Tive a oportunidade singular de participar, em Juiz de Fora, do “Fórum das Américas: Leite e Derivados”, realizado entre 12 e 14 de julho, na Expominas, pela Embrapa Gado de Leite, que teve como um dos seus pontos altos o “3º Workshop de Qualidade do Leite” com palestras imensamente instrutivas sobre o setor, especialmente pela presença de uma missão chinesa que trouxe 21 membros de diversos setores do grande país asiático. Aprendi muito sobre leite e, mais ainda, sobre os problemas do setor no Brasil e na China, o que foi um brinde inesperado.
Não se pode deixar de considerar que, com 1,3 bilhão de consumidores, a China deve permanecer como a locomotiva do desenvolvimento mundial e mercado potencial de muitos produtos dada a baixa capacidade de respostas da produção local à sua necessidade de consumo. Isto também acontece no setor lácteo no qual o consumo no ano passado foi de 41 bilhões de litros, dos quais 4,3 bilhões importados), porém, é preciso considerar que o crescimento da demanda interna tem sido acima de 8% o que representa, no mínimo, a necessidade de mais 3,2 bilhões de litros/ano. E mesmo que, no Norte do país, existam fazendas gigantescas, com mais de 10 mil vacas, ficou bastante explicito nas diversas palestras que a capacidade de crescimento da produção é bastante restrita face aos problemas de falta de tecnologia, de insumos, em especial ração para o gado, as práticas rudimentares, na sua grande maioria nas pequenas propriedades, e a questão ambiental que é grave dado o fato que o setor responde por 41,9% da emissão de gás na China.
É verdade que os chineses são bons planejadores e pensam a longo prazo. Há planos e diretrizes que procuram equilibrar a oferta e a procura de lacticínios até 2020, mas, o grande problema-como apontou o técnico do Ministério de Desenvolvimento e Comércio Exterior, Benedito Rosa do Espírito Santo- é que, em dez anos, o consumo na China aumentou 102% contra um aumento na produção de apenas 72%, ou seja, não se trata apenas de absorver o aumento do consumo como também de acabar com um passivo acumulado. Assim a China, apesar de ser o terceiro maior produtor de leite do mundo, atrás apenas da Índia, o maior de todos, e dos EUA, deve se conservar sendo um grande importador para suprir suas necessidades futuras. No entanto, as limitações para que essas oportunidades sejam aproveitadas pelo Brasil são enormes. Embora, para muitos, seja inviável, pela valorização do Real, as questões são mais profundas. É evidente que o Brasil tem custos absurdos derivados de impostos, porém, também, mesmo para um leigo como eu, ficou claro que nós temos problemas de qualidade das práticas, do rebanho e dos produtos. Avançamos muito em tecnologias, porém, ainda há muito a ser feito. E não há, pelo visto, grandes possibilidades de intercâmbio com a China no setor, exceto em programas comuns de melhoria da produção e da genética. De qualquer forma há uma grande oportunidade de cooperação entre Brasil e China neste setor que não deve ser desperdiçada e Rondônia, até por seu clima tropical, tem uma excelente oportunidade para ser um elo importante desta cooperação.
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segunda-feira, julho 18, 2011
segunda-feira, junho 20, 2011
Eireli, abre-se uma nova porta ao empreendedorismo
Acaba de ser aprovado no Congresso Nacional a nova modalidade de negócios denominada Empresa Individual de Responsabilidade Limitada que pode reduzir ainda mais a burocracia e favorecer os pequenos negócios. Só falta mesmo a sanção da presidente Dilma Roussef. O atual presidente o Sebrae, Luiz Barretto, ao comentar a aprovação do Projeto de Lei Complementar 18/11 pela Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado em caráter terminativo, o que significa que o projeto não precisa passar pelo Plenário da Casa, seguindo direto para sanção presidencial, afirmou que “A redução da burocracia é sempre positiva para o empreendedor e para o país. É importante que apenas as pessoas interessadas em fazer parte de uma sociedade estejam formalmente num empreendimento, até mesmo para qualificar as micro e pequenas empresas. A aprovação da Empresa Individual é mais um mecanismo para favorecer os pequenos negócios, assim como ocorreu com o Empreendedor Individual, que já tem mais de 1,1 milhão de profissionais formalizados”.
E não deixa, efetivamente, de ser mais um passo que melhora o ambiente para as micros e pequenas, pois, pela redação da proposta, apenas o patrimônio social da empresa responde pelas dívidas do negócio, ficando de fora o patrimônio do dono o que é fundamental, de vez que na situação atual quando a empresa quebra, o patrimônio pessoal do empresário também vai para execução fiscal. Não é que esteja pregando a falta de responsabilidade, porém, com a legislação em vigor, a burocracia, os impostos altos e os encargos sobre a mão de obra manter uma empresa é ter uma sociedade desigual com o governo e com os bancos, que ganham muito enquanto as micro e pequenas suam para se manter. A rigor, como economista, não posso deixar de acentuar, e já fui empresário e sei o que estou dizendo, é uma vocação misturada com uma espécie de loucura abrir um negócio no Brasil atual.
Creio mesmo que o Brasil que, nos últimos doze meses, mesmo com uma carga tributária de país rico, com uma burocracia esmagadora e com uma das maiores taxas de juros do mundo, demonstra que é um país capaz de suportar qualquer coisa pelo fato de que os micros e pequenos, mesmo sob estas condições, criaram dois milhões de empregos. Imagine se tivessem digamos 60% da cultura norte-americana de incentivo ao empreendedorismo, legislação favorável e crédito farto? Certamente, quando isto acontecer, teremos a verdadeira revolução social do País. Quando se abre esta nova modalidade de empresa, que será constituída por uma única pessoa titular do capital social, devidamente integralizado, que não será inferior a 100 vezes o maior salário mínimo vigente no país, é mais uma portinha para empreender que se vislumbra, porém, ainda creio que, nos próximos 10 anos, possamos fazer a revolução de fato da micro e pequena empresa. Se derem aos micros e pequenos uma condição melhor não tenham dúvidas que aí caminharemos, de fato, para o futuro sem igual com uma distribuição de riqueza muito mais justa.
sexta-feira, junho 03, 2011
Explica, explica e não explica
Palocci depois de muito se esconder apareceu em entrevista nacional para se explicar. A explicação dele foi, no mínimo, evasiva e, no máximo, incompleta. Nem a santa mãezinha dele há de se convencer com a conversa de que está resguardando seus ex-clientes. Infelizmente, a grande verdade é que quem está na arena pública, quem, como o ministro, tem, e teve, uma grande parcela de participação no governo não pode, nem deve, igual a ele fez, pedir que acreditem na palavra dele esquecendo, como ele fez questão de se esquecer, que o problema real é que seu patrimônio teve um ritmo milagroso de crescimento, vinte vezes em alguns parcos anos. Não será com as palavras, por mais suaves e maneirosas que sejam, que ele irá escapar de uma cobrança não somente da oposição, mas, mais ainda de seus pares que cobram dele a conta da torre de marfim em que o governo vive ignorando os pedidos e as cobranças.
A verdade é que a situação de Palocci fica ainda mais difícil pelas suas próprias palavras. Ao dizer que “não existe crise” no governo (uma meia verdade na medida em que o ministro mais poderoso do governo Dilma Rousseff estar sendo acusado de enriquecimento ilícito atinge o centro do governo) e negar o que se sabe que houve (a tentativa de troca de uma posição mais amena em relação a ele por mais maleabilidade em outras matérias) o ministro colocou a cabeça no pelourinho, pois, se a crise não é do governo a solução mais simples é colocá-lo para fora. Não é tão simples pela razão clara de que é Palocci um verdadeiro anteparo do gênio pouco político de Dilma. Sem ele, certamente, ela ficará mais exposta e mais vulnerável. E o governo, e Palocci, já tentaram de tudo, inclusive o jogo duro contra Temer, para esgotar o assunto sem conseguir. Não conseguirão. O faturamento rápido da consultoria de Palocci é pouco provável até mesmo para um reconhecido expert em economia como Delfim Netto, daí, ser um problema de psicologia: só Freud explicaria a repentina bondade dos empresários com o ministro Chefe da Casa Civil.
