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domingo, outubro 04, 2015

Desabafozinho de hoje


Sempre gostei da vida. Gostava muito da vida em Porto Velho. E Porto Velho já foi uma cidade pacata, uma cidade onde a vida se arrastava e o trânsito fluía e, é verdade, sempre foi quente e empoeirada. Porém, era um calor diferente, um calor calorento, mas, amável. Era um calor, digamos divino. O calor atual não é de deus. Não dá para viver e aceitar. Não é um calor digno, é um calor sem humanidade. E este parece ser o tom da vida ultimamente. Tudo parece farsa, tudo parece sem sentido, as coisas parecem não se encaixar por mais que nos esforcemos, por mais que busquemos saídas, parece que entramos num labirinto onde o próximo túnel parece ter um desafio maior, como se as pecinhas da vida tivessem se desenfileirado, que as engrenagens estejam rodando ao contrário. Sinto que está tudo muito estranho, que as pessoas não estão bem com a vida, que estão achando tudo tão ruim, tão esquisito e triste, que, de repente, me pego pensando no passado, voltando ao passado, a troco de nada, só para me sentir bem, lembrar que houve um tempo em que tudo era melhor.
Claro que me sinto mais velho, e os anos contribuem para ter uma perspectiva pior, que continuo sem dinheiro (isto, porém, é a novela de uma vida inteira da maior parte dos brasileiros), engordei, perdi cabelos, perdi pessoas queridas, amei e deixei de amar, me afastei de quem não devia me afastar, fui bom com quem não devia ser ou ruim com quem devia amar, enfim, cometi as tolices que todos nós fazemos, de vez que sou, igual a todo mundo, uma besta que toma decisões sem pensar muito e depois não tem mais como chorar o leite derramado. Mas, a questão, embora seja comigo também, não é só comigo. Nós estamos precisando de alguma coisa que mude a nossa perspectiva e, me parece, muito esquisito que tudo esteja tão mau. E ainda mais com tanta dor, suor e calor. E ainda é mais esquisito por ser primavera, uma época de renascer, recomeçar, das florzinhas de ipê florindo, dos passarinhos nos galhinhos no sol. Mas, não tem jeito. A vida não está se encaixando direitinho e no noticiário só sei de roubos, de políticos mafiosos, de assalto aos cofres públicos e crimes. E tenho uma saudade danada de um dia mais claro, um céu mais azul, bem azul, daqueles que cantam na marcha (Azul, nosso céu é mais azul)  que virou nosso hino. E penso otimista: amanhã será outro dia.

Tusso gripado e não posso deixar de assinalar:-É, mas, hoje tá horrível. 

sexta-feira, setembro 25, 2015

Rumo à calmaria


Em uma palestra sobre a ferrovia bioceânica nesta sexta-feira (25 de setembro), o senador Valdir Raupp, que, ao que consta, é um político bem informado, disse que as coisas, agora, tendem a se acalmar mais.  Não tenho a mínima condição de discordar do parlamentar que, além das vantagens informacionais, se encontra, por assim dizer, no meio do caldeirão da crise. Infelizmente, não tinha, nem tenho, condições práticas de lhe perguntar em que se baseia para ser tão otimista. É que, aqui debaixo, bem de debaixo mesmo, olhando da planície não consigo ver como esta calmaria virá. Sei que os políticos terão que, de uma forma ou de outra, de resolver a questão de ingovernabilidade de nossa economia, porém, não vejo nas últimas mexidas no tabuleiro senão o que, em linguagem clara, denominamos de “empurrar com a barriga”. Será que o senador acredita que com seis ministérios, entre eles o da Saúde, as coisas se resolvem entre o PMDB e o PT? Cunha diz que não. E o senador Jorge Viana, expoente do PT do Acre, a respeito da reforma afirmou que se é para o PT não ter nada seria melhor que Dilma tivesse perdido. Fora que outros partidos também não estão nada contentes com a reforma. Reforma, aliás, que é tida como uma jogada somente. Avaliam, segundo os cálculo internos do PT,  que Dilma tem cerca de três semanas para virar o jogo e se estabelecer como alternativa de poder no país até 2018. E isto passa pela Lava Jato, de vez que a salvação estaria no delator Fernando Baiano que arrastaria os principais líderes do PMDB, partido de Michel Temer, para o precipício. Neste caso, a possibilidade do vice assumir no lugar de Dilma seria afastada. Volto a dizer: é um olhar da planície.
No entanto, mesmo olhando de baixo para cima a situação de Dilma não é nada fácil. Por exemplo, se comenta que, na próxima semana, será divulgado pela Fundação Perseu Abramo, a sede acadêmica do pensamento do PT, um documento que, além de mexer nos calos de Levy, critica o ajuste e propõe coisas de arrepiar os cabelos, como a recompra de títulos com expansão da base monetária, para, hipoteticamente, derrubar os juros; redução do compulsório bancário com o crédito direcionado para a expansão do consumo e CPMF de 0,38% e, como cobertura do bolo, aceitar uma inflação anual de até 15%. Ou seja, o PT ainda não se convenceu que não há almoço grátis e não quer aceitar a visita da realidade. E esta bela cantilena será feita, justamente, quando a divulgação de nova pesquisa do Ibope sobre a popularidade de Dilma Rousseff sai do forno. Se no último levantamento, de julho, apenas 9% consideraram o governo “bom” ou “ótimo”. Imagine agora? Também o Congresso votará os seis vetos presidenciais restantes. Tudo indica que aí não teremos surpresas, mas, na segunda quinzena de outubro, está prevista a votação do relatório do TCU sobre as contas do governo Dilma de 2014. Nos dias 20 e 21 de outubro, nova reunião do Copom que pode, ou não, retomar o ciclo de alta dos juros. E, no fim do mês, a reunião do FED, o banco central norte-americano marcada para os dias 27 e 28 de outubro. São eventos, que, sem considerar os não previstos, podem fermentar a situação elevar o dólar a R$ 5,00 ou até mesmo a R$ 6,00. O certo é que os prazos estão se estreitando. O senador Raupp deve estar certo. As coisas irão se acalmar, porém, penso que teremos ainda, pelo menos, uns trinta dias para o desfecho e as emoções parecem destinadas a variar como o dólar tem variado nos últimos tempos. 

quinta-feira, setembro 10, 2015

Manifesto contra a morte da antropofagia


O Brasil, no passado, sempre produziu ideias interessantes. Mesmo nos seus primórdios havia o pensamento de um Antônio Vieira, de um Gregório de Matos, um Joaquim Nabuco, houve um Machado de Assis, um Santiago Dantas, os Mários e Oswalds, um Nelson Rodrigues, um Dorival Caymmi, um Jobim, um Gilberto Freyre, e, mais recente, um Vinícius, um originalíssimo canibal como foi Millôr Fernandes, enfim, pessoas que se apropriavam de ideias alheias para reelaborá-las. Vá lá é aceitável até incluir nisto a loucura de Glauber Rocha ou o tropicalismo já mumificado de Caetano Veloso. Havia neles a mesma e saborosa ideia indígena de comer a carne do inimigo para adquirir suas qualidades, habilidades, ou seja, o Brasil já teve, até algumas décadas, ideias próprias ainda que enraizadas numa matriz universal. Nós, como previa Darcy Ribeiro, prometíamos ser a nova Roma derivada da miscigenação das raças.
Não somos. Estamos no limbo da falta de reflexão. Num ponto onde se trocou o esforço pelo chavão, a realidade pelo marketing, a imagem de se ser uma coisa que não se é pela vitória da política dos improdutivos, o sindicalismo de resultados gerou a falsa ascensão social, pelo aumento do consumo, se vendendo a ideia de que é possível se chegar ao primeiro mundo sem educação, sem reflexão, por meio de pessoas que não valorizam nem buscam o saber, pela pregação do ódio aos melhores, pela adoção de ideias alheias sem nenhum senso crítico e até mesmo pela segregação da elite do pensamento, como se fosse possível construir um país sem ideias. Nunca o professor foi tão desprestigiado e ignorado como agora. A maioria das grandes universidades públicas estão em greve, os institutos técnicos também, nem o governo liga nem a imprensa tem a menor consideração. Ideias não fazem falta. Vale muito mais a fala vazia de um ministro ou o esvaziamento de um pixuleco  por um grupo de militantes pagos.
O Brasil está de costas para o futuro. Como se pode construir uma nação sem um projeto? Como se pode aceitar como normal ser dirigido por alguém que não consegue ler dezoito linhas ou não consegue alinhar três minutos de uma fala coerente? O Brasil que seria o país do futuro se encontra, como sempre, na fila do atraso. Aceitando, como uma avestruz enfiada na terra, que podemos continuar a ignorar as melhores práticas de outros lugares, que podemos crescer, desenvolver sem educação e sem conhecimento. Vivemos, infelizmente, uma época obscura de hegemonia dos que nunca trabalharam, dos que nunca pensaram, dos que pregam que é possível construir uma sociedade mais justa fazendo caridade com o chapéu alheio; que é possível se construir uma nação privilegiando os que não trabalham e aumentando os impostos de quem produz. Por isto estamos num desses momentos da história em que o país não produz nada de interessante. O país precisa de uma grande revolução cultural. O Brasil precisa resgatar a antropofagia, que sempre foi sua fonte de uma renovação total.
A grande realidade é que esta coisa da estatização, da venda desmedida da ideologia dos coitadinhos, gerou uma cultura da banalização, da mediocridade, de pessoas que se expressam pelo Facebook, ou Whatsapps, por gostar mesmo é da espetacularização, porém, é incapaz de escrever seriamente, de pensar com profundidade. Não há mais ideias novas, não há vanguarda, embora o mundo tenha mudado completamente. Qual a razão? Pessoas sem cultura, sem educação, são incapazes de refletir sobre o mundo. Elas dissertam sobre tudo, mas, não criam formas novas. Cadê o pensamento sobre como mudar o Brasil? Como mudar a escola? Só sabem repetir Paulo Freire ou Marx, Maiakovsky, Foucault ou até mesmo Lacan, mas, onde algo original? Não é com cotas, com novos impostos, com aumento de juros que faremos uma nação melhor. É com a educação das pessoas, com a criação de regras estáveis, com segurança e crença no que os governantes falam. Com menos governo e mais mercado, mais competitividade e ideias. O Brasil precisa fazer sua revolução cultural. Precisa revigorar o pensamento antropofágico.


