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segunda-feira, março 28, 2016

NO CAMINHO DO RETORNO DA ESPERANÇA


Apesar do ex-presidente Lula ainda afirmar, numa coletiva a veículos internacionais, que o governo deve buscar uma “coalizão” com parte do PMDB que ajudará a barrar o impeachment da presidente Dilma Rousseff, esta hipótese parece, cada vez mais, remota diante do andar da carruagem. Sua avaliação se assenta no passado, no tempo em que possuía credibilidade e governava. Hoje, ele e o governo gastaram seu capital de confiabilidade e passaram da hora de mudar. Não dá mais. Ainda que vá continuar lutando até o fim com o apoio de sindicalistas e militantes, não se tem mais dúvidas, segundo os melhores analistas, que, agora, a queda é só uma questão de tempo. Não adianta mais agrupar militantes para impedir um novo pedido de impeachment da OAB, nem buscar denegrir a entidade. O moinho da política se moveu e, até mesmo o ex-presidente Collor, que já passou por isto, sabe de sua inexorabilidade. Com Dilma, as coisas só piorarão e a população está avida por esperança que este governo não tem condições de suprir.
O anúncio de que o PMDB do Rio Janeiro se vergou à realidade foi a gota d’água. Com sua adesão irá todo o PMDB, e no seu rastro todos os partidos da base aliada abandonarão o governo. Com certeza só o PCdoB pode ser exceção por sua natureza, intrinsecamente, de esquerda, mas, ninguém, de sã consciência, nem internamente no governo, avalia, com realismo, que o governo não conseguirá obter 171 votos para impedir o impeachment, que será aprovado pela Câmara folgadamente. O Senado somente confirmará o afastamento, como o próprio presidente Renan Calheiros, mesmo contragosto,  já admitiu. No Congresso, todos já trabalham com um governo de união nacional de Michel Temer, que tentará repetir a formula de Itamar Franco. Como não é Itamar Franco, e conviveu com o PT e seus desvios e erros, é inevitável que, no decorrer do processo, como já se iniciou com a fala do líder do governo no Senado, Humberto Costa (PT-PE) comecem a acusá-lo, por diversos meios, e tentar impedir o processo com o “risco Temer”, como afirmou Costa que o vice-presidente Michel Temer “será o próximo a cair” caso a presidente Dilma Rousseff sofra o que ele chamou de um “golpe constitucional” (pelo menos, já admitiu que o golpe não é golpe com a adjetivação).

Porém, um olhar para o futuro mostra que Michel Temer já se prepara para convocar um governo de união nacional. Ou seja, vai convocar todos os partidos para governar junto, indicar ministros e integrantes dos primeiros escalões do Executivo. É o mesmo método de Itamar que, na época, somente encontrou recusa por parte do PT. Talvez, agora, só o PSOL recuse, pois, o PCdoB não tem um histórico de resistir a cargos públicos. O novo governo deve enfrentar a “herança maldita” do PT: a maior crise econômica da história, o mais alto patamar de gastos públicos, uma inflação alta, o descontrole da dívida pública e a falta de investimentos. Será preciso tomar medidas difíceis, porém, é preciso dar o primeiro passo para recriar as condições para o país crescer. Não será um caminho fácil nem de recuperação rápida, mas, pelo menos, se acena com a esperança, que estava morrendo à míngua com um governo que, nos últimos três anos, somente cuidou de tentar se manter no poder. 

terça-feira, março 22, 2016

VAI TER É IMPEACHMENT


O, agora, advogado-geral da União, José Eduardo Martins Cardozo, num discurso enraivecido no Palácio do Planalto, depois de um encontro de juristas a favor do governo, sem nenhum argumento convincente, tenta justificar as conversas nada republicanas, entre a presidente Dilma Rousseff e o quase ministro Lula, alegando que “Conversas privadas que nada têm a ver com delitos devem ser privadas”. Ora, se não houvesse fundadas razões para Lula ser interceptado nas suas conversas telefônicas, e dos em seu entorno, até que se poderia alegar que há uma intervenção na privacidade, mas, o que ficou claro no saldo das conversas é que existiu delito sim; é que o ex-metalúrgico, mesmo sob monitoramento, de forma inequívoca com Dilma ou sem ela, arquitetava manobras para obstruir as investigações sobre esquemas de corrupção e o trabalho da Justiça.
José Eduardo Cardozo, porém, como é comum entre os petistas, não consegue ver crime nenhum no que fazem, apesar da quantidade imensa de companheiros presos, dos crimes tipificados no Mensalão e no Petrolão, na já comprovada irrigação das campanhas petistas com recursos oriundos de propinas, nos dois anos de Operação Lava Jato, que, só de recuperação de recursos alcançou os R$ 3 bilhões que, não há como negar, vieram, e dizem que ainda muito pouco, de desvios de dinheiro público. Não há viés político algum na ação da Justiça ou da Polícia Federal. O que se trata na verdade, e isto é profundamente incomodo para o poder de plantão, é que os fatos anulam as narrativas que tentam impingir à população.
Entre outras narrativas inverídicas está a já desgastada e enfadonha cantilena do “não vai ter golpe”. Golpe se faz com a quebra da lei vigente. E quem a tem quebrado não é a Polícia Federal, quando prende quem infringiu a lei, nem os promotores que acusam, nem o juiz que julga. Quem a fere é um governo que, num regime democrático, não pode se manter ao sabor do seu livre arbítrio, mas, antes de mais nada, tem que ter respeito, incondicional, à legislação vigente, sem o qual a ordem, a tranquilidade da nação deixa de existir. É um governo que considera, por exemplo, normal a adoção das malfadadas “pedaladas fiscais”, bem como elevar, por medida provisória, a chefia de gabinete ao patamar de ministério para proteger  companheiros ou remanejar e gastar recursos públicos sem a devida autorização. E se justifica por se considerar o melhor governo que já houve, embora os milhões de cidadãos que estão indo para rua protestar não reconhecem esta maravilha de governo que os “companheiros” vociferam felizes, nem veem ganhos incontestáveis para a sociedade no governo petista. O que veem são os juros altos, a inflação caminhando para ser galopante, a falta de renda, de emprego e de governo.

Golpe não se faz com os parlamentares votando pelo afastamento de Dilma, nem com o rito sendo julgado pelo Supremo. É inaceitável que se fale em golpe quando a figura do impeachment consta da lei, assim como o processo que tramita na Câmara dos Deputados segue os preceitos legais e é um reclamo da maioria dos brasileiros, que fazem panelaços, buzinaços e caminhadas pedindo aos parlamentares para votarem o processo de impeachment da presidente da República. Golpe se faz com armas. E a única arma que o povo brasileiro possui, no momento, é gritar contra um governo que perdeu toda a legitimidade e cobrar dos seus representantes no Congresso para, democraticamente, retirar do poder um governo que só cuida dos seus próprios interesses, que é o de se preservar indefinidamente no poder. Isto sim que não tem nada de democrático. Isto sim que é golpe. Claro que não vai ter golpe. Vai ter mesmo é impeachment. 

segunda-feira, março 14, 2016

É UM GOVERNO MELHOR O QUE SE DESEJA




Hoje, quem defende o governo, quem defende o PT, embora o PT na verdade vá além do governo e esteja abaixo de Lula, não tem como se defender de um fato real. No Brasil, neste domingo 13 de março, se verificou uma constatação invulgar e inegável: a parcela mais significativa e politizada da população, mesmo que, preponderantemente, de classe média, mostrou que possui uma consciência forte de seus direitos e manifestou-se contra o sufoco da carga tributária, contra a má qualidade dos serviços públicos, contra a falta de atenção da classe política para resolução de seus problemas e mais ainda que não deseja mais Dilma como presidente e que há uma consciência de que os três Poderes da república se deixaram impregnar por níveis, até antes, impensáveis de corrupção, daí, a exigência que, mais que apenas a Lava Jato, haja uma limpeza na política para que se evite o desperdício e, até mesmo, o acinte no uso do dinheiro público.     
Que não se pense que as coisas irão parar por aí. Os protestos foram, sim, pacíficos, familiares, alegres mesmo, porém, havia por trás uma consciência de que a crise pela qual estamos passando é fruto dos desmandos, da corrupção e da falta de funcionamento adequado da democracia. Há, nas pessoas que protestaram, um certo cansaço, um certo desânimo, a sensação latente de que não estão representados pelas pessoas que governam e, mais do que nunca, pedem que se dê um rumo à desorganização, à falta de horizontes, a um desgoverno que parece obstruir qualquer possibilidade de um futuro melhor. Claro que as pessoas sabem mais o que não querem do que querem. Mas, também sabem que querem melhor transporte público, melhor educação, melhor saúde e mais segurança. E o que desejam é que o governo use os impostos, por sinal demasiado pesados, para isto.

