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sexta-feira, novembro 04, 2016

O mundo além do diploma


É um sintoma positivo verificar que milhares de jovens pelo Brasil afora se prepararam para o Enem (Exame Nacional do Ensino Médio), uma prova que pode garantir a entrada deles na universidade. Mas, é preciso avaliar que, atualmente, muitos que conseguem seu diploma não encontram espaço no mercado, ao contrário do passado quando um diploma era garantia de emprego. Qual a razão? São muitas, porém, entre elas o fato de que significativa parte dos que ingressam na universidade buscam poucas áreas em geral relativas ao comércio, administração, ensino, direito, saúde e engenharia. E, mesmo que o país não estivesse em recessão, não haveria vagas para tantos formandos, principalmente, tendo em vista que com a multiplicação das instituições privadas, ao lado da maior oferta das bolsas do Prouni e do Fies (Fundo de Financiamento Estudantil), de 2000 a 2014, a quantidade de instituições de nível superior cresceu exponencialmente. Resultado: um aumento substancial de novos formandos, pois, de acordo com o Censo do Ensino Superior, em 2014, um milhão de pessoas saíram das salas de aula. Em 2004, eram apenas 630 mil.

Que fazer? Em primeiro lugar há de se realizar o combate a uma ideia elitista de que diploma seja sinal de status e dinheiro, que, hoje, é mais importante. Já se observa um deslocamento de pessoas que verificaram ser muito melhor e mais lucrativo, por exemplo, fazer cursos técnicos. É preciso desmistificar a ideia de que, obrigatoriamente, ter um diploma é a forma mais adequada para se melhorar de vida. Talvez isto seja mais fácil de se verificar, por exemplo, com o curso de administração que, em 2014, correspondia a 30% dos concluintes. Ora, é impossível acreditar que existiriam empresas suficientes para oferecer vagas para todos. É claro que muitos acabam em subempregos. Mas, o caminho das universidades deve ser o de oferecer outras alternativas com o de, no decorrer do curso, pregar para os alunos o empreendedorismo. Pessoas com nível superior possuem muito mais condições de criar novos negócios e se, muitas vezes, não o fazem é por não serem preparadas para este fim. Também a universidade precisa diversificar seus cursos, oferecer novas oportunidades fora das áreas tradicionais. Hoje é comprovado que o número total de graduados de muitos cursos é superior ao que o mercado pode suportar. É preciso que as instituições de nível superior inovem, porém, o próprio aluno pode começar a buscar alternativas identificando áreas de interesse que, nem sempre, passarão pela graduação. E, se houver, certeza da escolha, da identificação, não é difícil de lembrar do caso de Bill Gates que largou a escola para se transformar no mito em que se transformou. Diploma, agora, mais do nunca, não é tudo. 

segunda-feira, outubro 31, 2016

YES, NÓS TEMOS SALVAÇÃO


Nós, brasileiros, somos um povo inculto e belo. Até já pensamos, criamos a ilusão, recentemente, de ter futuro sem trabalhar, de ter direitos sem ter deveres, a versão tupiniquim de um paraíso lulista, um líder de sindicato que sempre pensou ser legal viver às custas dos outros. Mas, está longe de mim desejar criticar Lula, agora, quando começa a enfrentar seu inferno astral. Meu tema é a dificuldade do país avançar com o arremedo de democracia que criamos, com o nível de educação que tem a nossa população, de vez que a grande verdade é que nossos políticos-por mais que se reclamem deles- reflete, como uma amostra de qualidade, aliás, o nível de nossa cultura.
As eleições municipais, neste momento, refletirão isto. Tivemos que escolher entre candidatos que, em sua grande maioria, não representam nossos anseios. E, muito pior, no meio de uma disputa que aparentou ser mais uma batalha de lama do que uma disputa de propostas. Não estou desejando julgar ninguém. Nem, como podem pensar alguns, a questão se resuma a Porto Velho, embora também se inclua no mesmo balaio. A definitiva sentença dessas eleições foi dada pela quantidade imensa, em todo o país, dos votos invalidados. Trata-se, como se verificou, de um fenômeno nacional. Há um descompasso imenso entre o que se deseja e o que nos é oferecido. Ainda hoje fui abordado por um jornalista que me colocou entre a cruz e a espada em relação ao futuro pleito para presidente ao perguntar se seria Ciro Gomes ou Bolsonaro! Não me deixem em tal situação que me considero incapaz de ter uma resposta sequer razoável. Cada um, como diz a canção popular, “sabe a dor e a delícia de ser o que é”, porém, um dos requisitos que considero essenciais para se exercer liderança é a maturidade, o que não vejo nos nomes citados. E a conversa me deixou, efetivamente, preocupado com os rumos futuros do país.

Consolei-me ao pensar na sociedade norte-americana onde há um Bob Dylan que recusa o Nobel que lhe é dado de modo muito duvidoso. Ele, um sábio, nem se deu ao trabalho de recusar formalmente. Mas, os norte-americanos conquistaram muito mais este prêmio do que qualquer outro país. E em setores muito mais significativos como física, química, medicina. Como em muitas outras coisas dão um banho, pois, se somar os cinco países que vem depois (Reino Unido, Alemanha, França, Suécia e Rússia) eles conquistaram mais Nobel do que todos juntos. Não por acaso. Não só possuem a primeira universidade do mundo, Harvard, como mais 12 entre as quinze classificadas como melhores. E são inventivos, competitivos, com instituições consolidadas. O que me consola diante disto? Estão escolhendo entre Hillary Clinton e Donald Trump. Ou seja, se eles que já amadureceram, já educaram uma grande parte de sua sociedade estão num dilema como este, então, nós temos salvação sim. Volto a acreditar, com toda a mediocridade, que Darcy Ribeiro tem razão: somos a Roma do futuro. Claro que uma Roma que acontece uma segunda vez dará razão à Marx. O Brasil, no entanto, jamais esquecerá De Gaulle. 

Ilustração: Forbes. 

quarta-feira, setembro 28, 2016

UM SAMBA ENREDO DE VILA ISABEL



Quando se fala de escola de samba no Rio de Janeiro, embora existam muitas escolas maravilhosas, há algumas que são como os grandes clássicos ou os grandes times: por mais que não tenha a glória de outrora continuam lendários. Não escondo que, por razões históricas e sentimentais, Mangueira, Portela e Vila Isabel se inserem, para mim, na ordem das grandezas incomensuráveis. Suas cores, a beleza dos seus desfiles, o som, a dança, o samba e a história falam por si só. Dão a tais escolas uma aura que poetiza o seu entorno. E, por mais que digam que o carnaval de hoje já não é mais o mesmo, devo dizer que isto não importa. Ainda há vida nas quadras, nas rodas de sambas e mesmo nas disputas dos sambas enredos.
E sinto este frescor e esta vida quando, como agora, uma profusão de sambas enredos disputam a oportunidade de serem escolhidos para o desfile das escolas. Em particular, por amizade, me importo muito com o desfecho da escolha do samba de Vila Isabel. Lá um dos sambas, que tem como tema a cor do som, é o de Grande da Caneta que divide a autoria com Betinho Santana, Almeidinha, Malandro Maneiro e Ricardinho Professor, os dois últimos que são os interpretes. Como acontece com os sambas enredos atuais a música é bem melhor do que a letra, embora muito bem adaptada, e gosto muito do refrão que diz:
“A Vila é raça, é amor pra vida inteira/ o som da cor que faz o corpo balançar/ A negritude que orgulha a sua tez/ vem kizombar outra vez!”
A kizomba é um estilo musical e de dança africana, que surgiu, em Angola, a partir da fusão do semba, do zouk e de outros gêneros estrangeiros, como o merengue e algumas baladas da Música Popular Brasileira (MPB). A palavra, porém, que se originou a partir do kinbundo - língua africana que ainda é falada na Angola, ajudou a construir algumas expressões e termos brasileiros com o significado de "exaltação do povo", como forma de celebrar a vida e a libertação dos escravos africanos. Kizombar é um aproveitamento, como fazem muitos compositores, de palavras que nem sempre são correntes. Mas, corrente mesmo é a paixão pelas escolas, as disputas que marcam a escolha dos sambas enredos. Torço pela vitória deste samba enredo de Vila Isabel. Não poderei, ir as quadras para assistir, como em anos passados, o processo de seleção, mas, gostaria muito de poder “kizombar outra vez” no carnaval de 2017 com o samba de Grande Caneta e parceria. Quem sabe? De qualquer forma para quem quiser sentir um gostinho do samba enredo postei no Jornal Diz Persivo (http://persivo.blogspot.com.br/). É uma forma de, mesmo distante, dizer para os amigos de Vila Isabel que estão no meu coração e lembrança.



sexta-feira, setembro 23, 2016

STARUP DAY SEBRAE: UM EVENTO INOVADOR E NECESSÁRIO


Sem dúvida foi uma excelente iniciativa do Sebrae a realização do Sebrae Startup Day, evento realizado, no dia último dia 22 de setembro, com a participação de 48 cidades de todo o Brasil com o objetivo, além de fomentar o ecossistema inovador brasileiro, apresentar a experiência Sebrae Like a Boss de atendimento às startups nos estados. Em Porto Velho o evento aconteceu no 2º piso do Porto Velho Shopping e foi um grande sucesso. O evento proporcionou a oportunidade de troca de experiências (palestras, debates, encontros, hangouts) e atividades práticas (workshops, oficinas, treinamentos), e até de meetups com os principais atores do ecossistema para networking.

