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terça-feira, dezembro 30, 2014

A sombra da retrospectiva de 2014

Que retrospectiva se pode fazer de 2014? Em termos de fatos não se pode dizer que não tenham existido muitos, embora, de fato, o Brasil viva mais de marketing, de escândalos e manchetes do que de qualquer outra coisa. Foi um ano do qual não se pode falar sem citar dois momentos que galvanizaram a atenção dos brasileiros e, por incrível que pareça, ambos marcados por duas grandes decepções: a Copa do Mundo e as eleições. Da Copa não se precisa falar grande coisa na medida em que os expressivos 7x1 são uma clara demonstração de que não somente perdemos, mas, que perdemos vergonhosamente. As eleições não são tão claras, todavia, um exame acurado mostra que foi outra vergonha imensa: os mais pobres e os menos escolarizados, por uma opção imediatista, por pressão, ou mesmo por utilitarismo, escolheram o caminho de mais do mesmo, ou seja, tentarmos manter a ilusão de que é possível ter dias melhores sem esforço, sem trabalho, sem educação e sem um projeto de futuro.
Não entro pelo caminho da corrupção, nem pela estigmatização do PT ou mesmo pelo evidente uso (e abuso) da máquina pública que, se não é nada recente, não justifica quem ganhou o poder em nome da mudança dos costumes. A questão, para mim, é mais ampla. É o fato de que já se havia comprovado amplamente que não se faz desenvolvimento via consumo (embora consumir mais seja um sinal de desenvolvimento), porque consumo é o caminho da procura e desenvolvimento (que, necessariamente, requer crescimento) é um caminho que só se trilha via oferta, via investimentos. A fórmula petista (aliás, gerada mais pelo acaso do que por um pensamento econômico construído) teve seus méritos ao utilizar o crescimento do crédito (em especial de longo prazo) como forma de aumentar o consumo. E foi, por longos anos, um instrumento para dar à impressão que se melhorou a renda e criar uma demanda real maior, mas, alcançou seus limites no endividamento e na falta de um ambiente econômico saudável que pudesse criar mais e melhores empresas e empregos (não os de baixa renda e distanciados dos setores produtivos de maior inovação).
Com os programas sociais diminuindo a procura por empregos se criou a ficção de ter encontrado o caminho mágico de distribuir renda e gerar desenvolvimento a partir do governo e, pior ainda, que o governo tudo pode. Para manter esta ficção (e o poder que ela confere) valeu tudo na última eleição e continuará valendo pelo resto do 2º mandato de Dilma. Porém, que futuro isto nos aponta? Não será, decerto, o futuro prometido, no passado, pelo ministro Mantega que nos prometia 15 anos de crescimento a taxas de 5%. O que vemos, no momento, é a recessão técnica da qual saímos para, quem sabe, crescer 2% no próximo ano. Isto se não fizerem o que vem fazendo, sistematicamente, e não afastam a possibilidade de voltar a fazer, de aumentar ainda mais os impostos. Impostos que já se encontram entre os maiores do mundo e inibem, junto com uma burocracia infernal, os investimentos. De forma que optamos por gerar mais incertezas do que buscar o caminho da mudança. Não tem, portanto, por este caminho, nenhuma possibilidade de voltarmos a ser felizes como no passado. Nem mesmo a possibilidade mais de sermos endividados e felizes. Assim a retrospectiva, seja sob qualquer aspecto que fizermos de 2014, somente pode nos informar que continuamos onde sempre estivemos: empurrando os problemas com a barriga. E que há razões fundadas para pensar que 2015 tende a ser pior que 2014. Não é nada certo, mas, é uma projeção razoável da retrospectiva.


Ilustração: dorescronicas.com.br

quarta-feira, dezembro 24, 2014

Sentimento de Natal


É mais um natal. Os natais passam na nossa vida quase sem nos darmos conta. E, só depois de muito tempo, passei a compreender que cada natal é um natal diferente. Não que o natal mude, pois, na verdade, quem muda somos nós, quem muda são as condições do mundo, da economia, da vida. Não desejo ficar nostálgico nem olhar para o passado, porém, não há jeito. Para quem, igual a mim, carrega muitos natais nas costas, um olhar retrô é imprescindível, inescapável, fatal mesmo. E, por menos que se deseje negar, o natal, realmente, não é mais o mesmo. Também pudera! Qual o natal de comparação? Falar que o natal mudou, como numa série histórica, é preciso que se fixe uma base, um natal que sirva de comparação, uma espécie de natal padrão.
Esta é a grande dificuldade. Se examino o passado, constato, sem muito problema, que, de fato, o natal era diferente. Havia, no passado, uma religiosidade, talvez exagerada, que cercava a data. O natal do passado, do passado dos meados dos anos 60, 70, era um natal que exigia um longo tempo de preparação. Havia todo um ritual de compra dos presentes, das roupas, das ceias. Era, numa má comparação, um carnaval religioso para o qual se passava longo tempo nos ensaios. E a missa do galo era o ápice e o fim de toda a festa. Depois dela já não havia o que fazer, senão dormir e pensar no outro natal. Bem, é preciso acentuar que os natais do passado eram verdadeiros banquetes. Lembro-me que se comia e bebia de forma pantagruélica, abismal mesmo, no melhor estilo dos grandes abades, aqueles que apareciam nos rótulos sempre gordos, rútilos, eternos bebedores dos melhores vinhos, apreciadores dos melhores chocolates e bolos. Eram natais, por assim dizer, religiosos e, ao mesmo tempo, festivais de gula, onde o comércio aparecia de forma secundária. Não se dava, como se dá, na atualidade, uma predominância para o faturamento, as vendas. Hoje Natal bom passa, invariavelmente, por lojas cheias, por consumo, pelo tilintar dos caixas.
A mudança foi imperceptível, mas, com um impacto estrepitoso. O mundo se acelerou. Foram as mensagens, os transportes, as mercadorias, as pessoas e o dinheiro ganhando velocidade. E, de repente, estamos num natal onde tudo parece, como o tempo, digital. As cartas, os cartões de natal, que, no passado, marcavam a chegada do período são, hoje, lembranças dos antigos. O natal, agora, tem uma versão tipicamente digital e nos chega por e-mails, por cartões digitais, por imagens de internet e de televisão. Não há, a rigor, mais preparação para nada. E os símbolos natalinos, como as árvores, como Papai Noel, a ceia, os presentes, as próprias compras ganharam outro ritmo, outra forma de ser. É tudo regido pela pressa e pelos preços. No entanto, hoje, me peguei pensando que, com tudo isto, com tudo que se diz do comercialismo, da falta de sentido do natal, não é que acordei, feito criança que espera por brinquedo, meio alegre, meio envolvido pelo ritmo de natal. Não sei se foi o show, um dos mais fracos que já vi de Roberto Carlos, que me lembrou que o natal existe ou a família, que uma parte está reunida, mas, apesar de não ser o mesmo, estou aqui escrevendo e já pensando na ceia, em beber uma taça de champanhe, em lembrar que ( e olha que nem acredito muito nisto) centenas de anos atrás um menino veio para nos salvar. Enfim, o que quero dizer mesmo, é que o natal mudou sim, todavia, devo confessar, quando chega está época continuo a ficar ensimesmado, pensativo, comovido mesmo. Talvez seja porque sejamos eternas crianças que estamos sempre esperando um presente de natal. De qualquer forma tenho que lhe dizer: Feliz Natal! 


domingo, dezembro 21, 2014

Luiz Gonzaga e Anastácia, o rei e a rainha


Por uma dessas felizes coincidências estava lendo o livro “Eu sou Anastácia-histórias de uma rainha”, da historiadora Lêda Dias, com a própria Anastácia (Lucinete Ferreira), editado pela FacForm do Recife, na mesma semana em que a TV Globo veiculou “Gonzaga- De pai para filho”, sobre a trajetória de Luiz Gonzaga e Gonzaguinha, seu filho. É muito prazeiroso, como nordestino, estar assistindo, mesmo que por um tempo breve, homenagens que são feitas a verdadeiros ícones nordestinos (e brasileiríssimos, por sinal) como são Luiz Gonzaga e Anastácia. Um dos pontos fortes, por exemplo, do livro de Anastácia é, justamente, o fato por seu depoimento amplamente demonstrado, que jamais cultivou, como é usual hoje, o marketing, a busca de se tornar um ídolo, uma estrela. Caminho diferente não trilhou Luiz Gonzaga, que sempre foi o que foi, um operário musical com enorme talento. Luiz se tornou uma lenda muito mais pelo trabalho contínuo, por sua forma de ser e de se comportar, como um sanfoneiro, um artista de sua terra do que qualquer outra coisa. Anastácia, que não teve tanta fama, é sua face feminina. Ele foi uma “Anastácia de calças”; ela, um “Luiz Gonzaga de saias”. Ambos, artistas insuperáveis que percorreram o Brasil, ainda no tempo dos circos, levando beleza e alegria aos rincões mais longínquos de nosso país.
Se, no filme, o destaque está para a vida, nem sempre em linha reta, de Gonzaga e a tumultuada relação familiar, em especial com o filho, o que se destaca no livro de Anastácia é sua coragem, sua ousadia, sua alegria de viver, que se esparrama mesmo nas piores situações. Em ambos as criações tomamos contato com a figura real de Luiz Gonzaga, uma pessoa generosa, mas, ao mesmo tempo, casmurra, com certos padrões nordestinos antigos entranhados que, hoje, seriam considerados “preconceitos”, porém, que revelam os padrões éticos e o caráter de uma certa época, mesmo que com suas contradições, na medida em que não somos perfeitos. Mas, é a humanidade dos personagens, suas qualidades e defeitos que o tornam ainda mais louváveis. Ser artista jamais foi fácil e, ser capaz de ter destaque no meio, exige certos sacrifícios que só compreende quem os enfrenta, embora, hoje, o sucesso, seja, aparentemente, uma coisa mais fácil de ser conquistada.

