .Que fez o governo Lulla? O PROUNI que fortalece o setor privado pagando com dinheiro público o estudo de pessoas em escolas particulares. Lulla, na campanha ainda, anunciou a criação do FUNDEB, que é o FUNDEF ampliado. O FUNDEB não está implantado até hoje. Nem é preciso lembrar a razão: Lulla demitiu seu ministro de Educação, Cristóvam Buarque, por telefone. Qual o motivo? Ele criticava o governo por falta de verbas para a educação e não concordava com a política educacional de Lulla da Silva. E quem conhece mais de Educação? Sabe quem diz que o governo Lulla gastou menos com o social do que o governo FHC?
O professor da Unicamp e ex-secretário de Marta Suplicy, Marco Pochmann portanto um petista de carteirinha, mas intelectual correto, que no artigo GASTO SOCIAL E DISTRIBUIÇÃO DE RENDA NO BRASIL- disponível em http://www.unicamp.br/unicamp/unicamp_hoje/jornal/PDF/ju288pg02.pdf não deixa a menor dúvida que o governo Lulla é muita propaganda e pouca realização.

sábado, setembro 09, 2006

A PÉSSIMA NOVELA DA VIDA REAL

Política é como o tempo. Muda assustadoramente, mas mesmo o tempo é possível se preparar para ele ou não. A nossa oposição ao governo Lulla da Silva, se pode ser chamada de oposição, é, no mínimo, uma oposição dorminhoca para não dizer omissa. Pegou Lulla de ceroulas e com as marcas de batom, e não o tirou do poder achando que bastava sangrá-lo, desconsiderando o imenso poder político e financeiro que é a presidência da República. Deu condições ao inimigo de praticar esta imensa fraude de marketing e de imagem.
O mais terrível e maior sinal de incompetência, se bem que muitos com uma má fé calculada derivada de que só pensam em dinheiro e muitos são vampiros, mensalões, sanguessugas e compradores de votos, só pensaram na própria pele e no modo de dominar o mercado eleitoral. Não são mais parlamentares. São negociantes de interesses, traficantes de benesses, daí a reforma eleitoral que foi uma fraude em favor do governo, que usa o dinheiro público, e dos candidatos ricos, que usam o dinheiro público e particular. Nunca uma eleição terá sido tão sem representatividade, tão comprada, embora ainda alimente a suspeita de que o povo não é burro e há de dar o troco. O silêncio geral pode ser um sintoma da rejeição popular.
Acabaram com qualquer tipo de mobilização. Os comícios, despidos dos shows, não atraem ninguém. As festas públicas, as reuniões do povo nas ruas, com a perseguição até a quem distribui um guaraná e um sanduíche, tornam qualquer movimentação maior um perigo para as candidaturas. Proibiram os candidatos de distribuir camisetas, brindes e bonés, de utilizar música nos palanques, de criar formas de levar o povo para as praças, de usar computação eletrônica e outras coisas mais que poderiam animar as campanhas. Só não proibiram mesmo de comprar voto. E é o que os candidatos tem feito: um verdadeiro leilão dos supostos donos de votos que incluem chefetes políticos, prefeitos, vereadores e líderes de associações de bairros e linhas rurais. Que deitam e rolam. É uma eleição para quem tem dinheiro. Ou o candidato compra ou não terão votos. Diziam que iriam baratear as eleições, porém esvaziaram o debate, deixaram as eleições nos jornais e, principalmente, nas televisões, onde o governo que financiou quase todas TVs, revistas, grandes jornais, aparece sozinho. Tudo redondinho e centralizado para reeleger Lulla da Silva, o pai dos bancos. Basta ver a derrama de dinheiro o rodízio das pesquisas desavergonhadas. Tudo fazem para idiotizar a eleição, e com a ajuda do analfabetismo, da marquetagem e do jornalismo pago a peso de ouro, transformar a eleição numa novela para levar o país a mais quatro anos de atraso. Ou, com o descalabro, ao impeachment de Lulla da Silva. De qualquer forma é uma novela sem garantia alguma de final feliz.

