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terça-feira, outubro 28, 2008

O PESO DECISIVO DA MÁQUINA PÚBLICA

A mudança é o que deve caracterizar o estado democrático. O verdadeiro democrata é aquele que, mesmo estando no poder, procura realizar a vontade do seu povo e não se eternizar no trono. Compartilho da opinião de que se não há mudança não há é mesmo política. Há a imposição de um pensamento único, de um poder único que, em geral, ignora os desejos da comunidade seja de que haja uma saúde melhor, um transporte público e uma coleta de lixo de qualidade ou, simplesmente, que não mudem o nome ou a mão de uma rua sem que a vontade da comunidade seja ouvida. Assim, por definição, entendo como o filósofo francês Comte-Sponville que a "a política é como o mar; não pára de recomeçar". Por tal razão entendo que a reeleição (que poderia até ser um instituto útil) nas condições atuais é a anti-política, uma opção que, se não for mudada, tende cada vez mais a impedir a mudança.
E quem comprova isto é a história. Basta ver que, desde que aprovada a emenda da reeleição em 1997, que permitiu que chefes dos executivos federal, estadual e municipal pudessem concorrer a um segundo mandato consecutivo, os índices de recondução somente têm aumentado. Se, nas primeiras eleições (em 2000 e 2004), mais da metade dos candidatos que concorreram à reeleição obtiveram êxito quando consideramos a última, sem contar com as disputas do 2º, os índice de prefeitos reeleitos alcançou 70%! E, como se observa, o Estado do Ceará é um exemplo, recordista da recondução de prefeitos com 75% reeleitos, quanto mais pobre mais fácil a manipulação do eleitorado. Será que a administração dos prefeitos é tão boa que de cada dez prefeitos 7 tenha sido reeleitos? Claro que não. A máquina pública neste contexto é uma arma poderosa, principalmente, depois que inventaram o clientelismo oficial dos bolsa famílias. Afora que, nunca antes neste país, existiram tantos cargos comissionados que, como se sabe não querem perder a boquinha, logo foram os primeiros a serem flagrados balançando bandeirinhas nos pit-stops, com gosto ou sem gosto. Sem contar que a intensa propaganda paga que anunciavam os maiores programas do mundo que, se analisados, seria possível verificar possuem resultados medíocres ou um pouco pior.
A grande realidade é que o eleitor ao reconduzir um prefeito, um governador ou um presidente não possuem os mínimos dados para avaliar o seu desempenho. Não se lembram quais foram as promessas do passado nem avaliam o que melhorou ou o piorou. Se há, ou não, melhorias efetivas na saúde na segurança ou na educação.Se o fizessem veriam que os altos índices de reeleição não estão associandos a boas gestões e sim a muito mais dinheiro, mais propaganda e mais clientelismo. Embora esperando que não aconteça é possível que, com a crise mundial, os prefeitos recém-eleitos tenham com comprovar uma maior capacidade para gerir os bens públicos num período de maiores dificuldades e menos recursos. Será uma prova de fogo. Por ora, o segundo turno está aí comprovando com a eleição de Kassabe, Paes e Márcio, o que pesou mesmo foi a máquina pública.

