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sábado, julho 13, 2013

Não podemos chamar o retrocesso


O mundo precisa de ordem. E a verdade que há uma certa ordem até mesmo no caos. Só os anarquistas, que não primam, aliás, por deixar de gostar das coisas que funcionam, das coisas bem ordenadas, é que são capazes de acreditar que a ordem não seja necessária. Aliás, o problema deles não é nem mesmo a ordem. Eles não gostam mesmo é que haja comando, governo, mas, sem estas coisas, aí, principalmente, com a complexidade do mundo moderno, é que nada funciona mesmo. A ordem, por menos que gostemos, dela é uma necessidade essencial. Claro que, mais jovem, também me rebelava contra a ordem estabelecida, mas, existiam razões sensíveis: o mundo era preto e branco. As coisas eram mais simples: havia um governo militar e se desejava a democracia. Era evidente quem estava de um lado ou de outro e o que se desejava era o que, hoje, existe: um governo eleito pelo voto.
Dos anos 80 em diante o mundo mudou muito e o Brasil muito mais. A democracia que foi conquistada a duras penas, porém, como se esperava, melhorou muito as coisas, sob os aspectos de liberdade e de opinião, porém, não resolveu, como era a ilusão reinante, os grandes problemas nacionais. O crescimento, por exemplo, não foi o mesmo do governo militar, seja porque, há que se reconhecer, os militares usaram a melhor capacidade técnica possível existente e fizeram, em áreas essenciais, escolhas que foram corretas. Fizeram uma enorme dívida pública? Fizeram. Porém, é inegável que criaram um Brasil muito maior economicamente e com possibilidades de pagar a dívida sem problemas. Foram as escolhas civis, o não pagamento dos juros da dívida externa e a falta de combate adequado à inflação que fizeram com que, entre 1986 e 1994, o país voltasse aos níveis de produção dos anos 70 com governos populistas que não faziam o que deveriam fazer. Só com o Plano Real, a coragem de Itamar Franco, e com uma equipe sob o comando de FHC, é que começamos a trilhar os caminhos corretos. A estabilidade, as reformas, as privatizações, a consolidação e o controle da dívida pública (que nem se sabia de quanto era) e a Lei de Responsabilidade Fiscal permitiram ao país viver uma nova realidade e consolidar o processo democrático.
A ascensão de Lula da Silva, mesmo saudado como o supra sumo do processo, sempre me pareceu um problema. Nada contra Lula, que tem seus evidentes méritos, mas, sua falta de determinação e preparo eram, sempre foram, evidentes. Não que seu governo não tenha tido méritos. O maior deles foi manter a receita e melhorar, de forma nem sempre adequada, o acesso dos pobres a uma vida melhor. Menos pela melhoria efetiva da renda do que pelo aumento do crédito, pois, saímos de um patamar de 24% do Produto Interno Bruto-PIB de crédito para os 49% do final de seu governo. O consumo interno aumentou muito é a pura verdade. Graças ao endividamento geral também é verdade. O que é essencial para termos um país melhor: valorizar o trabalho, a educação, criar serviços de qualidade, consolidar a burocracia pública, diminuir a carga tributária, melhorar a vida dos aposentados, porém, foram promessas esquecidas. Embalado no marketing e nos elevados índices de popularidade o líder petista criou um monstrengo: a satisfação completa dos muito ricos, uma ligação direta com a população mais carente por meio de benesses e o sufocamento das instituições, em especial, o Congresso pela cooptação econômica e por distribuição de cargos das oposições. A classe média, os servidores públicos, os militares pagaram a conta com aumento de impostos e queda de seus rendimentos.  No geral, sem contestação política,  Lula deixou as coisas correrem, empurrou os problemas com a barriga e elegeu sua sucessora fazendo os acordos mais espúrios possíveis e carregando consigo a carga de seu governo ter sido palco do maior escândalo público de todos os tempos. É esta herança maldita que uma Dilma atônita tenta equilibrar sem ter forças nem a percepção de que só desligando-se de seu criador e matando os monstros ocultos debaixo do tapete. Terá força e grandeza para isto? Não sei. Sei que sugerir plebiscito é uma solução insolúvel. Sei que, hoje, falta uma visão do que desejamos, de para onde desejamos ir. E o povo nas ruas, também sem lideranças e sem caminhos, é um perigo para o aventureirismo e as soluções de força. É tempo de se ter a calma e o bom senso de verificar que precisamos, em nome da democracia, dar uma trégua para que se possa pensar em soluções e não apenas pressionar um governo que, embora não seja nem um pouco o que desejo, foi eleito contra a minha vontade e, em respeito à democracia, não podemos fazer com que seja empurrado para as cordas e haja uma quebra da ordem isntitucional. É hora das lideranças conscientes começarem a dizer que é preciso que as manifestações de ruas tenham fim e o país volte à normalidade. Não há solução mágica e só com a democracia funcionado poderemos ter uma representatividade real e as mudanças que desejamos. Continuar indefinidamente protestando e parando as atividades econômicas é um convite ao retrocesso.

