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terça-feira, fevereiro 17, 2009

JARBAS RASGOU A FANTASIA



Por mais que a grande imprensa tenha minimizado a verdade é que, desde que, em junho de 2005, o deputado Roberto Jefferson, do PTB, denunciou a compra sistemática de parlamentares para servir ao governo Lula, no esquema conhecido historicamente pelo nome de "Mensalão", um político não conseguiu um efeito tão devastador quanto o da entrevista do senador Jarbas Vasconcelos à revista Veja. Afinal Jarbas não é um político insignificante nem um neófito. Já foi duas vezes governador do seu Estado e é um dos fundadores do seu partido e, ao contrário de Jefferson, não tem o intento de vingança nem é um homem que almeje muito mais do que já obteve na política. De fato, o que fez foi um desabafo de alguém que se cansou de ver o controle do Planalto sobre o Congresso que dança sob a conveniência do lulismo deteriorando ainda mais os costumes políticos e se afastando da ética e do bem público que deve ser o norte da política.
Claro que não iria citar casos concretos nem dizer nomes, aliás, dispensáveis, porém, meteu sem dó o dedo na ferida que não é apenas do PMDB, que não é segredo para ninguém que se trata mesmo de uma confederação de líderes regionais, todos com os seus próprios interesses onde predominam as práticas clientelistas. Não é um apanágio do PMDB como explicou Vasconcelos, mas, de todos os partidos fisiologistas que usam os cargos como instrumento de prestígio político e se especializam na “manipulação de licitações, contratações dirigidas, corrupção em geral". Nem mesmo é novidade que "Boa parte do PMDB quer mesmo é corrupção." O que salta aos olhos é que o senador denunciou com muito mais veemência o clientelismo explícito do governo Lula da Silva que quer se perpetuar, à la Chávez, alargando o Bolsa Família, como bem disse Jarbas “O maior programa de compra oficial de votos do mundo”.
O que, de certa forma, motivou o desabafo é a geladeira em que colocaram um homem com a experiência de Jarbas Vasconcelos à margem da política nacional enquanto outras figuras menores, por serem coniventes com um sistema corrupto, não contribuem para mudar absolutamente nada para o país. A amargura do senador foi extravassada pelo fato de que considera inadmissível Renan Calheiros, depois de ser apeado da presidência por um escândalo, voltar a ser líder e Sarney que considera sem “compromisso com reformas ou com ética" ser guindado à presidência apenas por servir para manter os partidos numa relação essencialmente clientelística. Jarbas Vasconcelos não atingiu o PMDB, mas, uma estrutura clientelística e corrupta de manutenção do poder que quer se perpetuar. Jarbas Vasconcelos rasgou a fantasia de eficiência de um governo que tem sido excepcional em marketing e medíocre em resultados.

quinta-feira, fevereiro 12, 2009

UMA PALHINHA...



NA FOGUEIRA DO DEBATE
A provocação está feita para todos que, de uma forma ou de outra, dependem das mídias, porém, afeta mais particularmente os jornais. Já, no Alto Madeira, de domingo a provocação veio sob a forma da matéria de Antonio Nilton que sob o título “A Imprensa morreu. Viva a nova Imprensa” em que defende a tese de que só haverá salvação para os meios de comunicação se, e somente se, houver mais investimentos, mais criatividade e preocupação com os leitores. É um bom veio a ser explorado. Ou seja, a preocupação com o futuro dos jornais é uma preocupação bem nossa.
Mas não só nossa como comprova a reportagem de capa desta semana da revista Time que aborda exatamente os tempos negros vividos pelos jornais. O autor da análise é pessimista, pois, trata-se de Walter Isaacson, ex-editor da própria Time, que enfoca os jornais americanos apresentando números que comprovam a queda de faturamento das empresas de mídia, enquanto, contraditoriamente, se constata o aumento do número de leitores, em especial mais jovens, que, normalmente, rejeitavam o formato de jornal impresso. Issacsoon trava uma luta intelectual tentando encontrar caminhos para que as empresas possam sair da sinuca em que se encontram derivada de que a tecnologia democratizou o acesso à mídia global, dificultando os mecanismos de faturamento. Ou seja, como se pode ter acesso às publicações do mundo inteiro num simples clicar de botão qual o sentido de pagar pela notícia? É partindo desta premissa que Isaacson considera que as empresas de mídia estão seriamente ameaçadas e a profissão de jornalista também porque- diz ele- logo as empresas não mais poderão pagar salários justos a seus profissionais e, sem fontes de renda, as empresas desaparecerão.
Bem, a premissa dele me parece complicada na medida em que seu raciocínio é o de que ninguém vai assinar uma publicação se pode lê-la on-line sem pagar um centavo. De resto, com a crise econômica, segundo ele, as coisas ficam piores. E há, lá e aqui, muitas evidências a favor deste argumento. Todo mundo sabe das dificuldades de grandes jornais, inclusive do The New York Times. Ou de fatos acontecidos recentemente como a suspensão das edições impressas do Christian Science Monitor e o Detroit Free Press que são agora somente on-line. No Brasil, os mais notórios exemplos são a Tribuna da Imprensa, do Rio, e a Gazeta Esportiva, de São Paulo – um tradicional jornal de esporte, que somente ainda continuam gerando conteúdo na internet. A posição de Isaacson é dogmática. Crê que foi um erro a liberação gratuita de conteúdo e sugere um tipo assinatura eletrônica via pay pal como o Wall Street Journal. Não creio que seja o caminho. Acredito que a questão está mais ligada à falta de diversidade, de adaptação à clientela, de qualidade e de circulação do que qualquer outra coisa. Cada caso é um caso, mas, há empresas que estão aumentando seu faturamento e circulação e exemplos de jornais que são distribuídos de graça mostram que a tendência é mais para o “di grátis” do que tentar lutar contra o inevitável que é a liberdade de informação e a tecnologia.

quinta-feira, fevereiro 05, 2009

A TRAIÇÃO É A MARCA DO ATRASO



Esta semana fiz duas leituras completamente diferentes. Uma do escritor recém-falecido John Updike, reproduzida pela revista Veja, do seguinte trecho: “Minhas amizades com autores e críticos tentando seguir carreira nos países comunistas e do Terceiro Mundo tornaram-me um apreciador das liberdades e oportunidades que gozo como americano. Eu amo o governo do meu país por sua tentativa de, num mundo tão precário, preservar uma ordem pacífica na qual o trabalho é possível e a felicidade pode ser buscada não para o bem do estado, mas num estado que existe para o nosso bem. Eu amo o meu governo no mesmo grau e medida em que ele me deixa em paz”. É um depoimento sólido de quem vê como é difícil ter, e valorizar, a liberdade política. Neste ponto, não posso deixar de ser um admirador da democracia norte-americana, sem igual em criar espaço para o cidadão. Como brasileiro sei como o governo pesa no bolso e na vida criando obstáculos para que se tenha uma vida melhor. Porém, aqui, Updike, toca num ponto fundamental: a construção de respeito às regras, de confiança social mútua, de respeito aos valores.
È o grande contraste em relação à outra notícia que li sobre as eleições dos presidentes da Câmara e do Senado. Nela houve um jogo de enganos e de traições. Claro que o homem trai seu semelhante desde os tempos mais remotos. Pode-se dizer que é um traço inato da humanidade. Mas, a vida em sociedade somente progride, somente cria o que nós chamamos de desenvolvimento quando passa a haver o cimento da confiança entre as pessoas. Todas as culturas condenam a traição por ser um sintoma de atraso, de falta de desenvolvimento inclusive mental. É emblemático o beijo de Judas na face de Jesus que tornou-se símbolo máximo da traição dissimulada. O apóstolo matou-se sufocado pelo peso da consciência e, mesmo assim, o termo “Judas” é sinônimo de “traidor”. È triste ver que as eleições para as presidências da Câmara dos Deputados e do Senado são exemplos de como trair virou uma fato normal na busca de objetivos. Claro que trair na política não é novidade. Em geral os políticos traem prometendo coisas que não vão fazer. Triste, porém, é ver a desfaçatez com que os parlamentares falavam na traição de colegas como estratégia para eleger seu candidato e não se vê indignação nem protestos da opinião pública com o jogo de traições na cúpula do poder nacional. È um péssimo sinal. Quando trair vira um valor, é sinal de que há algo de muito errado na nossa sociedade. É uma questão de princípios. Princípios? Isto parece uma coisa do passado quando se observa que um mesmo partido age, em dois lugares de forma completamente diferente, de acordo com os seus interesses locais. O que vale é o poder a qualquer preço. Pode-se mantê-lo, mas, condenando a sua própria sociedade ao atraso.