Efetivamente, Lula e Dilma foram os alvos maiores por não terem cumprido suas promessas de dias melhores e por não terem, na opinião da maioria que os elegeu, mais condições, nem credibilidade, para reverter a situação. Ambos são apenas mais do mesmo. Tiveram suas oportunidades e jogaram fora. É também evidente que, numa quantidade tão grande de pessoas, há visões e propostas de todos os tipos. Há os extremamente raivosos que culpam Lula de tudo e o querem na cadeia, mas, a grande realidade é que a maioria somente deseja um governo melhor; um governo que lhe cobre menos impostos, forneça melhores serviços e crie condições para que se tenha um futuro melhor. 

terça-feira, março 01, 2016

EM CHATÔ FALTOU ASSIS CHATEAUBRIAND


Sinceramente, que me perdoe Guilherme Fontes, mas, passar 15 anos para fazer de um tema como o de Assis Chateaubriand um filme menor, é passível mesmo de responder processualmente seja pelo que for. A grande realidade é que Fontes transformou “Chatô-O Rei do Brasil numa chanchada, numa autêntica e boa chanchada. Nada contra o gênero, que tem seu indiscutível valor, no entanto, se, é verdade, que a chanchada nunca sai de moda, nem por isto se aplica com perfeição a uma personalidade, como a de Chateaubriand, que carece de um tratamento muito mais sério, muito mais aprofundado de suas múltiplas facetas e vida atribulada e rica.
Acrescente-se que, para fazer o filme, Guilherme Fontes cercou-se de grandes nomes do cinema nacional e, pelo que ficou evidente, teve amplas condições de fazer um filme memorável. Não deve ter faltado também pesquisa, na medida em que o filme se imiscui em momentos fundamentais da vida do grande jornalista, todavia, opta por buscar o lado histriônico do personagem, no que se afasta bastante do livro de Fernando Morais, que busca traçar a trajetória e os motivos comportamentais do biografado. A adaptação livre, com momentos de flash back, escolhe diminuir o personagem a uma espécie de Macunaíma paraibano e tende a ter um lado de desvario, de alucinação tropical, quando centra os interesses de Chateaubriand apenas no seu lado sexual ou no acaso, perdendo de vista sua percepção prática do mundo e sua visão original, dada apenas como um viés meramente oportunista.
O filme tem seus méritos? Tem. Se não se tratasse do grande personagem que trata seria, sim, um filme muito bom. É de um tropicalismo surreal com os personagens de animadores de auditório, meio clowns, meio galãs, quase canastrões, numa mistura entre um Chacrinha estilizado e os apresentadores de circo Fellininianos. Não deixa de ser uma retomada do escracho nacional sobre as relações promíscuas do poder e do sexo, porém, nos deixa sem saber, de fato, quem foi, o que fez, qual a importância de Assis Chateaubriand. Seja a de criar uma grande rede de jornais, introduzir a televisão, ou criar uma coleção de arte, como a do acervo do MASP, por meio de achaques, tudo, como as próprias relações amorosas, vira anedota. Tudo bem. Podem alegar que Fontes flerta com a antropofagia e com a iconoclastia. Não nego que pode ser, mas, o filme acaba como se passa: sem deixar rastro. Quando se termina de rir, infelizmente, Chatô desapareceu.


sexta-feira, fevereiro 12, 2016

UM LIVRO COM CHEIRO E GOSTO DE AMAZÔNIA


MINEV, ILKO. Onde estão as flores?. São Paulo, Livros de Safra-Selo Virgiliae, 2014.

É prazeroso, em especial para quem conhece um pouco a Amazônia, ler o primeiro livro de Ilko Minev “Onde estão as flores”. É mesmo um momento de encantamento. O título provém de um hino pacifista cantado no período da Segunda Guerra Mundial, época de quando a história se inicia com o amor entre dois jovens búlgaros, que, fugindo dos horrores da guerra, imigram para o Brasil, um país cheio de promessas, um lugar de recomeço, um bilhete para uma nova vida.  E, com o toque do inesperado, de vez que, por um acaso, acabam em Belém e, depois, passam a viver em Manaus onde vão passar pelas grandes transformações da cidade, vivenciar uma realidade inteiramente nova, a borracha, com o esplendor do seu apogeu e sua queda. É na Amazônia, aliás, que o romance ganha intensidade e se mostra como uma história de vida de muitas pessoas que estiveram em situações similares e criaram uma nova civilização no coração das florestas. É, de certa forma, uma recriação, de como, os imigrantes se inseriram e fizeram parte da construção de um novo mundo na Amazônia.

O livro de Minev, que não deixa de ser uma memória de parte de sua vida, tem a beleza de ser também uma vivência de muitos, uma realidade social que foi compartilhada por muitas famílias imigrantes, daí, ter um gosto, um pé nos temperos da verdade e da história. Acrescente-se que deve ser motivo ainda maior de orgulho, ser um triunfo fantástico na vida de um escritor, mesmo com tanto tempo de vida no país, escrever numa outra língua que não é a sua, e ainda mais, captar, como Ildo Minev consegue captar, as nuances regionais, de tal forma que conseguiu escrever um livro amazônico e que, na sua essência, é universal, por enfocar o drama humano da sobrevivência, da luta contra a natureza, da superação dos medos e obstáculos. O maior mérito é que consegue tudo isto escrevendo uma história que prende o leitor com leveza, simplicidade e uma escrita que é gostosa, quase coloquial, mas, sem perder a beleza e a capacidade de ser exata. A trama é a cereja do bolo. Quem gosta de uma boa literatura, quem se interessa pela Amazônia não pode deixar de ler e, com certeza, há de encontrar um pouquinho de si mesmo nas flores que, Ildo Minev, plantou com a delicadeza de um grande jardineiro. 

quinta-feira, fevereiro 11, 2016

O ACASO QUE NOS PROTEGE...


Também deu nome à muitas ruas de Porto Velho

Alguns bons pensadores afirmam que o acaso tem um papel muito mais forte no sucesso ou na existência de algum acontecimento mais do que se pensa. Lembro-me que li a tese, num livro de grande qualidade, de Leonard Mlodinow denominado de “O Andar do Bêbado”. Nele Leonard consegue explicar que, na vida, a aleatoriedade é um fato e que, muitas vezes, ocorre contra a lógica comum. Ele ressaltou, por exemplo, que, ao contrário do que pensam os torcedores, que pedem a dispensa do técnico quando o time vai mal que, em média, elas não tiveram nenhum efeito num desempenho melhor da equipe. Efetivamente, embora tente criar uma teoria de como o acaso acontece, deixa bem claro que nem mesmo a quantidade de informações influem muito, ou seja, os insucessos acontecem com excesso ou falta de informações. Para ele, há, em qualquer série de eventos aleatórios, uma grande probabilidade de que um acontecimento extraordinário (bom ou ruim) seja seguido, por puro acaso, de um acontecimento mais corriqueiro. De qualquer forma o que ele escreveu, como escreveram outros, é que se o acaso é inevitável, então a sorte é fundamental para algum acontecimento, de forma que o diferencial pode não ser o talento (ainda que necessário), mas, a persistência. Digo mesmo a teimosia.
Tudo isto foi uma longa introdução para um evento de pura sorte que me aconteceu. O Flávio Daniel Pereira, que foi carnavalesco e sindicalista reconhecido em Porto Velho, precisava de uma dica de um economista e, vejam que, por acaso, veio me procurar. E, de fato, quem saiu ganhando fui eu. Na conversa ele me lembrou uma pessoa que teve um papel fundamental em Porto Velho que foi o seu Miranda, com o nome por extenso de Luis Borges de Miranda, que, por sinal, nem sabia é o pai da mulher dele. Seu Miranda, uma figura esquecida no tempo, foi um desses heróis anônimos, como a Maria Helita Ferreira, que também foi responsável pelo cadastro e abertura de muitas ruas e avenidas de Porto Velho e outras cidades, que dela dependiam no passado. Foram pessoas que fizeram história sem se preocupar em ficar ricos ou preservar seus feitos, mas, que merecem não serem esquecidas e terem o seu valor preservado.