quarta-feira, julho 03, 2013

A imprensa que todo governo deseja


Inevitável é tratar das manifestações nas ruas brasileiras, mas, a verdade é que, como qualquer outro fato, num mundo de rápidas transformações e excesso de notícias, até mesmo as manifestações, depois de uma semana, parecem repetitivas e tão velhas quanto às respostas que o governo dá ao movimento. Por isto, procuro aspectos que fujam das visões tradicionais sobre esta onda que percorre as ruas. E, para mim, um deles diz respeito à questão da imprensa e sua atuação inclusive nas manifestações.
Na Veja, desta semana, o ministro das Comunicações, Paulo Bernardo, numa análise lúcida, afirma que não é possível, como desejam inúmeras alas governistas, controlar a informação ou, como dizem, num eufemismo pouco esclarecedor, regular a mídia. É evidente que a mídia, impressa, ou não, tem que formar e informar e, neste sentido, não pode nem deve estar atrelada a nenhum governo. A realidade brasileira é que, por uma questão econômica, e até política, na medida em que a proibição de muitos tipos de publicidade, como de bebidas e cigarros, tornou a sobrevivência delas extremamente dependente de verbas ou benesses governamentais. E, ao contrário do que afirmam os militantes partidários do governo, a mídia é extremamente benevolente com o governo e a Rede Globo, mais ainda, apesar de estigmatizada como protótipo da mídia elitista, concentrada e manipuladora, espécie de oposição sistemática ao governo e representação por excelência dos interesses capitalistas mais empedernidos.
Esta mistificação, a mesma dos discursos de Lula contra elite quando ele é a encarnação da própria elite, foi desmistificada pela atuação da TV Globo nas manifestações de rua. A verdade é que, seguindo à risca seu papel de mantenedora do status quo, a rede omitiu, como sempre fez, os movimentos o quanto pode. Afinal é uma beneficiária direta do governo petista tendo, somente nele, saído de sua situação deficitária, inclusive no exterior, e obtido empréstimos do BNDES, que o governo FHC nunca lhe concedeu. E, observe-se que sou imparcial em relação à Globo, é uma empresa de padrão de qualidade internacional e que se mantém, mesmo com inúmeros projetos contrários, que procuraram desbancá-la através dos tempos, graças à sua incontestável competência. Ocorre que, como é normal, qualquer empresa de mídia, ou não, cuida de seus interesses. E quando é o governo, como acontece no país, o seu maior cliente, sempre irá  preservar os interesses dele. É claro até que a situação afete a sobrevivência da empresa. Foi o que aconteceu: pressionada pelos fatos, pelo clamor das ruas, a Globo cedeu aos ditames da audiência, mas, à contragosto. E, quando passou a cobrir os fatos, deu o show de competência que sempre dá, porém, teve que esconder sua marca pela insatisfação que gerou e por manifestações pouco felizes de alguns de seus contratados.

Acontece que a TV Globo aparece mais como fonte de manipulação da mídia por ser a líder de audiência da televisão, o meio que mais pesa na opinião pública. Mas, a grande realidade é que as outras emissoras não se comportam de modo diferente, com evidentes gradações e maior atrelamento ao governo, ou não. Ao contrário do que desejam os governantes a questão não é de concentração da mídia, nem que haja uma oposição consistente da grande mídia. A questão real é de que as formas de sobrevivência da mídia estão reduzidas ao governo e alguns poucos e grande anunciantes que, em geral, também dependem dele. Como não existe uma oposição real ao governo entre os partidos, a oposição da mídia é também inexistente. A grande realidade é que a mídia, fantasiando um país que não existe, contribuiu para a explosão de descontentamento que tomou as ruas. Mais por colaborar com o governo e difundir sua ideologia do que, efetivamente, por ser contra ele. Agora, o que os governantes gostariam é que nada do que fazem de malfeito seja publicado. Isto somente existe quando não há imprensa ou está é controlada numa ditadura. É o ideal de todo governo ter uma imprensa que só noticie o que interessa. Aí não se tem imprensa, mas, diário oficial. 