sábado, agosto 19, 2006

EM BUSCA DOS JUROS PERDIDOS

Noam Chomsky, um filósofo do comportamento moderno, diz que a sociedade de consumo transforma todas as disputas "em competição destrutiva", de tal modo que se arrasam os valores da cultura, da sabedoria da tradição ou das ciências e das artes. O que importa mesmo é competir e ganhar, seja em que campo for, num fundamentalismo consumista de roupa nova. O problema sério é que em sociedades cada vez mais numerosas (e que tendem a multiplicar suas populações) não há como todo mundo ganhar. Em geral, é a regra do capitalismo, ganham os que têm mais capital.
É o que acontece nos tempos áureos dos bancos brasileiros com Lulla da Silva. Basta ver que soltaram foguetes, em primeiro lugar, os dois maiores bancos privados do país, Itaú e Bradesco, cada qual glorificando seu maior lucro. Porém o canto de vitória não ficou restrito ao setor privado. Logo, o Banco do Brasil, o de “todos”, deve ser uma referência ao fato de que o governo faz o que quer, bradou que seu lucro anual foi superior ao de todos os outros, os privados inclusive. As cifras são impressionantes. Mencionam-se 11 bilhões de reais com a boca cheia. Para quem servem esses lucros aí está um dos busílis da questão o outro, como dinheiro não é “fêmea”, não se reproduz por si mesmo, é o de como foi obtido e a que custo. Aí o bicho pega.
O banco, em geral, não tem dinheiro próprio e sua função maior é a de intermediação financeira. Deveria ganhar dinheiro na medida em que cumprisse sua função de tirar dinheiro de quem tem, e não vai aplicar, para as pessoas que não tem e vão aplicá-lo em investimentos, em aumento da produção da sociedade. Deveriam utilizar para estimular o setor produtivo e ser mais e melhor remunerado na medida em que este tivesse sucesso. O setor financeiro, como o governo, não cria nada. Quem cria é o setor produtivo. No governo atual o desestímulo ao setor produtivo vem dos juros elevados, da própria concorrência do governo pelo crédito interno. Bancos não possuem escrúpulos. Bancos desejam lucros maiores. E isto eles tem conseguido no atual governo com as elevadas taxas de juros que permitem um “spread”, a diferença entre a captação e o empréstimo, bem acima do normal. E, mesmo quando o governo baixa a taxa, não se move, quase nada, do custo do dinheiro no varejo. O ministro Guido Mantega diz que vai fazer medidas para baixar os juros. Nenhuma é nova ou vai ter o menor efeito. Mantega afirma que os bancos devem “lucrar menos”. É um grande apelo à “bondade” do setor financeiro. Como o Brasil já acredita, no plano externo, que as nações são boazinhas, não defendem seus interesses, é normal que o pensamento se internalize e os banqueiros venham a ficar bonzinhos também. O problema é o passado recente. A CPI do Banestados, os escândalos que envolveram o Banco Rural e o BMG nas negociatas do publicitário Marcos Valério. Animais ferozes não viram cordeiros da noite para o dia. E um governo que não tomou atitudes antes não vai tomar no fim do mandato. Acredite em Papai Noel, saci, pesquisas e que os juros vão baixar.

