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sexta-feira, março 27, 2026

O QUE É COGNIÇÃO? E A VIDA?

 


ENTRE AUTOPOIESE E INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL: O QUE AINDA NOS TORNA VIVOS?

O biólogo chileno Humberto Maturana, em parceria com seu compatriota Francisco Varela, formulou uma das mais influentes teorias contemporâneas sobre a vida: a autopoiese. O termo- derivado do grego auto (por si mesmo) e poiesis (criação)-busca responder a uma questão fundamental: o que é um ser vivo?

A resposta proposta é elegante e radical. Todo ser vivo seria um sistema fechado que se autoproduz continuamente, mantendo-se, reparando-se e transformando-se ao longo do tempo. Viver, nesse sentido, não é apenas existir, mas persistir como organização ativa, em constante recriação de si.

A partir dessa formulação, Maturana e Varela avançam um passo decisivo: estabelecem uma equivalência entre vida e cognição. Conhecer não seria uma atividade exclusiva da mente humana, mas uma propriedade intrínseca ao próprio viver. O ser vivo, ao interagir com o ambiente, não apenas reage -ele conhece ao viver.

Contudo, essa dinâmica não ocorre no vazio. Todo organismo existe em acoplamento estrutural com seu meio, modificando-o e sendo por ele modificado. Essa relação de interdependência sustenta a continuidade da vida até seu limite inevitável: a morte, quando a organização deixa de se conservar.

Tradicionalmente, a cognição foi compreendida como atividade consciente, simbólica e reflexiva — uma faculdade mental associada a sujeitos autônomos. Nesse paradigma, os organismos distinguem-se das máquinas porque, como observa a literatura, “enquanto as funções de controle das máquinas são inseridas por projetistas humanos, os organismos governam a si próprios”.

Esse quadro, entretanto, torna-se mais complexo com o advento da inteligência artificial. Surge uma forma distinta de cognição que, ao se integrar à vida humana, reconfigura o próprio campo do conhecer. Hoje, já não é possível sustentar que a cognição seja exclusividade humana. Máquinas processam informação, aprendem padrões, adaptam respostas e antecipam cenários com uma eficiência que dispensa experiência direta.

Diante disso, torna-se necessário reconhecer ao menos duas modalidades: uma cognição biológica e uma cognição maquínica. Essa distinção, porém, não é estática. Ao contrário, ela transforma o próprio ambiente em que ocorre, inaugurando uma nova forma de simbiose- não apenas biológica, mas também relacional, cognitiva e informacional. Com a internet, consolida-se um ecossistema híbrido, no qual sistemas, funções cognitivas e fluxos de informação se acoplam de maneira inédita.

Estamos, assim, diante de uma inflexão histórica: a tecnologia deixa de ser mera externalidade e passa a integrar os próprios processos do conhecer. Não se trata de ruptura ou substituição, mas de continuidade - uma nova etapa na longa trajetória humana de construção de ferramentas, agora penetrando o núcleo da cognição.

Este cenário impõe uma distinção crucial: cognição não é consciência. E, mais ainda, talvez não seja sequer sinônimo de vida. Se a cognição pode ultrapassar os limites da biologia, o que, afinal, permanece como diferencial do vivo?

Alguns biólogos e filósofos apontam três pilares que as máquinas ainda não preenchem plenamente:

1.     Teleologia intrínseca vs. Extrínseca


Máquinas operam segundo finalidades externas- objetivos definidos por programadores ou funções de otimização. Já os seres vivos possuem uma finalidade intrínseca: persistir enquanto vida.

Não executam um propósito dado; são, em si, o próprio esforço de continuar existindo frente à entropia.

 

2.     Metabolismo e termodinâmica 


A vida não é apenas processamento de informação, mas de energia e matéria.

·         Máquinas processam dados para gerar saídas.

·         Seres vivos processam energia para manter sua organização longe do equilíbrio termodinâmico.