terça-feira, junho 18, 2013

As ruas dizem que falta política com P maiúsculo



Analistas reconhecidos como notáveis, e políticos, diante dos protestos que cobrem as ruas brasileiras, confessam, se dizem perplexos com o que está acontecendo e procuram dizer que os protestos são legítimos. Não é lá um primor de ilação, mas, mostra o quão distante se encontram da realidade brasileira. Mas, os cartazes que os populares postavam demonstram o que os políticos não desejam ver: deixaram de representar a imensa maioria das necessidades do País. Tanto fizeram para se manter no poder, sem estruturar seus partidos, enroscados em gabinetes, cercados de seguranças e somente fazendo acordos para se manter que se deslocaram completamente da política que é arte de cuidar dos interesses públicos.
São sintomáticos os cartazes que o povo carregava pelas ruas. Eis alguns exemplos: “O povo unido protesta sem partido”; o povo acordou, o povo decidiu: parem a roubalheira ou paramos o Brasil”; “A, e, i, a Dilma vai cair”; “Era uma casa muito engraçada, não tinha escola, só tinha estádio”; “Isso aqui não é Turquia nem Grécia é o Brasil saindo da inércia”; “Brasil vamos acordar, o professor vale mais que o Neymar”; “Da Copa abrimos mão, queremos é dinheiro para a saúde e educação”; “Quando seu filho ficar doente, leve-o a um estádio”; “Não é Dilma, não é Lula, são todos os políticos” e, o primor dos primores, “Nenhum partido nos representa”.
Esta é a grande realidade da atual política brasileira. De tanto protelar as demandas públicas para apenas se manter no poder, de conchavos em conchavos, de acordos espúrios em acordos espúrios, os políticos, invés de fazer o que se espera da verdadeira  Política, com p maiúsculo mesmo, que diz respeito à arte de governar, ao uso do poder para organizar a sociedade, nas suas diversas instâncias evitando a desordem e organizando a convivência dos diferentes, resolvendo os problemas comuns, se organizaram apenas para usufruir de seus mandatos. Não é, como pensam os anões da política, com p minúsculo, para ser lembrada em períodos de eleições, onde somos obrigados por lei a votar, mas, nós, que somos seres sociais, que só desejamos viver bem, ficamos à margem das decisões e, mesmo quando não concordamos, somos obrigados a nos comportar pelas decisões e ideias dos que participam e fazem esta política porca, menor que está aí e nos inibe de nos realizarmos, por não cuidar do que é essencial para a população. A política de hoje é uma política de pigmeus mentais, que não precisa de elite, pois, abomina os que pensam e dizem que, certas coisas não se pode fazer, que o poder exige ritos e comportamentos.
Nós, cidadãos, a sociedade toda é obrigada a obedecer ao estado, mas, para que esta obediência seja justa e legítima, as pessoas precisam ter o direito de escolher os que julgam ser mais preparados para nos representar, governar e para fazer boas leis. Estas condições, por uma série de razões, não existem. E, quando a sociedade julga que seus governantes não estão administrando bem o estado, ela tem o direito e o dever de reclamar, e esta reclamação também é política. Apenas, quando não se tem, como é o caso atual, instituições que possam representar suas aspirações, se torna, como no presente caso, uma ótima oportunidade para a irracionalidade e para o vandalismo pela forma difusa como se manifesta, embora, é claro, existam grupos que tentam se aproveitar e manipulá-la para seu proveito. O problema de momentos assim é que, de repente, podemos voltar aos tempos em que somente a força bruta poderá restaurar a ordem, mas, empurrando os problemas com a barriga, como nossos políticos tem feito, o impressionante é que, só agora, a gota d’água tenha feito à insatisfação explodir. Agora é tentar buscar uma saída antes que algum aventureiro lance mão de algum esquema janista ou collorido de salvacionismo. Derrubar instituições, criticar os antecessores e o passado é fácil. Difícil é construir uma sociedade justa, responsável e com instituições sólidas. Que o recado nos possa ser útil para retomarmos o caminho da verdadeira política.

domingo, junho 09, 2013

Prelúdio eleitoral


A situação econômica brasileira, com todos os problemas que apresenta, de vez que em recente avaliação da agência de classificação de risco, a Standard&Poor's diminuiu, de neutra para negativa, a perspectiva de nota para a economia brasileira, é boa. Quando falo em boa, na verdade, estou apenas minimizando alguns profetas que falam que “o país está quebrado” que vem por aí uma crise violenta e outras previsões mais nefastas ainda. Não é esta uma probabilidade provável, ainda que possível, pois, tudo é possível, como também não dá para acreditar nas previsões otimistas do ministro Mercadante, que, como membro do governo, vê tudo cor de rosa, afirmando que o Brasil terá “um excelente segundo semestre”, graças ao pacote de investimentos do governo federal com o leilão de extração da camada pré-sal do Campo de Libra, a abertura de portos no Nordeste (depois da aprovação da Medida Provisória dos Portos) e das novas concessões para exploração da iniciativa privada de estradas, ferrovias e aeroportos.
Nem mesmo é crível acreditar no que afirma sobre as contas públicas no Brasil estarem sob controle. Se for correto, para efeito comparativo, citar que a dívida do Brasil equivale a 35% do Produto Interno Bruto (PIB), enquanto em países como Portugal, Estados Unidos e Japão, esta dívida chega a 125% do PIB, somente o partidarismo pode justificar a inverdade de que “O Brasil desendividou o Estado”, como disse Mercadante, quando, nunca antes neste país, se teve uma dívida tão alta (só trocaram a externa pela interna) e, ao contrário dos países citados, nós temos os juros mais altos do mundo e o superávit primário é aplicado, fundamentalmente, na manutenção dos lucros de bancos e rentistas. Com juros mais altos, com o endividamento também alto das famílias e o crédito mais difícil, o inexplicável é que os empregos se mantenham altos, porém, o consumo teria que estacionar como estacionou. Porém, mesmo assim, os números mostram que estamos nos mantendo no mesmo patamar de consumo, às vezes, com uma injeçãozinha governamental de recursos, um pouco mais, um pouco menos.
Na última semana, pela terceira vez, o Boletim Focus, que aponta as previsões do mercado consultando os especialistas financeiros, mostraram que a estimativa dos analistas do mercado recuou de 2,93% para 2,77% em relação ao PIB de 2013 e, para  2014, a previsão de crescimento da economia brasileira caiu de 3,50% para 3,40%. Talvez na semana que se inicia com os resultados ruins do primeiro semestre a estimativa seja menor ainda. Mas, nada que assuste. O pessimismo que ronda alguns setores da indústria se justificam pela falta de medidas mais efetivas para que possam competir com o setor externo e do comércio em razão de que esperavam um crescimento maior que não acontece. Só a agropecuária navega em berço esplêndido alicerçada na venda de soja para a China. A questão real não é o presente onde nos manteremos como temos estado, mas, que não se criam condições para o futuro e sem reformas, sem incentivo ao setor produtivo para novos investimentos continuaremos a ter níveis de crescimento medíocres sem criar o futuro que todos nós desejamos. O pessimismo ou otimismo exagerado sobre o presente é apenas prelúdio da eleição do próximo ano.