E se a coisa podia ficar pior, creiam, ficou. Com a declaração do secretário-geral da Presidência, Gilberto Carvalho, de que “Nós não dependemos do Congresso para seguir trabalhando”, até a base aliada se arrepiou porque o Executivo tem muitos poderes. Demais, até, e pode mesmo sem apoio do Congresso fazer muita coisa. Mas, a declaração não ajuda nada e aumenta a necessidade de cobranças inclusive pelo próprio PT. O líder do PSDB na Câmara, Duarte Nogueira (SP), considerou "insuficientes" as explicações dadas pelo ministro da Casa Civil, Antonio Palocci, em entrevista ao Jornal Nacional. "Se há alguma explicação, o ministro não quis ou não pode dar. Isso só reforça a suspeita de que cometeu tráfico de influência. O melhor para o país é o seu afastamento", disse o líder do PSDB. O PT, como sempre, vai dizer que explicou tudo, mas, já discutem a reformulação da articulação política do Planalto. Com estas explicações que nada acrescentam Palocci parece, ao que tudo indica, que está mesmo com os dias contados.
domingo, maio 29, 2011
Sobre a rara espécie política que diz não
Na política, ao contrário do que pensa muita gente, não é fácil ser oposição. Especialmente numa época como a nossa em que o contentamento das pessoas se parece mais com conformismo do que qualquer coisa. Há uma inevitável vontade de dizer sim diante da enorme onda de “sims” dito a todo instante seja no nível municipal, estadual ou federal. Esta moda não passageira, até onde se enxerga, de governos de coalizões parece querer enterrar ou colocar no museu quem se posiciona contra alguma coisa. Isto acontece em relação a governos de qualquer tipo, no Brasil de hoje, onde parece que, ao contrário do passado, ser contra é pecado. Ainda mais quando ser contra significa não ter acesso aos cargos, as benesses, pois, até mesmo os assessores dos parlamentares, que se comportam sem fechar os olhos ao que vem do governo, olham o chefe como um ser de outro planeta quando não prática a famosa Oração de São Francisco do “É dando que se recebe”.
O triste é ver que os princípios foram para o brejo e que, estando ou não de acordo com o encaminhamento das políticas públicas, o parlamentar acaba votando do jeito que o governo deseja e não como a população espera que ele vote. Na prática se observa que, quando contemplado com verbas ou cargos, automaticamente, fecha-se os olhos a tudo o que de condenável possa existir, e o parlamentar, que deveria ser um representante do povo vira uma empresa política que só visa o próprio lucro e não o bem estar social pelo qual deveria zelar. No Brasil, a base do governo é tão grande que praticamente exterminou qualquer foco de oposição. As poucas vezes em que o governo tem alguma contrariedade é, como acontece agora, com o Código Florestal, quando o absurdo das posições é tão grande que não há como vastas camadas ou segmentos da população não chiar e exigir um posicionamento diferente. Em coisas, porém, que não atingem tão diretamente os interesses das pessoas, estas passam batido, como é o caso atual do ministro Palocci que, em qualquer país com uma cultura política sólida, já estaria afastado, enterrado, seria coisa do passado.
O fato é que ter a fama de ser do contra pode fazer a fama de um parlamentar. E isto se trata apenas de manter a coerência, de se aferrar aos seus princípios, lutas e posições. Estes parlamentares, aliás, se sustentam na vida partidária exclusivamente de pessoas que acreditam nele e que esperam que continue cumprindo seu papel de crítico, ainda que sozinho. O problema é que, muitas vezes, acabam sendo tachados de radicais, de serem oposicionistas só por ser e, pior, se indispõem com seus próprios pares que desejam apenas dizer sim. Também podem acabar isolados e será que é possível fazer política assim, sendo a minoria até no seu próprio partido? Converso com alguns destes espécies raras e crêem que podem e seguem pregando contra os mal-feitos do governo mesmo incomodando a classe política. Embora nem sempre concorde com suas ideias considero que são indispensáveis e funcionam muito bem como um anteparo social para a unanimidade que, como acentuava, Nelson Rodrigues “Toda unanimidade é burra”.
quarta-feira, maio 25, 2011
Humano, demasiadamente humano
A atração por mulheres é, a meu ver, uma coisa normal no homem. Até mesmo bíblica, digamos, pois, segundo o livro sagrado, Deus fez o homem e a mulher para se completarem e se reproduzirem conservando a vida. A questão é que o sexo se tornou, como toda coisa boa, um pecado e, para muitos, um vício. Que sexo é bom não há a menor dúvida que é. O problema é quando o sexo se torna uma obsessão ou é transgressivo. Para mim, o problema real é o sexo sem amor, sem se ter pelo outro o desejo e a reciprocidade. Não acredito em pessoas que dizem que jamais tiveram o desejo de “mexer” com outra pessoa. Muitas vezes, é verdade, a atração pode ser maior do que o bom senso e não é incomum, e sim demasiado humano, que os homens cometam tais pecados. Se bem que há mulheres que também o fazem, ou seja, o pecado não tem sexo. É preciso, todavia, preservar certos limites e, o limite sempre é dado pelo que o outro permite. Em palavras claras: tentar é possível. O impossível de aceitar é que diante da recusa do outro se queira impor o seu desejo como senhor do outro.
O comentário não pode deixar de ser sobre os recentes casos do ex-diretor-gerente do Fundo Monetário Internacional (FMI), Dominique Strauss-Kahn, que quis submeter à força uma camareira e do ex-governador da Califórnia e ator Arnold Schwarzenegger que admitiu ter tido um filho fora do casamento há mais de dez anos. Mildred era empregada na casa do ator e de sua ex-mulher, Maria Shriver, e se aposentou em janeiro deste ano. De acordo com o site "TMZ", Mildred confidenciou a amigos que fez sexo com Arnold na própria casa do ator enquanto era funcionária da família. São dois casos escandalosos, de fato, por ambos terem uma vida pública, porém, o primeiro é, digamos, muito “fora do normal”, pelo fato de que envolve o crime de estupro. Já o do Exterminador do Futuro, inclusive o próprio, é censurável, porém, muito mais comum do que se imagina. Na verdade o fato de que a mulher é muito mais bonita do que a empregada (feia para os padrões comuns) revela o que, muitas vezes, a sociedade esconde que é que a beleza nem sempre é mais importante na relação entre as pessoas. Muitas vezes, ao contrário do que se pensa, são mulheres feias que são grandes mulheres, que dão ao homem o carinho e a atenção que não encontram no cônjuge. Se bem que cada caso é um caso.
É impressionante, porém, que um homem com a formação de Strauss-Kahn tente forçar alguém a fazer sexo. Afinal é uma pessoa fina, sob todos os padrões, e de educação refinada e com dinheiro. Como explicar um comportamento assim? Deve ter razões psicológicas profundas. Similar é o caso do músico norte-americano Joseph Brooks, recentemente encontrado morto no último domingo em sua casa em Nova York, que aguardava julgamento por acusações de estupro. Brooks, de 73 anos, compôs “You Light up My Life”, para o filme Luz da Minha Vida (1977) que também escreveu e dirigiu. Pela canção, ganhou o Oscar e o Grammy. Em 2009, o compositor se declarou inocente de uma série de acusações, entre elas a de estupro, depois de ter sido acusado pela polícia de levar para seu apartamento 13 candidatas a atriz para “entrevistas” individuais, como desculpa para agredi-las sexualmente. Parece que se suicidou, ou seja, talvez não tenha resistido a seus fantasmas. Casos assim demonstram que o homem, apesar de toda sua capa de civilização, ainda conserva instintos primitivos que o governam, entre eles, sem dúvida, um é o sexo. Humano, demasiadamente humano.
sexta-feira, maio 13, 2011
Confúcio, o resiliente otimista
Viver é sinônimo de aprender. E, confesso, que não esperava aprender nada quando fui participar, um pouco de forma inesperada, do I Rondônia Antenado no Futuro, um evento programado para a segunda-feira passada, pela Faculdade São Lucas com o apoio do Consórcio Santo Antônio e o Sistema Imagem de Comunicação. Seria um encontro para discutir os rumos futuros de Rondônia, mas, pelo formato que teve, com uma palestra central do governador Confúcio Moura e pouco tempo para os demais participantes, acabou mesmo sendo uma exposição sobre o governo e a administração atual. Surpreendente mesmo, em primeiro lugar, para mim, foi a presença de um governador que continua com a mesma disposição e o entusiasmo do candidato em campanha. Com tantos problemas iniciais em seu governo a minha sensação de longe é que deveria estar abatido com os percalços iniciais que estavam fora do alcance de qualquer visão política, por mais sagaz e previdente que fosse. Ledo engano, encontrei uma pessoa tranqüila, consciente e determinada.