Todavia, o que se destaca nas figuras de Luiz Gonzaga e de Anastácia não é, simplesmente, o sucesso. É o fato de que se tornaram símbolos, exemplos de trabalho, de determinação, de permanência, de qualidade. São padrões que, de uma forma ou de outra, estão presentes no imaginário popular por sua importância e representatividade. Muitos outros existem que trilharam os mesmos caminhos. Impossível, por exemplo, não lembrar de Marinês, de Jackson do Pandeiro, de João do Vale, de Waldick Soriano, de Genival Lacerda, do Trio Nordestino e do próprio parceiro maior de Anastácia, Dominguinhos. São nomes de pessoas, entre muitas outras, que, no Brasil do passado, enchiam os circos de plateia, levavam multidões aos auditórios de rádios e televisões, encantavam cantando nas ruas, se necessário. São artistas que, em Luiz Gonzaga e Anastácia, tiveram representantes máximos do forró, do baião, do maxixe, de canções de amor e de sofrimento que marcaram e marcam a alma nordestina. Luiz e Anastácia, são, de formas diferentes, os expoentes máximos de uma época, embora ele o seja pelo todo de sua obra e ela, pela sua capacidade de transformar em canções a vida de seu povo.  

sábado, dezembro 06, 2014

A fé que nunca se acaba


Parece, hoje, até brincadeira, mas, a grande verdade é que, quase, mas, quase mesmo, fui um dos fundadores do Partido dos Trabalhadores em Rondônia. Na época era muito amigo, e compartilhava as ideias de esquerda, de muitas pessoas com as quais até mesmo criamos um centro, que editou uma única revista e promoveu um único seminário, para discutir as eleições e as ideias vigentes. É certo que já sabíamos dos problemas políticos do socialismo, porém, nem o muro de Berlim havia caído, nem, como veríamos depois, todo socialismo pode ser tudo menos democrático, na medida em que o estado passa a tudo gerir o que, de partida, exige um partido único e a obediência cega aos governantes. Fora disto não há socialismo possível, de vez que o estado tem que organizar a economia. Não participei do PT por já, naquela época, ter um membro do partido caído de paraquedas para comandar os locais.
Bem, mas, isto é passado. Importa dizer que, naquele tempo, havia fé. A fé na revolução operária. A fé, vinda de uma teoria que tinha razão de ser na época da produção industrial, das massas compactas de operários. O tempo, e a falta de base da teoria de produção marxista com o fim da teoria do valor trabalho, reduziram o edifício teórico compacto de Marx a ruínas que, os seus crentes, procuram remendar sem sucesso. Uma teoria geral da sociedade, do movimento, como sonhou o velho sonhador alemão, é uma utópia irrealizável. Assim, quem pensa, quem raciocina, sobre a realidade concreta ou, como queiram os marxistas, sobre as “condições objetivas” não tem outro horizonte que não o capitalismo que, pode ser melhor, ou pior, de acordo como se organiza a sociedade. Esta é a realidade. Ser esquerda, esquerda moderna, hoje, é desejar promover a inclusão e não o sonho caduco dos Ches, dos Chavezs, dos Fidels da vida, que são múmias ambulantes do pensamento, pré-históricos mesmo.

Por mais que os petistas neguem é este o sonho último que os alimenta. Basta ver a admiração e os afagos deles a pessoas como Putin, Castro, Maduro et caterva, para colocar ao sol o amor nutrido por totalitarismos. Acontece que a riqueza para existir precisa ser gerada. E governos não geram riquezas. Administram o que retiram da sociedade através de impostos. É muito bonito falar em direitos, porém, não há almoço grátis. E o PT prega o almoço grátis para todos. É correto dizer que o partido tornou universal um programa de assistência social cuja abrangência não era satisfatória. É fato também que o PT, por outros interesses até, incentivou o crédito ao consumo, que possibilitou a muitos a aquisição de bens de consumo. Porém, é melhor parar por aí. A ideia de que o PT melhorou a vida do país é mero efeito de marketing. A dívida pública, de R$ 4,4 trilhões bate recorde histórico, o país perdeu participação no mundo, o governo Dilma é o de menor crescimento da história, mas, o pior é a perspectiva de futuro (até esqueço a corrupção alastrada). A verdade é que ambientes que criam riqueza necessitam de estabilidade e de contraditório. Não o do “nós x eles”, o de dividir para conquistar. Como ter um ambiente propício ao contraditório tentando impor um discurso único como o PT deseja? Como vai se estimular o consumo, sem aumentar a produção, como distribuir riqueza, e não criá-la? Onde o estado é um ente centralizador o que se cria é pobreza. Das duas uma: ou há uma enorme fé no equívoco, na dogmática certeza de que o estado é o caminho para criar riqueza ou estamos, contra todas as teorias econômicas, utilizando uma receita que incentiva o consumo, mas, não dá a mínima atenção à criação da riqueza, o que é um amadorismo imperdoável. Queiram, ou não, os petistas não há salvação fora do mercado. E se as regras do jogo mudam durante o jogo quem vai querer jogar para perder? E mudar as regras sem a atenção ao prejuízo alheio é o que os governos do PT mais tem feito. O resultado é o que temos visto: menos investimentos, crescimento pífio, descrédito no governo. E, enquanto houve um crescimento geral dos países emergentes, na primeira década do século XXI, nós continuamos a patinar sem um horizonte visível de melhores dias. E é bem possível, muito provável até, que com qualquer outro partido político governando, com ideologia que não seja igual ou pior, com certeza, o padrão de vida geral tivesse melhorado muito mais. Claro que não adianta discutir isto com os religiosos petistas. Eles acreditam em Lula e Dilma contra todas as coisas e fatos. É a fé que nunca se acaba. 

domingo, novembro 30, 2014

Nada será como antes


Que o Brasil é um país surrealista sempre se soube. O que espanta, agora, é que o surrealismo está chegando a um ponto tão surreal que a palavra parece despida de sentido para descrever o que acontece. O caso mais emblemático é o da Petrobras, onde se fala em devolver milhões como se fosse dar um troquinho para o pedinte da esquina. Ora, se um deles, apenas um, dos envolvidos concorda em devolver mais de US$ 100 milhões, então, não há como não se ter certeza que as coisas não são muito piores do que se pensa. Ainda mais quando partidos, e parlamentares, sabe-se que estão na mira da Polícia Federal e seus nomes pendentes dos ministros do Supremo Tribunal Federal para serem processados. Até os ministros, abrindo mão do silêncio que, em geral, cultuam, se mostram pasmos diante dos valores furtados na corrupção da empresa de petróleo brasileira. E não se mexe uma palha com sua direção. Nada parece abalar a cúpula, com exceção de um braço do PMDB, que, por sinal, caiu mais por ingerência externa.
O outro lado do surrealismo vem da questão do superávit primário. Neste o Congresso ameaça fazer uma lei para desmentir a lei que instituiu os critérios de gestão. É como, no fim do jogo, se modificar as regras para que o time ganhe com a participação ativa do juiz. O absurdo consiste mais ainda em que, como já existiram dirigentes condenados pelo não cumprimento da Lei de Responsabilidade Fiscal, se implanta, definitivamente, a regra de que a lei, nos tempos atuais, é delimitada pelo tamanho do poder do infrator. Quanto ao conceito, ao princípio de responsabilidade fiscal, é como se colocassem um carimbo definitivo de arquivado. A coisa é tão esdrúxula que os novos ministros da área econômica querem evitar completamente qualquer tipo de relação com a manobra heterodoxa. Pelo que se anuncia só tomam posse depois que a lei for aprovada no Congresso. E o governo, de qualquer forma, inclusive oferecendo nacos de participação na sua composição, vai aprovar a mudança. É o uso ilimitado, escancarado mesmo do toma lá, dá cá, para obter os votos necessários.
E o que se pode esperar dos novos ministros? Novos? Na Fazenda, Joaquim Levy, no Planejamento, Nelson Barbosa, e continua o presidente do Banco Central, Alexandre Tombini parecem já muito velhos. Ah! Pelo menos anunciam que vão dar as diretrizes da política econômica a partir de 2015, com foco no ajuste das contas públicas. Como diz um famoso chef de cozinha: “Que marrravilha!”. Vão anunciar que as panelas receberão as receitas que sua excelência, Dilma Roussef, estigmatizou durante toda a campanha eleitoral. O processo de gestação de um pacote que inclui grandes novidades, como cortes dos gastos públicos, contenção de despesas, enfim, o que se negava que seria preciso.

O problema é que as dificuldades não param por aí. A eleição da presidente, que havia prometido crescimento econômico, se fez com enorme desgaste de sua credibilidade e o pacote previsto que limita o crescimento dos gastos correntes, reduz o pagamento de seguro-desemprego, abono salarial e busca elevar as receitas é, justamente, o que grande parte dos que a apoiaram não desejava. Com o desgaste da gestão pouco eficiente, do escândalo do Petrolão e os tempos difíceis da economia, nada será como antes. E se não houver diálogo, se não se comportar com o mínimo de capacidade para unir os apoios frágeis do parlamento, certamente, nem a nova equipe salvará o governo de uma situação que se complica quanto mais o tempo passa. 

sexta-feira, novembro 21, 2014

Erros da política econômica deixam governo sem rumo


O Partido dos Trabalhadores (PT) sempre teve o problema genético de ter um viés estatista, de desejar controlar a economia e a sociedade a partir do governo. Se, com Lula da Silva, este, pelo menos, conservava canais de comunicação com a sociedade para diminuir os impactos das intervenções, o mesmo não ocorreu na gestão Roussef. Esta se caracterizou por impor à sociedade, cada vez mais, uma filosofia e uma política que contraria os princípios básicos de uma sociedade democrática e pluralista, e o que deve ser a bússola mais importante para orientar a vida econômica,  que é a lei da oferta e da procura, que, foi, sistematicamente, desrespeitada no seu governo.
Entre os graves equívocos que se observa fica patente que a intromissão demagógica sobre os preços de bens e serviços, em especial, na formação de preços dos combustíveis, da energia e dos transportes urbanos foi o mais extremamente danoso. Porém, não se pode esquecer de outros também nocivos, como a utilização indevida da taxa de câmbio para controlar a inflação e atrair e proteger capitais estrangeiros especulativos, o descompasso entre a política salarial e o aumento do salário mínimo efetuando transferências de rendas sem qualquer atrelamento à produtividade do trabalho, a utilização da Selic, taxa de juros básico, fixada com preocupação única de regular a demanda agregada e, por fim, o crescimento dos tributos e, em alguns casos, da burocracia aumentando o preço que a sociedade paga para manter um estado obeso, perdulário e ineficiente.