sábado, maio 18, 2013

Um gol no último minuto




O Brasil vai ser campeão do mundo. Enfático, possesso, destemperado grito: -Vai! É evidente que, como vidente, estou muito próximo das versões repetidas do governo sobre as elevadas taxas de crescimento, quase todas as vezes que são previstas, estão erradas e é necessário retificar, o que, no meu caso, não me desonra, pois, jamais fiz grandes previsões sobre o que desconheço. E, como economista, me cerco de cuidados e me previno: grito que vai, mas, não digo quando. E esclareço que me incomoda muito um certo derrotismo que paira sobre  o nosso futebol, que desmerece a síntese de um talento nato que já provou, em campo, que temos na desconcertante arte de improvisar nossa mais temível e eficaz arma. Sem modéstia: nós somos bons até para os argentinos babarem.
O futebol é uma invenção inglesa, todavia, queiram ou não, os derrotistas, é o maior e mais profundo componente da alma brasileira, apesar de ter um concorrente negro, seu irmão siamês, o samba, que quase o alcança gingando próximo de sua altura. Antes de existir, como o samba, o futebol já era uma predestinação nacional. E, não por acaso, o retumbante fracasso de 50 prenunciava que, oito anos depois, nós, quando criávamos a base de nosso antropofágico caráter, pela primeira vez, levantamos a taça e criamos orgulho de nós mesmos cantando, e dançando pelas ruas, nossa nacionalidade recém-adquirida. O Brasil se fez Brasil musicalmente comemorando as glórias do futebol e a crença num amanhã luminoso que ainda tarda a chegar. É verdade que um time com Didi, Newton Santos, Garrincha e Pelé estava destinado a ser grande em qualquer país do mundo, no entanto, não é qualquer país que é capaz de produzir gênios assim, heróis assim. Tão acima do comum que, como os heróis de hoje, eram desacreditados. Eles venceram por serem de uma qualidade tão grande, de uma estirpe tão especial, que acreditaram em si mesmo até contra a versão maciça de que eram inferiores. Mas, o passado, a qualidade e as glórias do nosso passado, no futebol ou em qualquer outro setor, não conta na era da falta de memória, da ignorância ativa, do espetáculo e da mediocridade.
No mundo inteiro não há um jogador, um só, com a qualidade, com o talento de Neymar ainda que não tenha a aplicação que deveria de um Zico. Messi? Perdoem-me espanhóis, argentinos e os que não sabem de futebol. Maradona foi o grande jogador argentino. Messi é um talento da burocracia. As loas que cantam do Barcelona, como, agora dos clubes alemães, são as loas da mediocridade. Futebol, futebol mesmo temos nós, brasileiros, e, depois, num ritmo de milonga com a capacidade dos chicaneiros, os argentinos. O resto, bem, o resto produz um talento de vez em quando. Talvez, a África e a China, quando despertarem para o encanto, a surpresa e a delícia do jogo, criem rivais para nós. Ainda hoje não há.
Não contesto que os analfabetos da governança, os risíveis e trágicos cartolas nacionais, conseguiram transformar nossos craques em grupos amontoados em campo, grandes promessas de craques, exaltados sem o devido preparo, presenteados com milhões e elogios indevidos, quando nem se preparam fisicamente, nem aprenderam a chutar direito, viraram peladeiros e recuperaram o complexo de vira-latas, daí, nossos tristes resultados atuais nos campos. Até mesmo Neymar, deslumbrado, não jogou, para olhar o Barcelona passear. Sem aplicação, sem esforço, Pelé jamais seria Pelé. Agora, se, em qualquer parte do país, se pegar um time razoável e fizê-lo aprender e treinar os fundamentos do futebol durante algum tempo, podem, sem receio algum, colocá-los para jogar contra qualquer time do mundo, que eles, com confiança e suando a camisa, farão, como fazia a molecada do Santos alguns anos atrás, quatro ou cinco gols em qualquer time sem perdão.
O futebol brasileiro, para o bem ou para o mal, é o retrato acabado do país. Só revela o imediatismo, a falta de compromisso, a politicagem e o despreparo dos seus dirigentes rebaixando a qualidade do material que deveria produzir sucesso. No futebol isto se revela pelas dispensas mensais dos técnicos, pelas derrotas, pelo baixo desempenho dos jogadores e pelos passes e chutes errados, a falta de gols. Na vida, o futebol de verdade, pela corrupção, pelo desperdício, pela ignorância popular que elege os Silvas iletrados e sem visão de futuro. Tudo igual: perdemos no futebol e na vida por não cuidar do essencial: a administração e os fundamentos.
O Brasil, entretanto, é muito maior que esta mediocridade visível. O Brasil vai ganhar, vai cumprir seu destino de ser, como previa Darcy Ribeiro, a “Nova Roma”. Nosso talento e criatividade é tão grande que vai soterrar a mediocridade. Posso estar errado, porém, intimamente, tenho a certeza de que não estou. Sou um otimista não congênito. Sou um otimista por militância. Sobrevivi a tantos dirigentes ruins que, na vida como no futebol, sou obrigado a acreditar em gol no último minuto. O Brasil vai ser campeão.  