Flávio Daniel, com uma excelente memória, recordou como seu Miranda deu o nome de muitas das ruas de Porto Velho. A rua Brasília, por exemplo, só teve este nome porque na ocasião a nova capital federal estava sendo inaugurada. Outros nomes que foram postos por seu Miranda foram os de Getúlio Vargas, Salgado Filho e João Goulart, uma homenagem que ele, como um bom “cutuba” fez aos políticos de seu partido. Assim como homenageou os amigos, como Elias Gorayeb, Rafael Vaz e Silva, entre outros, bem como, criado pela ditadura o Estado da Guanabara virou rua graças a ele. E, vejam o acaso dos acasos, quando abriram a rodoviária e permitiram novas ruas; ele começou a denominá-las com nomes de países, porém, como não gostava de argentinos, chegou na vez dos “hermanos” e ele , no meio dos países, colocou lá uma diminuição de importância e a rua virou rua Buenos Aires.  Como se vê o acaso é muito mais forte do que se pensa. Tanto que não fosse ele não seria lembrado da origem de muitos nomes das ruas de Porto Velho. 

domingo, janeiro 31, 2016

UM LIVRO DE UM REPÓRTER





Li, praticamente, sem parar o excelente livro de Marcone Formiga “Em Nome da Verdade-Cartas para o meu neto”, publicado pela Editora Dom Quixote, 2004. Trata-se de um testemunho importante de quem conviveu de perto com muitos dos personagens que fizeram parte da história recente do país. Como um bom repórter, que sempre foi, Marcone, que desenvolveu uma escrita marcadamente jornalística durante sua vitoriosa carreira, consegue, com habilidade e segurança, manter o leitor atento aos fatos que narra e curioso pelo que pode oferecer e, creiam, oferece muito para quem se interessa em ver além das versões correntes e sentir, um pouco, como os mecanismos do poder são acionados.
Embora não se isente de fazer julgamentos, e muitos deles, mesmo nas entrelinhas, extremamente duros, o repórter, que sempre viveu nele, tenta, na medida do possível, se ater aos fatos e julgar com a isenção possível. De fato, como uma testemunha de muitas histórias recentes do poder, Marcone Formiga nos faz visitar, e não se exime de tentar traçar um perfil, de figuras tão diversas quanto às de Jânio Quadros, João Agripino, Petrônio Portela, Geisel, Figueiredo, Golbery, Collor e tantos outros que se tornaria exaustivo, e tiraria o prazer de descobrir na leitura um desfile de novidades, bem como os caminhos que o levaram a participar da proximidade de tais figuras.
Como uma espécie de colunista social-mór de Brasília, na prática conviveu ou conheceu todas as pessoas que foram fundamentais para a cidade, como um jornalista que cobriu durante anos o Planalto e um editor da revista “Brasília Em dia”, onde fez das entrevistas uma espécie de confessionário e repositório de ideias, Marcone, foi um espectador privilegiado de muitas coisas que ele, sem sensacionalismo, mas, com o intuito de esclarecer e desvendar aspectos, mostra com serenidade e com sua visão liberal e crítica de um jornalista que sempre procurou se pautar pela ética. Mesmo quando relata sucessos de sua jornada não se abstém de mostrar que, além de muito trabalho, contou com a sorte, embora está tenha tido muita ajuda de seu faro de repórter.

O livro, além de ser um repositório de memórias, tem também o mérito de dar testemunhos insuspeitos sobre muitas figuras, inclusive resgatando a verdade de certos comportamentos. É o que faz quando revela que o ex-ministro Mário Andreazza, sempre visto como um aproveitador do poder, uma espécie de padrão de corrupção, na verdade, exerceu o poder e, gostava dele e de sua pompa, não para tirar proveito pessoal e sim como uma forma de fazer coisas, de buscar melhorar a vida brasileira. Morreu, como aconteceu com o governador de Rondônia, Jorge Teixeira de Oliveira, que teve um poder imperial naquele estado, com problemas financeiros e dependendo da assistência de amigos. Por essas revelações, e outras tão interessantes como esclarecedoras, o livro de Marcone nos sabe a uma boa aula de jornalismo, história e de política. E tudo isto, sem esforço, de vez que é uma leitura extremamente saborosa. 

quarta-feira, dezembro 23, 2015

Feliz 2019


Bem, verdade seja dita, não gosto muito de chegar no Natal, no fim de ano, falando de coisas horrorosas, mas, me digam, como não falar, como não escrever sobre as tristezas de um país sem rumo, de um ano horroroso, que termina de forma mais melancólica do que nunca? Não bastou a tragédia de Mariana.  As coisas andam tão ruins que, não foi o cinema que incendiou e sim, para tristeza geral, uma parte do magnífico Museu da Língua Portuguesa, em São Paulo, logo, um pouco antes da data em que entraria em vigor o Acordo Ortográfico. O incêndio, aliás, deve ser uma vingança dos fados, uma resposta simbólica, porém, incontestável, contra a manutenção do segundo mandato da presidente Dilma, numa artimanha judicial, que é um completo desrespeito à Constituição, pelos que deveriam preservá-la. É como se tivessem dito, os fados, se o país já acabou para que a língua?
Este ano, que, o seu final, ainda nos presenteia com um o novo ministro da Fazenda, Nelson Barbosa, o pedalador, que substituiu, Joaquim Levy, o Mão de Tesouras, que não cortou nada, é o mesmo que vê o aedes aegypti, que já havia sido banido há mais de um século pela determinação do sanitarista Oswaldo Cruz, vencedor da batalha da vacina obrigatória e do saneamento urbano, retornar, por incompetência, como vetor de transmissão da dengue, chicungunha e a febre produz fetos microcefálicos e,em crianças e idosos, a síndrome neurológica Guillain-Barré. Ou seja, procriar se tornou um risco e aos velhos, não bastava apenas deixá-los mais pobres e endividados, foi preciso garantir que, no futuro, sejam em número menor, numa diminuição dos custos das aposentadorias por mortalidade.  Até mesmo o whatsapp, que havia se incorporado ao cotidiano nosso de cada dia, para não nos dar sossego, para completar a intervenção indevida e a judicialização da vida brasileira, foi para o espaço, por algumas horas, atingindo por uma canetada. Se bem que já estamos nos acostumando com a criminalidade, o trânsito cada vez mais precário, a falta de energia, de internet, de tv a cabo, de Netflix, então, por que também não do whatsapp? O que, todavia, não nos falta são novas regras e novos impostos. Afinal, como nos afirma o sábio deputado líder de governo, falta mais governo.... E, para piorar, se é possível, mas, dizem que sempre pode piorar mais, vamos continuar a ser governados por Dilma, Renan e Cunha, em 2016. É Natal, um natal de vacas magras, diga-se de passagem, e de noticiário de gordas propinas que levaram muitos para as prisões sem que, no essencial, nada tenha mudado. A suspeita, e as previsões, são de que teremos um ano pior ainda. Será, dizem os astros, magos e pitonisas, um Annus Horribilis. Feliz 2019- para quem sobreviver. Com o que continuamos a ter, ainda teremos mais três anos, para poder pensar em mudar alguma coisa.


