Total de visualizações de página

terça-feira, setembro 28, 2021

NADA SERÁ COMO ANTES: O ENTERRO DO MITO

 


O capitalismo, integrando países e fluxos mundiais de comércio, tecnologia e investimentos, melhorou, de forma sustentada, os padrões de vida de diferentes regiões, nos últimos quinhentos anos. A boa observação demonstra que a maior pobreza e as maiores misérias se encontram em regiões não tocadas pelas políticas que os adversários classificam, hoje, de neoliberais. Nem vou discutir que neoliberalismo é uma falácia, mas, de nada adianta a razão contra os que vociferam contra o capitalismo até porque, na prática, costumam acusar de neoliberal quem defende as ideias econômicas ortodoxas e que se comprovaram como socialmente válidas para melhorar a vida das pessoas. Risível é que acusam o capitalismo também, de gerador de crises, como se as crises não fossem inerentes a todos os tempos e épocas, como também se proclama a incapacidade dos mercados de se auto-regularem, e, portanto, da necessidade do Estado para corrigir os desvios do mercado mediante medidas de controle. Ora, bons estudiosos não desconhecem que os ciclos ascendentes, ou descendentes, constituem algumas das características mais interessantes e desejáveis de uma economia de mercado.  É fruto da tensão constante entre os desejos humanos infinitos e as possibilidades limitadas do imediato aumento da oferta. Também, se analisam, descobrem que, na origem, de muitas das crises, como a do Sub Prime de 2008 ou mesmo na do Brasil recente, estão políticas públicas heterodoxas, que estimularam, entre outras coisas, a conivência espúria entre o estado e o setor privado. Deveria ser um consenso-não fosse a ideologia- que os mercados são mais facilmente capazes de se auto-corrigirem do que via os governos: afinal distribuem com rapidez ganhos e perdas, realizando num breve espaço de tempo os lucros (ou prejuízos) dos investimentos (bons ou maus) efetuados. Tudo que se faz, via governo, porém precisa enfrentar o calvário do debate legislativo (nos regimes democráticos). O processo, é verdade, pode ser feito por decreto executivo, porém, em geral, autoritário, sem transparência, mais arbitrário e sujeito ao jogo da corrupção. A grande vantagem relativa dos mercados é a capacidade de mudar rapidamente, o que governos levam anos para fazer. Não sem dor, é claro, mas de forma menos arbitrária. A grande ironia do momento é que a China, em geral, citada como exemplo de que a direção estatal impede as crises se encontra imersa na crise da  falência da Evergrande, sua maior empresa de construção civil,  que gerou pânico nos mercado por excesso de dívidas. O governo da China, que se comporta como qualquer governo do mundo,  somente se preocupa em evitar protestos e tomar medidas que evitem ou minimizem um efeito cascata em compradores de imóveis e na economia. A crise, num país que, supostamente, controla tudo é mais grave porque, dada a falta de transparência, nem mesmo se sabe o seu tamanho. E, ironicamente, nas economias coletivas, onde sempre acontecem pela falta de mercadorias e serviços, no caso atual provém do excesso- de dívidas e de construções. E, pasmem, estimuladas pelo governo chinês. Nada será como antes, depois desta crise, na medida em que a China parece, por fim,  enterrar o mito de que as crises não acontecem em economias estatais.

sábado, agosto 28, 2021

A REPETIÇÃO INOVADORA DE UMA VELHA HISTÓRIA

 


O mundo nunca foi justo. Quando mais jovem acreditei na utopia de que a nossa geração, os nascidos na segunda metade do século XX, poderiam transformar o mundo num lugar de maior justiça social. Era um sonho das pessoas jovens e, grande parte de melhor formação da sociedade brasileira, muitos dos quais se embeberam de Marx, Engels, Gramsci, Marcuse e Jean Paul Sartre, que se apresentava como o intelectual engajado com  as causas sociais, acreditavam na capacidade de fazer mudanças rápidas. Havia a crença, pouco justificada cientificamente, de que seríamos capazes de mudar as condições sociais pela atuação dos intelectuais e pela conscientização dos trabalhadores. Olhando para trás não há como não sorrir da nossa ingenuidade. O conceito de classe social marxista em que nos baseamos-só os cegos pela ideologia-não conseguiram ver que se dissolveu pela realidade. Marx, que no fim da vida não era mais marxista-possivelmente torceria o nariz para uma infinidade de intelectuais que se dizem marxistas por repetir chavões sem nenhuma correlação com a realidade moderna. E olhe que Marx, apesar de seu indiscutível talento, depois de arrasar intelectualmente Bakunin ouviu dele a sua sentença definitiva quando confessou, com humildade, que não tinha condições de discutir com ele, mas, que, em compensação, Marx “não entendia nada da natureza humana”. Aliás, ele passou a vida inteira, praticamente, sem conseguir manter sua própria vida, o que, no mínimo, é constrangedor para quem se julgava capaz de tudo explicar. Há uma imensa quantidade de imitadores atuais-até mesmo sem saber. Principalmente jovens que não arrumam a própria cama, não se sustentam, não possuem formação intelectual, muitas vezes, nem exerceram qualquer tipo de trabalho, mas, se propõem a mudar o mundo. São os próprios homens que classificam os outros de mocinhos, bandidos, santos, medíocres, bons, ruins. Em geral, sem ter nem consciência da régua que usam para medir os outros e, menos ainda de que a história da humanidade tem sido uma história de vencidos e vencedores. Que o que fez o mundo avançar mais do que a educação foi o desejo de poder. E domar o egoísmo, o desejo de dominar, de poder dos homens é um processo, infelizmente, muito lento. É muito fácil julgar o passado e queimar, sem nenhum senso de ridículo e de falta de civilidade, a estátua de Borba Gato como se ele tivesse sido apenas um exterminador de índios, mas, a grande realidade é que a natureza humana mudou muito pouco, embora revestida de mantos mais elegantes. Esta aí, explodindo em nossos rostos, o problema do Afeganistão, que, no fundo, não é diferente das guerras de conquistas do passado (os escravos é que mudam). Nem do ambiente esfumaçado e obscuro do Brasil onde uma pandemia exacerbou a luta pelo poder sem nenhum respeito ao sofrimento dos mais pobres. E me espanta ver que pessoas que pensam que pensam tomar partido numa luta que só tem como vítima a população brasileira. Talvez, de vez que o mundo não mudou na sua essência, o que tem de novo na antropofagia brasileira é que os limites da capacidade de analisar estão totalmente perdidos e a nossa dita elite se comporta com o apetite dos conquistadores antigos. Enfim, a ferocidade do passado não desapareceu. Agora desfila impune no palco político, no Facebook, no Whatsapp, na vida real com  a naturalidade com que os índios andavam nus e comiam os inimigos antes e durante os séculos iniciais da colonização.

Ilustração: http://revoluciomnibus.com/. 

 

domingo, agosto 01, 2021

A IMPRENSA BATEU NO ICEBERG DA VIRALIZAÇÃO


 

Que nós vivemos tempos em que se repetem os pensamentos, as notícias e as imagens sem análise não se trata de novidade nenhuma. O que mais me impressiona, porém, é a completa falta de noção que passou a dominar as redações dos denominados órgãos de imprensa, a grande imprensa em especial, as agências de notícias e os portais que dominam a veiculação das notícias. É comum, repetindo as palavras de Millôr Fernandes de que “Imprensa é oposição, o resto é secos e molhados”, que os jornalistas sejam oposição ao governo (embora a moda tenha se acentuado, agora, pois, passaram anos aplaudindo governos anteriores), porém, o que se pede de quem escreve para o público é, no mínimo, que procure, mesmo colocando sua posição, analisar os fatos e não ser explicitamente contra e, fortemente, partidário. Até aparece, e aqui não digo que não possa ter algum conteúdo de verdade, como chamada para um artigo a citação de que “em um ano, Bolsonaro emitiu mais de 1,6 afirmações falsas ou enganosas”. Convenhamos que o presidente pode, de fato, ter mentido, mas, a base para isto provém de onde? A resposta é de que vem de uma pouco conhecida entidade denominada de Artigo 19, aliás, que criou um Relatório Global de Expressão. Nada contra organizações assim, mas, em geral, apesar de possuírem pessoas com espirito público e, muitas, capacitadas, são direcionadas por um viés que é nitidamente anti-bolsonarista. Na maioria das vezes são pessoas ligadas às causas de direitos humanos, de defesa de minorias, do politicamente correto, ou seja, é quase como analisar o presidente sob a ótica dos lulistas! Também é preciso ver que grande parte da população não tem o menor interesse no que Bolsonaro diz ou deixa de dizer. Bem, mas, esta não é a questão, no fim, pois até mesmo a agência de notícias do governo federal quando anuncia os resultados de indicadores o que faz? Ressalta o aumento da inflação, quando, efetivamente, a notícia mais relevante é a de que o Produto Interno Bruto-PIB, a soma de tudo que se produz em bens e serviços no país, na previsão do mercado financeiro aumentou!!! Esta aí o nó da questão. A imprensa trata de assuntos de menor importância e é uma difusora permanente de más notícias. Todo dia reprisa o número de mortos, mas, não dá nenhuma atenção ao fato de que o país vacina quase três vezes mais, hoje, do que os Estados Unidos. Não dá a mínima para uma recuperação visível da economia que é o que interessa para nós, pobres mortais, que precisamos de renda para sobreviver. Que isto atue contra o governo Bolsonaro é ruim. Sob o ponto de vista econômico é péssimo por não contribuir para a estabilidade e a previsibilidade, contudo, este é um problema de Bolsonaro. O que me incomoda é que, como alguém que gosta de redação e da imprensa, é que as redações pareçam dominadas por robôs. Até parece que o que importa é ser contra, o que basta é criar polêmica, fazer a notícia ter ar de sensacionalismo-algo antes execrado no jornalismo marrom. Até os termos que usam são amadoristas. Nos estimulam a ver o que “viralizou”. Meu Deus! Viralizar não é ser importante, notável nem mesmo fundamental. É, nas mídias sociais, o que dá mais citações, mais likes! Penso que o jornalismo perde totalmente sua importância quando se pauta pelas redes sociais. Vira, efetivamente, um prisioneiro dos robôs e dos algoritmos. É de ser perguntar: para que manter pessoas nas redações se tudo está padronizado? Se não há bons jornalistas fazendo a escolha e a análise das matérias; se as notícias, as visões e as fotos são as mesmas, então, não é de espantar que os ouvintes/leitores estejam migrando para as redes sociais. A imprensa desta forma está se tornando irrelevante e, o que é mais grave, sendo vista, cada vez mais, como menos confiável.

