A verdade, se ela existe, é a de que a copa das copas sempre será a próxima. Uma copa no Brasil, como não poderia deixar de ser, é mesmo a copa das surpresas, do inesperado, da improvisação. Ainda mais que, hoje, se trata de um excelente negócio internacional. Basta ver a abertura: feita por estrangeiros para estrangeiros onde só Claúdia Leite apareceu, e bem, de penetra. A copa é do Brasil, porém, está muito longe de ser a copa dos brasileiros. Basta ver que os mexicanos, em Fortaleza, estavam em casa contra o próprio Brasil! E que dizer de argentinos, colombianos, chilenos? Todos se sentem à vontade, enquanto que, para os brasileiros, esta é a mais estranha, distante e dispersa copa que já tiveram. Não me lembro de uma copa onde houvesse tanto distanciamento, tanto alheamento ou até mesmo torcida contra como esta. E não são apenas os protestos. O brasileiro comum ou não confia ou não se sente representado por uma seleção que está sendo lhe apresentada da hora do jogo. Se até jornalista confunde o Felipão com um sósia! Imagine o cidadão comum saber quem é Luiz Felipe ou William que possuem rostos comuns!
A Copa, aliás, tem sido uma festa bonita, e torço para que continue assim, apesar da loucura de alguns, não digo nem protestos, mas, badernas mesmo. Nenhuma pessoa de responsabilidade e de bom senso, nos tempos atuais, irá enfrentar o imenso aparato repressivo que está montado apenas para criar problemas para um torneio que, os que gostam de futebol, e grande parte dos brasileiros, só têm a ganhar com o seu sucesso. Copa sim. Quem não gosta do governo não dá para esperar e dizer não a ele na eleição? Bom, mas, isto transcende a estas parcas linhas. O que pretendo mesmo é dizer que tudo está dentro da normalidade, com a improvisação de sempre, estádios prontos de última hora, passarelas balançando, como seria de se esperar, alguns atrasos normais em aeroportos, algumas fraudes, mais que normais em pacotes, passagens e entradas, e a alegria dos encontros, da festa, do futebol e da vida que escorre pelos estádios, restaurantes, bares, hotéis e ruas. E gols, muitos gols, o que é melhor ainda.
A Copa está sendo surpreendente também nos gramados. Uma chuva de gols tem escondido o futebol ruim que se tem jogado. Se bem ainda seja melhor que o da copa passada. Somente a Alemanha, Chile e Costa Rica, até agora, parecem times em que os jogadores não foram apresentados na última hora. É certo que a Holanda e a França aplicaram chocolates fantásticos na Espanha e em Portugal, coisa normalmente difícil de acontecer, em boas partidas. Porém, é preciso acentuar que, inclusive por erros próprios estes times, perderam a estabilidade emocional durante a partida e, quando isto acontece, o vareio passa a ser normal. O mesmo aconteceu, por exemplo, com a Suíça, outro chocolate que a França aplicou. No entanto, as falhas na defesa, as mãos de pano de goleiros e na reposição das bolas explica muito do que houve. Se não fossem os erros, e em demasia, não sairiam, certamente, tantos gols. Se um time, mesmo regular, não erra muito, complica mesmo para os melhores times. Foi o caso da Austrália, um time de qualidade similar a de Portugal, mas, sem um Cristiano Ronaldo, por exemplo, que quase complica a Holanda no segundo jogo. Alguns jogos foram emocionantes. Cito, entre os que assisti, o jogo que tinha contornos de jogo da morte, entre Chile e Espanha ou o Uruguai e Inglaterra, em que os jogadores colocaram a alma nas pontas das chuteiras.
Nesta segunda rodada ainda incompleta já se delineam algumas certezas e um quadro que favorece alguns times. Certamente, salvo se houver um contratempo inesperado, por exemplo, Argentina, Alemanha e França tendem a estar nas quartas, dado os cruzamentos. A tendência é que um ou talvez outros dois saiam de Brasil, Holanda e Chile. Costa Rica ou México podem ser as surpresas. Há as incógnitas de Colômbia, que mesmo avançando sem problemas, não tem jogado bem e do Uruguai, que depois de tropeçar, se rearrumou em cima da Espanha. Mas, enfrenta a Itália, ou seja, um dos dois ex-campeões mundiais terá que, obrigatoriamente, ser companheiro de eliminação nesta fase de Espanha e Inglaterra. Ainda teremos muitas jogadas bonitas, gols inesquecíveis, emoções. Esta Copa, no entanto, não tem, até agora, um time que se possa dizer que está enchendo os olhos mesmo com a enxurrada de gols. Em compensação muitos jogadores tem feito a festa da torcida. Benzema, Luis Suárez, Van Persen e Robben se sobressaem pelos gols que fizeram, mas, há uma pá de grandes jogadores que, pela quantidade, faremos injustiça em tentar citar. Também muitos que estão devendo, inclusive grande parte dos jogadores brasileiros. A esperança é que terão ainda tempo para se redimir.
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sábado, junho 21, 2014
domingo, junho 15, 2014
Os fatos rasgam a fantasia
Há uma evidente, e
continuado, noticiário internacional que, ao analisar a Copa de Mundo de 2014
no Brasil que, no momento, dá mais atenção aos protestos da população do que ao
evento. O governo se queixa de que existe uma “contaminação” da mídia
internacional pela versão dos grandes meios de comunicação internos. Num
esforço de modificar esta imagem a presidente Dilma convidou os correspondentes
de 21 meios de comunicação que escreveram sobre o país para um jantar no qual
tentou fazer um exercício de sedução para mudar a visão dos jornalistas. O
resultado não foi lá essas coisas tanto que, nos dias seguintes, o Wall Street
Journal e o New York Times escreveram que “O clima está pesado” em relação ao
desânimo que cerca a Copa. O The Independent postou que “Motins, greves e
engarrafamentos encobrem a abertura em São Paulo”. O Financial Times e o
francês Libération que classificaram a greve dos metroviários em São Paulo como
“um movimento de cólera geral” e, completando as citações o chileno El Mercurio
comenta “O país está blindado como se tratasse de uma guerra”. E com o
xingamento do qual Dilma foi alvo na abertura da Copa a visão, certamente, não
deve se alterar muito. A tendência é de que a imagem se torne ainda mais
negativa.
Pelo lado do governo, e
do comando da campanha de reeleição, vigora a versão simplista de que a mídia estrangeira se pauta pelo noticiário dos grandes
grupos de imprensa brasileiros, que estariam, em diferentes níveis,
comprometidos com as oposições na próxima eleição presidencial. Há um
imenso problema nesta versão que é a de
que tanto os correspondentes estrangeiros, quanto o público não teriam
capacidade crítica, comprando a visão partidarizada da imprensa, que seria a
gênese do mau humor coletivo e das
dificuldades de imagem do governo. É como se o PT não tivesse obtido hegemonia,
não tivesse um largo aparelhamento na imprensa, e sendo o seu maior cliente,
considerasse que a imprensa faz o relato que deseja e os fatos, em si, nada
significassem, ou seja, as pessoas não analisam, nem tem outros meios de ter
opinião e dependem de como os fatos são narrados e dos interesses (oposicionistas,
no caso) de quem faz a narrativa.
Embora a narrativa
importe, a percepção dos fatos é muito mais decisiva que as narrativas. Se não
o fosse, com a mais impressionante máquina de propaganda que um governo já
possuiu no Brasil, com a superexposição que Lula e Dilma possuem, com os gastos
milionários de empresas estatais em propaganda positiva, certamente, a imagem
do governo devia ser uma maravilha. Não é. Contra a versão das “Polianas”
petistas de que o Brasil vive uma fase cor de rosa, com boa parte da cor
produzida pela propaganda governamental intensa, os cidadãos topam com o lixo,
a poluição sonora e visual, com ruas e estradas esburacadas, transporte público
e serviços públicos em geral ruins e, para completar, a insegurança pública na
vida e no trânsito, que ceifam 100 mil vidas por ano e colocam o Brasil como um
dos países de maior número de homicídios no mundo. A construção dos estádios e
as promessas não cumpridas de mobilidade urbana foram só a gota d’água na
insatisfação pública que se testemunha e se propaga no que continua a ser o
mais eficiente meio de comunicação: o boca a boca.