quinta-feira, dezembro 17, 2015

O inferno é aqui


Impossível, no momento, não lembrar de Igor Alexander Caruso, psicanalista e fundador da escola vienense de Psicologia Profunda, que, inclusive esteve no Brasil várias vezes, e cunhou a seguinte, e perfeita, frase: "O natural do homem é ser antinatural". E, como esclarece o sentido da palavra, antinatural é ser contrário às leis da natureza ou o que se opõe ou contraria a natureza ou as suas leis; contranatural. Se levarmos ao pé da letra, talvez com um certo e correto grau de extrapolação podemos dizer também que o absurdo se torna normal para o homem desde que o aceitemos, desde que nos familiarizemos com ele. A realidade disto foi comprovada, por exemplo, nos tempos de exceção do nazismo e do comunismo nos quais as pessoas se comportaram como monstros como se fosse tudo natural.
Em grau menor, porém, não menos perverso um fenômeno similar ocorre no Brasil atual quando olhamos para os nossos poderes e para a nossa vida cotidiana que parece uma peça de Beckett na sua essência, de vez que nós, os pobres e desamparados personagens  da história, esperamos ansiosos por uma solução, por uma ajuda para escapar do pântano, em que nos encontramos, numa terra onde nada acontece de inovador, onde tudo se repete sem cessar, e de forma crescente e mais absurda, somente aumentando nossa angústia, decepção, nos fazendo rir, do que é impossível de rir, para tentar iludir a tristeza e frustração. Vivemos um tempo onde o normal é que se tornou o verdadeiro absurdo.       

Os últimos tempos, sem precisar comentar, dizem tudo: a prisão dos maiores empreiteiros do país, a prisão de um líder do governo no senado, a aceitação do pedido de impeachment de Dilma, a pantomima do Congresso, as ações policiais contra Cunha, Renan, Lobão, ministros & uma penca de parlamentares, as multidões nas ruas, minguando diante do descrédito com as instituições. No cenário o maior grau de normalidade provém ainda do Judiciário. Até quando? Se os problemas só aumentam. Agora o Procurador Geral da República, Janot, pede o afastamento de Cunha. Perfeito. Mas, Cunha pode dizer, com razão, “Por que só eu?” Afinal qual a diferença entre o que se alega que é o comportamento de Cunha do que faz o próprio Planalto? Ou o senador Renan Calheiros? O deputado Chico Alencar, se considerando uma vítima deste teatro do absurdo, se esgoelou, gritando que “Está tudo errado”. E está certo. Não se precisa pecar nem morrer. Basta ser brasileiro para se ter direito ao inferno. O inferno é aqui. 

Ilustração: prjefersonfabiano.blogspot.com

quinta-feira, dezembro 10, 2015

Basta de mais impostos


Na tarde da terça-feira (8) último, em Brasília, na sede da CNC (Confederação Nacional do Comércio), o secretário da Receita, Jorge Rachid, único representante governista convidado para participar do lançamento do “Manifesto contra o aumento do PIS/Cofins”, acabou sendo constrangido por discursos inflamados de empresários insatisfeitos com a situação econômica do país. Apesar de tentar afirmar que existe a intenção do governo de não aumentar impostos, o diretor da Cebrasse Central Brasileira do Setor de Serviços) , Erminio Alves de Lima Neto, só não o chamou de mentiroso, mas, sublinhou: “A gente não acredita no Estado”. O Estado, acrescentou ele, "é perdulário e adora criar insegurança jurídica" por meio de um emaranhado de normas e medidas e completou, sem medir  palavras  cobrando de Rachid mais respeito. “O setor de serviços precisa ser mais respeitado. O Ministério da Fazenda desrespeita muito o setor. Há um medo em conversar com quem gera riquezas neste país”.
Porém, mais duro ainda foi o presidente do Sinduscon-DF (Sindicato da Indústria da Construção Civil do Distrito Federal), Luiz Carlos Botelho, que disparou “Não é só chegar aqui e apresentar isso aí. Aqui se sabe de matemática e aritmética. O desafio do senhor é tirar a complexidade (do sistema tributário)” e, foi mais além e  agressivo. “É preciso dizer a verdade”, chegou a afirmar o empresário, apontando para Rachid. “Com todo o respeito, vamos resistir a você e a seus funcionários”, emendou, sendo aplaudido pelo auditório. Na mesma toada o diretor-executivo do SindiTelebrasil (Sindicato Nacional das Empresas de Telefonia e de Serviço Móvel Celular e Pessoal), Eduardo Levy, engrossou os constrangimentos impostos a Rachid. “Repelimos de forma energética a proposta do governo. No nosso setor, aumento de carga tributária implica exclusão social”, comentou. O evento da terça-feira foi o início de uma série de atividades organizadas por entidades de diversos setores produtivos que encaram a reforma do PIS/Cofins como uma estratégia para aumentar a carga tributária.

Este comportamento tende a se alastrar na medida em que, com a crise, e a consequente queda das receitas, os governos, tanto federal, quanto estaduais, tomam a decisão mais fácil que é a de aumentar impostos, que, por sinal, já se encontram num patamar muito elevado. Aqui mesmo, em Rondônia, apesar do governo alegar que as contas estão em dia, também foram propostas várias leis para “recompor o caixa” e prevenir inadimplência. A alegação é de que todo mundo sofre com a crise, o que é verdade, porém, entre os empresários há a sensação de que estão transferindo a inadimplência dos cofres estaduais para o cofre deles. E se alastra, cada vez mais, um sentimento de resistência contra o pagamento de mais impostos. Até já se fala em criar uma campanha sob o slogan “Basta de impostos”, todavia, há os mais radicais que pregam uma paralisação, mesmo que temporária, no pagamento de impostos como forma de protestar e fazer com que os políticos entendam que o aumento de impostos chegou ao limite suportável. 

terça-feira, dezembro 08, 2015

Até onde um plano de desenvolvimento sustentável se sustenta?


Não deixa de ser um avanço significativo, com todos os problemas que possa ter, o lançamento na última segunda-feira, dia 07, do Plano de Desenvolvimento Sustentável de Rondônia (PDES- 2015/2030). Foi anunciado que Rondônia passou a ser referência para restante do país, segundo Maria Tereza Teixeira, representante do Ministério da Integração Nacional, com um planejamento que estabelece metas para os próximos 15 anos, levando em conta os três pilares da sustentabilidade que são: prosperidade econômica, qualidade ambiental e justiça social. No lançamento o governador Confúcio Moura disse que é comum, no país, cada governante fazer um planejamento, que acaba ignorado pelo sucessor, que por sua vez faz outro, que também será ignorado na administração seguinte. Segundo ele, é um dos problemas do Brasil, cujo modelo federativo está exaurido e não agrada a nenhum setor da sociedade. Também propôs um debate sobre o que fazer para que a crise não chegue ao estado e indicou que a solução está mesmo em Rondônia, de onde devem sair boas ideias que se contraponham ao modelo desgastado existente. Segundo ainda ele, os planos e programas devem  incorporar a sabedoria que vem das ruas, do povo, que deve participar da condução dos seus destinos. Ele ainda defendeu que as preocupações se voltem para setores como a agricultura familiar e os adolescentes que estão fora de sala de aula, sem perspectivas.
Bem, Confúcio tem muitos méritos. Entre eles de ser resiliente, de conseguir, mesmo quando os fatos são adversos, vender otimismo e, no lançamento do PDES, estava até mesmo entusiasmado. É verdade que, desde uma tentativa de um projeto ainda do tempo do governador Raupp, quando se tentou fazer um plano estratégico, o Úmidas, não se tem no Estado um plano de longo prazo. E, temos que admitir que ter um, já é uma vitória, mas, o que, no passado, já era difícil, que é fazer planejamento governamental no Brasil está, praticamente, se tornando impossível. Digo isto porque um plano, para ser um verdadeiro plano de governo, deve ser compartilhado, deve ser um plano do qual a população, o povo, saiba o que esperar, ou seja, atue como uma sinalização para o futuro.

