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sexta-feira, julho 31, 2015

Para quem gosta de um bom vinho


Viver em Porto Velho, como em todo lugar, tem seus prazeres e seus problemas. Porto Velho, por sua temperatura elevada e também  uma umidade relativa do ar alta, não é, claramente, o melhor  lugar do mundo para beber vinho. Mas, como tudo muda, inclusive o tempo, também tem seus dias bons para degustar a bebida dos deuses. De qualquer forma, com o calor sendo quase sempre permanente, a cerveja, geladissíma como se bebe por aqui, sempre foi a alternativa mais prática e que melhor apraz aos amantes de uma boa bebida. Apesar de ter consciência desta realidade para pessoas, igual a mim, que sempre mantém uma relação de paixão e deleite em relação ao vinho, abdicar dele jamais foi uma alternativa. Assim, contra a lógica, mantive, durante anos, uma paixão obssessiva pelo vinho que é, até mesmo, uma obsessão infantil, de fato.
Imagine que, numa época passada, dezenas de anos atrás, quando a cidade não possuía boas casas especializadas até mesmo, como estudava o assunto, pensei em tornar o interesse um negócio. Claro que não sou um especialista. Estou mesmo mais para curioso, mas, por minha afinidade com a América do Sul, meu pendor cucaracho, até tentei trazer vinhos chilenos, em especial, argentinos, uruguaios e peruanos escolhidos pelo crítério de qualidade mais preços acessíveis. Um negócio que acabou da melhor forma possível: bebi uma boa parte do estoque. Minhas esperanças de fazer, o que projetei, se perderam nas incertezas da economia brasileira. Na época o aumento da tarifa de importação e o pagamento adiantado do ICMS tornaram meu negócio uma furada. Boa parte do capital se transformou em um líquido prazer consumido em almoços e jantares prazeirosos. De certa forma nada se perde...
A questão que me leva a escrever sobre vinho, agora, é a feliz oportunidade que tive de ir à Londrina em dias que, para mim, são frios. E, com uma temperatura mais baixa, não há opção melhor do que um bom vinho. Uma coisa leva à outra. Como um eterno curioso, um metido a saber do que não sabe, não podia deixar de, aproveitando o tempo, pesquisar mais sobre os vinhos, os sabores, quais estão sendo mais apreciados e, até mesmo, por ossos do ofício, quais os que apresentam melhor custo/benefício. É preciso acrescentar que isto foi feito sob a perspectiva das limitações orçamentárias de um professor. Logo, não esperem que seja o top de linha, mas, o top dentro da linha econômica. Também constatei que, hoje, com a maior variedade e facilidade de importação, conhecer vinhos se tornou um tarefa hercúlea. As boas possibilidades são inúmeras e, mesmo no Brasil, se desenvolveram vinhos que, inclusive pelo preço, são excepcionalmente bons. Dá trabalho também encontrar o que se deseja, porém, é um trabalho prazeiroso.
Fiz toda esta lenga-lenga para dar umas dicas para vocês sobre o que experimentei, ultimamente, e que, com uns bons queijos, umas castanhas e amendoas, é uma boa forma de viver bem. Assim recomendo que se puderem ( e tiver em alguma loja próxima) não dispensem um San Juan Malbec 2013, da Antigua Bodega, um tinto que custa em torno de R$ 39,00. Um Alamos Syrah 2008, da Bodegas Esmeralda também cai bem e é mais barato, por volta de R$ 30,00. Para variar do Chile tem o Surazo Carménere 2006, da Viña Santa Monica, na faixa dos R$ 40,00.  Um uruguaio gostoso demais é o ElegidoTannat, Merlot, 2014, de  Las Piedras / Canelones na faixa dos R$28 a 32,00. Brasileiros? Bem, os brasileiros, com os custos atuais e a inflação, estão caros, mas, o Tannat, mais por causa do tipo de uva, da Marcus James, foi a minha opção. Claro que mais por uma questão de preço. Porém, os brasileiros que fazem sucesso este ano são mesmo os espumantes. Com destaque para o Aurora Espumante Moscatel e o Garibaldi Espumante Moscatel. Também valem a pena o Garibaldi Espumantes Bruit Prosecco e o Marcus James Brut. Ainda brasileiros também o Aurora Reserva Merlot 2011, o Marcus James Brut ou o Salton Reserva Ouro, de um preço um pouco mais caro (R$ 42,00), mas, vale o que se bebe. Claro que tem muita coisa que não sei ou que perdi, mas, posso assegurar que estes que cito já me deram o prazer de uma  boa degustação.