domingo, agosto 06, 2006

AGOSTO AINDA NÃO ACABOU

Uma pergunta que não me sai da cabeça é: quais os interesses por trás das espetaculares prisões da Operação Dominó em Rondônia? Não me venham falar que estão fazendo justiça num país em que a injustiça é a norma. Não me venham, por favor, dizer que o tempo, a hora, o local, a cobertura da imprensa, a época pré-eleitoral é um acaso. Nada é por acaso. Tudo foi premeditado, tramado e calculado. As prisões espetaculares, o aparato desproporcional (350 homens para prender 23 dos quais, como se comprovou, nenhum resistiria à prisão), aviões, câmeras, o passeio dos presos algemados, o linchamento moral sem defesa dos envolvidos. Não estou defendendo ninguém. Os culpados devem ser punidos. A questão é o modo, a forma, a espetacularização.
Se foi uma operação modelo, um castigo exemplar, então cabe perguntar: por que Rondônia? Em que Rondônia é pior, ou melhor, do que qualquer outro Estado em ética e corrupção? Será que por aqui nós somos mais corruptos? A resposta que posso dar é uma só: não! Se efetuada uma operação, como a que aqui foi feita, em qualquer outro Estado, talvez o resultado seja muito mais surpreendente. Não quero espalhar mais lama do que a espalhada, mas duvido que mais do que, com otimismo, dois ou três Estados passem no teste. E, talvez, olha que escrevo só talvez, escapem algumas instâncias federais.
A Operação Dominó foi excelente. Que a Polícia Federal merece parabéns ninguém duvida. A questão está além, muito além, dela, que é um instrumento. Aqui vale lembrar que algo semelhante e menos espetacular, foi feito, na eleição passada, quando prenderam o ex-senador Ernandes Amorim. O processo, depois de todas as prisões espetaculares, foi anulado. Amorim é candidato e deve ser eleito deputado. A Rede Globo, impiedosamente, passou semanas dedicando o “Fantástico” às fitas do governador Cassol com cenas dos deputados que o estariam extorquindo. Usou e abusou. Rondônia virou exemplo de corrupção nacional. Não foi por acaso e não adiantou. A podridão do “Mensalão” explodiu e sufocou o foco em Rondônia. Fim da manobra de despistamento. Não vai adiantar de novo. As luzes na periferia são para esconder a grandeza da corrupção nacional. Não vai dar certo de novo.
Se desejarem, de fato, passar o país a limpo é bom começar por cima. Pelo centro. Não será aqui que irão encontrar os pais e as mães dos G-Techs, dos sanguessugas, dos contratos superfaturados dos Correios, as fontes do “Mensalão”, o mau uso dos recursos dos fundos de pensões, a evasão dos dólares do Banestados, o nascedouro dos bilhões dos paraísos fiscais, os rombos pendentes de investigação no Banco do Brasil, na Petrobrás, em Furnas e outros que é fastidioso enumerar. Prenderam as piabinhas de Rondônia, em termos nacionais, pegaram os três P’s de novo. Que tal repetir a experiência em Brasília? E nem vai precisar de avião. Agosto ainda não terminou.

domingo, julho 23, 2006

O ESPETÁCULO DO CRESCIMENTO CHINÊS

O conflito do Oriente Médio, com Israel bombardeando o Líbano, foi, juntamente, com os possíveis movimentos inflacionários dos Estados Unidos, a fonte de incerteza que atraía a atenção da mídia e dos mercados e pressionavam os preços do petróleo, porém a grande surpresa mesmo proveio da China. É fato. De novo a China de novo surpreendeu o mundo. Ao contrário do Brasil, que teima em estacionar, a China teima em crescer. E, mesmo contra a vontade expressa de seus dirigentes, cresceu no segundo trimestre 11,3% e, no primeiro semestre um crescimento, este sim, espetacular de 10,9%. Sem contar que a produção industrial aumentou mais ainda com taxa de 19%, quase 20% de crescimento industrial.Ulá-lá-lá!Bem a China é a China. Excepcional sob todos os aspectos. Embora tenha um disfarce de socialista e uma suposta abertura capitalista, a rigor mesmo, é uma ditadura coletivista, um exemplo singular que não dá para comparar com nada nem ninguém. Seu gigantismo explica grande parte de seus problemas e das suas potencialidades. É uma economia mantida artificialmente. Seu crescimento atual tem a haver com exportação e não se pode esquecer que parte da exportação resulta dos níveis baixíssimos do custo da mão de obra, quase escrava e da falsa competitividade que do câmbio fixado. Também os interesses norte-americanos de controle político ajudam a moeda deles a ficar bem mais valorizada do que deveria e a acumular, este ano, 130 bilhões de dólares de superávit comercial, fora os 900 bilhões de dólares de reservas que possuem. Se utilizassem o câmbio flutuante sua competitividade pioraria e as exportações seriam reduzidas. Não farão, exceto se obrigados.
A China é uma equação com poucas soluções possíveis. Repleta de desequilíbrios não resolvidos. Com uma necessidade de democratizar a política e a economia, mas sem poder soltar as amarras, sob pena de propiciar uma explosão de consumo que não poderá ser satisfeita. Nem dá para discutir seus imensos problemas econômicos, mas se sabe que, de alguma forma, terão que buscar soluções, pois não poderão eternamente sustentar as contradições atuais. O crescimento chinês, portanto é uma benção e uma maldição. Com um agravante que é o de que, ao crescer, requer mais recursos de todo o planeta. Não somente petróleo, como carvão, sua principal fonte de energia, ferro, soja, carne e outros tipos de produto. Fora que, quando a China cresce, além de forçar o meio ambiente, ameaça vários países com a oferta de seus produtos. A China é um gigante que não pode andar sem pisar na grama. O problema é que não sabe parar também. Ou seja, crescendo, ou não, é um espetáculo cheio de problemas.