Vale ressaltar que, ao nosso ver, faltou, pelo menos em Porto Velho, o que pode perfeitamente ser corrigido em outras oportunidades, uma maior integração com as instituições de nível superior. É fundamental que se desperte, em especial nos universitários, a ideia da necessidade do empreendedorismo,  de passarmos da fase em que o jovem se prepara para obter um emprego para que crie suas próprias oportunidades. Neste sentido é indispensável acentuar que o termo “starup” foi utilizado na bolha da Internet, entre 1996 e 2001, para denominar um grupo de pessoas trabalhando com uma ideia diferente que poderia fazer dinheiro.
Além disto, startup sempre foi sinônimo de começar uma empresa e fazê-la funcionar. No fundo, a definição mais exata é a de que startup é um grupo de pessoas à procura de um modelo de negócios repetível e escalável, trabalhando em condições de extrema incerteza. Subjacente a isto também existe a ideia de que se trata de uma empresa com custos de manutenção muito baixos, mas, com possibilidade de  crescer rapidamente e gerar lucros cada vez maiores. Há, como se observa, sempre a incerteza, ou seja, não há como afirmar se a ideia e/ou projeto de empresa irão dar certo ou ao se provar sustentáveis. O que é muito importante, por isto o evento é inovador, é a propagação da necessidade do empreendedorismo, como forma de melhorar a vida do país, e, principalmente, entre os jovens, bem como buscar modelos de negócios. Que iniciativas como estas se reproduzam em prol de um país melhor.  

quarta-feira, setembro 14, 2016

UM BELO LIVRO DE RECUPERAÇÃO DA NOSSA HISTÓRIA


O livro “A Cidade Que Não Existe Mais” da Editora Temática, de Júlio Olivar, é, sem dúvida, um livro muito fácil e agradável de ler. Que não se pense, porém, que o fato de ser simples, e leve, indique falta de conteúdo e de complexidade. Efetivamente, é um livro rico de informações e de indagações na medida em que, embora alegue ser a visão de história de um jornalista, não deixa de ser um grande livro de história. Existem vários fatores que comprovam isto. Em primeiro lugar o próprio tema. Santo Antônio do Rio Madeira, de fato, não morreu e sim ampliou-se em Porto Velho e, ao escavar o passado, Olivar mostra que, de certa forma, este continua a repetir-se. Somos, como no passado, ainda o fim do mundo, os sertões, o lugar da desarrumação, da violência e do aventureirismo, mas, nem por isto também isento de poesia e de beleza. 
Em segundo lugar, o livro recupera, moderniza digamos assim, informações preciosas sobre a história de Porto Velho e, por extensão, do Mato Grosso  e do Amazonas. Desfilam vultos cuja grandeza é inconteste, no entanto, despidos do manto mítico que o tempo costuma dar, como foram os casos de Costa Marques, Joaquim Augusto Tanajura, Aluízio Ferreira, Mário de Andrade, Major Amarante, Aureo Melo só para citar alguns. Em terceiro lugar, para não alongar mais a lista de motivos, examinando os fatos sem a determinação de ser juiz, Olivar abre espaço para novas abordagens, ao deixar em aberto episódios e versões sobre um passado já não tão recente, mas, sem tantos intelectuais, historiadores e escritores que tenham se debruçado na busca de iluminar a história e não apenas de repetir as lendas.  
Para quem, como nós, portovelhenses, nativos ou adotados, que estamos permeados pelos eflúvios da história de Santo Antônio, somente as fotos existentes reunidas já dariam um valor inestimável ao livro, todavia, a visão que nos oferece do passado é um excelente retrato para nos lembrar que temos sim uma história, uma grande história. O que precisamos, e muito, são de pessoas que, como Julio Olivar, se disponham a fazer, como fez, um verdadeiro trabalho de pesquisa para, ao recuperar o passado, buscar tornar o futuro diferente, de vez que a memória é a base cultural da grandeza de qualquer povo. E nós precisamos, mais do que nunca, cuidar da nossa memória. Precisamos de muito mais Júlios escrevendo sobre Rondônia.


domingo, agosto 28, 2016

SAUDOSISMO RONDONIENSE


Postaram, no Facebook, no grupo Saudosismo Portovelhense, o primeiro ônibus de linha a chegar em Guajará-Mirim, em 1967. Isto me levou a pensar como os ônibus mudaram. E os usos e costumes desde quando, em meados da década de 70, aportei em Porto Velho. Ainda se comia tartarugas no seu Amorim, na Pedro II. No fim da tarde, havia um tacacá no centro ou ainda se comia uma boa maniçoba. Nem falo de caranguejo ou de deliciosas tapiocas no café da manhã. Mas, é da vida, as coisas passam. Porto Velho possuía um bom carnaval, festas juninas maravilhosas, um ar provinciano e pacato que sumiu com o tempo.

Somem muitas coisas no tempo. O Luís Matos, um escritor de fatos e coisas do Guaporé, lembrava que sumiu o costume de dançar a “Desfeiteira”, dança típica do Vale do Guaporé ao som de acordeon, sanfona ou fole, qualquer nome que se queira dar, que podia ser acompanhada do pandeiro, se existisse, mas, invariavelmente, do bombo, um instrumento de percussão, feito artesanalmente de couro de viado retesado sobreposto a um pau oco de um metro. Um instrumento rústico de bom som, porém, de poucas notas, daí o som monótono e repetitivo, o mesmo tra-lá-lá sempre. Que era animado era. A diferença da dança consistia em que, quando o sanfoneiro parava, o par que se encontrasse na sua frente tinha obrigação de dizer um verso alto para todo mundo ouvir. Muitas vezes os versos que saíam eram irreverentes e havia pares que fugiam, mas, o sanfoneiro ia atrás para obrigar todos a declamar um verso. Muitos eram jocosos e, mesmo os imorais, eram de uma imoralidade implícita. Também sumiu o costume denominado “saca-borracho” (tira bêbado) que era o de, logo ao começar o baile, o dono da casa apresentar uma criança de colo como autoridade máxima. Se alguém se excedia na cachaça, logo aparecia o pai com a criança e o mandava dormir. Ia compulsoriamente, sem reclamações. Outro costume que desapareceu foi a  parte do chapéu, que era um baile onde um dos dançantes aparecia com um chapéu e dançando colocava na cabeça do outro. Que procurava se livrar rápido, pois, se a parte terminava, a música parava, quem estava com o chapéu na cabeça pagava um litro de vinho para as damas. São costumes que se perderam no tempo. Como o famoso “Bloco da Cobra” são só saudosismo rondoniense. 

sábado, agosto 27, 2016

As amizades verdadeiras ultrapassam o tempo



DE AMIZADES, SAMAUMEIRAS E FÉ

“A amizade é uma predisposição recíproca que torna dois seres igualmente ciosos da felicidade um do outro” (Platão).