Ilustração: www.sobrevinho.net

terça-feira, julho 21, 2015

As surpresas da sempre surpreendente vida


Havia entre os cientistas que executavam a missão de reconhecimento de Plutão a expectativa de que que o planeta acabaria sendo, como a Lua ou Mercúrio, um planeta cheio de crateras em que nada acontece. Mas, como revelado pela sonda New Horizons da Nasa (agência espacial norte-americana) que sobrevoou Plutão em 14 de julho, pela primeira vez,  via imagens em alta resolução do planeta, a geografia revelada é de um dinamismo e de uma variedade que modificou tudo que se pensava sobre este corpo celeste desde seu descobrimento, há 85 anos.  A paisagem de montanhas geladas, sem crateras e com evidências de processos geológicos encontrada no planeta anão, nos confins do Sistema Solar, deixou toda a comunidade científica perplexa e com a sensação de que as novas informações, que serão obtidas, podem também trazer respostas sobre como se formam os planetas e as origens de alguns elementos fundamentais da vida.
A topografia acidentada de Plutão, sem dúvida, surpreendeu os pesquisadores. Em especial porque as imagens mostram montanhas nos extremos da região que tem uma forma de coração,  batizada  como Região de Tombaugh, em homenagem ao descobridor de Plutão, Clyde Tombaugh, com uma altura calculada de cerca de 3.300 metros,  altitude superior à dos Alpes na Europa ou a das Montanhas Rochosas no oeste dos Estados Unidos. E  alguns pesquisadores trabalham com a hipótese de que podem exsitir ainda montanhas mais altas em outras partes. No entanto, o mais sensacional é que a capa relativamente fina de metano, monóxido de carbono e nitrogênio congelado que cobre a superfície do planeta anão é forte o suficiente para formar montanhas. Isto sugere que se formaram com a água congelada do subsolo, já que o gelo se comporta como rocha sob as temperaturas gélidas de Plutão.  Acrescente-se que as observações feitas do planeta, a  partir da Terra, não haviam detectado sinais de água gelada. Ainda pairam interrogações sobre as descobertas que somente poderão ser corroboradas pelas medições feitas por sete equipamentos a bordo da New Horizons, cujos resultados irão chegar ao centro de controle de Maryland (EUA) nos próximos 16 meses. Mas, não paira dúvidas de que, segundo o chefe da missão, Alan Stern, “Podemos estar certos de que existe água em abundância".

Uma outra grande surpresa é a constatação de que não existem crateras em Plutão. As crateras permitem aos astrônomos determinar a idade de uma superfície, de vez que se é muito antiga terá marcas deixadas por impactos de colisões; se for mais nova será mais lisa, porquê a formação recente apaga as impressões anteriores.As imagensmostram um terreno que parece ter passado por processos vulcânicos ocorridos nos últimos 100 milhões de anos, o que implica numa idade extremamente jovem para a superfície, se considerarmos que o Sistema Solar tem 4,5 bilhões de anos. O tamanho de Plutão também pode ter alguns quilômetros a mais de diâmetro, agora, estimado em 2.370 km, o que equivale a dois terços do tamanho de nossa Lua. A falta de precisão na medição de Plutão desde a Terra ocorre porque, em primeiro lugar, o corpo celeste está muito longe daqui (4,8 bilhões de km). E também porque sua atmosfera cria reflexos capazes de confundir o telescópio terrestre mais avançado. Mas, apenas com os relativamente poucos dados que se recolheu, até agora, já nos presenteou com surpresas maravilhosas, inclusive mudando a concepção que se tinha de Caronte, sua maior lua, que possui penhascos tão profundos como os do Grand Canyon, no oeste dos Estados Unidos e pode ter uma cadeia de desfiladeiros de 800 km. Enfim, nem mesmo Plutão é mais o mesmo. 