Ilustração: http://www.lepanto.com.br/Imagens/Judas2.bmp

sábado, janeiro 31, 2009

A ILUSÃO DOS FÓRUNS




Todo ano, já se tornou uma tradição, tanto o Fórum Econômico Mundial como o Fórum Social Mundial, um contraponto supostamente de esquerda ao encontro que é considerado como cúpula dos capitalistas, ocorrem nesta época. . O interessante é que este ano os dois ocuparam muito menos as páginas dos jornais, apesar da escassez de noticias que o primeiro mês do ano sempre tem. Uma parte porque as estrelas desapareceram, ou andam meios ofuscadas; outras porque os eventos perderam parte de sua novidade e da capacidade de fornecer notícias diante da crise econômica que, em geral, somente abre espaço para os indicadores ruins.
Por sinal o Fórum Social Mundial ainda recebeu mais atenção do que o quase desaparecido Fórum Econômico Mundial que recebe todo ano, em Davos, durante uma semana, políticos, empresários e líderes religiosos. Com eles, chegam sempre grandes ou pequenas comitivas, que ocupam hotéis, frequentam restaurantes, cafés e lojas e dão brilho e movimento ao evento. O que os fóruns, com certeza, patrocinam é mesmo turismo tanto que, em entrevista à imprensa, o prefeito de Davos, Hans Peter Michel, disse que o setor mais beneficiado é mesmo o hoteleiro, já que 20% do faturamento anual dos estabelecimentos resulta da semana do fórum econômico.
Não há dados sobre Belém do Pará, sede do Fórum Social Mundial, porém, com a inundação de delegações que incluiu chefes de Estados sul-americanos como Chávez, Evo Morales, Rafael Correa e Lugo, afora Lula acompanhado de 14 ministros e incontáveis assessores, a colheita deve ter sido farta tanto que houve pessoas que ficaram zanzando atrás de acomodações. De qualquer forma um evento que, afirmam os realizadores, teve mais de 90 mil inscritos e que foi realizado em dois grandes campus universitário, agita uma cidade mesmo grande como Belém.
É notável mesmo é que, pelo que consegui ler a respeito, as únicas coisas em comum que os dois eventos tiveram foram críticas e congestionamentos de trânsito. È bem verdade que, em Belém, a razão do congestionamento foi a falta de organização, um detalhe comum na nossa história, enquanto por lá, em Davos, uma cidade de 13 mil habitantes, é normal que não suporte a chegada de uma grande quantidade de veículos. Lá os habitantes fazem quase tudo a pé, embora tenha veículos.
O certo é que eventos como os fóruns mundiais são interessantes por criar a ilusão de que seja possível reunir o mundo para encontrar soluções, todavia, quem tem espírito analítico e crítico sabe bem que muito pouco se muda nesses locais. È mais um mis em scéne. A vida se resolve mesmo é no dia à dia. Na contagem minúscula dos minutos. Os grandes palcos são só para os comunicados.

ZIZI, O DESERDADO CULTURAL



Começo por trazer à baila a palavra “cultura” que provém da língua latina, mais precisamente do radical da palavra que é o verbo colo, no sentido original “cultivar”. Daí o cultus (particípio de colo) que tem o sentido de cultura da terra de onde derivou “cuidar de”, “tratar de”, “querer bem”, “ocupar-se de”, “adornar”, “enfeitar” e, por fim, o sentido moderno de “civilização”, “educação”; e também de “adorno”, “moda”, “decoração”. É dos alemães, porém, a derivação mais rica, a palavra “cultura” num sentido mais amplo, para referir-se ao cultivo de hábitos, interesses, língua e vida artística de uma nação. Creio que, na língua portuguesa, não exista nenhuma outra palavra com sentido mais abrangente do que a palavra “cultura”. Por cultura se entende muita coisa, mas, essencialmente a idéia de totalidade humana. O que faz a diferença entre os homens e os animais, uma nação e um bando.
A ampla concepção de cultura me fez saudar como uma magnífica idéia a construção, no lugar do antigo mercado, bem no centro da cidade, de um “Mercado Cultural”. Nem mesmo me abalou o fato, na época lamentado por muitos, de fechar o Bar do Zizi. Raciocinava que para fazer do que restava ali um local de cultura bem que o Zizi poderia fechar pelos 180 dias previstos para, depois, ele e a cidade receberem um lugar muito melhor. Como a velhinha de Taubaté eu acreditei. Acenaram com a isca da cultura e nos prenderam na armadilha da burocracia, da falta de cumprimento de prazos, em suma, da falta de compromisso com o que foi divulgado e acertado.
Como sempre irão nos vender a idéia de que se trata de mais um “transtorno” que tudo, depois, ficará melhor. Pode ser. Mas é preciso lembrar a angústia, o sofrimento, o custo pessoal do Zizi. Ele, como muitos de nós, acreditaram que a obra seria feita em seis meses, porém, já se arrasta por mais de um ano. Era para ser inaugurada em setembro. Setembro passou e marcaram para dezembro. Dezembro se foi. Quem conhece o Zizi sabe que o bar sempre foi a vida dele, por 45 anos. Não se trata apenas de um trabalho, mas, de um comportamento, de uma cultura que se encontra interrompida, parada no tempo. Zizi, por incrível que pareça, vai todos os dias, nos mesmos horários de quando abria e fechava o bar, até lá à obra na esperança de que possa voltar ao seu cotidiano, à sua vida normal. Alguns freqüentadores também e até esticam até o Manelão para se queixar da falta que o bar faz. O Zizi anda meio cabisbaixo, cansado de esperar. Pode daqui a pouco ter um troço de desespero, magoado com a indiferença que se tem em relação ao problema. Desesperado para que devolvam sua vida, sua razão de ser, sua cultura, enfim. É um homem sem raízes sem seu trabalho e sem seu bar. É tempo de inaugurar a obra paralisada. Antes que seja tarde demais e o Zizi desabe sob o peso imenso da burocracia que o tornou um deserdado cultural.

Ilustração: Site Gente de Opinião

segunda-feira, janeiro 05, 2009

POBRES ESCRITORES...