Ilustração: Em alta.

 

segunda-feira, junho 07, 2021

O sol voltará a brilhar


A grande verdade- e isto se observa com o hiato entre os políticos e os seus representados, bem como pelo papel indigno da grande imprensa no momento atual- é que as pessoas sentem que os sistemas, que davam um direcionamento ao mundo, falharam. Quem, por exemplo, se sente representado por um Renan ou um Aziz? Quem concorda, por exemplo, com este movimento torpe contra a Copa América? E esta decepção se torna pior por vir acompanhada da percepção de que somos impotentes para mudá-los ou, pelo menos, consertá-los. Qual o significado que isto pode ter? Respostas irracionais como caos, autodestruição e desespero, quando, no curto prazo, não há respostas. Reclama-se, no Brasil, da vacina contra o coronavírus (até com a enganadora conversa de que se custou a comprar uma promessa), mas, se ignora que, certamente, fora de nosso país, que tomou as providências cabíveis, não haverá vacina para todos os que precisam, e querem. Não é uma questão de falta de tecnologia, nem de capacidade para atender- assim como não é a questão dos alimentos-é uma questão de poder e, isto é o que não se diz-poder somente muda com educação e informação-duas coisas que os donos do poder não desejam ver democratizadas. Quem sabe, quem tem informação, compreende que o comportamento vergonhoso da mídia nacional em relação ao governo nada tem de interesse público ou defesa de bandeiras. É só levantar a quem pertencem os conglomerados de mídia- famílias milionárias e políticos- para verificar que as políticas públicas atuais não atendem seus caixas nem seus interesses. Será que interessa saber que o governo Bolsonaro fez mais por saneamento e água limpa do que todos os outros deste século? Não. Não é de se esperar que as crianças brasileiras sejam prioridade para receber educação, comida decente, saneamento, água limpa e oportunidade de futuro. É de se esperar sim que surjam na imprensa as acusações de fascismo, de fanatismo contra milhões que vão as ruas em busca de um mundo melhor. Não se vê a imprensa cobrando (nem os políticos) que se faça um plano de emergência para a educação para extinguir a falta de escolaridade entre nós depois de dois anos, praticamente, sem escola. Embora se use os pobres, como Lula da Silva usou sem freios, ninguém se preocupa com eles. Bolsonaro é o maior exemplo da falência do sistema. Sua eleição, contra tudo que esta aí, e sua popularidade crescente, vem de que o sistema fraturou, quebrou. As pessoas não sonham com a irrealidade de um mundo igual para todos, mas, desejam o mínimo possível como renda, comida, remédios e liberdade. E tiveram suas rendas e vidas impactadas por medidas restritivas de suas liberdades e direitos. As camadas mais pobres (e que menos falam) foram as mais atingidas e sabem sim quem são os responsáveis por suas vidas terem sido atingidas brutalmente. Não precisam de CPIs para isto.  Agora, e as informações que circulam pelas redes sociais permitem isto-já não estão submetidas as versões únicas, que ainda tentam se impor e impor o retorno ao passado. Não há volta. Não que os Marinhos, os Jereissatis, os Collors, os Liras, os Gomes, os Magalhães vão deixar de ter poder, porém, não poderão mais impor suas vontades, como sempre fizeram. Atravessamos sim, uma época negra, escura mesmo, no entanto, há raios de sol no meio da escuridão. O Brasil é maior do que este sistema prá lá de medíocre e, contra todos os que torcem pelo quanto pior melhor, haveremos de ter tempos melhores. Os primeiros sinais de luz já são visíveis.

Ilustração: Segredo. 


quinta-feira, junho 03, 2021

O ATRASO VESTIDO DE PROGRESSISTA

 


O atraso sempre foi uma característica brasileira. E, convenhamos, não há nada demais em ser atrasado, quando sempre se foi assim. A questão, agora, talvez seja, que, com as mudanças do mundo, os atrasados se vestiram de progressistas e desejam que todo mundo pense igual a eles. Aliás, nem é pensar que não pensam, mas, sim que todos pensem igual a eles, que  não pensam. Estou quase mudando de opinião sobre a frase de efeito, muito boa e impactante por sinal, de Humberto Eco que escreveu “As redes sociais deram voz a uma multidão de imbecis”. No meu modo de entender isto jamais foi uma verdade. O que as redes sociais fazem é difundir a mediocridade, o que não é nada demais. Afinal é o resultado médio da sociedade. É, para o bem ou para o mal, o retrato momentâneo da educação e do nível do povo. Claro que macaco não olha para o rabo e, por isto, há uma disputa enorme por pregar no outro lado o que faz parte de ambos os lados: a intolerância, os fake news, a necessidade de culpar o outro e ganhar a discussão. Daí os tempos obscuros que vivemos: o tempo que deveria ser gasto em melhorar, em buscar conhecimentos, em aprender se escoa em discussões inúteis onde se procura vencer o outros com os argumentos notáveis do copia e cola. Até na discussão o pensamento é colonizado. Há, no momento, uma polarização do século passado, um comportamento do século passado que se encontra em voga como se não houvessem passados décadas da queda do Muro de Berlim. Embora ninguém saiba mais ao certo o que é esquerda  ou direita. Só Caetano Veloso é capaz de explicar, mas, dizendo que a esquerda é uma utopia que, na realidade, sempre foi catastrófica, mesmo assim nos exigem que voltemos ao passado e escolhamos um lado. Obrigatoriamente desejam que nos aliemos a um lado. Os notáveis não pensadores modernos não nos permitem viver sem ser engajados. Como se a vida não fosse muito mais que a política que, aliás, imemorialmente, sempre foi um lado ruim, podre mesmo da vida. Por que tenho de ter posições políticas? Quem me obriga a isto? Nasci num país onde o estado continua a ser pesado, uma cruz difícil de carregar, um fardo para o cidadão. Já tive lados e, na minha idade, aprendi, a duras penas, que se ganha- se querem usar o passado- a máquina do governo com a esquerda, porém, se governa com a direita. Foi assim com o burguês Lula da Silva, o operário dos ternos, vinhos e charutos de elite, está sendo assim com o impensável Bolsonaro, será assim com qualquer outro que vier. E, pior ainda, se pegarmos o rumo da Argentina. É risível que os progressistas brasileiros, os que se dizem progressistas, defendam mais governo, critiquem privatização, defendam o descalabro das contas públicas, aplaudam a bagunça das regras, como se desenvolvimento não fosse mais respeito as normas. Como se democracia não fosse respeitar a opinião dos outros. É o atraso, vestido de progresso, que, por exemplo, critica Juliana Paes por ter opinião e não embarcar, cegamente, como fazem muitos, na base de Maria vai com as outras, em que é indispensável criticar o governo por não ser de esquerda. Todo governo é de direita. Progresso é procurar formas de impedir que os governos interfiram tanto nas nossas vidas. O grande atraso da esquerda brasileira é que continua no século passado, apesar de usar mídias sociais, computadores e celulares. Perdeu o bonde do tempo se apropriando de tudo que era possível até dos panelaços, que viraram sons de panelinhas. Bolsonaro, apesar deles, pelo menos, aponta para a futuro, para  a direção certa, precisamos é de mais liberdade, empreendedorismo e educação.

segunda-feira, maio 24, 2021

O EXPERIMENTO SEM FUTURO DOS APRENDIZES DE FEITIÇEIRO

 