Principalmente com a
internet a grande mídia perdeu muito de sua capacidade de alimentação do
imaginário coletivo. A tese do Planalto do povo sendo alvo de uma lavagem
cerebral, para construir uma narrativa única, peca por falta de verdade e
historicidade. Fosse assim o PT não estaria no poder. Que a imprensa tem seu
lado e seus erros, é verdade. Mas, não tem nem uma versão única, nem deixa de
ter uma quantidade significativa de órgãos, alguns muito bem pagos, para
difundir a versão cor de rosa do governo, porém, assim como os jornalistas
estrangeiros, a população se comporta em relação ao que estão vendo e sentindo.
Agora tentar dizer que não há uma grande
insatisfação da população e que é somente os “VIPs”, a elite branca “raivosa” xingou
Dilma no Itaquerão é buscar distorcer o fato de que, em muitos momentos, das
vezes em que ocorreu, o xingamento
partiu das arquibancadas, onde estava a população mais pobre, e que o coro não
era nenhuma novidade, pois, se iniciou muito antes num show do Rappa, que não
se pode dizer que concentra a elite, quando, pelo menos, 35 mil pessoas
entoaram o xingamento em relação à presidente. Se há uma narrativa para ser
revista é a de que os correspondentes estrangeiros não são profissionais experientes
e não procuram externar, com um olhar externo, o que veem e o que veem é uma polarização
exacerbada entre um governo triunfalista, que pinta uma versão de um Brasil de
primeiro mundo, que ninguém enxerga fora eles, procurando, de qualquer forma,
desqualificar ou criminalizar quem aponta erros ou crítica uma Copa planejada,
e mal, para fins políticos. O xingamento de Dilma é só o início de uma fantasia
que está sendo rasgada pela realidade dos fatos.
terça-feira, junho 03, 2014
Baixo crescimento é fruto dos erros da política econômica
Por mais que as
autoridades façam discursos otimistas, o fracasso da política atual de
desenvolvimento centrada no consumo, torna-se evidente com a pequenina expansão
de 0,2%, no primeiro trimestre, acompanhada de inflação alta e um enorme rombo
comercial. Não adianta o ministro da Fazenda, Guido Mantega, desejar atribuir o
baixo crescimento brasileiro a algum problema conjuntural ou a fatores
externos. É o ambiente econômico, a indústria em declínio e a baixa
produtividade que conduzem ao baixo desempenho dos indicadores de nossa
economia.
Isto é visível, por
exemplo, na pesquisa divulgada pelo IMD, escola de negócios da Suíça, o Índice
de Competitividade Mundial, no qual o Brasil perdeu três posições este ano, estando,
agora, em 54º lugar, num universo de 60 países analisados. Em quatro anos, desde
o início do mandato de Dilma Roussef foram 16 posições perdidas. Nos anos
anteriores, o Brasil caiu pelo avanço dos outros países. Em 2014, todavia, não foi
o que aconteceu. Perdemos posições por nossos erros, entre eles o aumento de
custos derivados da inflação e a baixa inserção do país no comércio exterior e
a perda de participação no mercado
internacional. São as políticas econômicas desastradas que
geram ruídos e incertezas, fruto das medidas voluntaristas e erráticas do governo.
Entre estes nada mais nocivo que a tentativa de intervir na fixação de preços e
na taxa de lucros, bem como insistir na política econômica heterodoxa de estimular
o consumo, em detrimento dos investimentos. Daí a retração dos
investimentos e o desestímulo a novos negócios.
As pesquisas de confiança,
já fazem algum tempo, seja de que setor econômico, e também das famílias, já
sinalizaram o cansaço com as ações do governo que não dão respostas efetivas
aos problemas que nos afligem e se traduzem
num quadro que beira ao caótico (protestos, depredações, invasões de
prédios públicos e privados, violência, corrupção, entre outras coisas). Tudo
isto tem a haver com a falta de perspectivas e reflete o esgotamento das políticas
de estímulo ao consumo, em especial das “políticas de transferência de renda” e
reajustes reais do salário mínimo, que somente são sustentáveis se capazes de
atrair novos investimentos que possam responder ao aumento da demanda. De nada
adianta manter o desemprego em patamar baixo se, por outro lado, são gerados
ruídos que assustam os agentes econômicos e desestimulam os empresários e até
os estimulam a investir no exterior. Como
o governo não passa segurança aos
investidores, a oferta de bens não aumenta, de forma que somente importando
para fazer frente a uma demanda mais alta. Com o consumo excessivo, a poupança
interna recuou a 12,7% do PIB, no primeiro trimestre deste ano, e os investimentos para 17,7%, o que demonstra que
o crescimento pífio do PIB neste primeiro trimestre não tem perspectivas de
melhorar. Com este quadro, aumenta a possibilidade do crescimento deste ano
ficar abaixo de 1,6%, podendo até recuar a 1,0% ao fim de 2015. Sem mudanças na
política econômica iremos continuar patinando em torno de baixos índices de
crescimento. Sem investimento não existe maior capacidade produtiva, nem
crescimento da produção. E não há discurso ou milagres que desmintam esta dura
realidade.
terça-feira, maio 20, 2014
Má alocação do crédito diminui crescimento
A presidente Dilma, quando esteve em Davos, na Suíça, tentou sensibilizar os investidores
estrangeiros fazendo loas ao Brasil que, segundo ela, se tornaria mais
competitivo. Na íntegra: "Quero enfatizar que nós não transigimos com a
inflação", disse. "A responsabilidade fiscal, por sua vez, é um
princípio basilar da nossa visão de desenvolvimento econômico e social."
Responsabilidade social meio esquisita, de vez que Rousseff parou em Cuba, onde
o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) despejou quase
US$ 700 milhões em crédito subsidiado para financiar o Porto de Mariel. Depois
de cortar a fita de inauguração, a generosa presidente, que não tem mais
dinheiro para educação e saúde no Brasil , prometeu mais US$ 200 milhões em
empréstimos do BNDES para a segunda fase da construção. O "Valor
Econômico" divulgou que Cuba ocupa o terceiro lugar entre os destinos dos
recursos do BNDES. O problema de tais empréstimos é que, desde 1959, a ilha de
Castro acumulou US$ 75 bilhões em dívida estrangeira não paga e outras
obrigações,-inclusive US$ 35 bilhões para o Clube de Paris. Ou seja, se
empresta regiamente a um dos maiores caloteiros do mundo num negócio de alto
risco para colocar dinheiro no bolso dos irmãos Castro.
Há, é claro, o outro
lado da moeda. Não é só Cuba quem ganha. A Odebrecht, grande construtora
brasileira, ganhou o contrato para modernizar o Porto de Mariel, portanto, se
torna a grande beneficiada do empréstimo subsidiado do BNDES e lucra ainda mais
porque também foi contratada para modernizar o aeroporto de Havana, com outro
financiamento subsidiado do BNDES. É verdade que financiar empresas brasileiras
é a razão de ser do BNDES, mas, banco é banco e deve fazer financiamentos com a
perspectiva de retorno. Acrescente-se que, mesmo que os empréstimos do BNDES e
dos outros bancos estatais (Caixa Econômica Federal e Banco do Brasil) não
estejam incluídos na dívida bruta, o que se observa é que eles tem dependido de
transferências do Tesouro que, para isto, tem que captar recursos no mercado.