Por todos estes equívocos estamos chegando num cruzamento perigoso na medida em que, como não existe almoço grátis, será preciso mais recursos para manter o equilíbrio fiscal e monetário. A tentativa, ora em curso, de aprovar a proposta que modifica a Lei de Diretrizes Orçamentária (LDO) para ampliar o abatimento da meta de superávit primário para 2014 (PLN 36/14), enviada pelo governo ao Congresso, já demonstra que estamos chegando ao limite das possibilidades da política atual que não tem mais como gerar crescimento e sim ser motivo de instabilidade. O problema é que a presidente Dilma, reeleita, terá enormes dificuldades de corrigir os equívocos da política econômica derivados da administração ruim do sistema de preços com a eclosão do escândalo do Petrolão. Tendo que reorganizar o governo, e sua política econômica, a presidente tem contra si, além do fato de que quase tudo aconteceu na sua gestão, ou quando era presidente do conselho da estatal, a taxa de juros, que é o principal instrumento para combater a inflação, tem sido usada mais como instrumento para atrair recursos estrangeiros e coibir o déficit previsto de US$ 80 bilhões das contas externas, ao mesmo tempo que são gastos R$ 250 bilhões anuais de juros sobre a dívida externa, no momento em que o país, praticamente, estagnou. A impressão que fica, enquanto não se tiver uma resposta, mais consistente, é que o governo também estagnou e não sabe aonde quer chegar e, por isto mesmo, age ao sabor do momento, reativo apenas às circunstâncias. 

sexta-feira, novembro 07, 2014

A fé é inabalável


Bem, rememorando, apesar de, desde cedo, ter uma enorme tendência para não ser nada mais que um mero leitor, a minha admiração pelo conhecimento me levou as redações de jornais. Houve um tempo em que me equilibrei entre a disposição de ser jornalista ou estudar direito- que me diziam ser mais compensador financeiramente. Por osmose, havia um amigo defronte da minha casa, que me despertava uma certa atenção por sua capacidade de compreensão e saber, Antônio Carlos Ramos, formado em Economia e que até fez mestrado, que me serviu de modelo e reforçado pela indicação de que era um bom caminho, feita por meu pai, me tornaram um estudante de economia sem saber bem o que era isto. E me tornei, de fato, um economista, graças a grandes mestres que tive, como Abelardo Montenegro, Luiz Gonzaga Fonseca Mota,  Firmo de Castro e Pedro Sisnando Leite, um especialista em desenvolvimento formado no Banco do Nordeste do Brasil. Por necessidade virei professor, mas, sempre perto de uma redação de jornal, e procurando entender como a economia se movia. Já fui (e até tentei aprender alemão para ler Marx no original) e, creiam, poucas pessoas (obsessivo que fui) leram tanto Marx. Fui um marxista convicto, mas, ser marxista é, por definição, superar Marx. Não repetí-lo como muitos fazem como um papagaio. Aliás, Marx é uma parte do conhecimento.  Se virar, como virou para muitas pessoas, uma certeza não se trata mais de Marx, mas, de uma nova bíblia, pior que a original que, certamente, ninguém conhece.

Conhecer economia na época me parecia compatível com ter uma visão de esquerda ( e no Ceará a repressão era muito forte), o que sedimentava o sonho de um mundo mais igual. As ilusões passam. Aprendi, duramente, que não há mesmo almoço grátis. E me perturbo, até hoje, com muitas pessoas inteligentes que defendem o governo Roussef, a contrafação de Evo Morales e a estupidez que é a Venezuela do presente. É uma cegueira mental que me faz ver que o nazismo, e o atraso, podem ser uma opção viável na medida em que meias verdades sejam vendidas (e repetidas) continuamente até que certas pessoas crédulas acreditem nos “resultados”, a aparência de que as coisas estão melhorando. Mas, até que se mude a dura realidade, e as coisas se recoloquem no lugar. Afinal tudo tem um preço mesmo para quem não acredita no mercado. A realidade se impõe. A Petrobras informou nesta quinta-feira (6) o aumento do preço de venda nas refinarias da gasolina e do diesel. O novo valor começa a vigorar a partir da 0h desta sexta-feira (7). A alta da gasolina nas refinarias será de 3% e do diesel, de 5%. Como é natural, a alta não reflete o impacto do aumento ao consumidor. O valor do combustível nas bombas depende de determinação dos postos e será, no mínimo, de 10%. Aqui o petróleo sobe e um amigo, quase boliviano, defende o regime de Evo Morales afirmando que lá o combustível está mais baixo e me faz, quase rir, dizendo que a culpa é da Petrobras, que é uma empresa privada! É na hora do assalto! Impossível discutir com quem acredita que a culpa do que se pensa é da Globo, da Veja e da imprensa manipulada. Oh! Deus! Quem paga a imprensa? A oposição, sem dúvida! Ou a direita que se instalou no poder que, contraditoriamente, não assume nada do que faz, mas, quer ser esquerda e totalitária? Não é possível discutir com as certezas.  O Brasil seria um país risível se não fosse a tragédia de ser, ao mesmo tempo, absurdo e ridículo. Certamente, bons economistas nesta terra devem dizer que Lula é o supra-sumo do pensamento econômico e que Dilma deveria merecer o Prêmio Nobel de Economia. O problema é que a miséria aumenta e o Produto Interno Bruto-PIB diminui. A culpa, é claro, do capitalismo e da crise externa, apesar dos países emergentes crescerem, em média, 3% e o Brasil uns míseros 0,24% em 2014. A fé, meus amigos, é inabalável. 

terça-feira, outubro 21, 2014

A política econômica atual penaliza o futuro do país


É chegada a hora da mudança. O sintoma mais evidente desta necessidade provém até mesmo do próprio governo, de vez que a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios- PNAD 2013 aponta que há estagnação econômica nos principais indicadores nacionais e que, até mesmo a taxa de desemprego se elevou de 6,1%, em 2012, para 6,5%,  em 2013, e o salário encolheu 3,8% , no mesmo tempo de comparação, e, com a inflação mais alta, em 2014, as coisas devem estar ainda piores. Porém, o mais grave é que o ambiente econômico brasileiro se apresenta em estado de grande mal estar, de incerteza e de falta de confiança em relação ao presente e ao futuro. É o resultado de 12 anos do PT no poder com as distorções da administração pública que não vê limites entre os interesses públicos e partidários, do aparelhamento do Estado e da supressão das oposições que não encontram eco nas centrais sindicais que, com suspeitas ONGs, ajudam a construir a hegemonia petista no poder e, como consequência, os escândalos de corrupção que se tornam rotineiros.
Acrescente-se que já não existe mais a euforia popular que o aumento do crédito, que, historicamente, era de 24% do Produto Interno Bruto-PIB, a soma de toda a produção de bens e serviços no ano, pulou, com o governo Lula, para 48% do PIB, permitindo que o consumo tivesse um enorme aumento e gerando a sensação de melhoria e bem estar que a população experimentou se enredando em financiamentos de longo prazo e sacando sobre o futuro. Acontece que tudo tem um preço. E outro lado da farra do consumo é que, além de pagar duas vezes os preços dos bens no crediário, as famílias se endividaram no longo prazo. Com os juros altos e a inflação se elevando começam a sentir os efeitos negativos de viver em cima do crédito e não da renda. Sob o ponto de vista macroeconômico, no entanto, a política do governo Lula, e continuada por Dilma, cometeu o grave equívoco de buscar o crescimento pela demanda. E a demanda estimula o crescimento, mas, não o garante. Crescimento somente existe pelo lado da oferta na medida em que é resultado do aumento da produção, ou seja, de existir maior capacidade produtiva e mais bens e serviços no mercado. Somente com novos investimentos, com aumento da produção industrial isto pode acontecer. Porém, o que se observa é que a produção industrial e o nível de investimentos crescem como rabo de cavalo na medida em que o governo, com medidas pontuais, somente gera incerteza econômica. E todas as medidas que tomam visam aumentar o consumo. Querem resolver o problema com mais do mesmo remédio ineficaz.