Os tempos atuais são tempos muito difíceis em razão de que a verdade e o bom senso estão sendo jogados na lata de lixo sem o menor escrúpulo. É evidente que há dois bandos de alucinados disputando espaço na mídia com a única (e incoerente) ambição de tentar convencer os outros de qualquer forma de sua verdade. São, mais ou menos, como os crentes que insistem em querer fazer os agnósticos serem salvos pela força de sua insistência, rezas e discursos repetidos. O grande problema, de todas as coisas deste tipo, é que, apesar do baixo nível de educação, as pessoas costumam fazer o que lhes dá na cabeça e seguir os líderes que queiram. Seja alguém preparado, ou não; com capacidade, ou não, de resolver os problemas; com propensão, ou não, para estadista; falastrão, ou não. A questão é que, contra os quereres de uma parte do que se pensa a inteligência nacional, o povo embicou para o outro lado. E para tentar mudar o rumo da disparada parece que estão usando de tudo que é possível. Acontece que a manipulação só se torna possível quando tem traços de realidade. Os exemplos são claros, e não me proponho a participar desta disputa tresloucada de versões, porém, é indiscutível que a mídia e as pesquisas, por exemplo, estão muito longe de exercer o seu papel que seria de refletir e analisar a realidade. A mídia é um caso muito mais complexo por sua composição multidiferenciada, mas, no seu todo, somente tem tido um papel vergonhoso de difundir a versão que lhe interessa de todos os fatos. A atenção dada a fatos irrelevantes, mas, espetaculares, sob o ponto de vista de tentar reforçar seus interesses, tem nos proporcionado a elevação de personagens de terceira ou quarta classe ao centro do palco quando nem mereciam estar sob as luzes. São escolhas que tornam a grande imprensa, principalmente, cada vez mais irrelevante na medida em que se dissocia da realidade e dos interesses de seus leitores. Há um enorme negacionismo em quem acusa os outros de negacionista, pois, insistem, em negar a realidade dos fatos. Basta ver, nos exemplos recentes de pesquisas de opinião, que se deixou de lado as pesquisas, no sentido de buscar, efetivamente, a opinião pública para uma versão socialmente nefasta de escolher amostras seletivamente, de modo que não se procura mais verificar o que o público pensa, mas, determinar sua opinião. Ou seja, deixaram de ser pesquisas para serem ferramentas de tentativas de formar a opinião pública. O filósofo Habermas já dizia que “Não pode haver intelectuais se não há leitores”. Agora, se pretende fazer eleição sem eleitores e líderes sem votos contra uma população que deseja comércio aberto, renda, empregos e liberdade. E, mais do que isto, aprendeu que ao povoar as ruas faz diferença. É um experimento de manipulação que não tem como dar certo.

domingo, maio 02, 2021

A TRAGÉDIA DA VACINA

 


A Covid é uma catástrofe? Claro que é quando se vê o que acontece  na Índia, no Peru, na África do Sul e no México, talvez, na  Argentina ou na Indonésia. Não no Brasil, como artificialmente se propaga, embora a questão seja grave, mas, dentro dos limites esperados. Sim a Covid está se tornando uma tragédia global, uma catástrofe de proporções imensas. E também é verdade que todos os países estão despreparados para epidemias similares. É a amarga verdade. Não sabemos os chineses-onde não há nenhuma transparência- mas a catástrofe que o mundo está sofrendo com a covid mostra que o mundo ocidental é muito mais despreparado e desigual do que se pensava. São os mais pobres as grandes vitimas de toda esta tragédia seja em que país for. E, em muitos deles, a falta de preparo, em especial político, acrescentou aos problemas da doença o peso das medidas restritivas que aumentaram enormemente a pobreza. Também, não se pode esconder a realidade- é que os países mais pobres não tem como obter vacinas. E, sem vacinas, é previsível que venham uma segunda e uma terceira onda. É o que ocorre na Índia, por exemplo, ou no México. Estes países, seus governos, podem ter cometidos muitos erros, porém, há uma realidade inescapável, que é a de que nenhum governante é Deus. Não podem; ninguém sabe como impedir a morte. E a epidemia leva uma quantidade previsível de pessoas, independente das medidas tomadas, dependendo das condições e do sucesso de políticas públicas, o que depende também do grau de educação da população. E, em casos como o do México, com centros populacionais muito densos, o vírus tende a se espalhar com mais rapidez. No entanto, há um fator mais danoso ainda: os países mais pobres não tem como obter vacinas. Por quê? Aqui entra em cena os interesses financeiros dos países mais desenvolvidos que, certamente, causarão milhões de mortes. É de conhecimento público que  o Canadá e os Estados Unidos bloquearam as renúncias de direitos de drogas na OMC para as vacinas do covid. Isto limita a muito a produção que, se o código fosse aberto, poderiam ser produzidas em muitos locais. De fato entregaram quase um monopólio para o Serum Institute of India, um grande produtor que pode abastecer cerca de metade do globo, ou seja, algo como 4 bilhões de pessoas. Há toda uma história complicada em torno disto, mas, o fato é que metade do mundo espera vacinas de  um instituto na Índia. É de espantar que não existam vacinas suficientes? Grande parte dos contratos que foram feitos, no mundo inteiro, são promessas de vacinas. E, com no estágio em que se encontra a Índia, que não tem doses nem para eles mesmo, o que se pode esperar? A verdadeira tragédia é que, se não há vacinas suficientes, se deve ao bloqueio do acesso às patentes de vacinas na OMC, que, em nome das grandes empresas farmacêuticas, criou a escassez de vacinas. Onde o bom velhinho Joe Biden ou Justin Trudeau e tantos outros “bons” dirigentes entram nisto? Estes bons homens sabem do que acontece e fazem de conta que não é problema deles. Talvez por egoísmo, que aliás pode custar caro com um mundo tão interconectado, mas, nada fazem para vacinar o mundo, que seria a atitude decente a ser feita. Afinal quanto mais tempo se leva mais são as chances de novas variantes, novas mutações, que se espalharão, o que poderá tornar a pandemia incontrolável. Falam sempre mal do capitalismo. Mas, o capitalismo é feito pelos homens. Não foi o capitalismo que privatizou um bem público. Em outras palavras, os países pobres estão pagando pelas vacinas preços muito mais altos do que os ricos e, muito mais ainda, em termos de vida. As vacinas, originalmente, foram bens públicos, criados para serem compartilhados, porém, agora o mundo não está recebendo vacinas porque transformaram a pandemia num negócio. E, não se enganem, esta situação é fruto de um conluio de governantes de países desenvolvidos com os detentores de grandes fortunas. Não se enganem há muitas fortunas sendo feitas com o infortúnio de milhões de pessoas. E aqui, no Brasil, estas vergonhosas medidas restritivas são também provenientes de interesses políticos e financeiros escusos. A tragédia do coronavírus não veio sozinha. 

Ilustração: Guia do Estudante. 

sábado, março 06, 2021

EM BUSCA DE NOVOS CAMINHOS PARA O JORNALISMO IMPRESCINDÍVEL

Apesar de considerar o jornalismo um meio imprescindível para a sociedade, nos últimos tempos, devo dizer que a imprensa tem sido lastimável. Em especial a grande imprensa tanto a escrita, quanto a televisada e até mesmo a de mídias sociais. Tem se prestado mais para a desinformação no que se faz sobre a pandemia com a adoção incondicional do lado antissocial e ditatorial do lockdown sem que, a rigor, existam justificações plausíveis para isto. São evidentes as concessões do jornalismo aos interesses econômicos, políticos e, até mesmo, falseando ou omitindo o evidente descontentamento das pessoas com as medidas públicas contra as restrições às suas atividades econômicas e suas liberdades. No Brasil, principalmente,  são feitas matérias vergonhosas e sem fundamento  sem o menor pudor. E a imprensa escrita, quem mais perdeu poder, perde também a oportunidade de buscar novos caminhos para seu negócio, de tentar um novo formato que lhe dê sustentabilidade. E isto é muito possível. O comprova, recentemente, o caso da jornalista Sinead Boucher, que, em plena a crise, virou, no ano passado, dona de jornal Stuff, na Nova Zelândia, que, para desespero dos que falam sobre os preços das privatizações, comprou o jornal por apenas US$ 1 dólar, valor simbólico. É. Uma empresa que possuía uma tradição com mais de 400 funcionários como não equilibrava as contas foi entregue de mão beijada para sua dirigente. Só governos que aguentam prejuízos em empresas. Empresários se livram de qualquer forma do que dói no bolso. Boucher afirmou que comprou a empresa porque “era melhor do que não fazer nada”. Com uma equipe que aceitou fazer um corte de 15% nos salários partiu para lançar um programa de contribuições dos leitores, fez um pedido de desculpas pela cobertura histórica em relação a minorias e, surpreendentemente, para quem precisava desesperadamente de recursos, abriu mão do tráfego e da receita gerada pelo Facebook (o jornal tinha na plataforma quase 1 milhão de seguidores, e mais 134 mil no Instagram). A razão principal foi porque o Facebook transmitiu ao vivo um ataque terrorista a uma mesquita na cidade neozelandesa de Christchurch. O Stuff considerou “profundamente insatisfatória” a resposta da gigante digital ao caso que chocou o mundo e desistiu de apoiar a plataforma que fez exposição pública da violência. Para Boucher, o mais importante é levar informação de qualidade e confiável em especial para as populações mais pobres. Também reconhece que o Stuff é privilegiado e pode fazer esta experiência por estar num país pequeno e  contar com uma forte presença digital, o que permitiu seu sucesso ao sair do Facebook, todavia, encorajou outros meios de comunicação a deixar as plataformas, pois, os prejuízos podem ser menores do que parecem à primeira vista. Segundo ela, os ganhos são muito maiores porque essas plataformas gigantes impõem suas normas e quando não se depende delas se ganha um enorme apoio do público, maior confiança e a equipe de redação fica muito mais feliz por não estar mais sendo submetida às restrições indisciplinadas, por exemplo, do Facebook. Pode ser até que a experiência não seja repetível, porém, é ousada e demonstra que é possível para o jornalismo se manter com boa qualidade mesmo nesses tempos onde parece só subsistir o jornalismo de repetição e copia e cola. Quem sabe não surjam novos exemplos de busca do jornalismo imprescindível, o que busca informar, analisar e mostrar os lados da questão para que o leitor tire suas próprias conclusões.