Ter amigos é uma dádiva. Para lembrar que as amizades são raras um dos consensos que existe é de que os verdadeiros amigos se contam na ponta dos dedos. Também se afirma que a verdadeira amizade, como o verdadeiro amor, resiste à distância, ao tempo, as dificuldades e aos dissabores. Mas, como as plantas devem ser regadas. E, toda esta introdução, é apenas para poder falar de uma bela amizade que une duas grandes figuras da Amazônia por décadas: Euro Tourinho e Almino Affonso.
Iniciada nos velhos tempos de Porto Velho, quando ainda eram crianças, ambos, são grandes cultivadores de amigos, tanto que possuem mais amigos do que o normal, porém, jamais, entre eles, deixaram de estar presente por uma carta, no passado, por um e-mail, no presente, pelo envio de um convite ou de um livro ou ainda a lembrança de uma data importante. E isto fica mais uma vez comprovado quando, depois de Euro ter sido homenageado com no lançamento do livro “Euro Tourinho, a Samaúma da Imprensa Amazônica”, Almino Affonso, que não teve como vir, gentilmente envia um bilhete para Euro com as seguintes palavras:

“Caríssimo amigo:

Na singeleza desse soneto, escrito em Porto Velho nas férias de 1948, eu já previa o teu destino de ‘Samaúma’.

Grande Abraço
Almino Affonso

E anexo o soneto agora transcrito:

SAMAUMEIRA
                                              Para Euro Tourinho
Samaumeira! Lianas e flores, em festa,
Descem da copa imensa que a amplidão fareja...
E o sol, em sangue e ouro, portentoso beija
A soberana-graça e força- da floresta.
Mas, quando, em transe, o vento sopra as tempestades,
E lhe fere, zimbrando, a colossal umbela,
Luta, esbraveja, cai...grandiosamente bela,
Porém, jamais se curva como os vis covardes!
Golpeada, ainda assim, vai soltando as sementes,
Louros, plumeos casulos, livres e frementes,
Que se livram e vão nascer léguas além...
Atenta: se algum dia na vida fraquejares,
Não importa....do amanhã na vastidão dos ares,
Na força de tua fé reviverás também!


Como se observa todas as grandes árvores, como as grandes personalidades, não desconhecem que viver é lutar e, para lutar o bom combate, é preciso ter fé. 

quarta-feira, agosto 10, 2016

EXPLICAÇÃO UM POUCO DESNECESSÁRIA


Embora tenha explicado no próprio livro, no entanto, sei que, muitas pessoas, não terão acesso a ele, bem, como até mesmo alguns que terão, não possuem paciência para ler mais do que algumas linhas, e, tenho me deparado, invariavelmente, com a pergunta que não quer calar: por que resolvi escrever um livro a respeito do jornalista e diretor do Alto Madeira Euro Tourinho?  Há uma, e só uma resposta clara para mim, realizei, mesmo que, tardiamente, o desejo de um amigo que me foi muito caro, o também jornalista Sued Pinheiro.
Foi Sued quem, por inúmeras vezes, me chacoalhava e me cobrava “-Vamos escrever um livro sobre ‘seu’ Euro”. Devo dizer que, no começo, a ideia me parecia pouco atraente. Não pelo Euro, que é uma pessoa querida, amável, porém, devo confessar que sou um preguiçoso nato e, para me dedicar a pesquisar alguma coisa é preciso ter paixão. No caso, não nego meus pecados, também pensava que, como havia sido nosso chefe de jornal, poderia parecer algo com certa aura de bajulação. Ele, porém, não desistia e, sempre que possível, não só voltava a tocar no assunto, bem como me admoestava sobre a necessidade de homenagear as pessoas em vida. Sempre, com um certo descaso, afirmava que, nós é que deveríamos ter cuidado, pois, Euro Tourinho, certamente, assistiria muitos de nós partirmos antes. Só não contava que Sued fosse um dos que partiram e tão cedo. Com a sua morte, que me deixou, uns três meses, consternado, e até, em alguns momentos, sem crer, ou crendo que era ele que batia, como muitas vezes fez, na porta de minha casa, reformulei meus conceitos.

E entre as decisões da mudança decidi que, pelo menos, no caso de Euro, não cometeria o erro de não homenageá-lo em vida. De fato o livro “Euro Tourinho, a Samaúma da Imprensa Amazônica” é uma homenagem, que é mais do Sued do que minha, ao nosso querido diretor. E, ao contrário do que pensava, a tarefa foi prazerosa, de vez que não apenas nos aproximamos mais, como procurei tornar o livro como Euro é: leve, divertido, tentando fazer um relato de partes de uma vida de um homem sábio. Devo dizer que, no fim, o livro ficou muito aquém do homenageado, mas, tenho um grande orgulho e o prazer de ter feito. Afinal me associei, por vias tortas, a um homem que é uma lenda viva. E que ainda por muito tempo há de servir de exemplo de pessoa humana, de simplicidade e de ser o que é: uma pessoa que procura sempre fazer as coisas que devem ser feitas e viver feliz. 

Foto: Rosinaldo Machado

terça-feira, julho 26, 2016

O DESAPEGO COMO UMA ARMA DA ARTE DE VIVER


Uma dúvida que sempre me assalta é a de que se, de fato, há evolução humana. A verdade é que gosto de viver e a vida, hoje em dia, neste século XXI, embora seja, sem dúvida, muito mais confortável, me parece também mais enganosa, mais difícil de se compreender e o Brasil, também os brasileiros que vivem aqui, e lá fora, me parecem cada vez mais selvagens e incompreensíveis. No geral, sinto, a contragosto, uma imbecilização em massa. Vide o recente episódio da Marcela Tavares em Nova York. Bem é possível que exista um stand-up que preste, mas, convenhamos, abrir um show de uma banda com um, já me parece uma insanidade. Outra, e nem preciso que todo mundo concorde, é mulher dizendo palavrão, mesmo o infantil de santificar os palcos. O problema maior é que, seja qual for a visão que se tenha da humorista, ela falou a pura verdade: o Brasil está mesmo insuportável. Aliás, não é o Brasil só. È o mundo. Ou será que todos pensam que o Donald Trump conseguiu garantir o número mínimo de delegados para ser candidato por estarmos perto de novos tempos?
Por todas essas coisas é que tenho tentado me desapegar de tudo. Tudo mesmo. Livros, papéis, escritos e poesias velhas. Móveis e utensílios nem falo mais. Conclui, depois de muito tempo de apego, que o desapego é, definitivamente, uma grande qualidade. É sempre mais fácil o desapego às coisas, mas, também, às vezes, é preciso, indispensável, o desapego com as pessoas. Isto sempre foi muito difícil. Diria que, mesmo impossível, para mim, mas, ultimamente, tenho pensado que é melhor, mais saudável, mais salutar ter menos pessoas, com mais tempo, com mais carinho, com mais amor e dedicação. E se preciso de uma prova escuto o bandolim do Lito Casara, o violão do Nicodemos, a voz do Caté e me regalo com o papo descontraído, líquido e prazeroso dos amigos, como o Marcus Vinicius, o Demétrio, o Gêgê, os Macaxeiras e alguns novos e instigantes, além de belos interiormente, como a Tamires e a Taina. Ter o prazer de conviver com pessoas novas e inteligentes é uma coisa que me faz crer no mundo e solidificar minha crença de que Marlon Brando não morreu. Quem amanteiga uma mulher como Maria Schneider sobrevive até mesmo ao último tango.
Talvez isto também provenha do fato de que alguns amigos, bons amigos, fizeram, creio que também sem meios de se contrapor, o dissabor de ir embora mais cedo. E a falta deles dói. Dói muito. Me consola o fato de que alguns me obedeçam e sigam a regra essencial que imponho aos amigos agora: a de não irem embora sem aviso prévio. Ainda assim a morte não respeita minhas regras e vai levando quem pode. Por tudo isto, como se sai desta vida como se entra, sem nada, liso e nu, estou exercitando a arte de rir até mesmo para saber deixar as coisas e as pessoas irem, quando não podem, não querem ou não podem mais ficar. Sempre dói, mas, é melhor se acostumar. Um dia como nos desapegamos deles, então, os que sobrarem se desapegarão de nós. A arte do desapego faz parte da arte de viver. Bem, vocês podem não compreender muito bem  a razão de ter escrito isto, porém, é parte de um processo que também não entendo, ou seja, está perfeitamente coerente com os nossos tempos.