O grande problema, logo de início, é o de que, nos tempos atuais, como o planejamento se faz para um espaço geográfico, um espaço político, são tantos os atores, tantas as instâncias que fica difícil se ter uma coordenação e um controle das ações. Basta verificar que, em Rondônia, por exemplo, existem diversas regionalizações diferentes  e o governo federal, por meios diversos, ainda cria seja unidades de planejamento, como os territórios, ou legisla por meio da criação de áreas ou até mesmo, de forma fática, pela legislação, de tal forma que, mesmo o governo estadual, não tem domínio sobre seu território. Pior ainda: nem mesmo possui os recursos indispensáveis para promover o seu desenvolvimento na medida em que, engessado pelas leis, possui muito pouco para investir.  E, como não existe um planejamento regional brasileiro, ainda que existam planos para tudo, a construção do futuro fica extremamente dificultada porque, por melhor que seja o plano elaborado, não se dispõe nem dos meios, nem de forma de se direcionar todas as ações na mesma direção. Enfim, devo dizer que fico contente com Rondônia ter um plano de desenvolvimento sustentável, o que não deixa de ser um resgate da nossa tradição de pioneirismo em planejamento, porém, como não estamos isolados do Brasil, temo muito que sem mudanças profundas, como tudo mais, o nosso plano fique atado nas teias burocráticas do governo e na falta de recursos e de atenção, que são uma marca do descaso com que a Amazônia sempre foi tratada. 

quarta-feira, dezembro 02, 2015

UM ZUMBI EM GESTAÇÃO


Não tem outra palavra senão a que Boris Casoy usa como bordão: “É uma vergonha!”. Mas, contra toda a lógica política e de decência, o que se viu foi que a Comissão Mista de Orçamento (CMO) aprovou a inclusão da Contribuição Provisória sobre Movimentações Financeiras (CPMF) na arrecadação de 2016. A votação aconteceu durante a apreciação do relatório do senador Acir Gurgacz (PDT-RO) à receita da proposta orçamentária de 2016 (PLN 7/2015) e, pelo texto aprovado, se pretende com a arrecadação do tributo, a partir de setembro do próximo ano, transferir do setor privado cerca de R$ 10,1 bilhões de receita para os cofres da União. Num momento de crise, num momento em que são comprovados que uma grande quantidade de recursos públicos saí pelos ralos do desperdício e da corrupção, com uma carga tributária que já é das maiores do mundo, isto representa, no mínimo, um desrespeito à opinião pública e uma comprovação de que os parlamentares fazem jus ao conceito geral de que somente cuidam dos interesses próprios.
É verdade que a aprovação não importa em que o tributo seja recriado, porém, que o valor da arrecadação com ele foi incluído na proposta orçamentária, ou seja, que se deixou a porta aberta para o governo pressionar por sua aprovação e, como já contou com o apoio de PT, PMDB, PCdoB, PP, Pros, PTB, PRB, PSD e PDT  (Só votaram contra PSDB, PSC, DEM e PSB) pode-se esperar uma grande ofensiva no sentido de que a proposta que recria a CPMF (PEC 140/2015) tramitando na Câmara, e que ainda não passou pela primeira etapa de votação, acabe, por vias e travessas, tendo sua análise de admissibilidade feita na Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania (CCJ). De qualquer forma, ao ser incluída no orçamento, se oferece a oportunidade do governo tentar fazer o tributo virar realidade até  maio, prazo máximo para garantir a promulgação da PEC e cumprir o princípio da noventena.

O comportamento dos parlamentares é mais vergonhoso ainda quando se sabe que a CPMF é um tributo denominado de gilete, que corta dos dois lados, de vez que pesa sobre a produção e também sobre o consumo. Na produção aumenta os custos dos insumos e diminui a disponibilidade financeira das pessoas e das empresas nas retiradas de dinheiro dos bancos. Ainda por cima é de natureza cumulativa e antinacional na medida em que aumentando os custos da nossa produção favorece a importação de produtos. É um tributo que estimula o uso do dinheiro vivo (para fugir da tributação) e invasivo ao incidir sobre todas as fases da produção onerando toda a economia formal. Também é injusto por não expressar a capacidade contributiva, base indispensável para incidência tributária. Enfim, é um imposto ruim, péssimo para a economia ainda mais numa economia em depressão. Deveria estar morto, enterrado e sepultado. Não está. E, vergonhosamente, os parlamentares dão sobrevida a um morto que pode se tornar um zumbi, mais um, que atormentará ainda mais a vida dos brasileiros. 

quinta-feira, novembro 26, 2015

O comportamento nas redes sociais exige limites


Há certos tipos de comportamento que me incomodam e, por ser uma pessoa até certo ponto antiga, ainda do tempo em que o Brasil possuía tecnologia de boas maneiras, me incomodam muito mesmo, até mesmo em alguns bons amigos que tenho, a forma como agem na internet. Não sei explicar, sob o ponto de vista psicológico, que, por sinal, não é meu forte, a razão, porém, elas existem, pois, assim como acontece com muitas pessoas que pegam na direção de um veículo ou de motoqueiros, que se acreditam ases do motociclismo, muitas vezes, também as pessoas que se colocam diante da tela de um computador parecem perder a própria personalidade e passam a agir como se fossem selvagens ou brutos. É a impressão que tenho quando vejo certas coisas, em especial, no Facebook ou no Whatsapp, embora seja quase ausente de sua utilização pela interatividade que provoca.
Sou um dos que creem que as redes sociais são um importante instrumento de relacionamento. Acredito mesmo que, hoje em dia, seja imprescindível estar nelas que nos auxiliam sob diversos aspectos da vida e da profissão. Para mim, é impossível não estar, por exemplo, na internet e, com extrema frequência, uso os e-mails, sou um blogueiro permanente e gosto de passear no Instagram. Enfim, sou um dinossauro com certa tendência para o mundo digital, mas, embora faça diferença entre as mídias digitais e o  mundo real, não creio que a ética que nos move possa ser diferente e não nortear o nosso comportamento em ambas as esferas. Não é o que parece acontecer com muitas pessoas que parecem mudar completamente de personalidade pelo seu comportamento no mundo digital.  
É comum que, por exemplo, me surpreenda com pessoas que, face a face, sejam muito delicadas e tolerantes em relação as opiniões alheias e se comportem na discussão virtual como se fossem verdadeiros trogloditas. Também me espanta, fora a quantidade de besteirol que se reproduz, os convites inumeráveis para jogos ou temas que, em nada, nos interessam, além da quantidade de comportamentos e fotos inapropriadas, de vídeos preconceituosos ou até mesmo pornográficos, de correntes sem sentido, de convites religiosos ou orações sem consideração pela religiosidade do outro e comentários completamente descabidos. E, para minha surpresa, partem, justamente, de pessoas que jamais pensaria que se comportariam assim. Como sou tolerante e democrático prefiro não dizer nada, todavia, também, em muitos casos, surgem as ameaças de ser excluído pelo silêncio ou deixar de ser amigo por não ler algo que, no fundo, é coisa de quem não tem o que fazer no momento. São formas comuns que costumam desfazer as imagens pessoais nas redes (e, por via de consequencia, fora delas). Isto sem contar os casos de vaidade explicita, de pessoas que não dão um passo sem um selfie ou um comentário. Longe de mim querer moldar todo mundo, mas, por que se expor além do necessário, se isto é até perigoso para a própria vida? Não, não pretendo ter uma resposta. Mas, previno aos amigos, que evitem certas imagens, que usem as imagens privadas com moderação. Afinal ninguém precisa saber o que você come e bebe nem passa suas férias.  Menos ainda ficam bem os palavrões ou os comentários maldosos  ou falar mal de colegas de trabalho, de faculdades ou até mesmo de empresas. É preciso lembrar que seu procedimento na internet pode subsidiar tanto os bandidos que assaltam pessoas como também os conteúdos podem gerar uma imagem completamente falsa de sua pessoa. Lembre-se que o ambiente digital é público e tudo que se vê nele é como um cartaz posto no meio da rua. Seja prudente e cuide da sua imagem.