 

3.     Vulnerabilidade radical


Para uma máquina, a “morte” pode ser reversível -um desligamento, uma perda de dados recuperável. Para o ser vivo, ela é a dissolução irreversível da organização. A cognição biológica evolui sob a pressão da finitude, orientada pela evitação do sofrimento e da extinção. A cognição artificial pode simular tais estados, mas não os experimenta como ameaça existencial.

Diante dessas distinções, talvez o ponto mais sensível da discussão resida em outro conceito: a senciência. Diferentemente da cognição, que pode ser funcional e abstrata, a senciência refere-se à capacidade de ter experiências subjetivas- sentir dor, prazer, sofrimento, bem-estar.

Sob esta perspectiva, o diferencial do vivo não seria simplesmente conhecer, mas sentir o que conhece. É o que permite distinguir entre saber “o que é” algo e saber “como é” vivê-lo. Uma inteligência artificial pode reconhecer uma banana por meio de bilhões de parâmetros, mas não sabe qual é o seu gosto, pois não possui um corpo inserido em um metabolismo que dê sentido a esta experiência.  Esta linha de reflexão aproxima-se de autores que colocam a experiência subjetiva no centro da questão da vida e da mente, como Thomas Nagel e David Chalmers, para os quais há algo irredutível na perspectiva interna dos seres conscientes.

Talvez, então, o equívoco não esteja em reconhecer a cognição como propriedade ampla, mas em equipará-la integralmente à vida. Se a cognição pode ser replicada-ao menos em parte-por sistemas artificiais, a senciência ainda permanece como fronteira. No fim, esta reflexão não pretende encerrar a questão, mas ampliá-la. Afinal, quanto mais avançamos no entendimento da vida, mais ela parece escapar às definições rígidas.

Como sintetizou o filósofo Søren Kierkegaard:

“A vida não é um problema a ser resolvido, mas uma realidade a ser experimentada.”

sexta-feira, março 20, 2026

UM MANIFESTO PÓS-MODERNO: A ALMA CONTRA A MÁQUINA

 

Silvio Persivo

O que me inquieta na cultura contemporânea não é a tensão entre o novo e o antigo. O antigo, afinal, guarda o prestígio da permanência; mestres como Michelangelo buscavam nos padrões clássicos a excelência que resiste ao tempo. Até os Beatles, outrora rebeldes, hoje são cânone. A verdade é que o ser humano anseia pelo que é bom, e desejamos que a beleza- assim como a vida -perdure.

No século passado, a arte abraçou a rebeldia. A moda era o desmonte do tradicional. Houve mérito nisso: uma geração revolucionou o mundo ao quebrar moldes. Contudo, o ímpeto da ruptura esgotou-se em uma padronização irônica. De tanto quebrar padrões, tudo se tornou pasteurizado. Hoje, navegamos em uma profusão de obras onde o essencial-a qualidade- tornou-se um artigo de luxo.

A Moeda Ruim Expulsa a Boa

Sob o domínio da técnica, o sucesso foi reduzido à métrica: o que é visto por muitos é o que vale. A arte tornou-se escrava da atenção imediata, do capital e da transitoriedade. O resultado é um deserto de opções; uma monotonia estética onde se reciclam super-heróis, exaurem-se franquias até a indigestão e repetem-se fórmulas virais para o TikTok.

Com o advento da Inteligência Artificial, assistimos a uma poluição visual e auditiva de falsificações que mimetizam a forma, mas carecem de espírito. Vivemos a Lei de Gresham cultural: a produção em massa, vazia e barata, está expulsando a obra densa e original.

A Ditadura do Algoritmo e a Perda do Erro

A produção artística atual não mira o humano, mas o algoritmo de recomendação. A "financeirização" da arte eliminou o risco; e sem risco, não há vanguarda. As ferramentas digitais, embora potentes, agem como corsetes:

  • Filtros e Auto-Tune eliminam a "sujeira" e a imperfeição.
  • Modelos de escrita por IA limpam as arestas da linguagem.
  • A conexão global dilui o regionalismo em um "estilo global" inofensivo.

