A ECONOMIA NÃO VOTA, MAS VAI ÀS URNAS
Há uma percepção
crescente de que a economia brasileira atravessa um momento ruim- percepção que
alcança não apenas os consumidores, mas também empresários e setores
produtivos. Pesquisas recentes, conforme os números citados, apontam para uma
combinação pouco sedutora: preços em alta, juros elevados, endividamento e a
sensação de que a vida financeira ficou mais apertada.
Na pesquisa BTG/Nexus de
agosto, 53% dos entrevistados classificaram a economia como ruim ou péssima.
Outros 45% disseram que a situação está pior do que no governo anterior, o de
Jair Bolsonaro- que, convém lembrar, enfrentou uma pandemia. A comparação tem
seu peso político; não necessariamente resolve, por si só, o debate.
O custo de vida,
entretanto, não precisa de grande teoria para ser percebido: basta passar no
mercado. E a inflação oficial nem sempre conta a história inteira. Há também a reduflação:
o produto encolhe, perde qualidade ou vem em embalagem mais modesta, enquanto o
preço conserva a autoestima. Ainda assim, 61% dos entrevistados reclamam da
alta dos preços, e 39% dizem ter perdido poder de compra.
O aperto aparece também
nas dívidas. Os números indicam que 83,9 milhões de brasileiros começaram o
semestre com o nome negativado- um recorde e sinal alarmante de fragilidade
financeira. A causa e o mecanismo são conhecidos, embora não seja menos
doloroso por isso: juros reais altos tornam o crédito mais caro; famílias
endividadas consomem menos; empresas vendem menos; e os bancos, diante do
risco, selecionam ainda mais quem pode tomar empréstimo. O ciclo não tem nada
de misterioso. É uma engrenagem econômica- daquelas que funcionam perfeitamente
para moer o otimismo. E contribui para isto um governo que gasta mais do que
pode mesmo com aumento de impostos e recordes de arrecadação.
Neste cenário, a elevação
da projeção do IPCA citada no texto, de 4,2% para 5,3%, reforça a preocupação.
A soma de preços pressionados, crédito caro e renda comprometida ajuda a
explicar o desgaste do governo e o desejo de mudança expresso pela parte majoritária
do eleitorado. Em ano eleitoral, a economia costuma ocupar o centro do palco;
os discursos ficam na ribalta, mas a conta do supermercado entra sem convite.
Dói no bolso.
O governo Lula, além de
enfrentar avaliações negativas, não parece ter meios de transmitir expectativas
de melhoria. Nem mesmo medidas populares, como o reajuste do Bolsa Família-
cujo efeito eleitoral, naturalmente, pode ser discutido-parecem suficientes
para mudar o humor de parte do público. E, quando o governo age em temas
delicados, como as apostas on-line, a crítica é que o faz sem avaliar
devidamente os efeitos imediatos e a segurança jurídica dos contratos e o
impacto na vida de empresas, clubes e pessoas.
Daí a impressão, entre adversários e críticos, de que o governo já
entregou o que podia entregar. Flávio Bolsonaro já fala em “liquidar a fatura”
no primeiro turno. É uma incógnita. Em política, não há resultado antecipado:
entusiasmo, rejeição e intenção de voto não são a mesma coisa, e tudo é passível
de alteração, porém o desgaste do material torna impossível Lula despertar
entusiasmo. Dizem, e as pesquisas parecem atestar, que bateu no teto.
Também pesam as
controvérsias em torno do caso Master com suas ramificações no governo, no STF e
as alegações que envolvem o Lulinha, em apurações relacionadas a suposto
tráfico de influência e às fraudes contra aposentados do INSS. São acusações
graves, e como não permitiram que fossem apuradas, estão se convertendo em
sentença por força de manchetes. Por isto o mercado de previsões, a mesa onde o
dinheiro fala, revela um placar de 62% para Flávio Bolsonaro e 37% para Lula.
Não é pesquisa. É precificação de quem tem dinheiro e informação. Até fizeram
restrição à divulgação no perfil brasileiro na plataforma, supostamente por
pedido do Ministério da Fazenda, no entanto, hoje, é impossível segurar o que
circula na internet. No fim, a tese é
simples: governos podem distribuir benefícios, produzir slogans e prometer
horizontes; mas, se o cotidiano continuar mais caro e o crédito mais difícil, a
propaganda terá de competir com a fatura. A política oferece explicações. A
economia, como de costume, apresenta a conta.
É a economia, estúpido- dizem
os norte-americanos- sobretudo quando o eleitor no começo do mês passou no
supermercado e fica pensando em “sortear” conta para pagar ou como irá chegar
no fim do mês.

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