domingo, novembro 08, 2015

A desmaterialização e a imprecisão da imprensa


Uma das dúvidas mais interessantes, no momento, e, isto ficou bem claro, no 19º ENAI - Encontro Nacional da Imprensa, que reuniu as associações e entidades de imprensa e jornalistas, no último sábado, dia, 07 na Assembleia Legislativa de Rondônia, é o que a imprensa se tornou hoje. No passado isto era muito claro. Se podia determinar com clareza quem pautava a notícia, quem divulgava, quem fazia ser e acontecer. Havia até mesmo jornalistas que faziam, no bom sentido, a notícia. Antes a imprensa tinha nome, sobrenome, endereço certo, uma identificação precisa. É o que não acontece, agora, quando a imprensa, como o mundo, se desmaterializa, se desmancha no ar. Snodew, por exemplo, foi mais devastador que qualquer das grandes redes mundiais de imprensa.
Na verdade a imprensa, hoje, como acentuou José H. Oliveira Júnior, presidente da Agência Brasileira de Notícias-ABN, pode ser um blog. Pode também ser um vídeo que se espalha na internet e vira viral. Uma foto no Instagram, um comentário no Facebook pode se tornar, num instante, mais forte que páginas e páginas num jornal ou telejornal repetitivo, de vez que, ao mesmo tempo que a imprensa se desintegra, se fragmenta, parece, aos olhos de todos, mais igual do nunca, mais a mesma coisa, nas notícias “pega e cola” de todos os órgãos de comunicação, que surgem padronizados, iguais, pasteurizados de tal forma que as imagens, fotos, palavras são as mesmas, como se fosse modificado apenas a marca de quem veicula. Em certos momentos parece que só existem algumas notícias e algumas pessoas tal a falta de assuntos novos. Tudo fica parecido como os restos num grande lixão. É o grande paradoxo: uma imprensa imensamente fragmentada para produzir notícias padrões. Um mar de veículos com as mesmas notícias compactas, iguais, simulacro de verdade que se afirma mais pela repetição do que pela qualidade. E, em geral, repetição de notícias ruins no teor e na essência.

É o por isto que se pergunta, os jornalistas se perguntam, o que é a imprensa hoje? Uma boa resposta, tomada pela média das conversas, é de que ninguém sabe. Vivemos uma fase de transformações que deve construir um novo modelo, um novo paradigma de imprensa. Hoje, porém, parece que circulamos sem definição entre o velho e o novo, sem saber bem o que flutua ou afunda. De certo sabemos que a imprensa nunca mais será a mesma. E também que terá que ser exercida, cada vez mais, como sempre foi dentro de determinados parâmetros de ética, com qualidade e, quando bem feita, contra. Seja contra o governo, contra as grandes empresas, contra os interesses escuros e escusos, mas, a favor da verdade e do esclarecimento. E, como disse muito bem Domingues Júnior, diretor do Departamento de Comunicação Social do Governo de Rondônia (Decom), buscando a excelência no que se faz, pois, a essência de qualquer imprensa não pode deixar de ser a notícia bem feita. 

Ilustração: conversasdavida.blogspot.com

terça-feira, outubro 13, 2015

Com prêmios, mas, sem receitas


O professor escocês Angus Deaton foi premiado com o Nobel de Economia. Não discuto seu merecimento ao prêmio, nem seu trabalho. Qualquer economista ou intelectual que se dedique, como foi o seu caso, a desenvolver um trabalho no qual procura diminuir a pobreza partindo do ponto de vista de que, segundo o comitê responsável pela escolha, "Para elaborar políticas econômicas que promovam o bem-estar e reduzam a pobreza, devemos primeiro perceber as escolhas de consumo individuais” é digno de elogios e prêmios. É um pensamento que busca encontrar os mecanismos entre o agir individual e o comportamento macroeconômico, o que revela a visão de um pensador.
O que me incomoda, como já incomodou no ano passado quando o prêmio também contemplou uma visão macroeconômica da regulação, é o fato de que a contribuição do agraciado foi de construir modelos abstratos que buscam captar as escolhas das pessoas e empregar métodos estatísticos apropriados em suas estimações. Dizem que, com seus trabalhos, se avançou muito na estimação de um sistema de demanda por bens e serviços.
Sinceramente, sou, como economista, ainda um grande cético dos modelos econométricos que, embora pense que podem ajudar na economia, jamais surgirão de suas abstrações os reais entendimentos dos mecanismos econômicos. Afinal, para se estimar um sistema de demanda, se precisa de uma teoria. É necessário, antes de mais nada, um modelo da escolha do consumidor, ou seja, uma representação abstrata das preferências das pessoas que gera, como resultado, suas escolhas de consumo.  Aí, para mim, está o busílis da questão. Como se ter um modelo correto? É um problema complicado. Porém, isto não parece abalar os que utilizam uma combinação de modelos, métodos estatísticos e dados sobre indivíduos e/ou firmas, a norma na pesquisa em economia, que, supostamente, acaba, segundo eles, por trazer resultados relevantes. Continuo a pensar que um modelo, macroeconômico ou microeconômico, se constitui num conjunto de equações que tenta representar a economia como um todo, mas, me parece que, quanto mais complicados ficam os modelos, são, ainda assim, uma representação muito simplificada da economia real. Não tiro os méritos de muitos estudos deste tipo, porém, sou cético sobre o avanço do entendimento econômico passar pelo uso cada vez mais intensivo de modelos matemáticos e computadores. E, sinceramente, me parece impossível que, por exemplo, o estudo que elaborou nos anos 80, com seu colega John Muellbauer, de um conceito de “Sistema Quase Ideal de Demanda” (AIDS, na sigla em inglês), que estudava o comportamento dos consumidores seja muito mais do que um exercício intelectual que, dificilmente, terá algum uso prático. Por isto considero muito mais importante o pensamento de Deaton e seus trabalhos para medir pobreza e desigualdade.

Não sei o que as pessoas pensam, mas, como economista me incomoda muito que, o que aparece como evolução na Economia, não deixe de ser, aos olhos leigos, tremendamente banal. É verdade que, às vezes, explicar as coisas mais simples, cientificamente, é complicado, mas, nos casos recentes do Nobel de Economia, estimar demandas na economia e/ou a necessidade de regulação do mercado não parece ser um avanço significativo, principalmente, quando se culpa os economistas por tantas coisas no mundo que não funcionam. Ainda mais quando se espera que, como médicos, os economistas tenham as receitas para aplacar as dores do mundo. 

sexta-feira, outubro 09, 2015

Será que vamos continuar estocando vento?


