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sábado, maio 18, 2013

Um gol no último minuto




O Brasil vai ser campeão do mundo. Enfático, possesso, destemperado grito: -Vai! É evidente que, como vidente, estou muito próximo das versões repetidas do governo sobre as elevadas taxas de crescimento, quase todas as vezes que são previstas, estão erradas e é necessário retificar, o que, no meu caso, não me desonra, pois, jamais fiz grandes previsões sobre o que desconheço. E, como economista, me cerco de cuidados e me previno: grito que vai, mas, não digo quando. E esclareço que me incomoda muito um certo derrotismo que paira sobre  o nosso futebol, que desmerece a síntese de um talento nato que já provou, em campo, que temos na desconcertante arte de improvisar nossa mais temível e eficaz arma. Sem modéstia: nós somos bons até para os argentinos babarem.
O futebol é uma invenção inglesa, todavia, queiram ou não, os derrotistas, é o maior e mais profundo componente da alma brasileira, apesar de ter um concorrente negro, seu irmão siamês, o samba, que quase o alcança gingando próximo de sua altura. Antes de existir, como o samba, o futebol já era uma predestinação nacional. E, não por acaso, o retumbante fracasso de 50 prenunciava que, oito anos depois, nós, quando criávamos a base de nosso antropofágico caráter, pela primeira vez, levantamos a taça e criamos orgulho de nós mesmos cantando, e dançando pelas ruas, nossa nacionalidade recém-adquirida. O Brasil se fez Brasil musicalmente comemorando as glórias do futebol e a crença num amanhã luminoso que ainda tarda a chegar. É verdade que um time com Didi, Newton Santos, Garrincha e Pelé estava destinado a ser grande em qualquer país do mundo, no entanto, não é qualquer país que é capaz de produzir gênios assim, heróis assim. Tão acima do comum que, como os heróis de hoje, eram desacreditados. Eles venceram por serem de uma qualidade tão grande, de uma estirpe tão especial, que acreditaram em si mesmo até contra a versão maciça de que eram inferiores. Mas, o passado, a qualidade e as glórias do nosso passado, no futebol ou em qualquer outro setor, não conta na era da falta de memória, da ignorância ativa, do espetáculo e da mediocridade.
No mundo inteiro não há um jogador, um só, com a qualidade, com o talento de Neymar ainda que não tenha a aplicação que deveria de um Zico. Messi? Perdoem-me espanhóis, argentinos e os que não sabem de futebol. Maradona foi o grande jogador argentino. Messi é um talento da burocracia. As loas que cantam do Barcelona, como, agora dos clubes alemães, são as loas da mediocridade. Futebol, futebol mesmo temos nós, brasileiros, e, depois, num ritmo de milonga com a capacidade dos chicaneiros, os argentinos. O resto, bem, o resto produz um talento de vez em quando. Talvez, a África e a China, quando despertarem para o encanto, a surpresa e a delícia do jogo, criem rivais para nós. Ainda hoje não há.
Não contesto que os analfabetos da governança, os risíveis e trágicos cartolas nacionais, conseguiram transformar nossos craques em grupos amontoados em campo, grandes promessas de craques, exaltados sem o devido preparo, presenteados com milhões e elogios indevidos, quando nem se preparam fisicamente, nem aprenderam a chutar direito, viraram peladeiros e recuperaram o complexo de vira-latas, daí, nossos tristes resultados atuais nos campos. Até mesmo Neymar, deslumbrado, não jogou, para olhar o Barcelona passear. Sem aplicação, sem esforço, Pelé jamais seria Pelé. Agora, se, em qualquer parte do país, se pegar um time razoável e fizê-lo aprender e treinar os fundamentos do futebol durante algum tempo, podem, sem receio algum, colocá-los para jogar contra qualquer time do mundo, que eles, com confiança e suando a camisa, farão, como fazia a molecada do Santos alguns anos atrás, quatro ou cinco gols em qualquer time sem perdão.
O futebol brasileiro, para o bem ou para o mal, é o retrato acabado do país. Só revela o imediatismo, a falta de compromisso, a politicagem e o despreparo dos seus dirigentes rebaixando a qualidade do material que deveria produzir sucesso. No futebol isto se revela pelas dispensas mensais dos técnicos, pelas derrotas, pelo baixo desempenho dos jogadores e pelos passes e chutes errados, a falta de gols. Na vida, o futebol de verdade, pela corrupção, pelo desperdício, pela ignorância popular que elege os Silvas iletrados e sem visão de futuro. Tudo igual: perdemos no futebol e na vida por não cuidar do essencial: a administração e os fundamentos.
O Brasil, entretanto, é muito maior que esta mediocridade visível. O Brasil vai ganhar, vai cumprir seu destino de ser, como previa Darcy Ribeiro, a “Nova Roma”. Nosso talento e criatividade é tão grande que vai soterrar a mediocridade. Posso estar errado, porém, intimamente, tenho a certeza de que não estou. Sou um otimista não congênito. Sou um otimista por militância. Sobrevivi a tantos dirigentes ruins que, na vida como no futebol, sou obrigado a acreditar em gol no último minuto. O Brasil vai ser campeão.  