Ilustração: www.viva50.com.br

segunda-feira, julho 04, 2016

No te vayas Lio


Devo dizer que não sou um dos maiores fãs de Messi. Não nego que seja um jogador excepcional, mas, de certa forma, ele é o Zico argentino. Explico: ele e Zico tem, em comum, o fato de serem sempre regulares e, em momentos decisivos, serem até mesmo excepcionais, porém, sempre jogam de forma quase burocrática. E sei que vou desagradar muito os rubro-negros, mas, na verdade, como Messi, Zico foi um jogador que se fez pelo esforço, pela disciplina e não seria quem foi, ambos, aliás, se não jogassem na equipe em que jogaram. A grande diferença, talvez seja, que Messi veio da escolinha do Barcelona e nela se moldou, enquanto Zico precisou sair do Flamengo para se transformar num atleta no verdadeiro sentido. Messi, é verdade, conseguiu muito mais dinheiro e sucesso. Porém, penso que Zico foi muito mais perfeito em chutar e, para desespero meu, que sempre fui vascaíno, chutava com perfeição de qualquer jeito. Costumo dizer que Zico foi um dos últimos grandes ídolos brasileiros que sabia os fundamentos do futebol. Hoje tão esquecidos, e até mesmo vilipendiados, pela falta de treino, de disciplina, de aplicação. Os jogadores de hoje, muito bem pagos, podem ver pelo que fazem, desaprenderam a arte de chutar, de cabecear e, muitos, de driblar para a frente. De serem mesmo craques. São muito mais celebridades que eficazes no campo.
Voltando, no entanto, ao prato principal. Messi desfruta com Zico o dissabor de, na seleção, não conseguir ser o que é no seu clube e, para piorar, ambos falharam em momentos decisivos. Não consola, mesmo para Messi, um batedor de recordes, ser a estrela principal do mundo e não conseguir ajudar seu país a conquistar títulos. É uma coisa de profissional, sim, reconhecer as dificuldades e chorar por não conseguir fazer o que se esperava dele. É um fato que o honra tanto ter chorado, como considerar, mesmo não sendo verdade, na medida que ainda tem muito o que dar, dizer que não jogava mais por sua seleção por se sentir insatisfeito com sua atuação. Foi uma demonstração de seu alto nível de cobrança pessoal e um comportamento que honra sua carreira e seu país. Messi comprovou ser um verdadeiro argentino com a grandeza de seu gesto. A inconformidade com os limites é digna dos grandes gênios.
Assim, ouso dizer que é um fato político importante que, mesmo com a forte chuva que caiu sobre Buenos Aires, na tarde do último sábado, centenas de pessoas se reuniram no Obelisco, famoso monumento da cidade, para pedir que Messi não deixe a seleção argentina. Os fãs levaram bandeiras e cartazes com a expressão "No te vayas Lio" (Não se vá, Lio), usada desde o último domingo pelo jornal "Olé" para que o craque volte atrás, gritaram e cantaram. Um torcedor chegou a exibir uma bandeira em que o comparava a Deus. Certo que é um exagero, mas, que se pode esperar dos bons e orgulhosos argentinos? O que fizeram é um verdadeiro ato de humildade: reconhecer a grandeza de quem se esforçou para fazer o melhor e pedir que continue a fazer. Foi uma manifestação que foi honrosa para Messi, mas, também para os que a fizeram. De fato, Messi é uma estrela e, nos tempos atuais, qualquer seleção argentina ou até mesmo qualquer campeonato regional ou mundial, não há dúvida, que perde um muito do seu encanto, do seu brilho, sem ele. De forma que, como bom brasileiro, que gosta de bom futebol, também me associo, mesmo sem pegar a chuva que pegaram, e peço: Não se vá, Lionel. O futebol fica menor sem sua presença.


Foto: Globo esporte.

segunda-feira, junho 27, 2016

CRÔNICA DA PACIÊNCIA PERDIDA


Não sei se vocês ainda lembram, mas, a afastada presidente Dilma, lá pelo começo de março, fez, em rede nacional, um discurso culpando a crise mundial pelos problemas do Brasil e pedindo paciência aos brasileiros.  Recebeu, como bela e imediata resposta, pelo país inteiro, e ainda mais nas grandes capitais, gritos, vaias, xingamentos, panelas batendo e buzinas protestando contra seu pedido bizarro. Não era para menos, pois, no seu discurso, no Dia da Mulher, teve o desplante de dizer que as dificuldades que o país estava passando resultavam da crise financeira mundial e da "maior seca da história", e completou com assombrosa falta de senso que "Entre muitos efeitos graves, esta seca tem trazido aumentos temporários no custo da energia e de alguns alimentos. Tudo isso, eu sei, traz reflexos na sua vida. Você tem todo direito de se irritar e de se preocupar. Mas lhe peço paciência e compreensão, porque esta situação é passageira". Incrível, mas, teve a coragem de dizer que o Brasil tem condições de vencer os "problemas temporários" e que o governo absorveu, até o ano passado, todos efeitos negativos da crise e que "agora" tem "que dividir parte deste esforço com todos os setores da sociedade”, de forma  que a vitória "será ainda mais rápida se todos nós nos unirmos neste enfrentamento”. São palavras de quem, como se viu a forma com que foi festejado seu afastamento, se encontrava completamente fora da realidade.

A cristalina verdade é que o brasileiro não tem mais paciência nem compreensão. Os números da violência refletem isto, mas, não são frutos apenas dos roubos gritantes e sorrateiros, como no caso ora revelado dos consignados, e da corrupção que a Lava Jato já mostrou ser sistêmica. É muito mais do que isto. A revolta do brasileiro, que se revela diariamente, vem de que os políticos que deveriam ser os canais de resolução dos problemas da sociedade viraram solucionadores de seus próprios problemas. A sociedade brasileira acordou ao ver que, além de arcar com uma carga monstruosa de impostos, de carregar no lombo o desperdício e a corrupção, ainda por cima suporta a mais hedionda burocracia do mundo. É incrível a carga de exigências de atestados, de documentos, de comprovações que os brasileiros enfrentam a cada dia. Até em bancos oficiais, que deveriam primar por atender ao público, para se ser atendido, é preciso enfrentar três filas ou para pagar impostos se sofre com emissões de guias, com cadastros, com senhas e acessos que não funcionam. A verdade é que, qualquer coisa pública no Brasil, funciona sempre contra o brasileiro. O governo nos ensina que só temos deveres, seja de pagar impostos, de prestar informações, de estar com tudo em dia, mas, por outro lado, e os direitos? Os direitos, como se comprova parece que se restringem aos cidadãos de primeira classe, os poderosos e os políticos, ou aos que nada tem que são assistidos como “coitadinhos”. Enfim, chegamos ao cúmulo do absurdo quando o Partido dos Trabalhadores, ao ascender, perseguiu, justamente, quem trabalha. Não é de estranhar, portanto, que não haja mais paciência nenhuma nem com a política, nem com governos. O Brasil precisa, inclusive para voltar a ter paciência, de menos governo, menos impostos e menos ainda de burocracia. 