 


domingo, fevereiro 28, 2021

UM CAMPEONATO IRREGULAR

 


Acabou o campeonato brasileiro com o Flamengo, na última rodada, se sagrando campeão. Mereceu o título? Há os que vão dizer que não, porém, a verdade é que mereceu sim. Não foi o Flamengo do ano passado que fez 90 pontos ficando, com muita folga, na frente do segundo colocado porque, é forçoso dizer, não contou com duas coisas fundamentais: 1) um elenco melhor e 2) o apoio da torcida. O que não se conta da grande diferença em relação ao ano passado é que Jorge Jesus teve o apoio da torcida do Flamengo no Maracanã e fora dele. E isto faz sim muita diferença. Também saíram peças fundamentais do time Pablo Mari e Rafinha fizeram uma falta enorme. No gol também a falta da presença de Diego Alves, peça fundamental no ano passado, foi sentida e muitos dos jogadores, que foram estrelas de 2019, estiveram bem abaixo do seu potencial por problemas, entre os quais contusões. Este campeonato caiu no colo do Flamengo num final cinematográfico. Rogério Ceni, um ícone do São Paulo, precisava ganhar de seu time de carreira e do coração para ser campeão. E perdeu, mas, ganhou o campeonato. Foi, de fato, um filme de final infeliz que, contra a vontade do diretor e do roteirista, na última hora, para ter bilheteria, o dono dos estúdios transformou num final feliz. Estava, porém, escrito nas profecias perdidas de Nostradamus que seria assim sofrido, suado, penoso até o último minuto. Ceni veio para o Flamengo como uma solução barata e salvadora. E se diz que é teimoso e turrão. Deve-se dizer também que tem muita sorte, o que é essencial para obter grandes vitórias. Ao contrário de Jesus ele não teve como contratar ninguém. Não conseguiu fazer o que fez no Fortaleza, por exemplo, que montou um time do seu jeito. Mas, não se pode negar, que, apesar dos tropeços, montou um time que joga para a frente e é competitivo. Reclamam que ele quer ensinar os jogadores a chutar, mas, desde Zico não se sabe mais mesmo chutar direito. Ceni fez o melhor que podia com um time ao qual faltam peças essenciais. E num campeonato muito mais difícil. Seja pela pandemia, seja pela falta das torcidas, seja por todos os times estarem num nível muito próximo, seja porque este campeonato não teve um time que fosse regular. O Internacional andou perto, mas, faltava ao time de Abel o poder de decisão que o Flamengo tem. O Flamengo teve um saldo de gols menor que o Internacional, mas, teve um ataque mais positivo e uma vitória e uma derrota a mais. Um ponto de diferença e se fosse igual a vitória valeria mais. Se o Inter teve conjunto por mais tempo faltaarm gols essenciais na reta final. Quem poderia merecer mais do que o Flamengo? Não o Atlético Mineiro, muito irregular também, nem o São Paulo, que, em certo momento, parecia o campeão. Faltou, porém, ao time de Diniz o que Ceni conseguiu: fazer o time atacar com uma defesa forte. O Palmeiras, que teve quase a defesa menos vazada (37), um a menos que o grande destaque como difícil de levar gols, o Atlético Paranaense, também se caracterizou por uma temporada muito irregular por circunstâncias que não cabe discutir. Há a questão do VAR muitos alegarão. Melhor dizer: vá tomar banho. O problema é que complicaram as regras e os juízes são fracos. Erraram para todos os lados. Mesmo assim foi um grande campeonato. E o Flamengo foi campeão, com todos os méritos, quando derrotou o Internacional.

sábado, fevereiro 06, 2021

A NOTÍCIA COM MAIS OPINIÃO FAZ 16 ANOS

 


Certamente no Brasil, e na Amazônia, uma empresa sobreviver, ultrapassar os cinco anos, é uma raridade. Basta ver as estatísticas de mortalidade que mostram que, no mínimo, 60% delas fecham até o terceiro ano. E, mesmo quando ultrapassam os cinco, muitas não chegam aos dez anos. Então, uma empresa chegar aos dezesseis anos em Rondônia, de fato, merece comemoração. Ainda mais num ramo tão complicado quanto é, mais do que nunca, o das comunicações. Refiro-me, é evidente, aos 16 anos do site “Gente de Opinião”, um site de notícias que surgiu, a partir da visão de que a verdade tem muitas facetas, depende muito do olhar, da história de quem analisa. Assim, o site nasceu com o objetivo de dar espaço a todas as visões, praticar o que, para muitos, é o verdadeiro jornalismo: fornecer um leque de opiniões, de análises. Na verdade, não sei muito de sua fundação. A proliferação de sites de notícias é um fenômeno que mereceria uma pesquisa no nosso Estado, talvez oriunda de que, por suas particularidades, depois que a imprensa impressa se desmanchou houve, como que, um enorme vazio de notícias locais (o que, em todos os municípios ainda hoje ocorre). Houve, e ainda há, porque somos pautados pelo lado econômico, a ausência de uma forma de ganhar dinheiro com a notícia. Esvaziaram-se as redações, morreram as reportagens de ruas, e, por assim dizer, o importante trabalho de repórter. De fato, os repórteres, no sentido antigo, de farejadores da notícia, morreram. De um lado porque, com o alto custo de manter uma redação, não se mantém mais repórteres. De outro porque, efetivamente, a notícia, o furo, a antecipação quase não é mais possível por conta da internet (o que não é verdade, mas, é a versão que venceu). Este fato ampliou a importância da análise, de vez que as notícias foram pasteurizadas, são quase as mesmas em todos os locais, o que dá a sensação de em qualquer canto que se for as notícias são provenientes da mesma fonte. Uma das razões do sucesso do Gente de Opinião, fora seus bons colunistas, seus vídeos de qualidade, sua diversidade, é ter ocupado este espaço de ser uma tribuna da liberdade. Não é à-toa que se conserva, ganha prêmios e confiabilidade. De fato, o Gente de Opinião torna a notícia, os fatos, o que eles de fato são, uma visão possível do que acontece que deve ser interpretada por quem lê. É um mérito que vem desd’o tempo que conheci o site, com o Paulinho Correa, de saudosa memória, nem sabia que o Chico Lemos, que conhecia mais como um técnico competente, nem o Luka Ribeiro, que sempre foi um mestre do vídeo, e foi quem carregaria o piano pelo tempo afora, também participavam de sua criação. Isto, hoje, é coisa do passado. O presente são estes 16 anos que confirmam o sucesso de um site destinado a ter uma presença marcante no nosso Estado. Parabéns aos que fizeram, e fazem, o Gente de Opinião. Que continue sua trajetória de ser um farol de análises e de visões sobre Rondônia e o Brasil.

 

segunda-feira, janeiro 18, 2021

MIREM-SE NO EXEMPLO DO RIVER PLATE

 


Meus amigos, estava escrito nas tábuas mais imemoriais que o Palmeiras chegaria na final da Libertadores mesmo sendo um castigo para um time, como o River Plate, que, sem dúvida, é o time mais consistente da América do Sul. Só isto explica que tenha levado três gols dentro de casa e, fora, não tenha revertido o placar. Havia uma predestinação implacável sobre uma equipe que jogou para honrar o bom futebol buscando o gol sempre. E, na única vez que deu oportunidade, teve o azar de tudo dar errado. O técnico do Palmeiras, que parece repetir a sorte de Jorge Jesus, a sorte dos técnicos portugueses, não teve a coragem de um Diniz de mandar o time para cima para fazer 4 ou 5 no primeiro jogo. O resultado é que pagou com um imenso sofrimento,  no segundo jogo, onde o River Plate foi absoluto. Comandou o jogo mesmo quando tinha um a menos como se estivesse passeando em campo. E o Palmeiras teve a sorte de, o que tem sido raro, em três oportunidades o VAR decidir com uma precisão impecável. Na anulação do gol, sinceramente, só mesmo a revisão de imagem poderia pegar o impedimento que houve. Qualquer juiz, por melhor que fosse, poderia comer mosca sem nenhum constrangimento. O certo é que o time de Gallardo mostrou que faz o que se espera que um grande time faça: tenha personalidade, jogue para frente, desejando ganhar, com gana e vontade. A rigor o River Plate perdeu duas Libertadores por puro azar. A que perdeu para o Flamengo, onde também dominou amplamente, porém, foi castigado por dois lampejos de talento do time rubro-negro e a eliminação de ontem, sem a menor dúvida, uma grande injustiça com um time que, perdendo ou ganhando, demonstra ter força, ter um jogo coletivo, ser um grande time. É verdade que isto não acontece por acaso Que Marcelo Gallardo é um grande técnico é uma realidade, mas, deve-se levar em conta que comanda o River Plate faz muito tempo. Mesmo perdendo jogadores, como acontece com todos os grandes times sul-americanos, tem tido como remontar sua equipe e criou um estilo de jogo consistente e agressivo. Em nenhum momento, nos dois jogos, o time perdeu seu foco, deixou de jogar, de propor jogo, de procurar o gol. Aqui o nosso reconhecimento à qualidade incontestável do River Plate, mas, também a um outro grande técnico português: Jesualdo Ferreira, que disse, com toda razão, que, no Brasil, os técnicos não preparam equipes. Eles precisam entregar resultados antes de ter tempo para criar um  time. Nós, por esta razão, não temos, no cenário brasileiro, um grande time, que jogue coletivamente. Aliás, técnicos, como um Lisca, como um Mancini, como um Guto Ferreira, Diniz, Tiago Nunes, e até mesmo Rogèrio Ceni são muito capazes, no entanto, precisam de tempo para trabalhar. E tempo é o que não se dá para que montem uma equipe. Fez muito bem o Abel quando foi abraçar Gallardo. Tirou o chapéu para um técnico competente que teve tempo para montar um grande time. E é impossível, para quem entende e gosta de futebol, não gostar de ver o River Plate jogar. Que possamos nos espelhar no seu exemplo e poder ver, como tivemos oportunidade de ver, um grande time jogando. É preciso mudar o comportamento das direções dos times brasileiros e dar tempo aos técnicos de montar equipes. Perder ou ganhar é uma questão de acaso. Criar um grande time, como o River Plate, é uma decisão de rumo e de planejamento.

