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quarta-feira, dezembro 23, 2015

Feliz 2019


Bem, verdade seja dita, não gosto muito de chegar no Natal, no fim de ano, falando de coisas horrorosas, mas, me digam, como não falar, como não escrever sobre as tristezas de um país sem rumo, de um ano horroroso, que termina de forma mais melancólica do que nunca? Não bastou a tragédia de Mariana.  As coisas andam tão ruins que, não foi o cinema que incendiou e sim, para tristeza geral, uma parte do magnífico Museu da Língua Portuguesa, em São Paulo, logo, um pouco antes da data em que entraria em vigor o Acordo Ortográfico. O incêndio, aliás, deve ser uma vingança dos fados, uma resposta simbólica, porém, incontestável, contra a manutenção do segundo mandato da presidente Dilma, numa artimanha judicial, que é um completo desrespeito à Constituição, pelos que deveriam preservá-la. É como se tivessem dito, os fados, se o país já acabou para que a língua?
Este ano, que, o seu final, ainda nos presenteia com um o novo ministro da Fazenda, Nelson Barbosa, o pedalador, que substituiu, Joaquim Levy, o Mão de Tesouras, que não cortou nada, é o mesmo que vê o aedes aegypti, que já havia sido banido há mais de um século pela determinação do sanitarista Oswaldo Cruz, vencedor da batalha da vacina obrigatória e do saneamento urbano, retornar, por incompetência, como vetor de transmissão da dengue, chicungunha e a febre produz fetos microcefálicos e,em crianças e idosos, a síndrome neurológica Guillain-Barré. Ou seja, procriar se tornou um risco e aos velhos, não bastava apenas deixá-los mais pobres e endividados, foi preciso garantir que, no futuro, sejam em número menor, numa diminuição dos custos das aposentadorias por mortalidade.  Até mesmo o whatsapp, que havia se incorporado ao cotidiano nosso de cada dia, para não nos dar sossego, para completar a intervenção indevida e a judicialização da vida brasileira, foi para o espaço, por algumas horas, atingindo por uma canetada. Se bem que já estamos nos acostumando com a criminalidade, o trânsito cada vez mais precário, a falta de energia, de internet, de tv a cabo, de Netflix, então, por que também não do whatsapp? O que, todavia, não nos falta são novas regras e novos impostos. Afinal, como nos afirma o sábio deputado líder de governo, falta mais governo.... E, para piorar, se é possível, mas, dizem que sempre pode piorar mais, vamos continuar a ser governados por Dilma, Renan e Cunha, em 2016. É Natal, um natal de vacas magras, diga-se de passagem, e de noticiário de gordas propinas que levaram muitos para as prisões sem que, no essencial, nada tenha mudado. A suspeita, e as previsões, são de que teremos um ano pior ainda. Será, dizem os astros, magos e pitonisas, um Annus Horribilis. Feliz 2019- para quem sobreviver. Com o que continuamos a ter, ainda teremos mais três anos, para poder pensar em mudar alguma coisa.


quinta-feira, dezembro 17, 2015

O inferno é aqui


Impossível, no momento, não lembrar de Igor Alexander Caruso, psicanalista e fundador da escola vienense de Psicologia Profunda, que, inclusive esteve no Brasil várias vezes, e cunhou a seguinte, e perfeita, frase: "O natural do homem é ser antinatural". E, como esclarece o sentido da palavra, antinatural é ser contrário às leis da natureza ou o que se opõe ou contraria a natureza ou as suas leis; contranatural. Se levarmos ao pé da letra, talvez com um certo e correto grau de extrapolação podemos dizer também que o absurdo se torna normal para o homem desde que o aceitemos, desde que nos familiarizemos com ele. A realidade disto foi comprovada, por exemplo, nos tempos de exceção do nazismo e do comunismo nos quais as pessoas se comportaram como monstros como se fosse tudo natural.
Em grau menor, porém, não menos perverso um fenômeno similar ocorre no Brasil atual quando olhamos para os nossos poderes e para a nossa vida cotidiana que parece uma peça de Beckett na sua essência, de vez que nós, os pobres e desamparados personagens  da história, esperamos ansiosos por uma solução, por uma ajuda para escapar do pântano, em que nos encontramos, numa terra onde nada acontece de inovador, onde tudo se repete sem cessar, e de forma crescente e mais absurda, somente aumentando nossa angústia, decepção, nos fazendo rir, do que é impossível de rir, para tentar iludir a tristeza e frustração. Vivemos um tempo onde o normal é que se tornou o verdadeiro absurdo.       

Os últimos tempos, sem precisar comentar, dizem tudo: a prisão dos maiores empreiteiros do país, a prisão de um líder do governo no senado, a aceitação do pedido de impeachment de Dilma, a pantomima do Congresso, as ações policiais contra Cunha, Renan, Lobão, ministros & uma penca de parlamentares, as multidões nas ruas, minguando diante do descrédito com as instituições. No cenário o maior grau de normalidade provém ainda do Judiciário. Até quando? Se os problemas só aumentam. Agora o Procurador Geral da República, Janot, pede o afastamento de Cunha. Perfeito. Mas, Cunha pode dizer, com razão, “Por que só eu?” Afinal qual a diferença entre o que se alega que é o comportamento de Cunha do que faz o próprio Planalto? Ou o senador Renan Calheiros? O deputado Chico Alencar, se considerando uma vítima deste teatro do absurdo, se esgoelou, gritando que “Está tudo errado”. E está certo. Não se precisa pecar nem morrer. Basta ser brasileiro para se ter direito ao inferno. O inferno é aqui. 

Ilustração: prjefersonfabiano.blogspot.com

quinta-feira, dezembro 10, 2015

Basta de mais impostos


Na tarde da terça-feira (8) último, em Brasília, na sede da CNC (Confederação Nacional do Comércio), o secretário da Receita, Jorge Rachid, único representante governista convidado para participar do lançamento do “Manifesto contra o aumento do PIS/Cofins”, acabou sendo constrangido por discursos inflamados de empresários insatisfeitos com a situação econômica do país. Apesar de tentar afirmar que existe a intenção do governo de não aumentar impostos, o diretor da Cebrasse Central Brasileira do Setor de Serviços) , Erminio Alves de Lima Neto, só não o chamou de mentiroso, mas, sublinhou: “A gente não acredita no Estado”. O Estado, acrescentou ele, "é perdulário e adora criar insegurança jurídica" por meio de um emaranhado de normas e medidas e completou, sem medir  palavras  cobrando de Rachid mais respeito. “O setor de serviços precisa ser mais respeitado. O Ministério da Fazenda desrespeita muito o setor. Há um medo em conversar com quem gera riquezas neste país”.
Porém, mais duro ainda foi o presidente do Sinduscon-DF (Sindicato da Indústria da Construção Civil do Distrito Federal), Luiz Carlos Botelho, que disparou “Não é só chegar aqui e apresentar isso aí. Aqui se sabe de matemática e aritmética. O desafio do senhor é tirar a complexidade (do sistema tributário)” e, foi mais além e  agressivo. “É preciso dizer a verdade”, chegou a afirmar o empresário, apontando para Rachid. “Com todo o respeito, vamos resistir a você e a seus funcionários”, emendou, sendo aplaudido pelo auditório. Na mesma toada o diretor-executivo do SindiTelebrasil (Sindicato Nacional das Empresas de Telefonia e de Serviço Móvel Celular e Pessoal), Eduardo Levy, engrossou os constrangimentos impostos a Rachid. “Repelimos de forma energética a proposta do governo. No nosso setor, aumento de carga tributária implica exclusão social”, comentou. O evento da terça-feira foi o início de uma série de atividades organizadas por entidades de diversos setores produtivos que encaram a reforma do PIS/Cofins como uma estratégia para aumentar a carga tributária.

Este comportamento tende a se alastrar na medida em que, com a crise, e a consequente queda das receitas, os governos, tanto federal, quanto estaduais, tomam a decisão mais fácil que é a de aumentar impostos, que, por sinal, já se encontram num patamar muito elevado. Aqui mesmo, em Rondônia, apesar do governo alegar que as contas estão em dia, também foram propostas várias leis para “recompor o caixa” e prevenir inadimplência. A alegação é de que todo mundo sofre com a crise, o que é verdade, porém, entre os empresários há a sensação de que estão transferindo a inadimplência dos cofres estaduais para o cofre deles. E se alastra, cada vez mais, um sentimento de resistência contra o pagamento de mais impostos. Até já se fala em criar uma campanha sob o slogan “Basta de impostos”, todavia, há os mais radicais que pregam uma paralisação, mesmo que temporária, no pagamento de impostos como forma de protestar e fazer com que os políticos entendam que o aumento de impostos chegou ao limite suportável. 

terça-feira, dezembro 08, 2015

Até onde um plano de desenvolvimento sustentável se sustenta?