Escritor, um mendigo moderno

Foi feito, em Brasília, com escritores e colunistas do Congresso em Foco, Marcelo Mirisola e Márcia Denser, uma discussão, no último dia 19 de dezembro, um debate mediado pelo jornalista e professor Sérgio Sá, sobre os rumos da literatura contemporânea, no Espaço Brasil Telecom, em Brasília. Destaco algumas das afirmações controvertidas que saíram do debate 1) O escritor José Saramago, Clarice Lispector e Virginia Woolf são chatos; 2) Personalidades como José Carlos de Oliveira, Paulo Mendes Campos e Nelson Rodrigues provavelmente não teriam espaço nos principais jornais do país, que fecharam suas portas aos escritores brasileiros; 3) A falta de originalidade e de grandes talentos marca a produção literária atual; 4) O escritor brasileiro é um pangaré, que vive das migalhas garantidas por seus contatos; 5) Os mais inventivos autores nacionais contemporâneos são ignorados pela academia; e 6) Escritores não lêem uns aos outros e não há nada interessante na literatura contemporânea.
É interessante que não consigam ver nada de interessante. No fundo confirmam que, no mundo atual, chegamos ao ponto que o conforto e o excesso fazem com que as pessoas se confinem no seu mundo e só tratem do que lhes interessa. De certa forma é isto que acontece tanto com a academia, como com o jornalismo ou mesmo com os escritores. È a razão também pela qual quem tem opiniões sólidas não é bem aceito. De fato não é fato que não exista originalidade nem personalidades nem escritos interessantes. Há demais. Há como nunca houve antes neste país, para usar uma frase de um leitor eventual, mas, a grande realidade é que tanto a academia como a literatura se perderam nos seus próprios nichos. Não interessam a ninguém. E quando interessam, como é o caso de Paulo Coelho, é mal visto, apesar de todo o bem que faz à literatura. E, não sei, como alguém pode se dizer intelectual e não reconhecer que Paulo Coelho é interessante por mais que não possa permanecer nem ser considerado um gênio da literatura. Mas, se não é um Pelé é um Ronaldo, o Fenômeno.
Claro que o escritor brasileiro vive de migalhas. Só há uma profissão quando se consegue viver dela. E para ser escritor é preciso ser editado, é preciso ser distribuído e divulgado. Os jornais no passado iam buscar os escritores para melhorar sua qualidade e atrair publico. Os escritores, hoje, somente aparecem no lançamento dos livros e se forem objetos da mídia. É mais fácil um Big Brother qualquer chamar a atenção para um livro seu do que um bom escritor. A questão real é a de que até os próprios escritores, mesmo os melhores, vivem de outras profissões. Ser escritor no Brasil é ser mendigo de benesses e produto de espanto. Quando alguém apresenta alguém que escreve e diz este é fulano de tal, escritor, invariavelmente se responde:-Ah! É? Qual livro? Depois da resposta certamente terá que explicar ou dar seu livro, pois, não terá, com certeza, sido lido.

terça-feira, dezembro 30, 2008

REFLEXÃO DE FIM DE ANO



Os bons navegadores-dizem os velhos pescadores do meu perdido Ceará-são como os rios que contornam os obstáculos, simplificam a vida. Assim, logo depois de um momento em que, pelo menos em tese, deve ser de renovação da esperança, de renascimento, de lembrar que Jesus, seja santo, filho de Deus ou mito, nasceu numa manjedoura para nos salvar, não é hora de ficar chorando as pitangas ou lamentando os acontecimentos. A vida é bela, principalmente pelo inesperado. Por ser uma gangorra onde os sem memória e os sem escrúpulos sempre pagam pelo que fazem quando pensam que são espertos. Uma nação, é preciso saber, não se faz com discursos, espertezas, mistificação. Isto é o auto-engano. Uma nação se faz com pessoas que respeitam as regras, que compartilham projetos, ideais e criam um grau de confiança mútua nos quais as leis são simples confirmação de uma forma de viver que se vive.
Vivemos tempos sumamente interessantes nos quais parece ser impossível ser alguém socialmente sem se deixar vencer pelas teses vigentes de que o que vale é o poder a todo custo ou o ter a qualquer custo também. Até nas novelas globais os mocinhos, agora, são bandidos sejam da alta, da média ou baixa camada. Nunca antes neste país a falta de educação, de respeito aos valores humanos e ao bom comportamento social estiveram tão em alta enquanto se tecem loas aos “melhores índices econômicos de uma década”. Efetivamente não há nada de muito novo no que acontece. Estamos numa época em que os mais velhos, abusados e maus costumes fazem os novos dias. Numa época em que as palavras perdem o sentido para coonestar a farsa dos bons tempos que a mídia propala, mas que não chegam, de fato, ao povo, que iludidos por migalhas e pelo alargamento do crédito se embalam num consumismo sem base, que, como corolário, deve trazer, no futuro, somente dor e desespero.
A verdade verdadeira é que, por mais que a luta tenha sido grande e o caminho árduo, nós mudamos muito pouco do que herdamos de nossos pais. Pode-se até dizer que “ainda somos os mesmos” apenas vivemos um pouco diferentes e mais rápidos. É a certeza de tal rapidez que me embala nestes dias que são tão antigos e, ao mesmo tempo, tão novos. Já existiram inimigos, verdades e muros tidos como eternos que, como por encanto, sumiram e são, hoje, só lembranças. Este tempo atual, com todas as suas nuances de engano e de metamorfose, também irá passar. E é belo saber que os Judas, por mais punhados de moedas que recebam, não escapam do remorso e da história que, embora escrita pelos vencedores, somente recolhe os que resistem, os que lutam sempre, os indispensáveis. A vida é bela. A vida é renovação. E a renovação como o tempo é irreversível. Os ventos da liberdade e da consciência sempre soprarão para o lado da verdade de forma, companheiros, que espero, luto, sonho com o amanhã melhor. Se há uma coisa que é imprescindível não é ganhar, mas sonhar pela esperança que um dia há de colorir a vida depois dos tempos da escuridão. È imprescindível sonhar. E, mais ainda, sonhar o sonho impossível de um amanhã de paz, de liberdade e de democracia.

segunda-feira, dezembro 01, 2008

A LACUNA DA GRANDE TEORIA



Pós-Modernidade e teorias

O conceito de modernidade, sem dúvida, aparece inúmeras vezes em Baudelaire que a vê como "O transitório, o fugaz, o contingente, é a metade da arte, cuja outra metade é o eterno e imutável", de forma que a experiência moderna se move entre os dois pólos de referência. Por suposto, os que lhe seguiram, traçaram a pós-modernidade como o lado fugaz e contingente da afirmação de Baudelaire, ou seja, no fundo a pós-modernidade não seria algo inteiramente novo com respeito à condição moderna, mas, sim o seu aprofundamento. Na prática, invés de ruptura entre os dois conceitos há continuidade na medida em que, em ambos, se percebe que a efemeridade, a transitoriedade e a fragmentação são próprias de ambas as épocas.
O que se observa, quando se compara as categorias do modernismo e pós-modernismo, é que ambas são pouco explicativas fora do conceito de capitalismo. Na verdade, a rigor, a modernidade que os pós-modernos pretendem transcender é apenas a falta de explicação para fenômenos fragmentários que nem o estado da arte nem a razão instrumental conseguem enquadrar nos conceitos que manejam e se cria, até mesmo, uma aversão por qualquer projeto que procure uma explicação universal através do desenvolvimento da razão e da ciência por conta da incapacidade de ter uma teoria globalizante. A forma, então, de escapar da incapacidade da razão é a criação de teorias minimalistas, de metadiscursos ou a própria negação da ciência que demonstram somente uma crise da filosofia iluminista.
Neste particular, ressalte-se que, quando ainda se falava de modernidade, Adorno e Horkhemeir já ressaltavam a traição aos ideais, inclusive marxistas, na medida em que um projeto de libertação tornara-se um sistema de dominação. Outros, como Nietzsche, Shelley e Byron propunham a experiência estética subjetiva frente à razão objetiva como forma de fugir do dilema, mas, perspicaz, Benjamin ressaltava que metanarrativas sobre o capitalismo não são necessariamente excludentes com o reconhecimento do valor da fragmentação nem iluminadoras.
O problema real continua a ser que a fragmentação, a especialização, a diversidade, enfim os elementos que configuram esta coisa opaca e multifacetada que se convencionou chamar de globalização nos impede de ter uma visão dos processos gerais nos quais nos movemos e obstrui o pensar sobre o capitalismo, inclusive por ter explodido certos conceitos marxistas que seriam essenciais para se ter uma visão global. Isto é o que leva a muitos dos grandes pensadores, como por exemplo, Foucault e Lyotard, a um anarquismo estetizante e, mesmo, ao niilismo. É a falta de categorias com que pensar a realidade e a assimilação das diferenças pelo capitalismo que impõe o modismo também nas ciências como uma forma de ocultar e de renovar pela conservação. Contra o neoconservadorismo, o niilismo e a falta de pensar, que, no fundo, são o pós-modernismo, somente é possível o combate com uma grande teoria que, infelizmente, não se enxerga no horizonte.