 

quinta-feira, novembro 26, 2020

DARWIN E A CONSPIRAÇÃO DO SILÊNCIO

 


Bem a velhice não é um tema muito interessante. Lembro que, jovem, recém desperto para o mundo, olhava para meu pai, na época um “velho” de 50 anos, e pensava o que ainda desejaria da vida. Mas, de fato, nesta idade, ele já se comportava como um senhor vetusto, como uma pessoa que tinha a obrigação de ser severo, de ser um farol para os seus pares e família. Talvez, por isto, apesar de meu amor por ele, e reconhecer que foi muito mais inteligente e talentoso do que sou, jamais quis ser exemplo ou farol de coisa alguma. Apesar de ser um professor, por convicção, não criei, como vejo muitos outros fazerem, discípulos. Sempre trabalhei imaginando que as pessoas devem pensar por si próprias. Quem sabe se errei muito por isto? Mas, me consolo por ver que, muitos, hoje, estão bem distantes do que desejaria, porém, pelas cabeças deles mesmo (por mais que pense que as cabeças deles são ruins!). Não quero me distanciar, porém, da questão da velhice. Ultrapassei daquela época do meu pai, em muito, na idade e, hoje, ainda olho para frente, até mesmo pensando que velho mesmo são os que possuem dez anos a mais do que eu! Embora reconheça, como o fez Simone de Beavouir que existe uma conspiração de silêncio sobre a velhice. É claro que isto é uma atitude social ocidental cristã. A questão do envelhecimento não é igual em todas as culturas. Até entre os índios há os que, por tradição, matam, por rituais, os velhos, bem como os que os conservam como guardiões da oralidade, autoridades morais e detentores do conhecimento. Entre nós, hoje, com os meios digitais, são as crianças que detém o conhecimento e riem de nós, dinossauros, ignorantes de sistemas operacionais. Mas, entre muitos índios, a morte prematura de seus anciões, como acontece hoje com o coronavírus, desorienta essas populações que ficam sem seus guias. Há, no meio científico, contudo, o embasamento a favor da velhice. Por exemplo, o neuropsicólogo russo Elkhonon Goldberg, no seu livro livro “O Paradoxo da Sabedoria (2005)” afirma que a sabedoria é uma forma de processamento mental muito avançada, de forma que somente se consegue com o tempo e que somente atinge seu auge apenas na velhice- diz ele  que justo  quando a capacidade do cérebro começa a diminuir. Este processo aparentemente contraditório é a base de sua tese que, por sinal, me parece muito correta. Para Goldberg a sabedoria dos mais velhos permite se ter a capacidade de “saber” a solução de problemas complicados ou inesperados de forma instantânea, sem esforço mental, bem com a capacidade de prever eventos que pegam as pessoas desprevenidas. Bom, aqui tenho minhas dúvidas, embora tenha visto isto em alguns velhos (mais em velhas, na verdade). Mas, me ocorreu que fizeram um escarcéu sobre a morte violenta de uma pessoa de cor no supermercado, enquanto a morte de milhares de velhos não teve muita importância. Não tive como não lembrar de Simone e de sua conspiração do silêncio acerca da velhice. Com a pandemia parece que ela foi quebrada, de vez que o que mais se ouviu foi que “O vírus só mata os idosos”. É como se dissessem que só morrem os que tem que morrer. É um sinal claro dos tempos. Numa humanidade estilhaçada pela falsa moral, pelo coitadismo e pelo politicamente correto somente merecem atenção as grandes generalizações e o que rende manchetes, como fumaça na Amazônia, racismo, a discussão inútil de autoridades sobre a vacina, tolas afirmações sobre a China ou as fofocas requentadas de Obama. A morte dos velhos, de milhões de velhos, só afeta as famílias. Só contam como mais vítimas para as estatísticas que são usadas para criticar as autoridades. Darwin, mais do que nunca, diria que nada mais natural: os mais frágeis estão mesmo destinados a desaparecer. Porém, se fosse assim, os homens não existiriam mais. 

 


segunda-feira, novembro 02, 2020

AS LIÇÕES DE UM MESTRE

 


O ex-técnico do Santos, Jesualdo Ferreira, sem dúvida um grande técnico, um ser humano educado e competente, em entrevista ao Globo Esporte, demonstra toda sua sabedoria quando, mesmo tendo sido injustamente dispensado, mostra que não guarda mágoas de sua recente passagem pelo Brasil e usa seu espaço para demonstrar como aprendeu e o quanto nós estamos desorganizados e atrasados, em termos de organização do futebol. Com razão ele diz que, apesar de suas qualidades, é incerto o sucesso do futuro técnico do Palmeiras, Abel Ferreira, e explicou: “Sei que, nos próximos quatro meses, o Palmeiras tem mais de 20 jogos, e aí é um grande problema no Brasil: não há tempo para se trabalhar. Trabalhar não é só falar, dizer coisas boas ou ruins. Para organizar uma equipe, você tem que falar, formar e treinar. Se não fizer isso, não consegue”, daí, o treinador português ter dito que “O tempo é muito curto porque os torcedores e a imprensa são muito exigentes. Têm muita paixão, gostam muito de futebol, e querem ganhar se possível para ontem, o que é impossível”. Ele também, com a experiência que teve no Santos, reconhece que o campeonato brasileiro é o mais difícil do mundo, dada a maratona que os clubes são submetidos e por  não possuírem a organização que deveriam ter, nem há condições dos treinadores executarem seu trabalho, pois, não há tempo e as pressões vem de todo lado. Por isto não hesita em dizer que “O futebol brasileiro questiona o que se passa com os treinadores brasileiros e o motivo de o futebol aqui não ir para frente. Mas ninguém pergunta o que o futebol precisa fazer na sua organização para os treinadores terem sucesso no Brasil. O que tem que fazer? Há uma pandemia que para o futebol por quatro meses e volta tudo do mesmo jeito, sem se adaptar o calendário? Não há igual”.  O que ele não quis dizer-por delicadeza e não se pensar que estava magoado- é que o futebol brasileiro é um exemplo de desorganização. Basta ver a situação de grandes times, como o do Cruzeiro, do Santos, do Vasco e até mesmo do próprio Flamengo, que melhorou muito sua administração, mas, ainda sofre com problemas extra campo. Afinal, como lembra Jesualdo, para se trabalhar bem, para se criar uma equipe, não basta reunir os jogadores, que são seres humanos, e dar instruções e treinos. É preciso também se ter uma boa retaguarda, que inclui uma situação financeira estável, acompanhamento médico e psicológico, bem como uma tabela bem feita que faça um balanceamento dos jogos. Assim, muitas vezes, o sucesso de um treinador é menos dependente de sua capacidade do que das condições que encontra. Sabiamente, por conseguinte, pede que para Abel Ferreira ter sucesso que tenha apoio. O sucesso de um treinador é o sucesso de um clube, de um time, mas, diretoria, imprensa e torcedores não podem se comportar, da forma como se comportam, querendo resultados em cinco, seis jogos. Nenhum treinador, mesmo que se chame de Jesus, faz milagres. O sucesso de qualquer equipe, no futebol e em qualquer esporte, é um trabalho empresarial. O que se faz fora do campo reflete dentro. Não é possível, por exemplo, os jogadores terem bom desempenho, quando, ao menor erro, são cobrados como se fossem criminosos. É preciso organizar o futebol no médio e longo prazo. E aprender que ganhar e perder faz parte de qualquer esporte.