Não deixa de ser um avanço significativo, com todos os problemas que possa ter, o lançamento na última segunda-feira, dia 07, do Plano de Desenvolvimento Sustentável de Rondônia (PDES- 2015/2030). Foi anunciado que Rondônia passou a ser referência para restante do país, segundo Maria Tereza Teixeira, representante do Ministério da Integração Nacional, com um planejamento que estabelece metas para os próximos 15 anos, levando em conta os três pilares da sustentabilidade que são: prosperidade econômica, qualidade ambiental e justiça social. No lançamento o governador Confúcio Moura disse que é comum, no país, cada governante fazer um planejamento, que acaba ignorado pelo sucessor, que por sua vez faz outro, que também será ignorado na administração seguinte. Segundo ele, é um dos problemas do Brasil, cujo modelo federativo está exaurido e não agrada a nenhum setor da sociedade. Também propôs um debate sobre o que fazer para que a crise não chegue ao estado e indicou que a solução está mesmo em Rondônia, de onde devem sair boas ideias que se contraponham ao modelo desgastado existente. Segundo ainda ele, os planos e programas devem  incorporar a sabedoria que vem das ruas, do povo, que deve participar da condução dos seus destinos. Ele ainda defendeu que as preocupações se voltem para setores como a agricultura familiar e os adolescentes que estão fora de sala de aula, sem perspectivas.
Bem, Confúcio tem muitos méritos. Entre eles de ser resiliente, de conseguir, mesmo quando os fatos são adversos, vender otimismo e, no lançamento do PDES, estava até mesmo entusiasmado. É verdade que, desde uma tentativa de um projeto ainda do tempo do governador Raupp, quando se tentou fazer um plano estratégico, o Úmidas, não se tem no Estado um plano de longo prazo. E, temos que admitir que ter um, já é uma vitória, mas, o que, no passado, já era difícil, que é fazer planejamento governamental no Brasil está, praticamente, se tornando impossível. Digo isto porque um plano, para ser um verdadeiro plano de governo, deve ser compartilhado, deve ser um plano do qual a população, o povo, saiba o que esperar, ou seja, atue como uma sinalização para o futuro.

O grande problema, logo de início, é o de que, nos tempos atuais, como o planejamento se faz para um espaço geográfico, um espaço político, são tantos os atores, tantas as instâncias que fica difícil se ter uma coordenação e um controle das ações. Basta verificar que, em Rondônia, por exemplo, existem diversas regionalizações diferentes  e o governo federal, por meios diversos, ainda cria seja unidades de planejamento, como os territórios, ou legisla por meio da criação de áreas ou até mesmo, de forma fática, pela legislação, de tal forma que, mesmo o governo estadual, não tem domínio sobre seu território. Pior ainda: nem mesmo possui os recursos indispensáveis para promover o seu desenvolvimento na medida em que, engessado pelas leis, possui muito pouco para investir.  E, como não existe um planejamento regional brasileiro, ainda que existam planos para tudo, a construção do futuro fica extremamente dificultada porque, por melhor que seja o plano elaborado, não se dispõe nem dos meios, nem de forma de se direcionar todas as ações na mesma direção. Enfim, devo dizer que fico contente com Rondônia ter um plano de desenvolvimento sustentável, o que não deixa de ser um resgate da nossa tradição de pioneirismo em planejamento, porém, como não estamos isolados do Brasil, temo muito que sem mudanças profundas, como tudo mais, o nosso plano fique atado nas teias burocráticas do governo e na falta de recursos e de atenção, que são uma marca do descaso com que a Amazônia sempre foi tratada. 

quarta-feira, dezembro 02, 2015

UM ZUMBI EM GESTAÇÃO


Não tem outra palavra senão a que Boris Casoy usa como bordão: “É uma vergonha!”. Mas, contra toda a lógica política e de decência, o que se viu foi que a Comissão Mista de Orçamento (CMO) aprovou a inclusão da Contribuição Provisória sobre Movimentações Financeiras (CPMF) na arrecadação de 2016. A votação aconteceu durante a apreciação do relatório do senador Acir Gurgacz (PDT-RO) à receita da proposta orçamentária de 2016 (PLN 7/2015) e, pelo texto aprovado, se pretende com a arrecadação do tributo, a partir de setembro do próximo ano, transferir do setor privado cerca de R$ 10,1 bilhões de receita para os cofres da União. Num momento de crise, num momento em que são comprovados que uma grande quantidade de recursos públicos saí pelos ralos do desperdício e da corrupção, com uma carga tributária que já é das maiores do mundo, isto representa, no mínimo, um desrespeito à opinião pública e uma comprovação de que os parlamentares fazem jus ao conceito geral de que somente cuidam dos interesses próprios.
É verdade que a aprovação não importa em que o tributo seja recriado, porém, que o valor da arrecadação com ele foi incluído na proposta orçamentária, ou seja, que se deixou a porta aberta para o governo pressionar por sua aprovação e, como já contou com o apoio de PT, PMDB, PCdoB, PP, Pros, PTB, PRB, PSD e PDT  (Só votaram contra PSDB, PSC, DEM e PSB) pode-se esperar uma grande ofensiva no sentido de que a proposta que recria a CPMF (PEC 140/2015) tramitando na Câmara, e que ainda não passou pela primeira etapa de votação, acabe, por vias e travessas, tendo sua análise de admissibilidade feita na Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania (CCJ). De qualquer forma, ao ser incluída no orçamento, se oferece a oportunidade do governo tentar fazer o tributo virar realidade até  maio, prazo máximo para garantir a promulgação da PEC e cumprir o princípio da noventena.

O comportamento dos parlamentares é mais vergonhoso ainda quando se sabe que a CPMF é um tributo denominado de gilete, que corta dos dois lados, de vez que pesa sobre a produção e também sobre o consumo. Na produção aumenta os custos dos insumos e diminui a disponibilidade financeira das pessoas e das empresas nas retiradas de dinheiro dos bancos. Ainda por cima é de natureza cumulativa e antinacional na medida em que aumentando os custos da nossa produção favorece a importação de produtos. É um tributo que estimula o uso do dinheiro vivo (para fugir da tributação) e invasivo ao incidir sobre todas as fases da produção onerando toda a economia formal. Também é injusto por não expressar a capacidade contributiva, base indispensável para incidência tributária. Enfim, é um imposto ruim, péssimo para a economia ainda mais numa economia em depressão. Deveria estar morto, enterrado e sepultado. Não está. E, vergonhosamente, os parlamentares dão sobrevida a um morto que pode se tornar um zumbi, mais um, que atormentará ainda mais a vida dos brasileiros. 

quinta-feira, novembro 26, 2015

O comportamento nas redes sociais exige limites


Há certos tipos de comportamento que me incomodam e, por ser uma pessoa até certo ponto antiga, ainda do tempo em que o Brasil possuía tecnologia de boas maneiras, me incomodam muito mesmo, até mesmo em alguns bons amigos que tenho, a forma como agem na internet. Não sei explicar, sob o ponto de vista psicológico, que, por sinal, não é meu forte, a razão, porém, elas existem, pois, assim como acontece com muitas pessoas que pegam na direção de um veículo ou de motoqueiros, que se acreditam ases do motociclismo, muitas vezes, também as pessoas que se colocam diante da tela de um computador parecem perder a própria personalidade e passam a agir como se fossem selvagens ou brutos. É a impressão que tenho quando vejo certas coisas, em especial, no Facebook ou no Whatsapp, embora seja quase ausente de sua utilização pela interatividade que provoca.
Sou um dos que creem que as redes sociais são um importante instrumento de relacionamento. Acredito mesmo que, hoje em dia, seja imprescindível estar nelas que nos auxiliam sob diversos aspectos da vida e da profissão. Para mim, é impossível não estar, por exemplo, na internet e, com extrema frequência, uso os e-mails, sou um blogueiro permanente e gosto de passear no Instagram. Enfim, sou um dinossauro com certa tendência para o mundo digital, mas, embora faça diferença entre as mídias digitais e o  mundo real, não creio que a ética que nos move possa ser diferente e não nortear o nosso comportamento em ambas as esferas. Não é o que parece acontecer com muitas pessoas que parecem mudar completamente de personalidade pelo seu comportamento no mundo digital.  
É comum que, por exemplo, me surpreenda com pessoas que, face a face, sejam muito delicadas e tolerantes em relação as opiniões alheias e se comportem na discussão virtual como se fossem verdadeiros trogloditas. Também me espanta, fora a quantidade de besteirol que se reproduz, os convites inumeráveis para jogos ou temas que, em nada, nos interessam, além da quantidade de comportamentos e fotos inapropriadas, de vídeos preconceituosos ou até mesmo pornográficos, de correntes sem sentido, de convites religiosos ou orações sem consideração pela religiosidade do outro e comentários completamente descabidos. E, para minha surpresa, partem, justamente, de pessoas que jamais pensaria que se comportariam assim. Como sou tolerante e democrático prefiro não dizer nada, todavia, também, em muitos casos, surgem as ameaças de ser excluído pelo silêncio ou deixar de ser amigo por não ler algo que, no fundo, é coisa de quem não tem o que fazer no momento. São formas comuns que costumam desfazer as imagens pessoais nas redes (e, por via de consequencia, fora delas). Isto sem contar os casos de vaidade explicita, de pessoas que não dão um passo sem um selfie ou um comentário. Longe de mim querer moldar todo mundo, mas, por que se expor além do necessário, se isto é até perigoso para a própria vida? Não, não pretendo ter uma resposta. Mas, previno aos amigos, que evitem certas imagens, que usem as imagens privadas com moderação. Afinal ninguém precisa saber o que você come e bebe nem passa suas férias.  Menos ainda ficam bem os palavrões ou os comentários maldosos  ou falar mal de colegas de trabalho, de faculdades ou até mesmo de empresas. É preciso lembrar que seu procedimento na internet pode subsidiar tanto os bandidos que assaltam pessoas como também os conteúdos podem gerar uma imagem completamente falsa de sua pessoa. Lembre-se que o ambiente digital é público e tudo que se vê nele é como um cartaz posto no meio da rua. Seja prudente e cuide da sua imagem.