Ilustração: Tela de Theodor de Bry

quarta-feira, setembro 09, 2015

Aumento de impostos é aumento da agonia


São inúmeros os exemplos, mas, não há um mais evidente do que a promessa feita, num encontro com empresários em Campinas, há um ano, em que a presidente Dilma Rousseff (PT), então candidata à reeleição, prometeu que não mexeria nos direitos trabalhistas afirmando, taxativamente, com  uma frase de efeito: “Nem que a vaca tussa”. Nem precisou terminar o ano, porém, anunciou um pacote de ajustes nas regras para acesso a abono salarial, seguro-desemprego, seguro-desemprego do pescador artesanal, pensão por morte e auxílio-doença. Esta foi apenas uma, das muitas práticas da presidente, depois da  reeleição que destoam do que foi prometido na campanha. Há, porém, muito mais, todo um “pacote de maldades” da presidente, que incluem o veto ao reajuste de 6,5% na tabela do Imposto de Renda. Se a lei tivesse sido aprovada, pessoas que ganham até R$ 1.903,98 não precisariam prestar contas ao Leão. Atualmente, o teto de isenção é de R$ 1.787,77. Se mais fosse preciso, para mostrar que não entregou o que prometeu, basta lembrar que, num encontro com taxistas em São Paulo, a presidente prometeu que não haveria “tarifaço”. Ninguém de sã consciência tem como defendê-la, quando adotou medidas como a da elevação de R$ 0,22 na gasolina, R$ 0,15 no álcool. O Imposto Sobre Operações Financeiras (IOF), incidente sobre o crédito para a pessoa física, dobrou: passou de 1,5% ao ano para 3%. Importar ficou mais caro. Por meio da elevação de 9,25% para 11,75% do PIS/Cofins sobre os produtos oriundos dos outros países. Por fim, o Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) na cadeia produtiva de cosméticos foi padronizado, equiparando a incidência do imposto no atacadista a na indústria. As bebidas também foram afetadas.  E, agora, ainda falam em aumentar o imposto de renda para 35%.

Agora, também a imprensa dá conta que a presidente nem sequer conversou com Michel Temer, o vice, durante o desfile de 7 de setembro. Estiveram juntos fisicamente, mas, tão distantes quanto o sol da lua. Afirmam que teria sido por causa de Temer ter dito que Dilma não se sustenta até o fim do seu mandato com 7% de aprovação. Não é a questão dos números. É, principalmente, que, como o próprio vice-presidente afirmou, é preciso se ter uma forma de criar um entendimento nacional e este, por mais que se negue, precisa do mínimo de credibilidade, de se ser confiável. A maior prova de que Dilma perdeu esta capacidade é o fato de que até mesmo quem lhe apoia, como o empresário Abílio Diniz, recomenda que outros personagens, inclusive hoje, de pijamas, como FHC e Lula se reúnam com Temer para achar uma solução. Solução haverá, por bem ou por mal, mas, enquanto não se tiver confiabilidade será impossível sair do atoleiro econômico em que estamos. E aumentar impostos e juros é só aumenta a agonia. O governo precisa fazer o seu dever de casa e não apenas repassar as contas para a sociedade. 

sábado, agosto 22, 2015

É preciso uma política de longo prazo para o Agronegócio do Leite e Derivados


Nesta semana o Sebrae de Rondônia concluiu o “Diagnóstico do Agronegócio do Leite e Derivados do Estado de Rondônia”, resultado de um convênio com  a Secretária de Agricultura do Estado de Rondônia, SEAGRI-RO, que atualiza um trabalho anterior de 2002, com uma nova versão onde traz informações de relevância sobre o rebanho bovino, a produção, consumo, beneficiamento e a importância social do leite para os produtores de Rondônia. Na entrega do documento, que aconteceu no auditório do Sebrae, o professor e técnico da Embrapa, Lorildo Aldo Stock, fez uma excelente palestra onde destacou a necessidade de se cuidar da cadeia, de se ter boas informações e se criar uma política sólida de longo prazo. Destacando que, em Rondônia, como no Brasil, a pecuária leiteira ainda seja uma atividade de sobrevivência sua sustentabilidade depende de um tamanho mínimo da propriedade, do número de vacas e de um ambiente favorável onde exista uma intervenção estratégica para viabilizar o setor.
Contextualizando a produção do estado no Brasil e no mundo, o professor Stock ressaltou que, hoje, em dia qualquer que seja a atividade agropecuária, e a do leite em especial que se caracteriza por oscilações, em média, de dois anos ruins para um ano bom, não se pode perder de vista o panorama internacional, com seus parâmetros, tamanho e produtividade, que influenciam na formação dos preços. Neste sentido, por exemplo, mostrou que, apesar dos produtores reclamarem da importação, esta se dá apenas de forma complementar, mas, que os problemas que temos derivam de que nossos custos estão acima dos custos internacionais, daí, a nossa incapacidade de exportar. Também a exploração da pecuária leiteira no Brasil é desenvolvida de diversas formas, muitas vezes de maneira rústica e em pequenas propriedades, mas, são os empreendimentos maiores que são mais rentáveis e responsáveis pela maior parte da produção, ou seja, os estabelecimentos que possuem acima de cem vacas. Em Rondônia, as propriedades acima de 70 vacas são as que apresentam mais rentabilidade e a produtividade média está em torno de 10 litros/dia por vaca. Segundo informou isto não chega a ser um problema, na medida em que o modo como se criam as vacas no estado não permitiria vacas de alta rentabilidade leiteira que são mais sensíveis ao clima e ao tratamento, mas, o problema é que, para dar rentabilidade ao setor se faz necessário que se aumente o número de vacas, acima das 70, para valer à pena o recolhimento do leite.  Outro problema sério é o da questão da qualidade e do aproveitamento. Segundo o estudo constata existe mesmo uma capacidade ociosa na indústria láctea estadual. Assim a questão de fortalecer a cadeia, de aumentar a produção, a produtividade e agregar valor ao leite se torna crucial para que o setor se consolide.
O agronegócio do leite e seus derivados, mesmo com todos os problemas existentes, pesa muito na economia do Estado por ocupar cerca de 100 mil pessoas nas propriedades rurais, que se constatou ter cerca de 38.000 estabelecimentos, afora um contingente acima de 5 mil pessoas que trabalham no setor industrial. Assim é preciso que haja uma conscientização da necessidade de um trabalho conjunto e organizado que crie uma agenda para o agronegócio do leite no longo prazo e se tome as medidas necessárias para organizar e beneficiar a produção. Com o diagnóstico, com informações atuais, se tem, agora, uma grande oportunidade de arregimentar os interessados e fortalecer a cadeia do leite e de seus derivados.