sábado, maio 11, 2013

Sobre a sabedoria da memória ou a benção do esquecimento




Que nós vivemos numa época de excesso de informações ninguém tem muita dúvida. A sucessão de imagens, de slogans, de publicidades e de propagandas que nos perturbam só é menor que a nossa procura incessante de estar à par do novo, de não perder a onda da modernidade, de, enfim, saber do que se passa em todo canto, todo tempo. Lembro que, garoto (claro que no século passado, seus implacáveis) não existia esta volúpia da notícia, o que nos poupava, por exemplo, das páginas sangrentas dos jornais, dos sequestros, dos crimes ou até mesmo de saber que existiam tantos criminosos, em especial, dos cofres públicos. Ladrão era ladrão mesmo, de galinha que fosse, mas, reconhecido na profissão e com, um traço que, hoje, infelizmente se perdeu, de ser uma coisa vergonhosa. O estereotipo do ladrão era sempre o de estar mascarado e carregar consigo um saco para levar as coisas roubadas. Era um tempo de inocência onde, visivelmente, não acontecia nada ou, se acontecia, era devagar, devagar, devagarinho, como recomendou, sabiamente, Martinho da Vila. A vida tinha tempo, estações, processos lentos para acontecer.
Hoje a vida parece acontecer a toda hora. O celular nos localiza e nos faz trabalhar onde quer que estejamos. Os notebooks, smartphones e laptops surgem nos lugares mais inesperados e a intromissão da informação não respeita mais nem os limites dos tribunais, das salas de aulas e dos templos. Aliás, até mesmo a missa, a aula virou um espetáculo onde, se não houver tecnologia, adeus atenção. Por tudo isto a leitura parece algo perdido no passado. Até mesmo para mim, um leitor ávido e empedernido, que lia sem cessar, oito a dez livros por semana, me surpreendo verificando que só leio dois, três e já não faço, como no passado, aquisições de dez, quinze livros em qualquer viagem. É verdade que os livros se tornaram mais acessíveis em nossa própria cidade e sobreveio a facilidade de que chegam via comércio eletrônico, mas, há também, uma substituição da leitura do livro, por leituras homeopáticas, seja do que for, em geral noticias, artigos, e, e-mails ou uma visita ao Facebook e o recebimento de tantos boletins e ofertas eletrônicas, que, vez por outra, são despejados sem o menor constrangimento, quando existe o acumulo de alguns dias sem ler.
Para quem já teve uma biblioteca com mais de cinco mil livros, os mais de quinhentos que ainda possuo hoje, já me parecem excessivos. Informação também, por maiores que sejam as estantes, devem ser acessíveis e, sem uma organização muito bem feita, não o são. Hoje, a moda é utilizar o espaço nos discos rígidos,  ou CDs ou pendrives, que acumulam muito mais com muito menos esforço e mais acessibilidade, mesmo com o risco alto de desaparecer ou, com a substituição da tecnologia, o acesso se tornar muito difícil. Tenho muitas informações em disquete que me parece, agora, algo da Idade Média, e que nem sei como irei recuperar. Ainda a melhor forma de guardar informações é a mente, que, infelizmente, com o tempo, também vai apagando certas coisas, mas, a mente é sábia, possívelmente, esquece totalmente as coisas que devem ser esquecidas. Esquecer, muitas vezes, é uma benção, é muito bom.
Qual o motivo, então, de minha divagação. Bem, é que me perguntaram sobre um livro que li na adolescência de Aluízio Azevedo e, tive que confessar que não lembrava mais do seu enredo, nem o nome dos personagens me vieram à memória. O meu consolo foi lembrar das palavras de Pierre Bayard que declarou “É, antes de tudo, difícil saber com precisão se lemos ou não um livro, pois, a leitura é o lugar do evanescente".  Reli a obra e, ao contrário da lembrança que tinha, não gostei e cheguei à conclusão também que graças ao tempo apagamos muita coisa da memória. E que, muitas vezes, a releitura de uma obra clássica pode ser uma experiência nova, mas, nem sempre se recupera o prazer que nos deu no passado. Esta, por exemplo, me deu a nítida impressão que poderia ficar no esquecimento que não me teria feito falta. Ainda assim, a memória é tão sábia que, possivelmente, daqui a dois meses, não terei a menor lembrança do que li hoje, mas, é claro, isto somente vale para mim. Tenho alguns amigos que tem uma memória fantástica para coisas inúteis, ou seja, a memória de cada um também é sabia para selecionar (e esquecer) o que nos interessa, ou não.