O Brasil é um país de técnicos. De botequim, sem nenhuma formação, naturalmente. Aqui, talvez, seja muito simbólica a história das instruções que, contam, Vicente Feola, técnico do Brasil na Copa de 58, na Suécia, teria dado para Garrincha. Segundo o folclore ele teria dito que ganhar o jogo era fácil. Bastava passar a bola para Garrincha que driblaria dois zagueiros russos e passaria a bola para alguém fazer o gol. E Garrincha, a quem cabia as dificuldades da tarefa, perguntou, com sua ingenuidade natural, se o técnico havia combinado com os russos....
No Brasil, infelizmente, a política (e o governo também) se comporta de forma similar. Querem passar a dificuldade para o outro. Driblar a realidade com o discurso. No país as decisões e as prioridades parecem sempre fugir do real, parecem sempre desejar driblar o possível, o desejável, a maneira simples e direta de tratar dos problemas. É um país onde, apesar de ter conhecimento em muitas áreas, ainda se faz política pública defendendo que é possível crescer, desenvolver sem educação e sem investimento, via crédito e aumento de consumo. Onde se está sempre a pregar uma fórmula mágica como a de que é possível incluir a população pobre, retirá-la da pobreza sem criar crescimento, sem aumentar a produção, sem gerar novos empregos, com bolsas que incentivam as pessoas a não trabalhar. É como acreditar que se pode erguer um prédio sem alicerces. E o incrível é que, mesmo com o prédio tendo caído, ainda aparece um documento de “intelectuais” dizendo que a culpa é do engenheiro que chegou para retirar o entulho e tentar reconstruir o que sobra....
É um país que tem um histórico de escolhas, de prioridades erradas. Basta ver que, com dimensões continentais, optou pelo modal rodoviário. Que com sol, vento e água em abundância, compartilha com a África, a glória de não ter aproveitado todas as oportunidades de seus recursos hídricos, bem como permanece num terrível atraso em relação ao uso da energia solar e eólica. Mas, é, em especial, nas políticas públicas que esta tendência se manifesta da forma mais negativa e cruel. Escolhemos um governo que se arrasta já pelo quarto mandato que insiste em tentar aumentar o controle do estado quando, é, mundialmente comprovado, que o desenvolvimento se faz com um bom ambiente econômico, com um mercado de regras claras e regulado e não por meio de intervenção estatal,  mais burocracia e leis que, claramente, só favorecem a corrupção.
Não é o governo que produz. Governo toma dinheiro das pessoas que produzem e é mais nocivo, quanto mais, como agora, além de tomar não devolve em infraestrutura, segurança e serviços o que se espera dele. Quem produz são as empresas e as pessoas. Neste sentido quanto mais elas tem uma carga tributária menor e mais condições de empreender, mais o país tem condições de progredir. Neste sentido, é meritória a iniciativa do Sebrae para transformar o Dia da Micro e Pequena Empresa em uma data de mobilização da sociedade para consumir produtos e serviços de pequenos negócios, com o Movimento Compre do Pequeno Negócio. Mas, publicidade somente não basta. O governo que louva o pequeno negócio em discursos e publicidade é o mesmo que acabou de enterrar o Ministério da Micro e Pequena Empresa, mas, não apenas isto. Como se não bastasse a carga tributária, a burocracia, o aumento da energia e dos combustíveis, propõe, sem a menor vergonha, um imposto como a CPMF. Em suma, faz o discurso de que todos temos talento para corredores em público, mas, nos bastidores, prepara todo o arsenal para nos cortar as pernas. E ainda quer nos convencer que o faz em nome de nosso bem estar e futuro. Até quando vamos continuar estocando ventos e acreditando que as palavras podem mudar de significado de acordo com o governante de plantão? Não sei, mas, o Brasil, se não mudar, e rápido, caminha, celeremente, para o atraso.


Ilustração: nogueiramarques.com.br

domingo, outubro 04, 2015

Desabafozinho de hoje


Sempre gostei da vida. Gostava muito da vida em Porto Velho. E Porto Velho já foi uma cidade pacata, uma cidade onde a vida se arrastava e o trânsito fluía e, é verdade, sempre foi quente e empoeirada. Porém, era um calor diferente, um calor calorento, mas, amável. Era um calor, digamos divino. O calor atual não é de deus. Não dá para viver e aceitar. Não é um calor digno, é um calor sem humanidade. E este parece ser o tom da vida ultimamente. Tudo parece farsa, tudo parece sem sentido, as coisas parecem não se encaixar por mais que nos esforcemos, por mais que busquemos saídas, parece que entramos num labirinto onde o próximo túnel parece ter um desafio maior, como se as pecinhas da vida tivessem se desenfileirado, que as engrenagens estejam rodando ao contrário. Sinto que está tudo muito estranho, que as pessoas não estão bem com a vida, que estão achando tudo tão ruim, tão esquisito e triste, que, de repente, me pego pensando no passado, voltando ao passado, a troco de nada, só para me sentir bem, lembrar que houve um tempo em que tudo era melhor.
Claro que me sinto mais velho, e os anos contribuem para ter uma perspectiva pior, que continuo sem dinheiro (isto, porém, é a novela de uma vida inteira da maior parte dos brasileiros), engordei, perdi cabelos, perdi pessoas queridas, amei e deixei de amar, me afastei de quem não devia me afastar, fui bom com quem não devia ser ou ruim com quem devia amar, enfim, cometi as tolices que todos nós fazemos, de vez que sou, igual a todo mundo, uma besta que toma decisões sem pensar muito e depois não tem mais como chorar o leite derramado. Mas, a questão, embora seja comigo também, não é só comigo. Nós estamos precisando de alguma coisa que mude a nossa perspectiva e, me parece, muito esquisito que tudo esteja tão mau. E ainda mais com tanta dor, suor e calor. E ainda é mais esquisito por ser primavera, uma época de renascer, recomeçar, das florzinhas de ipê florindo, dos passarinhos nos galhinhos no sol. Mas, não tem jeito. A vida não está se encaixando direitinho e no noticiário só sei de roubos, de políticos mafiosos, de assalto aos cofres públicos e crimes. E tenho uma saudade danada de um dia mais claro, um céu mais azul, bem azul, daqueles que cantam na marcha (Azul, nosso céu é mais azul)  que virou nosso hino. E penso otimista: amanhã será outro dia.

Tusso gripado e não posso deixar de assinalar:-É, mas, hoje tá horrível. 

sexta-feira, setembro 25, 2015

Rumo à calmaria


Em uma palestra sobre a ferrovia bioceânica nesta sexta-feira (25 de setembro), o senador Valdir Raupp, que, ao que consta, é um político bem informado, disse que as coisas, agora, tendem a se acalmar mais.  Não tenho a mínima condição de discordar do parlamentar que, além das vantagens informacionais, se encontra, por assim dizer, no meio do caldeirão da crise. Infelizmente, não tinha, nem tenho, condições práticas de lhe perguntar em que se baseia para ser tão otimista. É que, aqui debaixo, bem de debaixo mesmo, olhando da planície não consigo ver como esta calmaria virá. Sei que os políticos terão que, de uma forma ou de outra, de resolver a questão de ingovernabilidade de nossa economia, porém, não vejo nas últimas mexidas no tabuleiro senão o que, em linguagem clara, denominamos de “empurrar com a barriga”. Será que o senador acredita que com seis ministérios, entre eles o da Saúde, as coisas se resolvem entre o PMDB e o PT? Cunha diz que não. E o senador Jorge Viana, expoente do PT do Acre, a respeito da reforma afirmou que se é para o PT não ter nada seria melhor que Dilma tivesse perdido. Fora que outros partidos também não estão nada contentes com a reforma. Reforma, aliás, que é tida como uma jogada somente. Avaliam, segundo os cálculo internos do PT,  que Dilma tem cerca de três semanas para virar o jogo e se estabelecer como alternativa de poder no país até 2018. E isto passa pela Lava Jato, de vez que a salvação estaria no delator Fernando Baiano que arrastaria os principais líderes do PMDB, partido de Michel Temer, para o precipício. Neste caso, a possibilidade do vice assumir no lugar de Dilma seria afastada. Volto a dizer: é um olhar da planície.
No entanto, mesmo olhando de baixo para cima a situação de Dilma não é nada fácil. Por exemplo, se comenta que, na próxima semana, será divulgado pela Fundação Perseu Abramo, a sede acadêmica do pensamento do PT, um documento que, além de mexer nos calos de Levy, critica o ajuste e propõe coisas de arrepiar os cabelos, como a recompra de títulos com expansão da base monetária, para, hipoteticamente, derrubar os juros; redução do compulsório bancário com o crédito direcionado para a expansão do consumo e CPMF de 0,38% e, como cobertura do bolo, aceitar uma inflação anual de até 15%. Ou seja, o PT ainda não se convenceu que não há almoço grátis e não quer aceitar a visita da realidade. E esta bela cantilena será feita, justamente, quando a divulgação de nova pesquisa do Ibope sobre a popularidade de Dilma Rousseff sai do forno. Se no último levantamento, de julho, apenas 9% consideraram o governo “bom” ou “ótimo”. Imagine agora? Também o Congresso votará os seis vetos presidenciais restantes. Tudo indica que aí não teremos surpresas, mas, na segunda quinzena de outubro, está prevista a votação do relatório do TCU sobre as contas do governo Dilma de 2014. Nos dias 20 e 21 de outubro, nova reunião do Copom que pode, ou não, retomar o ciclo de alta dos juros. E, no fim do mês, a reunião do FED, o banco central norte-americano marcada para os dias 27 e 28 de outubro. São eventos, que, sem considerar os não previstos, podem fermentar a situação elevar o dólar a R$ 5,00 ou até mesmo a R$ 6,00. O certo é que os prazos estão se estreitando. O senador Raupp deve estar certo. As coisas irão se acalmar, porém, penso que teremos ainda, pelo menos, uns trinta dias para o desfecho e as emoções parecem destinadas a variar como o dólar tem variado nos últimos tempos. 