Em suma, captam a um custo mais alto para financiar os empréstimos subsidiados.
Como isto não vai impactar na dívida total é preciso um mágico para explicar. E
são cada vez maiores as exigências de recursos, pois, os empréstimos da Caixa
cresceram a uma média de 45% ao ano nos quatro anos entre 2009 e 2012. Os empréstimos
do BNDES cresceram 23,5% entre 2009-12, e o crédito do Banco do Brasil cresceu 24%
por ano entre 2009-12. Como as taxas de juros sobem, sobe o custo do serviço da
dívida do governo, o que só aumenta o déficit fiscal. O governo, então, aumenta
mais o peso das políticas fiscais e regulatórias criando entraves para as
empresas, para o crescimento e aumentando a inflação. E, para coroar a falta de
coerência, o banco central vem aumentando a taxa básica de juros, a Selic, que
já chegou a 10,75% ao ano.
O que há de ruim também
é que a qualidade dos empréstimos dos bancos oficiais tem sido altamente
politizada o que aumenta o risco das taxas de inadimplência. Neste sentido vale
lembrar que o BNDES (nem vamos lembrar os fundos de pensões) se especializou em
apostas perdedoras. Não se sabe os valores, mas, estima-se que, somente para as
empresas lideradas por Eike Batista foram liberados US$ 4,7 bilhões. É uma má
alocação do crédito, que, para não ser mais duro, não sendo encaminhado para
onde deveria, naturalmente, representa um crescimento menor da economia. É um
comportamento desanimador para os investidores, internos e externos, daí a fuga
do espirito animal do país. Como investir num local com tão altos impostos, má
alocação de capital, taxas de juros altas, exceto para os ungidos, num cenário
de incerteza econômica e inflação crescente? É esta a resposta que está sendo
impossível de ser dada pelo governo atual. E a razão pela qual, apesar das promessas
de Rousseff em Davos, não há, no horizonte das atuais políticas públicas,
condições reais de se criar uma economia competitiva.
sexta-feira, maio 16, 2014
Se o time não joga bem é hora de trocar de técnico
As
próximas eleições presidenciais, pelo menos no Facebook, onde, supostamente,
estão pessoas de classe média e escolaridade um pouco acima da média, de fato,
já começaram pelas manifestações constantes das pessoas. Um dado que se
ressalta é que, pelo menos no Face, o Partido dos Trabalhadores já perdeu feio
a batalha de argumentos. Não somente porque desertaram do partido importantes
ícones que, no passado, levantaram a sua bandeira, como pela completa falta de
argumentos e de esperança que o governo e Dilma podem oferecer. O caso mais
recente do cantor Ney Matogrosso é exemplar. Ney, um artista normalmente
tímido, não aguentou o clima do país e desabafou, numa entrevista à televisão
portuguesa, afirmando que as coisas no Brasil andam ruins pela ineficiência
governamental e os péssimos serviços públicos. O que fizeram em relação as suas
declarações? Procuraram desqualificá-lo ora dizendo que está senil ou que,
agora, deixou de ser rebelde, pela idade não é uma pessoa digital, nem capaz de
avaliar bem a situação, enfim, é um títere da Rede Globo. Mas, ninguém vem
dizer, em público, que a segurança é ótima, a educação é a melhor do mundo ou a
nossa saúde é padrão Fifa, que as estradas são tapetes ou o transporte coletivo
é de primeiro mundo.
Aliás,
apesar de ser o governo quem alimenta imprensa, inclusive de recursos, a
cegueira ideológica (ou muitas vezes intere$$eira) faz com que se venda a farsa
de que a imprensa cria um discurso oposicionista, em especial a Globo que
oculta o que pode dos “malfeitos” do governo, de que tudo vai mal no país. É
menos verdade. Acontece é que as coisas vão mesmo muito mal e não é possível
ocultar, com tanta deterioração em todos os setores, daí que a proteção que a
imprensa tenta dar ao governo se torna vulnerável. Não dá mais, como no
passado, para ficar somente cantando loas, como nos tempos de Lula da Silva.
Até porque a imagem de Dilma é de um ser completamente distante, incapaz de, ao
menos, fazer o jogo de cena que o metalúrgico fazia de que se importava com as
pessoas.
Um
dado muito interessante da pesquisa Datafolha mais recente é de que, num
segundo turno, entre os entrevistados de renda familiar de 2 a 5 salários
mínimos, Dilma tem uma intenção de voto de 43% contra 39% de Aécio Neves. Ou seja, é um
empate técnico mesmo entre os mais pobres. E isto deve se acentuar ainda mais
com a Copa quando serão mostrados os gigantescos e suntuosos estádios recém
construídos, com fartos recursos públicos, que contrastam com as dificuldades
de uma população que consumiu muito se endividando e, hoje, em especial nas
cidades, enfrenta uma grave crise urbana. É uma questão que deve ficar clara
com os estádios: se podem se fazer estádios com qualidade por que não se pode
ter escolas, hospitais, creches, transporte público e segurança de que tanto
precisamos? E o atual governo, no poder faz 12 anos, não pode mais colocar a
culpa da má qualidade de tais serviços em FHC. Neste sentido a Copa é uma
herança mais que maldita de Lula para Dilma. Que vai haver segundo turno ninguém mais
duvida, porém, o que é mais surpreendente é a velocidade que se observa na
aceitação que o discurso oposicionista passou a ter e, mesmo nas classes de
menor renda, a certeza que o governo se exauriu e que está na hora de trocar de
governo. E se este sentimento se acelerar, como parece que está se acelerando,
Eduardo Campos passa a ter uma grande chance de crescimento e a mudança, então,
será inevitável. Se o time não joga bem o primeiro que cai é o técnico.
segunda-feira, maio 12, 2014
A crueldade da burocracia brasileira
Se formos pensar em
termos de burocracia será imprescindível ir buscar o seu conceito em Max Weber.
É do sociólogo alemão a concepção científica da burocracia que ganhou com ele o
significado clássico de que a burocracia seria a organização eficiente por
excelência por conseguir explicar nos mínimos detalhes como as coisas deverão
ser feitas. Para Weber, aliás, a burocracia moderna não seria apenas uma forma
avançada de organização administrativa, com base no método racional e
científico, como também uma forma de dominação legítima. Para conceber esta
visão ele creditava aos burocratas os atributos que regem o funcionamento da
burocracia como formas de relações sociais das sociedades modernas.
Para Weber, a
burocracia e a burocratização são processos inexoráveis, ou seja, inevitáveis e
crescentes, presentes em qualquer tipo de organização, seja ela de natureza
pública ou privada, inclusive raciocinando que, sem a organização burocrática, o
desenvolvimento de uma nação seria retardado por ser indispensável ao funcionamento
do Estado um aparato burocrático para bem cumprir suas funções. Portanto, em
Weber, apesar de ter existido em períodos anteriores, só no contexto do Estado
moderno e da ordem legal é que a burocracia atingiu seu mais alto grau de
racionalidade, ou seja, a ação burocrática tende a visar, de fato, a eficiência
e resultados. É evidente, porém, que não conhecia o Brasil, nem a sua
capacidade de canibalizar conceitos, palavras e instituições. No Brasil como se
sabe o que menos existe em qualquer burocracia é racionalidade e busca de
alcançar objetivos. Numa síntese: desmoralizaram completamente a concepção de
Weber.