sexta-feira, novembro 28, 2008

UM LIVRO DO PRESENTE



O “1808” DE LAURENTINO GOMES

O jornalista Laurentino Gomes, como resultado de dez anos de um trabalho de investigação histórica, conseguiu fazer com o livro “1808” um feito dos mais relevantes que foi o de transformar história em literatura de qualidade ou criar uma literatura histórica. Sob o pretexto de tratar dos 13 anos em que a Família Real Portuguesa residiu no Brasil, desde a sua saída de Portugal em novembro de 1807 até o retorno em julho de 1821, Gomes o que faz, de fato, é recuperar toda a atmosfera da época com maestria e rigor a ponto de mencionar acontecimentos que escapariam ao historiador profissional como a menção ao meteorito de Bendegó, encontrado em 1784 em Monte Santo, sertão da Bahia, exposto no Museu Nacional, no Palácio São Cristóvão no Rio de Janeiro, no qual reinou o único soberano europeu a por os pés em terras brasileiras e ainda aproveitando para acentuar o “esquecimento” de sua passagem por ali, o que não deixa de ser um traço típico da falta de memória nacional.
Memória que, de fato, não é jamais esquecida na medida em que, ao se ler o livro, percebe-se a razão para a forma caricata com que, hoje, se trata de D.João VI e sua corte. È, no frigir dos ovos, uma busca da fuga da origem dos pecados capitais que nós trazemos de berço. Não é à-toa que 1808 é resumido pelo autor “como uma rainha louca, um príncipe medroso e uma corte corrupta que enganaram Napoleão e mudaram a História de Portugal e do Brasil”. Quando, como é feito no livro, se volta ao passado é que nos deparamos com os tempos caricatos de agora vestido com roupas antigas, porém, as fortunas que se fazem da noite para o dia às custa do erário público, o desprezo pelas normas, o gosto por tirar vantagens e o imediatismo como panacéia para a falta de aplicação e de estudos transparecem como uma herança que, inutilmente, se procura apagar seja por esquecer fatos ou minimizar pelo ridículo o que poderia ser um aviso sobre as práticas do presente.
Quem lê com atenção verifica que, malgrado seus defeitos ou erros, D. João com sua vinda consolidou o Brasil como um país integrando suas regiões e modernizando, até onde foi possível, uma região que dormia em berço esplêndido. Sem dúvida entre os grandes méritos de “1808”, além de ser um livro que se lê de um fôlego só de tão gostoso, está o de resgatar a história da corte portuguesa no Brasil e de tornar acessível a muito mais leitores um pedaço da história brasileira que ainda continua precisando de muito mais luz. É um livro primoroso também pela minuciosa consulta a fontes e ao olhar caleidoscópico que o autor faz da época. Não precisa da recomendação de ninguém, mas, se me perguntarem subscrevo que se trata de uma leitura indispensável.

sexta-feira, novembro 21, 2008

O EU COMO ESPETÁCULO



Reflexões a partir de um grande livro

Estive no Sempre um Papo no Sesc Esplanada, no último dia 19, para ouvir Rômulo Avelar sobre gestão cultural o que é sempre um convite à reflexão. Não me prenderei ao evento em si nem ao saber reconhecido do mineiro que, para quem conhece ou teve ensejo de ouvir, qualquer comentário é dispensável. O livro de Avelar, O Avesso da Cena, é uma espécie de bíblia sobre a produção cultural, o que lhe empresta uma beleza e uma magnitude ímpar. Ocorre que se trata de um “livrão” em todos os sentidos. Com uma belíssima capa, 490 páginas pode até ser usado, num grande desvio intelectual, como uma arma. Assim não teve como não surgir o inevitável comentário de um dos presentes que, pela quantidade de pessoas que o adquiriram, muitas das obras se tornariam um belo item de decoração, ou seja, teriam um destino que seria o avesso da obra. Uma coisa leva a outra.
È que vivemos numa época do fácil e do rápido, do fast-food e da literatura de notas. Hoje a grande maioria não lê mais nem os pequenos quanto mais grandes livros. Hoje se criou até mesmo horror às longas ficções que fizeram a glória dos escritores oitocentistas. Não se tem mais tempo ou disposição para ler, porém, contraditoriamente, sempre aparece tempo para acompanhar um caso de seqüestro ou a briga de casal das celebridades midiáticas ou fatos similares que parecem novelas, em que a vida cotidiana surge ficcionalizada e se nutre da curiosidade que a vida alheia sempre desperta. Ibope certo como é o caso dos “reality-shows”.
Chama a atenção o fato que o excesso de espetacularização ande acompanhado pelo desejo de realismo. O marketing que se apresenta como informação verdadeira é cheio de charme e, de certa forma, se ancora na solidão como um ingrediente fundamental da vida moderna. Não por acaso é uma solidão que quer ser espetáculo, que não quer se sentir só e busca as luzes seja das lentes das câmeras ou de uma webcam caseira. A verdade é que é uma solidão que quer testemunhas, que precisa da platéia para se sentir viva, porque, no mundo do espetáculo e da visibilidade, não ser visto é não existir. Esta a razão do desespero que leva muitas pessoas a se mostrar, a querer ser visível a qualquer preço, espetacularizando o próprio eu e tornando sua intimidade o espetáculo. A leitura perdeu o espaço da ficção para a imagem. E a imagem precisa do olhar alheio para se confirmar como existente, ou seja, a subjetividade desaparece; desaparece o estar só na medida em que não há mais a interioridade como forma de construção do mundo e eixo da existência. Hoje só é o que se vê. As diferenças entre a essência e a aparência se perderam no meio do espetáculo. Só há a encenação, o parecer, as imagens que precisam do avesso da cena na vida real. O eu é uma marca que precisa ser cuidada. Não por acaso se fala em cuidar da imagem e cuidar da imagem é aparecer. É preciso aparecer para ser alguém. E um grande livro leva muito tempo para ler. Só se aparece com ele nas cenas de novelas.