Ilustração:  www.sul21.com.br

sexta-feira, março 29, 2013

A injustiça tributária brasileira





Entre as formas mais injustas de opressão contra a população surge a feita pelo próprio governo contra os seus cidadãos. E o Brasil, neste ponto, se destaca como um dos países mais injustos e cuja população carrega o fardo mais pesado. Embora, por exemplo, se alegue que o imposto de renda no Brasil é baixo, em relação a outros países, o que há no Brasil é uma maior diversificação de impostos e contribuições que somadas se traduzem numa das maiores cargas tributárias do planeta, um absurdo em função do pouco retorno que temos do estado
Impossível melhorar o país sem melhorar a educação-isto todo discurso político nos impinge mesmo que seja para nada fazer a respeito. Mas, educação tem custo e, no País, muito alto. Como ter acesso à educação com uma tributação como a nossa? Se, até contra a Constituição da República, que recomenda a justiça fiscal, se desrespeita, sistematicamente, ao se passar ao largo da capacidade contributiva ou econômica dos cidadãos. No Brasil não são nem os bancos, nem as empresas, nem os ricos que pagam mais impostos e sim os assalariados e os mais pobres. Como um país assim pode melhorar?
Todo mundo louva a eficácia da Receita Federal. E ninguém discute a sua eficiência. Mas, esta eficiência acaba sendo, na verdade, contra o cidadão, contra o contribuinte que não tem como se defender da forma draconiana como é taxado, inclusive, com reiterados esbulhos que passam pela não atualização das tabelas e por fixação de valores de gastos inverossímeis. O que deveria ser despesa de manutenção, custo mesmo de sobrevivência, é taxado sem perdão como renda. A renda do trabalhador é taxada, na fonte, em 7,5%, se ganhar mais de R$ 1.710, 78, porém, o próprio Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística-IBGE, reconhece que é impossível alguém se manter, ou mesmo pensar em economizar, se ganhar menos de R$ 2.100,00, ou seja, na prática, este deveria ser reconhecido como um piso de manutenção da pessoa que impediria qualquer taxação sobre seus salários.
Uma avaliação criteriosa da cobrança de impostos, que não visasse somente a sanha arrecadatória, jamais poderia tolerar que se fixasse, por exemplo, o custo da educação de um filho em escola particular no valor de  R$ 3.091,35 ao ano. Ou a fixação da despesa anual de um dependente (filho, esposa etc.) em apenas R$ 1.974,72. Ou seja,  que o contribuinte gaste, no máximo, R$ 164,56 por mês para manter vivo um dependente. Quem mantém um animal doméstico, que, convenhamos, tem um custo muito menor, certamente, gasta por mês mais do que isto. Em boa hora a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) anunciou que irá questionar no Supremo Tribunal Federal a constitucionalidade de fixação de limites para tais gastos, indispensáveis à dignidade da pessoa humana, e direito de todos os brasileiros. Esperemos que a iniciativa prospere e que se quebre os ridículos tetos para as referidas despesas.  Vale lembrar que Adam Smith, pai da economia moderna, no século XVIII, já definia e considerava essencial o respeito à capacidade contributiva do cidadão que está previsto na Constituição onde se lê, com todas as letras:
“Sempre que possível, os impostos terão caráter pessoal e serão graduados segundo a capacidade econômica do contribuinte, facultado à administração tributária, especialmente para conferir efetividade a esses objetivos, identificar, respeitados os direitos individuais e nos termos da lei, o patrimônio, os rendimentos e as atividades econômicas do contribuinte.”
O respeito a este princípio é essencial para melhorar a qualidade de vida, gerar desenvolvimento e para o que é, realmente, essencial, que é se investir em educação. Mas, no Brasil, os governantes somente leem a palavra “Sempre que possível...”. 

Ilustração: Antônio Cruz/Agência Brasil. 

quinta-feira, março 21, 2013

A ação da Acrecid no microcrédito de Rondônia




O microcrédito é o termo usado para designar uma variedade de empréstimos que se caracteriza pelo pequeno valor emprestado, geralmente, para pessoas de baixa renda e que, usualmente, não têm acesso às formas convencionais de crédito, ou seja, é mais dirigido aos negócios informais. Sua instituição foi iniciada num certo dia em que o  economista e professor  Muhammad Yunus emprestou 27 dólares do seu próprio bolso a cada uma de 42 mulheres da cidade de Jobra, próxima à Universidade onde lecionava, para que estas pudessem adquirir matéria-prima para confeccionar os seus artesanatos, tornando-as assim independentes das garras de agiotas que as mantinham num regime que passou a emprestar pequenas quantias de dinheiro sem cobrar juros a um pequeno grupo familiar, em especial as mulheres que foram 97% dos 6,6 milhões de beneficiários com uma taxa de recuperação é de 98,85%. No Brasil esta experiência foi implantanda no Brasil em 1973, em Recife e Salvador, com a concessão de crédito para o setor informal urbano.  Tratava-se do programa União Nordestina de Assistência a Pequenas Organizações (UNO).  Em 1987, uma outra experiência foi implantada em Porto Alegre pelo Centro de Apoio aos Pequenos Empreendimentos Ana Terra (Ceape), que depois passou a atuar com  12 centros em vários estados brasileiros.
Em Rondônia numa iniciativa que surgiu do SEBRAE/RO, depois de muitos esforços infrutiferos, se conseguiu, com recursos provenientes do Fider (Fundo de Desenvolvimento do Estado de Rondônia), repassados para a Acrecid- Associação de Crédito Cidadão, uma organização não-governamental, criada em 2001, sem fins lucrativos, com a  finalidade de criar o primeiro programa de microcrédito estadual que, até hoje, oferece crédito a pessoas que têm pequenos negócios, em valores entre R$ 300,00 e R$ 10.000,00. A carência é de 30 dias e o empréstimo pode ser pago em até 12 meses.Inicialmente restrito a sua sede, em Porto Velho, e, hoje, principalmente com o apoio do governador Confúcio Moura, a Acrecid se expandiu e, hoje, atende com postos também em Guajara-Mirim, Itapuã do Oeste, Candeias do Jamari, Espigão do Oeste, Cacoal, Pimenta Bueno, Alta Floresta e Rolim de Moura. Existem já outras iniciativas de microcrédito, mas, a da Acrecid, hoje atuando com a bandeira “Banco do Povo” é, sem dúvida, a mais antiga e exitosa experiência em crédito orientado para o pequeno em Rondônia.
É um trabalho que tem gerado imensos frutos. Estes  recursos, ainda que pequenos diante da demanda, asseguraram o sustento de muitas famílias, possibilitando que pessoas simples possam sobreviver com dignidade. Neste ponto, é preciso louvar  trabalho bem feito realizado pelo presidente Manoel Serra e o diretor administrativo financeiro, Anibal Martins Neto, e sua equipe, que já possibilitaram, com controle e acompanhamento individual, a liberação de microcrédito para mais de cinco mil pessoas, com taxa de juros que variam entre 0,5% e 2%, muito abaixo do mercado. E a maior prova é a taxa de inadimplência quase inexistente mesmo com 60% dos empréstimos liberados, em 2012, sendo entre R$ 1 mil e 3 mil reais. Só no decorrer de 2012, para se ter uma ideia, foram liberados 1.146 projetos com um montante de R$ 4.439.807,30 (Quatro milhões, quatrocentos e trinta e nove mil, oitocentos e sete reais e trinta centavos). É um trabalho que merece aplausos e que, por sua qualidade, deve ser incentivado com mais recursos para gerar crédito para as camadas de mais baixa renda.