É a constatação da exaustão do modelo microeconômico da prioridade para o consumo, da excessiva intervenção do estado e a manipulação da inflação, com o sacrifício de setores, como o de combustíveis, energia, dos transportes coletivos e do sistema creditício, com os abusivos privilégios dados aos bancos públicos e ao BNDES, que sinalizam com um crescimento que é dez vezes menor que a média dos países emergentes e o segundo pior da América do Sul (estimado em 0,3% este ano). Portanto, já não dá mais para segurar este tipo de modelo sem comprometer o futuro do país. É o momento de se retomar o equilíbrio fiscal, acabar com a tal da “contabilidade criativa”, deixar de “pedalar” os déficits e promover o saneamento das contas públicas pela redução dos gastos de custeio. E esta é a dura realidade econômica que, seja quem for que ganhe a eleição para presidente há de enfrentar, pois, como não dá mais para aumentar impostos, será preciso retomar a estabilidade monetária pela contenção das despesas públicas e gerar confiança no setor empresarial para a promoção dos investimentos na produção e nos setores essenciais da infraestrutura.  Urge mudar a política econômica atual que já deu o que tinha que dar. 

quarta-feira, outubro 08, 2014

Uma encruzilhada entre ter ou não ter esperança


Governos não são necessariamente uma coisa boa. Aliás, os intelectuais e as pessoas que gostam de liberdade sempre desconfiam deles. Muitos dizem, logo, que qualquer que seja ele são contra. Afinal governos não existem sem homens e, no fundo, são homens que dizem aos outros como se comportar. Penso, como Isabel Paterson, que o governo somente é bom como freio à ação humana, daí, sob tal ponto de vista, serem necessários e importantes, no entanto, os governos não criam nada; quem cria, quem produz riquezas são os indivíduos. O problema é que o governo não se limita a regular e também pode estabelecer proibições e tomar dinheiro dos cidadãos para suas atividades. Um governo totalitário tudo pode. Apesar de não criar é dono de tudo, inclusive da liberdade de seus cidadãos. Esta razão pela qual embora, no passado, tenha tido a doce ilusão de que o caminho para uma vida melhor é mais governo, agora, tenho o bom senso de admitir que errei. Quanto menos governo melhor será a nossa vida. E quando os mesmos ficam muito tempo no governo passam a pensar que a sociedade lhes pertence e impor sua visão como se fosse a mais correta e a única.
E é exatamente isto que se discute na atual campanha eleitoral. O Brasil deve decidir se quer ser mais competitivo, ter mais liberdade, ser um pais mais inclusivo e mais diversificado ou vai aceitar  a canga que nos querem impor de mais estado, de um modelo, o modelo petista, que, apesar de doze anos de comando do país, aumenta o poder do estado, a carga tributária, as imposições burocráticas e pretende até mesmo regular o lucro e encabrestar a mídia. Especialistas em desenvolvimento, mais do que ninguém, são consensuais num ponto: o estado é ineficiente e sempre mais ineficiente que a iniciativa privada. Os países que se desenvolveram o fizeram diminuindo o tamanho do estado, estabelecendo um bom ambiente econômico e criando o que denominamos tecnicamente de previsibilidade, ou seja, as empresas e pessoas possuem condições de esperar determinados comportamentos e ter determinados custos podendo, portanto, diminuir os riscos. País desenvolvido é país com estabilidade, sem maiores incertezas que não vivem ao sabor do mandatário de plantão. É o oposto do Brasil que tem um dos piores ambientes econômicos do mundo, de vez que, de uma hora para outra, o governo muda as regras ora estabelecendo novos impostos, ora criando mais obrigações burocráticas e, muito poucas vezes, se preocupando com o custo do contribuinte, com a vida de quem paga as contas da máquina e dos seus cartões corporativos.

Por tal razão os nossos executivos mais competentes dizem que só os loucos (e os que não têm como escapar das prisões burocráticas nacionais) investem neste país. O resultado é o que vemos: as menores taxas de crescimento do continente, inflação alta, os investidores nacionais migrando para investir lá fora por conta do custo Brasil. E o que o governo atual fez para mudar isto? Não tentou fazer nenhuma das reformas necessárias, aumentou a tentativa de expandir o consumo via crédito (e contraditoriamente eleva a taxa de juros) e tenta frear a inflação segurando os preços, de forma que só tem a nos oferecer uma perspectiva de mais gastos públicos e imprevisibilidade. Hoje há uma completa falta de confiança nas políticas públicas inclusive por tentar vender a ideia de que a culpa dos problemas é da crise externa. Não é. A culpa é de uma política equivocada que tenta aumentar o tamanho do estado e seu controle e de um modelo que desestimula o investimento e causa incerteza no mercado. Esta eleição é, na verdade, a escolha entre procurarmos um novo caminho ou ir até o fim de uma opção que tende a nos levar para um grau cada vez maior de deterioração dos serviços públicos, da infraestrutura e da qualidade de vida. 

quarta-feira, setembro 24, 2014

Crônica em homenagem a um moleque atrevido


Há certas pessoas que nasceram para ser protagonistas, que fazem seus caminhos sem perder a alegria nem a esperança. Que são somente em nascer. São, por assim dizer, figuras. E quando digo figuras, pretendo dizer mesmo que são meio surreais, quase mitos, na medida em que não podem ser julgados pelos comuns sem um viés de pequenez. Porto Velho, assim como é um lugar de monstros não sagrados,  também é um jardim fértil destas figuras. E, hoje, pretendo falar de uma delas. Poderia ser de duas, de vez que são meio siameses: o Saldanha e o Dadá, o Adaídes. Costumo dizer que são, efetivamente, os artistas de Porto Velho, os mais genuínos, seja pelo nascimento, pelo tempo, pela trajetória e pela poesia e vida que criaram. Limito-me ao Saldanha, o popular “Pereca” em virtude de uma fatalidade recente que foi tê-lo abordado inesperadamente um ataque cardíaco que, felizmente, não o levou.

É impossível falar do Saldanha sem lembrar de sua emblemática canção “Olha menino/ eu sou moleque atrevido/ sou pior que bandido. /Eu me criei no areal…” é a cara dele. Uma música fantástica que remete a uma Porto Velho romântica e perdida. Porém, ele tem uma produção excelente e, como acontece com grandes talentos locais, muito ainda desconhecida. Saldanha, que foi um cantor pioneiro de bandas e bares, tem histórias memoráveis que não podem ser perdidas e, mostrou que, com força de vontade e a determinação, se pode alcançar o que se deseja, se alçando de menino pobre a economista, professor de economia e presidente do Conselho de Economia da 24 ª Região e fez um trabalho meritório à frente da merenda escolar, afora ter criado uma saudável família (se bem que, em geral, são nossas mulheres as grandes artesãs desses méritos) na qual a filha se destaca como doutora em Quimica, se não me engano numa universidade alemã. Na última sexta-feira, dia 19, mesmo não podendo ir receber sua homenagem como ex-presidente do Corecon RO,  esteve espiritualmente ( e citado) na festa de 30 anos da entidade. Tenho, entre meus orgulhos, além do fato de ser amigo dele,  a realização conjunta de uma noite musical literária, no Debate Bar, em que recitei poesias minhas e ele cantou, com maestria, diversas músicas, em especial as de Alceu Valença (e algumas melhor do que o próprio autor). Fui visitá-lo, com os também amigos e professores, grandes mestres da Unir, Maurilio Galvão e José Aldenor Neves e encontramos o Saldanha com sequelas, é claro, do golpe que sofreu, porém, mais Saldanha do que nunca. Rimos muito de como contou que, sem conseguir falar, na UTI, via com apreensão, os que morriam ao seu lado e que até se viu, ou sonhou, cercado de anciões com batas brancas ( possívelmente já fazendo o seu julgamento). Resistente ele se recusou (graças da Deus) a ir. E conseguimos rir juntos de seus problemas e ver que se trata de um cavaleiro da esperança. Ser otimista é uma opção. E espero ainda que o Saldanha possa, num dia não muito distante, voltar a cantar. É verdade que ele é um sobrevivente. Nem precisa disto para ser feliz, mas, precisamos dele para tornar a vida mais feliz e melhor. Avóe! Saldanha! 

sábado, setembro 13, 2014

TV Rondônia 40 anos: um sonho que virou legado


É imprescindível registrar os 40 anos da TV Rondônia, comemorado nesta sexta-feira (12) com um jantar em grande estilo na Maison, em Porto Velho, com a presença das maiores autoridades estaduais e de uma significativa amostra das pessoas mais representativas de nossa sociedade. A obra do empresário amazônico Phelippe Daou, iniciada em setembro de 1974, hoje, ultrapassou não apenas o tempo, mas, se tornou também uma testemunha da história, uma fonte permanente de informação e diversão e, por sua liderança continuada e participação social, um patrimônio de nosso Estado.
Se já não é fácil uma empresa sobreviver na Amazônia, ainda mais no ramo das comunicações, a longevidade e a pujança da Rede Amazônica de Televisão é, sem dúvida, um legado de Daou para Rondônia sem, no entanto, deixar de ser uma comprovação de suas qualidades, que vão muito além do talento empresarial, e se estendem pela formação moral e humana, que o faz caminhar com o pé no chão para criar uma empresa sólida e comprometida com os valores mais caros para a construção de uma boa sociedade. E o faz criando, ao mesmo tempo, um bom ambiente de trabalho para os seus colaboradores sem perder de vista que o papel da empresa é o de bem informar com fidelidade aos fatos, busca de equilíbrio, justiça e qualidade. Um sucesso que alcançou em Rondônia com cinco emissoras e 22 repetidoras espalhadas em locais estratégicos do Estado.
Na festa, por sinal impecável até mesmo com o toque de requinte da Orquestra Vilas-Lobos, que foi um show à parte, o diretor-presidente da Rede Amazônica, Phelippe Daou, fez uma retrospectiva emocionada relembrando os diversos diretores anteriores até o atual, Luiz Antonio Campanari, e confessou que "Eu fico muito feliz porque uma data como essa nem se pensava naquele tempo. O aspecto de todo território que depois se transformou em estado era de quem começava a vida. Quarenta anos depois não foi apenas a Rede Amazônica que cresceu, foram todos". E homenageou ao comandante Desival Ribeiro, que presente foi ovacionado, por ter naquela época pilotado aviões com os quais pousava em ruas de bairros nas cidades de nosso estado para começar a enfrentar o desafio de implantar retransmissoras de televisão.