quarta-feira, novembro 05, 2008

CRIATIVIDADE PORTOVELHENSE



Turista de shopping

Que Rondônia é um estado em formação, um estado jovem, ninguém duvida. Porém, também já está criando uma tradição, festas, ditos, costumes e falares que são bastante típicos e mostram nossa adaptação e criatividade. É evidente que esta cultura em formação é mais forte em regiões mais tradicionais como Guajará-Mirim, em cidades ribeirinhas menos influenciada pelos migrantes, mas, também em Porto Velho, uma capital marcada pela tradição cosmopolita mesmo com a improvisação urbana e de infra-estrutura que ainda apresenta. Porto Velho ainda é a menina-moça cheia de espinhas que poucos adivinham será modelo internacional.
Especificamente em Porto Velho a mistura de raças, costumes e falares é um traço típico de uma cidade que já começou internacionalizada. Não se pode nem se deve esquecer que, quando se idealizou a cidade para apoiar a Estrada de Ferro Madeira Mamoré, foi criado um núcleo urbano moderno com água tratada, energia elétrica, saneamento e até jornal em inglês que, na sua época, era mais organizada que o Rio de Janeiro, então capital do país. Não há dúvida que há contribuições, em especial lingüísticas de todos os lados, todavia, por tempo de serviço acabou prevalecendo às colaborações que vieram dos nossos vizinhos nortistas, o Amazonas, o distante, mas influente no passado, Pará e, mesmo através deles, de estados do Nordeste. Há uma herança, que já foi mais evidente, na fala cantada do porto-velhense, no sotaque local, dos nordestinos, especialmente os cearenses. Expressões como o nosso tradicional “quissó”, ou seja, quente “pra danar” (demais) é característico do Ceará, tanto como o conhecido “ramupubanhu (= vamos pro banho) que agrega o “ramu” (vamos, cearense) ao banho (nosso) que, por lá, até por falta de água não é comum. Do mesmo berço provém expressões como “leso” (abestalhado) ou se “lascar”, que não é se partir em pedaços e sim perder o rumo, a direção, ficar perdido para não cair no palavrão.
Há muito mais, contudo, não me guia fazer uma incursão pelo falar portovelhense e sim louvar sua criatividade e adaptação que é famosa pelo “saquinho”, a tecnologia que foi usada para não precisar usar os cascos de refrigerantes. É uma prova de que somos mais antropofágicos do que os modernistas poderiam imaginar, mais criativos ou iguais aos japoneses brasileiros. Agora, por exemplo, damos mais uma prova disto com a inauguração do Porto Velho Shopping. Não é que aproveitando a oportunidade alguns empreendedores criaram, a partir da periferia, as excursões para o shopping! Pois é. São uma realidade os ônibus fretados especialmente para levar pessoas para conhecer e fazer compras nos shoppings e, em alguns, até guia e orientação já existe. Em que outro local do mundo seria possível criar turista de shopping? Só mesmo em Porto Velho.

terça-feira, novembro 04, 2008

O REAL VAZIO DA AMAZÔNIA


A Amazônia sem projeto
Ninguém que pensa sobre a Amazônia pode deixar de reconhecer que há uma lacuna entre o fervor religioso do ambientalismo e de suas teorias de desenvolvimento sustentável e a realidade do primitivismo da forma como a Amazônia continua a ser ocupada. Inclusive também é muito pobre a perspectiva que oferecem para os amazônidas de aceitar que as terras em que vivem virem parques para benefício da humanidade sem contrapartida para seus desejos de desenvolvimento ou, como tentou, e ainda tentam implantar, algumas ONGs uma área dividida em grandes reservas também sem atividades econômicas para usufruto delas e de algumas tribos indígenas numa reprodução ampliada da falta de bom senso de Roraima na qual o Estado se tornou menor do que a reserva indígena.
Não é, certamente, este o caminho que os amazônidas desejam. Em especial os amazônidas de Rondônia, do Mato Grosso, do Pará e de Tocantins, para só citar os mais visados, que desejam a preservação sim, porém, com direito ao desenvolvimento. E isto é possível. Não o é, todavia, com a completa falta de respeito que se tem tido em relação aos nossos pensamentos e as nossas vidas. A grande realidade é que em gabinetes e em mesas de bares todos dão palpites ou até criam movimentos para “salvar a Amazônia” como se, entre nós, não houvesse pessoas normais, capazes, em muitos sentidos muito mais capazes dos que desejam solucionar nossos problemas, e a aqui houvesse um imenso vazio de cultura. Não é assim. Em Rondônia, já na década de oitenta, por exemplo, um grupo de técnicos locais gerou o que seria uma solução: um zoneamento econômico ecológico. Aliás, desrespeitado, rasgado, renegado e desprezado ainda resta resquícios de uma experiência que, hoje, já tem por volta de vinte anos e que, para inglês ver, os órgãos federais dizem que é uma forma de solução. E é, mas, é preciso que existam efetivamente os zoneamentos que não sejam as peças de ficção que servem meramente para o discurso que encobre apenas a criação de restrições para as atividades produtivas na Amazônia.
A Amazônia continua a ser a grande esquecida da realidade brasileira. O discurso e a prática que, hoje, continua a existir, piorado, diga-se de passagem, é o de que não se pode desmatar, que é preciso preservar, mas, ninguém explica nem busca produzir formas para as pessoas sobreviverem e melhorar de vida. O resultado é o de que entra mês e saí mês e somente se faz a exaltação ou a reclamação sobre os dados de desmatamento. Tudo vão. O desmatamento, no quadro atual, é inevitável. Sem criar um zoneamento de fato, sem aumentar os recursos para pesquisa, sem fomentar a vinda de pesquisadores, sem criar projetos efetivamente viáveis, sem ouvir e escutar as vozes da Amazônia, sem criar formas das pessoas terem emprego e renda, o lenga-lenga da preservação só servirá para que as Marinas e os Mincs apareçam na mídia como salvadores da pátria, de uma pátria que nunca será salva. É preciso, urgentemente, um projeto real para a Amazônia. E acabar com discursos vazios e sem sentido.

terça-feira, outubro 28, 2008

O PESO DECISIVO DA MÁQUINA PÚBLICA

A mudança é o que deve caracterizar o estado democrático. O verdadeiro democrata é aquele que, mesmo estando no poder, procura realizar a vontade do seu povo e não se eternizar no trono. Compartilho da opinião de que se não há mudança não há é mesmo política. Há a imposição de um pensamento único, de um poder único que, em geral, ignora os desejos da comunidade seja de que haja uma saúde melhor, um transporte público e uma coleta de lixo de qualidade ou, simplesmente, que não mudem o nome ou a mão de uma rua sem que a vontade da comunidade seja ouvida. Assim, por definição, entendo como o filósofo francês Comte-Sponville que a "a política é como o mar; não pára de recomeçar". Por tal razão entendo que a reeleição (que poderia até ser um instituto útil) nas condições atuais é a anti-política, uma opção que, se não for mudada, tende cada vez mais a impedir a mudança.
E quem comprova isto é a história. Basta ver que, desde que aprovada a emenda da reeleição em 1997, que permitiu que chefes dos executivos federal, estadual e municipal pudessem concorrer a um segundo mandato consecutivo, os índices de recondução somente têm aumentado. Se, nas primeiras eleições (em 2000 e 2004), mais da metade dos candidatos que concorreram à reeleição obtiveram êxito quando consideramos a última, sem contar com as disputas do 2º, os índice de prefeitos reeleitos alcançou 70%! E, como se observa, o Estado do Ceará é um exemplo, recordista da recondução de prefeitos com 75% reeleitos, quanto mais pobre mais fácil a manipulação do eleitorado. Será que a administração dos prefeitos é tão boa que de cada dez prefeitos 7 tenha sido reeleitos? Claro que não. A máquina pública neste contexto é uma arma poderosa, principalmente, depois que inventaram o clientelismo oficial dos bolsa famílias. Afora que, nunca antes neste país, existiram tantos cargos comissionados que, como se sabe não querem perder a boquinha, logo foram os primeiros a serem flagrados balançando bandeirinhas nos pit-stops, com gosto ou sem gosto. Sem contar que a intensa propaganda paga que anunciavam os maiores programas do mundo que, se analisados, seria possível verificar possuem resultados medíocres ou um pouco pior.
A grande realidade é que o eleitor ao reconduzir um prefeito, um governador ou um presidente não possuem os mínimos dados para avaliar o seu desempenho. Não se lembram quais foram as promessas do passado nem avaliam o que melhorou ou o piorou. Se há, ou não, melhorias efetivas na saúde na segurança ou na educação.Se o fizessem veriam que os altos índices de reeleição não estão associandos a boas gestões e sim a muito mais dinheiro, mais propaganda e mais clientelismo. Embora esperando que não aconteça é possível que, com a crise mundial, os prefeitos recém-eleitos tenham com comprovar uma maior capacidade para gerir os bens públicos num período de maiores dificuldades e menos recursos. Será uma prova de fogo. Por ora, o segundo turno está aí comprovando com a eleição de Kassabe, Paes e Márcio, o que pesou mesmo foi a máquina pública.

