Apesar da tentativa
recorrente de dourar a realidade com indicadores reinterpretados ou leituras
otimistas do cenário econômico, os fatos acabam sempre se impondo. E os fatos
mostram que o Brasil tem perdido, ao longo das últimas décadas, uma corrida decisiva
pelo desenvolvimento.
Em 1995, o Produto
Interno Bruto (PIB) do Brasil foi de aproximadamente R$ 646 bilhões, em
valores correntes. No mesmo período, o PIB da China alcançava 6,16 trilhões
de yuans, o equivalente a cerca de US$ 738 bilhões à época. Ou seja,
naquele momento, as duas economias apresentavam dimensões relativamente
próximas.
Trinta anos depois,
porém, o contraste é contundente. Segundo dados recentes de organismos
internacionais, em 2024 o PIB da China chegou a US$ 17,32 trilhões,
enquanto o PIB brasileiro atingiu cerca de US$ 2,17 trilhões. Em outras
palavras, em três décadas a economia chinesa passou de um patamar semelhante ao
brasileiro para uma dimensão quase oito vezes maior.
A pergunta inevitável é: como
isso aconteceu?
A resposta passa, em
grande medida, pelo ritmo de crescimento. Durante esse período, a China
sustentou taxas médias superiores a 7% ao ano, impulsionadas por
investimento, industrialização, exportações e forte expansão da iniciativa
privada. O Brasil, por sua vez, permaneceu preso ao conhecido “voo de
galinha”, crescendo em média entre 2,4% e 2,5% ao ano.
Mais da metade dessas
três décadas- 15 anos e 8 meses - foi marcada por uma estratégia
econômica baseada no crescimento conduzido pelo Estado, com aumento de gastos
públicos acima da arrecadação, estímulos ao consumo e ampliação do crédito.
Este modelo produziu expansão temporária, mas deixou como legado fragilidades
estruturais.
Os sinais deste
desequilíbrio aparecem hoje de forma clara no cotidiano das famílias. Em fevereiro
de 2026, o endividamento das famílias brasileiras atingiu 80,2% dos
lares, um novo recorde histórico segundo a Pesquisa de Endividamento e
Inadimplência do Consumidor (Peic) da Confederação Nacional do Comércio
(CNC).
A percepção social
confirma o quadro. O Índice Hibou do Consumidor Brasileiro (IHCB) aponta
que 78,9% dos brasileiros afirmam que o custo de vida está muito acima da
renda. Esse ambiente afeta diretamente a capacidade de planejamento das
famílias: 39,9% dizem não ter nenhuma segurança para planejar o futuro
financeiro, enquanto 38,4% relatam ter pouca segurança.
Sem previsibilidade, não
há planejamento. E sem planejamento, o futuro torna-se incerto.
Há ainda uma contradição
curiosa no debate nacional. Parte da esquerda brasileira costuma citar a China
como exemplo de sucesso econômico. Entretanto, o modelo que impulsionou o
crescimento chinês foi justamente a abertura ao investimento privado, a criação
de zonas econômicas especiais, a integração agressiva ao comércio internacional
e a forte liberdade para empreender- características típicas de economias
orientadas pelo mercado.
Ou seja, a China
cresceu quando decidiu liberar as forças produtivas, enquanto o Brasil
continua frequentemente ampliando controles e entraves.
Aqui, até mesmo os
avanços parecem caminhar lentamente. A própria Reforma Tributária, que
poderia representar simplificação e racionalidade, ainda provoca insegurança
entre trabalhadores informais, microempresas e pequenos empreendedores,
preocupados com novos custos e maior complexidade operacional.
No mundo inteiro, a
fórmula do crescimento é amplamente conhecida:
segurança jurídica, ambiente favorável aos negócios, liberdade de
iniciativa, facilidade para empreender e carga tributária equilibrada.
O Brasil, no entanto,
segue na direção oposta em vários aspectos. A carga tributária é elevada para o
nível de renda do país-deveria situar-se, no máximo, ao redor de 26% do
PIB para economias emergentes- e os agentes econômicos enfrentam um
verdadeiro cipoal de leis, decretos e regulações que mudam com
frequência.
Somam-se a isso a
intervenção constante do Estado em setores produtivos e a persistente
dificuldade do poder público em manter suas próprias contas sob controle.
O resultado é um ambiente
que desestimula investimento, reduz produtividade e limita o crescimento.
O Brasil precisa voltar a
crescer de forma sustentada. Para isso, será indispensável melhorar o ambiente
de negócios, estimular o empreendedorismo e recuperar a confiança de quem
produz, investe e gera empregos.
Em outras palavras, é
preciso soltar as amarras do Brasil.
Ilustração: Imagem gerada com o Nano Banana 2 via Gemini Google.

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