segunda-feira, junho 20, 2016

AINDA SOMOS REFÉNS DA CRISE


Uma das coisas que, posso até não ter conseguido, mas, sempre tentei e continuo tentando é pensar, pensar por meus próprios parâmetros. Apesar de que as pessoas pensem que se trata de uma tarefa fácil não é. Tanto que me espanto com a quantidade de pessoas que, mesmo apresentando um vasto tempo de leitura, e até mesmo ostentando prestígio intelectual, são incapazes de escapar das prisões de uma ideologia. Em certos momentos, em que vejo como se expandiu a capacidade de reproduzir chavões, até tenho a impressão de que as pessoas perderam a capacidade de pensar, de raciocinar. É impressionante a quantidade de repetidores de ideias alheias, meros militantes de pensadores mortos e, pior, muitas vezes, se utilizando de uma repetição vazia, o que chamamos de vulgar mesmo.
A safra, por exemplo, são das pessoas de direitas, que pensam que são esquerdas, que, sem a menor capacidade de distinguir alho de bugalho, defendem, por exemplo, a aceitação fanática de ideias alheias a favor de bandeiras de justiça social, de defesa dos pobres, dos fracos e oprimidos. São os que louvam Cuba, por exemplo, e gozando das prerrogativas, ainda que boas, do nosso parco capitalismo, xingam, freneticamente, os outros de burgueses, coxinhas e outros adjetivos menos carinhosos ao defender o indefensável governo Dilma. São os grandes detentores da verdade, que continuam certos contra todas as evidências. São os mesmos que, antes, não viam problemas em Sarney, Renan, Jucá, Raupp & quejandos e, agora, os condenam veemente apenas porque estão a favor do “golpe”. Que golpe? O que as ruas, a população pedia? Um golpe, realmente, muito estranho.
É impressionante que, na era digital, de ondas contínuas de informações, ideias, e plataformas democráticas, com tantas informações, o fanatismo faça com que alguns acreditem que é a Rede Globo, a Veja e o Estadão que fazem a cabeça das pessoas. E, me causa mais espanto ainda, por ver que não são populares, como comumente se diz, mas,  professores, mestres e doutores, que não conseguem enxergar por cima dos muros e grades das universidades. E se olham, não conseguem ver a realidade, envoltos no que pensam ser a salvação da humanidade, a ideologia marxista, socialista. Ideologia que só apresenta uma solução que é a de pegar em armas e lutar por  suas ideias. Mas, para quê? Para implantar as ditaduras que já se mostraram sem futuro, como da extinta URSS ou de Cuba, em gradativa ( e longa) extinção.
O que é estranho, mais ainda, é que são os mesmos que criticam os xiitas por sua ignorância e seu fanatismo. São pessoas de ideias fixas que, desfrutando dos bens e prazeres que o capitalismo proporcionou, bradam contra os empresários, gananciosos, que “nada fazem de bom para a sociedade” esquecidos, porém, que são eles que produzem, que criam bens e serviços. Volto a dizer que não há futuro com sociedades dirigidas por governos totalitários. Que revoluções cubanas, russas, nazistas, fascistas são todas muito parecidas e somente satisfazem o desejo de alguns pelo poder. Não há verdades supremas nem incontestáveis e, se desejamos uma sociedade melhor, temos que aprender, em primeiro lugar, a deixar o fanatismo e o radicalismo de lado. Por causa deles, por causa de ideias que, supostamente, fariam o paraíso na terra, já morreram milhões. Por isto, se é verdade que o governo Temer é uma porcaria, ainda é mais puro que o governo passado. Já é uma depuração dele. Precisamos avançar. E só avançaremos com estabilidade e paz social. Sem superar o passado recente, sem sepultar, de vez, o governo passado, não avançaremos. Precisamos fazer isto nem que depois, se for o caso, também sepultemos o governo presente e interino. Toda economia somente melhora quando se tem estabilidade e perspectivas. Sem um governo permanente continuamos reféns dos ideólogos sem cabeça e da crise.



terça-feira, maio 31, 2016

DEVERIA SIM COMEÇAR OUTRA VEZ


Um comentário ligeiro sobre o documentário acerca de Cauby Peixoto

Na minha infância Cauby Peixoto já era um ídolo. Talvez, salvo Orlando Silva, que também despertou alguma histeria, não tivesse tido antes algum ídolo que despertasse tantas paixões, tantos fãs e fofocas igual a ele. Foi, vamos dizer assim com uma certa relatividade, o Roberto Carlos do passado. Gostava, gosto da voz dele. Há canções que somente mesmo ele foi capaz de interpretar com maestria como foi o caso do seu grande sucesso “Conceição”. Não foi um dos meus ídolos, confesso, que me nutria mais de Carlos Galhardo e depois de Nelson Gonçalves, mas, era impossível não gostar de sua voz e de seu repertório que incluíram grandes sucessos como Blue Gardênia, Tarde Fria, New York, New York e a canção de Chico, que foi uma espécie de marca sua nos novos tempos, Bastidores. Cauby Peixoto foi, sem nenhuma dúvida, o primeiro grande artista pop do Brasil. Foi protagonista de uma história de vida bonita, tortuosa e, até certo ponto, incompleta. Sempre me pareceu que foi uma estrela que não chegou a luzir com todo o brilho que devia, merecia.
Quando me deparei, na Netiflix, com o documentário “Cauby – Começaria Tudo Outra Vez” do cineasta Nelson Hoineff, fui assistir com um misto de curiosidade e, ao mesmo tempo, com uma certa reverência. Afinal a morte recente de Cauby ainda está no ar e na dor dos que sabem que é uma época que se enterrou com ele. Com o olhar crítico que sempre tive a seu respeito, apesar de considerar sua voz belíssima não gostava de seus adornos vocais, sabia que seria um prazer ouvir suas músicas e conhecer um pouco mais de sua história. A verdade é que fiquei frustrado sob estes aspectos. Hoineff não explorou bem a biografia de Cauby, nem sua discografia, penso, da melhor forma. É verdade que se revela um esteta, quando a câmera passeia e pega certos momentos do cantor, porém, senti falta de um esclarecimento melhor sobre a vida do cantor e de alguns momentos memoráveis que, certamente, deve ter registro. Sei que, às vezes, também são as limitações de direito e orçamentárias, todavia, mesmo assim, como teve acesso ao biógrafo Rodrigo Faour poderia ter dado uma visão mais rica da vida do grande ídolo. Inclusive, mesmo que ele não quisesse falar, seria preciso dar um tratamento mais claro de sua vida amorosa, de suas experiências que são, apenas  roçadas, com alusões até do cantor sem clareza, porém. Não que esteja se pedindo uma confissão ou intimidades, mas, quais as pessoas que amou, quem o acompanhou pela vida, enfim, os amigos e os amores que não aparecem no filme. Há, inclusive, uma citação de que "reprimiu-se a vida inteira", o que mereceria um tratamento melhor, mesmo que confeitado. Afinal qualquer que fosse sua opção não eliminaria uma trajetória fulgurante nem afetaria o seu valor artístico ou pessoal. O fato é que as figuras queridas de Cauby não ficam claras e quando aparecem, ficam sem um enquadramento que clarifiquem sua importância. Hoineff, pelo que soube, justificou que “Cauby é muito fechado”. Sem dúvida era, de vez que protegeu a sua intimidade a vida toda, mas, um documentário sobre ele, a meu ver, teria que ter mais conteúdo sobre sua vida e carreira. Isto não invalida em nada o filme. É um belo filme, sobre um grande ídolo brasileiro e, até pela falta de outros registros, vale a pena assistir. No entanto, creio que se fosse Hoineff faria, pois, deve ter material, um outro documentário que fosse menos “fechado”. O filme é uma beleza sob o ponto de vista de se ver um grande ídolo até o fim desejando permanecer no palco, todavia, parece, como a própria vida de Cauby, com um roteiro incompleto, ainda como uma estrela que não revela toda a sua luz.


Ilustração: ego.globo.com

terça-feira, maio 24, 2016

VIVA AS DIFERENÇAS


As pessoas, e não apenas elas, não são, naturalmente, iguais.  A grande verdade- se é que há uma- é a de que indivíduos livres são indivíduos muitos diferentes entre si, com habilidades e qualidades diferentes, de vez que os talentos e capacidades e até mesmo a forma de trabalhar não possuem o mesmo afinco, qualidade ou dedicação. Cada um de nós nasce em situações distintas, com suas vantagens e suas desvantagens, cercados por pessoas diferentes e diferentes tipos de incentivos e graus de oportunidade. Só num mundo ideal podemos ser iguais e é compreensível que se procure amenizar as imensas desigualdades existentes, mas, a história real nos tem demonstrado que tentar remediar a situação implantando políticas governamentais “corretivas” tem se mostrado um tipo de cura muito pior do que a doença. A antiga URSS, república socialista, desmanchada por absoluta incapacidade de resolver os seus problemas, ou o longo definhamento de Cuba mostram, com clareza, que a busca de acabar com as desigualdades pode originar situações piores que as originais. Sem falar na agonia atual que a Venezuela passa com Maduro. A situação recente do Brasil, com os governos petistas, comprovaram, o que na experiência histórica é recorrente, que sempre que se tomam medidas coercitivas para a  redistribuição de riqueza somente se consegue que os ricos e os espertos enviem sua riqueza para o exterior, ao passo que os desafortunados terão de arcar com o fardo do inevitável declínio econômico. O aumento de abertura de contas no exterior, com o Brasil sendo o 5º país com mais recursos em paraísos fiscais, demonstra isto e, não por acaso, caminhamos para 13 ou 14% de taxa de desemprego, isto se aceitarmos a estatística criativa implantada nas instituições de elaboração de indicadores.
Infelizmente, graças a uma selvagem e prolongada lavagem cerebral divulgada na mídia e sustentada, até agora, pelo governo, se protesta e se afirma que é indispensável tomar medidas contra a desigualdade, transformada em cavalo de batalha. Quem não concorda com a coletivização, com o tratamento igualitário, e injusto, na medida em que se deseja fazer justiça retirando renda de quem trabalha para quem não trabalha, foi taxado de tucano, coxinha, retrogrado, reacionário e de direita radical. No entanto, apesar do maravilhoso governo que tivemos, que, segundo o marketing agressivo, incorporou ao mercado uma notável parcela de 40 milhões de pessoas, por incrível que pareça, somente se conseguiu aumentar seja a desigualdade, seja a criminalidade, os problemas rurais e urbanos, de tal forma que a insatisfação pública se expressou nas ruas e no impeachment.