sexta-feira, julho 31, 2015

Para quem gosta de um bom vinho


Viver em Porto Velho, como em todo lugar, tem seus prazeres e seus problemas. Porto Velho, por sua temperatura elevada e também  uma umidade relativa do ar alta, não é, claramente, o melhor  lugar do mundo para beber vinho. Mas, como tudo muda, inclusive o tempo, também tem seus dias bons para degustar a bebida dos deuses. De qualquer forma, com o calor sendo quase sempre permanente, a cerveja, geladissíma como se bebe por aqui, sempre foi a alternativa mais prática e que melhor apraz aos amantes de uma boa bebida. Apesar de ter consciência desta realidade para pessoas, igual a mim, que sempre mantém uma relação de paixão e deleite em relação ao vinho, abdicar dele jamais foi uma alternativa. Assim, contra a lógica, mantive, durante anos, uma paixão obssessiva pelo vinho que é, até mesmo, uma obsessão infantil, de fato.
Imagine que, numa época passada, dezenas de anos atrás, quando a cidade não possuía boas casas especializadas até mesmo, como estudava o assunto, pensei em tornar o interesse um negócio. Claro que não sou um especialista. Estou mesmo mais para curioso, mas, por minha afinidade com a América do Sul, meu pendor cucaracho, até tentei trazer vinhos chilenos, em especial, argentinos, uruguaios e peruanos escolhidos pelo crítério de qualidade mais preços acessíveis. Um negócio que acabou da melhor forma possível: bebi uma boa parte do estoque. Minhas esperanças de fazer, o que projetei, se perderam nas incertezas da economia brasileira. Na época o aumento da tarifa de importação e o pagamento adiantado do ICMS tornaram meu negócio uma furada. Boa parte do capital se transformou em um líquido prazer consumido em almoços e jantares prazeirosos. De certa forma nada se perde...
A questão que me leva a escrever sobre vinho, agora, é a feliz oportunidade que tive de ir à Londrina em dias que, para mim, são frios. E, com uma temperatura mais baixa, não há opção melhor do que um bom vinho. Uma coisa leva à outra. Como um eterno curioso, um metido a saber do que não sabe, não podia deixar de, aproveitando o tempo, pesquisar mais sobre os vinhos, os sabores, quais estão sendo mais apreciados e, até mesmo, por ossos do ofício, quais os que apresentam melhor custo/benefício. É preciso acrescentar que isto foi feito sob a perspectiva das limitações orçamentárias de um professor. Logo, não esperem que seja o top de linha, mas, o top dentro da linha econômica. Também constatei que, hoje, com a maior variedade e facilidade de importação, conhecer vinhos se tornou um tarefa hercúlea. As boas possibilidades são inúmeras e, mesmo no Brasil, se desenvolveram vinhos que, inclusive pelo preço, são excepcionalmente bons. Dá trabalho também encontrar o que se deseja, porém, é um trabalho prazeiroso.
Fiz toda esta lenga-lenga para dar umas dicas para vocês sobre o que experimentei, ultimamente, e que, com uns bons queijos, umas castanhas e amendoas, é uma boa forma de viver bem. Assim recomendo que se puderem ( e tiver em alguma loja próxima) não dispensem um San Juan Malbec 2013, da Antigua Bodega, um tinto que custa em torno de R$ 39,00. Um Alamos Syrah 2008, da Bodegas Esmeralda também cai bem e é mais barato, por volta de R$ 30,00. Para variar do Chile tem o Surazo Carménere 2006, da Viña Santa Monica, na faixa dos R$ 40,00.  Um uruguaio gostoso demais é o ElegidoTannat, Merlot, 2014, de  Las Piedras / Canelones na faixa dos R$28 a 32,00. Brasileiros? Bem, os brasileiros, com os custos atuais e a inflação, estão caros, mas, o Tannat, mais por causa do tipo de uva, da Marcus James, foi a minha opção. Claro que mais por uma questão de preço. Porém, os brasileiros que fazem sucesso este ano são mesmo os espumantes. Com destaque para o Aurora Espumante Moscatel e o Garibaldi Espumante Moscatel. Também valem a pena o Garibaldi Espumantes Bruit Prosecco e o Marcus James Brut. Ainda brasileiros também o Aurora Reserva Merlot 2011, o Marcus James Brut ou o Salton Reserva Ouro, de um preço um pouco mais caro (R$ 42,00), mas, vale o que se bebe. Claro que tem muita coisa que não sei ou que perdi, mas, posso assegurar que estes que cito já me deram o prazer de uma  boa degustação.


Ilustração: www.sobrevinho.net

terça-feira, julho 21, 2015

As surpresas da sempre surpreendente vida


Havia entre os cientistas que executavam a missão de reconhecimento de Plutão a expectativa de que que o planeta acabaria sendo, como a Lua ou Mercúrio, um planeta cheio de crateras em que nada acontece. Mas, como revelado pela sonda New Horizons da Nasa (agência espacial norte-americana) que sobrevoou Plutão em 14 de julho, pela primeira vez,  via imagens em alta resolução do planeta, a geografia revelada é de um dinamismo e de uma variedade que modificou tudo que se pensava sobre este corpo celeste desde seu descobrimento, há 85 anos.  A paisagem de montanhas geladas, sem crateras e com evidências de processos geológicos encontrada no planeta anão, nos confins do Sistema Solar, deixou toda a comunidade científica perplexa e com a sensação de que as novas informações, que serão obtidas, podem também trazer respostas sobre como se formam os planetas e as origens de alguns elementos fundamentais da vida.
A topografia acidentada de Plutão, sem dúvida, surpreendeu os pesquisadores. Em especial porque as imagens mostram montanhas nos extremos da região que tem uma forma de coração,  batizada  como Região de Tombaugh, em homenagem ao descobridor de Plutão, Clyde Tombaugh, com uma altura calculada de cerca de 3.300 metros,  altitude superior à dos Alpes na Europa ou a das Montanhas Rochosas no oeste dos Estados Unidos. E  alguns pesquisadores trabalham com a hipótese de que podem exsitir ainda montanhas mais altas em outras partes. No entanto, o mais sensacional é que a capa relativamente fina de metano, monóxido de carbono e nitrogênio congelado que cobre a superfície do planeta anão é forte o suficiente para formar montanhas. Isto sugere que se formaram com a água congelada do subsolo, já que o gelo se comporta como rocha sob as temperaturas gélidas de Plutão.  Acrescente-se que as observações feitas do planeta, a  partir da Terra, não haviam detectado sinais de água gelada. Ainda pairam interrogações sobre as descobertas que somente poderão ser corroboradas pelas medições feitas por sete equipamentos a bordo da New Horizons, cujos resultados irão chegar ao centro de controle de Maryland (EUA) nos próximos 16 meses. Mas, não paira dúvidas de que, segundo o chefe da missão, Alan Stern, “Podemos estar certos de que existe água em abundância".

Uma outra grande surpresa é a constatação de que não existem crateras em Plutão. As crateras permitem aos astrônomos determinar a idade de uma superfície, de vez que se é muito antiga terá marcas deixadas por impactos de colisões; se for mais nova será mais lisa, porquê a formação recente apaga as impressões anteriores.As imagensmostram um terreno que parece ter passado por processos vulcânicos ocorridos nos últimos 100 milhões de anos, o que implica numa idade extremamente jovem para a superfície, se considerarmos que o Sistema Solar tem 4,5 bilhões de anos. O tamanho de Plutão também pode ter alguns quilômetros a mais de diâmetro, agora, estimado em 2.370 km, o que equivale a dois terços do tamanho de nossa Lua. A falta de precisão na medição de Plutão desde a Terra ocorre porque, em primeiro lugar, o corpo celeste está muito longe daqui (4,8 bilhões de km). E também porque sua atmosfera cria reflexos capazes de confundir o telescópio terrestre mais avançado. Mas, apenas com os relativamente poucos dados que se recolheu, até agora, já nos presenteou com surpresas maravilhosas, inclusive mudando a concepção que se tinha de Caronte, sua maior lua, que possui penhascos tão profundos como os do Grand Canyon, no oeste dos Estados Unidos e pode ter uma cadeia de desfiladeiros de 800 km. Enfim, nem mesmo Plutão é mais o mesmo. 