De fato, este foi o passado muito difícil, mas, a TV Rondônia passou por grandes transformações, cresceu e, agora, transmite imagens por meio do sistema digital, daí, o vice-presidente da Rede Amazônica, Aluízio Daou, declarar que tem a sensação “de parte do dever cumprido e que não foi em vão”. Não foi mesmo. A Rede Amazônica de Televisão, hoje, faz parte de nossas vidas, além, de, como afiliada da TV Globo, ter ganho os reforços do G1 Rondônia e do GloboEsporte.com, que representam mais uma etapa de conquista e de informação para estado. São, não se pode negar, 40 anos fazendo parte de nossas vidas. Um grande legado que o sonho de Phelippe Daou transformou em realidade e que enche de imagens, sons e cores nossas vidas diariamente. Com a consolidação da TV Rondônia ganhamos todos nós em informação e lazer. Por tal razão é que não se pode deixar de louvar o que deve ser louvado. 

segunda-feira, setembro 08, 2014

A credibilidade na internet



É de todos conhecido, ou, se não é, esta disponível nos melhores dicionários, o sentido da palavra credibilidade que origina-se do latim “credibilitas”, que tem o sentido de “o que é de acreditar, o que é de confiança” e que pode ser definido como atributo, qualidade ou característica de quem é crivel, de quem merece confiança. Falar de credibilidade é essencial num momento em que, com o descrédito geral nas instituições e, principalmente, na política, se tende a colocar todas as coisas em dúvida como se não houvesse, de fato, muitas pessoas, instituições, órgãos e até mesmo políticos que merecem que se dê um crédito, que merecem, enfim, confiança.
Embora a população brasileira, até por conta da banalização dos escândalos e pela utilização da política torpe de assassinar reputações, esteja tendendo a uma baixa credibilidade em relação a tudo, é essencial sabe discernir entre o que merece, ou não, credibilidade. E isto ganha maior importância ainda quando se vulgariza uma coisa tão importante e maravilhosa como é a internet, com a qual se tem acesso a uma miríade de informações e, aqui o perigo, de besteiras e mesmo de difamação. É fundamental se ter a capacidade de discernir entre o que é informação e o que é, simplesmente, mistificação ou tão-somente meias-verdades disfarçadas de notícia para, muitas vezes, atingir as instituições ou as pessoas. Infelizmente, muitas pessoas incapazes, pessoalmente, de matar uma mosca parecem perder o bom-senso quando entram na internet e utilizam, por exemplo, o Facebook. Sem o menor senso de responsabilidade ajudam, sem nem mesmo compreender que se podem tornar réus em processos de danos morais, certos vídeos, notícias ou juízos de valores que ou são mentiras simplesmente ou distorcem a realidade e, em grande parte, com um amadorismo e uma falta de ética que faria corar um frade de pedra.

Neste sentido é preciso ainda observar que há jornais e sites que são meros propagadores de versões que interessam aos grupos de poder ( e são por eles pagos), bem como existem internautas que recebem dinheiro, ou até mesmo por ideologia, se dedicam a atacar quem pensa diferente ou não aceita suas ideias numa visão totalitária e fascista do papel da imprensa, seja ela qual for. Há até mesmo jornais, revistas e sites que são feitos ( e vivem) de buscar problemas, seja de qual tipo for, para até mesmo achacar os envolvidos na questão. Acontece que, por mais que possam granjear, por algum tempo, audiência com o sensacionalismo acabam por acumular processos e perder a credibilidade até porque não é possível se ter credibilidade sem ter coerência e sem permitir o conflito de versões. Neste sentido, é que, sob o ponto de vista da verdade, por mais que se tente dizer que a internet é a democratização da imprensa não o é. Em geral o que circula na internet pode ter sabor de novidade e, algumas vezes, de fato, se criam algumas coisas criativas, mas, falta a quem cria sozinho o olhar do outro e, muitas vezes, o sal da divergência. Em geral a imprensa não é feita pelos donos dos órgãos, mas, por seus subordinados que tem ideias próprias e interesses que vetam determinados exageros (ou até mesmo censuram o que contrária seus interesses). Isto não acontece na internet, é verdade. Mas, por isto mesmo, a credibilidade na internet é mais complicada. Isto é ainda mais facilmente comprovável ao se verificar que, fora dos sites da grande imprensa, são poucos os que conseguem credibilidade e levam tempo para tal. A credibilidade, porém, tende a cada vez mais exercer um papel de importante de relacionamento das empresas e pessoas com o mercado. E é por isto que, alguns sites com o tempo, se consolidam pela honestidade, pela diversidade de opiniões e por um comportamento democrático que se espera de uma imprensa voltada para o bem comum e a construção de um país melhor. 

sábado, agosto 30, 2014

A falta que Marx nos faz


Qualquer um que tenha o mínimo de conhecimento sobre política e história, e seja um estudioso, é claro, conhece a clássica referência sobre a repetição na história que é o texto de Karl Marx sobre o 18 Brumário de Luís Bonaparte. Sua publicação data de 1852 e gira sobre um golpe de Estado recém-ocorrido na França. Carlos Luís Napoleão Bonaparte, eleito presidente do país em 1848, resolveu impor uma ditadura três anos depois. A data escolhida para o golpe foi 2 de dezembro de 1851, aniversário de 47 anos da coroação de seu tio, o general e estadista Napoleão Bonaparte, como imperador da França. Essa repetição de Napoleões no poder inspirou Marx a formular a célebre frase com que abre seu texto, citando outro importante filósofo alemão: “Hegel observa em uma de suas obras que todos os fatos e personagens de grande importância na história do mundo ocorrem, por assim dizer, duas vezes. E esqueceu-se de acrescentar: a primeira vez como tragédia, a segunda como farsa”. Só esta frase já tornaria o texto clássico, mas, como em muitos outros textos se sobressai à força da análise de Marx, que o tornou o maior teórico do comunismo, porém, há também um grande componente de sua fina ironia que aparece até no título. Trata-se de que antes de vir à ser imperador, o primeiro Napoleão também havia dado um golpe de Estado, em 9 de novembro de 1799, tornando-se cônsul da França e que, no calendário que o país adotou depois da revolução de 1789, esta data correspondia ao dia 18 do mês de Brumário, ou seja, ao denominar a obra de “O 18 Brumário de Luís Bonaparte”, Marx carimba o golpe de Napoleão III como uma cópia da que havia sido dada antes por seu célebre tio.
O curioso é que nem a forma de ver as “coincidências” históricas, nem mesmo a frase que tornou o texto famoso, e assumiu o protagonismo para os divulgadores, foi a ideia principal de Marx. O que desejava destacar no texto, contando a história e analisando os fatos, era a sua conclusão, também perspicaz, de que  “os homens fazem sua própria história, mas não a fazem como querem; não a fazem sob circunstâncias de sua escolha e sim sob aquelas com que se defrontam diretamente, legadas e transmitidas pelo passado”. Ou seja, mesmo sendo os atores da história, as pessoas são limitadas a agir dentro dos parâmetros que a realidade impõe. Nada tão claro, simples, transparente que uma criança não possa entender, mas, explicar isto na história é fazer ciência.
Não tenho tanta pretensão até porque não sei se é possível fazer ciência no Brasil. Mas, houvesse um talento como o de Marx, certamente, nadaria de braçada em nosso país. Basta ver que Lula, o nosso Napoleão mulato, utilizando-se de todos os métodos políticos imagináveis passou décadas construindo um projeto de poder que deu certo, a partir do fato de que, ao derrubarem Collor, assumiu um vice, Itamar Franco, que lhe propiciou as condições, com a ajuda de FHC, que sem aptidão para o poder deixou o barco à deriva, para que o metalúrgico pudesse realizar seus sonhos de 20 anos de poder. E não se pode dizer que ele não soube aproveitar a oportunidade tanto que até hoje culpa o passado, depois de 12 anos no poder, por todas as mazelas do que não fez, e muitas novas que acrescentou, ao fardo do país. A ironia é que, num país surrealista como o Brasil, os limites entre o real e a fantasia são muito tênues. E assim como Lula criou sua fantasia de “inventor dos novos tempos”, agora, numa farsa trágico-burlesca, é um vice, a da candidatura de Eduardo Campos, que aparece encarnando o papel de “Joana D’arc da pureza política de Xapuri”, a beata Marina Silva. Dupla ironia: é Silva também, logo não se pode dizer que não é povão, e, mais fantástico ainda, sobe nas pesquisas de intenção de voto numa repetição: assim como se fez em cima do cadáver de Chico Mendes, um do Norte, salta para o palco espetacularmente num cadáver de um nordestino! Dos grotões, justamente de onde Lula extrai o poder, surge o seu fim à vista. Nada tão marxista como a contradição de que é do seio do seu próprio partido que vão arrancar o poder de suas mãos. É a continuidade do PT no poder, todavia, sem o mando de Lula, que maneja os cordéis com rédea curta. Que falta faz uma análise de Marx numa hora destas!  


segunda-feira, agosto 18, 2014

Uma pesquisa sob medida para o governo


Todos sabiam que a entrada de Marina Silva iria mudar o jogo. Os números, porém, da primeira pesquisa do Datafolha são estarrecedores não tanto por colocar a nova pretendente no jogo (o que já era esperado), mas, por configurar uma situação de favoritismo que não se coaduna com as tendências que pareciam estar estabelecidas. Há na pesquisa algumas coisas que não parecem bem colocadas (para não dizer que estão bem arrumadas). É uma pesquisa que, por tudo que mostra, e na hora que mostra, somente favorece a candidata oficial, apesar de, aparentemente, ser boa para a nova concorrente. Em primeiro lugar, ao colocar Marina num empate técnico (e na frente de Aécio) estabelece logo de início a condição de que será um dos dois que estará fora do jogo, ou seja, na prática, coloca Dilma como estabelecida no segundo turno e joga os dois para trocarem chumbo na arena eleitoral. E mais: quando o governo somente enfrenta problemas, e a presidente nem sai às ruas sem ser vaiada, apresenta uma melhoria, pequena, porém, importante, no momento, ou seja, quase só falta dizer que o governo conseguiu um fato inédito que é o de melhorar com as condições objetivas piorando.