Ilustração: www.rdnews.com.br

segunda-feira, outubro 27, 2008

UM TITÃ DOS NEGÓCIOS

A Marca de Farquhar

Sem dúvida que Percival Farquhar é uma figura controvertida. O que não se pode negar, no entanto é que foi um visionário com o desejo de estabelecer, o que até hoje não foi feito, que é implantar um sistema ferroviário que abrangesse toda a América Latina. Inegável também que, para um filho de quacres que se formou em engenharia pela Universidade de Yale, naquela época ter um grande número de ferrovias no Brasil, de estradas de ferro na Rússia e minas de carvão na Europa Central, além de engenhos de açúcar em Cuba, não era uma tarefa fácil. No Brasil historiadores apontam que tornou-se o maior investidor privado do Brasil, entre 1905 e 1918, e que seu império se rivalizou com o do Conde Francisco Matarazzo e com o de Irineu Evangelista de Sousa, o Visconde de Mauá. E, sem sua ajuda financeira, Assis Chateaubriand não teria feito seu império de comunicações.
Uma acusação que lhe é feita é a de que suas empresas viviam de favores públicos, como se não fosse o modo de agir da época. Em razão dos governos serem muito intervencionistas se tornava impossível fazer grandes projetos sem sua proteção. O que não se diz é que graças a sua iniciativa surgiram inúmeros serviços públicos nas áreas de gás e iluminação, telefonia, hotelaria, madeireiras e inclusive a Vale do Rio Doce, bem como portos e ferrovias. Daí não ser de espantar que digam dele que "teve mais fome de terras do que qualquer personagem da história da América Latina desde o tempo dos incas" (palavras de seu biográfo Charles Gauld). Para quem, como ele, levantava altas somas para financiar seus projetos (dizia-se capaz de financiar qualquer coisa) é evidente que também foi muito hábil na autopromoção de sua imagem, sempre se esforçando para aparecer na imprensa como sendo um exemplo de capitalista norte-americano altamente bem sucedido, um ícone do empreendedorismo, o que não podia deixar de lhe render alguns admiradores na mesma proporção que despertava inveja e até mesmo ódio. Um estrangeiro de sucesso em países alheios, e com idéias próprias, não era para muitos o melhor dos visitantes, principalmente, com negócios rentáveis. E, como Charles A. Gauld, reconhece "O gênio de Farquhar estaria mais do lado da visão e da capacidade de levantar dinheiro para expandí-las do que da administração eficiente e da economia de custos nas suas 38 empresas."
Sua chegada ao Brasil se deve ao distrato com o Bolivian Syndicate e ao compromisso assumido pelo governo brasileiro de construir a Estrada de Ferro Madeira-Mamoré, considerado “um empreendimento obscuro e assombroso, anárquico e absurdo”. Muitos alegam as mortes e os danos ambientais como seu legado, porém, julgam o passado com os olhos do presente. Percival Farquhar é uma figura polêmica, mas, sua grandeza se reflete em que sem seu empreendedorismo Porto Velho não existiria e, sem dúvida, o Brasil de hoje demoraria muito mais a ter os contornos modernos que já possui. Se foi um pirata, como diziam, foi um pirata com visão construtiva. Sua marca de empreendedor permanece muito além de sua vida.

quarta-feira, outubro 22, 2008

AS CRISES SÃO NORMAIS


NADA DE NOVO NO HORIZONTE

Quem entende de economia sabe que as crises são acontecimentos normais e esperados, embora não desejados. Não é de hoje que se estudam os ciclos econômicos, embora de uns tempos para cá, alguns entendam se tratar de um assunto superado. Mas, dizer ciclo já pressupõe profundos distúrbios na atividade empresarial. E, outra decorrência deles, costuma ser que, dependendo da predominância de pensamento, a solução que se propõe seja a de retornar as práticas antigas, ou, que os ciclos ditos “liberais” sejam seguidos por ciclos “estatizantes”, que dão lugar a novos ciclos “liberais” e assim por diante.
Não se pode negar que seja uma realidade histórica a de que a cada ciclo, dependendo de seu tempo, aumente ou diminua o grau de regulamentação e desregulamentação que é sempre desencadeado por crises econômicas. Basta lembrar que a política do "New Deal", do presidente Franklin Roosevelt e de John Maynard Keynes, foi, efetivamente, uma fase de maior intervenção do estado na economia em razão do desemprego e dos impactos da Grande Depressão. Keynes, mesmo raciocinando na intervenção na economia como um remédio de curto prazo, prescreveu volumosos gastos governamentais para recuperar o consumo e se sentiu bastante frustrado por Roosevelt adotar suas soluções, face aos problemas políticos, de forma bastante insatisfatória. Mesmo assim a economia recuperou-se e, até hoje, não se sabe bem o quanto se deve à intervenção ou à eclosão da II Guerra Mundial que importou no uso de toda capacidade instalada norte-americana e do uso das mulheres como força de trabalho.
Keynes, com o sucesso de suas teorias, dominou o cenário econômico mundial e seu pensamento foi incorporado e distorcido. A intervenção na economia que deveria ser transitória, de curto prazo, para seu desgosto se tornou quase um dogma com seus seguidores utilizando a metodologia das contas nacionais para gerir as crises e criar a filosofia do “estado desenvolvimentista” que é uma distorção do seu pensamento, ou seja, o uso do estado para criar o desenvolvimento nacional. Até a década de 70, o que pareceu ser produto das políticas keynesianas, foi absoluto nas políticas públicas, quase uma religião a ponto de se crer que as crises fossem coisas do passado graças ao monitoramento econômico por meio de modelos matemáticos. Somente com a crise do petróleo e o endividamento dos países, que implicou na retomada de um novo ciclo liberal, ou seja, criou-se o que se costuma chamar de “neoliberalismo” houve uma regressão da intervenção na economia e isto, no fundo, derivou da necessidade de uma alternativa para o esgotamento da capacidade dos países de investir.
Este novo ciclo levou ao excesso contrário com uma desregulamentação dos mercados financeiros nos anos 80 e a criação de inovações financeiras, que tornaram mais fácil captar empréstimos de somas cada vez maiores respaldadas em ativos recebíveis que estimularam o crescimento do mercado de crédito de forma exponencial. O mesmo aconteceu com a especulação que foi desvinculando os meios financeiros (derivativos e títulos similares) da economia real. É o fim de um ciclo.
Os ciclos mostram como a economia está longe de ser uma ciência exata e, como depende dos homens e de fatores que ainda não se dominam e, talvez, nunca se dominarão. Não é diferente, aliás, de qualquer outro tipo científico de conhecimento humano, daí que as formulas, as equações e conhecimentos não escapam do reino da incerteza. É claro que, agora, vozes bradam por regulamentações e criticam o excesso de “liberdade econômica”, no entanto, uma coisa é fazer a autopsia do morto; outra é evitar a morte do paciente. O capitalismo está longe do fim. O que se verifica apenas é o que sempre existiu no reino da ciência da produção humana: as crises somente se explicam depois que o estrago foi feito.