domingo, junho 28, 2015

Governo trata inundação como vazamento


Segundo apurou o jornal Folha de S. Paulo, Lula teria estimulado o Tribunal de Contas da União-TCU, para questionar as contas de Dilma Rousseff. Isto mesmo. Segundo publicado pelo jornal “Lula disse ao ministro José Múcio Monteiro, de quem é próximo, achar razoável que o órgão pedisse explicações sobre as pedaladas fiscais”. Parece até coisa de maluco, mas, faz sentido quando se verifica que o ex-presidente, segundo também a imprensa, não tem  tido boas noites de sono com a possibilidade de ser preso em futuro próximo. Possibilidade que se agravou  muito com a homologação da delação premiada do empreiteiro Ricardo Pessoa, da UTC, pelo procurador-geral da República, Janot, “que deve abrir nos próximos dias mais procedimentos" onde, segundo consta, se inclui Lula e Edinho Silva numa primeira fase e, em seguida, Dilma Rousseff. Atente-se ainda que, além da possibilidade aberta de uma futura delação de Marcelo Odebrecht, Lula tem ainda um grande problema em relação a João Vaccari Neto, o dos “pixulecos”, que mandou recados afirmando, segundo o colunista Lauro Jardim, que “Preso, sente-se abandonado pelos velhos companheiros”. Numa situação deste tipo é razoável supor que Lula, buscando evitar a cadeia, manobre para que a queda de Dilma, por fraudes contábeis, esfrie o inquérito sobre o Petrolão. Como não tem mais nada a ganhar com a presidente, é lógico, que sua saída do palco alivie a pressão sobre ele. 
Atente-se ainda que a recente ofensiva do PT, incluindo a entrevista do ministro Edinho Silva, da Secom, ao dizer que o empresário “falou mentiras” é uma tentativa de desvincular os recursos da campanha de Dilma do Petrolão, mas, trata-se de um esforço inútil. O máximo que podem comprovar, o que não evita o impeachment, é que o dinheiro sujo de Ricardo Pessoa entrou legalmente na campanha. Ou seja, foi registrado, mas, isto, na verdade, é uma operação de “branqueamento” de recursos ilícitos. Ora, o grande problema deste tipo de defesa é que há imagens gravadas de Vaccari Neto recebendo propina e que o tesoureiro do PT repassou 31,6 milhões de reais para o tesoureiro da campanha de Dilma Rousseff, Edinho Silva. E, para piorar o quadro, Ricardo Pessoa será ouvido pelo Ministério Público Eleitoral na ação que investiga a reeleição de Dilma Rousseff.  Segundo o Estadão o depoimento do empreiteiro foi marcado para 14 julho.

Evidentemente, da forma como os “vazamentos” vão se acumulando, haverá um momento em que as barreiras, como os muros de Jericó, desabarão, mas, se trata de um processo que ainda leva tempo, com o agravante de que a economia do país continuará a refletir as incertezas e os problemas da política. Bem que o governo tenta criar, como já fez no passado, uma agenda positiva para retomar o controle da imprensa e vender sua versão. Porém, é muito difícil de conseguir navegar contra uma corrente que fica cada vez mais forte. Ninguém pode prever o que virá, todavia, os sinais evidentes são de que, por muito tempo, ainda a pressão contra o governo continuará a se avolumar e, com seus principais protagonistas chamuscados pelo fogo das denúncias, seu futuro parece cada vez mais incerto. E, com tanta água em jogo, o perigo é um tsunami. 

Ilustração: g1.globo.com

segunda-feira, junho 15, 2015

Só pra chatear


Bem, ultimamente, tenho até me recolhido à minha insignificância por vários motivos, mas, o principal é que, sendo uma pessoa democrática e pouco afeita aos debates, em especial os irracionais, não convivo bem com o bom mocismo e a pregação socialista massificada que tem sido feita no país seja por meio de uma suposta defesa dos “mais pobres”, seja por desculpas ambientais ou pela praga do politicamente correto, mas, que, a meu ver, desaguam numa posição fascista na medida em que sempre se procura estigmatizar quem não concorda. E olha que não gosto muito do PSDB, até já votei, como já votei no PT, mas, minhas posições não foram, até onde avisto, próximas dos tucanos, nem me agrada o comportamento dos ditos “coxinhas”, embora, seja uma injustiça com uma comida saborosa, principalmente, se bem feita. Mas, na verdade, o último exemplo de tipo de discussão deplorável que assisto estarrecido, é esta idiotice da menoridade penal que é discutida como se fosse conversa de bêbados em bar, sem a menor consciência ou serenidade, como se fosse uma disputa de torcidas uniformizadas onde o que vale é xingar ou até mesmo bater no outro. E me pergunto, na minha reconhecida falta de capacidade, quantos estão, de fato, habilitados para discutir a questão? Não sei nem pretendo responder. Sei que, hoje, se lê muito pouco e se entende de tudo tanto que, apesar do que já li, me confesso cada vez mais impotente para discutir com as sumidades que pululam nos faces da vida.

Penso que todo mundo que tem um pouco de senso já se indignou com as injustiças da vida. Confesso que já fui um seguidor, um leitor voraz, um marxista convicto. Talvez, tenha lido muito mais Marx do que, para ser modesto, 90% dos que o citam. Mas, até o próprio Marx não se considerava marxista ainda vivo. Depois da queda do Muro de Berlim a defesa de uma sociedade estatal, de uma sociedade coletiva é uma tarefa ingrata e contra os princípios básicos da vida, mas, aparece uma imensa horda urrando bordões ultrapassados ainda crentes que estão salvando o  mundo e,  em geral, guiados por pessoas que somente pensam no poder. Querem “justiça social”, porém, não possuem a menor ideia do que seja “justo”. O maior exemplo é que execram o liberalismo que, queiram ou não, continua a oferecer a menos ruim definição de justiça social que é a de que “cada um deve viver do seu trabalho” e não, como desejam os “justos sociais” que um percentagem de seu trabalho seja apropriado por outro. É justo você pegar uma percentagem daquilo que produzi com meu trabalho? Aqui, vale o pensamento do economista Walter Williams, negro e norte-americano, que sempre foi contra esta teoria torta de ajudar o “pobrezinho”. Escreve ele com precisão: “Se eu vir uma pessoa com fome e então decidir abordar violentamente uma terceira pessoa com o intuito de, por meio de ameaças, intimidação e coerção, tomar o dinheiro dela para repassar ao faminto, o que você pensaria de mim? Creio e espero que a maioria de nós veria tal ato como roubo. Será que tal conclusão muda se nós coletivamente concordarmos em tomar o dinheiro de uma pessoa para alimentar o necessitado? O ato ainda assim seria roubo.  Atos imorais como roubo, estupro e assassinato não se tornam morais quando feitos coletivamente por meio de uma decisão majoritária”. Este é um raciocínio válido e que mostra que a democracia, como todas as coisas, se utilizadas sem o devido peso, sem a razão, não passa de um golpe contra a liberdade. É o que temos assistido no Brasil onde até mesmo a impunidade e  ser uma pessoa acima das leis, está sendo arguida como merecida para alguns que, supostamente, defenderam os pobres, quando só cuidavam de seus próprios interesses. A democracia deve sim ser a vitória da maioria, mas, não pode jamais ser usada, como muitos usam, para aplastar os princípios éticos e o direito das minorias. É preciso lembrar que é justo rebelar-se e que nenhum governo, em nome de qualquer direito, pode se impor usando a democracia para cercear a liberdade. 

segunda-feira, maio 18, 2015

O presente chinês será grego?


As manchetes já festejaram e o governo brasileiro vê quase como uma tábua de salvação a vinda do primeiro-ministro da China, Li Keqiang, com mais de 200 empresários e um pacote de investimentos destinados ao Brasil estimados em 53 bilhões de dólares, que tornaria realidade alguns grandes projetos brasileiros necessitados de capital, como é o caso da Ferrovia Transoceânica, um megaprojeto de ligação ferroviária entre o Rio de Janeiro e os portos do Peru, investimentos em energia, como a linha de transmissão da usina de Belo Monte e projetos industriais, com ênfase no setor automobilístico e de máquinas e equipamentos. Bem, a própria denominação “negócios da China” já traz em si, a ideia de lucros extraordinários. A questão, quando se trata com os chineses, é de perguntar: extraordinários para quem?
Uma das características intrínsecas ao modo de atuar dos chineses, na atualidade, é a de que eles têm sido extremamente competentes na estratégia de oferecer grandes projetos de infraestrutura para outros países que, efetivamente, criam grandes oportunidades para seus investimentos, criam mercados para sua mão-de-obra e exportações, abrem maiores concessões em relação aos seus interesses e passam a exercer maior influência sobre os países que aceitam suas propostas. Não se precisa ir longe para buscar exemplos, pois, aqui do lado, temos o caso argentino que, em troca de financiamento, permitiu que a indústria chinesa inundasse o mercado argentino com centenas de trens de passageiros, vagões de carga e locomotivas, além de outros tipos de materiais, enterrando o pouco que restava da indústria local e, como dano colateral, atingindo também a indústria brasileira que seria um potencial fornecedor de componentes e equipamentos para o setor ferroviário argentino.