quinta-feira, fevereiro 28, 2013

A cachaça dança e rola em direção ao futuro




Li na imprensa que, por meio de acordo entre Brasil e Estados Unidos, a cachaça foi reconhecida como uma bebida genuinamente brasileira. Os produtores comemoraram o fato tendo em vista que os norte-americanos tem se tornado, nos últimos anos, um mercado promissor para a bebida, que ganha espaço com a maior participação do país no mundo. O Instituto Brasileiro da Cachaça, o IBRAC (http://www.ibrac.net/), acredita que vendida com seu verdadeiro nome, unicamente de cachaça, as vendas devem ser impulsionadas porque, atualmente, ela é vendida com o nome de Brazilian Rum, de vez que o rum também é feito com cana de açúcar, o que não permite diferenciar os dois destilados. Com o reconhecimento todo destilado com o nome cachaça no rótulo será brasileiro. Ou seja, é bem possível, que se acrescente aos símbolos brasileiros, além do futebol, do samba e da música, a cachaça, que deve passar a ser internacionalmente mais um ícone da nossa cultura.
É preciso acentuar que, até mesmo internamente, faz tempo que a cachaça deixou de ter a imagem negativa que se associava aos produtos de baixa qualidade e preço baixo, embora ainda continue a existir este tipo de produção, mas, a grande realidade tem sido o avanço das denominadas cachaças premium que são, cada vez mais, exemplos de sofisticação e de esmero na produção tanto que as melhores, que nada deixam a desejar em relação a qualquer outro destilado, são envelhecidas em bálsamo, uma madeira especial e que acabam também custando um preço mais elevado tendo em vista o tempo de envelhecimento. Talvez o melhor exemplo deste tipo de produção, ou as marcas mais badaladas, são a Havana e Anísio Santiago. Cachaças desta qualidade custam até mais do que os bons uísques estrangeiros, porém, existe uma infinidade de cachaças de boa qualidade com preços também que variam com a qualidade, a fama e o tempo de envelhecimento. Assim como o vinho, a cachaça tem que ser estudada para ser bem conhecida e existem bons especialistas no tema. Para quem quiser saber mais a respeito sugiro um sites especializados no tema, como o http://www.mapadacachaca.com.br/ ou www.cachacariameninaboca.com.br, que trazem informações sobre a bebida de pessoas que estudam, gostam e vendem a bebida. Quem pesquisar um pouco na internet descobrirá até mesmo rankings da bebida feitos por especialistas. E verá que floresce também um mercado seleto que é o das cachaças artesanais.
A cachaça levou muito tempo para se tornar uma bebida respeitável, pois, é uma bebida antiga, com mais de 400 anos, e que somente agora, mesmo sendo responsável por 80% da produção de destilados do país, a capacidade de produção, segundo o IBRAC, é de 1,2 bilhão de litros, com mais de 4 mil marcas sendo fabricadas por mais de 40.000 produtores e, embora, a produção seja espalhada pelo país afora são os estados de São Paulo, Pernambuco, Minas Gerais, Ceará e Paraíba que possuem um maior destaque em termos de mercado. E, tenham certeza, não é papo de bar, embora somente 1% da produção seja exportada, a cachaça brasileira tende a ser um destilado que ainda terá muito destaque no mundo. Muitos especialistas apostam que será a bebida que terá maior crescimento nas primeiras décadas do século XXI. Só falta ser tema de carnaval.