domingo, novembro 08, 2015

A desmaterialização e a imprecisão da imprensa


Uma das dúvidas mais interessantes, no momento, e, isto ficou bem claro, no 19º ENAI - Encontro Nacional da Imprensa, que reuniu as associações e entidades de imprensa e jornalistas, no último sábado, dia, 07 na Assembleia Legislativa de Rondônia, é o que a imprensa se tornou hoje. No passado isto era muito claro. Se podia determinar com clareza quem pautava a notícia, quem divulgava, quem fazia ser e acontecer. Havia até mesmo jornalistas que faziam, no bom sentido, a notícia. Antes a imprensa tinha nome, sobrenome, endereço certo, uma identificação precisa. É o que não acontece, agora, quando a imprensa, como o mundo, se desmaterializa, se desmancha no ar. Snodew, por exemplo, foi mais devastador que qualquer das grandes redes mundiais de imprensa.
Na verdade a imprensa, hoje, como acentuou José H. Oliveira Júnior, presidente da Agência Brasileira de Notícias-ABN, pode ser um blog. Pode também ser um vídeo que se espalha na internet e vira viral. Uma foto no Instagram, um comentário no Facebook pode se tornar, num instante, mais forte que páginas e páginas num jornal ou telejornal repetitivo, de vez que, ao mesmo tempo que a imprensa se desintegra, se fragmenta, parece, aos olhos de todos, mais igual do nunca, mais a mesma coisa, nas notícias “pega e cola” de todos os órgãos de comunicação, que surgem padronizados, iguais, pasteurizados de tal forma que as imagens, fotos, palavras são as mesmas, como se fosse modificado apenas a marca de quem veicula. Em certos momentos parece que só existem algumas notícias e algumas pessoas tal a falta de assuntos novos. Tudo fica parecido como os restos num grande lixão. É o grande paradoxo: uma imprensa imensamente fragmentada para produzir notícias padrões. Um mar de veículos com as mesmas notícias compactas, iguais, simulacro de verdade que se afirma mais pela repetição do que pela qualidade. E, em geral, repetição de notícias ruins no teor e na essência.

É o por isto que se pergunta, os jornalistas se perguntam, o que é a imprensa hoje? Uma boa resposta, tomada pela média das conversas, é de que ninguém sabe. Vivemos uma fase de transformações que deve construir um novo modelo, um novo paradigma de imprensa. Hoje, porém, parece que circulamos sem definição entre o velho e o novo, sem saber bem o que flutua ou afunda. De certo sabemos que a imprensa nunca mais será a mesma. E também que terá que ser exercida, cada vez mais, como sempre foi dentro de determinados parâmetros de ética, com qualidade e, quando bem feita, contra. Seja contra o governo, contra as grandes empresas, contra os interesses escuros e escusos, mas, a favor da verdade e do esclarecimento. E, como disse muito bem Domingues Júnior, diretor do Departamento de Comunicação Social do Governo de Rondônia (Decom), buscando a excelência no que se faz, pois, a essência de qualquer imprensa não pode deixar de ser a notícia bem feita. 

Ilustração: conversasdavida.blogspot.com

terça-feira, outubro 13, 2015

Com prêmios, mas, sem receitas


O professor escocês Angus Deaton foi premiado com o Nobel de Economia. Não discuto seu merecimento ao prêmio, nem seu trabalho. Qualquer economista ou intelectual que se dedique, como foi o seu caso, a desenvolver um trabalho no qual procura diminuir a pobreza partindo do ponto de vista de que, segundo o comitê responsável pela escolha, "Para elaborar políticas econômicas que promovam o bem-estar e reduzam a pobreza, devemos primeiro perceber as escolhas de consumo individuais” é digno de elogios e prêmios. É um pensamento que busca encontrar os mecanismos entre o agir individual e o comportamento macroeconômico, o que revela a visão de um pensador.
O que me incomoda, como já incomodou no ano passado quando o prêmio também contemplou uma visão macroeconômica da regulação, é o fato de que a contribuição do agraciado foi de construir modelos abstratos que buscam captar as escolhas das pessoas e empregar métodos estatísticos apropriados em suas estimações. Dizem que, com seus trabalhos, se avançou muito na estimação de um sistema de demanda por bens e serviços.
Sinceramente, sou, como economista, ainda um grande cético dos modelos econométricos que, embora pense que podem ajudar na economia, jamais surgirão de suas abstrações os reais entendimentos dos mecanismos econômicos. Afinal, para se estimar um sistema de demanda, se precisa de uma teoria. É necessário, antes de mais nada, um modelo da escolha do consumidor, ou seja, uma representação abstrata das preferências das pessoas que gera, como resultado, suas escolhas de consumo.  Aí, para mim, está o busílis da questão. Como se ter um modelo correto? É um problema complicado. Porém, isto não parece abalar os que utilizam uma combinação de modelos, métodos estatísticos e dados sobre indivíduos e/ou firmas, a norma na pesquisa em economia, que, supostamente, acaba, segundo eles, por trazer resultados relevantes. Continuo a pensar que um modelo, macroeconômico ou microeconômico, se constitui num conjunto de equações que tenta representar a economia como um todo, mas, me parece que, quanto mais complicados ficam os modelos, são, ainda assim, uma representação muito simplificada da economia real. Não tiro os méritos de muitos estudos deste tipo, porém, sou cético sobre o avanço do entendimento econômico passar pelo uso cada vez mais intensivo de modelos matemáticos e computadores. E, sinceramente, me parece impossível que, por exemplo, o estudo que elaborou nos anos 80, com seu colega John Muellbauer, de um conceito de “Sistema Quase Ideal de Demanda” (AIDS, na sigla em inglês), que estudava o comportamento dos consumidores seja muito mais do que um exercício intelectual que, dificilmente, terá algum uso prático. Por isto considero muito mais importante o pensamento de Deaton e seus trabalhos para medir pobreza e desigualdade.

Não sei o que as pessoas pensam, mas, como economista me incomoda muito que, o que aparece como evolução na Economia, não deixe de ser, aos olhos leigos, tremendamente banal. É verdade que, às vezes, explicar as coisas mais simples, cientificamente, é complicado, mas, nos casos recentes do Nobel de Economia, estimar demandas na economia e/ou a necessidade de regulação do mercado não parece ser um avanço significativo, principalmente, quando se culpa os economistas por tantas coisas no mundo que não funcionam. Ainda mais quando se espera que, como médicos, os economistas tenham as receitas para aplacar as dores do mundo. 

sexta-feira, outubro 09, 2015

Será que vamos continuar estocando vento?


O Brasil é um país de técnicos. De botequim, sem nenhuma formação, naturalmente. Aqui, talvez, seja muito simbólica a história das instruções que, contam, Vicente Feola, técnico do Brasil na Copa de 58, na Suécia, teria dado para Garrincha. Segundo o folclore ele teria dito que ganhar o jogo era fácil. Bastava passar a bola para Garrincha que driblaria dois zagueiros russos e passaria a bola para alguém fazer o gol. E Garrincha, a quem cabia as dificuldades da tarefa, perguntou, com sua ingenuidade natural, se o técnico havia combinado com os russos....
No Brasil, infelizmente, a política (e o governo também) se comporta de forma similar. Querem passar a dificuldade para o outro. Driblar a realidade com o discurso. No país as decisões e as prioridades parecem sempre fugir do real, parecem sempre desejar driblar o possível, o desejável, a maneira simples e direta de tratar dos problemas. É um país onde, apesar de ter conhecimento em muitas áreas, ainda se faz política pública defendendo que é possível crescer, desenvolver sem educação e sem investimento, via crédito e aumento de consumo. Onde se está sempre a pregar uma fórmula mágica como a de que é possível incluir a população pobre, retirá-la da pobreza sem criar crescimento, sem aumentar a produção, sem gerar novos empregos, com bolsas que incentivam as pessoas a não trabalhar. É como acreditar que se pode erguer um prédio sem alicerces. E o incrível é que, mesmo com o prédio tendo caído, ainda aparece um documento de “intelectuais” dizendo que a culpa é do engenheiro que chegou para retirar o entulho e tentar reconstruir o que sobra....
É um país que tem um histórico de escolhas, de prioridades erradas. Basta ver que, com dimensões continentais, optou pelo modal rodoviário. Que com sol, vento e água em abundância, compartilha com a África, a glória de não ter aproveitado todas as oportunidades de seus recursos hídricos, bem como permanece num terrível atraso em relação ao uso da energia solar e eólica. Mas, é, em especial, nas políticas públicas que esta tendência se manifesta da forma mais negativa e cruel. Escolhemos um governo que se arrasta já pelo quarto mandato que insiste em tentar aumentar o controle do estado quando, é, mundialmente comprovado, que o desenvolvimento se faz com um bom ambiente econômico, com um mercado de regras claras e regulado e não por meio de intervenção estatal,  mais burocracia e leis que, claramente, só favorecem a corrupção.
Não é o governo que produz. Governo toma dinheiro das pessoas que produzem e é mais nocivo, quanto mais, como agora, além de tomar não devolve em infraestrutura, segurança e serviços o que se espera dele. Quem produz são as empresas e as pessoas. Neste sentido quanto mais elas tem uma carga tributária menor e mais condições de empreender, mais o país tem condições de progredir. Neste sentido, é meritória a iniciativa do Sebrae para transformar o Dia da Micro e Pequena Empresa em uma data de mobilização da sociedade para consumir produtos e serviços de pequenos negócios, com o Movimento Compre do Pequeno Negócio. Mas, publicidade somente não basta. O governo que louva o pequeno negócio em discursos e publicidade é o mesmo que acabou de enterrar o Ministério da Micro e Pequena Empresa, mas, não apenas isto. Como se não bastasse a carga tributária, a burocracia, o aumento da energia e dos combustíveis, propõe, sem a menor vergonha, um imposto como a CPMF. Em suma, faz o discurso de que todos temos talento para corredores em público, mas, nos bastidores, prepara todo o arsenal para nos cortar as pernas. E ainda quer nos convencer que o faz em nome de nosso bem estar e futuro. Até quando vamos continuar estocando ventos e acreditando que as palavras podem mudar de significado de acordo com o governante de plantão? Não sei, mas, o Brasil, se não mudar, e rápido, caminha, celeremente, para o atraso.