sábado, maio 11, 2013

Sobre a sabedoria da memória ou a benção do esquecimento




Que nós vivemos numa época de excesso de informações ninguém tem muita dúvida. A sucessão de imagens, de slogans, de publicidades e de propagandas que nos perturbam só é menor que a nossa procura incessante de estar à par do novo, de não perder a onda da modernidade, de, enfim, saber do que se passa em todo canto, todo tempo. Lembro que, garoto (claro que no século passado, seus implacáveis) não existia esta volúpia da notícia, o que nos poupava, por exemplo, das páginas sangrentas dos jornais, dos sequestros, dos crimes ou até mesmo de saber que existiam tantos criminosos, em especial, dos cofres públicos. Ladrão era ladrão mesmo, de galinha que fosse, mas, reconhecido na profissão e com, um traço que, hoje, infelizmente se perdeu, de ser uma coisa vergonhosa. O estereotipo do ladrão era sempre o de estar mascarado e carregar consigo um saco para levar as coisas roubadas. Era um tempo de inocência onde, visivelmente, não acontecia nada ou, se acontecia, era devagar, devagar, devagarinho, como recomendou, sabiamente, Martinho da Vila. A vida tinha tempo, estações, processos lentos para acontecer.
Hoje a vida parece acontecer a toda hora. O celular nos localiza e nos faz trabalhar onde quer que estejamos. Os notebooks, smartphones e laptops surgem nos lugares mais inesperados e a intromissão da informação não respeita mais nem os limites dos tribunais, das salas de aulas e dos templos. Aliás, até mesmo a missa, a aula virou um espetáculo onde, se não houver tecnologia, adeus atenção. Por tudo isto a leitura parece algo perdido no passado. Até mesmo para mim, um leitor ávido e empedernido, que lia sem cessar, oito a dez livros por semana, me surpreendo verificando que só leio dois, três e já não faço, como no passado, aquisições de dez, quinze livros em qualquer viagem. É verdade que os livros se tornaram mais acessíveis em nossa própria cidade e sobreveio a facilidade de que chegam via comércio eletrônico, mas, há também, uma substituição da leitura do livro, por leituras homeopáticas, seja do que for, em geral noticias, artigos, e, e-mails ou uma visita ao Facebook e o recebimento de tantos boletins e ofertas eletrônicas, que, vez por outra, são despejados sem o menor constrangimento, quando existe o acumulo de alguns dias sem ler.
Para quem já teve uma biblioteca com mais de cinco mil livros, os mais de quinhentos que ainda possuo hoje, já me parecem excessivos. Informação também, por maiores que sejam as estantes, devem ser acessíveis e, sem uma organização muito bem feita, não o são. Hoje, a moda é utilizar o espaço nos discos rígidos,  ou CDs ou pendrives, que acumulam muito mais com muito menos esforço e mais acessibilidade, mesmo com o risco alto de desaparecer ou, com a substituição da tecnologia, o acesso se tornar muito difícil. Tenho muitas informações em disquete que me parece, agora, algo da Idade Média, e que nem sei como irei recuperar. Ainda a melhor forma de guardar informações é a mente, que, infelizmente, com o tempo, também vai apagando certas coisas, mas, a mente é sábia, possívelmente, esquece totalmente as coisas que devem ser esquecidas. Esquecer, muitas vezes, é uma benção, é muito bom.
Qual o motivo, então, de minha divagação. Bem, é que me perguntaram sobre um livro que li na adolescência de Aluízio Azevedo e, tive que confessar que não lembrava mais do seu enredo, nem o nome dos personagens me vieram à memória. O meu consolo foi lembrar das palavras de Pierre Bayard que declarou “É, antes de tudo, difícil saber com precisão se lemos ou não um livro, pois, a leitura é o lugar do evanescente".  Reli a obra e, ao contrário da lembrança que tinha, não gostei e cheguei à conclusão também que graças ao tempo apagamos muita coisa da memória. E que, muitas vezes, a releitura de uma obra clássica pode ser uma experiência nova, mas, nem sempre se recupera o prazer que nos deu no passado. Esta, por exemplo, me deu a nítida impressão que poderia ficar no esquecimento que não me teria feito falta. Ainda assim, a memória é tão sábia que, possivelmente, daqui a dois meses, não terei a menor lembrança do que li hoje, mas, é claro, isto somente vale para mim. Tenho alguns amigos que tem uma memória fantástica para coisas inúteis, ou seja, a memória de cada um também é sabia para selecionar (e esquecer) o que nos interessa, ou não.