sexta-feira, fevereiro 15, 2013

O desperdício de nosso melhor caminho




Hoje, que já ultrapassamos a primeira década do século XXI, criou-se, cada vez maior consciência, de que cidades que possuem universidades tendem a ter um diferencial significativo para gera mão de obra qualificada e ambiente urbano favorável a diversidade econômica e cultural que permite a proliferação e a acolhida de novas ideias. É, como se costuma dizer, um local que tende a ser a estufa do que chamamos de economia criativa, nome que se criou para as atividades econômicas que envolvem as artes, publicidade, cinema, vídeos, moda e até a criação de software e aplicativos para internet. Muitas cidades, no mundo atual, estão atraindo investimentos e conseguindo se desenvolver graças ao aproveitamento deste tipo de vantagem. O Rio de Janeiro, talvez, seja, no Brasil, o melhor exemplo, em especial pela implantação de 7 parques tecnológicos, 20 centros de pesquisa e 22 incubadoras o que, pode não ser uma garantia de inovação, mas, não resta dúvida, que, pelo princípio da quantidade, deve gerar frutos, principalmente, se aliarmos a isto a atração que já exercem as belezas naturais e o ambiente boêmio da cidade maravilhosa.
O Rio é o Rio. Mas, quem disse que apenas o Rio pode ter uma economia criativa? Afinal, se olharmos em volta veremos que Porto Velho, onde, fora a Fundação Universidade Federal de Rondônia-UNIR e o Instituto Federal de Educação Ciência e Tecnologia de Rondônia-IFRO, proliferam mais de uma dezena de faculdades que, em geral, possuem, no mínimo, cinco cursos (com a oferta de três cursos de Medicina), já dispõe de um número extraordinário de mais de 15 mil alunos e, mesmo com suas deficiências de infraestrutura, tem todo o potencial para basear na economia criativa uma estratégia para o seu desenvolvimento futuro. Porto Velho, por mais problemas que tenha, possui uma história de cosmopolitismo que lhe habilita a ter o ambiente necessário para reter talentos, bem, até por sua economia incipiente e sem excelência nos serviços, ser um campo fértil para empreendedores e para o desenvolvimento de inovação. É, com um bom planejamento, por vocação, uma cidade comercial e de serviços que tem tudo para ser uma economia criativa.
E sempre surgem iniciativas de empreendedorismo voltado para este campo que são bem sucedidas. Alguns já se tornaram uma tradição como a Banda do Vai Quem Quer, o Arraial Flor do Maracujá, um projeto como o da versão local do “Sempre um Papo”, os Stand Ups ou o Festcine Amazônia que, em 2013, completou seu décimo primeiro ano de edição, porém, iniciativas novas aparecem toda hora. Não faltam pessoas criativas na capital do Estado de Rondônia, como comprovam as iniciativas do SESC, da Fundação Iaripuna, com o Mercado Cultural sendo o centro de um movimento que só não floresceu mais pela falta de apoio. No escuro da insensibilidade pública muitos grupos de intelectuais jovens demonstram exuberância criativa seja no vídeo, na pintura, na literatura, na música ou mesmo nas artes cênicas ainda que nosso teatro continue a ser uma promessa em andamento. É bem verdade que Porto Velho é até conhecida como a cidade do “Já teve” por ter tido, no passado, muitas coisas melhores, mas, ainda temos muitos talentos desconhecidos criando na escuridão.
O que nos falta? Infelizmente são políticas públicas. Há muito discurso sobre o que se vai fazer...porém, nossa economia criativa, que deveria ser a locomotiva do progresso, continua estagnada num novelo de iniciativas que se acumulam sem gerar a riqueza de oportunidades que deveria. Ainda falta a determinação de aproveitar o filão da economia criativa que esta aí, pulsante, diamante bruto, a esperar que a vontade de um governante iluminado faça seu nome criando beleza, bem estar, prazer e progresso. Quem se habilita? 