Aquilo que historicamente dava personalidade e humanidade à obra - o erro, a hesitação, a marca da mão- está sendo varrido em nome de um conforto digestivo. A técnica silenciou a alma. O que deveria ser um grito de expressão tornou-se um sussurro de conveniência.

O Resgate da Potência Vital

O desafio não é negar a tecnologia, mas subvertê-la. Precisamos resgatar a alma da criação para além da técnica instrumental. Criar, hoje, é um ato de resistência que exige:

1.     O cultivo do inútil: Espaços para a contemplação sem finalidade comercial.

2.     A celebração do imprevisível: Permitir que o erro humano guie o processo.

3.     A busca pelo genuíno: Valorizar a estética que provoca desconforto em vez do entorpecimento.

A arte deve voltar a ser um ato de liberdade que desafia a homogeneização. Contra a padronização imposta pela técnica, urge fazer ecoar novamente a potência vital da alma criativa. Que a criação deixe de ser um sussurro de conveniência para ser, novamente, um grito de existência. Que, como brasileiros que somos, autofágicos e macunaímicos, usemos a técnica a favor da qualidade e dos valores clássicos, atemporais.

sábado, março 14, 2026

É PRECISO SOLTAR AS AMARRAS DO BRASIL

 


Apesar da tentativa recorrente de dourar a realidade com indicadores reinterpretados ou leituras otimistas do cenário econômico, os fatos acabam sempre se impondo. E os fatos mostram que o Brasil tem perdido, ao longo das últimas décadas, uma corrida decisiva pelo desenvolvimento.

Em 1995, o Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil foi de aproximadamente R$ 646 bilhões, em valores correntes. No mesmo período, o PIB da China alcançava 6,16 trilhões de yuans, o equivalente a cerca de US$ 738 bilhões à época. Ou seja, naquele momento, as duas economias apresentavam dimensões relativamente próximas.

Trinta anos depois, porém, o contraste é contundente. Segundo dados recentes de organismos internacionais, em 2024 o PIB da China chegou a US$ 17,32 trilhões, enquanto o PIB brasileiro atingiu cerca de US$ 2,17 trilhões. Em outras palavras, em três décadas a economia chinesa passou de um patamar semelhante ao brasileiro para uma dimensão quase oito vezes maior.

A pergunta inevitável é: como isso aconteceu?

A resposta passa, em grande medida, pelo ritmo de crescimento. Durante esse período, a China sustentou taxas médias superiores a 7% ao ano, impulsionadas por investimento, industrialização, exportações e forte expansão da iniciativa privada. O Brasil, por sua vez, permaneceu preso ao conhecido “voo de galinha”, crescendo em média entre 2,4% e 2,5% ao ano.

Mais da metade dessas três décadas- 15 anos e 8 meses - foi marcada por uma estratégia econômica baseada no crescimento conduzido pelo Estado, com aumento de gastos públicos acima da arrecadação, estímulos ao consumo e ampliação do crédito. Este modelo produziu expansão temporária, mas deixou como legado fragilidades estruturais.

Os sinais deste desequilíbrio aparecem hoje de forma clara no cotidiano das famílias. Em fevereiro de 2026, o endividamento das famílias brasileiras atingiu 80,2% dos lares, um novo recorde histórico segundo a Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic) da Confederação Nacional do Comércio (CNC).

A percepção social confirma o quadro. O Índice Hibou do Consumidor Brasileiro (IHCB) aponta que 78,9% dos brasileiros afirmam que o custo de vida está muito acima da renda. Esse ambiente afeta diretamente a capacidade de planejamento das famílias: 39,9% dizem não ter nenhuma segurança para planejar o futuro financeiro, enquanto 38,4% relatam ter pouca segurança.