Assim, por mais que seja evidente a nossa necessidade de atração de investimentos e de melhoria da logística, a pergunta que não pode deixar de ser feita é: a qual custo? Se, como tudo indica e os chineses são hábeis em pedir, for com a flexibilização das regras de conteúdo nacional para a aquisição de equipamentos, será que vale a pena? Se ampliado o espaço para a participação de investidores estrangeiros nas novas concessões para projetos de infraestrutura, como os brasileiros terão condições de competir contra um investidor chinês em posição privilegiada, sendo, como é,  competitivo na tecnologia, nos equipamentos e com a prerrogativa de contar com o financiamento? É preciso lembrar que, por lá, eles exigem participação dos chineses em qualquer tipo de investimento. Será que, por aqui, haverá, para os brasileiros, alguma contrapartida positiva a estes investimentos chineses? Ou, vamos perder a oportunidade de ter competitividade logística na esteira da construção de uma infraestrutura melhor? Ou, em nome do imediatismo, jogar a pá de cal na já maltratada indústria brasileira? A resposta será dada pelo governo se aceitar, ou não, a “flexibilização das regras de conteúdo nacional” e uma maior “abertura de mercado para exportações chinesas”. É preciso acentuar, parodiando o passado, que nem tudo que é bom para a China é bom para o Brasil.  

Ilustração: img.photobuckey.com 

quarta-feira, maio 13, 2015

A crise é, acima de tudo, política


Quem mora em Rondônia sente os sinais da crise seja no seu comércio, seja na maior dificuldade de arranjar trabalho ou até mesmo na venda de serviços, ainda que temporários. Principalmente os micros e pequenos são os que mais se queixam com a sensível queda da demanda de bens e serviços. A questão não é apenas rondoniense. É um problema nacional. E não se pode nem dizer que não tenha sido anunciada, denunciada e que faltassem avisos. A questão foi que, em especial, no ano passado, com o período eleitoral, o governo se negava a ver os sinais da crise e tomar as providências necessárias e amargas que, agora, vem pretendendo tomar.
Economistas, e estudiosos de desenvolvimento, porém, sabiam, e sabem, que desenvolvimento não é um problema quantitativo, nem de aumento da demanda. Porém, o governo sempre se negou a reconhecer, mesmo quando os adota,  os indiscutíveis méritos do passado, em especial de Itamar Franco e FHC, que controlaram a inflação e permitiram que o país tivesse segurança econômica e previsibilidade. Lula, não teria tido as condições que teve para governar, razoavelmente bem, se não fosse o fato da inflação ter sido controlada, o déficit público administrado e tivessem lhe dado um país com condições de crescer. Mérito seu foi o de manter a política econômica herdada introduzindo mudanças microeconômicas e estimulando a demanda via crédito. O que fez com que houvesse uma grande sensação de melhoria, para a população brasileira, no seu governo foi o crescimento do crédito que, historicamente, sempre foi de 24% e subiu para 48% no final. O crédito, e ainda mais de longo prazo, a melhoria introduzida pela ampliação da bolsa família aliado a aumentos salariais acima da inflação, por algum tempo, criaram a sensação errada de ser possível desenvolvimento sem aumento de empreendedorismo, dos investimentos e da educação. Criou-se a jaboticada brasileira de crescimento via demanda, o que nenhum economista que se preze consegue conceber como nem sequer razoável. Acrescente-se a isto, os erros de política econômica, que não foram poucos, e a crise seria inevitável, de vez que é a cobrança da demanda excessiva, sem base no incremento da produção, uma hora teria que acontecer.

A grande verdade é que a crise tem sua raiz na ideologia de que é possível criar crescimento via o estado e que o estado tudo pode. Esta ideia errada, que levou o governo a manter políticas irreais dos preços da energia e dos combustíveis, além da intervenção desastrada das desonerações, para manter uma situação insustentável, agravaram os problemas das contas públicas e desembocaram nos aumentos da inflação e do dólar. Não há, agora, como esconder que tivemos, nos últimos tempos, uma sensível queda dos investimentos e do Produto Interno Bruto-PIB, por erros de condução da política econômica, nem existem formulas mágicas para sair da crise. O governo, no entanto, continua a não fazer o seu dever de casa quando não diminui a máquina administrativa, não melhora os gastos públicos e é incapaz de conseguir a confiança pública para criar um programa capaz de retomar o desenvolvimento. Por tal razão estamos num momento difícil onde a insatisfação é geral por se cobrar uma conta que, para a grande maioria da população, é indevida e contraria suas expectativas de uma vida melhor. Infelizmente, a crise está aí, e ainda teremos que conviver muito tempo com ela, se não houver um consenso sobre os rumos que o país deve tomar. Sob o ponto de vista econômico há até um consenso sobre as medidas que devem ser tomadas, porém, a economia é, acima de tudo, política e não se avança quando não se tem quem aponte os caminhos e tenha credibilidade para negociar os impasses. Os ajustes propostos pelo ministro Levy tem seus méritos, mas, não bastam para mudar o quadro de estagnação econômica em que estamos e, pelo jeito, sem mudanças políticas, ainda teremos dificuldade para sair do ponto morto por muito tempo. A crise, embora econômica, revela o que as ruas têm denunciado: falta representatividade e capacidade política para atender as demandas públicas que a população exige. Em suma: a crise, apesar de econômica, é, acima de tudo, profundamente política. 

Ilustração: www.jj.com.br

terça-feira, maio 05, 2015

Nem tudo é tão relativo


Não deixa de ser folclórico que, muitas das pessoas que se dizem de esquerda, fiquem babando e rejubilando-se pelo fato de terem divulgado que Vaccari, o tesoureiro petista, possui um patrimônio pequeno, como se isto fosse uma prova de honestidade. Convenhamos que, como em outros casos, é muito provável que os bens e valores adquiridos estejam em nome de outras pessoas ou até mesmo em contas no exterior. Afinal, devemos lembrar que, não é por acaso que a justiça o acusa: inúmeros os delatores que citam sua participação e/ou recebimento de parte das propinas da Petrobras.
Aliás, não é de meu feitio, nem me cabe ficar discutindo culpas. Continuo a dizer que, para mim, a culpa real é a de quem comanda seja a família, a casa, a empresa ou o país. E, neste sentido, é preciso lembrar que o principal acusado de tudo se diz um homem honesto, acima de todas as suspeitas, pelo menos, 90% melhor que todos os jornalistas das principais revistas do país “enfiados uns nos outros”. É claro que tal inocência somente pode ser entendida à luz da ideologia. Como se sabe, no passado, homens como Lenin, Stalin ou Trotsky, utilizaram a versão de que ao revolucionário, ou seja, para quem se diz de esquerda, a mentira, a distorção e até mesmo o assassinato possuem uma conotação diferente, qual seja a de que, como é feito em nome do futuro, do socialismo que, naturalmente, viria, tudo seria válido. Assim, por uma dicotomia bastante conveniente, para uma nova elite, há uma ética para os que atuam em nome do povo e a ética dos burgueses. Assim, quem rouba para o partido e para o suposto futuro, é inocente, por ajudar o curso da história e por construir a utopia socialista. De forma que se, qualquer um de direita, roubar por qualquer motivo será um ladrão mesmo, mas, quem rouba em favor da gloriosa revolução se preso, será, sem dúvida, um preso político. Ou seja, na cabeça de muitos os ideologizados valores como honestidade, respeito aos direitos do próximo, à vida, à liberdade etc., somente se justificariam em função dos propósitos revolucionários. De forma que tudo é relativo e a ética e a política se transformaram em valores instrumentais.
Seria de se esperar que tal relativismo ficasse no passado com a queda do Muro de Berlim e o fim melancólico do socialismo real que deixou suas viúvas inconsoláveis. Mas, não, apesar da evidência histórica, muitos persistem em viver a velha dicotomia entre esquerda e direita e, sob o pretexto de serem os defensores dos pobres, avançam sobre a riqueza de todos brandindo o velho pragmatismo revolucionário. E, mesmo quando se transformaram na elite, e usam (e abusam) do poder durante mais de uma década, se sentem e pregam serem os mais inocentes dos homens por tomar o que não é seu, desde que seja em favor do partido e da revolução, mas, sem abrir mão dos privilégios e das benesses (e muitas vezes alargando-os) que tanto criticavam na velha elite, a quem costumam atribuir tudo que é de ruim inclusive seus próprios erros. É fruto desta distorção mental e do desdobramento de uma lógica infeliz que qualquer um que não concorda com suas teses é perseguido e vira inimigo. Os monopolistas da verdade, e do bem comum, usam o poder que tomaram, graças às liberdades democráticas, para solapá-las e não medem os meios para facilitar a instauração de uma “ditadura do proletariado”, inclusive usando recursos públicos e tentando manietar a imprensa por meio de dinheiro ou até mesmo de supressão das vozes discordantes. O problema é que, num país complexo como o Brasil, é preciso, pelo menos, ter uma gestão eficiente da economia e, neste sentido, o velho hábito socialista de viver somente do trabalho alheio parece que se esgotou. Não é a política quem está enterrando as velhas ideias, mas, sim a economia. O governo vive da iniciativa privada e não pode, como tem sido feito sistematicamente, apenas sugar das classes produtivas sem afetar, drasticamente, os níveis de bem-estar e de crescimento econômico. O fim do ciclo do PT não será alcançado via política e sim pela economia. Pelo fato inconteste de que não há almoço grátis.