Ilustração: nogueiramarques.com.br

domingo, outubro 04, 2015

Desabafozinho de hoje


Sempre gostei da vida. Gostava muito da vida em Porto Velho. E Porto Velho já foi uma cidade pacata, uma cidade onde a vida se arrastava e o trânsito fluía e, é verdade, sempre foi quente e empoeirada. Porém, era um calor diferente, um calor calorento, mas, amável. Era um calor, digamos divino. O calor atual não é de deus. Não dá para viver e aceitar. Não é um calor digno, é um calor sem humanidade. E este parece ser o tom da vida ultimamente. Tudo parece farsa, tudo parece sem sentido, as coisas parecem não se encaixar por mais que nos esforcemos, por mais que busquemos saídas, parece que entramos num labirinto onde o próximo túnel parece ter um desafio maior, como se as pecinhas da vida tivessem se desenfileirado, que as engrenagens estejam rodando ao contrário. Sinto que está tudo muito estranho, que as pessoas não estão bem com a vida, que estão achando tudo tão ruim, tão esquisito e triste, que, de repente, me pego pensando no passado, voltando ao passado, a troco de nada, só para me sentir bem, lembrar que houve um tempo em que tudo era melhor.
Claro que me sinto mais velho, e os anos contribuem para ter uma perspectiva pior, que continuo sem dinheiro (isto, porém, é a novela de uma vida inteira da maior parte dos brasileiros), engordei, perdi cabelos, perdi pessoas queridas, amei e deixei de amar, me afastei de quem não devia me afastar, fui bom com quem não devia ser ou ruim com quem devia amar, enfim, cometi as tolices que todos nós fazemos, de vez que sou, igual a todo mundo, uma besta que toma decisões sem pensar muito e depois não tem mais como chorar o leite derramado. Mas, a questão, embora seja comigo também, não é só comigo. Nós estamos precisando de alguma coisa que mude a nossa perspectiva e, me parece, muito esquisito que tudo esteja tão mau. E ainda mais com tanta dor, suor e calor. E ainda é mais esquisito por ser primavera, uma época de renascer, recomeçar, das florzinhas de ipê florindo, dos passarinhos nos galhinhos no sol. Mas, não tem jeito. A vida não está se encaixando direitinho e no noticiário só sei de roubos, de políticos mafiosos, de assalto aos cofres públicos e crimes. E tenho uma saudade danada de um dia mais claro, um céu mais azul, bem azul, daqueles que cantam na marcha (Azul, nosso céu é mais azul)  que virou nosso hino. E penso otimista: amanhã será outro dia.

Tusso gripado e não posso deixar de assinalar:-É, mas, hoje tá horrível. 

sexta-feira, setembro 25, 2015

Rumo à calmaria


Em uma palestra sobre a ferrovia bioceânica nesta sexta-feira (25 de setembro), o senador Valdir Raupp, que, ao que consta, é um político bem informado, disse que as coisas, agora, tendem a se acalmar mais.  Não tenho a mínima condição de discordar do parlamentar que, além das vantagens informacionais, se encontra, por assim dizer, no meio do caldeirão da crise. Infelizmente, não tinha, nem tenho, condições práticas de lhe perguntar em que se baseia para ser tão otimista. É que, aqui debaixo, bem de debaixo mesmo, olhando da planície não consigo ver como esta calmaria virá. Sei que os políticos terão que, de uma forma ou de outra, de resolver a questão de ingovernabilidade de nossa economia, porém, não vejo nas últimas mexidas no tabuleiro senão o que, em linguagem clara, denominamos de “empurrar com a barriga”. Será que o senador acredita que com seis ministérios, entre eles o da Saúde, as coisas se resolvem entre o PMDB e o PT? Cunha diz que não. E o senador Jorge Viana, expoente do PT do Acre, a respeito da reforma afirmou que se é para o PT não ter nada seria melhor que Dilma tivesse perdido. Fora que outros partidos também não estão nada contentes com a reforma. Reforma, aliás, que é tida como uma jogada somente. Avaliam, segundo os cálculo internos do PT,  que Dilma tem cerca de três semanas para virar o jogo e se estabelecer como alternativa de poder no país até 2018. E isto passa pela Lava Jato, de vez que a salvação estaria no delator Fernando Baiano que arrastaria os principais líderes do PMDB, partido de Michel Temer, para o precipício. Neste caso, a possibilidade do vice assumir no lugar de Dilma seria afastada. Volto a dizer: é um olhar da planície.
No entanto, mesmo olhando de baixo para cima a situação de Dilma não é nada fácil. Por exemplo, se comenta que, na próxima semana, será divulgado pela Fundação Perseu Abramo, a sede acadêmica do pensamento do PT, um documento que, além de mexer nos calos de Levy, critica o ajuste e propõe coisas de arrepiar os cabelos, como a recompra de títulos com expansão da base monetária, para, hipoteticamente, derrubar os juros; redução do compulsório bancário com o crédito direcionado para a expansão do consumo e CPMF de 0,38% e, como cobertura do bolo, aceitar uma inflação anual de até 15%. Ou seja, o PT ainda não se convenceu que não há almoço grátis e não quer aceitar a visita da realidade. E esta bela cantilena será feita, justamente, quando a divulgação de nova pesquisa do Ibope sobre a popularidade de Dilma Rousseff sai do forno. Se no último levantamento, de julho, apenas 9% consideraram o governo “bom” ou “ótimo”. Imagine agora? Também o Congresso votará os seis vetos presidenciais restantes. Tudo indica que aí não teremos surpresas, mas, na segunda quinzena de outubro, está prevista a votação do relatório do TCU sobre as contas do governo Dilma de 2014. Nos dias 20 e 21 de outubro, nova reunião do Copom que pode, ou não, retomar o ciclo de alta dos juros. E, no fim do mês, a reunião do FED, o banco central norte-americano marcada para os dias 27 e 28 de outubro. São eventos, que, sem considerar os não previstos, podem fermentar a situação elevar o dólar a R$ 5,00 ou até mesmo a R$ 6,00. O certo é que os prazos estão se estreitando. O senador Raupp deve estar certo. As coisas irão se acalmar, porém, penso que teremos ainda, pelo menos, uns trinta dias para o desfecho e as emoções parecem destinadas a variar como o dólar tem variado nos últimos tempos. 