Sem previsibilidade, não há planejamento. E sem planejamento, o futuro torna-se incerto.

Há ainda uma contradição curiosa no debate nacional. Parte da esquerda brasileira costuma citar a China como exemplo de sucesso econômico. Entretanto, o modelo que impulsionou o crescimento chinês foi justamente a abertura ao investimento privado, a criação de zonas econômicas especiais, a integração agressiva ao comércio internacional e a forte liberdade para empreender- características típicas de economias orientadas pelo mercado.

Ou seja, a China cresceu quando decidiu liberar as forças produtivas, enquanto o Brasil continua frequentemente ampliando controles e entraves.

Aqui, até mesmo os avanços parecem caminhar lentamente. A própria Reforma Tributária, que poderia representar simplificação e racionalidade, ainda provoca insegurança entre trabalhadores informais, microempresas e pequenos empreendedores, preocupados com novos custos e maior complexidade operacional.

No mundo inteiro, a fórmula do crescimento é amplamente conhecida:
segurança jurídica, ambiente favorável aos negócios, liberdade de iniciativa, facilidade para empreender e carga tributária equilibrada.

O Brasil, no entanto, segue na direção oposta em vários aspectos. A carga tributária é elevada para o nível de renda do país-deveria situar-se, no máximo, ao redor de 26% do PIB para economias emergentes- e os agentes econômicos enfrentam um verdadeiro cipoal de leis, decretos e regulações que mudam com frequência.

Somam-se a isso a intervenção constante do Estado em setores produtivos e a persistente dificuldade do poder público em manter suas próprias contas sob controle.

O resultado é um ambiente que desestimula investimento, reduz produtividade e limita o crescimento.

O Brasil precisa voltar a crescer de forma sustentada. Para isso, será indispensável melhorar o ambiente de negócios, estimular o empreendedorismo e recuperar a confiança de quem produz, investe e gera empregos.

Em outras palavras, é preciso soltar as amarras do Brasil.

Ilustração: Imagem gerada com o Nano Banana 2 via Gemini Google. 

quinta-feira, março 05, 2026

Os Desafios do Brasil com os Novos Problemas no Cenário Externo

 


OS DESAFIOS DO BRASIL NUM CENÁRIO GLOBAL ADVERSO

Quais são os objetivos centrais das políticas públicas adotadas pela quase totalidade dos 193 países membros da Organização das Nações Unidas? Em termos econômicos, dois vetores orientam a ação estatal:

1.    1) Elevar o Produto Interno Bruto (PIB) de forma sustentável no curto e médio prazo;

2.   2)  Ampliar o nível de emprego, reduzindo ao mínimo o desemprego estrutural e conjuntural.

Estes dois objetivos não são independentes. O crescimento sustentado do PIB tende a expandir a demanda por trabalho, aumentar a renda média e, ao longo de ciclos de quatro ou cinco anos consecutivos de expansão, reduzir a pobreza de maneira consistente.

Quando a população cresce a taxas moderadas- ou até declinantes, como ocorre em diversos países- o aumento contínuo do PIB per capita torna-se o principal mecanismo de elevação do padrão de vida. O crescimento econômico prolongado:

·         Gera oportunidades de emprego formal;

·         Eleva a massa salarial;

·         Amplia a arrecadação sem necessidade de elevar alíquotas;

·         Permite maior investimento público em infraestrutura e políticas sociais.

Por outro lado, países que não conseguem sustentar taxas robustas de crescimento acabam enfrentando um quadro visível de estagnação: escassez de oportunidades, precarização do mercado de trabalho e perda de dinamismo empresarial.

O Brasil historicamente apresenta dificuldade em manter ciclos longos de expansão econômica. O crescimento ocorre de forma intermitente, interrompido por crises fiscais, instabilidade política ou choques externos.