Claro que o fato de Marina aparecer com 21% é perfeitamente plausível. Até se esperava que tivesse um pouco menos, no entanto, a possibilidade era visível na medida em que é muito mais conhecida que Campos. O que é difícil de engolir na pesquisa é que seu crescimento tenha se dado sem que perca parte do eleitorado de Campos e que somente retire votos de outros candidatos que não os de Dilma (favorita para ser fatiada por estar na mesma raia de Marina) ou mesmo de Aécio. É um pouco estranho que Marina consiga conservar todo o legado de Campos e suba apenas em cima dos votos dos indecisos e dos brancos e dos candidatos nanicos, como parece ser o caso da pesquisa. Bem, não vou colocar em dúvidas o Datafolha. Afinal pesquisas também podem errar por causa das amostras, ou até mesmo de manifestações extemporâneas de pessoas submetidas à massificação da mídia. O estranho, como estranhei na eleição de Lula que, apesar de ter ido para o segundo turno quando pensava em vencer no primeiro, subiu dez pontos sobre Alckmin, é o fato de que os números parecem não bater com as tendências que se observam de deterioração do governo, de desejo de mudança ( que se tenta vender que não é tanto) e da rejeição imensa que se observa de Dilma. É claro que a pesquisa é pesquisa. No máximo um retrato de determinado momento que pode ser mal fotografado e não é decisiva. Todavia, num momento como este o retrato que o Datafolha mostra, embora fingindo ser bom para o PSB, somente serve para consolidar a candidatura de Marina (atingindo Aécio) e para influenciar os eleitores a favor do governo. Além do mais incute na nova concorrente uma lufada de vento que levanta o balão numa hora extremamente perigosa. Afinal Marina, em que pese sua densidade eleitoral, enfrenta sérios problemas em relação ao empresariado (inclusive de financiamento de campanha) e ao agronegócio por suas posições xiitas em relação ao meio ambiente, bem como se é bem vista pelos jovens esbarra numa desconfiança acentuada dos mais cultos e mais velhos, ou seja, se ficar embriagada com os confetes iniciais pode dar com os burros n’àgua muito mais cedo do que pensa. Para ser, de fato, uma candidata com chances terá que passar por muitas provas. Já a pesquisa feita, como foi feita, sob o calor da emoção da morte de Campos, parece mais uma missa encomendada, mas, como ninguém aponta a encomenda, nem tem como refutar seus dados é, hoje, mais uma peça do jogo eleitoral. Resta saber se resistirá no campo real da disputa verdadeira: a cabeça do eleitor. 

terça-feira, julho 15, 2014

A necessidade inadiável do bom jornalismo brasileiro




Todo governo antidemocrático a primeira coisa que pretende é manietar a imprensa. O governo, e muitas vezes o partido do governo, que vive pretendendo colocar rédeas na imprensa é um governo, por definição, fascista ou totalitário- seja de esquerda ou de direita. Thomas Jefferson, com seu pensamento revolucionário e democrático já havia dito que a imprensa é indispensável para a democracia. Os jornais, as redações, mesmo com a pobreza mental que o estreitamento dos meios de manutenção tem tornado uma realidade, ainda são a melhor maneira de apreender a realidade mesmo com sua falta de cultura pela simples razão de que, ainda que de forma cada vez menos culta, possuem algum método de determinar o que é relevante e, ainda que de forma imperfeita, discutir os seus diversos lados.
É uma mentira deslavada do Partido dos Trabalhadores desejar fazer crer que são vítimas da imprensa, logo o PT que usou e abusou da liberalidade e até mesmo da conivência da imprensa. Culpam a TV Globo de ser oposição quando a Globo, de fato, sempre lhes deu guarida. Ao contrário do que se espalha, e, muitas vezes, com o apoio da direita, a Rede Globo não é um mal. A Rede Globo é competente e sempre deixou espaço para diversas opções e opiniões e, nunca antes neste país, foi tão governista quanto agora. É claro que por uma questão empresarial. Mas, os valores e as crenças da empresa não são de seus jornalistas que produzem o que bem querem e, para sermos justos, na sua grande maioria, comungam com o conservadorismo mais arcaico: o de esquerda. Tivéssemos uma imprensa contra, como os petistas alegam, nem teriam chegado ao poder nem, jamais, poderiam ter reeleito Lula depois do Mensalão. Foi a leniência da imprensa, seu conúbio com o processo político que permitiu a reeleição do metalúrgico e, mais ainda, não dissecar a candidatura Dilma, como a imprensa norte-americana, mais livre e mais rica, teria feito que permitiu uma eleição, por todos as razões lógicas, improvável.

O que a grande imprensa não pode fazer, sob pena de acabar como meio, é negar a realidade. Submergir na visão cor de rosa do governo que quer esconder que temos péssimos serviços públicos, que nossa infraestrutura está sucateada, que nosso competitividade é cada vez menor, que a inflação sobe e o Produto Interno Bruto-PIB desce. Jornalismo, em especial, é uma forma de conhecimento da realidade e tem que se aproximar dela. Não pode ser o Diário Oficial do governo como os governistas desejam. O que o PT, e seus adeptos, almejam não é jornalismo. Trata-se de publicidade, propaganda pura e simples. Uma forma de fazer com que a realidade seja como imaginam que deve ser. Que a imprensa brasileira faça jornalismo de verdade para que a eleição possa, no mínimo, não ser uma caricatura e que possamos nos aproximar mais de uma verdadeira democracia. 

domingo, julho 13, 2014

O mundo ficcional do pensamento conservador


Bruno Garschen defende com uma argumentação bem feita, no seu artigo “Os anticapitalistas estão contra nós”, divulgado pelo jornal Gazeta do Povo (http://www.gazetadopovo.com.br/colunistas/conteudo.phtml?tl=1&id=1422138&tit=Os-anticapitalistas-estao-contra-nos), a tese correta de que “Defender o capitalismo é uma tarefa inglória” porque, na sua quase totalidade o anticapitalista não é um interlocutor intelectualmente honesto. E não o é porque, previamente, já hostiliza quem pensa diferente com acusações pessoais de odiar os pobres e os beagles, além de elencar sobre o capitalismo pecados que não tem, de vez que, na definição de capitalismo, vaga e aberta a qualquer significado, pode-se atribuir, como Marx fez com vigor e crença, tanto que existe uma força sobrenatural que governa acima da razão de todos (um espírito imaterial, todo-poderoso e onipresente), bem como que o empresário, o dono do capital, age  sempre para explorar a mão de obra do coitadinho do trabalhador.
E aqui, nada melhor que usar as palavras do próprio Garschen “Não é uma coincidência o fato de muitos anticapitalistas serem intelectuais e/ou indivíduos que constroem suas vidas fugindo da realidade. Essa fuga, justamente o vínculo entre ambos, é alicerçada numa teoria utópica (geralmente socialista ou comunista) que a estrutura, legitima e que pavimenta a construção idealizada de uma realidade abstrata na qual o mundo concreto e as pessoas reais não são o que eles veem, mas, o que gostariam de ver, como bem apontou o economista americano Thomas Sowell em seu excelente Os Intelectuais e a Sociedade (p. 182-184)”. O que fazem com tal discurso estes ideólogos militantes, muitas vezes, disfarçados de professores é atribuir todos os males sociais, políticos e econômicos do mundo a um sistema que, ao contrário do que dizem, é o único que tem sido capaz de melhorar as condições dos pobres do mundo e dar liberdade política. Fazem isto para restringir o debate a uma zona de conforto e pobreza mental, de vez que não procuram rebater argumentos e sim caracterizar o adversário político como de “direita”, “tucano”, “coxinha” e outros adjetivos que são uma fuga da realidade. Eles criam uma representação ficcional que ignora que os sistemas têm defeitos e virtudes. O pior é que, crentes neste tipo de ópio político, se acreditam de vanguarda quando são, efetivamente, o pensamento mais retrogrado e conservador do presente.
O mais grave, todavia, é que esquerdistas são, por natureza, revestidos por si mesmos de um sentido sem precedentes de superioridade moral e política. Acreditam, piamente, que transportam as grandes bandeiras da humanidade, como liberdade, igualdade e solidariedade, e que representam a vanguarda da luta contra o poder opressor mesmo quando, como agora, são os que governam e respondem pelos péssimos serviços públicos. Ocorre que, por ser a minoria do progresso humano, estão isentos de qualquer tipo de crítica, daí, que a imprensa é “imperialista”, “associada aos grandes interesses financeiros”, “`PIG” e “conspiradora”. Afinal, mesmo não sabendo o que fazer, eles estão convencidos de sua relação intrínseca com a verdade, o futuro da humanidade, o “homem novo” que pretendem fazer não se sabe quando. Por isto só apontam os culpados: imperialistas, capitalistas, fascistas, traidores, burgueses. A repetição como farsa de velhas fórmulas de Lenin e Stalin. 
O que não conseguem responder é como isto será feito, de vez que a queda do Muro de Berlim, no século passado, enterrou de vez a utopia de uma sociedade planificada na medida em que as supostas excelências dos regimes socialistas (a igualdade social, a segurança do trabalho e a moradia, o futuro brilhante do ‘socialismo real’- jamais foi visto). A triste realidade legada por este tipo de regime, e de sistema de engenharia social, é uma só, basicamente uniforme na sua materialização em que existiu (ou onde ainda sobrevive, nos casos cubano e norte-coreano): ditadura política, polícias secretas, delação dos vizinhos, controle estrito das populações, miséria econômica, quando não Gulag ou extermínio dos ‘inimigos do povo’. Defender a estatização é defender a cegueira dos que ignoraram  por 70 anos, os crimes hediondos cometidos por seus líderes: Lenin, Stalin,Trotsky, Mao, Fidel. Nem querer ver os crimes de Yanukovych e de Maduro. Assim como somente criticar o que Israel faz, mas, não ver os crimes da OLP, do Hamas, do Hizbollah. Esquecer o que o Sendero Luminoso, as FARC, os Montoneros, a ERP fizeram. Não ver a morte dos que tentam atravessar o mar que separa Havana da Flórida na tentativa de fugir de um regime opressivo e violento. Por isto é que  Bruno Garschen tem razão quando diz que  “Sempre que um anticapitalista exibir o arsenal de equívocos contra o capitalismo, tenha a certeza de que o prejudicado com a alternativa política e econômica que defende não será ele nem os seus companheiros de ideologia e/ou de partido”. Seremos todos nós brasileiros que desejamos uma vida melhor e não a participação crescente do estado em nossa realidade e nossas vidas. Não precisamos de mais estado. Precisamos é que o estado nos deixe mais livres para cuidar de nossas vidas. Pode ser que venha a existir uma alternativa real melhor do que a do mercado. Mas, nos tempos atuais e no horizonte visível, não há. E não se pode perder a liberdade em nome de uma utopia que, repetidamente, tem se mostrado frustrante, castradora e mortal. Errar é humano, mas, devemos aprender com os erros. 

sexta-feira, julho 11, 2014

O vexame do Brasil na Copa afeta as eleições?