quinta-feira, setembro 10, 2015

Manifesto contra a morte da antropofagia


O Brasil, no passado, sempre produziu ideias interessantes. Mesmo nos seus primórdios havia o pensamento de um Antônio Vieira, de um Gregório de Matos, um Joaquim Nabuco, houve um Machado de Assis, um Santiago Dantas, os Mários e Oswalds, um Nelson Rodrigues, um Dorival Caymmi, um Jobim, um Gilberto Freyre, e, mais recente, um Vinícius, um originalíssimo canibal como foi Millôr Fernandes, enfim, pessoas que se apropriavam de ideias alheias para reelaborá-las. Vá lá é aceitável até incluir nisto a loucura de Glauber Rocha ou o tropicalismo já mumificado de Caetano Veloso. Havia neles a mesma e saborosa ideia indígena de comer a carne do inimigo para adquirir suas qualidades, habilidades, ou seja, o Brasil já teve, até algumas décadas, ideias próprias ainda que enraizadas numa matriz universal. Nós, como previa Darcy Ribeiro, prometíamos ser a nova Roma derivada da miscigenação das raças.
Não somos. Estamos no limbo da falta de reflexão. Num ponto onde se trocou o esforço pelo chavão, a realidade pelo marketing, a imagem de se ser uma coisa que não se é pela vitória da política dos improdutivos, o sindicalismo de resultados gerou a falsa ascensão social, pelo aumento do consumo, se vendendo a ideia de que é possível se chegar ao primeiro mundo sem educação, sem reflexão, por meio de pessoas que não valorizam nem buscam o saber, pela pregação do ódio aos melhores, pela adoção de ideias alheias sem nenhum senso crítico e até mesmo pela segregação da elite do pensamento, como se fosse possível construir um país sem ideias. Nunca o professor foi tão desprestigiado e ignorado como agora. A maioria das grandes universidades públicas estão em greve, os institutos técnicos também, nem o governo liga nem a imprensa tem a menor consideração. Ideias não fazem falta. Vale muito mais a fala vazia de um ministro ou o esvaziamento de um pixuleco  por um grupo de militantes pagos.
O Brasil está de costas para o futuro. Como se pode construir uma nação sem um projeto? Como se pode aceitar como normal ser dirigido por alguém que não consegue ler dezoito linhas ou não consegue alinhar três minutos de uma fala coerente? O Brasil que seria o país do futuro se encontra, como sempre, na fila do atraso. Aceitando, como uma avestruz enfiada na terra, que podemos continuar a ignorar as melhores práticas de outros lugares, que podemos crescer, desenvolver sem educação e sem conhecimento. Vivemos, infelizmente, uma época obscura de hegemonia dos que nunca trabalharam, dos que nunca pensaram, dos que pregam que é possível construir uma sociedade mais justa fazendo caridade com o chapéu alheio; que é possível se construir uma nação privilegiando os que não trabalham e aumentando os impostos de quem produz. Por isto estamos num desses momentos da história em que o país não produz nada de interessante. O país precisa de uma grande revolução cultural. O Brasil precisa resgatar a antropofagia, que sempre foi sua fonte de uma renovação total.
A grande realidade é que esta coisa da estatização, da venda desmedida da ideologia dos coitadinhos, gerou uma cultura da banalização, da mediocridade, de pessoas que se expressam pelo Facebook, ou Whatsapps, por gostar mesmo é da espetacularização, porém, é incapaz de escrever seriamente, de pensar com profundidade. Não há mais ideias novas, não há vanguarda, embora o mundo tenha mudado completamente. Qual a razão? Pessoas sem cultura, sem educação, são incapazes de refletir sobre o mundo. Elas dissertam sobre tudo, mas, não criam formas novas. Cadê o pensamento sobre como mudar o Brasil? Como mudar a escola? Só sabem repetir Paulo Freire ou Marx, Maiakovsky, Foucault ou até mesmo Lacan, mas, onde algo original? Não é com cotas, com novos impostos, com aumento de juros que faremos uma nação melhor. É com a educação das pessoas, com a criação de regras estáveis, com segurança e crença no que os governantes falam. Com menos governo e mais mercado, mais competitividade e ideias. O Brasil precisa fazer sua revolução cultural. Precisa revigorar o pensamento antropofágico.


Ilustração: Tela de Theodor de Bry

quarta-feira, setembro 09, 2015

Aumento de impostos é aumento da agonia


São inúmeros os exemplos, mas, não há um mais evidente do que a promessa feita, num encontro com empresários em Campinas, há um ano, em que a presidente Dilma Rousseff (PT), então candidata à reeleição, prometeu que não mexeria nos direitos trabalhistas afirmando, taxativamente, com  uma frase de efeito: “Nem que a vaca tussa”. Nem precisou terminar o ano, porém, anunciou um pacote de ajustes nas regras para acesso a abono salarial, seguro-desemprego, seguro-desemprego do pescador artesanal, pensão por morte e auxílio-doença. Esta foi apenas uma, das muitas práticas da presidente, depois da  reeleição que destoam do que foi prometido na campanha. Há, porém, muito mais, todo um “pacote de maldades” da presidente, que incluem o veto ao reajuste de 6,5% na tabela do Imposto de Renda. Se a lei tivesse sido aprovada, pessoas que ganham até R$ 1.903,98 não precisariam prestar contas ao Leão. Atualmente, o teto de isenção é de R$ 1.787,77. Se mais fosse preciso, para mostrar que não entregou o que prometeu, basta lembrar que, num encontro com taxistas em São Paulo, a presidente prometeu que não haveria “tarifaço”. Ninguém de sã consciência tem como defendê-la, quando adotou medidas como a da elevação de R$ 0,22 na gasolina, R$ 0,15 no álcool. O Imposto Sobre Operações Financeiras (IOF), incidente sobre o crédito para a pessoa física, dobrou: passou de 1,5% ao ano para 3%. Importar ficou mais caro. Por meio da elevação de 9,25% para 11,75% do PIS/Cofins sobre os produtos oriundos dos outros países. Por fim, o Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) na cadeia produtiva de cosméticos foi padronizado, equiparando a incidência do imposto no atacadista a na indústria. As bebidas também foram afetadas.  E, agora, ainda falam em aumentar o imposto de renda para 35%.

Agora, também a imprensa dá conta que a presidente nem sequer conversou com Michel Temer, o vice, durante o desfile de 7 de setembro. Estiveram juntos fisicamente, mas, tão distantes quanto o sol da lua. Afirmam que teria sido por causa de Temer ter dito que Dilma não se sustenta até o fim do seu mandato com 7% de aprovação. Não é a questão dos números. É, principalmente, que, como o próprio vice-presidente afirmou, é preciso se ter uma forma de criar um entendimento nacional e este, por mais que se negue, precisa do mínimo de credibilidade, de se ser confiável. A maior prova de que Dilma perdeu esta capacidade é o fato de que até mesmo quem lhe apoia, como o empresário Abílio Diniz, recomenda que outros personagens, inclusive hoje, de pijamas, como FHC e Lula se reúnam com Temer para achar uma solução. Solução haverá, por bem ou por mal, mas, enquanto não se tiver confiabilidade será impossível sair do atoleiro econômico em que estamos. E aumentar impostos e juros é só aumenta a agonia. O governo precisa fazer o seu dever de casa e não apenas repassar as contas para a sociedade. 

sábado, agosto 22, 2015

É preciso uma política de longo prazo para o Agronegócio do Leite e Derivados


Nesta semana o Sebrae de Rondônia concluiu o “Diagnóstico do Agronegócio do Leite e Derivados do Estado de Rondônia”, resultado de um convênio com  a Secretária de Agricultura do Estado de Rondônia, SEAGRI-RO, que atualiza um trabalho anterior de 2002, com uma nova versão onde traz informações de relevância sobre o rebanho bovino, a produção, consumo, beneficiamento e a importância social do leite para os produtores de Rondônia. Na entrega do documento, que aconteceu no auditório do Sebrae, o professor e técnico da Embrapa, Lorildo Aldo Stock, fez uma excelente palestra onde destacou a necessidade de se cuidar da cadeia, de se ter boas informações e se criar uma política sólida de longo prazo. Destacando que, em Rondônia, como no Brasil, a pecuária leiteira ainda seja uma atividade de sobrevivência sua sustentabilidade depende de um tamanho mínimo da propriedade, do número de vacas e de um ambiente favorável onde exista uma intervenção estratégica para viabilizar o setor.
Contextualizando a produção do estado no Brasil e no mundo, o professor Stock ressaltou que, hoje, em dia qualquer que seja a atividade agropecuária, e a do leite em especial que se caracteriza por oscilações, em média, de dois anos ruins para um ano bom, não se pode perder de vista o panorama internacional, com seus parâmetros, tamanho e produtividade, que influenciam na formação dos preços. Neste sentido, por exemplo, mostrou que, apesar dos produtores reclamarem da importação, esta se dá apenas de forma complementar, mas, que os problemas que temos derivam de que nossos custos estão acima dos custos internacionais, daí, a nossa incapacidade de exportar. Também a exploração da pecuária leiteira no Brasil é desenvolvida de diversas formas, muitas vezes de maneira rústica e em pequenas propriedades, mas, são os empreendimentos maiores que são mais rentáveis e responsáveis pela maior parte da produção, ou seja, os estabelecimentos que possuem acima de cem vacas. Em Rondônia, as propriedades acima de 70 vacas são as que apresentam mais rentabilidade e a produtividade média está em torno de 10 litros/dia por vaca. Segundo informou isto não chega a ser um problema, na medida em que o modo como se criam as vacas no estado não permitiria vacas de alta rentabilidade leiteira que são mais sensíveis ao clima e ao tratamento, mas, o problema é que, para dar rentabilidade ao setor se faz necessário que se aumente o número de vacas, acima das 70, para valer à pena o recolhimento do leite.  Outro problema sério é o da questão da qualidade e do aproveitamento. Segundo o estudo constata existe mesmo uma capacidade ociosa na indústria láctea estadual. Assim a questão de fortalecer a cadeia, de aumentar a produção, a produtividade e agregar valor ao leite se torna crucial para que o setor se consolide.
O agronegócio do leite e seus derivados, mesmo com todos os problemas existentes, pesa muito na economia do Estado por ocupar cerca de 100 mil pessoas nas propriedades rurais, que se constatou ter cerca de 38.000 estabelecimentos, afora um contingente acima de 5 mil pessoas que trabalham no setor industrial. Assim é preciso que haja uma conscientização da necessidade de um trabalho conjunto e organizado que crie uma agenda para o agronegócio do leite no longo prazo e se tome as medidas necessárias para organizar e beneficiar a produção. Com o diagnóstico, com informações atuais, se tem, agora, uma grande oportunidade de arregimentar os interessados e fortalecer a cadeia do leite e de seus derivados.