A comparação entre governos recentes tornou-se tema de debate público, especialmente porque a gestão anterior enfrentou uma crise sanitária global e, ainda assim, apresentou indicadores de recuperação econômica que parte da sociedade considera superiores aos do momento atual. Este fato elevou o nível de cobrança sobre o governo de Lula da Silva, tornando mais difícil a atribuição exclusiva de responsabilidades a fatores externos ou a administrações passadas.

É inegável que o contexto global se tornou mais complexo. A interdependência econômica entre países ampliou a transmissão de choques. Sequências inesperadas de eventos- conflitos geopolíticos, oscilações nos preços de energia e aperto monetário nas principais economias-produzem efeitos relevantes sobre nações emergentes.

Entre os riscos atuais destacam-se:

·         Elevação das taxas de juros globais, com potencial recessivo;

·         Incerteza quanto aos preços do petróleo e derivados;

·         Aumento das dívidas públicas;

·         Pressões inflacionárias persistentes;

·         Desaceleração da economia mundial.

Para um país como o Brasil, dependente de fluxos internacionais de capital e da exportação de commodities, este ambiente representa um desafio adicional significativo.

Mesmo em cenários internacionais favoráveis, promover simultaneamente crescimento do PIB, geração de empregos, controle inflacionário e redução da pobreza já constitui tarefa complexa. Em um ambiente externo adverso, essa tarefa exige:

·         Disciplina fiscal consistente;

·         Previsibilidade regulatória;

·         Estímulo ao investimento privado;

·         Segurança jurídica;

·         Planejamento estratégico de longo prazo.

A crítica central presente no debate atual reside na percepção de ausência de um plano econômico claro, com reformas estruturais e estratégias definidas para melhorar o ambiente de negócios e elevar a renda per capita de forma sustentável. Paralelamente, observa-se aumento da carga tributária efetiva, ampliando a arrecadação sem que se percebam contrapartidas proporcionais em eficiência do gasto público ou melhoria dos serviços prestados à população.

O Brasil encontra-se diante de um duplo desafio: um cenário internacional desfavorável e as limitações internas de gestão econômica. A superação deste quadro não depende apenas de retórica política, mas de políticas públicas estruturadas, baseadas em responsabilidade fiscal, estímulo à produtividade e fortalecimento do setor privado.  Sem um plano consistente de crescimento sustentável, o país corre o risco de prolongar a estagnação relativa, atrasando o avanço na redução da pobreza e na melhoria do padrão de vida da população. O debate que se impõe, portanto, não é apenas eleitoral, mas estrutural: qual modelo de desenvolvimento será capaz de garantir crescimento contínuo, geração de empregos e estabilidade macroeconômica no longo prazo?

Ilustração: FGV.


Reforma Tributária pode fechar grande maioria das micros e pequenas empresas

 


Reforma Tributária: a conta será mais pesada para MEIs e pequenas empresas

Os pequenos negócios são a espinha dorsal da economia brasileira. Dados do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) indicam que microempresas, empresas de pequeno porte e MEIs representam cerca de 98% das empresas ativas no país. Já o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) aponta que essas empresas concentram mais da metade dos empregos formais do setor privado, além de terem papel central na geração de novas vagas nos últimos anos. Apesar dessa relevância econômica e social, é justamente sobre este segmento que recaem os maiores riscos da Reforma Tributária.

Estrutura frágil diante de uma mudança estrutural

A estrutura de gestão das PMEs brasileiras ainda é marcada por informalidade administrativa, controles limitados e decisões tributárias reativas- tomadas, muitas vezes, apenas no momento do recolhimento dos impostos. Em um ambiente já pressionado por margens reduzidas, crédito restrito e alta volatilidade de custos, a reforma surge como um fator adicional de estresse financeiro.

O problema central não é apenas a mudança da lei, mas o nível de preparação das empresas. A reforma expõe uma realidade incômoda: grande parte dos pequenos negócios não sabe com precisão qual é seu lucro real, seu custo efetivo por produto ou serviço e quanto paga de imposto em cada operação.

