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domingo, janeiro 11, 2026

O “samba do crioulo doido” de 2026: crise no país e fé no próprio taco


08/01/26

O Brasil ingressa em 2026 vivendo uma contradição que desafia os manuais da economia tradicional, mas traduz com precisão a psicologia social do país. De um lado, os dados da pesquisa Hibou revelam um país operando em “modo de sobrevivência”: 39% dos brasileiros iniciam o ano endividados, e quase um terço desse contingente carrega dívidas expressivas, superiores a R$ 15 mil. De outro, a pesquisa Ipsos aponta que impressionantes 80% da população acreditam que 2026 será um ano melhor.

À primeira vista, os números parecem inconciliáveis. Estaríamos diante de um otimismo ingênuo ou de uma resposta emocional a um ambiente econômico e político cada vez mais adverso? A leitura do cenário macroeconômico não autoriza complacência. A inflação segue pressionando o custo de vida, as taxas de juros permanecem elevadas e o crédito se tornou um privilégio caro. O consumo “racional”, portanto, deixou de ser uma opção e passou a ser uma imposição. Não por acaso, metade dos brasileiros acredita que a economia nacional tende a piorar.

Diante desse quadro, o brasileiro médio ajustou suas expectativas e passou a “fazer conta”. O planejamento para 2026 revela prioridades claras e defensivas:

  • Qualificação profissional: investir em estudo aparece como estratégia para elevar renda e reduzir vulnerabilidades.
  • Corte de supérfluos: 48% admitem que pretendem economizar tudo o que for possível.
  • Consumo reprimido: em estados como Rondônia, onde o endividamento é elevado, o desejo por bens duráveis permanece latente, à espera de uma folga orçamentária que, hoje, só alcança cerca de 12% da população.

O ambiente político adiciona ainda mais incerteza ao cenário. Com eleições presidenciais no horizonte, a desconfiança nas instituições permanece profunda. Segundo a Ipsos, 51% dos brasileiros acreditam que haverá protestos contra o governo em 2026, enquanto 60% demonstram temor até mesmo de episódios extremos, como ataques terroristas. Trata-se de um sintoma claro de insegurança institucional e de erosão da confiança pública.

Curiosamente, a válvula de escape não está fora do país. O custo elevado das viagens internacionais- agravado pelo câmbio desfavorável- afastou até mesmo o sonho de acompanhar eventos globais, como a Copa do Mundo. Em seu lugar, ganham espaço o turismo doméstico e pequenos “presentes para si mesmo”: gastos pontuais, simbólicos, que funcionam como compensação emocional em um cotidiano marcado por restrições.

Resta, então, a pergunta central: há lógica em acreditar que 2026 será melhor (80%) enquanto se projeta uma piora da economia (50%)? A resposta não está na irracionalidade, mas em uma dissociação cada vez mais clara entre o “eu” e o “Estado”. O brasileiro deixou de esperar soluções vindas do governo ou de mudanças estruturais de curto prazo. O otimismo que emerge é individual, pragmático e defensivo. A crença não está no país, mas na própria capacidade de adaptação, no esforço pessoal e na possibilidade de uma “virada de chave” privada. É a aposta no próprio taco.

Neste sentido, a esperança deixou de ser passiva e tornou-se instrumental. É uma ferramenta de sobrevivência, não uma aposta política. Se 2025 foi rotulado como “ruim” por 61% da população, 2026 surge como o ano da aposta no próprio taco. O brasileiro entra no ringue consciente da hostilidade do cenário, mas decidido a não jogar a toalha.

Talvez seja esse o mais sofisticado “samba” já produzido pelo país: o de quem dança conforme a música, mesmo quando a orquestra está desafinada- e o salão, quase vazio.

Ilustração: Imagem digital gerada pelo Manus

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