Ilustração: www.bahiamercantil.co

sábado, fevereiro 09, 2013

Sobre o futuro de livros, editoras e livrarias




É um fato que, no Brasil, com todos os avanços que existem e um crescimento imenso do comércio eletrônico, a grande verdade é que ainda estamos muito distante das mudanças que já ocorrem nos Estados Unidos com os e-books ocupando um significativo espaço e, obrigando a repensar o livro e sua forma de leitura. Não se pode negar, porém, que o advento da internet, com a invenção e o desenvolvimento de novas plataformas de leitura na primeira década do século XXI, como os leitores eletrônicos e os tablets, tornou mais do que inevitável a questão de modificar a forma como se edita, como se distribui, o formato,  a plataforma e o  meio de atrair o leitor.
Não creio que os livros deixem de existir, pelo menos no horizonte temporal dos próximos cem anos, entretanto, o impacto da evolução que já sentimos o fará, inevitavelmente, mudar. Muitas editoras respeitáveis desaparecerão no processo por não se adaptarem as mudanças dos hábitos dos leitores, e de inovar, seja na aquisição e tratamento de novos títulos, como na sua edição, na distribuição, no marketing e na comunicação. As distribuidoras, com certeza, sofrerão um golpe com o crescimento das venda de e-books. As livrarias tradicionais, que já sofrem com as mudanças, terão que mudar sua forma de ser ou minguarão sensivelmente, como já aconteceu com as lojas de músicas e videolocadoras.   
Ainda assim penso que as livrarias não desaparecerão. Há espaço para que evoluam na medida em que, por exemplo, o conforto de assistir um filme em casa retirou de quem o alugava um alternativa da orientação do lojista, bem como a possibilidade de assistir filmes interessantes graças ao gosto alheio, que era possível descobrir pelas retiradas ou pela recomendação de outras pessoas que se encontrava nas videolocadoras. Lembro que assisti diversos filmes excelentes, a partir de tais contatos. Assim sair, para uma loja de vídeos, músicas e, muito mais ainda, para uma livraria, com mais razão ainda, pode ser uma experiência enriquecedora e uma forma de convívio social sem a qual se cria um vazio para troca de opiniões. E, no caso, do livro, cujo  consumo, e a fruição, requer um maior investimento emocional e tempo, ir a livraria é também uma forma de explorar as opções existentes e ouvir opiniões de outras pessoas sobre as obras. O livro leva mais tempo para ser comprado e consumido, de forma que o futuro das livrarias passa por oferecer alternativas, além dos livros, que tornem o local de comprar livros um ponto de encontro e de lazer.  É verificável que muitos leitores preferem encomendar livro, logo, via internet ou fazer o download direto do e-book para o seu leitor eletrônico, se tem um. Porém, a maior parte ainda gosta de visitar a livraria para adquirir os seus livros. E, se a livraria for competente, fornecendo bons preços, serviços eficientes nada substitui ainda o prazer de manusear os livros, de olhar as capas, de sentir o cheiro do papel, da tinta, de falar com o livreiro ou o autor num lançamento, de conseguir um autógrafo ou mesmo uma dedicatória, de conversar com outros leitores.  Há quem defenda o ponto de vista que o manuseio de um livro é mais envolvente que o de um CD ou de um DVD, e que, talvez por isto, os e-books levem mais tempo para serem aceitos e, para alguns, nunca conseguirão suprir o mercado por completo. Mal comparando, mas, com uma dose aceitável de razão, lembram de que os discos de vinil regressaram depois de quase terem se extinguido com o aparecimento do CD, e pareciam ter ficado para trás com a explosão do digital.  Sem entrar no mérito da discussão folhear um livro é uma experiência  diferente de ler na forma digital e, talvez, leve décadas para os consumidores se acostumarem com este tipo de leitura.
Não tenho dúvidas, porém, que o e-book é o futuro e que se precisa avançar na sua utilização, mas, cabe aos empresários do setor repensar o futuro das editoras e  livrarias. Ambas, para sobreviver, terão que se adaptar a uma nova dinâmica com a oferta de novos serviços e o a qualidade do atendimento e a diferenciação que precisarão ter é essencial para moldar um novo formato sustentável. As livrarias terão que ser mais do que um polo de encontro de livros e terão que se transformar num ponto de encontro de lazer e de alternativas onde as palavras terão seu espaço como parte de um convívio cultural e social.

sexta-feira, fevereiro 01, 2013

O espírito animal faz turismo




Antes de passar algum tempo fora de Porto Velho vi acontecer um fenômeno que identificava como local e, tendo como motivo a falta de planejamento ou de logística, na medida em que, por diversas vezes, numa conhecida padaria local procurava pão manual, no fim da tarde, e não havia. Ou, em dois, ou três, supermercados procurava produtos light e não encontrava praticamente nada do que desejava. Nem reclamando, nem pedindo para que se abastecesse com uma maior quantidade, porém, consegui êxito em ser atendido. Não sei se por acomodação, ou por repetidos erros nas suas estimativas de demanda, foi necessário comprar o que desejava em outros estabelecimentos. Fora do nosso Estado, no entanto, como emagreci dez quilos, precisei comprar umas camisetas e, para meu espanto, o numero que precisei não existia e os tamanhos existentes eram reduzidos mesmo em lojas de cadeia nacional. A explicação que me deram foi de que eram importadas e, como na origem os tamanhos, que se utilizam mais, são alguns médios vieram poucos no tamanho desejado. Houve a oferta de me enviar, posteriormente, mas, no mínimo, duas semanas depois em face do processo de importação ser demorado. A escassez de um item ou outro, numa loja, pode ser indício de sucesso, entretanto, quando a procura, como em janeiro, se reduz parece ser mais indício de uma estratégia errada. Quando, todavia, isto acontece de uma forma geral denota, evidentemente, problemas econômicos maiores.
Esta conclusão tem um reforço consistente na ata da reunião de janeiro do Comitê de Política Monetária do Banco Central (Copom) na qual o BC apresenta um inventário dos dados econômicos que embasaram a sua decisão de manter a taxa básica de juros, a   Selic, em 7,25% ao ano. Pode-se ler na ata do Copom que a recuperação econômica brasileira está menos intensa do que o previsto por “limitações no campo da oferta”. Para o Banco Central as empresas brasileiras não estão sendo capazes de entregar o que os seus clientes querem, na quantidade, preço e prazo que eles desejam. Uma leitura perfeita, no meu entender. E corroborado pelo fato amplamente apontado por diversos economistas de que existe uma sensível falta de investimento privado. Qual a razão se, como apontam os indicadores, o consumo vem crescendo por causa do aumento da renda dos brasileiros de classe mais baixa e pela abundância de crédito? Ou seja, se as empresas aumentarem sua produção encontrarão público para suas mercadorias, então, se o empresário deseja mais lucro qual o motivo para que isto não aconteça? A resposta reside, sem duvida, na mesma razão pela qual houve uma queda forte do setor industrial. Os elevados custos, em especial de impostos, mão de obra e da burocracia, aliado a incerteza do ambiente econômico, tornam mais atrativos para os investimentos nacionais se instalar no estrangeiro. Resumindo a questão, temos a conclusão de que não vai adiantar o governo incentivar o aumento do consumo se não modificar, fundamentalmente, as condições para criar competitividade para a indústria nacional. Sem perspectiva de futuro o espírito animal do empresário deve continuar adormecido em berço esplêndido nas terras brasileiras e somente ser despertado para criar, no exterior, os empregos qualificados que faltam por aqui. Não adianta enfeitar estatísticas de emprego com contratação de mão de obra de baixa qualidade sem crescimento dos índices de produtividade. 