quinta-feira, setembro 10, 2015

Manifesto contra a morte da antropofagia


O Brasil, no passado, sempre produziu ideias interessantes. Mesmo nos seus primórdios havia o pensamento de um Antônio Vieira, de um Gregório de Matos, um Joaquim Nabuco, houve um Machado de Assis, um Santiago Dantas, os Mários e Oswalds, um Nelson Rodrigues, um Dorival Caymmi, um Jobim, um Gilberto Freyre, e, mais recente, um Vinícius, um originalíssimo canibal como foi Millôr Fernandes, enfim, pessoas que se apropriavam de ideias alheias para reelaborá-las. Vá lá é aceitável até incluir nisto a loucura de Glauber Rocha ou o tropicalismo já mumificado de Caetano Veloso. Havia neles a mesma e saborosa ideia indígena de comer a carne do inimigo para adquirir suas qualidades, habilidades, ou seja, o Brasil já teve, até algumas décadas, ideias próprias ainda que enraizadas numa matriz universal. Nós, como previa Darcy Ribeiro, prometíamos ser a nova Roma derivada da miscigenação das raças.
Não somos. Estamos no limbo da falta de reflexão. Num ponto onde se trocou o esforço pelo chavão, a realidade pelo marketing, a imagem de se ser uma coisa que não se é pela vitória da política dos improdutivos, o sindicalismo de resultados gerou a falsa ascensão social, pelo aumento do consumo, se vendendo a ideia de que é possível se chegar ao primeiro mundo sem educação, sem reflexão, por meio de pessoas que não valorizam nem buscam o saber, pela pregação do ódio aos melhores, pela adoção de ideias alheias sem nenhum senso crítico e até mesmo pela segregação da elite do pensamento, como se fosse possível construir um país sem ideias. Nunca o professor foi tão desprestigiado e ignorado como agora. A maioria das grandes universidades públicas estão em greve, os institutos técnicos também, nem o governo liga nem a imprensa tem a menor consideração. Ideias não fazem falta. Vale muito mais a fala vazia de um ministro ou o esvaziamento de um pixuleco  por um grupo de militantes pagos.
O Brasil está de costas para o futuro. Como se pode construir uma nação sem um projeto? Como se pode aceitar como normal ser dirigido por alguém que não consegue ler dezoito linhas ou não consegue alinhar três minutos de uma fala coerente? O Brasil que seria o país do futuro se encontra, como sempre, na fila do atraso. Aceitando, como uma avestruz enfiada na terra, que podemos continuar a ignorar as melhores práticas de outros lugares, que podemos crescer, desenvolver sem educação e sem conhecimento. Vivemos, infelizmente, uma época obscura de hegemonia dos que nunca trabalharam, dos que nunca pensaram, dos que pregam que é possível construir uma sociedade mais justa fazendo caridade com o chapéu alheio; que é possível se construir uma nação privilegiando os que não trabalham e aumentando os impostos de quem produz. Por isto estamos num desses momentos da história em que o país não produz nada de interessante. O país precisa de uma grande revolução cultural. O Brasil precisa resgatar a antropofagia, que sempre foi sua fonte de uma renovação total.
A grande realidade é que esta coisa da estatização, da venda desmedida da ideologia dos coitadinhos, gerou uma cultura da banalização, da mediocridade, de pessoas que se expressam pelo Facebook, ou Whatsapps, por gostar mesmo é da espetacularização, porém, é incapaz de escrever seriamente, de pensar com profundidade. Não há mais ideias novas, não há vanguarda, embora o mundo tenha mudado completamente. Qual a razão? Pessoas sem cultura, sem educação, são incapazes de refletir sobre o mundo. Elas dissertam sobre tudo, mas, não criam formas novas. Cadê o pensamento sobre como mudar o Brasil? Como mudar a escola? Só sabem repetir Paulo Freire ou Marx, Maiakovsky, Foucault ou até mesmo Lacan, mas, onde algo original? Não é com cotas, com novos impostos, com aumento de juros que faremos uma nação melhor. É com a educação das pessoas, com a criação de regras estáveis, com segurança e crença no que os governantes falam. Com menos governo e mais mercado, mais competitividade e ideias. O Brasil precisa fazer sua revolução cultural. Precisa revigorar o pensamento antropofágico.


Ilustração: Tela de Theodor de Bry

quarta-feira, setembro 09, 2015

Aumento de impostos é aumento da agonia


São inúmeros os exemplos, mas, não há um mais evidente do que a promessa feita, num encontro com empresários em Campinas, há um ano, em que a presidente Dilma Rousseff (PT), então candidata à reeleição, prometeu que não mexeria nos direitos trabalhistas afirmando, taxativamente, com  uma frase de efeito: “Nem que a vaca tussa”. Nem precisou terminar o ano, porém, anunciou um pacote de ajustes nas regras para acesso a abono salarial, seguro-desemprego, seguro-desemprego do pescador artesanal, pensão por morte e auxílio-doença. Esta foi apenas uma, das muitas práticas da presidente, depois da  reeleição que destoam do que foi prometido na campanha. Há, porém, muito mais, todo um “pacote de maldades” da presidente, que incluem o veto ao reajuste de 6,5% na tabela do Imposto de Renda. Se a lei tivesse sido aprovada, pessoas que ganham até R$ 1.903,98 não precisariam prestar contas ao Leão. Atualmente, o teto de isenção é de R$ 1.787,77. Se mais fosse preciso, para mostrar que não entregou o que prometeu, basta lembrar que, num encontro com taxistas em São Paulo, a presidente prometeu que não haveria “tarifaço”. Ninguém de sã consciência tem como defendê-la, quando adotou medidas como a da elevação de R$ 0,22 na gasolina, R$ 0,15 no álcool. O Imposto Sobre Operações Financeiras (IOF), incidente sobre o crédito para a pessoa física, dobrou: passou de 1,5% ao ano para 3%. Importar ficou mais caro. Por meio da elevação de 9,25% para 11,75% do PIS/Cofins sobre os produtos oriundos dos outros países. Por fim, o Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) na cadeia produtiva de cosméticos foi padronizado, equiparando a incidência do imposto no atacadista a na indústria. As bebidas também foram afetadas.  E, agora, ainda falam em aumentar o imposto de renda para 35%.

Agora, também a imprensa dá conta que a presidente nem sequer conversou com Michel Temer, o vice, durante o desfile de 7 de setembro. Estiveram juntos fisicamente, mas, tão distantes quanto o sol da lua. Afirmam que teria sido por causa de Temer ter dito que Dilma não se sustenta até o fim do seu mandato com 7% de aprovação. Não é a questão dos números. É, principalmente, que, como o próprio vice-presidente afirmou, é preciso se ter uma forma de criar um entendimento nacional e este, por mais que se negue, precisa do mínimo de credibilidade, de se ser confiável. A maior prova de que Dilma perdeu esta capacidade é o fato de que até mesmo quem lhe apoia, como o empresário Abílio Diniz, recomenda que outros personagens, inclusive hoje, de pijamas, como FHC e Lula se reúnam com Temer para achar uma solução. Solução haverá, por bem ou por mal, mas, enquanto não se tiver confiabilidade será impossível sair do atoleiro econômico em que estamos. E aumentar impostos e juros é só aumenta a agonia. O governo precisa fazer o seu dever de casa e não apenas repassar as contas para a sociedade.