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quarta-feira, agosto 10, 2016

EXPLICAÇÃO UM POUCO DESNECESSÁRIA


Embora tenha explicado no próprio livro, no entanto, sei que, muitas pessoas, não terão acesso a ele, bem, como até mesmo alguns que terão, não possuem paciência para ler mais do que algumas linhas, e, tenho me deparado, invariavelmente, com a pergunta que não quer calar: por que resolvi escrever um livro a respeito do jornalista e diretor do Alto Madeira Euro Tourinho?  Há uma, e só uma resposta clara para mim, realizei, mesmo que, tardiamente, o desejo de um amigo que me foi muito caro, o também jornalista Sued Pinheiro.
Foi Sued quem, por inúmeras vezes, me chacoalhava e me cobrava “-Vamos escrever um livro sobre ‘seu’ Euro”. Devo dizer que, no começo, a ideia me parecia pouco atraente. Não pelo Euro, que é uma pessoa querida, amável, porém, devo confessar que sou um preguiçoso nato e, para me dedicar a pesquisar alguma coisa é preciso ter paixão. No caso, não nego meus pecados, também pensava que, como havia sido nosso chefe de jornal, poderia parecer algo com certa aura de bajulação. Ele, porém, não desistia e, sempre que possível, não só voltava a tocar no assunto, bem como me admoestava sobre a necessidade de homenagear as pessoas em vida. Sempre, com um certo descaso, afirmava que, nós é que deveríamos ter cuidado, pois, Euro Tourinho, certamente, assistiria muitos de nós partirmos antes. Só não contava que Sued fosse um dos que partiram e tão cedo. Com a sua morte, que me deixou, uns três meses, consternado, e até, em alguns momentos, sem crer, ou crendo que era ele que batia, como muitas vezes fez, na porta de minha casa, reformulei meus conceitos.

E entre as decisões da mudança decidi que, pelo menos, no caso de Euro, não cometeria o erro de não homenageá-lo em vida. De fato o livro “Euro Tourinho, a Samaúma da Imprensa Amazônica” é uma homenagem, que é mais do Sued do que minha, ao nosso querido diretor. E, ao contrário do que pensava, a tarefa foi prazerosa, de vez que não apenas nos aproximamos mais, como procurei tornar o livro como Euro é: leve, divertido, tentando fazer um relato de partes de uma vida de um homem sábio. Devo dizer que, no fim, o livro ficou muito aquém do homenageado, mas, tenho um grande orgulho e o prazer de ter feito. Afinal me associei, por vias tortas, a um homem que é uma lenda viva. E que ainda por muito tempo há de servir de exemplo de pessoa humana, de simplicidade e de ser o que é: uma pessoa que procura sempre fazer as coisas que devem ser feitas e viver feliz. 