Somente me veio à mente a palavra vinda da Física denominada de resiliência que significa a resistência ao choque ou a propriedade pela qual a energia potencial armazenada num corpo deformado é devolvida quando cessa a tensão incidente sobre o mesmo. Nas Ciências Humanas, a resiliência passou a designar a capacidade de se resistir flexivelmente à adversidade, utilizando-a para o seu desenvolvimento pessoal, profissional e social. Traduzindo isto de uma forma simples é fazer de cada limão, ou seja, de cada adversidade que a vida nos apresenta, uma limonada refrescante e agradável.
A aplicação do termo ao governador Confúcio Moura vem de que, na sua palestra, demonstrou não ser uma pessoa comum sob este aspecto e, quando digo comum, sem desrespeito aos comuns, é porque o normal, mesmo entre os políticos, é sentir, se abater quando as coisas não correm conforme o programado. Já os excepcionais, os resilientes, se caracterizam por um conjunto de atitudes que os fazem resistentes aos embates da vida. O termo ressalta bem a capacidade que os corpos têm de voltar à sua forma original, depois de submetidos a um esforço intenso. Ou seja, é o tipo do ser humano que vive suas emoções sem se deixar abater pelos obstáculos, o que somente é possível quando se age com respeito à dignidade e reconhecimento pelo que se faz e se gosta de fazer. Pelo que vi a surpresa não foi somente minha tanto que o governador foi interrompido por aplausos em diversos momentos e, mesmo quando não teve as melhores respostas (e teve muitas) demonstrou um comprometimento e um entusiasmo que me despertou, apesar de cético e crítico, algumas reflexões que vale a pena externar. A primeira delas é que demonstrou que seu governo faz muito mais do que divulga, pois, revelou medidas que poucos no auditório tinham conhecimento, mas, também que há necessidade de mudanças na sua administração para que o que está sendo feito seja compartilhado e comunicado adequadamente.
É claro que não se pode desejar de um governo com pouco mais de cem dias que tenha uma obra pronta, porém, o que, para mim, ainda parece acontecer é que ainda se olha para o atual governador com uma certa visão salvacionista, com a esperança de que ele tenha as soluções para todos os problemas. Confúcio é oposto disto e todo seu posicionamento é de agregar soluções, buscar parcerias, construir em conjunto. Sua posição é a de não atrapalhar se não pode ajudar. É, talvez, neste sentido o mais puro produto político de Rondônia: um político que acredita que a solução dos problemas está na própria sociedade. Sua fé no futuro é invencível. E, por isto, teve um momento que perdi em relação a ele o olhar intelectual e passei a acreditar que seu governo pode ter resultados muito melhores do que, hoje, se espera na medida em que, como ser político, ele demonstrou ser bem maior do que muita gente imagina.
domingo, maio 01, 2011
Em favor de um forte partido de oposição
Não há nada demais em um partido governar um país por doze anos ou até vinte ou trinta que seja. O grande problema em relação ao PT é que não tem um projeto para o país e adota e incorpora os discursos alheios, como os do PDSB de distribuição de renda e modernização pelas privatizações, cujos resultados positivos foram estigmatizados e demonizados durante as campanhas eleitorais, sem explicações, via uma distorção dos fatos e a propaganda intensa que, conforme a Folha de São Paulo, é feita maciçamente, hoje, até mesmo pelos livros do Ministério de Educação. Pode-se defender dizendo que o PT, de maneira competente, no governo ocupou todos os espaços políticos. É, porém, neste sentido, se não há oposição, se o governo pode tudo, inclusive modificar a realidade e as regras a seu favor, a pergunta que fica é: onde está a democracia?
A democracia anda mal na medida em que toda e qualquer oposição foi reduzida a uns poucos pronunciamentos parlamentares, sem a menor relevância e influência no processo político, ou as análises esparsas de estudiosos e colunistas que demonstram que a vida brasileira não é cor de rosa como os áulicos do poder insistem em pintar. O governo também alega, e por isto vive alimentando a ideia de amordaçar os meios de comunicação, que o papel da oposição está sendo feito pela mídia. Uma irrealidade flagrante tanto pelo fato de que a mídia não é um partido, não disputa eleições, como porque as críticas são feitas em cima da falta de ação do Executivo, da corrupção e do saque ao tesouro que sempre os denunciados alegam ser apenas “discurso de oposição” ou equívocos de políticas e/ou até mesmo mazelas da administração pública que sempre existiram. Pode até ser, mas, o discurso era o de que com a ascensão do Partido dos Trabalhadores, como eles sabiam o que fazer e sabiam fazer as coisas no interesse popular, os desmandos seriam, pelo menos, amenizados. Na contramão das promessas esses parecem terem crescido e se tornado a tônica. O país, segundo grande parte dos analistas políticos e econômicos respeitados, se encontra paralisado em relação as reformas que precisaria para avançar e ser competitivo e refém de uma política do “é dando que se recebe” que imobiliza qualquer modificação positiva. Apesar do discurso ufanista o Brasil não cresceu, de fato, e desindustrializou-se voltando a ser agrário-exportador.
A miséria em que o Brasil se afunda não é que o PT seja um partido hegemônico, que cooptou, com sobejos do poder, outros partidos e o sistema sindical, antes tão combativo e, agora, inerte gozando das delícias do poder. A miséria é mesmo a falta de uma oposição com projetos, com alternativas, que faça o que o PT fez no passado e combata diuturnamente os erros, aponte as negociatas, os acordos espúrios que mantém o poder e passam também pelo financiamento das eleições, porém, são muito mais presentes nas licitações, nos preços absurdos que o governo paga por bens e serviços que, muitas vezes, nem são prestados em razão de que as empresas, mesmo aquinhoadas, acabam por falir sob o peso das propinas altas. Não vejo o PT como um partido diferente dos demais. Nele há pessoas bem intencionadas e qualificadas, porém, não infalíveis nem predestinadas. Como partido considero que fez sua parte e esgotou-se num programa que se tornou eleitoreiro, assistencialista e apegado ao poder. É preciso que se crie uma nova alternativa de oposição que não pode ser também um novo pouso para os caciques do PSDB, do DEM e outros que já se provaram incapazes de construir algo novo. É preciso indispensável um proposta nova, mobilizadora, pois, nenhuma democracia pode sobreviver sem uma oposição forte com um programa alternativo, com políticos e militantes fiscalizadores e dinâmicos. Se isto não acontecer o PT irá se consolidar como um partido hegemônico, a exemplo do Partido Revolucionário Institucional (PRI), que governou o México por dezenas de ano, porém, como no México, não iremos avançar mergulhados no pacto da mediocridade e do imediatismo. E, é preciso lembrar, até os árabes se revoltaram contra o totalitarismo.
quinta-feira, abril 21, 2011
Os cordeirinhos no país sem solução
A Folha de São Paulo revela que, no último ano de seu governo, Lula da Silva gastou com publicidade, na comparação em termos reais, com o último ano de Fernando Henrique nada mais, nada menos de que 60% a mais com propaganda. A percentagem, embora alta, esconde muito mais do que revela. É claro que gastar mais parece ser menos desejável, porém, sob o ponto de vista da comunicação a questão não foi apenas a de que o governo gastou mais com propaganda é também que o gasto foi feito com muito maior eficiência e centrado na promoção pessoal de Lula e, depois de Dilma. O governo do Partido dos Trabalhadores-PT uma coisa da qual pode se gabar, sem receio de ser contestado, entre outros, não sei se méritos, é o de que foi (é) muito mais eficiente na sua propaganda. É, para parodiar, um novo tipo de galinha que cacareja antes mesmo de botar o ovo. Quem, por exemplo, é capaz de afirmar que programas prioritários do governo, como o Fome Zero, o Primeiro Emprego, o Minha Casa, Minha Vida ou até mesmo o Programa de Aceleração do Crescimento-PAC, foram um sucesso, ou, pelo menos, cumpriram 40% do prometido? Ninguém, porém, tudo por meio da propaganda é sucesso. Ou seja, é um governo que não fez o que prometeu e, no entanto, parece ter competência e, podem anotar, ela vem da propaganda intensa e maciça do governo.