Por aqui o que vale
mesmo é a famosa concepção popular, e certeira, de que a burocracia é uma
organização lenta, vagarosa, mal educada e na qual os papéis e atestados sempre
se multiplicam para impedir soluções rápidas ou eficientes. O termo é empregado
não somente com o sentido de apego dos funcionários aos regulamentos e rotinas,
causando ineficiência à organização, como também pela singular jabuticaba de
criar dificuldades para vender facilidades tão próprias do país. No Brasil a
burocracia é um sistema de moer as pessoas que se caracteriza não pelos
atributos que Weber viu, mas, sim pelos defeitos que o sistema apresenta e
aprimora. No Brasil a burocracia é o suprassumo da crueldade e da insensibilidade.
Tanto que ainda que você insista em dizer que está vivo, e peça para que
verifiquem a pressão e as digitais, de nada adianta se o sistema diz que você
morreu. E, se não tomar cuidado, o burocrata mata para dizer que o sistema está
certo.
Não se precisa ir longe
para verificar isto. Basta pinçar do pronunciamento de Dilma Roussef a notável atualização
da tabela do Imposto de Renda. Imposto de Renda que o contribuinte é obrigado a
fazer a declaração para ser taxado, ou seja, faz o papel da burocracia para ser
por ela explorado. Porém, a burocracia em nosso país é de uma crueldade
invulgar. Basta ir a um posto médico onde não se atende ninguém mesmo chegando
morrendo sem fazer uma ficha. Basta ver a concessão das aposentadorias que é um
processo de extorsão dos benefícios que se angariou pela vida. Basta verificar
que quando se trata de sugar recursos o Estado é rápido e insaciável, voraz
mesmo. Quando se trata de reconhecer direitos, porém, aí de ti contribuinte,
ninguém te fará justiça. A justiça só existe mesmo para os burocratas e seus
amigos. Crianças jamais verás um país tão burocraticamente cruel quanto este!
terça-feira, abril 15, 2014
Alto Madeira, um jornal predestinado
O que é um jornal? As
respostas para esta indagação pode ter diversas interpretações, mas, não se
poderá fugir do fato de que se trata de um meio de comunicação, um papel de
imprensa, ou seja, mais barato, repleto de palavras e fotografias feito por
profissionais denominados de jornalistas. Jornais podem trazer de tudo.
Alegrias, lágrimas, tragédias, vitórias e derrotas, o belo e o feio, o perto e
o distante, as opiniões e os fatos nem sempre bem recebidos. Também é uma
exposição para o comércio e a indústria vender seus produtos, um espaço para
que políticos apareçam ou desapareçam (hoje, cada vez mais, na página policial
ou com a célebre pulseirinha prateada que a Polícia Federal presenteia na hora
de prender). Pode ser a dor do boxe ou a sensação provocada por um gol no
futebol. Os jornais também tem periodicidade. Em geral são diários, porém, há
semanais, quinzenais, mensais e, mesmo os que aparecem de vez em quando. Uns
nascem e morrem logo. Outros criam uma longa história e, por isto mesmo, passam
a ser independentes de quem o fez, o faz. O jornal cria sua própria
personalidade, história e alma. É por tal razão que há jornais e jornais.
No fundo, um jornal é
como uma pessoa: se faz na medida em que vive. Um jornal que morre logo é como
uma criança que, mal nasceu, se vai. Só os próximos lamentam a perda, o que
poderia ter sido. Há outros, como é o caso do nosso Alto Madeira, que caminha,
rapidamente, para alcançar os 100 anos e, por tal razão, é o repositório de
toda uma história de nossa gente, de nossa terra. Este jornal se confunde tanto
com Porto Velho e o Estado de Rondônia que foi fundado por Joaquim Augusto
Tanajura, o primeiro superintendente (prefeito) de Porto Velho, em 15 de abril
de 1917, portanto, o Alto Madeira, um dos mais antigos jornais em atividade na
região, vem registrando a história por exatos 97 anos. Com uma vida tão longa
já é necessário, e diga-se de passagem uma tarefa hercúlea, escrever sua
história que, como em todas as grandes histórias, tem suas fases de ascensão e
de descenso, porém, a maior vitória, sem dúvida, é a de continuar sendo o que
sempre tem sido: uma tribuna de liberdade, de opiniões diversas, de espaço para
a vida local e suas mudanças, apesar dos erros, inclusive gramaticais, que, em
especial, nos novos tempos acontecem. Seu maior êxito se mede por continuar
vivo e se renovar mantendo uma linha editorial que sempre privilegia a notícia.
É um jornal que, como
se pode constatar indo rever suas edições, jamais deixou de ser uma fonte de
ideias e de promoção do desenvolvimento da livre iniciativa, dos negócios, da
cultura, além de ter sido a escola dos maiores jornalistas de Rondônia. Como pertenceu
a Joaquim Tanajura também participou dos Diários Associados, de Assis
Chateaubriand, a primeira grande organização de meios de comunicação do Brasil,
e tem sido, desde o final dos anos sessenta, conduzido pelos Tourinhos, em
particular com Luiz Tourinho na direção dos negócios, e Euro Tourinho, como o
grande orientador da redação, sem favor algum o decano de nossa imprensa. Hoje,
todavia, por sua importância, é uma entidade que vai além dos que o guiam, o
fazem, pois, como o jornal mais antigo do Estado é um patrimônio de todos nós.
Só posso, nesta data, como um partícipe menor de sua história, desejar que o
jornal volte aos seus melhores dias. Que, sendo modernizado como está sendo,
volte a circular em todo o Estado e proporcione o acesso ao seu conteúdo por
uma nova e moderna página eletrônica, de vez que, lá fora, quando se fala em
jornal de Rondônia, é ainda o Alto Madeira,
que é a referência. Que os 100 anos que, certamente, serão muito
comemorados, na medida em que quase não existem jornais brasileiros com tal
longevidade, encontre o Alto Madeira como a fênix revivida em ascensão, para,
contra a opinião dos que pensam que os jornais vão morrer, possa continuar pelo
tempo afora registrando, pelo menos, os próximos 100 anos de nossa terra e nossa
gente. Que o Alto Madeira possa continuar a ser a testemunha da história de
Rondônia, uma vocação para a qual parece ter sido predestinado.
segunda-feira, abril 14, 2014
Eles não sabem o que querem
Ao
nos aproximarmos da Copa do Mundo também nos aproximamos do primeiro
aniversário das grandes manifestações de rua que inundaram as cidades
brasileiras durante junho de 2013. É o momento de olharmos para trás e
perguntar em que resultou tanta movimentação, tanto barulho, tantas propostas
dispersas e o abalo sísmico sofrido pelo nosso sistema político que captou, ou
pelo menos fingiu captar, a mensagem de que a maioria da sociedade não se sente
representada por aqueles que, supostamente, deveriam cuidar de seus interesses.
É verdade que foram, na sua grande maioria, pessoas da classe média cobrando maior
representação, melhor qualidade das políticas públicas, mais saúde, educação e
uma gama de outras reivindicações que desfilaram pedindo maior eficiência e da
moralidade, porém, o apoio das classes mais baixas, apesar de menos ostensivo,
foi muito real.
Uma
primeira impressão é a de que os resultados, apesar dos discursos de que os
políticos “ouviram as ruas” é o de que se ouviram deve ter sido numa língua
estranha, de vez que não mudaram em nada. Continua abismal a distância entre o
que a população deseja e o governo, aqui envolvendo todas as instâncias
políticas, oferece. O que está na base da insatisfação popular somente tem se
agravado. É inegável verdade de que houve um achatamento da massa salarial
brasileira. Também é verdade que este achatamento se torna mais sensível nas
camadas da classe média onde o acesso à educação universitária, mesmo de
péssima qualidade, resultou numa diminuição expressiva dos ganhos de imensa
parcela de segmentos da classe média. Acrescente-se que se, sob o ponto de
vista macro, a massa salarial tem crescido este crescimento se dá pela
diminuição salarial. O aumento do emprego, tão fortemente alardeado pelo
governo, é um aumento de empregos de baixa qualificação e de baixa renda que,
de fato, inclui mais, porém, penaliza enormemente segmentos significativos da
classe média alta, seja pela forma de perda de empregos, ganhos ou até mesmo de
tributação mais elevada. E com a elevação da inflação esta base se consolida e
se amplia.