Ilustração: coisasamenosbr.blogspot.com

terça-feira, abril 14, 2015

A informação no nosso tempo


Que tudo se acelerou ninguém tem dúvidas. A pressa, que sempre foi inimiga da perfeição, é quem nos escraviza no presente. A pressa e a novidade, ou, se quiserem, a presencialidade que se expressa na visão de que é preciso estar in, estar por dentro, num mundo altamente tecnológico e pós-moderno, ou seja, é preciso estar informado para se decidir. Mas, como estar informado num mundo onde a informação entra aos borbotões? Como tomar decisões onde há um imenso excesso de estímulos, de vertentes que, invés de dissipar incertezas, contribui para aumentar as dúvidas? Afinal com a evolução tecnológica, o volume crescente de dados que chegam por sistemas de informações, por e-mail, twitter, redes sociais, feeds, mídias convencionais, newsletter etc. é tão incrivelmente grande que a esmagadora maioria das pessoas não consegue nem ler e ver o que precisaria quanto mais filtrar o que é importante para direcionar sua vida, seus negócios, suas decisões.
São tantas e tão variadas as informações disponíveis que, por mais que se tente negar, o que acaba tendo, de fato, é  a desinformação.  No meio a tantos dados, de tantos fatos e números, muitas vezes, antagônicos, como não perder tempo e não correr o risco de não divagar ou fazer as escolhas erradas? Não há forma fácil. É preciso se ter uma estratégia de filtragem e uma percepção eficiente do que, realmente, faz, ou não, diferença, por isto, se precisa, como na agricultura, separar o joio do trigo, transformar a massa de dados em informações confiáveis e, o que é muito pior, cada vez mais rapidamente e, não raro, dispondo de menos especialistas que tenham a capacidade de selecionar o que é relevante.  Isto é muito mais visível ainda porque, muitas vezes, como é comum na política, hoje, existem estratégias que visam transformar em verdade, por meio da propaganda, os interesses de certos segmentos, seja na vida, seja nos negócios.
Também até os grandes meios de comunicação, numa política de cortar custos, empobreceram as suas análises e suas redações, de forma que, ao fim, as matérias parecem ter sido padronizadas e reproduzidas em massa. Acrescente-se que, mesmo os grandes analistas que restam, submetidos a um processo massacrante de produção em larga escala, não conseguem ter o tempo hábil para lapidar seus pensamentos e textos. Ainda por cima há um processo, intensivo e on-line, de grupos que se especializam em hostilizar quem não pensa da mesma forma e, não raro, de uma forma grosseira que revela a pobreza de seus horizontes e ideias. A verdade é que a informação, hoje, a informação real é um veio escasso de ouro sob um amontoado de lixo. E é o lixo que se propaga e tenta se instalar como se fosse verdade como se fosse um vírus moderno. E são bem pagos, justamente, o que produzem mais lixo. Por isto há uma legião de desinformados que sustentam até mesmo a ilusão de que é possível alcançar o paraíso sem esforço. E se vende até vaga no céu para quem não tem capacidade de discernir de forma adequada. São os tempos, os nossos tempos.




sábado, março 28, 2015

A crônica dor de barriga brasileira


A prisão de ventre ou intestino preso (termos populares pelos quais são conhecidos a constipação e obstipação) se observa quando a pessoa evacua menos de três vezes por semana. Na prisão de ventre as fezes, geralmente, ficam duras, secas, pequenas e difíceis de eliminar. Algumas pessoas com intestino preso acham dolorido tentar evacuar, e, frequentemente, experimentam a sensação de inchaço e intestino cheio. O fato real é que as funções normais de excreção do corpo não funcionam. Em geral as pessoas, embora se sintam incomodadas, com uma prisão de ventre moderada não precisam tomar laxantes. Porém, para muitos que fizeram mudanças na dieta e estilo de vida, e ainda assim continuaram com o intestino preso, o médico pode receitar laxantes por um período curto de tempo, afim de aliviar a situação. O duro mesmo é quando a prisão de ventre se prolonga, o que requer o uso de medidas mais drásticas que não as caminhadas, beber mais água e tomar os laxantes, normalmente, utilizados nesta situação. É preciso, em casos assim, um acompanhamento médico e, em alguns casos, medidas radicais. E tudo porque um setor importante do corpo não funciona bem e, justo, aquele que precisa expelir os elementos nocivos.
Infelizmente, no momento, o Brasil experimenta uma enorme (e prolongada) prisão de ventre, se formos comparados com um corpo. Efetivamente, para um país funcionar bem é preciso, indispensável que seus órgãos políticos processem bem as demandas públicas. É o oposto do que acontece no país: passamos por uma imensa e crônica incapacidade de processar as necessidades da população, ou seja, de fato, os organismos políticos não funcionam, não processam, nem expelem os materiais nocivos ao funcionamento da política. Estamos sim, emperrados, com um imenso bolo que faz com que os intestinos políticos fiquem presos não por dias, mas, por meses, anos e, o que é pior, o médico que nos trata deve ser um daqueles “sem noção”, cubano do “Mais Médicos”, que não entende nem as causas, nem da prevenção e/ou do tratamento para nos  ajudar a obter alívio.
Acontece que, para sobreviver, o corpo terá que, fatalmente, expelir os elementos nocivos. Afinal, com o constante agravamento da “prisão de ventre”, será impossível continuar negando os fatos. Infelizmente, conforme a experiência nos ensina, a dor irá se tornando insuportável e, com o tempo, será preciso, sem dúvida, buscar soluções, inclusive aquelas que exigem remédios mais drásticos. Não há muito a ser feito. Dor de barriga pode ser ignorada por algum tempo, relevada mesmo, mas, chega uma hora que o corpo não pode mais continuar mantendo o que lhe faz tanto mal. Há certas doenças que precisam ser tratadas e, é claro, quanto mais se demora o tratamento mais problemas teremos para voltar a ter uma vida normal.


Ilustração: www.comocurar.net

segunda-feira, março 16, 2015

O leão está solto nas ruas



Podem tentar esconder, escamotear, distorcer, mas, enquanto a manifestação “chapa branca” da sexta-feira foi um fiasco, um desperdício, por outro lado, tivemos, no domingo, um notável espetáculo cívico. E não há palavra melhor para descrever a horda verde-amarela que invadiu as ruas do Brasil pedindo o impeachment de Dilma e o fim da corrupção, coisas que estão, pelo menos no imaginário popular, amplamente ligadas.
Não se precisa nem discutir a diferença de números alegada. O fato é que um chamamento difuso, sem uma organização centralizada, sem a participação de partidos, sem lideranças claras conseguiu levar para as ruas milhares de pessoas, quase todas com roupas verdes e amarelas, sem apoio financeiro (não se distribuiu nada, nem se pagou ninguém) e até mesmo sem objetivos definidos, palpáveis, senão o de demonstrar sua insatisfação com o governo, não deixa de ser um fenômeno que famílias inteiras, estudantes, donas de casa, crianças, propiciassem um espetáculo de bom comportamento reclamando, democraticamente, contra o um governo inteiramente desacreditado, que diz uma coisa e faz outra e ainda tenta, de todas as formas, descaracterizar quem aponta os seus erros.
Diziam que era um movimento “gourmet”, de elite, que apenas iriam os “coxinhas”. Depois tentaram caracterizar o ato como antidemocrático que eram os que “pregavam o 3º turno” ou até mesmo “a direita fascista” que deseja a volta dos militares. Nenhum dos rótulos pegou. Pegou mesmo, e com o susto da surpresa, as avaliações dos números de cidades, não apenas nas capitais. Os números divulgados pela Policia Militar, que no Brasil, historicamente, sempre faz essas avaliações, foram contestados pelos estupefatos governistas que se negam a ver, o que o país todo já mostrou por meio de diversos panelaços e apupos: o povo quer democracia, de fato, e mudança na economia. O povo de fato está de saco cheio de enrolação, de candidatos que pregam uma coisa na campanha e fazem outra e, principalmente, da corrupção desenfreada que vem ocorrendo, nos diversos níveis governamentais, porém, que, como apontou Eduardo Cunha, tem sua fonte “do outro lado da rua”.