A grande verdade é que o governo petista apresentou um dos traços característicos dos regimes fechados que é o de esconder e/ou manipular as informações. Muitas vezes, de modo deliberado e científico como ao pegar como referência 2002, o auge dos problemas do governo FHC, que provieram não de problemas seus e sim de que seu sucessor havia prometido que iria não só auditar a dívida pública, como também decretar sua moratória. Por isto o dólar disparou a níveis nunca vistos e os recursos externos caíram fora do país trazendo preocupação e desassossego para as autoridades monetárias. Para sorte do país quem segurava a direção do Banco Central era Armínio Fraga que, experiente, revelou-se um exímio apagador de chamas e turbulências. Depois, como no melhor estilo Stalin, se apagou todos os méritos do passado com uma propaganda compacta, eficiente e com muito maior capilaridade. Além de reforçar, por outros meios, suas relações com a TV Globo, Record e SBT o setor de comunicação do governo, por grupos não oficiais, perseguiu, implacavelmente, as vozes discordantes enquanto comprava quem se dispunha a ser comprado, de forma que, hoje, temos quase o ideal petista: uma imprensa bem comportada, sem análise de nada, quase nenhuma voz contrária e, as poucas que tem, cheias de problemas e processos ou, como Diogo Mainardi, preferiram sair do país para poder viver sossegado. Agora, com a tentativa de desmoralização do bissexto senador oposicionista Aécio Neves, Dilma já demonstra que só vai aceitar cordeirinhos. E, convenhamos, este Congresso atual é o máximo em dizer sim ao governo. O problema é que ser bom em propaganda, mandar no Congresso e manipular pesquisas não resolve os grandes problemas do país como competitividade, reforma tributária, trabalhista e política. São os cordeirinhos levados pelo pastor cego ao abismo. Ó país!
sábado, abril 09, 2011
Pelo futuro de Guajará-Mirim
Guajará-Mirim iria entrar no imaginário de minha família por conta de minha irmã, Vanessa, que, no final dos anos 50, casada com o sargento Almir, veio morar na Pérola do Mamoré. E nos contava sobre sua vinda de catalina, um tipo de avião que pousava na água, e enchia de poesia as mentes com as histórias sobre a Madeira-Mamoré, que já chiava sobre os trilhos nos meus pensamentos infantis, sem jamais sonhar que, muito tempo depois, meu destino estaria tão ligado à Rondônia. O nascimento do filho de Vanessa, Luiz Eduardo, em Guajará-Mirim colocaria o Município, decididamente, como parte de nossas vidas. Mas, conhecer Guajará somente vim a conhecer em meados dos anos 70 pelas mãos de um filho seu, o Jorge Elage, que não só me acolheu como me apresentou à sua família, capitaneada pelo patriarca ainda vivo, Armando Elage, e me apresentou a muitas das famílias tradicionais, como os Melhems, os Vassilakis, os Bennesby, os Badras, os Casara, os Bouezs, os Saldanhas, os Nogueiras e tantas outras que, certamente, a memória me trai. Ainda lembro que Guajará ganhou,nos anos 60, as manchetes quando um índio exerceu o hábito de antropofagia nas proximidades do campo de pouso. Hoje, isto seria um crime quase infantil perto da tragédia de Realengo.
São coisas do passado. Neste domingo, 10, Guajará-Mirim comemora 82 anos de vida. E, qual o Brasil, continua a buscar o seu futuro glorioso. Talvez até mais do que o Brasil já teve também seus altos e baixos, seus momentos de sensação de que, enfim, o futuro havia chegado, embora, na maior parte do tempo, a impressão é de que se ouça de lá apenas lamentos pelo que deveria ser e não é. Também, com razão, diga-se de passagem, seus habitantes reclamam que recebem mais juras de amor que gestos verdadeiros em prol de seu desenvolvimento, porém, aí nós já entramos na visão patológica sobre as crenças em promessas políticas.
A grande certeza que existe é que Guajará-Mirim tem uma importância fundamental em nosso Estado. Não somente por sua participação histórica em nossa consolidação como por ser um Município diferenciado por diversas razões entre as quais de ter um comércio centenário com a Bolívia, que é um atratativo irresistível e um imã permanente para o turismo interno. O que falta ainda a Guajará-Mirim parece, finalmente, estar se estruturando que é o que,modernamente,chamamos de o novo paradigma de desenvolvimento, a necessidade de criar um desenvolvimento local e endógeno. Neste sentido a maior participação de suas lideranças na eleição do governador Confúcio Moura mostra uma novo tipo de liderança em emergência que já procura atuar de forma proativa contra a letargia de apenas esperar pelo governo.
É preciso que este esforço de união local, de busca de novos caminhos seja apoiado pelas forças políticas estaduais e até mesmo nacionais. É preciso ressaltar que se trata de um município que é povoado de reservas sem que se tenham criado alternativas para sua sustentação. Se a questão, então, é preservar as florestas que se dê incentivos para que se criem outras alternativas. Hoje, o prefeito Atalibio Pegorini e as classes produtivas, em especial a Associação Comercial e Industrial de Guajará-Mirim, pretendem que se permita que a Zona de Livre Comércio possa industrializar micro computadores, laptops, tablets e matéria de informática, abrindo novas possibilidades para Guajará-Mirim e nosso Estado. É uma compensação adequada e justa. É preciso dar a Guajará-Mirim o presente que este Município merece e nada mais justo que ajudá-lo a ter um futuro à altura de sua importância histórica e de preservação de nosso passado e de nossa região.
terça-feira, março 29, 2011
Em prol da verdadeira Justiça
Confesso que, depois de ter estado sempre nadando contra a corrente, embora tenham achincalhado tanto a palavra cansei, e desmoralizado a indignação, ainda resta em mim um espírito inquieto, incapaz de calar diante das injustiças, em especial as aparentemente pequenas, mas, que são as crueldades legais do cotidiano, muitas vezes, embasadas em atos ditos legais que, todavia, são imorais e indefensáveis, notadamente, quando partido do governo que, em tese, deveria ser o grande defensor dos oprimidos, o criador de benefícios e não o carrasco das pessoas.
Saio da minha zona de conforto, da minha certeza que o absurdo está tão banalizado que não vale a pena lutar, por causa do que se faz, silenciosa, impiedosa e paulatinamente com o dono de banca de jornal Pedro Oliveira. Ele é meu amigo. É. Já foi mais, pois, no passado freqüentei durante, pelo menos, uns dez anos sua banca, instalada ali em frente ao Supermercado Irmãos Gonçalves a um tempo imemorial, mais de 25 anos, com certeza. Aquela banca tem sido, ao longo do tempo, seu local de trabalho, um local de encontro e de amizades, uma fonte de sustento de sua família e, não sei se ainda, também do seu irmão. Para meu espanto soube, agora, que será despejado sumariamente.
Ser meu amigo, é um privilegio que me dá, ele que sempre foi um trabalhador correto, um lutador, um homem simples e também profundamente humano. A minha indignação, porém, seria a mesma com qualquer outro na mesma situação. Afinal qual o grande problema de ter seu negócio ali? Segundo o Dnit-Departamento Nacional de Infarestrutura de Transportes, que aparece nesta história de carona, de vez que ali sempre foi uma área urbana, a banca terá que sair de lá por causa do Código de Posturas do Município-Lei Complementar 393, de 19 de julho de 2010. Um absurdo. A lei, pelo pouco conhecimento jurídico que tenho, não pode regridir para prejudicar as situações fáticas existentes e o DNIT, o atual algoz de Pedro, jamais deveria estar praticando tamanha injustiça na área central da cidade. Seu lugar é cuidando de tapar os buracos, de melhorar a sinalização, criar pontes e impedir a guerra do trânsito nas estradas.
Lamento, hoje, não ter me formado em Direito. Seria o tipo do caso que me seduziria, que iria brigar pela causa por paixão. Como não sou advogado só me resta apelar para o bom-senso das autoridades que tratam do caso. Olhem os direitos do Pedro Oliveira, tratem a questão com o olhar real da justiça, que deve ser o de beneficiar as pessoas. Pode até ser legal retirar o Pedro de lá, o que duvido, mas, que é uma grande imoralidade, de uma hora para a outra, deixar um pai de família sem sua fonte de sustento, quando este nada fez de errado. Igual a ele estou perplexo e indignado e, por isto mesmo, não posso ficar calado. Não posso deixar de pedir que façam a verdadeira justiça que é dar ao Pedro de Oliveira condições de prosseguir sua vida normalmente. É absurdo o governo sem nenhuma base destroçar a vida de um homem sério e trabalhador.
domingo, março 13, 2011
O voto distrital ....
