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terça-feira, julho 15, 2014

A necessidade inadiável do bom jornalismo brasileiro




Todo governo antidemocrático a primeira coisa que pretende é manietar a imprensa. O governo, e muitas vezes o partido do governo, que vive pretendendo colocar rédeas na imprensa é um governo, por definição, fascista ou totalitário- seja de esquerda ou de direita. Thomas Jefferson, com seu pensamento revolucionário e democrático já havia dito que a imprensa é indispensável para a democracia. Os jornais, as redações, mesmo com a pobreza mental que o estreitamento dos meios de manutenção tem tornado uma realidade, ainda são a melhor maneira de apreender a realidade mesmo com sua falta de cultura pela simples razão de que, ainda que de forma cada vez menos culta, possuem algum método de determinar o que é relevante e, ainda que de forma imperfeita, discutir os seus diversos lados.
É uma mentira deslavada do Partido dos Trabalhadores desejar fazer crer que são vítimas da imprensa, logo o PT que usou e abusou da liberalidade e até mesmo da conivência da imprensa. Culpam a TV Globo de ser oposição quando a Globo, de fato, sempre lhes deu guarida. Ao contrário do que se espalha, e, muitas vezes, com o apoio da direita, a Rede Globo não é um mal. A Rede Globo é competente e sempre deixou espaço para diversas opções e opiniões e, nunca antes neste país, foi tão governista quanto agora. É claro que por uma questão empresarial. Mas, os valores e as crenças da empresa não são de seus jornalistas que produzem o que bem querem e, para sermos justos, na sua grande maioria, comungam com o conservadorismo mais arcaico: o de esquerda. Tivéssemos uma imprensa contra, como os petistas alegam, nem teriam chegado ao poder nem, jamais, poderiam ter reeleito Lula depois do Mensalão. Foi a leniência da imprensa, seu conúbio com o processo político que permitiu a reeleição do metalúrgico e, mais ainda, não dissecar a candidatura Dilma, como a imprensa norte-americana, mais livre e mais rica, teria feito que permitiu uma eleição, por todos as razões lógicas, improvável.

O que a grande imprensa não pode fazer, sob pena de acabar como meio, é negar a realidade. Submergir na visão cor de rosa do governo que quer esconder que temos péssimos serviços públicos, que nossa infraestrutura está sucateada, que nosso competitividade é cada vez menor, que a inflação sobe e o Produto Interno Bruto-PIB desce. Jornalismo, em especial, é uma forma de conhecimento da realidade e tem que se aproximar dela. Não pode ser o Diário Oficial do governo como os governistas desejam. O que o PT, e seus adeptos, almejam não é jornalismo. Trata-se de publicidade, propaganda pura e simples. Uma forma de fazer com que a realidade seja como imaginam que deve ser. Que a imprensa brasileira faça jornalismo de verdade para que a eleição possa, no mínimo, não ser uma caricatura e que possamos nos aproximar mais de uma verdadeira democracia. 

domingo, julho 13, 2014

O mundo ficcional do pensamento conservador


Bruno Garschen defende com uma argumentação bem feita, no seu artigo “Os anticapitalistas estão contra nós”, divulgado pelo jornal Gazeta do Povo (http://www.gazetadopovo.com.br/colunistas/conteudo.phtml?tl=1&id=1422138&tit=Os-anticapitalistas-estao-contra-nos), a tese correta de que “Defender o capitalismo é uma tarefa inglória” porque, na sua quase totalidade o anticapitalista não é um interlocutor intelectualmente honesto. E não o é porque, previamente, já hostiliza quem pensa diferente com acusações pessoais de odiar os pobres e os beagles, além de elencar sobre o capitalismo pecados que não tem, de vez que, na definição de capitalismo, vaga e aberta a qualquer significado, pode-se atribuir, como Marx fez com vigor e crença, tanto que existe uma força sobrenatural que governa acima da razão de todos (um espírito imaterial, todo-poderoso e onipresente), bem como que o empresário, o dono do capital, age  sempre para explorar a mão de obra do coitadinho do trabalhador.
E aqui, nada melhor que usar as palavras do próprio Garschen “Não é uma coincidência o fato de muitos anticapitalistas serem intelectuais e/ou indivíduos que constroem suas vidas fugindo da realidade. Essa fuga, justamente o vínculo entre ambos, é alicerçada numa teoria utópica (geralmente socialista ou comunista) que a estrutura, legitima e que pavimenta a construção idealizada de uma realidade abstrata na qual o mundo concreto e as pessoas reais não são o que eles veem, mas, o que gostariam de ver, como bem apontou o economista americano Thomas Sowell em seu excelente Os Intelectuais e a Sociedade (p. 182-184)”. O que fazem com tal discurso estes ideólogos militantes, muitas vezes, disfarçados de professores é atribuir todos os males sociais, políticos e econômicos do mundo a um sistema que, ao contrário do que dizem, é o único que tem sido capaz de melhorar as condições dos pobres do mundo e dar liberdade política. Fazem isto para restringir o debate a uma zona de conforto e pobreza mental, de vez que não procuram rebater argumentos e sim caracterizar o adversário político como de “direita”, “tucano”, “coxinha” e outros adjetivos que são uma fuga da realidade. Eles criam uma representação ficcional que ignora que os sistemas têm defeitos e virtudes. O pior é que, crentes neste tipo de ópio político, se acreditam de vanguarda quando são, efetivamente, o pensamento mais retrogrado e conservador do presente.
O mais grave, todavia, é que esquerdistas são, por natureza, revestidos por si mesmos de um sentido sem precedentes de superioridade moral e política. Acreditam, piamente, que transportam as grandes bandeiras da humanidade, como liberdade, igualdade e solidariedade, e que representam a vanguarda da luta contra o poder opressor mesmo quando, como agora, são os que governam e respondem pelos péssimos serviços públicos. Ocorre que, por ser a minoria do progresso humano, estão isentos de qualquer tipo de crítica, daí, que a imprensa é “imperialista”, “associada aos grandes interesses financeiros”, “`PIG” e “conspiradora”. Afinal, mesmo não sabendo o que fazer, eles estão convencidos de sua relação intrínseca com a verdade, o futuro da humanidade, o “homem novo” que pretendem fazer não se sabe quando. Por isto só apontam os culpados: imperialistas, capitalistas, fascistas, traidores, burgueses. A repetição como farsa de velhas fórmulas de Lenin e Stalin. 
O que não conseguem responder é como isto será feito, de vez que a queda do Muro de Berlim, no século passado, enterrou de vez a utopia de uma sociedade planificada na medida em que as supostas excelências dos regimes socialistas (a igualdade social, a segurança do trabalho e a moradia, o futuro brilhante do ‘socialismo real’- jamais foi visto). A triste realidade legada por este tipo de regime, e de sistema de engenharia social, é uma só, basicamente uniforme na sua materialização em que existiu (ou onde ainda sobrevive, nos casos cubano e norte-coreano): ditadura política, polícias secretas, delação dos vizinhos, controle estrito das populações, miséria econômica, quando não Gulag ou extermínio dos ‘inimigos do povo’. Defender a estatização é defender a cegueira dos que ignoraram  por 70 anos, os crimes hediondos cometidos por seus líderes: Lenin, Stalin,Trotsky, Mao, Fidel. Nem querer ver os crimes de Yanukovych e de Maduro. Assim como somente criticar o que Israel faz, mas, não ver os crimes da OLP, do Hamas, do Hizbollah. Esquecer o que o Sendero Luminoso, as FARC, os Montoneros, a ERP fizeram. Não ver a morte dos que tentam atravessar o mar que separa Havana da Flórida na tentativa de fugir de um regime opressivo e violento. Por isto é que  Bruno Garschen tem razão quando diz que  “Sempre que um anticapitalista exibir o arsenal de equívocos contra o capitalismo, tenha a certeza de que o prejudicado com a alternativa política e econômica que defende não será ele nem os seus companheiros de ideologia e/ou de partido”. Seremos todos nós brasileiros que desejamos uma vida melhor e não a participação crescente do estado em nossa realidade e nossas vidas. Não precisamos de mais estado. Precisamos é que o estado nos deixe mais livres para cuidar de nossas vidas. Pode ser que venha a existir uma alternativa real melhor do que a do mercado. Mas, nos tempos atuais e no horizonte visível, não há. E não se pode perder a liberdade em nome de uma utopia que, repetidamente, tem se mostrado frustrante, castradora e mortal. Errar é humano, mas, devemos aprender com os erros. 

sexta-feira, julho 11, 2014

O vexame do Brasil na Copa afeta as eleições?