terça-feira, outubro 21, 2008

O JORNALISMO SEM ESSÊNCIA

Em busca do jornalismo perdido

Sinceramente sempre tive uma grande atração pelo jornalismo. Aliás, para dizer a verdade começou mesmo pelo rádio com “Jerônimo, o Rei do Sertão” (sei que nem é coisa da qual se fale, pois, já tem mais de cinco anos!). Era pura ficção assim como “O Balança, mas não cai” era comédia. Gostava muito de futebol e futebol, naqueles tempos de Fortaleza, era Paulino Rocha e Gomes Farias (olha o museu). Porém, fui mesmo saber o que era bom jornalismo, fora das páginas de “O Povo” e do “Correio do Ceará”, com os comentários diários de Blanchard Girão na rádio Dragão do Mar. A vida era mansa e as tragédias eram quase desconhecidas. Um morto, uma morte, era um acontecimento que ocupava manchetes só na página de polícia. Hoje, a morte, a tragédia, o seqüestro, o crime ocupa todos os espaços. Por tal razão não choca, não diz nada.
Como no texto de “Uma Autobiografia Imaginária” de Sérgio Sant’anna "No princípio, costuma-se contar rigorosamente os mortos, até que as estatísticas percam toda a sua importância. Um só morto é muito mais chocante e solene que um milhão de mortos.Um milhão de mortos tornam as pessoas habituadas à tragédia. Como nas grandes guerras, com bombardeios pesados e armas atômicas. E quando lançarem a bomba final e apocalíptica que aniquilará a todos, isso não será nem mesmo uma tragédia, porque não haverá nenhuma consciência a refletir o desastre. Será apenas o silêncio e o fim simultâneo de todos, como todos terminam isoladamente, por chegar ao fim. Por encontrar sua própria e exclusiva bomba." A bomba de hoje, que é coletiva, é o descalabro do mundo que se reflete no descalabro da imprensa. É o que sinto em relação ao caso Èloa. Não se tratou de fazer jornalismo. Sim de criar sensacionalismo. E o sensacionalismo não causa reflexão nem busca de soluções. Serve apenas aos poderosos que aplicam a solução que lhes agrada. A democracia não cresce, em eleições como às agora realizada, na qual o senso comum é ofuscada pelo marketing, a racionalidade cede diante do uso (e abuso) do clientelismo e do dinheiro.
Escrevo, evidente, tentando ser a favor do jornalismo. Tentando ir além da imagem, além do senso comum, que é a marca do bom jornalismo. Ir contra esta catarse que faz milhares se comportarem como uma manada indo a um enterro de uma jovem como forma de fuga dos problemas, por pura provocação do sensacionalismo. Dizem que jornalista é um médico frustrado e cruel: mata a informação deixando os zumbis como prova de seu crime. O médico, pelo menos, acaba com a existência. Infelizmente, este jornalismo inodoro, amorfo, que não analisa, que não disseca a notícia, que só entretém os bois, está longe de ser bom jornalismo. A técnica avançou enquanto o cérebro, o conhecimento, a cultura diminuiu. Com ou sem diploma é uma lástima.

sexta-feira, outubro 10, 2008

A ECONOMIA NA CRISE

O Papel Crucial dos Economistas
Em momentos como o atual de crise é que se verifica a necessidade e a importância dos economistas. Afinal é o economista o único profissional que estuda os fenômenos relacionados com a produção, a distribuição e o consumo de bens e serviços que envolvam dinheiro ou não. Neste sentido sua ajuda é indispensável não apenas para entender, bem como construir, ampliar e a preservar o patrimônio de pessoas, empresas e governos. È evidente, no entanto, que, apesar de desenvolver planos para a solução de problemas financeiros, econômicos e administrativos nos diversos setores de atividade (comércio, serviços, indústria e finanças), não possui nenhuma qualidade especial de vidente nem uma varinha de condão com a qual possa assegurar sucesso ou dizer o que vai acontecer no futuro. Seu conhecimento, todavia, facilita em muito os problemas que se pode enfrentar aplainando o caminho, porém, a ciência econômica é dependente da ação humana, logo não pode ter a exatidão da matemática. É sempre um vir a ser que envolve problemas políticos e sociais, daí a dificuldade de se aceitar, muitas vezes, a solução que é lógica para os economistas, mas, incompreensível para a grande maioria. Como futebol todo mundo pensa que é possível entender de economia sem estudar.
No entanto a própria ascensão da economia está intrinsecamente ligada a maior complexidade dos problemas econômicos. No fundo a economia é a forma como os homens resolvem seus problemas de manutenção e sobrevivência. Isto é bem mais simples numa sociedade tribal. Na medida, porém, em que passa a existir a divisão do trabalho, a especialização, o dinheiro passa a ser virtual e a sociedade mundial globalizada, entender de economia passa a ser um ofício que requer muitos tipos de conhecimentos que são essenciais para levar e manter o bem estar para os homens. E quando falamos de bem estar, na nossa sociedade, falamos da produção, do acesso aos bens materiais, do aumento do consumo. São estruturas complexas que alimentam grandes redes e cidades, daí o papel primordial de um profissional se tornou importante por dominar um conhecimento científico que permite que faça análises de estruturas. O economista domina as perspectivas dos homens num ambiente de troca, então consegue formular cenários onde o Estado, as pessoas comuns e as produtoras de riqueza articulam a produção e o consumo para que a sociedade tenha bem estar.Este profissional tem que, obrigatoriamente, ter um conhecimento amplo de política, sociologia e economia. São três campos que têm um caráter abrangente e importância na vida das pessoas. No Brasil, o economista já teve uma importância maior, pois foi o grande responsável pela formulação de políticas que fizeram o crescimento do país.Não por acaso sua perda de importância, e ocupação de espaços, tem empobrecido o debate político, as soluções e as nossas possibilidades de desenvolvimento. É preciso recuperar o ensino da economia para melhorar o nível de nosso bem-estar o que somente se consegue com bons economistas.