Não importa se foram os mais de um milhão em São Paulo ou se os quinze mil de Porto Velho ou os supostos 50 mil de Brasília. O que importa é que “nunca antes neste país”, nem mesmo Collor teve uma rejeição tão alta. O que importa é que predominaram os gritos de “nossa bandeira não é vermelha e sim verde e amarela” pedindo a saída de Dilma e do PT, demonstrando o cansaço com um governo pelo qual não se sentem representados. E isto é ainda mais fantástico por não se ter visto nenhuma presença política significativa, nenhuma citação, bandeira ou sigla de qualquer partido ou político. Voluntária, ou não, com toda a tranquilidade, transparência, a manifestação pacifica foi um gigantesco e homérico protesto contra o que o governo fez e faz. Foram manifestantes que, majoritariamente, se posicionaram contra o governo. E mais: em todo Brasil. O governo tentará desmentir, negar, dizer que isto é “democrático”, que “ouviu as ruas” e desculpas congêneres, mas, precisará fazer muito. Precisará se mexer, sob pena, de se tornar, em muito pouco tempo, completamente sem a menor representatividade, um governo tão sem rumo e legitimidade, que será impossível impedir que o impeachment seja a única solução possível. Sob a cabeça de Dilma pende a espada da insatisfação popular e esta não se pode comprar com os recursos da corrupção. Será preciso dar respostas às demandas das ruas. 

quinta-feira, março 12, 2015

Mídias sociais tendem a aumentar a influência no consumo


Uma pesquisa norte-americana, feita durante um período de mais de dois anos, pela CivicScience, mapeou o que influencia mais os consumidores na hora de comprar, onde comer e o que assistir: anúncios na TV, propaganda na internet ou conversa nas redes sociais. Observando os resultados durante um tempo a empresa chegou a alguns resultados:
1)      Que a influência da TV sobre o comportamento do consumidor está diminuindo. E mais pelo encolhimento significativo da influência da televisão;
2)      O clima (por lá, é claro) influencia muito. Quando o clima é quente, as pessoas são mais influenciadas pelas redes e com a temperatura mais baixa a influência da TV é maior;
3)      Os anúncios na internet apresentam um crescimento gradual, mas, com menos volatilidade que TV ou mídia social.

O questionário foi respondido por mais de 17 mil adultos norte-americanos e o total de respostas variou entre 2 mil e 5 mil, de forma que se trata de uma pesquisa bastante representativa. Há, no entanto, algumas análises que foram feitas que devem ser levadas em consideração. Apesar de tudo, a pesquisa mostra que existe uma crescente percentagem de consumidores dizendo que conversas em redes sociais são as que mais os influenciam. A proliferação dos dispositivos móveis, por exemplo, é outro fator importante de modificação. Durante este mesmo período de tempo, os dados mostraram que os possuidores de smartphones passaram de 53% para 67%, e os usuários de tablets passaram de 32% para 52%. Ou seja, o acesso a mídias sociais está ficando maior e, por incrível que pareça, isto não significa que há menos gente assistindo episódios inteiros de conteúdo de TV. Estes números continuaram praticamente iguais no mesmo período. Porém, os que se dizem mais influenciados pelos anunciantes da TV são muito mais “tradicionais” nos seus atributos. Eles tendem a ter mais de 45 anos, assistem a mais de quatro horas de televisão por dia, preferem meios tradicionais de comunicação (ligação via telefone fixo) e, a maioria, se não todos, compram em lojas físicas. Eles são mais propensos a dirigirem carros produzidos nos Estados Unidos e a comer nas redes de fast-food. Enquanto que o segmento que alega ser mais influenciado pelos comentários das redes sociais tem certa tendência feminina; são mais propícios a ter entre 18 e 29 anos; dizem ser viciados em devices digitais; preferem comer nos restaurantes casuais ou locais; dirigem carros feitos no Japão; e assistem TV por outros aparelhos. É neste grupo que os anunciantes precisam focar, já que são consumidores que prestam muita atenção em comentários, e o botão de compartilhar está a um toque de distância. A vantagem deste público é que podem ser fortes aliados para a aceitação de um produto. Há um dado importante que é o fato de que os anúncios digitais conseguem atingir no pico 14% dos consumidores, ou seja, não funcionam tão bem, o que é um fator de dificuldade para quem vive de publicidade digital. Vale ressaltar que a pesquisa é norte-americana. Mas, não deixa de ser uma luz de farol para o nosso futuro. Tenho sérias dúvidas sobre sua validade entre nós, porém, não tenho dúvida nenhuma de que o forte aumento do número de equipamentos móveis transforma o mercado brasileiro e, com certeza, modifica também a forma de avaliar os produtos e aumenta a influência das mídias sociais.



sábado, fevereiro 28, 2015

Jogo de velho é videogame


Jogar é da natureza humana. Não vou ao ponto, nem tenho a capacidade de pensamento, do filósofo Johan Huizinga que disse que “É no jogo e pelo jogo que a civilização surge e se desenvolve”, mas, percebo, no meu pobre horizonte de pensamento que, de qualquer forma, na vida, sempre se joga. E ainda, dentro de meus limites mentais, penso que somos bons em alguns jogos e outros não e, consciente, ou não, fazemos escolhas dos jogos que jogamos, porém, ninguém, nem mesmo os críticos dos jogos, deixa de jogar. Em suma, a política, a economia, a vida social, o viver, enfim, é um jogo.
E, sob o ponto de vista científico, no estado de saber atual, se divulga que jogar faz bem ao cérebro. Claro que não falamos do vício de jogar, mas, ao de cultivar o hábito de manter alguma atividade que exija a movimentação do cérebro. Segundo os cientistas, o sinal mais evidente do processo de envelhecimento é a redução da velocidade de absorver novos conhecimentos e problemas de coordenação motora. O motivo da velhice-dizem- não se deve, como se pensava, à perda de neurônios, mas, à diminuição do número de sinapses. De forma que, para eles, a melhor forma de se manter bem é criar novas sinapses. Trata-se de um processo semelhante ao exercício físico que mantém o corpo mais saudável. No caso do cérebro é preciso exercício mental.
Por conta disto se recomenda que se pratique alguns tipos de atividades que fortalecem a capacidade mental quanto mais se envelhece devido à função executiva do cérebro, necessária para atenção, percepção, memória e resolução de problemas, diminuir. Assim praticar leitura com reflexão, aprender uma nova língua, conviver socialmente, praticar exercícios físicos, fazer palavras cruzadas, realizar jogos de memória e praticar diversos tipos de jogos, mais modernamente, os vídeos games são fundamentais para criar novas conexões entre os neurônios, para a criação de novas sinapses.