sexta-feira, julho 31, 2015

Para quem gosta de um bom vinho


Viver em Porto Velho, como em todo lugar, tem seus prazeres e seus problemas. Porto Velho, por sua temperatura elevada e também  uma umidade relativa do ar alta, não é, claramente, o melhor  lugar do mundo para beber vinho. Mas, como tudo muda, inclusive o tempo, também tem seus dias bons para degustar a bebida dos deuses. De qualquer forma, com o calor sendo quase sempre permanente, a cerveja, geladissíma como se bebe por aqui, sempre foi a alternativa mais prática e que melhor apraz aos amantes de uma boa bebida. Apesar de ter consciência desta realidade para pessoas, igual a mim, que sempre mantém uma relação de paixão e deleite em relação ao vinho, abdicar dele jamais foi uma alternativa. Assim, contra a lógica, mantive, durante anos, uma paixão obssessiva pelo vinho que é, até mesmo, uma obsessão infantil, de fato.
Imagine que, numa época passada, dezenas de anos atrás, quando a cidade não possuía boas casas especializadas até mesmo, como estudava o assunto, pensei em tornar o interesse um negócio. Claro que não sou um especialista. Estou mesmo mais para curioso, mas, por minha afinidade com a América do Sul, meu pendor cucaracho, até tentei trazer vinhos chilenos, em especial, argentinos, uruguaios e peruanos escolhidos pelo crítério de qualidade mais preços acessíveis. Um negócio que acabou da melhor forma possível: bebi uma boa parte do estoque. Minhas esperanças de fazer, o que projetei, se perderam nas incertezas da economia brasileira. Na época o aumento da tarifa de importação e o pagamento adiantado do ICMS tornaram meu negócio uma furada. Boa parte do capital se transformou em um líquido prazer consumido em almoços e jantares prazeirosos. De certa forma nada se perde...
A questão que me leva a escrever sobre vinho, agora, é a feliz oportunidade que tive de ir à Londrina em dias que, para mim, são frios. E, com uma temperatura mais baixa, não há opção melhor do que um bom vinho. Uma coisa leva à outra. Como um eterno curioso, um metido a saber do que não sabe, não podia deixar de, aproveitando o tempo, pesquisar mais sobre os vinhos, os sabores, quais estão sendo mais apreciados e, até mesmo, por ossos do ofício, quais os que apresentam melhor custo/benefício. É preciso acrescentar que isto foi feito sob a perspectiva das limitações orçamentárias de um professor. Logo, não esperem que seja o top de linha, mas, o top dentro da linha econômica. Também constatei que, hoje, com a maior variedade e facilidade de importação, conhecer vinhos se tornou um tarefa hercúlea. As boas possibilidades são inúmeras e, mesmo no Brasil, se desenvolveram vinhos que, inclusive pelo preço, são excepcionalmente bons. Dá trabalho também encontrar o que se deseja, porém, é um trabalho prazeiroso.
Fiz toda esta lenga-lenga para dar umas dicas para vocês sobre o que experimentei, ultimamente, e que, com uns bons queijos, umas castanhas e amendoas, é uma boa forma de viver bem. Assim recomendo que se puderem ( e tiver em alguma loja próxima) não dispensem um San Juan Malbec 2013, da Antigua Bodega, um tinto que custa em torno de R$ 39,00. Um Alamos Syrah 2008, da Bodegas Esmeralda também cai bem e é mais barato, por volta de R$ 30,00. Para variar do Chile tem o Surazo Carménere 2006, da Viña Santa Monica, na faixa dos R$ 40,00.  Um uruguaio gostoso demais é o ElegidoTannat, Merlot, 2014, de  Las Piedras / Canelones na faixa dos R$28 a 32,00. Brasileiros? Bem, os brasileiros, com os custos atuais e a inflação, estão caros, mas, o Tannat, mais por causa do tipo de uva, da Marcus James, foi a minha opção. Claro que mais por uma questão de preço. Porém, os brasileiros que fazem sucesso este ano são mesmo os espumantes. Com destaque para o Aurora Espumante Moscatel e o Garibaldi Espumante Moscatel. Também valem a pena o Garibaldi Espumantes Bruit Prosecco e o Marcus James Brut. Ainda brasileiros também o Aurora Reserva Merlot 2011, o Marcus James Brut ou o Salton Reserva Ouro, de um preço um pouco mais caro (R$ 42,00), mas, vale o que se bebe. Claro que tem muita coisa que não sei ou que perdi, mas, posso assegurar que estes que cito já me deram o prazer de uma  boa degustação.


Ilustração: www.sobrevinho.net

terça-feira, julho 21, 2015

As surpresas da sempre surpreendente vida


Havia entre os cientistas que executavam a missão de reconhecimento de Plutão a expectativa de que que o planeta acabaria sendo, como a Lua ou Mercúrio, um planeta cheio de crateras em que nada acontece. Mas, como revelado pela sonda New Horizons da Nasa (agência espacial norte-americana) que sobrevoou Plutão em 14 de julho, pela primeira vez,  via imagens em alta resolução do planeta, a geografia revelada é de um dinamismo e de uma variedade que modificou tudo que se pensava sobre este corpo celeste desde seu descobrimento, há 85 anos.  A paisagem de montanhas geladas, sem crateras e com evidências de processos geológicos encontrada no planeta anão, nos confins do Sistema Solar, deixou toda a comunidade científica perplexa e com a sensação de que as novas informações, que serão obtidas, podem também trazer respostas sobre como se formam os planetas e as origens de alguns elementos fundamentais da vida.
A topografia acidentada de Plutão, sem dúvida, surpreendeu os pesquisadores. Em especial porque as imagens mostram montanhas nos extremos da região que tem uma forma de coração,  batizada  como Região de Tombaugh, em homenagem ao descobridor de Plutão, Clyde Tombaugh, com uma altura calculada de cerca de 3.300 metros,  altitude superior à dos Alpes na Europa ou a das Montanhas Rochosas no oeste dos Estados Unidos. E  alguns pesquisadores trabalham com a hipótese de que podem exsitir ainda montanhas mais altas em outras partes. No entanto, o mais sensacional é que a capa relativamente fina de metano, monóxido de carbono e nitrogênio congelado que cobre a superfície do planeta anão é forte o suficiente para formar montanhas. Isto sugere que se formaram com a água congelada do subsolo, já que o gelo se comporta como rocha sob as temperaturas gélidas de Plutão.  Acrescente-se que as observações feitas do planeta, a  partir da Terra, não haviam detectado sinais de água gelada. Ainda pairam interrogações sobre as descobertas que somente poderão ser corroboradas pelas medições feitas por sete equipamentos a bordo da New Horizons, cujos resultados irão chegar ao centro de controle de Maryland (EUA) nos próximos 16 meses. Mas, não paira dúvidas de que, segundo o chefe da missão, Alan Stern, “Podemos estar certos de que existe água em abundância".

Uma outra grande surpresa é a constatação de que não existem crateras em Plutão. As crateras permitem aos astrônomos determinar a idade de uma superfície, de vez que se é muito antiga terá marcas deixadas por impactos de colisões; se for mais nova será mais lisa, porquê a formação recente apaga as impressões anteriores.As imagensmostram um terreno que parece ter passado por processos vulcânicos ocorridos nos últimos 100 milhões de anos, o que implica numa idade extremamente jovem para a superfície, se considerarmos que o Sistema Solar tem 4,5 bilhões de anos. O tamanho de Plutão também pode ter alguns quilômetros a mais de diâmetro, agora, estimado em 2.370 km, o que equivale a dois terços do tamanho de nossa Lua. A falta de precisão na medição de Plutão desde a Terra ocorre porque, em primeiro lugar, o corpo celeste está muito longe daqui (4,8 bilhões de km). E também porque sua atmosfera cria reflexos capazes de confundir o telescópio terrestre mais avançado. Mas, apenas com os relativamente poucos dados que se recolheu, até agora, já nos presenteou com surpresas maravilhosas, inclusive mudando a concepção que se tinha de Caronte, sua maior lua, que possui penhascos tão profundos como os do Grand Canyon, no oeste dos Estados Unidos e pode ter uma cadeia de desfiladeiros de 800 km. Enfim, nem mesmo Plutão é mais o mesmo. 