É um bom caminho
Meu amigos, a verdade é que chega uma hora em que política deixa de ser importante. No meu caso deixou por uma questão de comportamento e de qualidade de vida. Não sendo mais um menino, embora esteja na segunda infância, ter opinião própria num país como o Brasil, pensar, analisar, mostrar a outra face das propagandas públicas, é um risco que acaba por isolar você dos demais. Ter opinião, discordar, principalmente, para os apaixonados, os maniqueístas, é um exercício da democracia incompreensível, um desrespeito a manada que dá obas-obas com as patas para a situação vigente.
De fato, aderi a Pilatos sem ter pela frente nenhum Jesus que justificasse. Efetivamente desejo é fazer as coisas que gosto, falar e apreciar coisas aprazíveis como boas conversas, músicas de qualidade, cinema, viajar quando puder, ler e escrever que são coisas que gosto e amar, quando possível. Por que ainda gastar tempo com coisas que sei se modificarão lentamente e pelas quais, creio, que já fiz o que pude, já dei minha contribuição mínima que seja e só muito jovem acreditei que poderia ser grande. Assim tenho me dedicado o mínimo possível a exercer o sagrado dever da crítica, apesar de acreditar que intelectual e jornalista que se preze, é sempre do contra para desespero dos governistas e pelegos. Mesmo assim, vez por outra, não resisto em aderir a algum movimento que acho justo e indispensável para o futuro. É o caso, agora, do voto distrital que considero um grande avanço se for adotado.
Até já existe um abaixo-assinado online Eu Voto Distritalno qual coloquei minha assiantura como a de número 3.691 o que pode até parecer pouco, mas, há também no Facebook, a página #EuVotoDistritale o perfil @EuVotoDistritalno Twitter que ajudarão, sem dúvida, a tornar a campanha conhecida e angariar assinaturas. De qualquer forma esta é uma campanha que me atrai dado que o voto distrital permite que os candidatos sejam mais conhecidos, ao regionalizar as candidaturas, bem como tornam mais difícil o uso ( e abuso) dos metodos tradicionais de compra de votos porque facilita a fiscalização. Claro que não impede, porém, melhora a escolhar e vai possibilitar que se tenha candidatos com muito maior representatividade que os atuais. Pelo menos será uma melhora nos metodos de escolha com certeza.
De qualquer forma o fato de existir um abaixo-assinado no ar há mais de um mes é um sintoma de que tem gente se interessando pelo tema e não posso deixar de estimular o debate, a discussão e a busca de um amanhã melhor para o país que, creio, passa pela entrada de novas pessoas na política, de formação e renovação dos quadros políticos o que somente será possível com a reforma do sistema eleitoral. Não peso muito (mesmo com meus 90 quilos), porém, irei estimular os amigos em favor do voto distrital, escrever sempre que possível e mobilizar o máximo que puder virtualmente. Espero que a reforma eleitoral ganhe dimensão pública e o voto distrital o assunto das nossas mesas. Como se vê posso estar afastado, porém, não perco o ímpeto nem a vontade e o desejo de mudar o nosso país. E o voto distrital, para mim, é um bom caminho.
sexta-feira, março 04, 2011
Quando o carnaval passar
Com a morte de Manelão o carnaval de Porto Velho ficou mais triste, com certeza. O notável chaveiro não era somente o carnaval, e há muitas histórias para provar que se tratava de um personagem que desafiava a lógica, todavia, foi uma espécie de carnaval que levou com ele no enterro mais alegre que os trópicos já viram. Pena que não possa ter visto seu enterro, uma consagração. O enterro de Manelão foi também o enterro de uma época de carnaval romântico de Porto Velho, que já vinha se esvaindo em sangue. Manelão foi feliz na sua morte. Morreu na hora certa, bem próximo do carnaval, que tanto amava, e ainda teve condições de pedir que fizessem, por ele, mais carnaval. Foi um excelente carnavalesco e melhor ainda chaveiro tanto que abriu as portas do céu na hora certa.
Não é somente por termos sidos amigos e contemporâneos que considero que, daqui para a frente, o carnaval de Porto Velho e da Banda do Vai Quem Quer será outro carnaval. É que Manelão agregava em torno de si as mais diferentes pessoas e sabia com sua forma peculiar lidar com todos com uma competência social digna de um líder. Podem falar tudo dele, louvar, esquecer, lembrar feitos e mal feitos, porém, foi sua determinação e sua vontade férrea que fizeram da Banda o que ela é: um símbolo da nossa grandeza e dos nossos desacertos. Ela, mais do que qualquer outra instituição, somos nós, os rondonienses, esses cidadãos confusos, criativos, belos, ricos ou pobres, contudo, sempre desajustados, sempre procurando a fantasia de mudar o mundo de qualquer forma. Na ignorância, na marra, no peito, na base do uísque, da cachaça ou da caipirinha, não há nada que nos salve de nos reconhecermos, quando nos olhamos no espelho, como os verdadeiros Macunaímas.
A realidade, no entanto, é que os heróis do passado, como Manelão foi, eram delicados e românticos. Criaram um carnaval onde as pessoas se conheciam, se reconheciam, se amavam, apesar dos defeitos, e, mesmo quando se odiavam, sabiam que eram parte de uma comunidade, de um lugar e de um tempo, por isto, incapazes de violência. Hoje somos os heróis desgarrados, os heróis cuja pátria é a internet, os pingentes “das usinas”, que produzem luzes e o futuro, enquanto morrem sob as rodas do trânsito caótico, da violência das doenças, das armas que invadem também o carnaval e se transforma, pasmem, em tiros que roubam vidas jovens. Não. Não se trata de nostalgia, porém, de verificar que, agora, sair para brincar é também desafiar o risco de uma bala, de uma faca, de um acidente, de não voltar. Manelão se foi e está mais presente do que nunca no carnaval. Eu que fiquei nunca estive tão distante. Se antes esperava, me guardava, para quando o carnaval chegar, agora, fico esperando ver o carnaval passar.
sábado, fevereiro 26, 2011
Destinos atados: o Brasil precisa dos EUA e os EUA, do Brasil
A Embraer inaugura sua primeira fábrica na Flórida nos Estados Unidos. É sim um sintoma da inserção do Brasil no mundo e, no futuro, depois que passarmos por esta pasmaceira de criatividade e de ideias fora de ordem, certamente, merecerá uma comemoração maior do que o quase silencio com que vem sendo saudada a notícia. Nós, de certa forma, temos dado as costas para os Estados Unidos numa política externa infantil que se aproxima de países de ditadores ou de falsos democratas vestidos com a ideologia de uma esquerda que foi enterrada com os escombros do muro de Berlim. Mas, como se sabe, temos uma propensão para ver o futuro no passado.
Tivemos sim a sorte de que existiu a ascensão da China quando os Estados Unidos passaram pela crise de 2008 depois que, por mero jogo de cena, por diversas vezes, brincamos de fazer diplomacia do atraso agradando Chávez, Castro e até nos envolvendo no Irã contra a lógica de que países devem cuidar dos seus interesses e nossos interesses estão muito mais ligados aos norte-americanos que tem muito para nos oferecer do que a uma política de valorização de nações africanas ou sulamericanas que terão ainda que evoluir para poderem ser, efetivamente, nossos parceiros e, hoje, por incrível que pareça, estamos mais próximos da China que toma nossos mercados que dos EUA que podem ser um mercado nosso e já foi em passado não muito distante nosso maior parceiro comercial. Claro que não devemos nos afastar da China, porém, as nossas diferenças são maiores que nossas semelhanças e o lógico, o plausível, seria até para contrabalançar alguns malefícios chineses o Brasil de valorizar sua parceria com os Estados Unidos.