Ainda
mais que com a falta de um projeto real de desenvolvimento, na medida em que, efetivamente,
o reformismo petista somente mudou pontualmente as estruturas do Plano Real,
por sinal um plano de estabilização, permitiu que, via crédito e consumo, fosse
reduzido um pouco a pobreza, porém, sem tocar nos alicerces da imensa
concentração da propriedade dos patrimônios e ativos produtivos, o que, de
fato, impede uma melhor distribuição de renda, apesar da ficção da “nova classe
média” de R$ 1.200,00. O que se observa, desde que a crise eclodiu, é que o
governo, mesmo sem saber o que fazer, procura apenas manter a popularidade para
enfrentar as eleições e, posteriormente, quem sabe, buscar um projeto. Por
outro lado, a oposição, também sem saber o que fazer, não propõe nada de novo.
Nem sequer algo de impacto como, por exemplo, acabar com o imposto de renda, o
que seria uma bela ideia. Vamos chegar ao processo eleitoral marcado por esta
imensa falta de clareza na agenda futura. Embora ambos saibam que querem o poder, nem o governo nem a oposição sabem o
que fazer e, com uma correlação de forças que somente se une no seu descontentamento
com a situação, é impossível saber o que pode acontecer, inclusive, porque a
própria população também não sabe o que quer. O grande perigo, ou talvez a
solução se quem encarnar a resposta for competente, é que podemos ter muitas
surpresas até a eleição. Mas, será preciso mudar, radicalmente, a forma de
fazer política no país, sob pena de ingressarmos numa fase de dificuldades que
nos levarão a novos tempos de ruptura institucional.
sábado, março 29, 2014
Os sinais da mudança
Ao contrário do que se
veicula o problema maior da reeleição de Dilma não é a queda na pesquisa
CNI/Ibope que, em geral, tem maior efeito apenas nas classes mais politizadas.
Embora a queda da popularidade acentue os problemas e, de fato, tenha
acontecido no pior momento para o governo até agora, uma boa leitura mostra que
é apenas mais um sinal no ponto de inflexão de um governo que não fez o seu
dever de casa. Por mais que o controle da imprensa, por meios econômicos, a
propaganda intensa e a tentativa permanente de sufocar a oposição seja um traço
do poder opressivo que busca se tornar único do PT, os furos no dique se
acumulam e todos eles derivam da incapacidade administrativa do governo seja em
relação à política econômica, ao atendimento de suas bases ou na construção da
infraestrutura e oferta de serviços básicos à população.
Há uma questão
insolúvel na estratégia do Partido dos Trabalhadores que é o de desejar se apresentar
como um governo de “todos” quando, ostensivamente, faz sua política se baseando
nas camadas economicamente mais frágeis da sociedade, ou seja, o que antes
criticava, o coronelismo das antigas elites, é, hoje, a sua força. Basta
verificar que foram os grotões que elegeram Dilma e não as camadas da população
de maior escolaridade e renda. E, no momento, são os grotões que escapam de seu
controle. Antes, porém, a situação era completamente diferente. Os grupos de
menor renda não estavam, como estão agora, descontentes com o governo. Havia
uma aprovação enorme de Lula, a inflação sobre controle, o crescimento da
economia vendendo esperança de dias melhores e Dilma era uma desconhecida
avalizada pelo otimismo que o governo trescalava.
Hoje, o panorama é outro.
Além da insatisfação geral demonstrada nos movimentos de junho do ano passado,
os descalabros visíveis, como os dos gastos da Copa e da Petrobras, a
intervenção governamental que desestimulou os investimentos no País e a fuga
até mesmo de capitais nacionais e o agravamento dos problemas das contas
externas se misturam com a falta de capacidade do governo de negociar quando
encontra resistência. O normal é desejar satanizar quem se antepõe aos seus
desejos o que, muitas vezes, dá certo, porém, é um recurso que está se
esgotando na medida em que os aliados sentem que só o são na hora de apoiar. E,
para piorar, vivem sob a ameaça constante de operações policiais que acusam de
serem dirigidas contra quem não se comporta conforme o figurino. Agora mesmo o
senador Clésio Andrade se queixa de que, por ter assinado a CPI da Petrobras, o
ameaçam com retaliação via o erroneamente denominado “Mensalão de Minas”.
O problema é que o que
antes funcionava não funciona mais. O governo perde ostensivamente a batalha das
ideias. Seja no Facebook, nos blogs, nos jornais, nas filas, que parecem ter se
multiplicado em todos os cantos, xingar o governo está se tornando o esporte
favorito. É bem verdade que quase todos dirigentes e políticos, mas, Dilma está
passando a ocupar um significativo lugar de destaque. E o que é mortal para as
eleições, e a obtenção das assinaturas para a CPI da Petrobras sacramentou, é
que, para os políticos, como para grande parte da população, ela não representa
mais esperança, o que eleitoralmente é mortal. As defecções não se acumulam por
acaso: os políticos sentem que os sinais indicam os caminhos da mudança.
quinta-feira, março 20, 2014
Palco Giratório: a vitória da diversidade cultural
Aconteceu em Rondônia,
mais precisamente no Audicine do SESC Esplanada de Porto Velho, neste último
dia 19 de março, quarta-feira, o lançamento nacional do Projeto Palco Giratório
2014, que será estendido para mais de 120 cidades brasileiras que receberão 768
apresentações artísticas previstas para acontecerem até o mês de dezembro. O
público rondoniense teve a oportunidade de assistir, na noite da quarta-feira
(19), no Teatro Um do Sesc Esplanada, o espetáculo de abertura comandado pela
Companhia Solas de Vento, de São Paulo, com a apresentação do espetáculo
“Homens de Solas de Vento”. É a 17ª edição do Palco Giratório, uma ação ímpar
no cenário cultural brasileiro, que muito tem ajudado na consolidação, na
promoção e difusão das artes cênicas a partir da circulação de espetáculos,
grupos e coletivos de teatro, dança e circo. Trata-se de uma iniciativa, de
caráter nacional do Serviço Social do Comércio-SESC que tem como objetivo estimular
o exercício da cidadania cultural, a diversidade, a formação e o
desenvolvimento de aptidões e práticas artísticas que envolvem oficinas,
debates, intercâmbios, pensamentos e conversas com os públicos depois dos
espetáculos.
É, no momento atual,
sem sombra de dúvidas, o maior estímulo nacional ao estudo, à pesquisa de
metodologias e de criação artística e de fomento às produções locais, ao mesmo
tempo, que estabelece parcerias institucionais e favorece o intercâmbio
cultural entre os artistas, produtores e o público. Esta ação somente se torna possível pelo
sistema de gestão compartilhada entre o Departamento Nacional do SESC e seus
departamentos regionais que, em cada estado, possibilitam uma ação cultural que
se caracteriza por uma imensa diversidade e efetiva abrangência nacional.
Importante também é o fato de se ter estabelecido uma rede de artes cênicas e
consolidado uma Curadoria Nacional que faz a seleção de espetáculos para compor
a programação do Palco Giratório a partir de critérios que se baseiam na
filosofia dos grupos, na capacidade de formar e na criatividade, de modo que, o
que se busca, é dar oportunidade ao diverso sem perder de vista os impactos e
os contextos sociais. A gerente de cultura do Departamento Nacional do SESC,
Márcia Rodrigues, afirmou que serão mais de 500 mil pessoas assistindo às
apresentações nos 26 estados brasileiros e no Distrito Federal. Para ela, "O
Palco Giratório existe há 17 anos, este é o quarto ano de lançamento nacional,
pela primeira vez, com muito orgulho, sendo realizado em Rondônia. Nosso
objetivo é promover o intercâmbio e a articulação de grupos teatrais, de dança,
enfim, formar aldeias culturais. Saímos do tradicional eixo sul, consolidamos
novos lugares e públicos".