Foto: Rosinaldo Machado

terça-feira, julho 26, 2016

O DESAPEGO COMO UMA ARMA DA ARTE DE VIVER


Uma dúvida que sempre me assalta é a de que se, de fato, há evolução humana. A verdade é que gosto de viver e a vida, hoje em dia, neste século XXI, embora seja, sem dúvida, muito mais confortável, me parece também mais enganosa, mais difícil de se compreender e o Brasil, também os brasileiros que vivem aqui, e lá fora, me parecem cada vez mais selvagens e incompreensíveis. No geral, sinto, a contragosto, uma imbecilização em massa. Vide o recente episódio da Marcela Tavares em Nova York. Bem é possível que exista um stand-up que preste, mas, convenhamos, abrir um show de uma banda com um, já me parece uma insanidade. Outra, e nem preciso que todo mundo concorde, é mulher dizendo palavrão, mesmo o infantil de santificar os palcos. O problema maior é que, seja qual for a visão que se tenha da humorista, ela falou a pura verdade: o Brasil está mesmo insuportável. Aliás, não é o Brasil só. È o mundo. Ou será que todos pensam que o Donald Trump conseguiu garantir o número mínimo de delegados para ser candidato por estarmos perto de novos tempos?
Por todas essas coisas é que tenho tentado me desapegar de tudo. Tudo mesmo. Livros, papéis, escritos e poesias velhas. Móveis e utensílios nem falo mais. Conclui, depois de muito tempo de apego, que o desapego é, definitivamente, uma grande qualidade. É sempre mais fácil o desapego às coisas, mas, também, às vezes, é preciso, indispensável, o desapego com as pessoas. Isto sempre foi muito difícil. Diria que, mesmo impossível, para mim, mas, ultimamente, tenho pensado que é melhor, mais saudável, mais salutar ter menos pessoas, com mais tempo, com mais carinho, com mais amor e dedicação. E se preciso de uma prova escuto o bandolim do Lito Casara, o violão do Nicodemos, a voz do Caté e me regalo com o papo descontraído, líquido e prazeroso dos amigos, como o Marcus Vinicius, o Demétrio, o Gêgê, os Macaxeiras e alguns novos e instigantes, além de belos interiormente, como a Tamires e a Taina. Ter o prazer de conviver com pessoas novas e inteligentes é uma coisa que me faz crer no mundo e solidificar minha crença de que Marlon Brando não morreu. Quem amanteiga uma mulher como Maria Schneider sobrevive até mesmo ao último tango.
Talvez isto também provenha do fato de que alguns amigos, bons amigos, fizeram, creio que também sem meios de se contrapor, o dissabor de ir embora mais cedo. E a falta deles dói. Dói muito. Me consola o fato de que alguns me obedeçam e sigam a regra essencial que imponho aos amigos agora: a de não irem embora sem aviso prévio. Ainda assim a morte não respeita minhas regras e vai levando quem pode. Por tudo isto, como se sai desta vida como se entra, sem nada, liso e nu, estou exercitando a arte de rir até mesmo para saber deixar as coisas e as pessoas irem, quando não podem, não querem ou não podem mais ficar. Sempre dói, mas, é melhor se acostumar. Um dia como nos desapegamos deles, então, os que sobrarem se desapegarão de nós. A arte do desapego faz parte da arte de viver. Bem, vocês podem não compreender muito bem  a razão de ter escrito isto, porém, é parte de um processo que também não entendo, ou seja, está perfeitamente coerente com os nossos tempos.


Ilustração: www.viva50.com.br

segunda-feira, julho 04, 2016

No te vayas Lio


Devo dizer que não sou um dos maiores fãs de Messi. Não nego que seja um jogador excepcional, mas, de certa forma, ele é o Zico argentino. Explico: ele e Zico tem, em comum, o fato de serem sempre regulares e, em momentos decisivos, serem até mesmo excepcionais, porém, sempre jogam de forma quase burocrática. E sei que vou desagradar muito os rubro-negros, mas, na verdade, como Messi, Zico foi um jogador que se fez pelo esforço, pela disciplina e não seria quem foi, ambos, aliás, se não jogassem na equipe em que jogaram. A grande diferença, talvez seja, que Messi veio da escolinha do Barcelona e nela se moldou, enquanto Zico precisou sair do Flamengo para se transformar num atleta no verdadeiro sentido. Messi, é verdade, conseguiu muito mais dinheiro e sucesso. Porém, penso que Zico foi muito mais perfeito em chutar e, para desespero meu, que sempre fui vascaíno, chutava com perfeição de qualquer jeito. Costumo dizer que Zico foi um dos últimos grandes ídolos brasileiros que sabia os fundamentos do futebol. Hoje tão esquecidos, e até mesmo vilipendiados, pela falta de treino, de disciplina, de aplicação. Os jogadores de hoje, muito bem pagos, podem ver pelo que fazem, desaprenderam a arte de chutar, de cabecear e, muitos, de driblar para a frente. De serem mesmo craques. São muito mais celebridades que eficazes no campo.
Voltando, no entanto, ao prato principal. Messi desfruta com Zico o dissabor de, na seleção, não conseguir ser o que é no seu clube e, para piorar, ambos falharam em momentos decisivos. Não consola, mesmo para Messi, um batedor de recordes, ser a estrela principal do mundo e não conseguir ajudar seu país a conquistar títulos. É uma coisa de profissional, sim, reconhecer as dificuldades e chorar por não conseguir fazer o que se esperava dele. É um fato que o honra tanto ter chorado, como considerar, mesmo não sendo verdade, na medida que ainda tem muito o que dar, dizer que não jogava mais por sua seleção por se sentir insatisfeito com sua atuação. Foi uma demonstração de seu alto nível de cobrança pessoal e um comportamento que honra sua carreira e seu país. Messi comprovou ser um verdadeiro argentino com a grandeza de seu gesto. A inconformidade com os limites é digna dos grandes gênios.
Assim, ouso dizer que é um fato político importante que, mesmo com a forte chuva que caiu sobre Buenos Aires, na tarde do último sábado, centenas de pessoas se reuniram no Obelisco, famoso monumento da cidade, para pedir que Messi não deixe a seleção argentina. Os fãs levaram bandeiras e cartazes com a expressão "No te vayas Lio" (Não se vá, Lio), usada desde o último domingo pelo jornal "Olé" para que o craque volte atrás, gritaram e cantaram. Um torcedor chegou a exibir uma bandeira em que o comparava a Deus. Certo que é um exagero, mas, que se pode esperar dos bons e orgulhosos argentinos? O que fizeram é um verdadeiro ato de humildade: reconhecer a grandeza de quem se esforçou para fazer o melhor e pedir que continue a fazer. Foi uma manifestação que foi honrosa para Messi, mas, também para os que a fizeram. De fato, Messi é uma estrela e, nos tempos atuais, qualquer seleção argentina ou até mesmo qualquer campeonato regional ou mundial, não há dúvida, que perde um muito do seu encanto, do seu brilho, sem ele. De forma que, como bom brasileiro, que gosta de bom futebol, também me associo, mesmo sem pegar a chuva que pegaram, e peço: Não se vá, Lionel. O futebol fica menor sem sua presença.