Ilustração:  www.sul21.com.br

sexta-feira, março 29, 2013

A injustiça tributária brasileira





Entre as formas mais injustas de opressão contra a população surge a feita pelo próprio governo contra os seus cidadãos. E o Brasil, neste ponto, se destaca como um dos países mais injustos e cuja população carrega o fardo mais pesado. Embora, por exemplo, se alegue que o imposto de renda no Brasil é baixo, em relação a outros países, o que há no Brasil é uma maior diversificação de impostos e contribuições que somadas se traduzem numa das maiores cargas tributárias do planeta, um absurdo em função do pouco retorno que temos do estado
Impossível melhorar o país sem melhorar a educação-isto todo discurso político nos impinge mesmo que seja para nada fazer a respeito. Mas, educação tem custo e, no País, muito alto. Como ter acesso à educação com uma tributação como a nossa? Se, até contra a Constituição da República, que recomenda a justiça fiscal, se desrespeita, sistematicamente, ao se passar ao largo da capacidade contributiva ou econômica dos cidadãos. No Brasil não são nem os bancos, nem as empresas, nem os ricos que pagam mais impostos e sim os assalariados e os mais pobres. Como um país assim pode melhorar?
Todo mundo louva a eficácia da Receita Federal. E ninguém discute a sua eficiência. Mas, esta eficiência acaba sendo, na verdade, contra o cidadão, contra o contribuinte que não tem como se defender da forma draconiana como é taxado, inclusive, com reiterados esbulhos que passam pela não atualização das tabelas e por fixação de valores de gastos inverossímeis. O que deveria ser despesa de manutenção, custo mesmo de sobrevivência, é taxado sem perdão como renda. A renda do trabalhador é taxada, na fonte, em 7,5%, se ganhar mais de R$ 1.710, 78, porém, o próprio Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística-IBGE, reconhece que é impossível alguém se manter, ou mesmo pensar em economizar, se ganhar menos de R$ 2.100,00, ou seja, na prática, este deveria ser reconhecido como um piso de manutenção da pessoa que impediria qualquer taxação sobre seus salários.
Uma avaliação criteriosa da cobrança de impostos, que não visasse somente a sanha arrecadatória, jamais poderia tolerar que se fixasse, por exemplo, o custo da educação de um filho em escola particular no valor de  R$ 3.091,35 ao ano. Ou a fixação da despesa anual de um dependente (filho, esposa etc.) em apenas R$ 1.974,72. Ou seja,  que o contribuinte gaste, no máximo, R$ 164,56 por mês para manter vivo um dependente. Quem mantém um animal doméstico, que, convenhamos, tem um custo muito menor, certamente, gasta por mês mais do que isto. Em boa hora a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) anunciou que irá questionar no Supremo Tribunal Federal a constitucionalidade de fixação de limites para tais gastos, indispensáveis à dignidade da pessoa humana, e direito de todos os brasileiros. Esperemos que a iniciativa prospere e que se quebre os ridículos tetos para as referidas despesas.  Vale lembrar que Adam Smith, pai da economia moderna, no século XVIII, já definia e considerava essencial o respeito à capacidade contributiva do cidadão que está previsto na Constituição onde se lê, com todas as letras:
“Sempre que possível, os impostos terão caráter pessoal e serão graduados segundo a capacidade econômica do contribuinte, facultado à administração tributária, especialmente para conferir efetividade a esses objetivos, identificar, respeitados os direitos individuais e nos termos da lei, o patrimônio, os rendimentos e as atividades econômicas do contribuinte.”
O respeito a este princípio é essencial para melhorar a qualidade de vida, gerar desenvolvimento e para o que é, realmente, essencial, que é se investir em educação. Mas, no Brasil, os governantes somente leem a palavra “Sempre que possível...”. 

Ilustração: Antônio Cruz/Agência Brasil. 