Mas, o que de fato
diferencia o Palco Giratório é sua capacidade de promover o que o próprio
Ministério da Cultura não consegue, que é uma política cultural que fomenta a
formação e a criatividade. O projeto abre espaço para o novo e consegue
abranger os diversos olhares da produção nacional, a partir de uma avaliação
sensível e honesta dos artistas e seus trabalhos, sem privilegiar, como
normalmente acontece, os nomes já estabelecidos e atentando para os processos e
dinâmicas capazes de gerar discussões, reflexões e até mesmo a perplexidade.
Enfim, a grande vantagem do projeto tem sido a capacidade de fortalecer e
desenvolver a produção local e lhe proporcionar possibilidades de alcançar
outras fronteiras. Nada mais significativo que registrar o depoimento do ator Daniel
França, de um grupo do Amazonas, que fez questão de deixar claro sua felicidade
em participar afirmando que "Nunca imaginei que eu pudesse ser integrante
do Palco Giratório. Era um sonho pra mim, e hoje me sinto feliz e realizado com
isso. O Sesc é uma instituição privada que não deixa o teatro morrer, e que faz
por nós, artistas, muito mais até do que o poder público faz". De fato, o
Palco Giratório é um grande promotor das novas formas, um repositório de
diferenças e uma amostra de que é possível se promover cultura de forma
democrática, coletiva e representativa da riqueza cultural brasileira. Por isto
mesmo é um projeto que veio para ficar e de que se pode construir um país
melhor com trabalho e a determinação, mas, sem o desejo impor formas, mas, sim
a capacidade de organizar, de coordenar a imensa diversidade que caracteriza o
nosso país. O Palco Giratório é a maior prova de que não se pode desejar inovar
com um pensamento único. Só a diversidade é que nos salvará.
sábado, março 15, 2014
O descontentamento surdo
Quando se olha para
trás e se observa a eleição da atual presidente, Dilma Roussef, se constata que
o Partido dos Trabalhadores-PT e seus candidatos estavam numa situação muito
mais confortável. Lula conseguiu, com uma estratégia esmagadora e a fragilidade
e incompetência da oposição, fazer Dilma vencer a eleição para a Presidência, em
grande parte pelo fato da economia brasileira, aparentemente, andar bem, pois,
se gabavam, com farta publicidade, de ter superado o baque causado pela crise mundial
de 2008 e, para demonstrar isto, mesmo sem pesar os custos, trabalharam (e
abriram generosamente os cofres) para que o crescimento do Produto Interno Bruto-PIB,
em 2010, atingisse, na única vez que se conseguiu isto no governo petista, o
recorde de 7,5%. Nem mesmo o alerta da
inflação alta de 6,71% afetou o resultado, de vez que, para gregos e troianos,
se exibiam os números do aumento de emprego, de renda da população e a
continuidade de uma política que se trombeteava correta.
Calaram-se, sufocados
pelos alaridos e a propaganda eleitoral, o fato de que nada havia mudado substancialmente.
A carga tributária continuava a ser a mais elevada do mundo, os juros
continuavam a ser altos (embora suavizados), a desindustrialização era, como
tem sido, contínua e, o mais significativo dos sinais, os investimentos, para
quem conhece economia a única forma possível de aumentar o PIB no médio prazo, continuava
no mesmo patamar do início do século. De nada adiantava alertar, como se alertou,
que as palavras otimistas de Mantega de que teríamos “quinze anos de
crescimento sustentável” não se sustentavam; que, sem investimentos, o voo de
galinha voltaria a se repetir, seria inevitável. E, para tentar evitá-lo, houve
mesmo esforços de facilitar o crédito, estimular o consumo e até mesmo de
desonerar certos setores, mas, como seria de se esperar, esforços inúteis.
O governo petista tem
um pecado original: é contra o sistema de mercado. Tem a filosofia de tentar
controlar o mercado, de influir no mecanismo da oferta e da procura por um
voluntarismo que a história já provou ser inútil. E, dentro de tal filosofia,
construiu uma política econômica contraditória que, ao mesmo tempo, que não faz
a lição de casa de cortar os gastos públicos e tornar as despesas públicas mais
eficientes tenta controlar a inflação aumentando as taxas de juros, ou seja,
dando um tiro no próprio pé, de vez que, pelo menos, um terço de suas dívidas
são indexadas aos juros. Também apresenta uma péssima execução dos programas e
projetos, inclusive o Plano de Aceleração do Crescimento-PAC, uma peça
publicitária que envolve no mesmo saco investimentos públicos e privados, mas,
onde a execução acontece apenas nos projetos privados. Nunca antes neste país,
para usar o chavão lulista, se conseguiu um recorde tão grande de obras
públicas paradas, de projetos que não saem do papel. E o resultado também é visível: os gargalos da infraestrutura, os péssimos serviços públicos, o sucateamento da educação e da saúde.
Acrescente-se que o
bem-estar que as pessoas sentiam antes, com o crédito farto e ganhos salariais,
desapareceram com Dilma. Hoje, o endividamento geral e os salários que
despencaram, a falta de bons empregos (o mercado desemprega os salários altos e
emprega os de baixo custo), a reposição magra azedam o humor em relação ao
governo. E a inflação se tornou um perigo real, embora o governo deseje pregar
que se trata da oposição ou de muita imaginação de quem afirma isto. Porém, é a
realidade do mercado onde a alta dos preços atinge quase todos os setores
econômicos, mas, bate mais forte na alimentação e nos produtos dos supermercados,
os insumos básicos, do dia a dia. Hoje, o descontentamento surdo vem de quem tem
contas para pagar e, no fim do mês, percebe como subiram os serviços de
cabeleireiro, manicure, escola, curso de inglês, telefone, gasolina, passagem
de ônibus, alimentação e tantas outras coisas. Se Dilma Rousseff e Lula
desconhecem esta realidade, e somente tratam de agradar o PMDB e o PT que
brigam pelo supérfluo , é porque suas despesas são custeadas por outros. Mas,
seria de se esperar que, pagando tantos assessores regiamente, estes, pelo
menos, alertassem que, com a situação inflacionária atual, com o
descontentamento silencioso que se propaga, a reeleição petista é um osso duro
de roer mesmo contando, como conta, com uma poderosa máquina de propaganda, a
boa vontade da imprensa e dos institutos de pesquisa e uma imensa quantidade de
comissionados. Afinal o Titanic também parecia sólido.
Ilustração: www.lepanto.com.br
quinta-feira, março 06, 2014
O Paraguai não é aqui
Que
o mundo muda muito e rápido todo mundo sabe, mas, quem, objetivamente, poderia
pensar que o Paraguai seria um exemplo para o Brasil? Bem, para quem somente
pensa no nosso país vizinho como um sócio menos importante, deveria observar
que, no mês passado, uma Missão Empresarial Brasil-Paraguai, composta de 178
empresários ou representantes de empresas e entidades brasileiras, esteve em
Assunção, capital do país, para conhecer de perto os incentivos oferecidos para
investimentos estrangeiros e casos de empreendedores que já estão instalados no
país. A missão foi organizada pela Confederação Nacional da Indústria (CNI) e
pela Rede Brasileira de Centros Internacionais de Negócios (Rede CIN), e
liderada pela Federação das Indústrias do Paraná (Fiep).