Bem, não há dúvida que o fatiamento da vida em caixinhas é uma forma dos homens entenderem sua complexidade. A vida, a realidade, se é que existe fora da percepção de cada um, é una, interligada, com suas partes indissolúveis. Em outras palavras: tudo nos afeta. A questão real é até onde a desastrosa derrota de 7x1 da seleção brasileira interfere nas eleições. Ou seja, se interfere significativamente.  Ao meu ver, e não há nesta observação nada científico, de vez que, cientificamente, não há correlações demonstráveis nem positivas nem negativas, a calamitosa derrota influi sim, no curto prazo, mas, muito pouco, até as eleições. É claro que a derrota acachapante do futebol brasileiro se reflete no imaginário popular como mais um fator que acentua o mal estar do povo brasileiro no momento. Porém, seu efeito deve se diluir também no curto prazo.

É provável, quase certo, que haverá um impacto imediato nas pesquisas sobre a imagem da candidata do governo. Dilma deve voltar a cair, talvez até um pouco mais do que levemente subiu com o bom humor que a seleção ao vencer inflou no País. Aliás, a tendência de queda que se sentia na sua candidatura deve continuar. A Copa do Mundo, como é praxe, paralisa, em grande parte, as atividades do País e, mesmo as convenções, a política, se resumiu ao essencial e, agora, deve ser retomada com mais intensidade. E, como é natural, a rotina também. E não se pode esconder que na rotina do brasileiro, desde o ano passado, dos famosos movimentos de rua de junho, produz um olhar para o cenário com uma perspectiva muito negativa, o que, é lógico, não favorece o governo. Favorece, isto sim, à mudança. Este é um fenômeno que ultrapassa o futebol e foi por ele, digamos assim, amortecido, mas, deve retornar com força total. Porém, não tem a haver com futebol. Tem muito a haver com o fato de que o brasileiro possui uma carga muito pesada de impostos e não os vê revestidos em serviços públicos de qualidade. Não é o resultado do futebol que altera isto, daí, que a campanha eleitoral não irá passar pelo mau resultado da seleção. Deve passar, obrigatoriamente, pelas estratégias eleitorais de cada candidato. De qualquer forma será um pleito difícil e irá girar sobre as mudanças que a população deseja.  Logo, a influência da Copa do Mundo na hora do voto, a meu ver, será muito pequena. Até porque políticos jogam em outro campo. E quem deseja ganhar deve encarnar os desejos de mudança da população. 

sábado, junho 21, 2014

A Copa das surpresas


A verdade, se ela existe, é a de que a copa das copas sempre será a próxima. Uma copa no Brasil, como não poderia deixar de ser, é mesmo a copa das surpresas, do inesperado, da improvisação. Ainda mais que, hoje, se trata de um excelente negócio internacional. Basta ver a abertura: feita por estrangeiros para estrangeiros onde só Claúdia Leite apareceu, e bem, de penetra. A copa é do Brasil, porém, está muito longe de ser a copa dos brasileiros. Basta ver que os mexicanos, em Fortaleza, estavam em casa contra o próprio Brasil! E que dizer de argentinos, colombianos, chilenos? Todos se sentem à vontade, enquanto que, para os brasileiros, esta é a mais estranha, distante e dispersa copa que já tiveram. Não me lembro de uma copa onde houvesse tanto distanciamento, tanto alheamento ou até mesmo torcida contra como esta. E não são apenas os protestos. O brasileiro comum ou não confia ou não se sente representado por uma seleção que está sendo lhe apresentada da hora do jogo. Se até jornalista confunde o Felipão com um sósia! Imagine o cidadão comum saber quem é Luiz Felipe ou William que possuem rostos comuns! A Copa, aliás, tem sido uma festa bonita, e torço para que continue assim, apesar da loucura de alguns, não digo nem protestos, mas, badernas mesmo. Nenhuma pessoa de responsabilidade e de bom senso, nos tempos atuais, irá enfrentar o imenso aparato repressivo que está montado apenas para criar problemas para um torneio que, os que gostam de futebol, e grande parte dos brasileiros, só têm a ganhar com o seu sucesso. Copa sim. Quem não gosta do governo não dá para esperar e dizer não a ele na eleição? Bom, mas, isto transcende a estas parcas linhas. O que pretendo mesmo é dizer que tudo está dentro da normalidade, com a improvisação de sempre, estádios prontos de última hora, passarelas balançando, como seria de se esperar, alguns atrasos normais em aeroportos, algumas fraudes, mais que normais em pacotes, passagens e entradas, e a alegria dos encontros, da festa, do futebol e da vida que escorre pelos estádios, restaurantes, bares, hotéis e ruas. E gols, muitos gols, o que é melhor ainda. A Copa está sendo surpreendente também nos gramados. Uma chuva de gols tem escondido o futebol ruim que se tem jogado. Se bem ainda seja melhor que o da copa passada. Somente a Alemanha, Chile e Costa Rica, até agora, parecem times em que os jogadores não foram apresentados na última hora. É certo que a Holanda e a França aplicaram chocolates fantásticos na Espanha e em Portugal, coisa normalmente difícil de acontecer, em boas partidas. Porém, é preciso acentuar que, inclusive por erros próprios estes times, perderam a estabilidade emocional durante a partida e, quando isto acontece, o vareio passa a ser normal. O mesmo aconteceu, por exemplo, com a Suíça, outro chocolate que a França aplicou. No entanto, as falhas na defesa, as mãos de pano de goleiros e na reposição das bolas explica muito do que houve. Se não fossem os erros, e em demasia, não sairiam, certamente, tantos gols. Se um time, mesmo regular, não erra muito, complica mesmo para os melhores times. Foi o caso da Austrália, um time de qualidade similar a de Portugal, mas, sem um Cristiano Ronaldo, por exemplo, que quase complica a Holanda no segundo jogo. Alguns jogos foram emocionantes. Cito, entre os que assisti, o jogo que tinha contornos de jogo da morte, entre Chile e Espanha ou o Uruguai e Inglaterra, em que os jogadores colocaram a alma nas pontas das chuteiras. Nesta segunda rodada ainda incompleta já se delineam algumas certezas e um quadro que favorece alguns times. Certamente, salvo se houver um contratempo inesperado, por exemplo, Argentina, Alemanha e França tendem a estar nas quartas, dado os cruzamentos. A tendência é que um ou talvez outros dois saiam de Brasil, Holanda e Chile. Costa Rica ou México podem ser as surpresas. Há as incógnitas de Colômbia, que mesmo avançando sem problemas, não tem jogado bem e do Uruguai, que depois de tropeçar, se rearrumou em cima da Espanha. Mas, enfrenta a Itália, ou seja, um dos dois ex-campeões mundiais terá que, obrigatoriamente, ser companheiro de eliminação nesta fase de Espanha e Inglaterra. Ainda teremos muitas jogadas bonitas, gols inesquecíveis, emoções. Esta Copa, no entanto, não tem, até agora, um time que se possa dizer que está enchendo os olhos mesmo com a enxurrada de gols. Em compensação muitos jogadores tem feito a festa da torcida. Benzema, Luis Suárez, Van Persen e Robben se sobressaem pelos gols que fizeram, mas, há uma pá de grandes jogadores que, pela quantidade, faremos injustiça em tentar citar. Também muitos que estão devendo, inclusive grande parte dos jogadores brasileiros. A esperança é que terão ainda tempo para se redimir.