sexta-feira, janeiro 25, 2013

Um adeus a Sued Pinheiro



Escrevo ainda transtornado pelo impacto da notícia de que Sued Pinheiro morreu, ontem, do coração. Sued, mal chegado a casa dos cinqüenta anos, foi um indiscutível amigo e parceiro, nos últimos doze anos, de bons e maus momentos. Uma inteligência notável, inclusive com uma memória prodigiosa, mesmo sendo extremamente polêmico, era, ao fim, uma pessoa de grande coração e sentido de justiça que, muitas vezes, procurou contra seus próprios interesses. Foi, sem dúvida, nos últimos dez anos, uma figura central do jornal Alto Madeira que, sem ele, talvez, não tivesse tido alguns dos seus momentos memoráveis e até travado combates inglórios, porém, de extremo sentido social.
Como muitas pessoas criativas Sued era um inconformado que, na maior parte das vezes, chegava a ser inconveniente ao dizer verdades (e, muitas vezes, elucubrações de meias verdades) que ninguém desejava ouvir. Negava ser jornalista e se dizia publicitário, porém, tinha uma alma de repórter investigativo na medida em que, não só desejava saber tudo, como explicar. Não cuidava de si mesmo, pois, sofria de uma diverticulite que sabia ser necessário operar e estava muito além do seu peso ideal. Ainda assim comia e bebia muito, inclusive refrigerantes e salgados, o que, obviamente, não devia lhe fazer bem. Ultimamente insistia comigo para fazermos uma sociedade e criar um pequeno bistrô tendo como especialidade bacalhau. Antes já tentará me seduzir com a proposta de criar um bar. Não nego que me atraíam suas propostas, porém, uma coisa que Sued nunca teve foi paciência e apego a detalhes que são necessários a um plano de negócio. Seus planos eram realizados a partir de sua cabeça privilegiada, mas, como economista, tenho obrigação de resistir à falta de previsibilidade e de planejamento. Por causa de tais objeções, concordamos em conversar em fevereiro sobre o bistrô. A ceifadora antecipou-se aos nossos planos e levou-o inesperadamente.
Como estou fora de Rondônia não sei se chegarei a tempo de lhe dar o último adeus. Já sinto o vazio que deixa e a falta que fará à sua família e amigos, que cultivava com uma tenacidade diária. Claro que não era uma pessoa fácil nem perfeita, mas, sempre foi amigo dos amigos, um lutador que, infelizmente, se vai sem ter alcançado as glórias que merecia. E há um traço dele que será inesquecível para quem compartilhou de sua amizade: o seu humor. Sued oscilava entre um humor ingênuo, satírico e, algumas vezes, fino e difícil nas suas abstrações demasiado humanas. Com ele morre a coluna o “Candiru do Madeira” que, em certo sentido, ironicamente, tem muito de sua personalidade e de sua alma insatisfeita de ser humano e de artista que, agora, repousa em paz. Com a morte de Sued, Rondônia, Porto Velho, fica, sem dúvida, muito mais pobre de humor, de cultura e de humanidade. E, diante da impotência que nos assoma, só é possível mesmo recordar e chorar. 