Sabe
qual o resultado? Saíram de lá com inveja do que viram e a impressão de que o
Paraguai está se modernizando e nos deixando para trás em muitos setores e,
pasmem, em especial, em competitividade, de vez que muitos dos empresários
disseram que o modelo de política de desenvolvimento industrial adotado pelo
governo paraguaio deveria servir de exemplo para medidas efetivas que recuperem
a competitividade da indústria brasileira. Surpresos? Então, observem as
palavras ditas pelo empresário Rommel Barion, vice-presidente da Fiep e
coordenador do Conselho Temático de Negócios Internacionais da entidade, “O que
vimos aqui nos mostrou que se o Brasil não reagir para resolver seus problemas,
vai ficar para trás” e acentuou que “No Paraguai, onde os custos de produção
são, em média, 35% menores que os do Brasil, vimos que é possível criar um
ambiente mais favorável”. Mas, o que mais impressionou os empresários foi
verificar que o Paraguai tem uma economia estável, um sistema tributário
simples, uma carga tributária muito menor que a do Brasil e uma legislação
trabalhista simples ainda que assegure direitos ao trabalhador. Em suma, o
Paraguai é um país bom para se investir,
que respeita as leis e possui bons marcos regulatórios.
Se
alguém tiver dúvidas a respeito que consulte o presidente da Fiep e comandante
da Missão Empresarial, Edson Campagnolo, que, em artigo publicado, no dia 06 de
março, na Gazeta do Povo, um dos
principais jornais do Paraná, escreve sem rebuços que “Hoje, o ambiente de
negócios no Paraguai é muito mais atrativo aos investidores que o do Brasil. A
começar pela carga e pelo sistema tributários, infinitamente mais leves e
simples. Vantagem especialmente para empresas que utilizam o território
paraguaio como base exportadora. Pelo Regime de Maquila, é possível uma empresa
produzir e exportar a partir do Paraguai com imposto único de 1% sobre o valor
agregado dos produtos”. Até mesmo a energia elétrica, produzida por Itaipu, tem
um custo menor lá, correspondendo a um terço das praticadas no Brasil.
Campagnolo, com perspicácia, nos mostra que a missão serviu para alertar que
precisamos encarar, urgentemente, as reformas necessárias para ter
competitividade ou os investimentos e os empregos mudarão para o outro lado da
fronteira. Sem querer promover a debandada de empresários nacionais para o país
vizinho observa, com acuidade, que fazer os deveres de casa compensa, posto que
o Paraguai com uma economia estável e a inflação controlada cresceu, vejam a
ironia, 14,1% em 2013. E a formula é bem simples: o poder público, agora com
Horácio Cartes, mais do que nunca, vê o empresário como propulsor do
desenvolvimento do país e busca facilitar o surgimento e o fortalecimento das
empresas incentivando a geração de emprego e renda. Pena que o Paraguai não é
aqui.
Foto: Agência FIEP/Gilson Abreu
domingo, março 02, 2014
Acabou-se a festa....
Embora não possa negar
a idade, de fato, pelas probabilidades estatísticas estou mais pra lá do que
pra cá, com os meus próximos sessenta e quatro, não me considero um saudosista.
Em termos, no carnaval e na música, reconhecidamente sou. E já tendo vivido os velhos carnavais do Rio
de Janeiro, de Recife, Salvador e Porto Velho, certamente, tenho sólidas razões
para ter saudades. Afinal quem conheceu os carnavais de outrora não pode olhar
senão, com uma certa nostalgia, os carnavais atuais. A grande realidade é a de
que, apesar da festa ter crescido em tamanho, perdeu em uma série de outros
quesitos, entre eles, os mais sensíveis de paz, beleza e alegria.
Hoje, Porto Velho, por
exemplo, estava um convite ao sono, como ontem, aliás, quando a Banda do Vai
Quem Quer, uma tradição mantida duramente por Manelão, foi, por fim,
interrompida. Não foi, efetivamente, a primeira tentativa. O carnaval de Porto
Velho veio vindo, morrendo aos poucos, com intervenções de autoridades que impuseram
regras e censuras a bailes, corsos, carros alegóricos, enfim, acabando com o
desfile que já foi um dos pontos altos dos dias de Momo. Ultimamente nem mesmo
a subvenção pública salvava os blocos de parecerem uma paródia dos velhos
tempos, sem graça, sem samba, sem a alegria que, no passado, fazia o carnaval
ser carnaval. Sem contar que sumiram muitos dos complementos que faziam sua
beleza.
Se não me engano
começou quando Jânio Quadros era presidente da República e proibiu o uso de
lança-perfumes. Depois, mudaram o desfile, por razões diversas de um lugar para
o outro, e sumiram as serpentinas, os confetes, as fantasias e até mesmo os
bailes maravilhosos de outrora, como foram os do 5º BEC, do Ypiranga,
Ferroviário e outros sempre muito prestigiados pelo povo até porque, agora, se
cobra uma fortuna sobre direitos autorais, de forma que utilizar músicas se
torna quase inviável. O que vemos, hoje,
aqui em Porto Velho, é o que sobrou da resistência: poucas, modestas escolas de
samba, que teimam em desfilar com enorme esforço pessoal de alguns abnegados. Eles
lutam, mas, o carnaval não tem mais o mesmo encanto e não temos perspectivas de
reviver os velhos tempos.
Não é muito diferente
mesmo no Rio ou em Salvador. O carnaval, por lá, virou um grande negócio que
engorda diretorias de escolas e blocos, hotéis, fazedores de abadás, e o que
acontece de real mesmo é a aglomeração dos jovens, com roupas padronizadas, em
torno de bares e casas noturnas. Ah! Tem o desfile da Sapucaí. Outro grande
negócio que virou palco de desfile de celebridades enxertadas com silicone.
Longe, bem longe, estamos dos sambas enredos de verdade, uma mistura de samba
do crioulo doido e ingenuidade que tinha sabor. Hoje até o samba tem gosto de linguiça.
Nem queira saber como se fabrica.
Não, por acaso, me vi
revendo Capiba, Nelson Ferreira, as velhas marchinhas de carnavais passados,
como a de Francisco Alves cantando “Ó pé de anjo! Pé de anjo/ és rezador, és
rezador/ Tens o pé tão grande que é capaz de matar Nosso Senhor”. Neste
domingo, pensativo, ponderei para mim mesmo, que Nosso Senhor, mesmo vítima do
pezão pode ressuscitar. O carnaval brasileiro está difícil. Ingressou, definitivamente,
no mar da mediocridade geral. Prefiro o sossego que assistir a maior festa
nacional ter se transformado num imenso zumbi. Nós, brasileiros, estamos
provando que chegaremos ao passado sem ter tido presente. O carnaval de hoje é
um imenso velório disfarçado de alegria. As cinzas se espalham antes da
quarta-feira.
terça-feira, fevereiro 25, 2014
O desacerto do tempero
Tem sido quase uma
formula consagrada dos governos petistas, o processo que se iniciou com Lula da
Silva, de, nos dois primeiros anos de governo, agir com mão de ferro, sufocando
as demandas sociais, para fazer os ajustes necessários e, no último ano, abrir
as portas para fazer gastos e se reeleger. É um tipo de comportamento que tem
dado certo, tanto que elegeu Dilma, mas, esta, pelo andar da carruagem, não
adotou o sistema, o que pode influir, decisivamente na próxima eleição, apesar
da passividade e da falta de uma maior capacidade de aproveitar os erros da
política atual do governo.
Há, ainda mais
problemas com a questão salarial, com sérios descontentamentos de amplas
camadas do funcionalismo público, que, mal tiveram a recomposição das perdas, e
com a legislação eleitoral que estão impedidos de ter aumentos neste período.