Aliás, o momento não poderia ser melhor na medida em que Barack Obama vem aí. E, na visita precursora, faz uns dias, seu secretário do Tesouro pediu apoio do Brasil para pressionar a China a valorizar sua moeda. Está claro que um dos assuntos na pauta entre Estados Unidos e Brasil é buscar pontos de convergência para equilibrar as relações comerciais com a China. Há muito o que ganhar com a aproximação norte-americana, principalmente, agora que os governos do Brasil e dos Estados Unidos estão conversando sobre a criação de uma joint venture, entre o BNDES e o Eximbank, com o objetivo de financiar empreendimentos comuns de empresas brasileiras e americanas em terceiros países. Uma proposta que nasceu dos Estados Unidos, mas, que até se encaixa na política de atuar em países africanos e da América do Sul. Neste sentido, é também uma forma do país usar a China de forma estratégica para tomar a iniciativa de se aproximar mais, em melhores condições, inclusive conseguindo concessões que, de outra forma, jamais aconteceriam. Os EUA e o Brasil tem, além de uma longa tradição de aproximação e de negócios comuns, a obrigação de buscar enfrentar a agressividade da China no mercado mundial e só pelo trabalho conjunto poderão ter mais chances de êxito posto que, por seu tamanho e suas formas de negócio, a China somente poderá ser contida pela união dos Estados Unidos com os países emergentes que são afetados por suas políticas desleais, entre os quais, sem dúvida, está o Brasil.
domingo, fevereiro 20, 2011
O leite nosso de cada dia
Aconteceu neste último sábado, dia 19 de fevereiro, no auditório do SEBRAE, uma reunião dos produtores de leite do município de Porto Velho com o objetivo de criar uma forma, seja via associação ou uma empresa, para industrializar o leite localmente. A iniciativa da reunião teve origem na obstinação do produtor de leite e conselheiro da Federação do Comércio, José Ramalho, que disse ter sido instigado pelo doutor e pesquisador da Embrapa, Paulo Moreira, que tem demonstrado um enorme interesse em desenvolver o setor e pelo presidente do Sindicato das Micro e Pequenas Indústrias do Estado de Rondônia-SIMPI/RO, que, “mesmo sem ter uma vaca”, entusiasmou-se pela idéia e tem sido um incentivador do beneficiamento do leite em Porto Velho.
A principal razão que levou a movimentação reside no fato de que, com uma população de 426 mil habitantes, ou seja, com um mercado significativo, e sendo possuidor do maior rebanho bovino do Estado, ainda que 90% de gado de corte, Porto Velho tem um aproveitamento raquítico de sua produção leiteira. Salvo uma iniciativa ou outra particular, não existe, a rigor, uma produção local tanto que o leite em saco não existe e o de caixa , e até mesmo o iogurte, provém do nosso interior, mas, também pode vir de lugares tão distantes quanto Goiás, São Paulo e até de Minas Gerais. Isto denota não falta de produção e sim a ausência de organização dos produtores e de apoio do poder público, o que ficou patente na reunião quando os produtores chegaram a dizer que eram tratados pior do “cachorros” pelo completo desconhecimento de suas reivindicações e nenhum programa específico para amparar o setor. Os depoimentos apontam que se, hoje, o município possui, estima-se 40 mil litros/dia de produção, esta poderia ser muito maior, de vez que muitos venderam suas vacas ou usam o leite para alimentar porcos por falta de mercado, um mercado que, como se observa, está ai no próprio município.
Hoje o incentivo para que o projeto se torne realidade deriva do fato de que o governador Confúcio Moura, quando prefeito de Ariquemes, deu todo apoio para organizar pequenas usinas e a ideia predominante é a de que os criadores se organizem em uma associação que irá beneficiar o leite da região com o investimento inicial sendo bancado por eles mesmo, de forma que os produtores se beneficiariam de um preço melhor para seu leite e aproveitariam, numa primeira instância, o fato de que, para cerca de 12 mil litros, há o espaço dado pela própria merenda escolar cujas compras são preferenciais para os micros e pequenos por recente decreto do governador. A reunião foi um primeiro passo, porém, já demonstrou que a ideia deve avançar. Há muitos produtores que deixam de ganhar dinheiro com o leite por falta de mercado e, hoje, as condições parecem ser extremamente favoráveis para que se organize a produção e, enfim, Porto Velho, deixe de ser a ovelha negra do setor na medida em que os outros municípios do Estado possuem suas usinas e um setor beneficiando sua produção e gerando renda e empregos. Sem dúvida, é uma iniciativa louvável que precisa ser levada adiante, pois, a indústria que podemos, de fato, criar depende da produção local e de seu aproveitamento.
quinta-feira, fevereiro 17, 2011
Os problemas não mudaram
É como se o tempo não passasse...
Silvio Persivo
A Economia ganhou, não sem razão, a denominação de “ciência triste”. A razão reside que, embora seja política e da política dependa, há certos aspectos qualitativos e quantitativos dos quais não se consegue fugir. Quando se fala em desenvolvimento, por exemplo, é impossível sua existência, que um país consiga crescer com qualidade de vida, se sua população não consome menos do que a renda nacional, de forma a permitir que parte do PIB seja composto de bens e serviços, não de consumo, mas, de poupança que possa se transformar em investimentos. Simplificando se a população consome 100% da renda nacional, a produção teria de ser toda composta apenas de bens e serviços de consumo, logo, tudo que se produz é apenas para manter o consumo e não se aumenta a capacidade de produzir no futuro, ou seja, não se aumentam as fábricas, os equipamentos, não se criam formas de ter uma produção futura maior. Isto só é possível se parte do produto total do país for composta de bens de capital (máquinas, equipamentos, estradas, pontes, etc., tudo aquilo que é chamado de “investimento”) quando a população deixa de consumir parte da sua renda, portanto, quando poupa e investe para aumentar a produção futura.
Assim, em economia, a poupança, a renda não gasta em consumo, é essencial para determinar a continuidade do crescimento e proporcionar o que desejamos que é não apenas crescer, mas, crescer com qualidade de vida, isto é, desenvolvimento. È verdade que o investimento pode ser, e no Brasil isto aconteceu e acontece muito, proporcionado por poupanças externas, porém, neste caso, o resultado, o lucro passa a ser, a pertencer, em grande parte, aos investidores externos. Em outras palavras, quando se fala em investimento nacional se conta com o investimento derivado da poupança nacional mais os investimentos feitos por investidores estrangeiros no Brasil com a poupança trazida do exterior. De qualquer forma não se pode fugir do fato de que se não há poupança não há investimento e a economia não cresce. Portanto, um dos pilares do crescimento econômico é o estímulo à poupança interna, pois, as pessoas somente se sentem estimuladas a poupar (que é a renúncia ao consumo presente) se recebem uma remuneração que lhes permita consumir mais lá na frente. Os economistas costumam dizer que existe um trade-off (troca) entre o presente e o futuro e que as pessoas com renda ganha, somente não consumem hoje, se podem investir para consumir mais amanhã. E, neste caso, é crucial o valor dos juros recebidos sobre a poupança. Ou seja, tem que valer a pena poupar e, no caso, não importa tanto que as taxas de juros aumentem ou diminuam, mas, que seja atrativo para o poupador. No caso brasileiro não é, além do fato de que, historicamente, por conta da inflação e das tungadas governamentais, poupar nunca foi um bom negócio. Daí, a poupança doméstica ser muito baixa, girar em torno de 19% enquanto, por exemplo, na China é de 40%. Assim o Brasil tem um nível de poupança muito baixo e, por isto, tem baixo nível de investimentos, logo, não pode pretender ter desenvolvimento sustentado, pois, a sua poupança e o seu investimento não lhe dão sustentação. E o governo é deficitário crônico, com uma dívida pública muito alta, que o faz disputar recursos com o setor privado, ser o principal responsável pela inflação, que, em última análise, é a razão que leva o Banco Central a elevar as taxas de juros. Como isto é feito para buscar recursos para pagar os juros da dívida o resultado é o que se vê : o governo privilegia o setor financeiro e não o produtivo. É um processo que, entra governo e sai governo, só muda a intensidade, mas, continua o mesmo e não se vê nenhuma solução visível. Nossos problemas continuam os mesmos de dez anos atrás.
sábado, fevereiro 12, 2011
Não vale olhar para o lado
As mudanças que acontecem no Egito me fazem refletir sobre a nossa realidade e sobre o que nos leva a ser tão apáticos em relação ao ambiente que nos cerca. Pode até ser uma impressão errônea, mas, nós temos no imaginário que o Brasil, apesar de ter mudado, na essência não muda. Não tem, como no presente caso, contra um ditador um posicionamento tão forte, tão determinado, tão positivo ao ponto de fazer com que a razão prepondere sobre as armas porque, se sabe que lá, o sangue há de correr. Aqui o que corre mesmo é o suor embalado pelos pandeiros do carnaval e os grandes gritos são o de gol nos nossos estádios de futebol.