segunda-feira, janeiro 21, 2013

Reforma de faz de conta




Reforma, o nome já está dizendo, é algo que se faz quando o que existe tem problemas. Em geral se reforma algo que não está dando certo seja uma casa, uma política ou um governo, no fundo, se precisa consertar algo que não funciona direito. O sentido seria o de melhorar, buscar a solução de alguma coisa ou de mais espaço ou conforto. Ocorre que, em política, como se sabe, reforma vira redistribuição de cargos. E, na grande maioria das vezes, não se melhora, nem se conquista espaço, mas, se faz trocas pela pressão dos problemas políticos, ou seja, quem faz cede às circunstâncias e faz trocas cedendo poder. Não deve ser muito diferente com a reforma que anuncia a presidente Dilma Rousseff que, tem como fito apenas acalmar o PMDB e PSD. Não é uma questão gerencial. É uma questão de tentar rearrumar o tabuleiro do xadrez eleitoral de 2014.
Começa pela cessão ao PSD do recém-criado Ministério da Pequena Empresa. Fruto de pressão das entidades dos micros e pequenos que desejavam mais espaço e, mais uma vez, são frustrados. Como em todas as iniciativas deste segmento o poder federal sempre atende sem nada dar de fato. Nem precisa lembrar do Estatuto da Micro Empresa ou o Simples que, são melhoras pontuais que somem na burocracia, no exercício efetivo. A operação se repete: conseguiram um ministério para, ironia maior, premiar Kassab, um administrador que, por descuido, ajudou o PT!Também se fala, com outros ministérios, em se premiar o vice-governador de São Paulo, Guilherme Afif Domingos, e o peemedebista Gabriel Chalita, ex-PSDB, que ajudou a eleger Haddad. E, se comenta, o PMDB vai ganhar o Ministério da Ciência e Tecnologia. Não serão, pelo jeito, alterações significativas. Só mesmo um cala boca, uns afagos pontuais. Ainda assim Dilma, por menos alterações que faça, até agora, só nos dois primeiros anos do mandato, trocou 15 ministros!
O ponto nevrálgico da questão é de que este tipo de reforma, como tantos outros similares, peca por não ter efeito prático nenhum. Não muda a forma de governar, não aprimora o governo, não se faz em busca de melhor execução e eficiência. Nem mesmo, em termos políticos, faz sentido. Os partidos somente topam entrar neste jogo pelos cargos ou na tentativa de criar feudos, sem preocupação outra que não a de buscar formas de empregar aliados ou gerar fundos, ou seja, plantar as sementes de escândalos futuros. É a partilha de um botim imaginário que pode, ou não, ser concreto. Mas, nada significa, em termos de coalização ou apoio ao governo. É, de ambos os lados, um faz de contas. É só a propaganda de que se muda, mas, somente dançam os nomes em torno das cadeiras. A política real está longe de passar por tais reformas e, se não houver uma mudança real, a fama de “gerentona” de Dilma irá se desgastar com a continuidade da falta de execução e o aumento contínuo dos restos a pagar, que tem sido marca de seu governo. Não será esta reforma que irá alterar os pífios números da economia. É preciso que se mudem os rumos da política econômica. 

segunda-feira, janeiro 14, 2013

Porto Velho está perdendo sua alma?



Sem embarcar no famoso (e inconseqüente movimento “A culpa é das Usinas”) nota-se, nos últimos tempos, um grande desencanto com nossa capital. Em parte isto se explica porque, no passado, havia uma interação muito rica entre as pessoas, uma diversidade cultural e uma melhor qualidade de vida, até de vida noturna, que era palpável e centrada numa série de locais diferentes. Hoje, seja pelo crescimento de igrejas, pela falta de segurança e de transportes públicos confiáveis, houve uma sensível queda dos “terceiros lugares”, locais que não são a casa nem a empresa, como cafés, bares, livrarias, em que é possível estabelecer relacionamentos menos formais. É uma contradição que a modernidade tenha nos dotado do shopping, porém, nos retirou locais tradicionais de encontro e de troca de informações. É uma ironia que o progresso, que nos faz crescer, diminua a qualidade de vida que tínhamos, o que desperta nas pessoas mais antigas de Porto Velho uma certa nostalgia.
Impressionante é que se afirma que, ao contrário de Rio Branco, não temos identidade. Não sou adepto desta tese. Penso que o que parece ser falta de identidade se identifica com o cosmopolitismo que sempre nos caracterizou: fruto de um projeto multinacional, a Madeira Mamoré, sempre fomos voltados para o espaço exterior, para o novo e cultivamos um traço de tolerância e de diversidade que, no meio da selva, sempre nos tornou pós-modernos. Sem que se planejasse, e muitas vezes, de forma planejada, nos constituímos num laboratório de novas experiências, seja a da borracha, da cassiterita, da corrida do ouro, da colonização ou, mais recentemente, da energia. Projetos como planejamento participativo, zoneamento ecológico ou Saída para o Pacífico não brotam aqui, por acaso. De uma forma ou de outra, Porto Velho, ao longo do tempo, tem sido um imã de pessoas criativas de todo o Brasil, e, em certos momentos, do mundo.
O estranho é que, quando nos tornamos um centro universitário, aqui vicejam três cursos de Medicina, e pululam muitos outros cursos universitários, a cidade parece ter se tornado menos atrativa, pior mesmo. Um fator todos sabem que pesa: a péssima governança. O que denominamos de Economia Criativa, as artes, a música, o conhecimento e até mesmo o artesanato e os esportes, se encontra abandonado pelas autoridades. É um sintoma significativo que o Teatro Estadual tenha atravessado diversas gestões governamentais sem ser concluído. Hoje, as pessoas de talento, de cultura, que são a fonte do desenvolvimento, cada vez mais, exigem qualidade de vida e preferem lugares que sejam diversificados, tolerantes e abertos a novas idéias, inclusive sob o ponto de vista do financiamento econômico. É preciso discutir o que se pretende para Porto Velho e que se tome medidas para que volte a ser um pólo de cultura, de criatividade artística, cultural e tecnológica. Se as coisas continuarem como estão, o desencanto, mediado pela violência, o trânsito horroroso, a má educação e a falta de infraestrutura, inclusive de energia, nos deixará, efetivamente, sem alma na medida em que as pessoas de educação elevada e de cultura, que são o nosso principal recurso, desistam da nossa cidade cansados pela falta de oportunidades e de apoio.

Ilustração: fotos.noticias.bol.uol.com.br