 

sábado, outubro 24, 2020

A LIBERDADE DE EXPRESSÃO E SUAS NUANCES

 

Sem dúvida muitas coisas no mundo mudaram para melhor. Apesar de todo o clamor que as reclamações por justiça e por igualdade reverberam, no entanto, é preciso verificar que se baseia, em geral, numa tese falsa: a de que o capitalismo não melhorou as condições mundiais. Muitas coisas melhoraram muito, inclusive a liberdade de expressão. Basta ver que, com as redes sociais, se mobiliza a população, sobretudo jovens, para contestar formas de autoritarismo e até mesmo as práticas da  administração pública até em nações onde a imprensa não é livre. Mas, é preciso deixar claro também que, algumas coisas, como o poder não mudaram. Ao contrário os poderosos se tornaram mais poderosos ainda. Neste sentido, é preciso ter a visão do que, de fato, é atentado à liberdade de expressão e o que não é. Uma resposta dura de um dirigente contra uma pergunta impertinente, mal educada e até grosseira de um repórter (muitas vezes despreparado ou mal intencionado) não é um ataque à liberdade de expressão, por exemplo. É um ataque existir uma política de buscar atingir os órgãos e os jornalistas de oposição. Mas, também aqui, isto não significa, como hoje, muitas vezes, se procura impingir que o governo tenha obrigação de sustentar empresas que o atacam. Assim, é possível que, de fato, muitas vezes, quando se reclama de ameaças à liberdade de expressão, acabe se fazendo o jogo de quem deseja apenas continuar vivendo de verbas públicas. A liberdade de expressão está em risco no Brasil? Não. Aumentou o risco da liberdade de expressão nos últimos tempos no país? Não. Algo similar ocorre nos EUA onde não é o fato de Trump não gostar de responder a perguntas ou não receber alguns jornalistas que põe a liberdade de expressão em risco. No Brasil e nos Estados Unidos é um fato que nunca se teve tanta liberdade de expressão. Nos dois países, com certeza, a liberdade de expressão é tão livre que se fala muita coisa que não se deve, ou seja, até abusam (e muito) dela.Aliás, os politicamente corretos, como muitos outros que se revestem de ovelhas em sua defesa, desejariam mesmo era cercear tanto a imprensa, quanto a mídia social. Estranho é que a organização não-governamental londrina “Article 19” acaba de lançar o documento “Global Expression Report 2019/2020”  que, segundo sua diretora-executiva Quinn McKew, traz “resultados preocupantes” afirmando que “a deterioração do direito de falar e saber gerou uma atmosfera de medo e desconfiança, com jornalistas e ativistas em todo o mundo sob risco de perseguição, detenção arbitrária, tortura e assassinato”. Receio que o documento reflita mais certa “visão” do que a realidade, pois, classifica a China, Índia, Turquia, Rússia, Bangladesh e Irã como “em crise”. Até aí tudo bem, embora, convenhamos, faltam outros países onde é notória a completa falta de liberdade de expressão, mas, afirmar que países como os Estados Unidos e Brasil apresentam “declínios acentuados” de liberdade de expressão é, no mínimo, um erro metodológico enorme ou, o que pode ser muito pior, um viés da forma como o estudo foi feito. Há partes do documento que são bem feitas, mas, algumas afirmações me parecem totalmente infundadas para respaldar os resultados como as de que a crise da saúde é também a crise da liberdade de expressão, ou que, nos EUA, aumentou as respostas negativas a pedidos de informação, bem como que os governos locais e estaduais restringiram o acesso da imprensa a eventos públicos. Ora, convenhamos, jornais não são neutros. Se atacam os governos, e normalmente o fazem, a própria Ong reconhece, a reação é normal. Também chega a ser risível a afirmação de que o Departamento de Justiça continuou a perseguir o fundador do WikiLeaks, Julian Assange, nos termos da Lei de Espionagem e buscar sua extradição do Reino Unido. Como também dizer, ou sugerir, que o acirramento, a polarização das mídias sociais, seja um sintoma de problemas de liberdade de expressão, quando reflete o maior interesse por política, se bem que exposto com a falta de educação vigente. Ou que o presidente Bolsonaro fez pessoalmente dez ataques a jornalistas por mês! Ele bateu em alguém? Prendeu algum? Impediu de dizer o que pensa? Bem, como um esforço para verificar o estado da liberdade de expressão, o documento tem seus indiscutíveis méritos, mas, a meu ver, deveria ter pessoas de diferentes visões para analisar seus dados. Não posso assegurar que a minha visão seja melhor, mas, para dizer que a liberdade de expressão “está declinando” falta, pelo menos, ao documento um referencial temporal e uma análise mais teórica do que seja “liberdade de expressão”, embora sobrem indicadores dela. Para quem desejar ler o documento o acesso é possível no link https://www.article19.org/wp-content/uploads/2020/10/GxR2019-20report.pdf.

Ilustração: http://jornalheiros.blogspot.com/.

segunda-feira, outubro 19, 2020

A ECONOMIA COMPORTAMENTAL, O MIX DE ECONOMIA COM PSICOLOGIA

 


É verdade que, desde Keynes, os progressos na economia tem sido feitos, fundamentalmente, por agregação. São, de fato, por assim dizer, incrementais, sem tocar nos grandes fundamentos do estado da arte. No entanto, não se pode deixar também de acentuar que alguns novos desenvolvimentos são muito interessantes. Não tanto sob o aspecto econométrico, que tem sido acentuado mais pelo desenvolvimento da inteligência artificial, porém, do que denominamos de economia comportamental, a união, quase heterodoxa da psicologia e da economia que se consolidou, de forma inesperada, com, em 2002, o Prêmio Nobel de Economia para o psicólogo Daniel Kahneman, que, por sua obra, e determinação, fez mais do qualquer outro para criar o campo da economia comportamental. Mas, o que é economia comportamental? Uma definição possível é a de que seja o campo da economia que usa a psicologia com a finalidade de entender o comportamento e os processos de decisão de consumo dos agentes econômicos.

Para melhor esclarecer é preciso dizer que o comportamento é a forma como as pessoas reagem aos estímulos internos ou externos. Todas as decisões que tomamos, inclusive as econômicas, estão sujeitas à influência de fatores emocionais, culturais, cognitivos e psicológicos.  Na economia tradicional o comportamento dos agentes econômicos, como empresas, profissionais da área e o governo, possui o pressuposto da racionalidade, enquanto que a economia comportamental cria um contraponto à isto, sugerindo, ao acrescentar alguns fatores cognitivos e emocionais na tomada de decisões econômicas, que elas não são tão racionais como se pensa. Embora, verdade seja dita, esta vertente econômica se baseie no modelo tradicional "neoclássico", ao introduzir à psicologia se demonstra que, por exemplo, se trata de forma diferente a possibilidade de uma perda da possibilidade de um ganho ou que a forma como se oferta um produto pode influir no seu consumo.  Nem todos concordam com isto, pois, por exemplo, Nick Chater, psicólogo da Warwick Business School , é um crítico da abordagem da economia comportamental por entender que "O cérebro é a coisa mais racional do universo", embora complemente que "mas a maneira como resolve problemas é ad hoc e muito local." Ou seja, na sua visão formular leis gerais do comportamento humano pode não ser um caminho muito bom. O que não impede que a Economia comportamental seja uma das ideias mais quentes, inclusive em políticas públicas. Até o governo britânico usa a disciplina para melhorar suas políticas públicas e mesmo a Casa Branca criou sua própria equipe de insights comportamentais. De qualquer forma compreender a psique do consumidor e a irracionalidade da tomada de decisão humana parece ter um caminho promissor. E muitos governos, organizações e empresas estão utilizando seus princípios para criar  produtos ou serviços vencedores, inclusive também como meio para testar no mercado novas soluções.

Ilustração: https://i.pinimg.com/.

sexta-feira, outubro 09, 2020

O Importante não é a rosa, é o escândalo

 

Com os avanços da internet, da comunicação on-line, da instantaneidade estamos, cada vez mais, expostos à eliminação das barreiras, das paredes, das distâncias e se torna também muito mais difícil a privacidade, a linha entre o público e o privado, entre o certo e o errado, o aberto e o fechado. Também quase que nos obriga a tomar decisões com pressa, a decidir sem refletir, a tomar partido em causas que não precisamos participar, a agir, e com rapidez, porque as pessoas esperam, mais do que esperam, nos coagem por respostas. Sou dos que fogem desta loucura moderna. Muitas vezes, desligo o celular e o micro e deixo que o mundo corra sem precisar de minhas intervenções (que, aliás, penso que pesam menos a cada dia). O problema é que, muitas vezes, o meu isolamento, que se dá porque me basto, incomoda. Posso viver lendo, escrevendo ou apenas dormindo e bebendo um vinho sem grandes problemas, o que deve preocupar os outros. Já recebi até o elogio de ser anti-social, porém, a verdade é que se preciso do amor e das amizades, também preciso, às vezes, me isolar para poder compensar os desgastes ou me equilibrar quando não estou num dia bom. O inferno pode não ser os outros-como pensava Sartre-mas, também pode ser

E, muitas vezes, é num mundo onde tudo parece causar indignação. Quando vejo as movimentações, os comentários, as participações das pessoas nas mídias sociais, parece sempre ser a indignação que os move, os orienta. Parece que todo mundo está preocupado com o que é ofensivo ou injusto e se porta como o reparador das dores, que amplifica indignação e, não raro, deseja, através de sua voz, transformá-la num escândalo. E tudo se simplifica, se torna raso, infantil até se transmudar em um like ou um emoji raivoso. A comunicação via mídias sociais é uma conversa de surdos e, com razão ou sem, somente os próprios iniciadores se consideram o juiz do mundo até o ponto de, por exemplo, expulsar o outro de seu espaço, bloquear o próximo por não concordar com suas opiniões. Não há mesmo espaço, nem gentileza, para entender as razões do outro ou buscar mudar de opinião. No mundo da indignação somos envolvidos pela rapidez e o importante é a participação. É se render ao uso da nossa voz como irado contra o escândalo de alguém, pois, só atendendo à velocidade exigente do ciberespaço, onde todo mundo fala tudo  ao mesmo tempo, todo mundo precisa mostrar sua ira, cada vez mais forte, cada vez  mais boiada, para transformar o ultraje num escândalo.  De fato, as redes sociais é um espaço selvagem. É o espaço do grito dos sem voz. Dos inconformados sem razão, de vez que também, cada vez mais, não há diferença entre o que é relevante, ou não, do que deve ser prioridade ou relevado. Tudo nos causa indignação, um pequeno incidente ou uma grande injustiça. Porque nas redes sociais a reação imediata, estridente  e multiplicada iguala tudo.  Já não se protesta contra algo em específico, contra alguma coisa significativa. Se protesta por protestar (e há sempre motivos para o protesto) ainda mais quando o que importa é a rapidez com que manifestamos o desacordo. É o grito virtual, primeiro e forte que nos define e traz like e aprovações. Tenho saudades das passeatas, das marchas onde gritávamos slogans que tinham sentido, que buscavam soluções, manifestavam um desejo declarado de mudanças. Agora não se precisa de reflexão, nem motivos, nem de ter soluções. O que se precisa é de ter uma plateia que concorde que o importante é um grande escândalo. O importante não é o discurso, a reflexão, a mudança, a coerência ou a rosa. O importante é o tamanho do escândalo.