Foto: Globo esporte.

segunda-feira, junho 27, 2016

CRÔNICA DA PACIÊNCIA PERDIDA


Não sei se vocês ainda lembram, mas, a afastada presidente Dilma, lá pelo começo de março, fez, em rede nacional, um discurso culpando a crise mundial pelos problemas do Brasil e pedindo paciência aos brasileiros.  Recebeu, como bela e imediata resposta, pelo país inteiro, e ainda mais nas grandes capitais, gritos, vaias, xingamentos, panelas batendo e buzinas protestando contra seu pedido bizarro. Não era para menos, pois, no seu discurso, no Dia da Mulher, teve o desplante de dizer que as dificuldades que o país estava passando resultavam da crise financeira mundial e da "maior seca da história", e completou com assombrosa falta de senso que "Entre muitos efeitos graves, esta seca tem trazido aumentos temporários no custo da energia e de alguns alimentos. Tudo isso, eu sei, traz reflexos na sua vida. Você tem todo direito de se irritar e de se preocupar. Mas lhe peço paciência e compreensão, porque esta situação é passageira". Incrível, mas, teve a coragem de dizer que o Brasil tem condições de vencer os "problemas temporários" e que o governo absorveu, até o ano passado, todos efeitos negativos da crise e que "agora" tem "que dividir parte deste esforço com todos os setores da sociedade”, de forma  que a vitória "será ainda mais rápida se todos nós nos unirmos neste enfrentamento”. São palavras de quem, como se viu a forma com que foi festejado seu afastamento, se encontrava completamente fora da realidade.

A cristalina verdade é que o brasileiro não tem mais paciência nem compreensão. Os números da violência refletem isto, mas, não são frutos apenas dos roubos gritantes e sorrateiros, como no caso ora revelado dos consignados, e da corrupção que a Lava Jato já mostrou ser sistêmica. É muito mais do que isto. A revolta do brasileiro, que se revela diariamente, vem de que os políticos que deveriam ser os canais de resolução dos problemas da sociedade viraram solucionadores de seus próprios problemas. A sociedade brasileira acordou ao ver que, além de arcar com uma carga monstruosa de impostos, de carregar no lombo o desperdício e a corrupção, ainda por cima suporta a mais hedionda burocracia do mundo. É incrível a carga de exigências de atestados, de documentos, de comprovações que os brasileiros enfrentam a cada dia. Até em bancos oficiais, que deveriam primar por atender ao público, para se ser atendido, é preciso enfrentar três filas ou para pagar impostos se sofre com emissões de guias, com cadastros, com senhas e acessos que não funcionam. A verdade é que, qualquer coisa pública no Brasil, funciona sempre contra o brasileiro. O governo nos ensina que só temos deveres, seja de pagar impostos, de prestar informações, de estar com tudo em dia, mas, por outro lado, e os direitos? Os direitos, como se comprova parece que se restringem aos cidadãos de primeira classe, os poderosos e os políticos, ou aos que nada tem que são assistidos como “coitadinhos”. Enfim, chegamos ao cúmulo do absurdo quando o Partido dos Trabalhadores, ao ascender, perseguiu, justamente, quem trabalha. Não é de estranhar, portanto, que não haja mais paciência nenhuma nem com a política, nem com governos. O Brasil precisa, inclusive para voltar a ter paciência, de menos governo, menos impostos e menos ainda de burocracia. 