domingo, junho 28, 2015

Governo trata inundação como vazamento


Segundo apurou o jornal Folha de S. Paulo, Lula teria estimulado o Tribunal de Contas da União-TCU, para questionar as contas de Dilma Rousseff. Isto mesmo. Segundo publicado pelo jornal “Lula disse ao ministro José Múcio Monteiro, de quem é próximo, achar razoável que o órgão pedisse explicações sobre as pedaladas fiscais”. Parece até coisa de maluco, mas, faz sentido quando se verifica que o ex-presidente, segundo também a imprensa, não tem  tido boas noites de sono com a possibilidade de ser preso em futuro próximo. Possibilidade que se agravou  muito com a homologação da delação premiada do empreiteiro Ricardo Pessoa, da UTC, pelo procurador-geral da República, Janot, “que deve abrir nos próximos dias mais procedimentos" onde, segundo consta, se inclui Lula e Edinho Silva numa primeira fase e, em seguida, Dilma Rousseff. Atente-se ainda que, além da possibilidade aberta de uma futura delação de Marcelo Odebrecht, Lula tem ainda um grande problema em relação a João Vaccari Neto, o dos “pixulecos”, que mandou recados afirmando, segundo o colunista Lauro Jardim, que “Preso, sente-se abandonado pelos velhos companheiros”. Numa situação deste tipo é razoável supor que Lula, buscando evitar a cadeia, manobre para que a queda de Dilma, por fraudes contábeis, esfrie o inquérito sobre o Petrolão. Como não tem mais nada a ganhar com a presidente, é lógico, que sua saída do palco alivie a pressão sobre ele. 
Atente-se ainda que a recente ofensiva do PT, incluindo a entrevista do ministro Edinho Silva, da Secom, ao dizer que o empresário “falou mentiras” é uma tentativa de desvincular os recursos da campanha de Dilma do Petrolão, mas, trata-se de um esforço inútil. O máximo que podem comprovar, o que não evita o impeachment, é que o dinheiro sujo de Ricardo Pessoa entrou legalmente na campanha. Ou seja, foi registrado, mas, isto, na verdade, é uma operação de “branqueamento” de recursos ilícitos. Ora, o grande problema deste tipo de defesa é que há imagens gravadas de Vaccari Neto recebendo propina e que o tesoureiro do PT repassou 31,6 milhões de reais para o tesoureiro da campanha de Dilma Rousseff, Edinho Silva. E, para piorar o quadro, Ricardo Pessoa será ouvido pelo Ministério Público Eleitoral na ação que investiga a reeleição de Dilma Rousseff.  Segundo o Estadão o depoimento do empreiteiro foi marcado para 14 julho.

Evidentemente, da forma como os “vazamentos” vão se acumulando, haverá um momento em que as barreiras, como os muros de Jericó, desabarão, mas, se trata de um processo que ainda leva tempo, com o agravante de que a economia do país continuará a refletir as incertezas e os problemas da política. Bem que o governo tenta criar, como já fez no passado, uma agenda positiva para retomar o controle da imprensa e vender sua versão. Porém, é muito difícil de conseguir navegar contra uma corrente que fica cada vez mais forte. Ninguém pode prever o que virá, todavia, os sinais evidentes são de que, por muito tempo, ainda a pressão contra o governo continuará a se avolumar e, com seus principais protagonistas chamuscados pelo fogo das denúncias, seu futuro parece cada vez mais incerto. E, com tanta água em jogo, o perigo é um tsunami. 

Ilustração: g1.globo.com

segunda-feira, junho 15, 2015

Só pra chatear


Bem, ultimamente, tenho até me recolhido à minha insignificância por vários motivos, mas, o principal é que, sendo uma pessoa democrática e pouco afeita aos debates, em especial os irracionais, não convivo bem com o bom mocismo e a pregação socialista massificada que tem sido feita no país seja por meio de uma suposta defesa dos “mais pobres”, seja por desculpas ambientais ou pela praga do politicamente correto, mas, que, a meu ver, desaguam numa posição fascista na medida em que sempre se procura estigmatizar quem não concorda. E olha que não gosto muito do PSDB, até já votei, como já votei no PT, mas, minhas posições não foram, até onde avisto, próximas dos tucanos, nem me agrada o comportamento dos ditos “coxinhas”, embora, seja uma injustiça com uma comida saborosa, principalmente, se bem feita. Mas, na verdade, o último exemplo de tipo de discussão deplorável que assisto estarrecido, é esta idiotice da menoridade penal que é discutida como se fosse conversa de bêbados em bar, sem a menor consciência ou serenidade, como se fosse uma disputa de torcidas uniformizadas onde o que vale é xingar ou até mesmo bater no outro. E me pergunto, na minha reconhecida falta de capacidade, quantos estão, de fato, habilitados para discutir a questão? Não sei nem pretendo responder. Sei que, hoje, se lê muito pouco e se entende de tudo tanto que, apesar do que já li, me confesso cada vez mais impotente para discutir com as sumidades que pululam nos faces da vida.