domingo, junho 15, 2014

Os fatos rasgam a fantasia


Há uma evidente, e continuado, noticiário internacional que, ao analisar a Copa de Mundo de 2014 no Brasil que, no momento, dá mais atenção aos protestos da população do que ao evento. O governo se queixa de que existe uma “contaminação” da mídia internacional pela versão dos grandes meios de comunicação internos. Num esforço de modificar esta imagem a presidente Dilma convidou os correspondentes de 21 meios de comunicação que escreveram sobre o país para um jantar no qual tentou fazer um exercício de sedução para mudar a visão dos jornalistas. O resultado não foi lá essas coisas tanto que, nos dias seguintes, o Wall Street Journal e o New York Times escreveram que “O clima está pesado” em relação ao desânimo que cerca a Copa. O The Independent postou que “Motins, greves e engarrafamentos encobrem a abertura em São Paulo”. O Financial Times e o francês Libération que classificaram a greve dos metroviários em São Paulo como “um movimento de cólera geral” e, completando as citações o chileno El Mercurio comenta “O país está blindado como se tratasse de uma guerra”. E com o xingamento do qual Dilma foi alvo na abertura da Copa a visão, certamente, não deve se alterar muito. A tendência é de que a imagem se torne ainda mais negativa.
Pelo lado do governo, e do comando da campanha de reeleição, vigora a versão simplista de que a mídia estrangeira se pauta pelo noticiário dos grandes grupos de imprensa brasileiros, que estariam, em diferentes níveis, comprometidos com as oposições na próxima eleição presidencial. Há um imenso problema nesta versão que é  a de que tanto os correspondentes estrangeiros, quanto o público não teriam capacidade crítica, comprando a visão partidarizada da imprensa, que seria a gênese do mau humor  coletivo e das dificuldades de imagem do governo. É como se o PT não tivesse obtido hegemonia, não tivesse um largo aparelhamento na imprensa, e sendo o seu maior cliente, considerasse que a imprensa faz o relato que deseja e os fatos, em si, nada significassem, ou seja, as pessoas não analisam, nem tem outros meios de ter opinião e dependem de como os fatos são narrados e dos interesses (oposicionistas, no caso) de quem faz a narrativa.
Embora a narrativa importe, a percepção dos fatos é muito mais decisiva que as narrativas. Se não o fosse, com a mais impressionante máquina de propaganda que um governo já possuiu no Brasil, com a superexposição que Lula e Dilma possuem, com os gastos milionários de empresas estatais em propaganda positiva, certamente, a imagem do governo devia ser uma maravilha. Não é. Contra a versão das “Polianas” petistas de que o Brasil vive uma fase cor de rosa, com boa parte da cor produzida pela propaganda governamental intensa, os cidadãos topam com o lixo, a poluição sonora e visual, com ruas e estradas esburacadas, transporte público e serviços públicos em geral ruins e, para completar, a insegurança pública na vida e no trânsito, que ceifam 100 mil vidas por ano e colocam o Brasil como um dos países de maior número de homicídios no mundo. A construção dos estádios e as promessas não cumpridas de mobilidade urbana foram só a gota d’água na insatisfação pública que se testemunha e se propaga no que continua a ser o mais eficiente meio de comunicação: o boca a boca.

Principalmente com a internet a grande mídia perdeu muito de sua capacidade de alimentação do imaginário coletivo. A tese do Planalto do povo sendo alvo de uma lavagem cerebral, para construir uma narrativa única, peca por falta de verdade e historicidade. Fosse assim o PT não estaria no poder. Que a imprensa tem seu lado e seus erros, é verdade. Mas, não tem nem uma versão única, nem deixa de ter uma quantidade significativa de órgãos, alguns muito bem pagos, para difundir a versão cor de rosa do governo, porém, assim como os jornalistas estrangeiros, a população se comporta em relação ao que estão vendo e sentindo.  Agora tentar dizer que não há uma grande insatisfação da população e que é somente os “VIPs”, a elite branca “raivosa” xingou Dilma no Itaquerão é buscar distorcer o fato de que, em muitos momentos, das vezes em que ocorreu,  o xingamento partiu das arquibancadas, onde estava a população mais pobre, e que o coro não era nenhuma novidade, pois, se iniciou muito antes num show do Rappa, que não se pode dizer que concentra a elite, quando, pelo menos, 35 mil pessoas entoaram o xingamento em relação à presidente. Se há uma narrativa para ser revista é a de que os correspondentes estrangeiros não são profissionais experientes e não procuram externar, com um olhar externo, o que veem e o que veem é uma polarização exacerbada entre um governo triunfalista, que pinta uma versão de um Brasil de primeiro mundo, que ninguém enxerga fora eles, procurando, de qualquer forma, desqualificar ou criminalizar quem aponta erros ou crítica uma Copa planejada, e mal, para fins políticos. O xingamento de Dilma é só o início de uma fantasia que está sendo rasgada pela realidade dos fatos. 

terça-feira, junho 03, 2014

Baixo crescimento é fruto dos erros da política econômica


Por mais que as autoridades façam discursos otimistas, o fracasso da política atual de desenvolvimento centrada no consumo, torna-se evidente com a pequenina expansão de 0,2%, no primeiro trimestre, acompanhada de inflação alta e um enorme rombo comercial. Não adianta o ministro da Fazenda, Guido Mantega, desejar atribuir o baixo crescimento brasileiro a algum problema conjuntural ou a fatores externos. É o ambiente econômico, a indústria em declínio e a baixa produtividade que conduzem ao baixo desempenho dos indicadores de nossa economia.
Isto é visível, por exemplo, na pesquisa divulgada pelo IMD, escola de negócios da Suíça, o Índice de Competitividade Mundial, no qual o Brasil perdeu três posições este ano, estando, agora, em 54º lugar, num universo de 60 países analisados. Em quatro anos, desde o início do mandato de Dilma Roussef foram 16 posições perdidas. Nos anos anteriores, o Brasil caiu pelo avanço dos outros países. Em 2014, todavia, não foi o que aconteceu. Perdemos posições por nossos erros, entre eles o aumento de custos derivados da inflação e a baixa inserção do país no comércio exterior e a perda de  participação no mercado internacional.   São as políticas econômicas desastradas que geram ruídos e incertezas, fruto das medidas voluntaristas e erráticas do governo. Entre estes nada mais nocivo que a tentativa de intervir na fixação de preços e na taxa de lucros, bem como insistir na política econômica heterodoxa de estimular o consumo, em detrimento dos investimentos. Daí a retração dos investimentos e o desestímulo a novos negócios.
As pesquisas de confiança, já fazem algum tempo, seja de que setor econômico, e também das famílias, já sinalizaram o cansaço com as ações do governo que não dão respostas efetivas aos problemas que nos afligem e se traduzem  num quadro que beira ao caótico (protestos, depredações, invasões de prédios públicos e privados, violência, corrupção, entre outras coisas). Tudo isto tem a haver com a falta de perspectivas e reflete o esgotamento das políticas de estímulo ao consumo, em especial das “políticas de transferência de renda” e reajustes reais do salário mínimo, que somente são sustentáveis se capazes de atrair novos investimentos que possam responder ao aumento da demanda. De nada adianta manter o desemprego em patamar baixo se, por outro lado, são gerados ruídos que assustam os agentes econômicos e desestimulam os empresários e até os estimulam a investir no exterior.  Como o governo não passa  segurança aos investidores, a oferta de bens não aumenta, de forma que somente importando para fazer frente a uma demanda mais alta. Com o consumo excessivo, a poupança interna recuou a 12,7% do PIB, no primeiro trimestre deste ano, e os  investimentos para 17,7%, o que demonstra que o crescimento pífio do PIB neste primeiro trimestre não tem perspectivas de melhorar. Com este quadro, aumenta a possibilidade do crescimento deste ano ficar abaixo de 1,6%, podendo até recuar a 1,0% ao fim de 2015. Sem mudanças na política econômica iremos continuar patinando em torno de baixos índices de crescimento. Sem investimento não existe maior capacidade produtiva, nem crescimento da produção. E não há discurso ou milagres que desmintam esta dura realidade. 