Bem, não há dúvida que o fatiamento da vida em caixinhas é uma forma dos homens entenderem sua complexidade. A vida, a realidade, se é que existe fora da percepção de cada um, é una, interligada, com suas partes indissolúveis. Em outras palavras: tudo nos afeta. A questão real é até onde a desastrosa derrota de 7x1 da seleção brasileira interfere nas eleições. Ou seja, se interfere significativamente.  Ao meu ver, e não há nesta observação nada científico, de vez que, cientificamente, não há correlações demonstráveis nem positivas nem negativas, a calamitosa derrota influi sim, no curto prazo, mas, muito pouco, até as eleições. É claro que a derrota acachapante do futebol brasileiro se reflete no imaginário popular como mais um fator que acentua o mal estar do povo brasileiro no momento. Porém, seu efeito deve se diluir também no curto prazo.

É provável, quase certo, que haverá um impacto imediato nas pesquisas sobre a imagem da candidata do governo. Dilma deve voltar a cair, talvez até um pouco mais do que levemente subiu com o bom humor que a seleção ao vencer inflou no País. Aliás, a tendência de queda que se sentia na sua candidatura deve continuar. A Copa do Mundo, como é praxe, paralisa, em grande parte, as atividades do País e, mesmo as convenções, a política, se resumiu ao essencial e, agora, deve ser retomada com mais intensidade. E, como é natural, a rotina também. E não se pode esconder que na rotina do brasileiro, desde o ano passado, dos famosos movimentos de rua de junho, produz um olhar para o cenário com uma perspectiva muito negativa, o que, é lógico, não favorece o governo. Favorece, isto sim, à mudança. Este é um fenômeno que ultrapassa o futebol e foi por ele, digamos assim, amortecido, mas, deve retornar com força total. Porém, não tem a haver com futebol. Tem muito a haver com o fato de que o brasileiro possui uma carga muito pesada de impostos e não os vê revestidos em serviços públicos de qualidade. Não é o resultado do futebol que altera isto, daí, que a campanha eleitoral não irá passar pelo mau resultado da seleção. Deve passar, obrigatoriamente, pelas estratégias eleitorais de cada candidato. De qualquer forma será um pleito difícil e irá girar sobre as mudanças que a população deseja.  Logo, a influência da Copa do Mundo na hora do voto, a meu ver, será muito pequena. Até porque políticos jogam em outro campo. E quem deseja ganhar deve encarnar os desejos de mudança da população. 

sábado, junho 21, 2014

A Copa das surpresas


A verdade, se ela existe, é a de que a copa das copas sempre será a próxima. Uma copa no Brasil, como não poderia deixar de ser, é mesmo a copa das surpresas, do inesperado, da improvisação. Ainda mais que, hoje, se trata de um excelente negócio internacional. Basta ver a abertura: feita por estrangeiros para estrangeiros onde só Claúdia Leite apareceu, e bem, de penetra. A copa é do Brasil, porém, está muito longe de ser a copa dos brasileiros. Basta ver que os mexicanos, em Fortaleza, estavam em casa contra o próprio Brasil! E que dizer de argentinos, colombianos, chilenos? Todos se sentem à vontade, enquanto que, para os brasileiros, esta é a mais estranha, distante e dispersa copa que já tiveram. Não me lembro de uma copa onde houvesse tanto distanciamento, tanto alheamento ou até mesmo torcida contra como esta. E não são apenas os protestos. O brasileiro comum ou não confia ou não se sente representado por uma seleção que está sendo lhe apresentada da hora do jogo. Se até jornalista confunde o Felipão com um sósia! Imagine o cidadão comum saber quem é Luiz Felipe ou William que possuem rostos comuns! A Copa, aliás, tem sido uma festa bonita, e torço para que continue assim, apesar da loucura de alguns, não digo nem protestos, mas, badernas mesmo. Nenhuma pessoa de responsabilidade e de bom senso, nos tempos atuais, irá enfrentar o imenso aparato repressivo que está montado apenas para criar problemas para um torneio que, os que gostam de futebol, e grande parte dos brasileiros, só têm a ganhar com o seu sucesso. Copa sim. Quem não gosta do governo não dá para esperar e dizer não a ele na eleição? Bom, mas, isto transcende a estas parcas linhas. O que pretendo mesmo é dizer que tudo está dentro da normalidade, com a improvisação de sempre, estádios prontos de última hora, passarelas balançando, como seria de se esperar, alguns atrasos normais em aeroportos, algumas fraudes, mais que normais em pacotes, passagens e entradas, e a alegria dos encontros, da festa, do futebol e da vida que escorre pelos estádios, restaurantes, bares, hotéis e ruas. E gols, muitos gols, o que é melhor ainda. A Copa está sendo surpreendente também nos gramados. Uma chuva de gols tem escondido o futebol ruim que se tem jogado. Se bem ainda seja melhor que o da copa passada. Somente a Alemanha, Chile e Costa Rica, até agora, parecem times em que os jogadores não foram apresentados na última hora. É certo que a Holanda e a França aplicaram chocolates fantásticos na Espanha e em Portugal, coisa normalmente difícil de acontecer, em boas partidas. Porém, é preciso acentuar que, inclusive por erros próprios estes times, perderam a estabilidade emocional durante a partida e, quando isto acontece, o vareio passa a ser normal. O mesmo aconteceu, por exemplo, com a Suíça, outro chocolate que a França aplicou. No entanto, as falhas na defesa, as mãos de pano de goleiros e na reposição das bolas explica muito do que houve. Se não fossem os erros, e em demasia, não sairiam, certamente, tantos gols. Se um time, mesmo regular, não erra muito, complica mesmo para os melhores times. Foi o caso da Austrália, um time de qualidade similar a de Portugal, mas, sem um Cristiano Ronaldo, por exemplo, que quase complica a Holanda no segundo jogo. Alguns jogos foram emocionantes. Cito, entre os que assisti, o jogo que tinha contornos de jogo da morte, entre Chile e Espanha ou o Uruguai e Inglaterra, em que os jogadores colocaram a alma nas pontas das chuteiras. Nesta segunda rodada ainda incompleta já se delineam algumas certezas e um quadro que favorece alguns times. Certamente, salvo se houver um contratempo inesperado, por exemplo, Argentina, Alemanha e França tendem a estar nas quartas, dado os cruzamentos. A tendência é que um ou talvez outros dois saiam de Brasil, Holanda e Chile. Costa Rica ou México podem ser as surpresas. Há as incógnitas de Colômbia, que mesmo avançando sem problemas, não tem jogado bem e do Uruguai, que depois de tropeçar, se rearrumou em cima da Espanha. Mas, enfrenta a Itália, ou seja, um dos dois ex-campeões mundiais terá que, obrigatoriamente, ser companheiro de eliminação nesta fase de Espanha e Inglaterra. Ainda teremos muitas jogadas bonitas, gols inesquecíveis, emoções. Esta Copa, no entanto, não tem, até agora, um time que se possa dizer que está enchendo os olhos mesmo com a enxurrada de gols. Em compensação muitos jogadores tem feito a festa da torcida. Benzema, Luis Suárez, Van Persen e Robben se sobressaem pelos gols que fizeram, mas, há uma pá de grandes jogadores que, pela quantidade, faremos injustiça em tentar citar. Também muitos que estão devendo, inclusive grande parte dos jogadores brasileiros. A esperança é que terão ainda tempo para se redimir.

domingo, junho 15, 2014

Os fatos rasgam a fantasia


Há uma evidente, e continuado, noticiário internacional que, ao analisar a Copa de Mundo de 2014 no Brasil que, no momento, dá mais atenção aos protestos da população do que ao evento. O governo se queixa de que existe uma “contaminação” da mídia internacional pela versão dos grandes meios de comunicação internos. Num esforço de modificar esta imagem a presidente Dilma convidou os correspondentes de 21 meios de comunicação que escreveram sobre o país para um jantar no qual tentou fazer um exercício de sedução para mudar a visão dos jornalistas. O resultado não foi lá essas coisas tanto que, nos dias seguintes, o Wall Street Journal e o New York Times escreveram que “O clima está pesado” em relação ao desânimo que cerca a Copa. O The Independent postou que “Motins, greves e engarrafamentos encobrem a abertura em São Paulo”. O Financial Times e o francês Libération que classificaram a greve dos metroviários em São Paulo como “um movimento de cólera geral” e, completando as citações o chileno El Mercurio comenta “O país está blindado como se tratasse de uma guerra”. E com o xingamento do qual Dilma foi alvo na abertura da Copa a visão, certamente, não deve se alterar muito. A tendência é de que a imagem se torne ainda mais negativa.
Pelo lado do governo, e do comando da campanha de reeleição, vigora a versão simplista de que a mídia estrangeira se pauta pelo noticiário dos grandes grupos de imprensa brasileiros, que estariam, em diferentes níveis, comprometidos com as oposições na próxima eleição presidencial. Há um imenso problema nesta versão que é  a de que tanto os correspondentes estrangeiros, quanto o público não teriam capacidade crítica, comprando a visão partidarizada da imprensa, que seria a gênese do mau humor  coletivo e das dificuldades de imagem do governo. É como se o PT não tivesse obtido hegemonia, não tivesse um largo aparelhamento na imprensa, e sendo o seu maior cliente, considerasse que a imprensa faz o relato que deseja e os fatos, em si, nada significassem, ou seja, as pessoas não analisam, nem tem outros meios de ter opinião e dependem de como os fatos são narrados e dos interesses (oposicionistas, no caso) de quem faz a narrativa.
Embora a narrativa importe, a percepção dos fatos é muito mais decisiva que as narrativas. Se não o fosse, com a mais impressionante máquina de propaganda que um governo já possuiu no Brasil, com a superexposição que Lula e Dilma possuem, com os gastos milionários de empresas estatais em propaganda positiva, certamente, a imagem do governo devia ser uma maravilha. Não é. Contra a versão das “Polianas” petistas de que o Brasil vive uma fase cor de rosa, com boa parte da cor produzida pela propaganda governamental intensa, os cidadãos topam com o lixo, a poluição sonora e visual, com ruas e estradas esburacadas, transporte público e serviços públicos em geral ruins e, para completar, a insegurança pública na vida e no trânsito, que ceifam 100 mil vidas por ano e colocam o Brasil como um dos países de maior número de homicídios no mundo. A construção dos estádios e as promessas não cumpridas de mobilidade urbana foram só a gota d’água na insatisfação pública que se testemunha e se propaga no que continua a ser o mais eficiente meio de comunicação: o boca a boca.