domingo, junho 28, 2015

Governo trata inundação como vazamento


Segundo apurou o jornal Folha de S. Paulo, Lula teria estimulado o Tribunal de Contas da União-TCU, para questionar as contas de Dilma Rousseff. Isto mesmo. Segundo publicado pelo jornal “Lula disse ao ministro José Múcio Monteiro, de quem é próximo, achar razoável que o órgão pedisse explicações sobre as pedaladas fiscais”. Parece até coisa de maluco, mas, faz sentido quando se verifica que o ex-presidente, segundo também a imprensa, não tem  tido boas noites de sono com a possibilidade de ser preso em futuro próximo. Possibilidade que se agravou  muito com a homologação da delação premiada do empreiteiro Ricardo Pessoa, da UTC, pelo procurador-geral da República, Janot, “que deve abrir nos próximos dias mais procedimentos" onde, segundo consta, se inclui Lula e Edinho Silva numa primeira fase e, em seguida, Dilma Rousseff. Atente-se ainda que, além da possibilidade aberta de uma futura delação de Marcelo Odebrecht, Lula tem ainda um grande problema em relação a João Vaccari Neto, o dos “pixulecos”, que mandou recados afirmando, segundo o colunista Lauro Jardim, que “Preso, sente-se abandonado pelos velhos companheiros”. Numa situação deste tipo é razoável supor que Lula, buscando evitar a cadeia, manobre para que a queda de Dilma, por fraudes contábeis, esfrie o inquérito sobre o Petrolão. Como não tem mais nada a ganhar com a presidente, é lógico, que sua saída do palco alivie a pressão sobre ele. 
Atente-se ainda que a recente ofensiva do PT, incluindo a entrevista do ministro Edinho Silva, da Secom, ao dizer que o empresário “falou mentiras” é uma tentativa de desvincular os recursos da campanha de Dilma do Petrolão, mas, trata-se de um esforço inútil. O máximo que podem comprovar, o que não evita o impeachment, é que o dinheiro sujo de Ricardo Pessoa entrou legalmente na campanha. Ou seja, foi registrado, mas, isto, na verdade, é uma operação de “branqueamento” de recursos ilícitos. Ora, o grande problema deste tipo de defesa é que há imagens gravadas de Vaccari Neto recebendo propina e que o tesoureiro do PT repassou 31,6 milhões de reais para o tesoureiro da campanha de Dilma Rousseff, Edinho Silva. E, para piorar o quadro, Ricardo Pessoa será ouvido pelo Ministério Público Eleitoral na ação que investiga a reeleição de Dilma Rousseff.  Segundo o Estadão o depoimento do empreiteiro foi marcado para 14 julho.

Evidentemente, da forma como os “vazamentos” vão se acumulando, haverá um momento em que as barreiras, como os muros de Jericó, desabarão, mas, se trata de um processo que ainda leva tempo, com o agravante de que a economia do país continuará a refletir as incertezas e os problemas da política. Bem que o governo tenta criar, como já fez no passado, uma agenda positiva para retomar o controle da imprensa e vender sua versão. Porém, é muito difícil de conseguir navegar contra uma corrente que fica cada vez mais forte. Ninguém pode prever o que virá, todavia, os sinais evidentes são de que, por muito tempo, ainda a pressão contra o governo continuará a se avolumar e, com seus principais protagonistas chamuscados pelo fogo das denúncias, seu futuro parece cada vez mais incerto. E, com tanta água em jogo, o perigo é um tsunami. 

Ilustração: g1.globo.com

segunda-feira, junho 15, 2015

Só pra chatear


Bem, ultimamente, tenho até me recolhido à minha insignificância por vários motivos, mas, o principal é que, sendo uma pessoa democrática e pouco afeita aos debates, em especial os irracionais, não convivo bem com o bom mocismo e a pregação socialista massificada que tem sido feita no país seja por meio de uma suposta defesa dos “mais pobres”, seja por desculpas ambientais ou pela praga do politicamente correto, mas, que, a meu ver, desaguam numa posição fascista na medida em que sempre se procura estigmatizar quem não concorda. E olha que não gosto muito do PSDB, até já votei, como já votei no PT, mas, minhas posições não foram, até onde avisto, próximas dos tucanos, nem me agrada o comportamento dos ditos “coxinhas”, embora, seja uma injustiça com uma comida saborosa, principalmente, se bem feita. Mas, na verdade, o último exemplo de tipo de discussão deplorável que assisto estarrecido, é esta idiotice da menoridade penal que é discutida como se fosse conversa de bêbados em bar, sem a menor consciência ou serenidade, como se fosse uma disputa de torcidas uniformizadas onde o que vale é xingar ou até mesmo bater no outro. E me pergunto, na minha reconhecida falta de capacidade, quantos estão, de fato, habilitados para discutir a questão? Não sei nem pretendo responder. Sei que, hoje, se lê muito pouco e se entende de tudo tanto que, apesar do que já li, me confesso cada vez mais impotente para discutir com as sumidades que pululam nos faces da vida.

Penso que todo mundo que tem um pouco de senso já se indignou com as injustiças da vida. Confesso que já fui um seguidor, um leitor voraz, um marxista convicto. Talvez, tenha lido muito mais Marx do que, para ser modesto, 90% dos que o citam. Mas, até o próprio Marx não se considerava marxista ainda vivo. Depois da queda do Muro de Berlim a defesa de uma sociedade estatal, de uma sociedade coletiva é uma tarefa ingrata e contra os princípios básicos da vida, mas, aparece uma imensa horda urrando bordões ultrapassados ainda crentes que estão salvando o  mundo e,  em geral, guiados por pessoas que somente pensam no poder. Querem “justiça social”, porém, não possuem a menor ideia do que seja “justo”. O maior exemplo é que execram o liberalismo que, queiram ou não, continua a oferecer a menos ruim definição de justiça social que é a de que “cada um deve viver do seu trabalho” e não, como desejam os “justos sociais” que um percentagem de seu trabalho seja apropriado por outro. É justo você pegar uma percentagem daquilo que produzi com meu trabalho? Aqui, vale o pensamento do economista Walter Williams, negro e norte-americano, que sempre foi contra esta teoria torta de ajudar o “pobrezinho”. Escreve ele com precisão: “Se eu vir uma pessoa com fome e então decidir abordar violentamente uma terceira pessoa com o intuito de, por meio de ameaças, intimidação e coerção, tomar o dinheiro dela para repassar ao faminto, o que você pensaria de mim? Creio e espero que a maioria de nós veria tal ato como roubo. Será que tal conclusão muda se nós coletivamente concordarmos em tomar o dinheiro de uma pessoa para alimentar o necessitado? O ato ainda assim seria roubo.  Atos imorais como roubo, estupro e assassinato não se tornam morais quando feitos coletivamente por meio de uma decisão majoritária”. Este é um raciocínio válido e que mostra que a democracia, como todas as coisas, se utilizadas sem o devido peso, sem a razão, não passa de um golpe contra a liberdade. É o que temos assistido no Brasil onde até mesmo a impunidade e  ser uma pessoa acima das leis, está sendo arguida como merecida para alguns que, supostamente, defenderam os pobres, quando só cuidavam de seus próprios interesses. A democracia deve sim ser a vitória da maioria, mas, não pode jamais ser usada, como muitos usam, para aplastar os princípios éticos e o direito das minorias. É preciso lembrar que é justo rebelar-se e que nenhum governo, em nome de qualquer direito, pode se impor usando a democracia para cercear a liberdade. 

segunda-feira, maio 18, 2015

O presente chinês será grego?


As manchetes já festejaram e o governo brasileiro vê quase como uma tábua de salvação a vinda do primeiro-ministro da China, Li Keqiang, com mais de 200 empresários e um pacote de investimentos destinados ao Brasil estimados em 53 bilhões de dólares, que tornaria realidade alguns grandes projetos brasileiros necessitados de capital, como é o caso da Ferrovia Transoceânica, um megaprojeto de ligação ferroviária entre o Rio de Janeiro e os portos do Peru, investimentos em energia, como a linha de transmissão da usina de Belo Monte e projetos industriais, com ênfase no setor automobilístico e de máquinas e equipamentos. Bem, a própria denominação “negócios da China” já traz em si, a ideia de lucros extraordinários. A questão, quando se trata com os chineses, é de perguntar: extraordinários para quem?
Uma das características intrínsecas ao modo de atuar dos chineses, na atualidade, é a de que eles têm sido extremamente competentes na estratégia de oferecer grandes projetos de infraestrutura para outros países que, efetivamente, criam grandes oportunidades para seus investimentos, criam mercados para sua mão-de-obra e exportações, abrem maiores concessões em relação aos seus interesses e passam a exercer maior influência sobre os países que aceitam suas propostas. Não se precisa ir longe para buscar exemplos, pois, aqui do lado, temos o caso argentino que, em troca de financiamento, permitiu que a indústria chinesa inundasse o mercado argentino com centenas de trens de passageiros, vagões de carga e locomotivas, além de outros tipos de materiais, enterrando o pouco que restava da indústria local e, como dano colateral, atingindo também a indústria brasileira que seria um potencial fornecedor de componentes e equipamentos para o setor ferroviário argentino.

