Silvio Persivo
O que me inquieta na
cultura contemporânea não é a tensão entre o novo e o antigo. O antigo, afinal,
guarda o prestígio da permanência; mestres como Michelangelo buscavam nos
padrões clássicos a excelência que resiste ao tempo. Até os Beatles, outrora rebeldes,
hoje são cânone. A verdade é que o ser humano anseia pelo que é bom, e
desejamos que a beleza- assim como a vida -perdure.
No século passado, a arte
abraçou a rebeldia. A moda era o desmonte do tradicional. Houve mérito nisso:
uma geração revolucionou o mundo ao quebrar moldes. Contudo, o ímpeto da
ruptura esgotou-se em uma padronização irônica. De tanto quebrar padrões, tudo
se tornou pasteurizado. Hoje, navegamos em uma profusão de obras onde o
essencial-a qualidade- tornou-se um artigo de luxo.
A Moeda Ruim Expulsa a
Boa
Sob o domínio da técnica,
o sucesso foi reduzido à métrica: o que é visto por muitos é o que vale. A arte
tornou-se escrava da atenção imediata, do capital e da transitoriedade. O
resultado é um deserto de opções; uma monotonia estética onde se reciclam super-heróis,
exaurem-se franquias até a indigestão e repetem-se fórmulas virais para o
TikTok.
Com o advento da
Inteligência Artificial, assistimos a uma poluição visual e auditiva de
falsificações que mimetizam a forma, mas carecem de espírito. Vivemos a Lei
de Gresham cultural: a produção em massa, vazia e barata, está expulsando a
obra densa e original.
A Ditadura do Algoritmo e
a Perda do Erro
A produção artística
atual não mira o humano, mas o algoritmo de recomendação. A
"financeirização" da arte eliminou o risco; e sem risco, não há
vanguarda. As ferramentas digitais, embora potentes, agem como corsetes:
- Filtros e Auto-Tune
eliminam a "sujeira" e a imperfeição.
- Modelos de escrita por IA
limpam as arestas da linguagem.
- A conexão global
dilui o regionalismo em um "estilo global" inofensivo.
Aquilo que historicamente
dava personalidade e humanidade à obra - o erro, a hesitação, a marca da mão-
está sendo varrido em nome de um conforto digestivo. A técnica silenciou a
alma. O que deveria ser um grito de expressão tornou-se um sussurro de
conveniência.
O Resgate da Potência
Vital
O desafio não é negar a
tecnologia, mas subvertê-la. Precisamos resgatar a alma da criação para além da
técnica instrumental. Criar, hoje, é um ato de resistência que exige:
1. O
cultivo do inútil: Espaços para a contemplação sem
finalidade comercial.
2. A
celebração do imprevisível: Permitir que o erro humano guie o
processo.
3. A
busca pelo genuíno: Valorizar a estética que provoca
desconforto em vez do entorpecimento.
A arte deve voltar a ser um ato de liberdade que desafia a homogeneização. Contra a padronização imposta pela técnica, urge fazer ecoar novamente a potência vital da alma criativa. Que a criação deixe de ser um sussurro de conveniência para ser, novamente, um grito de existência. Que, como brasileiros que somos, autofágicos e macunaímicos, usemos a técnica a favor da qualidade e dos valores clássicos, atemporais.

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