domingo, junho 25, 2006

A CRESCENTE ECONOMIA INFORMAL

O crescimento da economia brasileira tem sido, em média de 2,5%, quando muito, como se prevê, no presente ano, deve alcançar, talvez, 3,5%. É muito pouco para um país que, na expectativa otimista do ministro do Trabalho, Luiz Marinho, vai criar durante o governo Lulla da Silva 5 milhões de empregos (metade do prometido) quando precisaria, só para absorver a entrada de novas pessoas no mercado, 1,5 milhão/ano. Qualquer economista que se preze sabe a razão. Sabe que crescimento econômico somente existe com o aumento do investimento produtivo o que não ocorre, no Brasil, por culpa do peso do Estado que anda próximo de absorver 40% da renda produzida no país.
Esta carga tributária brutal, aliada ao excesso de legislação e à falta de crédito, são os reais entraves ao desenvolvimento. E se refletem na elevada informalidade das empresas. Se, como informa o Sebrae, uma pessoa leva em média 152 dias para abrir uma empresa para poder pagar mais de 60 tributos, taxas e cumprir, no mínimo, mais de 300 leis, decretos, portarias para, no caso de não ter sucesso, ainda passar dez anos para poder fechá-la (e pagando por não ter como fechar) qual o incentivo ao empreendedorismo e à formalização? Uma pesquisa em duas das áreas mais comerciais de Porto Velho como a Jatuarana e a Amador dos Reis, por exemplo, mostram que 44,8% das empresas atuam na informalidade. É um dado assustador, principalmente quando os empresários informam que não possuem interresse na legalização por conta da exagerada carga tributária, da burocracia e da própria falta de conhecimentos sobre a legislação. Cerca de 32% deles afirmam, inclusive, que pretendem ampliar seus negócios informais, porém, de forma alguma, cuidar da formalização.
No entanto o impacto desta economia paralela é muito negativo sobre os próprios empresários e consumidores. A economia não-formal gera distorções em cadeia. A informalidade anda, obrigatoriamente, de mãos dadas com a irregularidade não somente pro causa da evasão fiscal que provoca como também pela concorrência desleal, que prejudica os pequenos legalmente cadastrados, como por, em geral, utilizar mercadorias de baixa qualidade e desembocar na reprodução da ilegalidade nas relações de trabalho, de vez que, sem a formalização, toda a mão de obra que utiliza acaba por ser também informal.
O nó real da questão está em que, na sua grande maioria, se, de fato, se formalizar deixa de existir. Ou seja, não se pode exigir realmente que haja uma formalização forçada. Uma fatia econômica que já ocupa um espaço tão importante do PIB brasileiro não pode ser ignorada nem simplesmente coibida. É indispensável que, antes de perseguir, se prense em alternativas de cunho social. É preciso mudar a legislação, planejar formas de inserção e não fazer de conta que a informalidade não existe. O Estado tem obrigação de criar novas formas de lidar com a economia dita invisível antes que se torne maior que a visível.