Mas, o governo petista, nunca fez distinções básicas entre, como, por exemplo, que se as pessoas são diferentes, e livres, é normal que tenham rendas diferentes. Nem nunca esclareceu que onde as pessoas têm, obrigatoriamente, a mesma renda não são livres. Porém, o que é pior: não há exemplos reais de desenvolvimento onde os governos organizam a produção. Países desenvolvidos são, de fato, aqueles onde os governos perdem, cada vez mais, a importância e atuam somente em atividades básicas, em infraestrutura e de forma compensatória. Ninguém defende a desigualdade exagerada, mas, existe a desigualdade boa e legítima que deriva da ordem natural das coisas, seja o que isto for. O que, uma visão progressista defende é o direito a oportunidades iguais, mas, isto não pode existir pela opressão dos contrários. Assim melhorar as oportunidades de minorias é melhorar a educação delas e não estabelecer cotas. Assim como criar cidadãos é gerar oportunidades de empregos, melhorar o ambiente dos negócios, estimular o empreendedorismo e não, como tem sido feito, aumentar a quantidade de pessoas dependentes do assistencialismo. A igualdade, e ainda mais forçada a partir do governo, é tão e mais injusta e antinatural quanto à desigualdade abusiva. E só os que não pensam podem defendê-la como ideal humanitário. De fato só os que dela se favorecem, os muito espertos, e os tolos podem aceitar que a igualdade seja um ideal político. A ideia de igualdade econômica não representa nenhuma genuína forma de humanidade ou de compaixão. É uma ideia intelectualmente pobre e fraca. E quando se torna a política de um estado, política pública, vira um desastre anunciado em larga escala e um retrocesso econômico. O fato das pessoas não serem iguais, não terem a mesma renda decorre da própria diversidade da existência e das diferenças. Antinatural é tentar igualar a todos. 

Ilustração: revistaescola.abril.com.br

quinta-feira, maio 19, 2016

A MALDIÇÃO MODERNA DA CONECTIVIDADE


Que é sério é, mas, também hilário. Meu amigo de Londrina, Luiz Moreira, se queixa de que “A conectividade está muito à frente da minha realidade...” e, sem conseguir dominar as complexidades do seu celular, considera que “Acho que é melhor ir pro mato sem Internet.. kk”. Bem, a grande verdade é que, penso que os celulares são como os computadores, segundo o grande jornalista Euro Tourinho “incompreensíveis por natureza”. Na sua insuspeita opinião, ninguém domina, de fato, este tipo de tecnologia. Euro, que faz questão de usar a máquina de datilografar, afirma que, por mais que se conheça os computadores; eles sempre, de alguma forma, nos ultrapassam. Podem me chamar de BIOS-Bicho ignorante de Sistema Operacional, que, na verdade sou, mas, são históricos meus problemas com celulares. Com todos eles, a grande exceção foi aquele imenso tijolo da Motorola dos tempos jurássicos do início da telefonia móvel no século passado.

Hoje, tenho um Xperia, mas, com um série de aplicativos que, de repente, são mais invasivos que vendedores de consórcios, telemarketing de telefônica e corretor de imóvel..Ops! Aqui já fui muito longe. Mas, a verdade é que o aparelho brinca com a minha privacidade e faz tábua rasa de meus desejos. Ainda mais que entrei nuns grupos de WhatsApp para ser a toda hora interrompido pelo som da chegada de alguma mensagem e o troço ainda informa, faz um relatório de que olhei para o infeliz que mandou a mensagem. Aliás, faz muito mais do que isto, informa sempre se estou online, a partir de quando ligo o telefone, mesmo que o indigitado do teclado, que só existe em inglês e chinês, não me permita, de forma alguma, responder nada por meio dele. Só falta mesmo, aliás, não sei se não faz, informar a cor da minha cueca, que meu saldo bancário está negativo, porque, desconfio, que, a esta altura, meu CPF, RG e localização estejam mais acessíveis que água benta em pia de igreja. E ainda me aparece gente que pensa, como acontece com o Moreira, que sou mal educado e não respondo, quando, muitas vezes, nem vi. E me cobra: -Te mandei um zapzap e vc nem tchuns. E faz um ar de descrédito quando digo que não vi. Olha lá se zapzap é meio de comunicação! E depois quem disse que o que recebo, na hora, posso responder. E pessoas que somente usam emoji, emotics, sei lá, as carinhas e garatujas usadas na comunicação digital. Sei lá o que querem dizer. E o mar de convites para jogar coisas que não tenho a menor ideia nem interesse. E, o pior, é que, telefone, mesmo celular, foi feito, para se falar, que é a última coisa que se faz. Ultimamente, do modo como as telefônicas vem se comportando, parece que nem querem mais que se fale, de vez que só aparece mensagem de chamada perdida. Mas, vídeos, de todo tipo, e mensagens de voz chegam toda hora. Mensagens imensas e vídeos mais sem graça que as piadas de judeu do Woody Allen ou tão incompreensíveis quanto as peças de Gerald Thomas. Sem falar das desculpas de quem entrou no grupo errado e disse besteiras sem limites. Devo dizer que já mudei de Samsug para Nokia, passando por Apple e outras marcas de pontas, sem que tudo deixasse de ser uma grande porcaria. O problema é que, como tantas outras coisas na vida, depois que nos acostumamos, não se passa sem o maldito aparelhinho. E uso o meu, até demais, para acessar o Facebook e telefonar. Já pensei em voltar a usar um Nokia peba, mas, pense bem, vou parecer mais dinossauro do que já sou. Assim, permaneço sendo um dinossauro quase digital e continuo sendo sexy....sexagenário, é claro. 