Pode até alguém lembrar que houve a grande movimentação pelas “Diretas já” ou mesmo o movimento dos caras pintadas contra Collor. Bem, como “o tempo é o senhor da razão” o que, com o tempo se comprovou, é que a movimentação, realmente, foi maior, o clima foi de empolgação, porém, havia mais disputa e desejo de poder que modificações reais. Basta verificar que o que se buscava no passado era o que se continua buscando: construir um país moderno onde o cidadão não dependa eternamente do estado, que tenha voz e tenha vez. Infelizmente, neste sentido, como no famoso romance “mudamos para que nada mude”.
É só verificar que os problemas, com exceção da inflação menor, parecem uma eterna repetição. Assim, como pela manhã o sol nasce, todo início do ano, nos deparamos com o crescimento da inflação, na esteira da alta dos gastos típicos sazonais, como matrículas e mensalidades escolares, IPTU, IPVA e, mais recentemente, dos preços dos alimentos, cujo valor deixou de ser cotado pela demanda dos consumidores, passando a ser obra da fome dos jogadores dos mercados futuros globais. Até o que muda vem, de fora, que é a ganância dos que transformaram o preço da comida em commodities e fonte de lucros especulativos, numa perversão social de difícil aceitação por qualquer um que não participe dos cassinos globais ou não sejam intoxicados pelo noticiário do cartel da mídia. Previsivelmente sobem, em quase todas as cidades, o preço das tarifas de transporte coletivo e os preços dos aluguéis.
Ultimamente existe a manobra sanfona, instituída para ganhar eleições, que, agora mesmo acontece, nos dois primeiros anos de governo se contém os gastos para, nos dois últimos, fazer uma farra que leva a reeleição ou a eleição do sucessor usando a máquina pública. Nada novo mesmo. Talvez a única coisa nova seja a perversão, também previsível no começo do ano, do Banco Central elevando juros, tendo como álibi deter a inflação provocada pelo câmbio e pela especulação com commodities, o que é óbvio, está totalmente fora do alcance dos juros brasileiros. Mais do que patológico, este modus operandis, tornou-se o principal instrumento de transferência de renda para os especuladores externos que incharam a dívida interna saboreando um dos juros mais altos do mundo e sem taxação. Reformas? Também se fala nelas, como agora se fala, no início do governo, também para que nada se mude. A realidade é a de que a carga tributária subiu, o custo interno da produção mais ainda, o país perde seu mercado interno para produtos chineses e indústrias até para os países vizinhos. A população embalada no samba, no futebol e no crédito nem liga para questões econômicas que são entediantes e chatas. Caminha na mesmice endividada e feliz batendo palmas para quem a conserva deitada em berço esplêndido de miséria e slogans. E daqui a pouco acaba acreditando que “País rico é país sem miséria” de tanta propaganda. O problema é que não vale olhar para o lado.
sábado, fevereiro 05, 2011
O direito à bobagem é universal
A tradição bacharelesca brasileira é conhecida. Sendo uma sociedade nova, relativamente sem tradição, seria de se esperar que tivéssemos uma legislação enxuta, o que não é verdade. Em matéria de leis temos um cipoal que garante tudo, principalmente, depois da Constituição de 1988, nós, no papel, temos direito à quase tudo: saúde, educação, trabalho e o escambau. Papel mesmo de Constituição pega tudo. O que ninguém explica é como estes direitos serão assegurados. Até em campanha eleitoral, num ápice de cara de pau, o ex-presidente Lula da Silva, para justificar o fracasso do seu governo na área, chegou ao cúmulo de dizer que o atendimento do SUS era de primeiro mundo! Se ele não tivesse viajado tanto...até se explicaria.
Nós, economistas, no entanto, sempre procuramos explicar que não existe almoço grátis. Ou seja, se alguém come sem pagar é porque outro produz para que exista o que comer. O governo, por si mesmo, não produz nada, logo, de onde vem sua receita, sua capacidade de oferecer serviços? Dos impostos que são uma parcela do que a sociedade produz. Assim, para se assegurar que haja um tipo qualquer de serviço, é preciso que, além de se arrecadar o imposto do setor privado, o governo seja capaz de gerir bem os recursos para que este serviço seja oferecido. A grande realidade dos governos, em especial os brasileiros, é que são muito bons em cobrar impostos e péssimos em gerir os recursos que são, em geral, desperdiçados com a manutenção da máquina pública, afora os desvios derivados da corrupção. Se cobra mais recursos, por exemplo, para a saúde, porém, não se fala que a saúde é um sorvedouro de recursos. Bastaria ser melhor administrada para que os recursos sobrassem. O grande, e constatado absurdo em relação ao Brasil, é que temos uma carga tributária de primeiro mundo com serviços de quarto. E, para piorar, quem paga imposto no Brasil é o assalariado e não as empresas, daí, a classe média, real, não a abstração das pesquisas de mercado, ter caído dolorosamente, em especial, militares, professores, funcionários públicos que eram melhores pagos e, hoje, se encontram tentando fechar o mês.
Não é pretensão destas linhas resolver os problemas nacionais. O Brasil, hoje, vive bem nas manchetes, mas, perdeu competitividade, perdeu capacidade produtiva. É um país agrário-exportador de novo e, de novo, defasado em ciência e tecnologia. Não vou discutir com a propaganda maciça, do governo que afirma que melhoramos, mas, como um país pode melhorar se sua produção piora? E prometem resolver tudo. Sempre amanhã. Agora surgiu mais uma brincadeira interessante. Nos fins do ano passado foi aprovada na Comissão de Constituição e Justiça do Senado a denominada Emenda Constitucional da Felicidade, que introduz no artigo 6.º da Constituição federal, relativo aos direitos sociais, uma frase com a menção de que são estes essenciais à busca da felicidade. De forma que pretende-se alterar nossa Carta Magna para direcionar os direitos sociais à realização da felicidade individual e coletiva. Ho!Ho! É o máximo de ignorância absoluta obter a felicidade a golpes de artigos de lei. É uma maravilha garantir condições mínimas de vida e "elevar o sentimento ou estado de espírito que invariavelmente é a felicidade ao patamar de um autêntico direito". Em suma, o emburrecimento geral chegou ao ponto que não devemos pensar nem discutir mais nada. Vamos ser felizes por obra e graça da Constituição. Só falta, agora, criarmos a Carta Universal de Direitos Humanos de Emburrecimento e de Direito à Bobagem. E, que me desculpe Tiririca, mas, pior do que está parece que a coisa vai ficar!
domingo, janeiro 23, 2011
O poder escancarado e sem máscaras faz o que quer
A volta dos que nunca se foram
Leio comentários de analistas, e até mesmo de pessoas comuns, criticando que, depois de passada a eleição presidencial, com a vitória de Dilma Rousseff, se anuncia a volta de membros do Partido dos Trabalhadores que, a bem da verdade, nunca foram deixados de lado. Somente esperavam a oportunidade para reaparecer. Assim, não me parece nem novidade nem espantoso, que alguns dos caciques petistas, por conveniência defenestrados do poder por conta do envolvimento em episódios de corrupção, estejam de volta. É claro que os casos mais clamorosos são o do ex-deputado e ex-chefe da Casa Civil José Dirceu, e de Delúbio Soares, ex-tesoureiro do partido, que estiveram envolvidos até o pescoço no chamado “escândalo do mensalão”, porém, há muitos mais que, passada a tempestade estão por aí gozando as benesses do poder.
Devo dizer que não sei mesmo qual o espanto. As indicações da “reabilitação” de petistas são históricas e notórias e começaram com o próprio Lula da Silva que jamais colocou em xeque seus aliados que, ao contrário dos outros, que cometem crimes, só cometem “erros” ou possuem “despesas não contabilizadas”. Efetivamente, por exemplo, José Dirceu, jamais esteve ausente das hostes petistas manobrando, apesar de ter oficialmente perdido seus direitos políticos, nos bastidores com uma desenvoltura não menor do que seu antagonista e detonador do “mensalão”, o presidente informal do PTB, Roberto Jefferson. Sabe-se que Zé Dirceu não apenas costurou acordos como foi vital para impor certas situações políticas, como nos bastidores se diz a respeito de Minas Gerais e do Ceará. Suas viagens pelo país, em jatinhos, por menos noticiadas que tenham sido, geraram fatos e demonstram que sua atividade política tem sido permanente. Ou seja, mesmo sem cargos, mesmo desprovido do mandato político, manteve-se sempre muito próximo do centro do poder neste tempo todo de domínio petista. Delúbio, é verdade, o mais estigmatizado, manteve obsequioso silêncio e, nas raras vezes, em que quis colocar a cabeça de fora foi advertido. Com razão na medida em que tesoureiro sem utilidade só atrapalha.