Assim, por mais que seja evidente a nossa necessidade de atração de investimentos e de melhoria da logística, a pergunta que não pode deixar de ser feita é: a qual custo? Se, como tudo indica e os chineses são hábeis em pedir, for com a flexibilização das regras de conteúdo nacional para a aquisição de equipamentos, será que vale a pena? Se ampliado o espaço para a participação de investidores estrangeiros nas novas concessões para projetos de infraestrutura, como os brasileiros terão condições de competir contra um investidor chinês em posição privilegiada, sendo, como é,  competitivo na tecnologia, nos equipamentos e com a prerrogativa de contar com o financiamento? É preciso lembrar que, por lá, eles exigem participação dos chineses em qualquer tipo de investimento. Será que, por aqui, haverá, para os brasileiros, alguma contrapartida positiva a estes investimentos chineses? Ou, vamos perder a oportunidade de ter competitividade logística na esteira da construção de uma infraestrutura melhor? Ou, em nome do imediatismo, jogar a pá de cal na já maltratada indústria brasileira? A resposta será dada pelo governo se aceitar, ou não, a “flexibilização das regras de conteúdo nacional” e uma maior “abertura de mercado para exportações chinesas”. É preciso acentuar, parodiando o passado, que nem tudo que é bom para a China é bom para o Brasil.  

Ilustração: img.photobuckey.com 

quarta-feira, maio 13, 2015

A crise é, acima de tudo, política


Quem mora em Rondônia sente os sinais da crise seja no seu comércio, seja na maior dificuldade de arranjar trabalho ou até mesmo na venda de serviços, ainda que temporários. Principalmente os micros e pequenos são os que mais se queixam com a sensível queda da demanda de bens e serviços. A questão não é apenas rondoniense. É um problema nacional. E não se pode nem dizer que não tenha sido anunciada, denunciada e que faltassem avisos. A questão foi que, em especial, no ano passado, com o período eleitoral, o governo se negava a ver os sinais da crise e tomar as providências necessárias e amargas que, agora, vem pretendendo tomar.
Economistas, e estudiosos de desenvolvimento, porém, sabiam, e sabem, que desenvolvimento não é um problema quantitativo, nem de aumento da demanda. Porém, o governo sempre se negou a reconhecer, mesmo quando os adota,  os indiscutíveis méritos do passado, em especial de Itamar Franco e FHC, que controlaram a inflação e permitiram que o país tivesse segurança econômica e previsibilidade. Lula, não teria tido as condições que teve para governar, razoavelmente bem, se não fosse o fato da inflação ter sido controlada, o déficit público administrado e tivessem lhe dado um país com condições de crescer. Mérito seu foi o de manter a política econômica herdada introduzindo mudanças microeconômicas e estimulando a demanda via crédito. O que fez com que houvesse uma grande sensação de melhoria, para a população brasileira, no seu governo foi o crescimento do crédito que, historicamente, sempre foi de 24% e subiu para 48% no final. O crédito, e ainda mais de longo prazo, a melhoria introduzida pela ampliação da bolsa família aliado a aumentos salariais acima da inflação, por algum tempo, criaram a sensação errada de ser possível desenvolvimento sem aumento de empreendedorismo, dos investimentos e da educação. Criou-se a jaboticada brasileira de crescimento via demanda, o que nenhum economista que se preze consegue conceber como nem sequer razoável. Acrescente-se a isto, os erros de política econômica, que não foram poucos, e a crise seria inevitável, de vez que é a cobrança da demanda excessiva, sem base no incremento da produção, uma hora teria que acontecer.

A grande verdade é que a crise tem sua raiz na ideologia de que é possível criar crescimento via o estado e que o estado tudo pode. Esta ideia errada, que levou o governo a manter políticas irreais dos preços da energia e dos combustíveis, além da intervenção desastrada das desonerações, para manter uma situação insustentável, agravaram os problemas das contas públicas e desembocaram nos aumentos da inflação e do dólar. Não há, agora, como esconder que tivemos, nos últimos tempos, uma sensível queda dos investimentos e do Produto Interno Bruto-PIB, por erros de condução da política econômica, nem existem formulas mágicas para sair da crise. O governo, no entanto, continua a não fazer o seu dever de casa quando não diminui a máquina administrativa, não melhora os gastos públicos e é incapaz de conseguir a confiança pública para criar um programa capaz de retomar o desenvolvimento. Por tal razão estamos num momento difícil onde a insatisfação é geral por se cobrar uma conta que, para a grande maioria da população, é indevida e contraria suas expectativas de uma vida melhor. Infelizmente, a crise está aí, e ainda teremos que conviver muito tempo com ela, se não houver um consenso sobre os rumos que o país deve tomar. Sob o ponto de vista econômico há até um consenso sobre as medidas que devem ser tomadas, porém, a economia é, acima de tudo, política e não se avança quando não se tem quem aponte os caminhos e tenha credibilidade para negociar os impasses. Os ajustes propostos pelo ministro Levy tem seus méritos, mas, não bastam para mudar o quadro de estagnação econômica em que estamos e, pelo jeito, sem mudanças políticas, ainda teremos dificuldade para sair do ponto morto por muito tempo. A crise, embora econômica, revela o que as ruas têm denunciado: falta representatividade e capacidade política para atender as demandas públicas que a população exige. Em suma: a crise, apesar de econômica, é, acima de tudo, profundamente política. 

Ilustração: www.jj.com.br

terça-feira, maio 05, 2015

Nem tudo é tão relativo


Não deixa de ser folclórico que, muitas das pessoas que se dizem de esquerda, fiquem babando e rejubilando-se pelo fato de terem divulgado que Vaccari, o tesoureiro petista, possui um patrimônio pequeno, como se isto fosse uma prova de honestidade. Convenhamos que, como em outros casos, é muito provável que os bens e valores adquiridos estejam em nome de outras pessoas ou até mesmo em contas no exterior. Afinal, devemos lembrar que, não é por acaso que a justiça o acusa: inúmeros os delatores que citam sua participação e/ou recebimento de parte das propinas da Petrobras.
Aliás, não é de meu feitio, nem me cabe ficar discutindo culpas. Continuo a dizer que, para mim, a culpa real é a de quem comanda seja a família, a casa, a empresa ou o país. E, neste sentido, é preciso lembrar que o principal acusado de tudo se diz um homem honesto, acima de todas as suspeitas, pelo menos, 90% melhor que todos os jornalistas das principais revistas do país “enfiados uns nos outros”. É claro que tal inocência somente pode ser entendida à luz da ideologia. Como se sabe, no passado, homens como Lenin, Stalin ou Trotsky, utilizaram a versão de que ao revolucionário, ou seja, para quem se diz de esquerda, a mentira, a distorção e até mesmo o assassinato possuem uma conotação diferente, qual seja a de que, como é feito em nome do futuro, do socialismo que, naturalmente, viria, tudo seria válido. Assim, por uma dicotomia bastante conveniente, para uma nova elite, há uma ética para os que atuam em nome do povo e a ética dos burgueses. Assim, quem rouba para o partido e para o suposto futuro, é inocente, por ajudar o curso da história e por construir a utopia socialista. De forma que se, qualquer um de direita, roubar por qualquer motivo será um ladrão mesmo, mas, quem rouba em favor da gloriosa revolução se preso, será, sem dúvida, um preso político. Ou seja, na cabeça de muitos os ideologizados valores como honestidade, respeito aos direitos do próximo, à vida, à liberdade etc., somente se justificariam em função dos propósitos revolucionários. De forma que tudo é relativo e a ética e a política se transformaram em valores instrumentais.
Seria de se esperar que tal relativismo ficasse no passado com a queda do Muro de Berlim e o fim melancólico do socialismo real que deixou suas viúvas inconsoláveis. Mas, não, apesar da evidência histórica, muitos persistem em viver a velha dicotomia entre esquerda e direita e, sob o pretexto de serem os defensores dos pobres, avançam sobre a riqueza de todos brandindo o velho pragmatismo revolucionário. E, mesmo quando se transformaram na elite, e usam (e abusam) do poder durante mais de uma década, se sentem e pregam serem os mais inocentes dos homens por tomar o que não é seu, desde que seja em favor do partido e da revolução, mas, sem abrir mão dos privilégios e das benesses (e muitas vezes alargando-os) que tanto criticavam na velha elite, a quem costumam atribuir tudo que é de ruim inclusive seus próprios erros. É fruto desta distorção mental e do desdobramento de uma lógica infeliz que qualquer um que não concorda com suas teses é perseguido e vira inimigo. Os monopolistas da verdade, e do bem comum, usam o poder que tomaram, graças às liberdades democráticas, para solapá-las e não medem os meios para facilitar a instauração de uma “ditadura do proletariado”, inclusive usando recursos públicos e tentando manietar a imprensa por meio de dinheiro ou até mesmo de supressão das vozes discordantes. O problema é que, num país complexo como o Brasil, é preciso, pelo menos, ter uma gestão eficiente da economia e, neste sentido, o velho hábito socialista de viver somente do trabalho alheio parece que se esgotou. Não é a política quem está enterrando as velhas ideias, mas, sim a economia. O governo vive da iniciativa privada e não pode, como tem sido feito sistematicamente, apenas sugar das classes produtivas sem afetar, drasticamente, os níveis de bem-estar e de crescimento econômico. O fim do ciclo do PT não será alcançado via política e sim pela economia. Pelo fato inconteste de que não há almoço grátis.


Ilustração: coisasamenosbr.blogspot.com