terça-feira, maio 20, 2014

Má alocação do crédito diminui crescimento


A presidente Dilma, quando esteve em Davos, na Suíça, tentou sensibilizar os investidores estrangeiros fazendo loas ao Brasil que, segundo ela, se tornaria mais competitivo. Na íntegra: "Quero enfatizar que nós não transigimos com a inflação", disse. "A responsabilidade fiscal, por sua vez, é um princípio basilar da nossa visão de desenvolvimento econômico e social." Responsabilidade social meio esquisita, de vez que Rousseff parou em Cuba, onde o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) despejou quase US$ 700 milhões em crédito subsidiado para financiar o Porto de Mariel. Depois de cortar a fita de inauguração, a generosa presidente, que não tem mais dinheiro para educação e saúde no Brasil , prometeu mais US$ 200 milhões em empréstimos do BNDES para a segunda fase da construção. O "Valor Econômico" divulgou que Cuba ocupa o terceiro lugar entre os destinos dos recursos do BNDES. O problema de tais empréstimos é que, desde 1959, a ilha de Castro acumulou US$ 75 bilhões em dívida estrangeira não paga e outras obrigações,-inclusive US$ 35 bilhões para o Clube de Paris. Ou seja, se empresta regiamente a um dos maiores caloteiros do mundo num negócio de alto risco para colocar dinheiro no bolso dos irmãos Castro.
Há, é claro, o outro lado da moeda. Não é só Cuba quem ganha. A Odebrecht, grande construtora brasileira, ganhou o contrato para modernizar o Porto de Mariel, portanto, se torna a grande beneficiada do empréstimo subsidiado do BNDES e lucra ainda mais porque também foi contratada para modernizar o aeroporto de Havana, com outro financiamento subsidiado do BNDES. É verdade que financiar empresas brasileiras é a razão de ser do BNDES, mas, banco é banco e deve fazer financiamentos com a perspectiva de retorno. Acrescente-se que, mesmo que os empréstimos do BNDES e dos outros bancos estatais (Caixa Econômica Federal e Banco do Brasil) não estejam incluídos na dívida bruta, o que se observa é que eles tem dependido de transferências do Tesouro que, para isto, tem que captar recursos no mercado. Em suma, captam a um custo mais alto para financiar os empréstimos subsidiados. Como isto não vai impactar na dívida total é preciso um mágico para explicar. E são cada vez maiores as exigências de recursos, pois, os empréstimos da Caixa cresceram a uma média de 45% ao ano nos quatro anos entre 2009 e 2012. Os empréstimos do BNDES cresceram 23,5% entre 2009-12, e o crédito do Banco do Brasil cresceu 24% por ano entre 2009-12. Como as taxas de juros sobem, sobe o custo do serviço da dívida do governo, o que só aumenta o déficit fiscal. O governo, então, aumenta mais o peso das políticas fiscais e regulatórias criando entraves para as empresas, para o crescimento e aumentando a inflação. E, para coroar a falta de coerência, o banco central vem aumentando a taxa básica de juros, a Selic, que já chegou a 10,75% ao ano.
O que há de ruim também é que a qualidade dos empréstimos dos bancos oficiais tem sido altamente politizada o que aumenta o risco das taxas de inadimplência. Neste sentido vale lembrar que o BNDES (nem vamos lembrar os fundos de pensões) se especializou em apostas perdedoras. Não se sabe os valores, mas, estima-se que, somente para as empresas lideradas por Eike Batista foram liberados US$ 4,7 bilhões. É uma má alocação do crédito, que, para não ser mais duro, não sendo encaminhado para onde deveria, naturalmente, representa um crescimento menor da economia. É um comportamento desanimador para os investidores, internos e externos, daí a fuga do espirito animal do país. Como investir num local com tão altos impostos, má alocação de capital, taxas de juros altas, exceto para os ungidos, num cenário de incerteza econômica e inflação crescente? É esta a resposta que está sendo impossível de ser dada pelo governo atual. E a razão pela qual, apesar das promessas de Rousseff em Davos, não há, no horizonte das atuais políticas públicas, condições reais de se criar uma economia competitiva.

sexta-feira, maio 16, 2014

Se o time não joga bem é hora de trocar de técnico


As próximas eleições presidenciais, pelo menos no Facebook, onde, supostamente, estão pessoas de classe média e escolaridade um pouco acima da média, de fato, já começaram pelas manifestações constantes das pessoas. Um dado que se ressalta é que, pelo menos no Face, o Partido dos Trabalhadores já perdeu feio a batalha de argumentos. Não somente porque desertaram do partido importantes ícones que, no passado, levantaram a sua bandeira, como pela completa falta de argumentos e de esperança que o governo e Dilma podem oferecer. O caso mais recente do cantor Ney Matogrosso é exemplar. Ney, um artista normalmente tímido, não aguentou o clima do país e desabafou, numa entrevista à televisão portuguesa, afirmando que as coisas no Brasil andam ruins pela ineficiência governamental e os péssimos serviços públicos. O que fizeram em relação as suas declarações? Procuraram desqualificá-lo ora dizendo que está senil ou que, agora, deixou de ser rebelde, pela idade não é uma pessoa digital, nem capaz de avaliar bem a situação, enfim, é um títere da Rede Globo. Mas, ninguém vem dizer, em público, que a segurança é ótima, a educação é a melhor do mundo ou a nossa saúde é padrão Fifa, que as estradas são tapetes ou o transporte coletivo é de primeiro mundo.  
Aliás, apesar de ser o governo quem alimenta imprensa, inclusive de recursos, a cegueira ideológica (ou muitas vezes intere$$eira) faz com que se venda a farsa de que a imprensa cria um discurso oposicionista, em especial a Globo que oculta o que pode dos “malfeitos” do governo, de que tudo vai mal no país. É menos verdade. Acontece é que as coisas vão mesmo muito mal e não é possível ocultar, com tanta deterioração em todos os setores, daí que a proteção que a imprensa tenta dar ao governo se torna vulnerável. Não dá mais, como no passado, para ficar somente cantando loas, como nos tempos de Lula da Silva. Até porque a imagem de Dilma é de um ser completamente distante, incapaz de, ao menos, fazer o jogo de cena que o metalúrgico fazia de que se importava com as pessoas.
Um dado muito interessante da pesquisa Datafolha mais recente é de que, num segundo turno, entre os entrevistados de renda familiar de 2 a 5 salários mínimos, Dilma tem uma intenção de voto de  43% contra 39% de Aécio Neves. Ou seja, é um empate técnico mesmo entre os mais pobres. E isto deve se acentuar ainda mais com a Copa quando serão mostrados os gigantescos e suntuosos estádios recém construídos, com fartos recursos públicos, que contrastam com as dificuldades de uma população que consumiu muito se endividando e, hoje, em especial nas cidades, enfrenta uma grave crise urbana. É uma questão que deve ficar clara com os estádios: se podem se fazer estádios com qualidade por que não se pode ter escolas, hospitais, creches, transporte público e segurança de que tanto precisamos? E o atual governo, no poder faz 12 anos, não pode mais colocar a culpa da má qualidade de tais serviços em FHC. Neste sentido a Copa é uma herança mais que maldita de Lula para Dilma.  Que vai haver segundo turno ninguém mais duvida, porém, o que é mais surpreendente é a velocidade que se observa na aceitação que o discurso oposicionista passou a ter e, mesmo nas classes de menor renda, a certeza que o governo se exauriu e que está na hora de trocar de governo. E se este sentimento se acelerar, como parece que está se acelerando, Eduardo Campos passa a ter uma grande chance de crescimento e a mudança, então, será inevitável. Se o time não joga bem o primeiro que cai é o técnico.