Este cenário se torna especialmente delicado diante da substituição de tributos cumulativos por um modelo de IVA dual, estruturado em CBS e IBS. O novo sistema exigirá:

  • Controle rigoroso de créditos tributários
  • Revisão profunda de processos fiscais
  • Integração entre áreas que historicamente operam de forma isolada

Para empresas que ainda dependem de planilhas manuais ou informações fragmentadas, o risco vai além de pagar mais imposto. Envolve perda de previsibilidade financeira, redução de competitividade e, em casos extremos, ameaça à própria sobrevivência

A falsa sensação de proteção

Há, em muitas PMEs, uma subestimação do tamanho da mudança. Parte dos empresários acredita que estará automaticamente protegida pelo Simples Nacional ou por contratos de longo prazo já firmados. Esta percepção é equivocada.

A reforma impacta diretamente:

  • Formação de preços
  • Margens de lucro
  • Cadeia de créditos
  • Renegociação contratual
  • Estrutura de custos indiretos

Além disso, o novo modelo ampliará significativamente a capacidade de controle do Fisco sobre as operações empresariais. O ambiente fiscal será mais transparente-e também mais exigente.

Neste contexto, o planejamento tributário deixa de ser uma ferramenta pontual e passa a ocupar papel estrutural na estratégia do negócio. Não planejar, a partir de agora, significa assumir riscos diretos sobre o caixa e a continuidade da operação.

O erro estratégico: tratar contabilidade como mera obrigação

Um dos maiores desafios é cultural. Muitas PMEs ainda enxergam a contabilidade como serviço operacional voltado apenas ao cumprimento de obrigações acessórias.

Esta visão limitada torna-se perigosa em um momento em que a legislação exige leitura integrada de tributação, custos, contratos e modelo de negócio. A empresa que não integrar essas dimensões operará no escuro.

Cinco pontos críticos para reduzir riscos

Especialistas apontam cinco áreas de atenção imediata para as PMEs:

1. Avaliar o impacto real da reforma

É imprescindível compreender como a nova lógica tributária afeta produtos, serviços e contratos específicos. Sem essa análise técnica, decisões de preço e negociação serão tomadas com base em suposições.

2. Integrar as áreas da empresa

Tributação não pode mais ser responsabilidade exclusiva da contabilidade. Comercial, financeiro e jurídico precisam atuar de forma coordenada para proteger margens, evitar conflitos contratuais e preservar competitividade.

3. Revisar preços e margens

A mudança no modelo de impostos altera custos indiretos e dinâmica de créditos. Empresas que não recalcularem sua estrutura de preços podem perder faturamento e rentabilidade rapidamente.

4. Buscar assessoria especializada

A complexidade da transição exige apoio técnico qualificado. Parceiros com visão integrada — e não apenas operacional — serão fundamentais para reduzir riscos, retrabalho e exposição fiscal.

5. Entender que o planejamento será contínuo

A reforma não é um evento isolado. Regulamentações e ajustes ocorrerão ao longo dos próximos anos. Estratégias tributárias e financeiras precisarão de revisões periódicas. Há pontos ainda indefinidos que podem gerar mudanças imprevistas.

Quem se antecipa ganha; quem ignora reage sob pressão

As PMEs não podem tratar a Reforma Tributária como tema restrito às grandes corporações. Não há como escapar de seus efeitos.

Empresas organizadas- ou que se organizarem mais rapidamente- terão maior previsibilidade, margem de manobra e capacidade de negociação. Já aquelas que ignorarem a magnitude da transformação provavelmente reagirão sob pressão, sentindo primeiro o impacto no caixa.

A mudança é inevitável e já está em andamento. Para MEIs, micro e pequenas empresas, o custo da inércia pode ser significativamente maior do que o custo da adaptação.

Ilustração: Fenacon.