Embora estejamos nos tempos do Ficha Limpa, que foi defendido por interesses notórios do PT que visavam ganhar, como ganharam, o governo do Distrito Federal, ficha suja não existe no partido até porque, como disse explicitamente o líder do governo na Câmara dos Deputados, Cândido Vaccarezza (PT-SP), “nenhuma pena é eterna”. Porém, o perdão dos companheiros, que se ensaiava, se tornou impossível de não ser dado depois que, na posse, uma serelepe ex-ministra Chefe da Casa Civil, Erenice Guerra, apareceu perdoada por um inquérito interno do governo. Assim, com tanta bondade no ar, qual a surpresa que, no ano em que o escândalo do “mensalão” deve começar a ser julgado pelo Supremo Tribunal Federal (STF), a estratégia petista reabilite os que nunca se foram para desqualificar a dimensão dada ao caso e vender a versão de Lula de que tudo não passou de uma ficção para depô-lo do cargo? É só a continuidade da tarefa anunciada por Lula, em cujo governo vicejaram esta e outras denúncias de corrupção, da empreitada de desmistificar a existência do “mensalão”. Que providência mais efetiva para isto que reabilitar os inocentes companheiros? E, como Palocci já foi inocentado, e Genoíno convidado para ser assessor do Ministério de Defesa, que melhor ataque pode existir que resgatar a imagem de notórias personagens políticas atoladas em passado recente num lodaçal de denúncias.
Não importa que o procurador-geral da República, Antônio Fernando Souza, tenha apontado a existência de uma verdadeira organização criminosa envolvendo políticos, empresários, publicitários e doleiros num grande esquema de compra de apoio político. Nem que a estimativa do procurador seja de que a quadrilha girou em torno de R$ 55 milhões (aliás, uma imensa subestimação) e tenha imputado aos envolvidos os crimes de corrupção ativa, passiva, lavagem de dinheiro, evasão de divisas, peculato e falsidade ideológica. Para o projeto de poder petista a inocência deles é perene e justificada. Sem eles não haveria a tomada de poder. Por esta razão, de fato, não se trata de uma volta. Eles nunca foram.
quarta-feira, janeiro 19, 2011
A Tragédia real
A tragédia de sermos o país do futuro
Silvio Persivo
Tragédias são coisas lamentáveis. Tragédias brasileiras são, a meu ver, coisas cotidianas na medida em que vivemos a tragédia permanente da mais completa falta de educação. É o que constato em relação a tragédia da região serrana do Rio de Janeiro e da afirmação, no mínimo, risível de que, finalmente, irá se implantar um sistema moderno de prevenção de tragédias como esta última. Não quero parecer indiferente, nem tampouco crítico ou profeta de coisas acontecidas, mas, quem não sabe que a situação é a mesma em vários pontos do país na qual a miséria ou apenas o poder desrespeitando as leis se estabelece em áreas que não poderiam ser ocupadas? Já tive, em tempos passados, a função de implantar planos urbanos e, bem sei, como são desrespeitados e até mesmo destruídos pelas forças econômicas e políticas que não vêem senão os interesses imediatos.
Nem sabor de novidade, exceto na sua extensão, a tragédia tem, pois, Angra dos Reis, passou por um processo similar na passagem de 2009 para 2010, quando o Rio de Janeiro foi sacudido por uma tragédia igual de proporções menores. O que aconteceu? Lembro que logo depois começaram a bater os tambores e os tamborins anunciando o carnaval e o Brasil caiu no samba esquecido e curado, as providências adiadas como sempre, e tudo ficou como antes soterrado pelos ecos da folia. Este ano o carnaval será mais tarde e a tragédia foi maior, porém, quem duvida que o esquecimento será o mesmo? Não tenho a menor dúvida de que tragédia que, hoje, ocupa longas horas dos noticiários será relegada a segundo plano para dar passagem à alegoria carnavalesca e, depois dela, ao futebol, de forma que na folia e na bola continuaremos a esperar que as tragédias anunciadas não retornem, embora, os lúcidos, normalmente, ébrios, saibam que um país que desgraça sua juventude com a inércia e a falta de estudos não tem futuro.
Não, meus amigos, não pensem que estou amargo neste começo de ano. Estou bem comigo mesmo. Talvez nunca estive tão consciente da minha pequenez e de que sou uma pobre e teimosa voz a desejar que o Brasil dê certo, como disse Caetano Veloso, porque eu quero. O fato, porém, é que brigo, discuto, contrário meus próprios interesses para ser fiel a princípios e vejo que é uma luta vã. A tragédia real não é a da natureza que sempre causará problemas, mas, sim a triste, amarga e molhada, não da chuva, mas, das lágrimas que a ignorância coletiva cultua de não construirmos um amanhã melhor pela educação, que é mera palavra para discursos políticos. Não serão as bolsas misérias, nem as ajudas festeiras de última hora que darão dignidade aos brasileiros. Cidadania só existe como afirmação pessoal, como oposição ao outro, por isto não se outorga, não se dá. É preciso que se conquiste. A tragédia brasileira real é de esperarmos a libertação como uma dádiva. Não é. O Brasil sem tragédias só existirá quando houver educação e representatividade política. Enquanto isto não existir seremos o eterno país do futuro.
domingo, janeiro 02, 2011
O verdadeiro tamanho do desafio

É bem verdade que, no Brasil, as coisas só começam de fato depois do carnaval. No entanto, a posse de Dilma significa, na prática, o apito inicial do jogo. O recado das urnas foi o mais claro possível: as forças produtivas, as forças modernas do país, estão descontentes e exigem mudança. É verdade que, aliado ao coronelismo, o clientelismo oficial ganhou a eleição e um prazo de continuidade, porém, a um preço muito elevado, que o novo ministério, uma eclética junção de interesses contrastantes, obriga a ter uma dose muito grande de força para que alguma coisa ande, mas, se não andar o bicho pega.
A realidade de nosso país foi obscurecida pela enceradeira de Lula da Silva. Dando brilho ao piso ruim foi empurrando com a barriga, adiando as decisões necessárias e chegamos onde estamos: grande parte da população feliz de estar endividada, uma invasão de produtos chineses que desindustrializa o país e voltamos a ser agrário-exportadores, ao mundo pré-Juscelino até no toque pai dos pobres do governo passado. A propaganda oficial pode fazer tudo: pintar a vida de cor de rosa, eleger Dilma, tornar Lula um estadista, esconder a realidade da saúde, da educação e da infraestrutura aos pedaços, todavia, não tem como sustentar a situação econômica de um país que vem perdendo produção, empregos de qualidade e, especialmente, agregação de valor aos produtos e competitividade. A transferência de renda depende dos setores econômicos que produzem, porém, estes estão estafados de carga tributária elevada, de burocracia, de crédito caro e de sustentar uma ciranda de juros exorbitantes que somente serve aos banqueiros e aos rentistas.
È claro que o Brasil não vai piorar embora possa. Deve por um tempo continuar no mesmo ramerame. A questão é que o modelo que sustentou o PT, que é mais eleitoral e de propaganda que de crescimento real, está chegando aos seus limites e, na hora, em que o sempre bafejado Lula, o prestigiador das palavras, cai fora. A fórmula parece querer ser aplicar o mesmo modelo. Depois da gastança na farra eleitoral, o arrocho de mais dois anos e a volta da farra com um crescimento recorde para “mostrar” que tudo mudou. Nada mudou porque as bases são as mesmas. Lula com seu PACs e sua retórica de crescimento, apesar de ter pego céu de brigadeiro, durante todo o seu vôo, conseguiu, na média, 3,5% de crescimento contra 2,5% de Fernando Henrique, pegando crises e arrumando a casa, e conclui seu mandato com um produto e participação menor em relação ao resto do mundo. Ou seja, o país continuou seu voo de galinha e diminuiu de peso, embora, tenha a seu favor ter ligeiramente melhorado as condições de vida da base da pirâmide. A questão continua a ser que, o que sustenta a economia, é a produção e a produção competitiva. Para isto precisamos de educação, carga tributária compatível com o grau de desenvolvimento, governo eficiente, desburocratização e poupança interna. È uma agenda, sob o ponto de vista técnico, de todos conhecida. Terá Dilma Roussef capacidade de enfrentar os desafios que Lula não enfrentou? Este é o tamanho do desafio da criatura.
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