Acrescente-se que, se no governo de Lula, já não havia um atendimento das
reivindicações dos servidores e se adotou a prática de escalonar os salários
por anos seguidos, numa forma disfarçada de fingir que melhora os salários,
mas, na verdade, quando os funcionários recebem, acabam percebendo que a
inflação “comeu” significativa parte do que seria, efetivamente, melhoria. No
governo de Dilma, as negociações foram conduzidas com mão de ferro sem que, de
fato, houvesse a menor flexibilidade em relação a muitas das reivindicações.
Exceto os comissionados, o que se observa é que os funcionários públicos se
encontram cada dia mais numa situação financeira mais aflitiva com a sua grande
maioria endividada, via empréstimos consignados.
Acontece também que um
dos erros primordiais da atual política do governo foi a de, no tempo errado,
aumentar a taxa de juros comprimindo a taxa de crescimento da economia, o que,
entre outras coisas, o obrigou a tomar medidas populistas para tentar aquecer a
demanda como a diminuição do custo da energia, a manutenção do custo dos
combustíveis fora da realidade e as desonerações, bem como a criação de formas
de transferência de recursos para os mais pobres. O resultado todo mundo sabe:
inflação e mais aumento da taxa de juros. Quando se erra a mão o jeito é buscar
salvar o que é possível. É o que o governo tenta com um ajuste fiscal que corta
R$ 44 bilhões e pretende alcançar um saldo primário, em 2014, de 1,9% do PIB-Produto
Interno Bruto, a mesma taxa obtida em 2013, gerando um caixa de R$ 99 bilhões. É
uma tentativa salgada na medida em que, ano de eleição, é ano de abrir as
burras, ou seja, um ano complicado para realizar ajustes mais drásticos e que,
com um governo que já tem problemas de apoio, desagrada significativa parcela
dos políticos que precisam se reeleger e sem que suas promessas (de obras e
recursos) sejam realizadas ficam numa situação difícil. O não atendimento de
promessas e o corte de emendas de parlamentares, que são muitas, implica em
atritos e pode significar importante perda de apoio político. Acrescente-se
que, pelo lado das despesas, boa parte já é “carimbada”, sendo de difícil
redução, e pelo das receitas, as dificuldades também são muitas, já que as
desonerações (mesmo que com cortes) são essenciais para que o crescimento
anêmico da economia (previsto para 1,67%) não fique pior ainda. O certo é que o
governo não vem acertando a mão no tempero e, da forma que a cozinha anda, se
houver uma pressão mais forte, o desacerto no tempero será inevitável. E, com o
aumento da violência e as insatisfações com os serviços públicos, elementos é
que não faltam para que a comida seja indigesta. Não é à-toa que já se observa,
entre os militantes petistas, um movimento “Volta Lula”. É a constatação de
que, apesar da falta de oposição, a má condução política está levando o partido
à perda do poder.
sexta-feira, janeiro 17, 2014
A distorção política da realidade
A lógica no Brasil está
cada vez mais torta. Não há exemplo maior do que a polêmica (?) que envolve os
tais dos “rolezinhos” que, ultimamente, se espalharam como uma praga pelo país,
supostamente, como protesto contra a “discriminação contra os jovens pobres”. O
tamanho desta besteira só é maior por ser suportado por afirmações de
autoridades, como a ministra da Igualdade Racial, Luíza Bairros (PT), ao
afirmar que os jovens que participam dos rolezinhos nos shoppings são vítimas
de "discriminação racial explícita" (????) ou a do ministro da
Secretaria Geral da Presidência da República, Gilberto Carvalho, de que os shoppings
promovem uma “discriminação social" (????) ao proibir a entrada de jovens da periferia. E,
numa total inversão das coisas, chegou a afirmar que houve, mais uma vez, a
ação inadequada da polícia que “acabou botando gasolina no fogo” e ainda teve a
coragem de criticar as administradoras dos shoppings declarando “Eu não tenho
dúvida de que a concessão dessas liminares (para proteger os shoppings) contra
os rolezinhos também é um erro. Para mim é, no mínimo, inconstitucional.” O
que é, no mínimo estranho, é que este honorável senhor seja o primeiro a correr
para usar a polícia quando qualquer manifestação ameaça bater na porta do
Planalto, ou seja, parece que a Constituição, ou sua interpretação, muda de
acordo com os interesses.
As palavras ficam ainda
mais bizarras quando se lembra que as ruas, os prédios do governo, as praças
são públicas, enquanto os shoppings são empreendimentos privados, por sinal,
criados para gerar bem-estar, segurança, lazer e atividade econômica lucrativa.
Será que isto é possível com a invasão de uma multidão de jovens? É uma
gigantesca inversão dos fatos alegar discriminação, quando os shoppings e os
lojistas pretendem apenas manter a ordem, proteger o próprio patrimônio e
garantir a integridade dos seus consumidores, que costumavam frequentá-los como
se fossem ilhas de segurança na visível insegurança das cidades brasileiras. É
um total contra-senso quando contrapostos os discurso e o comportamento, pois,
as autoridades consideram normal ter todo o direito de manter seguranças,
cobrar identidades, exigir crachás, esvaziar ruas e praças, mas, os shoppings
não tem direito de se precaver contra tumultos orquestrados, planejados ou não,
que podem provocar grandes problemas e prejuízos? É a lógica torta de que os “pobrezinhos”
tem direito a tudo por serem pobrezinhos. E os direitos dos outros onde ficam?
Quem ressarciu, por exemplo, os prejuízos e lucros cessantes de lojas atingidas
nas manifestações de vândalos no ano passado? E não se tem notícia, em qualquer
parte deste país, de se ter impedido jovens, pobres ou não, de entrar nos
shoppings. Agora será que é possível se ter segurança e normalidade com
centenas de jovens pendurados numa escada rolante? Será possível reunir tantos
jovens sem comprometer as atividades econômicas e sem tumulto?
Não é à-toa que a
violência se alastra. Há uma completa falta de visão sobre os direitos e
deveres. Nossas polícias têm lá seus defeitos, mas, vivem sendo alvo de
críticas contundentes e eleitoreiras, quando, muitas vezes, apenas cumprem, e
muito bem, o seu papel. É absurdo que não se crítica os que fecham estradas,
ruas, invadem prédios ou acampam em locais inadequados e tumultuam ou tentam tumultuar
a vida dos cidadãos, dos trabalhadores, das cidades. A polícia, mesmo quando se
excede, age em reação, mas, acaba se tornando não quem zela para segurança,
mas, o alvo preferencial até mesmo da imprensa e da politicagem barata que
apóia barbaridades cometidas por manifestantes que podem ter a causa mais justa
do mundo, mas, devem responder pelo que fazem e pelos problemas que causam. É
este tipo de comportamento que acirra o faroeste em nossa vida cotidiana; que
conduz à inacreditável comemoração feita, em Campo Novo, pela morte de oito
bandidos de um bando que aterrorizou a cidade. Como a violência se vulgarizou,
a barbárie parece normal quando feita para restaurar a ordem.
É preciso que se
restabeleça a ótica correta. Que as autoridades assumam suas responsabilidades
e usem a ação policial contra os que, pobrezinhos ou ricos, discriminados ou
não, atentem contra a ordem pública, sem receio de que as imagens da ação policial
sejam usadas nas campanhas eleitorais. É preciso firmeza para preservar e
defender os direitos da maioria, garantir o direito de ir e vir e proteger o
patrimônio público e privado. Não se pode aceitar como normal a lógica
enviesada de que é possível se ter direitos sem respeitar os direitos alheios;
que se pode ter direitos sem deveres. Ora, no caso dos rolezinhos, não se
respeita os direitos nem dos empresários, nem dos freqüentadores dos shoppings.
Ou será que alguém é capaz de defender que tais manifestações serão sempre
ordeiras, pacíficas e que não causarão nenhum prejuízo? Se tiver alguém com
esta certeza que se providencie, por favor, tratamento médico, de vez que
chegou ao ponto máximo de distorção da realidade.
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