quinta-feira, março 21, 2013

A ação da Acrecid no microcrédito de Rondônia




O microcrédito é o termo usado para designar uma variedade de empréstimos que se caracteriza pelo pequeno valor emprestado, geralmente, para pessoas de baixa renda e que, usualmente, não têm acesso às formas convencionais de crédito, ou seja, é mais dirigido aos negócios informais. Sua instituição foi iniciada num certo dia em que o  economista e professor  Muhammad Yunus emprestou 27 dólares do seu próprio bolso a cada uma de 42 mulheres da cidade de Jobra, próxima à Universidade onde lecionava, para que estas pudessem adquirir matéria-prima para confeccionar os seus artesanatos, tornando-as assim independentes das garras de agiotas que as mantinham num regime que passou a emprestar pequenas quantias de dinheiro sem cobrar juros a um pequeno grupo familiar, em especial as mulheres que foram 97% dos 6,6 milhões de beneficiários com uma taxa de recuperação é de 98,85%. No Brasil esta experiência foi implantanda no Brasil em 1973, em Recife e Salvador, com a concessão de crédito para o setor informal urbano.  Tratava-se do programa União Nordestina de Assistência a Pequenas Organizações (UNO).  Em 1987, uma outra experiência foi implantada em Porto Alegre pelo Centro de Apoio aos Pequenos Empreendimentos Ana Terra (Ceape), que depois passou a atuar com  12 centros em vários estados brasileiros.
Em Rondônia numa iniciativa que surgiu do SEBRAE/RO, depois de muitos esforços infrutiferos, se conseguiu, com recursos provenientes do Fider (Fundo de Desenvolvimento do Estado de Rondônia), repassados para a Acrecid- Associação de Crédito Cidadão, uma organização não-governamental, criada em 2001, sem fins lucrativos, com a  finalidade de criar o primeiro programa de microcrédito estadual que, até hoje, oferece crédito a pessoas que têm pequenos negócios, em valores entre R$ 300,00 e R$ 10.000,00. A carência é de 30 dias e o empréstimo pode ser pago em até 12 meses.Inicialmente restrito a sua sede, em Porto Velho, e, hoje, principalmente com o apoio do governador Confúcio Moura, a Acrecid se expandiu e, hoje, atende com postos também em Guajara-Mirim, Itapuã do Oeste, Candeias do Jamari, Espigão do Oeste, Cacoal, Pimenta Bueno, Alta Floresta e Rolim de Moura. Existem já outras iniciativas de microcrédito, mas, a da Acrecid, hoje atuando com a bandeira “Banco do Povo” é, sem dúvida, a mais antiga e exitosa experiência em crédito orientado para o pequeno em Rondônia.
É um trabalho que tem gerado imensos frutos. Estes  recursos, ainda que pequenos diante da demanda, asseguraram o sustento de muitas famílias, possibilitando que pessoas simples possam sobreviver com dignidade. Neste ponto, é preciso louvar  trabalho bem feito realizado pelo presidente Manoel Serra e o diretor administrativo financeiro, Anibal Martins Neto, e sua equipe, que já possibilitaram, com controle e acompanhamento individual, a liberação de microcrédito para mais de cinco mil pessoas, com taxa de juros que variam entre 0,5% e 2%, muito abaixo do mercado. E a maior prova é a taxa de inadimplência quase inexistente mesmo com 60% dos empréstimos liberados, em 2012, sendo entre R$ 1 mil e 3 mil reais. Só no decorrer de 2012, para se ter uma ideia, foram liberados 1.146 projetos com um montante de R$ 4.439.807,30 (Quatro milhões, quatrocentos e trinta e nove mil, oitocentos e sete reais e trinta centavos). É um trabalho que merece aplausos e que, por sua qualidade, deve ser incentivado com mais recursos para gerar crédito para as camadas de mais baixa renda.

quinta-feira, fevereiro 28, 2013

A cachaça dança e rola em direção ao futuro




Li na imprensa que, por meio de acordo entre Brasil e Estados Unidos, a cachaça foi reconhecida como uma bebida genuinamente brasileira. Os produtores comemoraram o fato tendo em vista que os norte-americanos tem se tornado, nos últimos anos, um mercado promissor para a bebida, que ganha espaço com a maior participação do país no mundo. O Instituto Brasileiro da Cachaça, o IBRAC (http://www.ibrac.net/), acredita que vendida com seu verdadeiro nome, unicamente de cachaça, as vendas devem ser impulsionadas porque, atualmente, ela é vendida com o nome de Brazilian Rum, de vez que o rum também é feito com cana de açúcar, o que não permite diferenciar os dois destilados. Com o reconhecimento todo destilado com o nome cachaça no rótulo será brasileiro. Ou seja, é bem possível, que se acrescente aos símbolos brasileiros, além do futebol, do samba e da música, a cachaça, que deve passar a ser internacionalmente mais um ícone da nossa cultura.
É preciso acentuar que, até mesmo internamente, faz tempo que a cachaça deixou de ter a imagem negativa que se associava aos produtos de baixa qualidade e preço baixo, embora ainda continue a existir este tipo de produção, mas, a grande realidade tem sido o avanço das denominadas cachaças premium que são, cada vez mais, exemplos de sofisticação e de esmero na produção tanto que as melhores, que nada deixam a desejar em relação a qualquer outro destilado, são envelhecidas em bálsamo, uma madeira especial e que acabam também custando um preço mais elevado tendo em vista o tempo de envelhecimento. Talvez o melhor exemplo deste tipo de produção, ou as marcas mais badaladas, são a Havana e Anísio Santiago. Cachaças desta qualidade custam até mais do que os bons uísques estrangeiros, porém, existe uma infinidade de cachaças de boa qualidade com preços também que variam com a qualidade, a fama e o tempo de envelhecimento. Assim como o vinho, a cachaça tem que ser estudada para ser bem conhecida e existem bons especialistas no tema. Para quem quiser saber mais a respeito sugiro um sites especializados no tema, como o http://www.mapadacachaca.com.br/ ou www.cachacariameninaboca.com.br, que trazem informações sobre a bebida de pessoas que estudam, gostam e vendem a bebida. Quem pesquisar um pouco na internet descobrirá até mesmo rankings da bebida feitos por especialistas. E verá que floresce também um mercado seleto que é o das cachaças artesanais.
A cachaça levou muito tempo para se tornar uma bebida respeitável, pois, é uma bebida antiga, com mais de 400 anos, e que somente agora, mesmo sendo responsável por 80% da produção de destilados do país, a capacidade de produção, segundo o IBRAC, é de 1,2 bilhão de litros, com mais de 4 mil marcas sendo fabricadas por mais de 40.000 produtores e, embora, a produção seja espalhada pelo país afora são os estados de São Paulo, Pernambuco, Minas Gerais, Ceará e Paraíba que possuem um maior destaque em termos de mercado. E, tenham certeza, não é papo de bar, embora somente 1% da produção seja exportada, a cachaça brasileira tende a ser um destilado que ainda terá muito destaque no mundo. Muitos especialistas apostam que será a bebida que terá maior crescimento nas primeiras décadas do século XXI. Só falta ser tema de carnaval.