segunda-feira, maio 12, 2014

A crueldade da burocracia brasileira


Se formos pensar em termos de burocracia será imprescindível ir buscar o seu conceito em Max Weber. É do sociólogo alemão a concepção científica da burocracia que ganhou com ele o significado clássico de que a burocracia seria a organização eficiente por excelência por conseguir explicar nos mínimos detalhes como as coisas deverão ser feitas. Para Weber, aliás, a burocracia moderna não seria apenas uma forma avançada de organização administrativa, com base no método racional e científico, como também uma forma de dominação legítima. Para conceber esta visão ele creditava aos burocratas os atributos que regem o funcionamento da burocracia como formas de relações sociais das sociedades modernas.
Para Weber, a burocracia e a burocratização são processos inexoráveis, ou seja, inevitáveis e crescentes, presentes em qualquer tipo de organização, seja ela de natureza pública ou privada, inclusive raciocinando que, sem a organização burocrática, o desenvolvimento de uma nação seria retardado por ser indispensável ao funcionamento do Estado um aparato burocrático para bem cumprir suas funções. Portanto, em Weber, apesar de ter existido em períodos anteriores, só no contexto do Estado moderno e da ordem legal é que a burocracia atingiu seu mais alto grau de racionalidade, ou seja, a ação burocrática tende a visar, de fato, a eficiência e resultados. É evidente, porém, que não conhecia o Brasil, nem a sua capacidade de canibalizar conceitos, palavras e instituições. No Brasil como se sabe o que menos existe em qualquer burocracia é racionalidade e busca de alcançar objetivos. Numa síntese: desmoralizaram completamente a concepção de Weber.
Por aqui o que vale mesmo é a famosa concepção popular, e certeira, de que a burocracia é uma organização lenta, vagarosa, mal educada e na qual os papéis e atestados sempre se multiplicam para impedir soluções rápidas ou eficientes. O termo é empregado não somente com o sentido de apego dos funcionários aos regulamentos e rotinas, causando ineficiência à organização, como também pela singular jabuticaba de criar dificuldades para vender facilidades tão próprias do país. No Brasil a burocracia é um sistema de moer as pessoas que se caracteriza não pelos atributos que Weber viu, mas, sim pelos defeitos que o sistema apresenta e aprimora. No Brasil a burocracia é o suprassumo da crueldade e da insensibilidade. Tanto que ainda que você insista em dizer que está vivo, e peça para que verifiquem a pressão e as digitais, de nada adianta se o sistema diz que você morreu. E, se não tomar cuidado, o burocrata mata para dizer que o sistema está certo.
Não se precisa ir longe para verificar isto. Basta pinçar do pronunciamento de Dilma Roussef a notável atualização da tabela do Imposto de Renda. Imposto de Renda que o contribuinte é obrigado a fazer a declaração para ser taxado, ou seja, faz o papel da burocracia para ser por ela explorado. Porém, a burocracia em nosso país é de uma crueldade invulgar. Basta ir a um posto médico onde não se atende ninguém mesmo chegando morrendo sem fazer uma ficha. Basta ver a concessão das aposentadorias que é um processo de extorsão dos benefícios que se angariou pela vida. Basta verificar que quando se trata de sugar recursos o Estado é rápido e insaciável, voraz mesmo. Quando se trata de reconhecer direitos, porém, aí de ti contribuinte, ninguém te fará justiça. A justiça só existe mesmo para os burocratas e seus amigos. Crianças jamais verás um país tão burocraticamente cruel quanto este! 

terça-feira, abril 15, 2014

Alto Madeira, um jornal predestinado


O que é um jornal? As respostas para esta indagação pode ter diversas interpretações, mas, não se poderá fugir do fato de que se trata de um meio de comunicação, um papel de imprensa, ou seja, mais barato, repleto de palavras e fotografias feito por profissionais denominados de jornalistas. Jornais podem trazer de tudo. Alegrias, lágrimas, tragédias, vitórias e derrotas, o belo e o feio, o perto e o distante, as opiniões e os fatos nem sempre bem recebidos. Também é uma exposição para o comércio e a indústria vender seus produtos, um espaço para que políticos apareçam ou desapareçam (hoje, cada vez mais, na página policial ou com a célebre pulseirinha prateada que a Polícia Federal presenteia na hora de prender). Pode ser a dor do boxe ou a sensação provocada por um gol no futebol. Os jornais também tem periodicidade. Em geral são diários, porém, há semanais, quinzenais, mensais e, mesmo os que aparecem de vez em quando. Uns nascem e morrem logo. Outros criam uma longa história e, por isto mesmo, passam a ser independentes de quem o fez, o faz. O jornal cria sua própria personalidade, história e alma. É por tal razão que há jornais e jornais.
No fundo, um jornal é como uma pessoa: se faz na medida em que vive. Um jornal que morre logo é como uma criança que, mal nasceu, se vai. Só os próximos lamentam a perda, o que poderia ter sido. Há outros, como é o caso do nosso Alto Madeira, que caminha, rapidamente, para alcançar os 100 anos e, por tal razão, é o repositório de toda uma história de nossa gente, de nossa terra. Este jornal se confunde tanto com Porto Velho e o Estado de Rondônia que foi fundado por Joaquim Augusto Tanajura, o primeiro superintendente (prefeito) de Porto Velho, em 15 de abril de 1917, portanto, o Alto Madeira, um dos mais antigos jornais em atividade na região, vem registrando a história por exatos 97 anos. Com uma vida tão longa já é necessário, e diga-se de passagem uma tarefa hercúlea, escrever sua história que, como em todas as grandes histórias, tem suas fases de ascensão e de descenso, porém, a maior vitória, sem dúvida, é a de continuar sendo o que sempre tem sido: uma tribuna de liberdade, de opiniões diversas, de espaço para a vida local e suas mudanças, apesar dos erros, inclusive gramaticais, que, em especial, nos novos tempos acontecem. Seu maior êxito se mede por continuar vivo e se renovar mantendo uma linha editorial que sempre privilegia a notícia.

É um jornal que, como se pode constatar indo rever suas edições, jamais deixou de ser uma fonte de ideias e de promoção do desenvolvimento da livre iniciativa, dos negócios, da cultura, além de ter sido a escola dos maiores jornalistas de Rondônia. Como pertenceu a Joaquim Tanajura também participou dos Diários Associados, de Assis Chateaubriand, a primeira grande organização de meios de comunicação do Brasil, e tem sido, desde o final dos anos sessenta, conduzido pelos Tourinhos, em particular com Luiz Tourinho na direção dos negócios, e Euro Tourinho, como o grande orientador da redação, sem favor algum o decano de nossa imprensa. Hoje, todavia, por sua importância, é uma entidade que vai além dos que o guiam, o fazem, pois, como o jornal mais antigo do Estado é um patrimônio de todos nós. Só posso, nesta data, como um partícipe menor de sua história, desejar que o jornal volte aos seus melhores dias. Que, sendo modernizado como está sendo, volte a circular em todo o Estado e proporcione o acesso ao seu conteúdo por uma nova e moderna página eletrônica, de vez que, lá fora, quando se fala em jornal de Rondônia, é ainda o Alto Madeira,  que é a referência. Que os 100 anos que, certamente, serão muito comemorados, na medida em que quase não existem jornais brasileiros com tal longevidade, encontre o Alto Madeira como a fênix revivida em ascensão, para, contra a opinião dos que pensam que os jornais vão morrer, possa continuar pelo tempo afora registrando, pelo menos, os próximos 100 anos de nossa terra e nossa gente. Que o Alto Madeira possa continuar a ser a testemunha da história de Rondônia, uma vocação para a qual parece ter sido predestinado. 

segunda-feira, abril 14, 2014

Eles não sabem o que querem


Ao nos aproximarmos da Copa do Mundo também nos aproximamos do primeiro aniversário das grandes manifestações de rua que inundaram as cidades brasileiras durante junho de 2013. É o momento de olharmos para trás e perguntar em que resultou tanta movimentação, tanto barulho, tantas propostas dispersas e o abalo sísmico sofrido pelo nosso sistema político que captou, ou pelo menos fingiu captar, a mensagem de que a maioria da sociedade não se sente representada por aqueles que, supostamente, deveriam cuidar de seus interesses. É verdade que foram, na sua grande maioria, pessoas da classe média cobrando maior representação, melhor qualidade das políticas públicas, mais saúde, educação e uma gama de outras reivindicações que desfilaram pedindo maior eficiência e da moralidade, porém, o apoio das classes mais baixas, apesar de menos ostensivo, foi muito real.
Uma primeira impressão é a de que os resultados, apesar dos discursos de que os políticos “ouviram as ruas” é o de que se ouviram deve ter sido numa língua estranha, de vez que não mudaram em nada. Continua abismal a distância entre o que a população deseja e o governo, aqui envolvendo todas as instâncias políticas, oferece. O que está na base da insatisfação popular somente tem se agravado. É inegável verdade de que houve um achatamento da massa salarial brasileira. Também é verdade que este achatamento se torna mais sensível nas camadas da classe média onde o acesso à educação universitária, mesmo de péssima qualidade, resultou numa diminuição expressiva dos ganhos de imensa parcela de segmentos da classe média. Acrescente-se que se, sob o ponto de vista macro, a massa salarial tem crescido este crescimento se dá pela diminuição salarial. O aumento do emprego, tão fortemente alardeado pelo governo, é um aumento de empregos de baixa qualificação e de baixa renda que, de fato, inclui mais, porém, penaliza enormemente segmentos significativos da classe média alta, seja pela forma de perda de empregos, ganhos ou até mesmo de tributação mais elevada. E com a elevação da inflação esta base se consolida e se amplia.

