Cidades do Norte do
Brasil, como Belém, Manaus e Porto Velho, têm experimentado, nos últimos anos,
uma transformação significativa em seus carnavais. Com a “Banda do Vai Quem
Quer” de Porto Velho, como exemplo, e outros blocos tradicionais, essas festas
vêm atraindo crescente número de turistas nacionais e internacionais,
impulsionadas pela ampliação da malha aérea e pela valorização das experiências
culturais e gastronômicas únicas da região amazônica. Os investimentos em
infraestrutura e segurança têm permitido que as festas ampliem seu alcance,
contribuindo para a geração de renda e empregos. No entanto, por trás dos
números positivos e do crescimento turístico, persiste uma queixa recorrente: o
carnaval do Norte e a economia criativa regional não recebem o mesmo apoio que
as festas consolidadas do Sudeste e Nordeste do país.
Os blocos tradicionais e
grupos culturais da região amazônica enfrentam um paradoxo: enquanto suas
festas ganham visibilidade nacional e internacional, os organizadores relatam
dificuldades crescentes para viabilizar os desfiles. As principais reclamações
incluem a falta de apoio institucional consistente, exigências burocráticas
excessivas e, em alguns casos, o uso político das festas por autoridades que
veem no carnaval apenas uma plataforma para promoção pessoal, sem compromisso
real com o desenvolvimento da cultura local. Esta contradição revela uma
questão estrutural: a economia criativa do Norte permanece subfinanciada e
subvalorizada em comparação com outras regiões do país, apesar de seu inegável
potencial econômico e cultural. O resultado é um cenário onde o sucesso público
das festas não se traduz em sustentabilidade para os produtores culturais que
as constroem.
Para reverter esse quadro
e consolidar o carnaval do Norte como patrimônio cultural sustentável, algumas
medidas podem ser implementadas:
1)
A criação de fundos permanentes para
a cultura regional. Os fundos permanentes garantem
previsibilidade aos produtores culturais, permitindo planejamento de longo
prazo. Esses fundos devem ter critérios técnicos de distribuição, com
participação de conselhos culturais representativos, evitando a distribuição
política dos recursos;
2)
Desburocratização dos processos de
licenciamento. A criação de balcões únicos para
obtenção de licenças, alvarás e autorizações pode reduzir significativamente o
tempo e o custo para organização dos blocos. Processos digitais e prazos claros
também contribuem para maior transparência e eficiência administrativa;
3)
Programas de capacitação e
profissionalização. Investir na formação de gestores
culturais, técnicos de produção e empreendedores criativos fortalece toda a
cadeia produtiva do carnaval:
4)
Editais com antecedência e
continuidade. A publicação de editais de fomento com
pelo menos seis meses de antecedência permite que os grupos se preparem
adequadamente. Além disso, editais plurianuais oferecem segurança para projetos
de maior fôlego e estimulam o desenvolvimento artístico consistente;
5)
Criação
de espaços permanentes para ensaios e produção. A disponibilização de
galpões culturais, centros de criação e espaços de ensaio gratuitos ou
subsidiados reduz drasticamente os custos operacionais dos blocos e grupos;
6)
Estruturação de programas de turismo
cultural integrado. Articular o carnaval com outras
manifestações culturais e atrativos regionais (gastronomia amazônica, turismo
de natureza, festivais de música) pode ampliar o impacto econômico e
descentralizar os benefícios para além do período carnavalesco.
Algumas cidades
brasileiras demonstram como o apoio efetivo ao carnaval pode gerar resultados
positivos para toda a comunidade. São exemplos, Salvador (BA), Recife e Olinda
(PE), São Paulo (SP) e, mais recentemente, Belo Horizonte (MG) e Florianópolis (SC). São bons exemplos e é preciso entender que o carnaval
do Norte possui características únicas que merecem ser preservadas e
potencializadas. Para isto, é fundamental que as políticas públicas reconheçam
essas especificidades e haja apoio para fortalecer as raízes culturais locais e
valorização dos mestres da cultura popular. Porém, um dos maiores obstáculos ao
desenvolvimento sustentável do carnaval do Norte tem sido a instrumentalização
política das festas. Quando autoridades utilizam os recursos culturais
primariamente para autopromoção, cria-se um ciclo vicioso de dependência e
instabilidade. A cultura não deve ser refém de ciclos eleitorais ou interesses
políticos momentâneos. Cabe aos gestores públicos do Norte do país escolher:
repetir modelos ultrapassados de apropriação política da cultura ou construir,
em parceria com os verdadeiros protagonistas da festa, um carnaval que seja, de
fato, patrimônio de todos e motor de desenvolvimento regional sustentável. A
Amazônia tem muito a ensinar ao Brasil sobre diversidade, resistência e
criatividade. Está na hora de seu carnaval receber o reconhecimento e o apoio
que merece.
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