Penso que todo mundo que tem um pouco de senso já se indignou com as injustiças da vida. Confesso que já fui um seguidor, um leitor voraz, um marxista convicto. Talvez, tenha lido muito mais Marx do que, para ser modesto, 90% dos que o citam. Mas, até o próprio Marx não se considerava marxista ainda vivo. Depois da queda do Muro de Berlim a defesa de uma sociedade estatal, de uma sociedade coletiva é uma tarefa ingrata e contra os princípios básicos da vida, mas, aparece uma imensa horda urrando bordões ultrapassados ainda crentes que estão salvando o  mundo e,  em geral, guiados por pessoas que somente pensam no poder. Querem “justiça social”, porém, não possuem a menor ideia do que seja “justo”. O maior exemplo é que execram o liberalismo que, queiram ou não, continua a oferecer a menos ruim definição de justiça social que é a de que “cada um deve viver do seu trabalho” e não, como desejam os “justos sociais” que um percentagem de seu trabalho seja apropriado por outro. É justo você pegar uma percentagem daquilo que produzi com meu trabalho? Aqui, vale o pensamento do economista Walter Williams, negro e norte-americano, que sempre foi contra esta teoria torta de ajudar o “pobrezinho”. Escreve ele com precisão: “Se eu vir uma pessoa com fome e então decidir abordar violentamente uma terceira pessoa com o intuito de, por meio de ameaças, intimidação e coerção, tomar o dinheiro dela para repassar ao faminto, o que você pensaria de mim? Creio e espero que a maioria de nós veria tal ato como roubo. Será que tal conclusão muda se nós coletivamente concordarmos em tomar o dinheiro de uma pessoa para alimentar o necessitado? O ato ainda assim seria roubo.  Atos imorais como roubo, estupro e assassinato não se tornam morais quando feitos coletivamente por meio de uma decisão majoritária”. Este é um raciocínio válido e que mostra que a democracia, como todas as coisas, se utilizadas sem o devido peso, sem a razão, não passa de um golpe contra a liberdade. É o que temos assistido no Brasil onde até mesmo a impunidade e  ser uma pessoa acima das leis, está sendo arguida como merecida para alguns que, supostamente, defenderam os pobres, quando só cuidavam de seus próprios interesses. A democracia deve sim ser a vitória da maioria, mas, não pode jamais ser usada, como muitos usam, para aplastar os princípios éticos e o direito das minorias. É preciso lembrar que é justo rebelar-se e que nenhum governo, em nome de qualquer direito, pode se impor usando a democracia para cercear a liberdade. 

segunda-feira, maio 18, 2015

O presente chinês será grego?


As manchetes já festejaram e o governo brasileiro vê quase como uma tábua de salvação a vinda do primeiro-ministro da China, Li Keqiang, com mais de 200 empresários e um pacote de investimentos destinados ao Brasil estimados em 53 bilhões de dólares, que tornaria realidade alguns grandes projetos brasileiros necessitados de capital, como é o caso da Ferrovia Transoceânica, um megaprojeto de ligação ferroviária entre o Rio de Janeiro e os portos do Peru, investimentos em energia, como a linha de transmissão da usina de Belo Monte e projetos industriais, com ênfase no setor automobilístico e de máquinas e equipamentos. Bem, a própria denominação “negócios da China” já traz em si, a ideia de lucros extraordinários. A questão, quando se trata com os chineses, é de perguntar: extraordinários para quem?
Uma das características intrínsecas ao modo de atuar dos chineses, na atualidade, é a de que eles têm sido extremamente competentes na estratégia de oferecer grandes projetos de infraestrutura para outros países que, efetivamente, criam grandes oportunidades para seus investimentos, criam mercados para sua mão-de-obra e exportações, abrem maiores concessões em relação aos seus interesses e passam a exercer maior influência sobre os países que aceitam suas propostas. Não se precisa ir longe para buscar exemplos, pois, aqui do lado, temos o caso argentino que, em troca de financiamento, permitiu que a indústria chinesa inundasse o mercado argentino com centenas de trens de passageiros, vagões de carga e locomotivas, além de outros tipos de materiais, enterrando o pouco que restava da indústria local e, como dano colateral, atingindo também a indústria brasileira que seria um potencial fornecedor de componentes e equipamentos para o setor ferroviário argentino.