Ainda mais que com a falta de um projeto real de desenvolvimento, na medida em que, efetivamente, o reformismo petista somente mudou pontualmente as estruturas do Plano Real, por sinal um plano de estabilização, permitiu que, via crédito e consumo, fosse reduzido um pouco a pobreza, porém, sem tocar nos alicerces da imensa concentração da propriedade dos patrimônios e ativos produtivos, o que, de fato, impede uma melhor distribuição de renda, apesar da ficção da “nova classe média” de R$ 1.200,00. O que se observa, desde que a crise eclodiu, é que o governo, mesmo sem saber o que fazer, procura apenas manter a popularidade para enfrentar as eleições e, posteriormente, quem sabe, buscar um projeto. Por outro lado, a oposição, também sem saber o que fazer, não propõe nada de novo. Nem sequer algo de impacto como, por exemplo, acabar com o imposto de renda, o que seria uma bela ideia. Vamos chegar ao processo eleitoral marcado por esta imensa falta de clareza na agenda futura. Embora ambos saibam que querem o poder, nem o governo nem a oposição sabem o que fazer e, com uma correlação de forças que somente se une no seu descontentamento com a situação, é impossível saber o que pode acontecer, inclusive, porque a própria população também não sabe o que quer. O grande perigo, ou talvez a solução se quem encarnar a resposta for competente, é que podemos ter muitas surpresas até a eleição. Mas, será preciso mudar, radicalmente, a forma de fazer política no país, sob pena de ingressarmos numa fase de dificuldades que nos levarão a novos tempos de ruptura institucional. 

sábado, março 29, 2014

Os sinais da mudança

Ao contrário do que se veicula o problema maior da reeleição de Dilma não é a queda na pesquisa CNI/Ibope que, em geral, tem maior efeito apenas nas classes mais politizadas. Embora a queda da popularidade acentue os problemas e, de fato, tenha acontecido no pior momento para o governo até agora, uma boa leitura mostra que é apenas mais um sinal no ponto de inflexão de um governo que não fez o seu dever de casa. Por mais que o controle da imprensa, por meios econômicos, a propaganda intensa e a tentativa permanente de sufocar a oposição seja um traço do poder opressivo que busca se tornar único do PT, os furos no dique se acumulam e todos eles derivam da incapacidade administrativa do governo seja em relação à política econômica, ao atendimento de suas bases ou na construção da infraestrutura e oferta de serviços básicos à população.
Há uma questão insolúvel na estratégia do Partido dos Trabalhadores que é o de desejar se apresentar como um governo de “todos” quando, ostensivamente, faz sua política se baseando nas camadas economicamente mais frágeis da sociedade, ou seja, o que antes criticava, o coronelismo das antigas elites, é, hoje, a sua força. Basta verificar que foram os grotões que elegeram Dilma e não as camadas da população de maior escolaridade e renda. E, no momento, são os grotões que escapam de seu controle. Antes, porém, a situação era completamente diferente. Os grupos de menor renda não estavam, como estão agora, descontentes com o governo. Havia uma aprovação enorme de Lula, a inflação sobre controle, o crescimento da economia vendendo esperança de dias melhores e Dilma era uma desconhecida avalizada pelo otimismo que o governo trescalava.
Hoje, o panorama é outro. Além da insatisfação geral demonstrada nos movimentos de junho do ano passado, os descalabros visíveis, como os dos gastos da Copa e da Petrobras, a intervenção governamental que desestimulou os investimentos no País e a fuga até mesmo de capitais nacionais e o agravamento dos problemas das contas externas se misturam com a falta de capacidade do governo de negociar quando encontra resistência. O normal é desejar satanizar quem se antepõe aos seus desejos o que, muitas vezes, dá certo, porém, é um recurso que está se esgotando na medida em que os aliados sentem que só o são na hora de apoiar. E, para piorar, vivem sob a ameaça constante de operações policiais que acusam de serem dirigidas contra quem não se comporta conforme o figurino. Agora mesmo o senador Clésio Andrade se queixa de que, por ter assinado a CPI da Petrobras, o ameaçam com retaliação via o erroneamente denominado “Mensalão de Minas”.

O problema é que o que antes funcionava não funciona mais. O governo perde ostensivamente a batalha das ideias. Seja no Facebook, nos blogs, nos jornais, nas filas, que parecem ter se multiplicado em todos os cantos, xingar o governo está se tornando o esporte favorito. É bem verdade que quase todos dirigentes e políticos, mas, Dilma está passando a ocupar um significativo lugar de destaque. E o que é mortal para as eleições, e a obtenção das assinaturas para a CPI da Petrobras sacramentou, é que, para os políticos, como para grande parte da população, ela não representa mais esperança, o que eleitoralmente é mortal. As defecções não se acumulam por acaso: os políticos sentem que os sinais indicam os caminhos da mudança. 

quinta-feira, março 20, 2014

Palco Giratório: a vitória da diversidade cultural


Aconteceu em Rondônia, mais precisamente no Audicine do SESC Esplanada de Porto Velho, neste último dia 19 de março, quarta-feira, o lançamento nacional do Projeto Palco Giratório 2014, que será estendido para mais de 120 cidades brasileiras que receberão 768 apresentações artísticas previstas para acontecerem até o mês de dezembro. O público rondoniense teve a oportunidade de assistir, na noite da quarta-feira (19), no Teatro Um do Sesc Esplanada, o espetáculo de abertura comandado pela Companhia Solas de Vento, de São Paulo, com a apresentação do espetáculo “Homens de Solas de Vento”. É a 17ª edição do Palco Giratório, uma ação ímpar no cenário cultural brasileiro, que muito tem ajudado na consolidação, na promoção e difusão das artes cênicas a partir da circulação de espetáculos, grupos e coletivos de teatro, dança e circo. Trata-se de uma iniciativa, de caráter nacional do Serviço Social do Comércio-SESC que tem como objetivo estimular o exercício da cidadania cultural, a diversidade, a formação e o desenvolvimento de aptidões e práticas artísticas que envolvem oficinas, debates, intercâmbios, pensamentos e conversas com os públicos depois dos espetáculos.
É, no momento atual, sem sombra de dúvidas, o maior estímulo nacional ao estudo, à pesquisa de metodologias e de criação artística e de fomento às produções locais, ao mesmo tempo, que estabelece parcerias institucionais e favorece o intercâmbio cultural entre os artistas, produtores e o público.  Esta ação somente se torna possível pelo sistema de gestão compartilhada entre o Departamento Nacional do SESC e seus departamentos regionais que, em cada estado, possibilitam uma ação cultural que se caracteriza por uma imensa diversidade e efetiva abrangência nacional. Importante também é o fato de se ter estabelecido uma rede de artes cênicas e consolidado uma Curadoria Nacional que faz a seleção de espetáculos para compor a programação do Palco Giratório a partir de critérios que se baseiam na filosofia dos grupos, na capacidade de formar e na criatividade, de modo que, o que se busca, é dar oportunidade ao diverso sem perder de vista os impactos e os contextos sociais. A gerente de cultura do Departamento Nacional do SESC, Márcia Rodrigues, afirmou que serão mais de 500 mil pessoas assistindo às apresentações nos 26 estados brasileiros e no Distrito Federal. Para ela, "O Palco Giratório existe há 17 anos, este é o quarto ano de lançamento nacional, pela primeira vez, com muito orgulho, sendo realizado em Rondônia. Nosso objetivo é promover o intercâmbio e a articulação de grupos teatrais, de dança, enfim, formar aldeias culturais. Saímos do tradicional eixo sul, consolidamos novos lugares e públicos".