segunda-feira, junho 20, 2016

AINDA SOMOS REFÉNS DA CRISE


Uma das coisas que, posso até não ter conseguido, mas, sempre tentei e continuo tentando é pensar, pensar por meus próprios parâmetros. Apesar de que as pessoas pensem que se trata de uma tarefa fácil não é. Tanto que me espanto com a quantidade de pessoas que, mesmo apresentando um vasto tempo de leitura, e até mesmo ostentando prestígio intelectual, são incapazes de escapar das prisões de uma ideologia. Em certos momentos, em que vejo como se expandiu a capacidade de reproduzir chavões, até tenho a impressão de que as pessoas perderam a capacidade de pensar, de raciocinar. É impressionante a quantidade de repetidores de ideias alheias, meros militantes de pensadores mortos e, pior, muitas vezes, se utilizando de uma repetição vazia, o que chamamos de vulgar mesmo.
A safra, por exemplo, são das pessoas de direitas, que pensam que são esquerdas, que, sem a menor capacidade de distinguir alho de bugalho, defendem, por exemplo, a aceitação fanática de ideias alheias a favor de bandeiras de justiça social, de defesa dos pobres, dos fracos e oprimidos. São os que louvam Cuba, por exemplo, e gozando das prerrogativas, ainda que boas, do nosso parco capitalismo, xingam, freneticamente, os outros de burgueses, coxinhas e outros adjetivos menos carinhosos ao defender o indefensável governo Dilma. São os grandes detentores da verdade, que continuam certos contra todas as evidências. São os mesmos que, antes, não viam problemas em Sarney, Renan, Jucá, Raupp & quejandos e, agora, os condenam veemente apenas porque estão a favor do “golpe”. Que golpe? O que as ruas, a população pedia? Um golpe, realmente, muito estranho.
É impressionante que, na era digital, de ondas contínuas de informações, ideias, e plataformas democráticas, com tantas informações, o fanatismo faça com que alguns acreditem que é a Rede Globo, a Veja e o Estadão que fazem a cabeça das pessoas. E, me causa mais espanto ainda, por ver que não são populares, como comumente se diz, mas,  professores, mestres e doutores, que não conseguem enxergar por cima dos muros e grades das universidades. E se olham, não conseguem ver a realidade, envoltos no que pensam ser a salvação da humanidade, a ideologia marxista, socialista. Ideologia que só apresenta uma solução que é a de pegar em armas e lutar por  suas ideias. Mas, para quê? Para implantar as ditaduras que já se mostraram sem futuro, como da extinta URSS ou de Cuba, em gradativa ( e longa) extinção.
O que é estranho, mais ainda, é que são os mesmos que criticam os xiitas por sua ignorância e seu fanatismo. São pessoas de ideias fixas que, desfrutando dos bens e prazeres que o capitalismo proporcionou, bradam contra os empresários, gananciosos, que “nada fazem de bom para a sociedade” esquecidos, porém, que são eles que produzem, que criam bens e serviços. Volto a dizer que não há futuro com sociedades dirigidas por governos totalitários. Que revoluções cubanas, russas, nazistas, fascistas são todas muito parecidas e somente satisfazem o desejo de alguns pelo poder. Não há verdades supremas nem incontestáveis e, se desejamos uma sociedade melhor, temos que aprender, em primeiro lugar, a deixar o fanatismo e o radicalismo de lado. Por causa deles, por causa de ideias que, supostamente, fariam o paraíso na terra, já morreram milhões. Por isto, se é verdade que o governo Temer é uma porcaria, ainda é mais puro que o governo passado. Já é uma depuração dele. Precisamos avançar. E só avançaremos com estabilidade e paz social. Sem superar o passado recente, sem sepultar, de vez, o governo passado, não avançaremos. Precisamos fazer isto nem que depois, se for o caso, também sepultemos o governo presente e interino. Toda economia somente melhora quando se tem estabilidade e perspectivas. Sem um governo permanente continuamos reféns dos ideólogos sem cabeça e da crise.