segunda-feira, outubro 06, 2008

O PODER AINDA ESTÁ LÁ


AS NUANCES DA CRISE
A crise norte-americana, com a necessidade de um pacote de socorro aos bancos, cria uma polêmica que assalta, muitas vezes, quem não entende o funcionamento do sistema financeiro, que é o da aparência de que, ao socorrer os bancos, se está, de fato, salvando os responsáveis pelo problema. Isto se refletiu no Congresso da maior potência política e econômica do planeta que se viu cercado de forças divergentes. De um lado, pela necessidade de se dar sobrevida ao sistema financeiro do país, cuja falência teria conseqüências graves o mundo. De outro, pelo desgaste político de se injetar dinheiro do contribuinte em bancos que sucumbiram à própria indisciplina e, com o agravante de ser próximo a uma eleição presidencial. O fato é que, se não houvesse o socorro, as coisas tenderiam a piorar muito. O socorro não é, como sabem os especialistas, aos banqueiros e sim ao sistema. O que se salva é, na verdade, o dinheiro das pessoas e não dos banqueiros, como costuma se pensar.
A crise também põe a nu o fato de que a economia mundial é refém da política norte-americana. Ao contrário do que propalam não há um esfacelamento do poderio norte-americano e sim sua efetiva reafirmação. Se a Europa já sente na pele os problemas nem mesmo a China, a propalada nova potência hegemônica, escapa da esfera de poder dos EUA e, caso a crise se agrave, seus efeitos também se farão sentir rapidamente por lá. Afinal, é preciso lembrar que grande parte do crescimento chinês se deve aos capitais norte-americanos e à importação, com os enormes déficits no comércio entre China/EUA. O crescimento, e o capitalismo chinês, são, no fundo, um arranjo geopolítico norte-americano que, assim, conseguiu isolar a China da Rússia e ter um controle sobre a potência chinesa via relações comerciais. Logo é infantil se pensar que os Estados Unidos deixaram de comandar o mundo e o que lá acontece não tem reflexos em países periféricos, como o Brasil. Até Lula da Silva que não entende nada de economia, mas, não é bobo em política, voltou atrás no que dizia para não amargar um revés previsível se as coisas piorarem.
A questão é: vão piorar? A resposta é quem sabe? É evidente que a crise mal começou, porém, não se sabe sua extensão. Só se sabe que levará um tempo para se acalmar. Um, dois, cinco anos? Difícil dizer. Uma constatação, no entanto, é que será menos profunda do que pintam, porém, tende a ser mais longa. Tudo depende. Infelizmente, ao contrário do que gostaríamos, economia não é uma ciência exata e, o que é pior, depende muito dos homens, suas ações e expectativas.

segunda-feira, setembro 22, 2008

A CULTURA É ESSENCIAL AO DESENVOLVIMENTO


Cultura e Desenvolvimento
Com a aprovação da Agenda 21 da Cultura, em 2004, e o movimento Cidades e Governos Locais Unidos (CGLU), que reúne cidades e governos locais de todo mundo comprometidos com os direitos humanos, a diversidade cultural, a sustentabilidade, a democracia participativa e a paz, a cultura passou a ser indissociável de uma tema da moda que, sem dúvida, terá ainda uma longa vida que é o desenvolvimento sustentável.
Comprova tal fato que Jordi Pascual i Ruiz, diretor do comitê da cultura do CGLU, defende que a cultura seja incluída entre os vetores que compõem um ciclo virtuoso do desenvolvimento junto com o econômico, o social, visto principalmente como a eqüidade, e o ambiental. Neste sentido, hoje, não se pode pensar num país ou numa cidade sem também levar em conta a criação de uma política cultural e mecanismos de sua viabilização.
Mesmo os economistas, em especial os que lidam com projetos desenvolvimentistas ou de sua promoção, na atualidade, já reconhecem que não é possível desvincular a significativa correlação entre a educação, o tamanho e a qualidade do potencial criativo de uma cidade com sua competitividade econômica. Chega a ser miopia que administradores de cidades não compreendam o quanto é importante estimular e financiar a cultura como eixo para assegurar o sucesso e a vantagem competitiva de sua área. Fazer, portanto, um plano cultural para seu município equivale a optar por ter ou não ter futuro.
Belém do Pará, que com a Estação das Docas, com a criação de uma orquestra sinfônica, a valorização de seus talentos literários e musicais, bem como a criação de uma feira de livros e um vasto calendário cultural surge como um exemplo recente de que incentivo ao desenvolvimento via cultura a partir de estímulos públicos, porém, também, vale lembrar, na mesma linha, os exemplos cearenses, o primeiro de iniciativa privada, do Festival de Jazz e Blues de Guaramiranga, e o das políticas públicas cujo maior exemplo é Fortaleza que, valorizando uma cidade cenográfica de uma novela da Globo, estimulou cineastas, videomakers e artistas locais para a criação de obras áudio-visuais que, até hoje, rendem arte e dividendos para aquele estado nordestino.
È preciso notar que os espetáculos culturais, ou mesmo o ensino e as atividades, sempre implicam na utilização de pessoas, bem como atraem público gerando outros tipos de atividades que se revelam comericais, ou seja, a cultura, mesmo quando não rende diretamente, provoca efeitos indiretos que valorizam seu estímulo como um componente essencial para a qualidade de vida sem a qual é impossível existir um verdadeiro desenvolvimento.

Ilustração: http://www.overmundo.com.br/_overblog/img/1176702326_cultura_popular.jpg

terça-feira, setembro 09, 2008

OS PRISMAS


A MAÇA DA CULTURA IMATERIAL
Uma questão que sempre foi fascinante, para mim, é a do que seja patrimônio artístico ou cultural. Deparei com este tipo de problema muito cedo por conta do fato de que, em Fortaleza, cidade onde nasci, há um arraigado “cearencismo”, ou seja, os intelectuais da terra procuram preservar seus valores e tradições que, na época, eram mesmo prédios e coisas, como a literatura de cordel ou os desafios de repentistas. Confesso que, no início do rock, as guitarras eram horripilantes invasores estrangeiros e até mesmo os Beatles, nu m certo momento, até por conta das idéias políticas, me parecia uma distorção de valores e uma alienação da juventude. Depois me rendi, porém, não sem antes perturbar muito a cabeça de amigos meus, e nem tão amigos assim, com a obstinação nacionalista e o humor ácido dos conservadores. Parece que, de alguma forma, sempre fui jurássico.
Lembro-me que lamentei profundamente o desaparecimento de uma espetacular residência da Avenida Santos Dumont, chamar de residência era um palavrão, na verdade, um palácio que ocupava um quarteirão inteiro. Nem me lembro mais de quem foi ou porque fez, nem mesmo seu valor histórico- se é que tinha-porém, para o meu olhar juvenil, aquilo era uma riqueza que deveria ser preservada a qualquer custo. Não tinha a mesma importância para as autoridades e os empreiteiros tanto que, um dia, inesperadamente, foi tombado, tombado mesmo, posto no chão sem dó nem piedade. Aquilo me pareceu um crime inominável e os protestos foram episódicos e a cidade continuou a crescer como se nada tivesse acontecido. Ali tive minha primeira grande lição de preservação de patrimônio: só se preserva quando existe alguém para lutar por algo. Somente, em Rondônia, muito tempo depois, com a Madeira-Mamoré, aprendi também que o oposto é verdadeiro: muitas vezes somente se destrói quando existe alguém para lutar por algo. Isto é o que faz complicada a questão da preservação de qualquer patrimônio. No fundo- e isto esclareceu com clareza e consciência a professora Silvana Rubino, da UNICAMP, na sua palestra no curso de Gestão Cultural que o Observatório Cultural do Itaú realiza em Porto Velho, o patrimônio é uma questão de classificação e não pode ser tudo ou, de fato, se torna impossível haver uma política de preservação. Se tudo é importante, então nada é possível de ser defendido como de interesse geral e de preservação. Isto é sumamente importante quando se pensa na definição dada pelo Iphan de patrimônio imaterial que é a seguinte:


[...] Entende-se por Patrimônio Cultural Imaterial as práticas, a forma de ver e pensar o mundo, as cerimônias (festejos e rituais religiosos), as danças, as músicas, as lendas e contos, a história, as brincadeiras e modos de fazer (comidas, artesanato, etc.) – junto com os instrumentos, objetos e lugares que lhes são associados – que as comunidades, os grupos e as pessoas reconhecem como parte integrante de seu patrimônio cultural e que são transmitidos de geração em geração. O instrumento legal que assegura a preservação do Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil é o registro. [...]


Fantástico. O bom disto é que pode ser qualquer coisa. O mal também. De qualquer forma é uma definição frutífera. Cabe nela o frevo, o samba, as panelas e até o Santo Daime. Fazer o quê? A vida não tem limites.