Principalmente com a internet a grande mídia perdeu muito de sua capacidade de alimentação do imaginário coletivo. A tese do Planalto do povo sendo alvo de uma lavagem cerebral, para construir uma narrativa única, peca por falta de verdade e historicidade. Fosse assim o PT não estaria no poder. Que a imprensa tem seu lado e seus erros, é verdade. Mas, não tem nem uma versão única, nem deixa de ter uma quantidade significativa de órgãos, alguns muito bem pagos, para difundir a versão cor de rosa do governo, porém, assim como os jornalistas estrangeiros, a população se comporta em relação ao que estão vendo e sentindo.  Agora tentar dizer que não há uma grande insatisfação da população e que é somente os “VIPs”, a elite branca “raivosa” xingou Dilma no Itaquerão é buscar distorcer o fato de que, em muitos momentos, das vezes em que ocorreu,  o xingamento partiu das arquibancadas, onde estava a população mais pobre, e que o coro não era nenhuma novidade, pois, se iniciou muito antes num show do Rappa, que não se pode dizer que concentra a elite, quando, pelo menos, 35 mil pessoas entoaram o xingamento em relação à presidente. Se há uma narrativa para ser revista é a de que os correspondentes estrangeiros não são profissionais experientes e não procuram externar, com um olhar externo, o que veem e o que veem é uma polarização exacerbada entre um governo triunfalista, que pinta uma versão de um Brasil de primeiro mundo, que ninguém enxerga fora eles, procurando, de qualquer forma, desqualificar ou criminalizar quem aponta erros ou crítica uma Copa planejada, e mal, para fins políticos. O xingamento de Dilma é só o início de uma fantasia que está sendo rasgada pela realidade dos fatos. 

terça-feira, junho 03, 2014

Baixo crescimento é fruto dos erros da política econômica


Por mais que as autoridades façam discursos otimistas, o fracasso da política atual de desenvolvimento centrada no consumo, torna-se evidente com a pequenina expansão de 0,2%, no primeiro trimestre, acompanhada de inflação alta e um enorme rombo comercial. Não adianta o ministro da Fazenda, Guido Mantega, desejar atribuir o baixo crescimento brasileiro a algum problema conjuntural ou a fatores externos. É o ambiente econômico, a indústria em declínio e a baixa produtividade que conduzem ao baixo desempenho dos indicadores de nossa economia.
Isto é visível, por exemplo, na pesquisa divulgada pelo IMD, escola de negócios da Suíça, o Índice de Competitividade Mundial, no qual o Brasil perdeu três posições este ano, estando, agora, em 54º lugar, num universo de 60 países analisados. Em quatro anos, desde o início do mandato de Dilma Roussef foram 16 posições perdidas. Nos anos anteriores, o Brasil caiu pelo avanço dos outros países. Em 2014, todavia, não foi o que aconteceu. Perdemos posições por nossos erros, entre eles o aumento de custos derivados da inflação e a baixa inserção do país no comércio exterior e a perda de  participação no mercado internacional.   São as políticas econômicas desastradas que geram ruídos e incertezas, fruto das medidas voluntaristas e erráticas do governo. Entre estes nada mais nocivo que a tentativa de intervir na fixação de preços e na taxa de lucros, bem como insistir na política econômica heterodoxa de estimular o consumo, em detrimento dos investimentos. Daí a retração dos investimentos e o desestímulo a novos negócios.
As pesquisas de confiança, já fazem algum tempo, seja de que setor econômico, e também das famílias, já sinalizaram o cansaço com as ações do governo que não dão respostas efetivas aos problemas que nos afligem e se traduzem  num quadro que beira ao caótico (protestos, depredações, invasões de prédios públicos e privados, violência, corrupção, entre outras coisas). Tudo isto tem a haver com a falta de perspectivas e reflete o esgotamento das políticas de estímulo ao consumo, em especial das “políticas de transferência de renda” e reajustes reais do salário mínimo, que somente são sustentáveis se capazes de atrair novos investimentos que possam responder ao aumento da demanda. De nada adianta manter o desemprego em patamar baixo se, por outro lado, são gerados ruídos que assustam os agentes econômicos e desestimulam os empresários e até os estimulam a investir no exterior.  Como o governo não passa  segurança aos investidores, a oferta de bens não aumenta, de forma que somente importando para fazer frente a uma demanda mais alta. Com o consumo excessivo, a poupança interna recuou a 12,7% do PIB, no primeiro trimestre deste ano, e os  investimentos para 17,7%, o que demonstra que o crescimento pífio do PIB neste primeiro trimestre não tem perspectivas de melhorar. Com este quadro, aumenta a possibilidade do crescimento deste ano ficar abaixo de 1,6%, podendo até recuar a 1,0% ao fim de 2015. Sem mudanças na política econômica iremos continuar patinando em torno de baixos índices de crescimento. Sem investimento não existe maior capacidade produtiva, nem crescimento da produção. E não há discurso ou milagres que desmintam esta dura realidade. 

terça-feira, maio 20, 2014

Má alocação do crédito diminui crescimento


A presidente Dilma, quando esteve em Davos, na Suíça, tentou sensibilizar os investidores estrangeiros fazendo loas ao Brasil que, segundo ela, se tornaria mais competitivo. Na íntegra: "Quero enfatizar que nós não transigimos com a inflação", disse. "A responsabilidade fiscal, por sua vez, é um princípio basilar da nossa visão de desenvolvimento econômico e social." Responsabilidade social meio esquisita, de vez que Rousseff parou em Cuba, onde o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) despejou quase US$ 700 milhões em crédito subsidiado para financiar o Porto de Mariel. Depois de cortar a fita de inauguração, a generosa presidente, que não tem mais dinheiro para educação e saúde no Brasil , prometeu mais US$ 200 milhões em empréstimos do BNDES para a segunda fase da construção. O "Valor Econômico" divulgou que Cuba ocupa o terceiro lugar entre os destinos dos recursos do BNDES. O problema de tais empréstimos é que, desde 1959, a ilha de Castro acumulou US$ 75 bilhões em dívida estrangeira não paga e outras obrigações,-inclusive US$ 35 bilhões para o Clube de Paris. Ou seja, se empresta regiamente a um dos maiores caloteiros do mundo num negócio de alto risco para colocar dinheiro no bolso dos irmãos Castro.
Há, é claro, o outro lado da moeda. Não é só Cuba quem ganha. A Odebrecht, grande construtora brasileira, ganhou o contrato para modernizar o Porto de Mariel, portanto, se torna a grande beneficiada do empréstimo subsidiado do BNDES e lucra ainda mais porque também foi contratada para modernizar o aeroporto de Havana, com outro financiamento subsidiado do BNDES. É verdade que financiar empresas brasileiras é a razão de ser do BNDES, mas, banco é banco e deve fazer financiamentos com a perspectiva de retorno. Acrescente-se que, mesmo que os empréstimos do BNDES e dos outros bancos estatais (Caixa Econômica Federal e Banco do Brasil) não estejam incluídos na dívida bruta, o que se observa é que eles tem dependido de transferências do Tesouro que, para isto, tem que captar recursos no mercado. Em suma, captam a um custo mais alto para financiar os empréstimos subsidiados. Como isto não vai impactar na dívida total é preciso um mágico para explicar. E são cada vez maiores as exigências de recursos, pois, os empréstimos da Caixa cresceram a uma média de 45% ao ano nos quatro anos entre 2009 e 2012. Os empréstimos do BNDES cresceram 23,5% entre 2009-12, e o crédito do Banco do Brasil cresceu 24% por ano entre 2009-12. Como as taxas de juros sobem, sobe o custo do serviço da dívida do governo, o que só aumenta o déficit fiscal. O governo, então, aumenta mais o peso das políticas fiscais e regulatórias criando entraves para as empresas, para o crescimento e aumentando a inflação. E, para coroar a falta de coerência, o banco central vem aumentando a taxa básica de juros, a Selic, que já chegou a 10,75% ao ano.
O que há de ruim também é que a qualidade dos empréstimos dos bancos oficiais tem sido altamente politizada o que aumenta o risco das taxas de inadimplência. Neste sentido vale lembrar que o BNDES (nem vamos lembrar os fundos de pensões) se especializou em apostas perdedoras. Não se sabe os valores, mas, estima-se que, somente para as empresas lideradas por Eike Batista foram liberados US$ 4,7 bilhões. É uma má alocação do crédito, que, para não ser mais duro, não sendo encaminhado para onde deveria, naturalmente, representa um crescimento menor da economia. É um comportamento desanimador para os investidores, internos e externos, daí a fuga do espirito animal do país. Como investir num local com tão altos impostos, má alocação de capital, taxas de juros altas, exceto para os ungidos, num cenário de incerteza econômica e inflação crescente? É esta a resposta que está sendo impossível de ser dada pelo governo atual. E a razão pela qual, apesar das promessas de Rousseff em Davos, não há, no horizonte das atuais políticas públicas, condições reais de se criar uma economia competitiva.