terça-feira, setembro 15, 2020

FLUTUANDO A FAVOR DO VENTO

 


Confesso que sou uma pessoa muito medrosa. Diria que até mesmo, como uma pessoa que tenta pensar, procura pensar, alguém que tem mais medos do que o normal, na medida em que se preocupa mais, estuda mais os diversos ângulos dos perigos. E perigos há muitos que a vida é uma aventura perigosa por mais tranquilo que seja você e por mais paz que deseje na vida. Aqui lembro, imensamente de meu pai, que repetia um bordão para nos incitar a sermos corajosos “Ou mato ou morro! Ou me escondo no mato ou escalo o morro!”. Aliás, dele há uma poesia que lembra muito o significado do heroísmo, cujos os versos, numa linguagem antiga, são reveladores: “No sucavão da glória! No sucavão da glória, eu vi as cuecas do herói”. Esta rememoração provém de que, como os chineses, meu pai dizia que “briga não é um comportamento de pessoas civilizadas” e aconselhava a correr delas, todavia, como os chineses,  recomendava que entre “eu” e “você” não existe alternativa, ou seja, nas situações extremas não é uma questão mais de ter medo, é uma questão de sobrevivência . Pensava nisto, com a morte de alguns amigos, de um grande amigo, em particular, o Carlinhos Toledo, com esta epidemia do vírus, do novo coronavírus. Quando o inimigo é imponderável e nos rouba coisas preciosas, como compartilhar a convivência, beber e rir juntos, abraçar uma pessoa querida, um amigo, não se tem também alternativas. Nestes meses de isolamento, com as restrições que ainda temos, mesmo que relaxadas, tivemos que relaxar o desejo tão acalentado de retomar a velha forma de vida, que continua a ser apenas um desejo. Por mais que queiramos, parece improvável que se possa usar o mundo, lá de fora, como no passado: a magia das saídas noturnas, dos bares, do futebol, dos jantares, da curtição do espaço público, do ar livre, de passear entre outras pessoas, por mais tentador que seja, é um risco, um grande risco. E, olhando para os que se foram, não há como não pensar na nossa vulnerabilidade, pensar que hoje estamos aqui, mas, tudo é tão rápido, tão fluído, tão frágil que, amanhã se foi, que nem teremos mais consciência da luz, da cor, da beleza do calor do qual tanto reclamamos e até da fumaça que nos faz respirar pior. Sei que já me perdi neste mar de pensamentos bobos- e a bobagem também faz parte da humanidade. Mas, é que, de qualquer modo, o isolamento me lembrou de uma verdade óbvia: não preciso nem sair de casa, nem  ficar imerso na televisão ou na internet, para me divertir. Voltei ao velho hábito de ler muito, que, com os whatssaps, os Facebooks, e-mails e sites tinha negligenciado. Adquiri, novamente, o velho hábito de beber vinho, duas taças, meia garrafa, no máximo, com sorvete e até me deixei ficar mais na cama, sem ter o que fazer, só pelo prazer de me espreguiçar, de curtir o prazer de não fazer nada. Esqueço o micro desligado, o celular e até as horas. Nada mais de me ligar no noticiário (excessivo nas notícias ruins), nem no econômico. Até arranjei uns mantras para meditação. E só busco falar, fazer coisas que me dão prazer, e bem devagar. E escrevo. Escrevo muito. Escrever, no entanto, é uma forma de prazer. E a vida? A vida está mais leve. É bom flutuar nela como uma pena ao vento. E lá vamos nós!

 

Ilustração: http://faceafaceblog.blogspot.com/.

 

 

segunda-feira, setembro 07, 2020

DINHEIRO EM ESPÉCIE NO BRASIL ESTÁ EM EXTINÇÃO?

 


Não somente porque meu celular pegou um vírus, mas, também por estar de férias, tenho dado um tempo para ler, ouvir música, ficar fora do mundo digital, de forma que não tenho dado muita atenção as mensagens, inclusive do Whatsapp. Então só agora vi, que o jornalista Lúcio Albuquerque me enviou uma provocação, com uma notícia do “Expressão Rondônia” sob o título “Projeto de Lei quer acabar com o dinheiro em espécie no Brasil” e me pergunta “Amigo, o que você pensa disso?”. Com certeza seria para alguma matéria dele, mas, depois de seis dias não tem mais como servir para ele, mas, me serviu para pensar um pouco sobre o tema. É uma ideia disparatada? Não. Inclusive não seria de imediato, mas, no prazo de cinco anos. Não seria o fim do dinheiro, mas, a adoção da moeda digital. Isto não é nem uma ideia nova. Já, em 1999, Milton Friedman, economista e ganhador do prêmio Nobel, um conhecido liberal, afirmava: “A internet será uma das principais forças para reduzir o papel dos governos. A única coisa que está faltando, mas, que será desenvolvida em breve, é um dinheiro eletrônico confiável”. Embutido aí se encontra o fim do dinheiro físico e a ideia, defendida não somente por ele, de que a moeda deveria ser uma instituição privada, num regime concorrencial e que as pessoas poderiam escolher que moeda usar. Hoje, a moeda que Friedman esperava que fosse feita já existe: o Bitcoin, que é privada e permite que as pessoas façam transações entre si sem interferência de ninguém. Mas, o Bitcoin é apenas a ponta do iceberg de uma mudança completa na forma que usaremos o dinheiro, pois, acreditem existem mais de 2.000 moedas criptodigitais querendo substituir as outras e o dinheiro, fora outros tipos de experiência. É minha convicção de que o dinheiro vai ganhar novos formatos, terá diferentes emissores e circulará livre pela internet como, hoje, se manda mensagens ou textos. Penso que, nos próximos anos, teremos um aplicativo no celular que será uma carteira digital onde guardaremos os diferentes tipos de dinheiro ou ativos digitais. Isto é o futuro. E agora é possível prescindir do dinheiro físico no Brasil? Se olharmos para outros países mais adiantados, por exemplo, a Suécia, mais de 80% de suas transações não são mais físicas e se estima que, em 2023, não haverá mais circulação de cédula física. Na China, outro exemplo de progresso do digital, os aplicativos, praticamente, acabaram com a circulação de papel moeda. Dois aplicativos, juntos, o WeChat e o AliPay, no 1º trimestre de 2019, transacionavam quase 8 trilhões de dólares. Estimava-se que mais de 85% da população chinesa faziam seus pagamentos por celular. Então, se no Brasil temos 231,6 milhões de celulares, o dinheiro em espécie deve estar em extinção, não é claro? A meu ver sim, mas, devagar com o andor. Recentemente lançaram a nota de R$ 200,00. Qual a razão? Com a liberação do auxílio emergencial, segundo o Banco Central detectou, aumentou o uso do dinheiro físico. A razão, aqui, o pensamento é próprio, se deve a que as camadas de mais baixa renda preferem, o que está ligado inclusive à questão de segurança e de escolaridade, o dinheiro físico. Assim, é verdade que o dinheiro físico está em extinção no Brasil, mas, deve demorar ainda muito mais do que as pessoas pensam. Moedas digitais exigem informação, daí, representam mais liberdade e mais responsabilidade, o que requer também mais educação. E educação, principalmente, financeira leva tempo.

 

terça-feira, agosto 25, 2020

O BODE EXPIATÓRIO TÁ OFF

 