sábado, maio 14, 2016

OS INSIGNIFICANTES CONTRIBUINTES DERRUBARAM O GOVERNO


O que mais me impressiona, no atual processo de afastamento de Dilma Roussef, é o fato de que não somente ela, mas, também uma grande quantidade de pessoas, muitas, é verdade, por puro interesse financeiro, mas, outra parte significativa, por ideologia, não consegue enxergar a realidade e, permanece, insistindo na tese sem sentido de golpe e na visão tosca de que, agora, se terá um retrocesso nas políticas sociais. Aliás, nos dois pronunciamentos em que se despediu, Dilma Rousseff, voltou a tocar na mesma tecla de que iria se trocar o “presente róseo” do governo dela por um futuro sombrio, ignorando que este já chegou há muito tempo no seu próprio governo. É incapaz de admitir, o que é patente: seu mandato foi conquistado com o mais deslavado estelionato eleitoral. Inclusive acusando os adversários de que iriam fazer o que, depois, mal fecharam as urnas, fez, sem o mínimo pudor.
Dilma também tapou os olhos para as multidões que, nas ruas, pediam seu impeachment e, alega, ser vítima de um complô mafioso de Cunha e Temer. É risível. Basta verificar que seu governo conseguiu bater recordes de pedidos de impeachment: 50. Cunha só aceitou um, e restringindo o seu âmbito aos problemas contábeis, quando seria impensável não estender aos fatos do “Petrolão”, o que a Lava Jato apenas constatou, de vez, que há muito tempo já circulavam pelo país as acusações de desmandos na Petrobrás. Ela, por sinal, um ano antes, ocupando posto e cadeira de mando, publicamente desmentiu tudo e ainda acusou os que apontavam para os malfeitos de serem adversários do povo brasileiro, de antipatriotas! Se não bastasse isto afirma que está sendo injustiçada por ser honesta. Bem não me consta que se eleja alguém para roubar, mas, também, não para ocultar a verdade. E é impossível acreditar na completa honestidade de alguém cujos principais auxiliares, Giles Azevedo, Jacques Wagner, Edinho Silva, Gleisi Hofmann, Aluizio Mercadante, só para citar alguns, são todos apontados como envolvidos em transações obscuras. Sem contar que a sua mais fiel escudeira, Erenice Guerra, saiu da Casa Civil por motivos que todos sabem e até hoje, pipocam acusações contra ela. Não me cabe, nem sou juiz, ficar acusando ninguém, mas, como um observador da cena não posso deixar de constatar, e aí já é a justiça quem demonstra, que Dilma pode não ter feito nada, mas, os crimes que aconteceram foram sob o seu comando. O PT toda vez que é acusado alega, por exemplo, que o PP é quem tem mais parlamentares acusados na Lava Jato e que todos os partidos têm membros encrencados. É verdade. Mas, de onde saíram os recursos, quem era responsável pela gestão? Lula, Dilma e o PT. No mínimo, o impeachment já seria legítimo, até para Lula, pela omissão, pela negligência e, se não tiverem, como dizem que não, participado, pelo menos, responderiam por fazer vista grossa para o assalto aos cofres públicos. Querer tapar isto atribuindo os problemas reais que a catapultaram a um complô golpista e desqualificar um correto procedimento constitucional, ainda mais alegando que se trata de inconformidade das elites com as conquistas sociais, que, por sinal, se esfumaçaram, é um desserviço ao país, na medida em que muito pouca gente gosta ou se beneficia da pobreza. Se a pobreza fosse boa para os empresários e o lucro, a África seria o paraíso deles.

Seria mais lógico, e mais eficaz, reconhecer os erros, mas, a expressão mais qualificada do que pensa a cúpula petista veio mesmo da Amazônia, quando a senadora Vanessa Graziottin, uma das mais ilustres integrantes do grupo da chupeta no senado, afirmou “A classe média é analfabeta política e tem que ficar no seu lugar insignificante de contribuinte e deixa (sic) a esquerda intelectual garantir o futuro desta nação”. Como se observa, apesar de pregarem a igualdade, deixam bastante claro quem são nós, os analfabetos e insignificantes contribuintes, e eles, a esquerda intelectual, que, deve gerir o fruto do nosso trabalho, sem que possamos dar nenhum palpite. Foi esta visão que o povo nas ruas afastou do poder. Os insignificantes contribuintes desejam ser ouvidos e atendidos nos seus pleitos e rejeitaram o papel que haviam lhe dado de somente pagar as contas. 
Ilustração: blogdopavulo.blogspot.com

quarta-feira, maio 11, 2016

A IMPRENSA: O DR JEKKIL MODERNO


Ora, uma característica permanente da imprensa, desde que começou a ser reconhecida, é a de que jamais foi isenta. Efetivamente, sua função básica sempre foi a de propagar e difundir ideias, e, ao que se sabe, é muito incomum ideias, em especial sobre governo e sociedade, serem consensuais. O que sempre se propugnou em relação à imprensa é a de que exista liberdade, ou seja, a todos seja permitido emitir sua opinião. Agora é preciso ver que uma televisão, uma rádio, um jornal tem dono, logo, não é errado nem antiético que defenda suas posições. Claro que o ideal é que faça isto de forma transparente, mas, isto depende da formação de cada um. E é preciso deixar claro que ninguém é obrigado a assistir, ouvir ou ler algo. Por mais que não se goste de certos posicionamentos dos meios de comunicação há sempre a liberdade de ignorá-lo. Aliás, um meio qualquer somente cresce se tiver audiência ou leitores, e se isto acontece, é sinal do que o que produz tem qualidade, cria interesse. A liberdade de imprensa se acentua quando qualquer meio vence a concorrência e consegue ter liderança. No fundo é representativo do que pensa a maioria. Isto é liberdade de imprensa e não se propugnar que se feche um meio de comunicação por não se gostar do que divulga. Isto é próprio de regimes comunistas ou fascistas onde não há liberdade de imprensa.

É claro que existem critérios técnicos para a imprensa, mas, nada é isento da política. O que não é aceitável, como muitos desejam fazer crer, é que haja um imenso complô a favor de algum tipo de ideia ou de governo, que, enfim, toda a imprensa seja mera manipulação. O PT que, por exemplo, hoje reclama que os veículos da grande mídia estão exacerbados e, supostamente, teriam construído uma pauta-única de sua destruição, de Lula e Dilma, não reclamava quando a quase totalidade dos meios fazia apologia do governo Lula, aceitava como realidade, por exemplo, coisas absurdas, sob o ponto de vista técnico, como a criação de uma falsa classe média emergente ou as comparações forjadas dos índices apenas com o final do governo FHC, quando eles cresceram por culpa da ascensão de Lula, numa manipulação da mídia sem precedentes na história brasileira. Por sinal, quem estava no governo, o principal anunciante e suporte financeiro da imprensa, era o PT e não somente financiou, aumentando os recursos para a área e a quantidade de meios pagos, como pagou um exército de jornalistas e blogueiros o que, certamente, não terá sido para fazer propaganda contra si. É totalmente falso que a imprensa tenha sido uma perseguidora de Lula e do PT. Sem ela, por sinal, sem sua condescendência, se houvesse existido uma apuração criteriosa dos fatos, Lula jamais teria chegado ao poder. Alegam, por exemplo, que as denúncias de corrupção do partido ganham mais manchetes. Convenhamos que, só para clarificar a questão, quando no passado existiu flagrante de recebimento de propinas, dólares em cuecas, atos dantescos, como dancinhas no Congresso ou intervenções do governo para gerar atos ilegais, como o mais recente de Maranhão? Se, no mandato de Lula, não houve um complô da imprensa para transformá-lo no “estadista”, que jamais foi, tampouco há, agora, um para transformar o governo Dilma em “fim de mundo”. A imprensa, como um espelho, só reflete, mesmo que, algumas vezes, com distorções, a imagem que os governos e a sociedade construir. Como Dr Jekkil só tenta provar suas teorias de que o bem e o mal convivem na sociedade. E, é evidente, o mal é mais fácil de dar boas manchetes. A imprensa, como o mundo, não é perfeita, mas, é melhor quanto mais diversificada e não, como pregam os que desejam uma versão única das coisas, com o estado buscando colocar limites à informação e às opiniões. 

terça-feira, maio 10, 2016

OS BONS EFEITOS ECONÔMICOS DA LAVA JATO



A grande verdade é que, apesar das mudanças não acontecerem de uma hora para a outra, a Operação Lava Jato, com todos os problemas e objeções que possa ter, já mudou a realidade da justiça brasileira. Um sintoma evidente disto aparece, por exemplo, agora, quando, numa atitude inédita, a empreiteira Andrade Gutierrez, que aceitou pagar R$ 1 bilhão de indenização como pena, em nota, pede desculpas ao povo brasileiro reconhecendo que "erros graves foram cometidos nos últimos anos e, ao contrário de negá-los, estamos assumindo-os publicamente. Entretanto, um pedido de desculpas, por si só, não basta: é preciso aprender com os erros praticados e, principalmente, atuar firmemente para que não voltem a ocorrer". A empresa também diz que vai colaborar com as autoridades no decorrer das investigações e informou que concluiu a negociação de acordo de leniência com o Ministério Público Federal, iniciada em outubro de 2015.  
É um notável avanço na medida em que, como se observa, corriqueiramente, a prática das empresas, e das pessoas, tem sido sempre a de negar a realidade, mesmo diante das evidências e provas factuais. Em grande parte, este comportamento advém da histórica impunidade dos brasileiros mais poderosos e ricos e, neste sentido, também a Lava Jato inova ao demonstrar que ninguém, mas, ninguém mesmo, está acima da lei. Mas, isto somente foi possível pelo apoio da sociedade inclusive porque, como muitos são os atingidos, se busca mesmo nublar os fatos, distorcer uma ação que é apenas de aplicação da lei, da justiça como deve ser feita, sem considerar a posição da pessoa que comete o crime.