Ilustração: www.rdnews.com.br

segunda-feira, outubro 27, 2008

UM TITÃ DOS NEGÓCIOS

A Marca de Farquhar

Sem dúvida que Percival Farquhar é uma figura controvertida. O que não se pode negar, no entanto é que foi um visionário com o desejo de estabelecer, o que até hoje não foi feito, que é implantar um sistema ferroviário que abrangesse toda a América Latina. Inegável também que, para um filho de quacres que se formou em engenharia pela Universidade de Yale, naquela época ter um grande número de ferrovias no Brasil, de estradas de ferro na Rússia e minas de carvão na Europa Central, além de engenhos de açúcar em Cuba, não era uma tarefa fácil. No Brasil historiadores apontam que tornou-se o maior investidor privado do Brasil, entre 1905 e 1918, e que seu império se rivalizou com o do Conde Francisco Matarazzo e com o de Irineu Evangelista de Sousa, o Visconde de Mauá. E, sem sua ajuda financeira, Assis Chateaubriand não teria feito seu império de comunicações.
Uma acusação que lhe é feita é a de que suas empresas viviam de favores públicos, como se não fosse o modo de agir da época. Em razão dos governos serem muito intervencionistas se tornava impossível fazer grandes projetos sem sua proteção. O que não se diz é que graças a sua iniciativa surgiram inúmeros serviços públicos nas áreas de gás e iluminação, telefonia, hotelaria, madeireiras e inclusive a Vale do Rio Doce, bem como portos e ferrovias. Daí não ser de espantar que digam dele que "teve mais fome de terras do que qualquer personagem da história da América Latina desde o tempo dos incas" (palavras de seu biográfo Charles Gauld). Para quem, como ele, levantava altas somas para financiar seus projetos (dizia-se capaz de financiar qualquer coisa) é evidente que também foi muito hábil na autopromoção de sua imagem, sempre se esforçando para aparecer na imprensa como sendo um exemplo de capitalista norte-americano altamente bem sucedido, um ícone do empreendedorismo, o que não podia deixar de lhe render alguns admiradores na mesma proporção que despertava inveja e até mesmo ódio. Um estrangeiro de sucesso em países alheios, e com idéias próprias, não era para muitos o melhor dos visitantes, principalmente, com negócios rentáveis. E, como Charles A. Gauld, reconhece "O gênio de Farquhar estaria mais do lado da visão e da capacidade de levantar dinheiro para expandí-las do que da administração eficiente e da economia de custos nas suas 38 empresas."
Sua chegada ao Brasil se deve ao distrato com o Bolivian Syndicate e ao compromisso assumido pelo governo brasileiro de construir a Estrada de Ferro Madeira-Mamoré, considerado “um empreendimento obscuro e assombroso, anárquico e absurdo”. Muitos alegam as mortes e os danos ambientais como seu legado, porém, julgam o passado com os olhos do presente. Percival Farquhar é uma figura polêmica, mas, sua grandeza se reflete em que sem seu empreendedorismo Porto Velho não existiria e, sem dúvida, o Brasil de hoje demoraria muito mais a ter os contornos modernos que já possui. Se foi um pirata, como diziam, foi um pirata com visão construtiva. Sua marca de empreendedor permanece muito além de sua vida.

quarta-feira, outubro 22, 2008

AS CRISES SÃO NORMAIS


NADA DE NOVO NO HORIZONTE

Quem entende de economia sabe que as crises são acontecimentos normais e esperados, embora não desejados. Não é de hoje que se estudam os ciclos econômicos, embora de uns tempos para cá, alguns entendam se tratar de um assunto superado. Mas, dizer ciclo já pressupõe profundos distúrbios na atividade empresarial. E, outra decorrência deles, costuma ser que, dependendo da predominância de pensamento, a solução que se propõe seja a de retornar as práticas antigas, ou, que os ciclos ditos “liberais” sejam seguidos por ciclos “estatizantes”, que dão lugar a novos ciclos “liberais” e assim por diante.
Não se pode negar que seja uma realidade histórica a de que a cada ciclo, dependendo de seu tempo, aumente ou diminua o grau de regulamentação e desregulamentação que é sempre desencadeado por crises econômicas. Basta lembrar que a política do "New Deal", do presidente Franklin Roosevelt e de John Maynard Keynes, foi, efetivamente, uma fase de maior intervenção do estado na economia em razão do desemprego e dos impactos da Grande Depressão. Keynes, mesmo raciocinando na intervenção na economia como um remédio de curto prazo, prescreveu volumosos gastos governamentais para recuperar o consumo e se sentiu bastante frustrado por Roosevelt adotar suas soluções, face aos problemas políticos, de forma bastante insatisfatória. Mesmo assim a economia recuperou-se e, até hoje, não se sabe bem o quanto se deve à intervenção ou à eclosão da II Guerra Mundial que importou no uso de toda capacidade instalada norte-americana e do uso das mulheres como força de trabalho.
Keynes, com o sucesso de suas teorias, dominou o cenário econômico mundial e seu pensamento foi incorporado e distorcido. A intervenção na economia que deveria ser transitória, de curto prazo, para seu desgosto se tornou quase um dogma com seus seguidores utilizando a metodologia das contas nacionais para gerir as crises e criar a filosofia do “estado desenvolvimentista” que é uma distorção do seu pensamento, ou seja, o uso do estado para criar o desenvolvimento nacional. Até a década de 70, o que pareceu ser produto das políticas keynesianas, foi absoluto nas políticas públicas, quase uma religião a ponto de se crer que as crises fossem coisas do passado graças ao monitoramento econômico por meio de modelos matemáticos. Somente com a crise do petróleo e o endividamento dos países, que implicou na retomada de um novo ciclo liberal, ou seja, criou-se o que se costuma chamar de “neoliberalismo” houve uma regressão da intervenção na economia e isto, no fundo, derivou da necessidade de uma alternativa para o esgotamento da capacidade dos países de investir.
Este novo ciclo levou ao excesso contrário com uma desregulamentação dos mercados financeiros nos anos 80 e a criação de inovações financeiras, que tornaram mais fácil captar empréstimos de somas cada vez maiores respaldadas em ativos recebíveis que estimularam o crescimento do mercado de crédito de forma exponencial. O mesmo aconteceu com a especulação que foi desvinculando os meios financeiros (derivativos e títulos similares) da economia real. É o fim de um ciclo.
Os ciclos mostram como a economia está longe de ser uma ciência exata e, como depende dos homens e de fatores que ainda não se dominam e, talvez, nunca se dominarão. Não é diferente, aliás, de qualquer outro tipo científico de conhecimento humano, daí que as formulas, as equações e conhecimentos não escapam do reino da incerteza. É claro que, agora, vozes bradam por regulamentações e criticam o excesso de “liberdade econômica”, no entanto, uma coisa é fazer a autopsia do morto; outra é evitar a morte do paciente. O capitalismo está longe do fim. O que se verifica apenas é o que sempre existiu no reino da ciência da produção humana: as crises somente se explicam depois que o estrago foi feito.