Neymar perdeu para o Bayern de Munique? Não. Quem perdeu foi o PSG. Futebol é um esporte coletivo. E, apesar de ser um dos melhores jogadores do mundo, se há uma coisa comprovada, nos tempos atuais, é que quem ganha o jogo é a equipe. E, convenhamos, o Bayern ganhou porque mereceu ganhar. Ganhou nos detalhes da equipe que, apesar de ter menos qualidade coletiva, foi a que mais lhe deu trabalho. Um time que, em média, faz quatro gols por partida conseguiu fazer apenas duas jogadas em toda a partida e um gol chorado, mas, perfeito. Vamos buscar culpados pelo gol? Não. Foi efeito da busca constante, do indiscutível predomínio do Bayern que teve 62% de domínio de bola contra 38% do PSG. Domínio de bola não é tudo. É verdade, porém, é preciso ver que, em poucos momentos, o PSG pode jogar e seus destaques foram dois defensores: Thiago Silva e Herrera. A surpresa é que, no Bayern, não foi muito diferente. Seus melhores jogadores em campo, apesar de Colman ter feito o gol decisivo, foram Neuer, que fez uma partida soberba, Kimmich e Thiago Alcântara. Neymar não jogou bem. O mesmo pode se dizer de Mbappé, de Di Maria, de Marquinhos, de Paredes, de Verrati. Também não jogaram bem Lewandowski, Muller e Gnabry. Não que não tivessem se esforçado. Foram leões dentro de campo, mas, foi um jogo truncado, pegado, de pouquíssimas oportunidades reais. O Bayern levou a melhor porque foi melhor. Mas, poderia ter perdido. Neymar, Mbappé, Di Maria e Marquinhos tiveram, todos uma oportunidade, de marcar e, sejamos justos, Neuer esteve impecável, inclusive antes da bola chegar na sua área, se antecipando, antevendo as jogadas. Com outro goleiro, talvez, o Bayern não tivesse chegado lá. Mas, o Bayern foi, nesta Champions, uma máquina. Entrou, em todas as partidas, com gana, com a disposição de vencer, voltado para dominar e ganhar a partida. E a final foi uma final emocionante, disputada até o último minuto. Não há como procurar culpados depois de um grande espetáculo. Há sim, opções. Como técnico, esta é uma opinião minha, jamais deixaria de usar Icardi num jogo como este. Poderia não dar certo, todavia, não se descarta um jogador como ele numa final- é o que penso. Enfim, em todo jogo um time ganha e o outro perde. Venceu, com certeza, o melhor. Embora tenham tecido imensas loas à Neymar nesta temporada, sinceramente, não vejo assim. Ele, procurando jogar mais para o time, saiu de perto da área. E, não sei a emoção ou o desejo exagerado, fizeram com que perdesse a frieza, que sempre demonstrou na hora de fazer gol. Faltaram sim, os gols de Neymar, nas partidas finais. Ele errou muito nas finalizações. E, no futebol moderno, com quase todo jogador sendo um atleta, Neymar, raramente, conseguiria passar por três, quatro, como o time alemão marca quando está sem a bola. Neymar está longe de ser Garrincha, que, se jogasse, hoje teria muito mais dificuldades de fazer o que fez. Mas, façamos justiça, Neymar é o jogador mais caçado do mundo dentro de campo. Toda hora fazem faltas nele. Todos se preocupam com seu posicionamento ou quando pega a bola. E ele não é o super-homem. É um craque que gosta de jogar e vencer sempre- até nas peladas. A derrota para o Bayern mostrou seus limites. E o seu choro, no final, não foi coisa de menino. Foi frustração, o sentimento de perda de um momento que poderia ser maravilhoso. Ao chorar se mostrou apenas humano. E, despido da vaidade, ele, um homem que tem tudo que se possa querer materialmente, chorou, repudiando o capuz de bode expiatório da derrota do PSG. Podem dizer o que quiserem, mas, enfim, Neymar amadureceu. Na derrota mostrou que também sabe perder.

 

domingo, agosto 23, 2020

AS LOJAS AUTÔNOMAS ESTÃO CHEGANDO

A tendência dos empregos formais desaparecerem é antiga. E, hoje, com o fenômeno da “uberização” do trabalho, ou seja, com um novo formato de fazer negócios, por meio de tecnologias móveis, que conectam o consumidor, de modo mais direto, ao fornecedor dos produtos e serviços, agregando mais valor, menor custo e personalização, esta tendência tende a se acentuar, daí, o elevado aumento da informalidade nas novas ocupações. Este fenômeno deve se intensificar, a partir de que, a grande maioria das pessoas preferem não interagir com atendentes, o que originou um novo modelo de varejo e auto-atendimento, a loja autônoma. O maior exemplo delas vem dos supermercados que estão desenvolvendo novos modelos, como o Self Check-Out, onde o consumidor faz todas as tarefas por meio de um aplicativo no celular, sem funcionários e caixas. É um modelo que favorece extremamente os clientes, que passam, apenas com o uso de tecnologia, a fazer suas compras, mas, produzem uma enorme redução da utilização da mão de obra. Na loja autônoma, o cliente entra na loja, escolhe os produtos que deseja levar e os valores são cobrados no seu cartão de crédito virtualmente, sem filas no caixa ou se vendedor. Nem se pense que se trata de coisa do futuro. Não. Este tipo de loja de autoatendimento já é uma realidade e deve se espalhar mais rapidamente do que se pensa, por todos os lugares, inclusive no Brasil. Parece estar distante o tempo do consumidor entrar, comprar e pagar sem contato com colaboradores, apenas com a tecnologia como suporte, mas, isto não é verdade. Em muitos lugares já está se tornando parte da vida cotidiana das pessoas usar seu smartphone para entrar na loja, pegar os itens que precisa, conferir os produtos, confirmar o pagamento e ter o valor é cobrado no cartão de crédito, sem nenhuma intervenção humana. A loja só precisa, para sua operação, de um repositor, para fazer a reposição dos itens necessários, do aplicativo para compras e um software de gestão de quantidade e preços. No Brasil e na América Latina, a empresa Zaitt inaugurou a primeira loja autônoma, em 2017, em Vitória no Espírito Santo, e sua segunda, no ano passado,  no Itaim Bibi, na zona sul de São Paulo, que funciona 24 horas, sem atendentes, filas e caixas. A Onii implantou um modelo de loja autônoma que funciona dentro de condomínios residenciais inspirado nas lojas de conveniência Amazon Go, gigante varejista norte-americana. A única diferença é que, aqui, o cliente escaneia  ítem por ítem no celular para que a compra seja creditada no cartão cadastrado. Tudo é feito pelo próprio cliente. No começo de março, e estimulado pela pandemia, a empresa fechou 80 contratos para a instalação de lojas similares, mas, a previsão é de ter 200 lojas instaladas no país até o fim do ano. A empresa Carrinho Cheio, conhecida no norte do Paraná pelo seu delivery super rápido, agora, se lançou no mercado de lojas autônomas com sua primeira loja autônoma, em Londrina, denominada Carrinho Cheio Experience, localizada no Carbamall Palhano, shopping na Rodovia Mabio Gonçalves Palhano. Ainda é motivo de curiosidade e de atração. Mas, não por muito tempo. Este tipo de modelo é o futuro. Claro que as lojas com atendentes não desaparecerão, mas, irão conviver com a proliferação deste novo modelo.

segunda-feira, agosto 17, 2020

NÃO SE PODE FAZER REFORMA TRIBUTÁRIA DE FORMA APRESSADA

 

O ministro Paulo Guedes, apesar de seus inegáveis conhecimentos, em especial do setor financeiro, quando se trata da condução da política econômica tem se mostrado imensamente competente, em muitas coisas, é verdade, porém, em outras, talvez por falta de ter trabalhado no setor público antes ou por não ser um economista com conhecimento do lado da demanda, acerta no atacado, contudo, tem tido uma visão, para ser suave, míope quando se trata do varejo. Ninguém pode afirmar que não esteja certo ao se mostrar, como tem se mostrado, um liberal, quando pretende diminuir o tamanho do aparelho estatal. Não é, como o acusam, por querer vender e conceder tudo que vê pela frente, mas, por ter uma visão, correta, de que é a iniciativa privada que cria renda, empregos e crescimento. No entanto, como muito bem aprendeu, com a pandemia, viu que, ao criar o auxílio emergencial, estimulou o consumo e, grande parte do dispêndio com ele, acabou por voltar em forma de impostos. Pena que, influenciado por ver o funcionalismo público apenas como entrave, não perceba que, de fato, apesar dos evidentes problemas e distorções que existem, os servidores possuem o lado, muito positivo, de serem os guardiões da memória e da sabedoria da administração pública, bem como o que se gasta com eles dá um retorno ainda maior que o auxílio emergencial, de vez que são taxados (fortemente taxados, aliás) na fonte.  O contraditório é que o liberal Paulo Guedes, quando apresenta uma proposta de reforma tributária, parece ser tão estatista, quanto qualquer outro anterior, ao querer recriar um imposto sobre transações financeiras, ou seja, apenas sobre a movimentação do dinheiro, que, por mais que se tergiverse, tem na facilidade da cobrança sua eficácia, porém, é, claramente, uma cobrança tributária acumulativa. O ministro, infelizmente, se equivoca, pelo menos no seu discurso, ao dizer que pretende fazer justiça social diminuindo os impostos sobre a folha de pagamento. Qualquer especialista em tributos sabe que este é um caminho que pode melhorar o emprego, mas, não tem efeitos práticos sobre a desigualdade. Para melhorar a desigualdade o caminho seria diminuir os impostos sobre as pessoas físicas, sobre os trabalhadores. A proposta do governo, cujo fatiamento já é um erro, na medida em que não permite que se tenha uma visão da lógica que se pretende ter no novo sistema, pelo menos até agora, somente busca simplificar a forma do governo arrecadar e, talvez, até mais com um aumento significativo da alíquota, que dizem pode diminuir. É fácil ajustar as contas em cima do dinheiro alheio, mas, a realidade é que, da forma acelerada e somente redistribuindo internamente o peso dos tributos, a proposta governamental, da forma como se pretende, é pior do que a PEC nº 45/2019, que tem uma lógica interna e unifica mais impostos. O que é mais grave é que o pedido de urgência, numa reforma fatiada, tende a criar não uma reforma e sim um arremedo de reforma tributária. Uma boa reforma tributária tem que ser, obrigatoriamente, fruto de discussões técnicas e de convencimento político. Não pode ser feita de forma apressada sob pena de tornar o sistema ainda pior do que já é. Foram as sucessivas emendas feitas ao sistema tributário brasileiro que o tornaram tão complexo e ruim. A reforma tributária para ser boa e melhorar deve ser feita de uma forma abrangente e de uma vez só.