No seu desenrolar a Lava Jato revelou, com clareza, que as relações entre o governo, as empresas e os partidos criaram esquemas dolosos que, além de drenarem recursos públicos para fins ilícitos, criaram um ambiente econômico profundamente perverso no qual desaparece a concorrência e as boas práticas de mercado substituídas pelo apadrinhamento e um sistema de exclusão dos que não participam do clube da propina. Desta forma, sob o ponto de vista econômico, é o oposto da tese que muitos políticos defendem: a Lava Jato é muito saudável para a economia. Insalubre mesmo é a corrupção sistêmica, a combinação de preços, prevista como crime na legislação, que tem, como agravante, o superfaturamento de obras. Se, é lógico, no curto prazo, a renda e o emprego são afetados pelas punições da Lava Jato, sua ação tem o efeito corretivo de reduzir a corrupção, de injetar transparência e imparcialidade nos negócios públicos e colaborar para um ambiente econômico futuro melhor. A experiência comprova que não se constrói desenvolvimento sem regras claras, sem transparência e sem concorrência, em especial nas relações entre o governo e os fornecedores. Ainda que, amanhã, a Lava Jato possa ter seus efeitos diminuídos por outros fatores, sem dúvida, já obteve um efeito saneador ao expor as práticas ilegais e punir os infratores da lei. De qualquer forma será impossível entender este momento brasileiro sem levar em consideração os efeitos benéficos que estão sendo obtidos para a construção de um país com mais justiça e eficiência. 

domingo, maio 08, 2016

A RECONSTRUÇÃO NECESSÁRIA


É claro que os que usam viseiras ideológicas, que são bem menos do que se possa imaginar, e os que ganharam ou ganham, ou queriam ganhar com o governo Dilma, vão continuar sempre a dizer que o impeachment dela é um golpe. Se foi um golpe foi o primeiro golpe popular da história brasileira. Há até mesmo os mais sem parcimônia que utilizam a velha e surrada defesa de que só os governos do PT fizeram algo em favor dos pobres. O grande problema disto são os números, que, apesar de imensamente torturados nos tempos atuais, não conseguem mais esconder o malogro inevitável de um governo que teve como pretensão contrariar a lógica mais comezinha. Basta apontar que não existe um caso de desenvolvimento real via estado. Países desenvolvidos, todos os conhecidos, são de livre mercado e, mais do que isto, só com livre mercado pode existir liberdade.
Mas, os pecados dos governos do PT, além do pecado original de desejar que o estado dominasse tudo, passam também pelos erros primários de condução da administração pública. Lula, que saiu com uma aprovação recorde, no seu primeiro governo foi responsável pelo “Mensalão”, obra que por si só, já merecia o impeachment que ele havia pedido para todos os governos anteriores. E mais responsável ainda por, quando navegava em mar de brigadeiro, tendo herdado um país com todas as condições de criar um futuro melhor, sentou-se em cima do marketing para refazer sua própria biografia e não moveu uma palha para modernizar o país, melhorar a gestão pública, mudar a sociedade e, para completar a obra pífia, elegeu uma pessoa sem nenhuma experiência política, que não se elegeria a síndico de seu prédio, para governar o país vendendo a imagem de eficiência gerencial que, como seria de se esperar, foi decepcionante.
O governo de Dilma, por herança e continuidade do populismo barato, levou adiante a farsa de criar desenvolvimento via crédito e consumo, algo insólito na história humana, e acentuou, aliás, acentuou não, potencializou os erros nas políticas relativas aos combustíveis e à energia, área em que, supostamente, Dilma seria uma especialista. As denúncias da Lava Jato, a descoberta do Petrolão, foi a cereja do bolo. Se há um golpe é, sem dúvida, um golpe popular e legítimo. É o golpe do povo que foi às ruas dizer que precisa de um governo que cumpra seu papel. O governo Dilma chegou, e foi um pouco além, do limite suportável. E a classe política, verdade seja dita, foi empurrada, impelida a catapultá-la.
Por esta razão nem mesmo se espera muito do governo Temer, principalmente, porque o Brasil pós-PT é uma terra arrasada. Serão preciso muitos anos somente para recuperar o estrago de dois anos de Produto Interno Bruto-PIB caindo numa média de -4% e para recuperar a destruição das finanças públicas, porém, pelo menos, o Brasil passa a ter esperança em um governo melhor, um governo que, em primeiro lugar, faça o dever de casa, controle as finanças, para podermos retomar o desenvolvimento. O momento é de buscar reconstruir o país dos escombros de uma política ruinosa para o nosso futuro. Claro que desejaríamos ter políticos melhores, porém, não se pode fugir da realidade de que teremos que trabalhar com as cartas disponíveis e exercer a cidadania da forma como foi feita para limpar o caminho da reconstrução. 

domingo, maio 01, 2016

A FELICIDADE E O CRUEL PENSAMENTO DE FREUD


De repente, deve ser culpa dos tempos, me vejo refletindo sobre a felicidade. É preciso acentuar que sempre alimentei a ideia, ligada ao pensamento do inglês Bertrand Russell, do livro “A Conquista da Felicidade”, de ser necessário, para tentar ser feliz, alimentar uma multiplicidade de interesses e de relações com as coisas e com os outros homens. Para ele, em síntese, a felicidade seria a eliminação do egocentrismo. Neste sentido, o que não deixa de ser verdade, é impossível ser feliz numa sociedade infeliz. Não muito diferente do pensamento, por exemplo, de Freud que, num estudo que tem menos de psíquico do que de filosófico, conclui em “O Mal Estar da Civilização” que, face às exigências impostas pela civilização, a felicidade é uma meta irrealizável.
É evidente que a ideia de felicidade é indissociável da ideia de prazer. Aliás, prazer e desprazer são conceitos fundamentais para se entender a concepção de felicidade. No terreno filosófico sobre o qual Freud edificou o conceito de prazer sua leitura é de uma crueza e precisão impressionante. Só rememorando: acentuava que o princípio de prazer é um modo de organização que, governando o psiquismo do início da vida, baseia-se na busca de prazer, mas, também em evitar o sofrimento. Freud é cético e clínico a respeito:
[...] o programa está em desacordo com o mundo inteiro, tanto com o macrocosmo quanto com o microcosmo. É absolutamente irrealizável, as disposições do todo – sem exceção – o contrariam. Diria-se que o propósito que o homem seja “feliz” não está contido no plano da “Criação”..

Para ele, portanto, se fazia necessária à introdução do princípio de realidade. Manter uma condição subjetiva de prazer sem desprazer é uma meta inalcançável. O mundo externo não nos permite a satisfação irrestrita, fora as questões psíquicas, como o tempo curto do prazer, a necessidade do contraste, ou seja, como ter prazer sem desprazer? Freud, é, para não ser pornográfico, um torturador mental de alto estilo, ao ressaltar que, sob o ponto de vista psíquico, há uma outra explicação para o fato do princípio de prazer ser irrealizável: a idéia segundo a qual a felicidade está relacionada ao estado zero de tensão, ou seja, à morte, sendo, nesse caso, incompatível com a vida, por conta da própria constituição do psiquismo. E, com a frieza de um estatístico, Freud nos afirma que as possibilidades de sentir infelicidade são muito maiores. A infelicidade provém do corpo, do mundo externo e dos relacionamentos humanos. Neste sentido, parece que ao seguir Russel e o grande neurocientista português, António Damásio, tenho navegado contra a corrente. Se for levar em conta Freud melhor é ter menos, inclusive relacionamentos, notícias, informações e até mesmo desejo de felicidade. Subjacente ao que diz, os homens que reduzem suas reivindicações de felicidade vivem melhor e são mais felizes somente por terem escapado ao sofrimento. O que me parece, apesar de como filósofo me encontrar num estágio mais rasteiro do que peito de cobra, é que, nem sempre o que se pensa, corresponde aos desejos, à capacidade psíquica e do corpo. Muitas vezes, abrir mão de algo é muito doloroso. Sendo assim como diminuir as reivindicações? Freud que me perdoe, mas, vou ouvir música. É muito desprazer ver que nos fornece uma análise pessimista, dura e implacável: a promessa de felicidade é uma miragem da sociedade moderna e, sob o ponto de vista filosófico, está destinada a permanecer nada mais do que uma promessa. Felicidade foi embora! 

Ilustração: http://divagacoesligeiras.blogs.sapo.pt/.