terça-feira, outubro 21, 2008

O JORNALISMO SEM ESSÊNCIA

Em busca do jornalismo perdido

Sinceramente sempre tive uma grande atração pelo jornalismo. Aliás, para dizer a verdade começou mesmo pelo rádio com “Jerônimo, o Rei do Sertão” (sei que nem é coisa da qual se fale, pois, já tem mais de cinco anos!). Era pura ficção assim como “O Balança, mas não cai” era comédia. Gostava muito de futebol e futebol, naqueles tempos de Fortaleza, era Paulino Rocha e Gomes Farias (olha o museu). Porém, fui mesmo saber o que era bom jornalismo, fora das páginas de “O Povo” e do “Correio do Ceará”, com os comentários diários de Blanchard Girão na rádio Dragão do Mar. A vida era mansa e as tragédias eram quase desconhecidas. Um morto, uma morte, era um acontecimento que ocupava manchetes só na página de polícia. Hoje, a morte, a tragédia, o seqüestro, o crime ocupa todos os espaços. Por tal razão não choca, não diz nada.
Como no texto de “Uma Autobiografia Imaginária” de Sérgio Sant’anna "No princípio, costuma-se contar rigorosamente os mortos, até que as estatísticas percam toda a sua importância. Um só morto é muito mais chocante e solene que um milhão de mortos.Um milhão de mortos tornam as pessoas habituadas à tragédia. Como nas grandes guerras, com bombardeios pesados e armas atômicas. E quando lançarem a bomba final e apocalíptica que aniquilará a todos, isso não será nem mesmo uma tragédia, porque não haverá nenhuma consciência a refletir o desastre. Será apenas o silêncio e o fim simultâneo de todos, como todos terminam isoladamente, por chegar ao fim. Por encontrar sua própria e exclusiva bomba." A bomba de hoje, que é coletiva, é o descalabro do mundo que se reflete no descalabro da imprensa. É o que sinto em relação ao caso Èloa. Não se tratou de fazer jornalismo. Sim de criar sensacionalismo. E o sensacionalismo não causa reflexão nem busca de soluções. Serve apenas aos poderosos que aplicam a solução que lhes agrada. A democracia não cresce, em eleições como às agora realizada, na qual o senso comum é ofuscada pelo marketing, a racionalidade cede diante do uso (e abuso) do clientelismo e do dinheiro.
Escrevo, evidente, tentando ser a favor do jornalismo. Tentando ir além da imagem, além do senso comum, que é a marca do bom jornalismo. Ir contra esta catarse que faz milhares se comportarem como uma manada indo a um enterro de uma jovem como forma de fuga dos problemas, por pura provocação do sensacionalismo. Dizem que jornalista é um médico frustrado e cruel: mata a informação deixando os zumbis como prova de seu crime. O médico, pelo menos, acaba com a existência. Infelizmente, este jornalismo inodoro, amorfo, que não analisa, que não disseca a notícia, que só entretém os bois, está longe de ser bom jornalismo. A técnica avançou enquanto o cérebro, o conhecimento, a cultura diminuiu. Com ou sem diploma é uma lástima.