terça-feira, maio 31, 2016

DEVERIA SIM COMEÇAR OUTRA VEZ


Um comentário ligeiro sobre o documentário acerca de Cauby Peixoto

Na minha infância Cauby Peixoto já era um ídolo. Talvez, salvo Orlando Silva, que também despertou alguma histeria, não tivesse tido antes algum ídolo que despertasse tantas paixões, tantos fãs e fofocas igual a ele. Foi, vamos dizer assim com uma certa relatividade, o Roberto Carlos do passado. Gostava, gosto da voz dele. Há canções que somente mesmo ele foi capaz de interpretar com maestria como foi o caso do seu grande sucesso “Conceição”. Não foi um dos meus ídolos, confesso, que me nutria mais de Carlos Galhardo e depois de Nelson Gonçalves, mas, era impossível não gostar de sua voz e de seu repertório que incluíram grandes sucessos como Blue Gardênia, Tarde Fria, New York, New York e a canção de Chico, que foi uma espécie de marca sua nos novos tempos, Bastidores. Cauby Peixoto foi, sem nenhuma dúvida, o primeiro grande artista pop do Brasil. Foi protagonista de uma história de vida bonita, tortuosa e, até certo ponto, incompleta. Sempre me pareceu que foi uma estrela que não chegou a luzir com todo o brilho que devia, merecia.
Quando me deparei, na Netiflix, com o documentário “Cauby – Começaria Tudo Outra Vez” do cineasta Nelson Hoineff, fui assistir com um misto de curiosidade e, ao mesmo tempo, com uma certa reverência. Afinal a morte recente de Cauby ainda está no ar e na dor dos que sabem que é uma época que se enterrou com ele. Com o olhar crítico que sempre tive a seu respeito, apesar de considerar sua voz belíssima não gostava de seus adornos vocais, sabia que seria um prazer ouvir suas músicas e conhecer um pouco mais de sua história. A verdade é que fiquei frustrado sob estes aspectos. Hoineff não explorou bem a biografia de Cauby, nem sua discografia, penso, da melhor forma. É verdade que se revela um esteta, quando a câmera passeia e pega certos momentos do cantor, porém, senti falta de um esclarecimento melhor sobre a vida do cantor e de alguns momentos memoráveis que, certamente, deve ter registro. Sei que, às vezes, também são as limitações de direito e orçamentárias, todavia, mesmo assim, como teve acesso ao biógrafo Rodrigo Faour poderia ter dado uma visão mais rica da vida do grande ídolo. Inclusive, mesmo que ele não quisesse falar, seria preciso dar um tratamento mais claro de sua vida amorosa, de suas experiências que são, apenas  roçadas, com alusões até do cantor sem clareza, porém. Não que esteja se pedindo uma confissão ou intimidades, mas, quais as pessoas que amou, quem o acompanhou pela vida, enfim, os amigos e os amores que não aparecem no filme. Há, inclusive, uma citação de que "reprimiu-se a vida inteira", o que mereceria um tratamento melhor, mesmo que confeitado. Afinal qualquer que fosse sua opção não eliminaria uma trajetória fulgurante nem afetaria o seu valor artístico ou pessoal. O fato é que as figuras queridas de Cauby não ficam claras e quando aparecem, ficam sem um enquadramento que clarifiquem sua importância. Hoineff, pelo que soube, justificou que “Cauby é muito fechado”. Sem dúvida era, de vez que protegeu a sua intimidade a vida toda, mas, um documentário sobre ele, a meu ver, teria que ter mais conteúdo sobre sua vida e carreira. Isto não invalida em nada o filme. É um belo filme, sobre um grande ídolo brasileiro e, até pela falta de outros registros, vale a pena assistir. No entanto, creio que se fosse Hoineff faria, pois, deve ter material, um outro documentário que fosse menos “fechado”. O filme é uma beleza sob o ponto de vista de se ver um grande ídolo até o fim desejando permanecer no palco, todavia, parece, como a própria vida de Cauby, com um roteiro incompleto, ainda como uma estrela que não revela toda a sua luz.