É fantástico que as novas tecnologias sejam aconselháveis para os mais velhos (e a adesão das pessoas de mais 60 anos à internet, por exemplo, tem sido acima de 50%), porém, é mais interessante ainda que os videogames sejam considerados como excelentes para a prevenção e para o tratamento de algumas enfermidades. Especialistas afirmam que, se usados pelos mais velhos, o videogame melhora o condicionamento físico, a força, o equilíbrio e também ajuda o lado cultural e social. E, pasmem, ao contrário do que seria esperado, quanto maior o período de uso melhor é a concentração, a agilidade e até mesmo o processamento das informações e, meses depois que param, os benefícios permanecem. Confesso que fiquei com inveja de alguns deles que, ao jogar,  se esqueciam de tudo, inclusive mulheres, que deixavam as panelas no fogo queimar a comida. A minha razão é simples. Gosto de jogos. Futebol, basquete, futebol de salão, vôlei. Fui, até certo tempo, um jogador de gamão, um jogador de cartas, não muito aplicado, um razoável jogador de xadrez. Confesso que gosto de bingos, um pouco, e jogo, mesmo contra todas as probabilidades, nas loterias. Afinal jogar é humano,contudo, quando se trata de videogames, sinceramente, devo ter um problema geracional. Não que considere os games estranhos, embora considere muito pouco atrativo o fato de que, em geral, são violentos ou muito competitivos, todavia, me parece sempre como cigarro: algo com que não consigo ter prazer. É claro que isto não vale para os outros. Há pessoas que consideram os games funcionais, divertidos e até instrutivos. Até penso que a experiência com os denominados Exergames, os controlados pelos movimentos corporais e que são utilizados para tarefas e exercícios físicos, devem dar, de fato, alguma diversão, mas, não consigo me livrar da percepção de que os games, talvez, seja a idade mesmo, são algo meio infantil. É claro que esta é uma reflexão que só serve para mim e alguns dinossauros de estrutura parecida. Pelo estado da arte os games geram mesmo benefícios até mesmo sob o aspecto de integração geracional. E se é para o bem de todos, e felicidade geral da nação, digo aos mais velhos, com entusiasmo:- Vão jogar videogames, seus meninos levados! 

terça-feira, fevereiro 10, 2015

Um aniversário sem festa


O PT ao completar 35 anos de história conseguiu um feito inédito, nas palavras de seu guia, como “nunca antes neste país”, partido algum teve. A associação imediata que se faz com o nome do partido: corrupção. A grande contradição é a de que foi um partido que construiu sua reputação brandindo a bandeira da ética, com ferozes ataques aos adversários contra a corrupção! O Lula e seu partido que, agora, são acusados de patrocinar os dois maiores escândalos que o país já assistiu- o “Mensalão” e o “Petrolão” não podia ver, antes, qualquer sinal, de qualquer vírgula errada, sem apontar o dedo, e indignado, gritar contra o assalto aos cofres públicos. No entanto, hoje, diante dos esquemas muito maiores de corrupção fecha os olhos e até indulta e bate palmas para os acusados.
Longe estão os tempos onde Lula acusava Collor, Sarney, Maluf e Quércia de ladrões e o Congresso de ter “300 picaretas”. Hoje, abraça a todos desde que façam o que lhes pede, e o próprio Maluf, numa sincera “mea culpa”, disse que o PT entende muito mais da área do que ele e, perto do que o partido faz, disse se considerar um “trombadinha”. E o partido não vê nada demais no assalto organizado da Petrobras quando, em cima de um simples Fiat Elba, demonizou Collor e o arrastou ladeira abaixo do Planalto. Depois iria tentar o mesmo contra FHC sem sucesso. Infelizmente, a grande realidade atual é que pensar em PT é pensar em corrupção, seja isto uma realidade do partido ou não. Não há como fugir de que a corrupção sob as asas do governo petista assusta pela quantidade e qualidade. E, se antes, ainda podia se alegar que “tirou 30 milhões da pobreza”, hoje, se desconfia, de que seus militantes é que saíram da pobreza e os índices foram apenas manipulados para vender a propaganda eleitoral. Os pobres continuam aí e, pasmem, de um forma crescente vivendo nas ruas, pedindo esmolas e, o que é pior, principalmente os jovens, sem bons empregos, sem perspectivas, assaltando e matando.
Claro que a corrupção não é monopólio do PT. Mas, o agravante é que a corrupção petista assusta também porque nenhum escândalo atingiu figuras tão próximas dos mandantes, nem envolveu figuras tão relevantes de qualquer partido, como são, por exemplo, Dirceu, Palocci e outros tantos do núcleo de poder. Sem contar os “malfeitos” que permanecem sem apuração ou foram jogados para debaixo do tapete. E o agravante maior é o de que, em grande parte, a corrupção petista não foi feita para enriquecer os bolsos dos políticos nem dos empresários. Não. Foi feita por meio de um plano para se comprar o Legislativo, manietar o Judiciário e ter decisões partindo do Executivo que favoreciam a manutenção do poder. Assim, não há como Dilma, por exemplo, não responder pelo que foi feito, de vez que era beneficiária dos recursos usados para se impor aos outros poderes e impor uma pauta política. Fizeram assim da oposição meros fantoches, centralizando o poder e impondo o que desejavam enquanto gastavam milhões fazendo publicidade positiva de um governo que não avançava em nada. O Brasil se tornou um país pouco competitivo e voltou a ser agrário-exportador. Não adianta, hoje, quando colhe os frutos de seus erros, apelar para o “todo mundo faz isto” ou culpar o mensageiro (a “mídia”, sempre acusada de ser a verdadeira oposição) ou vender a versão fantasiosa de que estão querendo criminalizar o PT ou ganhar no “terceiro turno”. É só olhar o que Dilma dizia na campanha eleitoral e comparar com o que faz depois de eleita. É a tempestade que carrega quem semeou os ventos. Nada mais impactante para refletir a decadência e a imagem do partido de que a “piada” que circulou amplamente na internet e fora dela que não houve festa do aniversário do partido porque roubaram o bolo.


segunda-feira, fevereiro 02, 2015

Sem bons horizontes


Bem, mais uma vez, fui assaltado em Porto Velho. Claro que ser assaltado para o brasileiro não é nenhuma novidade. A nossa impotência diante dos assaltos se inicia com o próprio governo que nos mete a mão no bolso sem a menor apelação, pelos políticos que, brandindo a lei e a razão, nos assaltam de diversas formas fingindo nos representar, pela falta dos serviços públicos mínimos. Ainda assim nada nos parece tão invasivo quanto, em plena rua, ser impelido a entregar o seu celular e fazer esforço para nem olhar direito o ladrão porque não se sabe o que ele pode fazer, se não gostar da sua cara. Foi só um celular. E, na hora, com um guarda-chuva na mão, sem uma viva alma por perto, de vez que chovia, ainda pensei diante da autoconfiança do bandido em lhe dar uma pancada com o guarda-chuva e correr, mas, me lembrei, sabiamente, que, um garoto, por causa de um celular atirou e quase mata um conhecido que ficou numa cadeira de rodas. A precaução, o fato de que a voz imperativa, seguida de um xingamento, não era de quem brincava, me fez,  por instinto de sobrevivência-penso eu- entregar com a mansidão de um cordeiro o aparelho. E ainda me culpar por não ter os mesmos laivos de coragem (ou loucura) do passado.
O aparelho, aliás, nem era dos melhores. Mas, a questão não é o que se perde. E a única perda real-para mim-era dos telefones dos amigos. É a sensação ruim de insegurança, de impotência, de, no futuro, não poder, como sempre fiz, transitar por ali sem receio de um novo assalto. Claro que aconteceu por um acaso infeliz, todavia, quem me garante que não acontece de novo? Isto de que um raio não cai duas vezes no mesmo lugar anda muito desmoralizado. E o assalto não foi tão por acaso assim, pois, várias pessoas já haviam sido assaltadas nas proximidades do Porto Velho Shopping e até, recentemente, um jovem que reagiu foi morto. Para quem, como foi o meu caso, conheceu Porto Velho em um tempo onde se podia andar sem susto na noite e deixar as portas das casas e dos veículos abertas, esta violência crescente me faz, de fato, ser mais cauteloso, medroso mesmo. Afinal se não se pode andar armado como se defender se não existe um bom sistema de policiamento? Sei-como muitos fazem questão de acentuar- que se trata, hoje, de um fenômeno brasileiro. No ano passado, de uma forma menos traumática, já havia me acontecido também próximo de casa. Foi até prosaico por ser o dia do primeiro jogo do Brasil e, pasmem, o ladrão queria roubar bebida! Umas poucas garrafas de cerveja que levava. E só me mostrou que tinha uma faca na cintura. E claro que não discuti muito, mas, por sorte, apareceu um policial na hora e fiquei com a bebida e ele ganhou umas tapas.

Não tive tanta sorte agora. Mas, o que me incomoda mesmo é o fato de que há um crescimento da violência que se expressa, inclusive, no uso de armas, de ameaças maiores, de criar o receio de se ir até esquina e, de repente, se perder a carteira, o celular ou até mesmo ser espancado ou levar um tiro. E enquanto a vida piora os impostos só aumentam, aumenta o custo de vida e a insegurança nossa de cada dia. E só nos resta mesmo apelar para a oração, pois, do jeito que as coisas andam não há um céu azul visível no horizonte. As nuvens estão carregadas, negras, muito negras. E tudo indica que as coisas somente tendem a piorar.