sexta-feira, outubro 10, 2008

A ECONOMIA NA CRISE

O Papel Crucial dos Economistas
Em momentos como o atual de crise é que se verifica a necessidade e a importância dos economistas. Afinal é o economista o único profissional que estuda os fenômenos relacionados com a produção, a distribuição e o consumo de bens e serviços que envolvam dinheiro ou não. Neste sentido sua ajuda é indispensável não apenas para entender, bem como construir, ampliar e a preservar o patrimônio de pessoas, empresas e governos. È evidente, no entanto, que, apesar de desenvolver planos para a solução de problemas financeiros, econômicos e administrativos nos diversos setores de atividade (comércio, serviços, indústria e finanças), não possui nenhuma qualidade especial de vidente nem uma varinha de condão com a qual possa assegurar sucesso ou dizer o que vai acontecer no futuro. Seu conhecimento, todavia, facilita em muito os problemas que se pode enfrentar aplainando o caminho, porém, a ciência econômica é dependente da ação humana, logo não pode ter a exatidão da matemática. É sempre um vir a ser que envolve problemas políticos e sociais, daí a dificuldade de se aceitar, muitas vezes, a solução que é lógica para os economistas, mas, incompreensível para a grande maioria. Como futebol todo mundo pensa que é possível entender de economia sem estudar.
No entanto a própria ascensão da economia está intrinsecamente ligada a maior complexidade dos problemas econômicos. No fundo a economia é a forma como os homens resolvem seus problemas de manutenção e sobrevivência. Isto é bem mais simples numa sociedade tribal. Na medida, porém, em que passa a existir a divisão do trabalho, a especialização, o dinheiro passa a ser virtual e a sociedade mundial globalizada, entender de economia passa a ser um ofício que requer muitos tipos de conhecimentos que são essenciais para levar e manter o bem estar para os homens. E quando falamos de bem estar, na nossa sociedade, falamos da produção, do acesso aos bens materiais, do aumento do consumo. São estruturas complexas que alimentam grandes redes e cidades, daí o papel primordial de um profissional se tornou importante por dominar um conhecimento científico que permite que faça análises de estruturas. O economista domina as perspectivas dos homens num ambiente de troca, então consegue formular cenários onde o Estado, as pessoas comuns e as produtoras de riqueza articulam a produção e o consumo para que a sociedade tenha bem estar.Este profissional tem que, obrigatoriamente, ter um conhecimento amplo de política, sociologia e economia. São três campos que têm um caráter abrangente e importância na vida das pessoas. No Brasil, o economista já teve uma importância maior, pois foi o grande responsável pela formulação de políticas que fizeram o crescimento do país.Não por acaso sua perda de importância, e ocupação de espaços, tem empobrecido o debate político, as soluções e as nossas possibilidades de desenvolvimento. É preciso recuperar o ensino da economia para melhorar o nível de nosso bem-estar o que somente se consegue com bons economistas.

segunda-feira, outubro 06, 2008

O PODER AINDA ESTÁ LÁ


AS NUANCES DA CRISE
A crise norte-americana, com a necessidade de um pacote de socorro aos bancos, cria uma polêmica que assalta, muitas vezes, quem não entende o funcionamento do sistema financeiro, que é o da aparência de que, ao socorrer os bancos, se está, de fato, salvando os responsáveis pelo problema. Isto se refletiu no Congresso da maior potência política e econômica do planeta que se viu cercado de forças divergentes. De um lado, pela necessidade de se dar sobrevida ao sistema financeiro do país, cuja falência teria conseqüências graves o mundo. De outro, pelo desgaste político de se injetar dinheiro do contribuinte em bancos que sucumbiram à própria indisciplina e, com o agravante de ser próximo a uma eleição presidencial. O fato é que, se não houvesse o socorro, as coisas tenderiam a piorar muito. O socorro não é, como sabem os especialistas, aos banqueiros e sim ao sistema. O que se salva é, na verdade, o dinheiro das pessoas e não dos banqueiros, como costuma se pensar.
A crise também põe a nu o fato de que a economia mundial é refém da política norte-americana. Ao contrário do que propalam não há um esfacelamento do poderio norte-americano e sim sua efetiva reafirmação. Se a Europa já sente na pele os problemas nem mesmo a China, a propalada nova potência hegemônica, escapa da esfera de poder dos EUA e, caso a crise se agrave, seus efeitos também se farão sentir rapidamente por lá. Afinal, é preciso lembrar que grande parte do crescimento chinês se deve aos capitais norte-americanos e à importação, com os enormes déficits no comércio entre China/EUA. O crescimento, e o capitalismo chinês, são, no fundo, um arranjo geopolítico norte-americano que, assim, conseguiu isolar a China da Rússia e ter um controle sobre a potência chinesa via relações comerciais. Logo é infantil se pensar que os Estados Unidos deixaram de comandar o mundo e o que lá acontece não tem reflexos em países periféricos, como o Brasil. Até Lula da Silva que não entende nada de economia, mas, não é bobo em política, voltou atrás no que dizia para não amargar um revés previsível se as coisas piorarem.
A questão é: vão piorar? A resposta é quem sabe? É evidente que a crise mal começou, porém, não se sabe sua extensão. Só se sabe que levará um tempo para se acalmar. Um, dois, cinco anos? Difícil dizer. Uma constatação, no entanto, é que será menos profunda do que pintam, porém, tende a ser mais longa. Tudo depende. Infelizmente, ao contrário do que gostaríamos, economia não é uma ciência exata e, o que é pior, depende muito dos homens, suas ações e expectativas.