Ilustração: ego.globo.com

terça-feira, maio 24, 2016

VIVA AS DIFERENÇAS


As pessoas, e não apenas elas, não são, naturalmente, iguais.  A grande verdade- se é que há uma- é a de que indivíduos livres são indivíduos muitos diferentes entre si, com habilidades e qualidades diferentes, de vez que os talentos e capacidades e até mesmo a forma de trabalhar não possuem o mesmo afinco, qualidade ou dedicação. Cada um de nós nasce em situações distintas, com suas vantagens e suas desvantagens, cercados por pessoas diferentes e diferentes tipos de incentivos e graus de oportunidade. Só num mundo ideal podemos ser iguais e é compreensível que se procure amenizar as imensas desigualdades existentes, mas, a história real nos tem demonstrado que tentar remediar a situação implantando políticas governamentais “corretivas” tem se mostrado um tipo de cura muito pior do que a doença. A antiga URSS, república socialista, desmanchada por absoluta incapacidade de resolver os seus problemas, ou o longo definhamento de Cuba mostram, com clareza, que a busca de acabar com as desigualdades pode originar situações piores que as originais. Sem falar na agonia atual que a Venezuela passa com Maduro. A situação recente do Brasil, com os governos petistas, comprovaram, o que na experiência histórica é recorrente, que sempre que se tomam medidas coercitivas para a  redistribuição de riqueza somente se consegue que os ricos e os espertos enviem sua riqueza para o exterior, ao passo que os desafortunados terão de arcar com o fardo do inevitável declínio econômico. O aumento de abertura de contas no exterior, com o Brasil sendo o 5º país com mais recursos em paraísos fiscais, demonstra isto e, não por acaso, caminhamos para 13 ou 14% de taxa de desemprego, isto se aceitarmos a estatística criativa implantada nas instituições de elaboração de indicadores.
Infelizmente, graças a uma selvagem e prolongada lavagem cerebral divulgada na mídia e sustentada, até agora, pelo governo, se protesta e se afirma que é indispensável tomar medidas contra a desigualdade, transformada em cavalo de batalha. Quem não concorda com a coletivização, com o tratamento igualitário, e injusto, na medida em que se deseja fazer justiça retirando renda de quem trabalha para quem não trabalha, foi taxado de tucano, coxinha, retrogrado, reacionário e de direita radical. No entanto, apesar do maravilhoso governo que tivemos, que, segundo o marketing agressivo, incorporou ao mercado uma notável parcela de 40 milhões de pessoas, por incrível que pareça, somente se conseguiu aumentar seja a desigualdade, seja a criminalidade, os problemas rurais e urbanos, de tal forma que a insatisfação pública se expressou nas ruas e no impeachment.

Mas, o governo petista, nunca fez distinções básicas entre, como, por exemplo, que se as pessoas são diferentes, e livres, é normal que tenham rendas diferentes. Nem nunca esclareceu que onde as pessoas têm, obrigatoriamente, a mesma renda não são livres. Porém, o que é pior: não há exemplos reais de desenvolvimento onde os governos organizam a produção. Países desenvolvidos são, de fato, aqueles onde os governos perdem, cada vez mais, a importância e atuam somente em atividades básicas, em infraestrutura e de forma compensatória. Ninguém defende a desigualdade exagerada, mas, existe a desigualdade boa e legítima que deriva da ordem natural das coisas, seja o que isto for. O que, uma visão progressista defende é o direito a oportunidades iguais, mas, isto não pode existir pela opressão dos contrários. Assim melhorar as oportunidades de minorias é melhorar a educação delas e não estabelecer cotas. Assim como criar cidadãos é gerar oportunidades de empregos, melhorar o ambiente dos negócios, estimular o empreendedorismo e não, como tem sido feito, aumentar a quantidade de pessoas dependentes do assistencialismo. A igualdade, e ainda mais forçada a partir do governo, é tão e mais injusta e antinatural quanto à desigualdade abusiva. E só os que não pensam podem defendê-la como ideal humanitário. De fato só os que dela se favorecem, os muito espertos, e os tolos podem aceitar que a igualdade seja um ideal político. A ideia de igualdade econômica não representa nenhuma genuína forma de humanidade ou de compaixão. É uma ideia intelectualmente pobre e fraca. E quando se torna a política de um estado, política pública, vira um desastre anunciado em larga escala e um retrocesso econômico. O fato das pessoas não serem iguais, não terem a mesma renda decorre da própria diversidade da existência e das diferenças. Antinatural é tentar igualar a todos. 

Ilustração: revistaescola.abril.com.br