sexta-feira, fevereiro 15, 2013

O desperdício de nosso melhor caminho




Hoje, que já ultrapassamos a primeira década do século XXI, criou-se, cada vez maior consciência, de que cidades que possuem universidades tendem a ter um diferencial significativo para gera mão de obra qualificada e ambiente urbano favorável a diversidade econômica e cultural que permite a proliferação e a acolhida de novas ideias. É, como se costuma dizer, um local que tende a ser a estufa do que chamamos de economia criativa, nome que se criou para as atividades econômicas que envolvem as artes, publicidade, cinema, vídeos, moda e até a criação de software e aplicativos para internet. Muitas cidades, no mundo atual, estão atraindo investimentos e conseguindo se desenvolver graças ao aproveitamento deste tipo de vantagem. O Rio de Janeiro, talvez, seja, no Brasil, o melhor exemplo, em especial pela implantação de 7 parques tecnológicos, 20 centros de pesquisa e 22 incubadoras o que, pode não ser uma garantia de inovação, mas, não resta dúvida, que, pelo princípio da quantidade, deve gerar frutos, principalmente, se aliarmos a isto a atração que já exercem as belezas naturais e o ambiente boêmio da cidade maravilhosa.
O Rio é o Rio. Mas, quem disse que apenas o Rio pode ter uma economia criativa? Afinal, se olharmos em volta veremos que Porto Velho, onde, fora a Fundação Universidade Federal de Rondônia-UNIR e o Instituto Federal de Educação Ciência e Tecnologia de Rondônia-IFRO, proliferam mais de uma dezena de faculdades que, em geral, possuem, no mínimo, cinco cursos (com a oferta de três cursos de Medicina), já dispõe de um número extraordinário de mais de 15 mil alunos e, mesmo com suas deficiências de infraestrutura, tem todo o potencial para basear na economia criativa uma estratégia para o seu desenvolvimento futuro. Porto Velho, por mais problemas que tenha, possui uma história de cosmopolitismo que lhe habilita a ter o ambiente necessário para reter talentos, bem, até por sua economia incipiente e sem excelência nos serviços, ser um campo fértil para empreendedores e para o desenvolvimento de inovação. É, com um bom planejamento, por vocação, uma cidade comercial e de serviços que tem tudo para ser uma economia criativa.
E sempre surgem iniciativas de empreendedorismo voltado para este campo que são bem sucedidas. Alguns já se tornaram uma tradição como a Banda do Vai Quem Quer, o Arraial Flor do Maracujá, um projeto como o da versão local do “Sempre um Papo”, os Stand Ups ou o Festcine Amazônia que, em 2013, completou seu décimo primeiro ano de edição, porém, iniciativas novas aparecem toda hora. Não faltam pessoas criativas na capital do Estado de Rondônia, como comprovam as iniciativas do SESC, da Fundação Iaripuna, com o Mercado Cultural sendo o centro de um movimento que só não floresceu mais pela falta de apoio. No escuro da insensibilidade pública muitos grupos de intelectuais jovens demonstram exuberância criativa seja no vídeo, na pintura, na literatura, na música ou mesmo nas artes cênicas ainda que nosso teatro continue a ser uma promessa em andamento. É bem verdade que Porto Velho é até conhecida como a cidade do “Já teve” por ter tido, no passado, muitas coisas melhores, mas, ainda temos muitos talentos desconhecidos criando na escuridão.
O que nos falta? Infelizmente são políticas públicas. Há muito discurso sobre o que se vai fazer...porém, nossa economia criativa, que deveria ser a locomotiva do progresso, continua estagnada num novelo de iniciativas que se acumulam sem gerar a riqueza de oportunidades que deveria. Ainda falta a determinação de aproveitar o filão da economia criativa que esta aí, pulsante, diamante bruto, a esperar que a vontade de um governante iluminado faça seu nome criando beleza, bem estar, prazer e progresso. Quem se habilita? 

Ilustração: www.bahiamercantil.co