Mas, o que de fato diferencia o Palco Giratório é sua capacidade de promover o que o próprio Ministério da Cultura não consegue, que é uma política cultural que fomenta a formação e a criatividade. O projeto abre espaço para o novo e consegue abranger os diversos olhares da produção nacional, a partir de uma avaliação sensível e honesta dos artistas e seus trabalhos, sem privilegiar, como normalmente acontece, os nomes já estabelecidos e atentando para os processos e dinâmicas capazes de gerar discussões, reflexões e até mesmo a perplexidade. Enfim, a grande vantagem do projeto tem sido a capacidade de fortalecer e desenvolver a produção local e lhe proporcionar possibilidades de alcançar outras fronteiras. Nada mais significativo que registrar o depoimento do ator Daniel França, de um grupo do Amazonas, que fez questão de deixar claro sua felicidade em participar afirmando que "Nunca imaginei que eu pudesse ser integrante do Palco Giratório. Era um sonho pra mim, e hoje me sinto feliz e realizado com isso. O Sesc é uma instituição privada que não deixa o teatro morrer, e que faz por nós, artistas, muito mais até do que o poder público faz". De fato, o Palco Giratório é um grande promotor das novas formas, um repositório de diferenças e uma amostra de que é possível se promover cultura de forma democrática, coletiva e representativa da riqueza cultural brasileira. Por isto mesmo é um projeto que veio para ficar e de que se pode construir um país melhor com trabalho e a determinação, mas, sem o desejo impor formas, mas, sim a capacidade de organizar, de coordenar a imensa diversidade que caracteriza o nosso país. O Palco Giratório é a maior prova de que não se pode desejar inovar com um pensamento único. Só a diversidade é que nos salvará. 

sábado, março 15, 2014

O descontentamento surdo


Quando se olha para trás e se observa a eleição da atual presidente, Dilma Roussef, se constata que o Partido dos Trabalhadores-PT e seus candidatos estavam numa situação muito mais confortável. Lula conseguiu, com uma estratégia esmagadora e a fragilidade e incompetência da oposição, fazer Dilma vencer a eleição para a Presidência, em grande parte pelo fato da economia brasileira, aparentemente, andar bem, pois, se gabavam, com farta publicidade, de ter superado o baque causado pela crise mundial de 2008 e, para demonstrar isto, mesmo sem pesar os custos, trabalharam (e abriram generosamente os cofres) para que o crescimento do Produto Interno Bruto-PIB, em 2010, atingisse, na única vez que se conseguiu isto no governo petista, o recorde de  7,5%. Nem mesmo o alerta da inflação alta de 6,71% afetou o resultado, de vez que, para gregos e troianos, se exibiam os números do aumento de emprego, de renda da população e a continuidade de uma política que se trombeteava correta.
Calaram-se, sufocados pelos alaridos e a propaganda eleitoral, o fato de que nada havia mudado substancialmente. A carga tributária continuava a ser a mais elevada do mundo, os juros continuavam a ser altos (embora suavizados), a desindustrialização era, como tem sido, contínua e, o mais significativo dos sinais, os investimentos, para quem conhece economia a única forma possível de aumentar o PIB no médio prazo, continuava no mesmo patamar do início do século. De nada adiantava alertar, como se alertou, que as palavras otimistas de Mantega de que teríamos “quinze anos de crescimento sustentável” não se sustentavam; que, sem investimentos, o voo de galinha voltaria a se repetir, seria inevitável. E, para tentar evitá-lo, houve mesmo esforços de facilitar o crédito, estimular o consumo e até mesmo de desonerar certos setores, mas, como seria de se esperar, esforços inúteis.
O governo petista tem um pecado original: é contra o sistema de mercado. Tem a filosofia de tentar controlar o mercado, de influir no mecanismo da oferta e da procura por um voluntarismo que a história já provou ser inútil. E, dentro de tal filosofia, construiu uma política econômica contraditória que, ao mesmo tempo, que não faz a lição de casa de cortar os gastos públicos e tornar as despesas públicas mais eficientes tenta controlar a inflação aumentando as taxas de juros, ou seja, dando um tiro no próprio pé, de vez que, pelo menos, um terço de suas dívidas são indexadas aos juros. Também apresenta uma péssima execução dos programas e projetos, inclusive o Plano de Aceleração do Crescimento-PAC, uma peça publicitária que envolve no mesmo saco investimentos públicos e privados, mas, onde a execução acontece apenas nos projetos privados. Nunca antes neste país, para usar o chavão lulista, se conseguiu um recorde tão grande de obras públicas paradas, de projetos que não saem do papel. E o resultado também é visível: os gargalos da infraestrutura, os péssimos serviços públicos, o sucateamento da educação e da saúde. 
Acrescente-se que o bem-estar que as pessoas sentiam antes, com o crédito farto e ganhos salariais, desapareceram com Dilma. Hoje, o endividamento geral e os salários que despencaram, a falta de bons empregos (o mercado desemprega os salários altos e emprega os de baixo custo), a reposição magra azedam o humor em relação ao governo. E a inflação se tornou um perigo real, embora o governo deseje pregar que se trata da oposição ou de muita imaginação de quem afirma isto. Porém, é a realidade do mercado onde a alta dos preços atinge quase todos os setores econômicos, mas, bate mais forte na alimentação e nos produtos dos supermercados, os insumos básicos, do dia a dia. Hoje, o descontentamento surdo vem de quem tem contas para pagar e, no fim do mês, percebe como subiram os serviços de cabeleireiro, manicure, escola, curso de inglês, telefone, gasolina, passagem de ônibus, alimentação e tantas outras coisas. Se Dilma Rousseff e Lula desconhecem esta realidade, e somente tratam de agradar o PMDB e o PT que brigam pelo supérfluo , é porque suas despesas são custeadas por outros. Mas, seria de se esperar que, pagando tantos assessores regiamente, estes, pelo menos, alertassem que, com a situação inflacionária atual, com o descontentamento silencioso que se propaga, a reeleição petista é um osso duro de roer mesmo contando, como conta, com uma poderosa máquina de propaganda, a boa vontade da imprensa e dos institutos de pesquisa e uma imensa quantidade de comissionados. Afinal o Titanic também parecia sólido. 

Ilustração:  www.lepanto.com.br

quinta-feira, março 06, 2014

O Paraguai não é aqui



Que o mundo muda muito e rápido todo mundo sabe, mas, quem, objetivamente, poderia pensar que o Paraguai seria um exemplo para o Brasil? Bem, para quem somente pensa no nosso país vizinho como um sócio menos importante, deveria observar que, no mês passado, uma Missão Empresarial Brasil-Paraguai, composta de 178 empresários ou representantes de empresas e entidades brasileiras, esteve em Assunção, capital do país, para conhecer de perto os incentivos oferecidos para investimentos estrangeiros e casos de empreendedores que já estão instalados no país. A missão foi organizada pela Confederação Nacional da Indústria (CNI) e pela Rede Brasileira de Centros Internacionais de Negócios (Rede CIN), e liderada pela Federação das Indústrias do Paraná (Fiep).
Sabe qual o resultado? Saíram de lá com inveja do que viram e a impressão de que o Paraguai está se modernizando e nos deixando para trás em muitos setores e, pasmem, em especial, em competitividade, de vez que muitos dos empresários disseram que o modelo de política de desenvolvimento industrial adotado pelo governo paraguaio deveria servir de exemplo para medidas efetivas que recuperem a competitividade da indústria brasileira. Surpresos? Então, observem as palavras ditas pelo empresário Rommel Barion, vice-presidente da Fiep e coordenador do Conselho Temático de Negócios Internacionais da entidade, “O que vimos aqui nos mostrou que se o Brasil não reagir para resolver seus problemas, vai ficar para trás” e acentuou que “No Paraguai, onde os custos de produção são, em média, 35% menores que os do Brasil, vimos que é possível criar um ambiente mais favorável”. Mas, o que mais impressionou os empresários foi verificar que o Paraguai tem uma economia estável, um sistema tributário simples, uma carga tributária muito menor que a do Brasil e uma legislação trabalhista simples ainda que assegure direitos ao trabalhador. Em suma, o Paraguai é  um país bom para se investir, que respeita as leis e possui bons marcos regulatórios.
Se alguém tiver dúvidas a respeito que consulte o presidente da Fiep e comandante da Missão Empresarial, Edson Campagnolo, que, em artigo publicado, no dia 06 de março,  na Gazeta do Povo, um dos principais jornais do Paraná, escreve sem rebuços que “Hoje, o ambiente de negócios no Paraguai é muito mais atrativo aos investidores que o do Brasil. A começar pela carga e pelo sistema tributários, infinitamente mais leves e simples. Vantagem especialmente para empresas que utilizam o território paraguaio como base exportadora. Pelo Regime de Maquila, é possível uma empresa produzir e exportar a partir do Paraguai com imposto único de 1% sobre o valor agregado dos produtos”. Até mesmo a energia elétrica, produzida por Itaipu, tem um custo menor lá, correspondendo a um terço das praticadas no Brasil. Campagnolo, com perspicácia, nos mostra que a missão serviu para alertar que precisamos encarar, urgentemente, as reformas necessárias para ter competitividade ou os investimentos e os empregos mudarão para o outro lado da fronteira. Sem querer promover a debandada de empresários nacionais para o país vizinho observa, com acuidade, que fazer os deveres de casa compensa, posto que o Paraguai com uma economia estável e a inflação controlada cresceu, vejam a ironia, 14,1% em 2013. E a formula é bem simples: o poder público, agora com Horácio Cartes, mais do que nunca, vê o empresário como propulsor do desenvolvimento do país e busca facilitar o surgimento e o fortalecimento das empresas incentivando a geração de emprego e renda. Pena que o Paraguai não é aqui. 


Foto: Agência FIEP/Gilson Abreu

domingo, março 02, 2014

Acabou-se a festa....


Embora não possa negar a idade, de fato, pelas probabilidades estatísticas estou mais pra lá do que pra cá, com os meus próximos sessenta e quatro, não me considero um saudosista. Em termos, no carnaval e na música, reconhecidamente sou.  E já tendo vivido os velhos carnavais do Rio de Janeiro, de Recife, Salvador e Porto Velho, certamente, tenho sólidas razões para ter saudades. Afinal quem conheceu os carnavais de outrora não pode olhar senão, com uma certa nostalgia, os carnavais atuais. A grande realidade é a de que, apesar da festa ter crescido em tamanho, perdeu em uma série de outros quesitos, entre eles, os mais sensíveis de paz, beleza e alegria.
Hoje, Porto Velho, por exemplo, estava um convite ao sono, como ontem, aliás, quando a Banda do Vai Quem Quer, uma tradição mantida duramente por Manelão, foi, por fim, interrompida. Não foi, efetivamente, a primeira tentativa. O carnaval de Porto Velho veio vindo, morrendo aos poucos, com intervenções de autoridades que impuseram regras e censuras a bailes, corsos, carros alegóricos, enfim, acabando com o desfile que já foi um dos pontos altos dos dias de Momo. Ultimamente nem mesmo a subvenção pública salvava os blocos de parecerem uma paródia dos velhos tempos, sem graça, sem samba, sem a alegria que, no passado, fazia o carnaval ser carnaval. Sem contar que sumiram muitos dos complementos que faziam sua beleza.
Se não me engano começou quando Jânio Quadros era presidente da República e proibiu o uso de lança-perfumes. Depois, mudaram o desfile, por razões diversas de um lugar para o outro, e sumiram as serpentinas, os confetes, as fantasias e até mesmo os bailes maravilhosos de outrora, como foram os do 5º BEC, do Ypiranga, Ferroviário e outros sempre muito prestigiados pelo povo até porque, agora, se cobra uma fortuna sobre direitos autorais, de forma que utilizar músicas se torna quase inviável.  O que vemos, hoje, aqui em Porto Velho, é o que sobrou da resistência: poucas, modestas escolas de samba, que teimam em desfilar com enorme esforço pessoal de alguns abnegados. Eles lutam, mas, o carnaval não tem mais o mesmo encanto e não temos perspectivas de reviver os velhos tempos.
Não é muito diferente mesmo no Rio ou em Salvador. O carnaval, por lá, virou um grande negócio que engorda diretorias de escolas e blocos, hotéis, fazedores de abadás, e o que acontece de real mesmo é a aglomeração dos jovens, com roupas padronizadas, em torno de bares e casas noturnas. Ah! Tem o desfile da Sapucaí. Outro grande negócio que virou palco de desfile de celebridades enxertadas com silicone. Longe, bem longe, estamos dos sambas enredos de verdade, uma mistura de samba do crioulo doido e ingenuidade que tinha sabor. Hoje até o samba tem gosto de linguiça. Nem queira saber como se fabrica.  

Não, por acaso, me vi revendo Capiba, Nelson Ferreira, as velhas marchinhas de carnavais passados, como a de Francisco Alves cantando “Ó pé de anjo! Pé de anjo/ és rezador, és rezador/ Tens o pé tão grande que é capaz de matar Nosso Senhor”. Neste domingo, pensativo, ponderei para mim mesmo, que Nosso Senhor, mesmo vítima do pezão pode ressuscitar. O carnaval brasileiro está difícil. Ingressou, definitivamente, no mar da mediocridade geral. Prefiro o sossego que assistir a maior festa nacional ter se transformado num imenso zumbi. Nós, brasileiros, estamos provando que chegaremos ao passado sem ter tido presente. O carnaval de hoje é um imenso velório disfarçado de alegria. As cinzas se espalham antes da quarta-feira. 

terça-feira, fevereiro 25, 2014

O desacerto do tempero




Tem sido quase uma formula consagrada dos governos petistas, o processo que se iniciou com Lula da Silva, de, nos dois primeiros anos de governo, agir com mão de ferro, sufocando as demandas sociais, para fazer os ajustes necessários e, no último ano, abrir as portas para fazer gastos e se reeleger. É um tipo de comportamento que tem dado certo, tanto que elegeu Dilma, mas, esta, pelo andar da carruagem, não adotou o sistema, o que pode influir, decisivamente na próxima eleição, apesar da passividade e da falta de uma maior capacidade de aproveitar os erros da política atual do governo.
Há, ainda mais problemas com a questão salarial, com sérios descontentamentos de amplas camadas do funcionalismo público, que, mal tiveram a recomposição das perdas, e com a legislação eleitoral que estão impedidos de ter aumentos neste período. Acrescente-se que, se no governo de Lula, já não havia um atendimento das reivindicações dos servidores e se adotou a prática de escalonar os salários por anos seguidos, numa forma disfarçada de fingir que melhora os salários, mas, na verdade, quando os funcionários recebem, acabam percebendo que a inflação “comeu” significativa parte do que seria, efetivamente, melhoria. No governo de Dilma, as negociações foram conduzidas com mão de ferro sem que, de fato, houvesse a menor flexibilidade em relação a muitas das reivindicações. Exceto os comissionados, o que se observa é que os funcionários públicos se encontram cada dia mais numa situação financeira mais aflitiva com a sua grande maioria endividada, via empréstimos consignados.
Acontece também que um dos erros primordiais da atual política do governo foi a de, no tempo errado, aumentar a taxa de juros comprimindo a taxa de crescimento da economia, o que, entre outras coisas, o obrigou a tomar medidas populistas para tentar aquecer a demanda como a diminuição do custo da energia, a manutenção do custo dos combustíveis fora da realidade e as desonerações, bem como a criação de formas de transferência de recursos para os mais pobres. O resultado todo mundo sabe: inflação e mais aumento da taxa de juros. Quando se erra a mão o jeito é buscar salvar o que é possível. É o que o governo tenta com um ajuste fiscal que corta R$ 44 bilhões e pretende alcançar um saldo primário, em 2014, de 1,9% do PIB-Produto Interno Bruto, a mesma taxa obtida em 2013, gerando um caixa de R$ 99 bilhões. É uma tentativa salgada na medida em que, ano de eleição, é ano de abrir as burras, ou seja, um ano complicado para realizar ajustes mais drásticos e que, com um governo que já tem problemas de apoio, desagrada significativa parcela dos políticos que precisam se reeleger e sem que suas promessas (de obras e recursos) sejam realizadas ficam numa situação difícil. O não atendimento de promessas e o corte de emendas de parlamentares, que são muitas, implica em atritos e pode significar importante perda de apoio político. Acrescente-se que, pelo lado das despesas, boa parte já é “carimbada”, sendo de difícil redução, e pelo das receitas, as dificuldades também são muitas, já que as desonerações (mesmo que com cortes) são essenciais para que o crescimento anêmico da economia (previsto para 1,67%) não fique pior ainda. O certo é que o governo não vem acertando a mão no tempero e, da forma que a cozinha anda, se houver uma pressão mais forte, o desacerto no tempero será inevitável. E, com o aumento da violência e as insatisfações com os serviços públicos, elementos é que não faltam para que a comida seja indigesta. Não é à-toa que já se observa, entre os militantes petistas, um movimento “Volta Lula”. É a constatação de que, apesar da falta de oposição, a má condução política está levando o partido à perda do poder.