Assim, por mais que seja evidente a nossa necessidade de atração de investimentos e de melhoria da logística, a pergunta que não pode deixar de ser feita é: a qual custo? Se, como tudo indica e os chineses são hábeis em pedir, for com a flexibilização das regras de conteúdo nacional para a aquisição de equipamentos, será que vale a pena? Se ampliado o espaço para a participação de investidores estrangeiros nas novas concessões para projetos de infraestrutura, como os brasileiros terão condições de competir contra um investidor chinês em posição privilegiada, sendo, como é,  competitivo na tecnologia, nos equipamentos e com a prerrogativa de contar com o financiamento? É preciso lembrar que, por lá, eles exigem participação dos chineses em qualquer tipo de investimento. Será que, por aqui, haverá, para os brasileiros, alguma contrapartida positiva a estes investimentos chineses? Ou, vamos perder a oportunidade de ter competitividade logística na esteira da construção de uma infraestrutura melhor? Ou, em nome do imediatismo, jogar a pá de cal na já maltratada indústria brasileira? A resposta será dada pelo governo se aceitar, ou não, a “flexibilização das regras de conteúdo nacional” e uma maior “abertura de mercado para exportações chinesas”. É preciso acentuar, parodiando o passado, que nem tudo que é bom para a China é bom para o Brasil.  

Ilustração: img.photobuckey.com 

quarta-feira, maio 13, 2015

A crise é, acima de tudo, política


Quem mora em Rondônia sente os sinais da crise seja no seu comércio, seja na maior dificuldade de arranjar trabalho ou até mesmo na venda de serviços, ainda que temporários. Principalmente os micros e pequenos são os que mais se queixam com a sensível queda da demanda de bens e serviços. A questão não é apenas rondoniense. É um problema nacional. E não se pode nem dizer que não tenha sido anunciada, denunciada e que faltassem avisos. A questão foi que, em especial, no ano passado, com o período eleitoral, o governo se negava a ver os sinais da crise e tomar as providências necessárias e amargas que, agora, vem pretendendo tomar.
Economistas, e estudiosos de desenvolvimento, porém, sabiam, e sabem, que desenvolvimento não é um problema quantitativo, nem de aumento da demanda. Porém, o governo sempre se negou a reconhecer, mesmo quando os adota,  os indiscutíveis méritos do passado, em especial de Itamar Franco e FHC, que controlaram a inflação e permitiram que o país tivesse segurança econômica e previsibilidade. Lula, não teria tido as condições que teve para governar, razoavelmente bem, se não fosse o fato da inflação ter sido controlada, o déficit público administrado e tivessem lhe dado um país com condições de crescer. Mérito seu foi o de manter a política econômica herdada introduzindo mudanças microeconômicas e estimulando a demanda via crédito. O que fez com que houvesse uma grande sensação de melhoria, para a população brasileira, no seu governo foi o crescimento do crédito que, historicamente, sempre foi de 24% e subiu para 48% no final. O crédito, e ainda mais de longo prazo, a melhoria introduzida pela ampliação da bolsa família aliado a aumentos salariais acima da inflação, por algum tempo, criaram a sensação errada de ser possível desenvolvimento sem aumento de empreendedorismo, dos investimentos e da educação. Criou-se a jaboticada brasileira de crescimento via demanda, o que nenhum economista que se preze consegue conceber como nem sequer razoável. Acrescente-se a isto, os erros de política econômica, que não foram poucos, e a crise seria inevitável, de vez que é a cobrança da demanda excessiva, sem base no incremento da produção, uma hora teria que acontecer.

A grande verdade é que a crise tem sua raiz na ideologia de que é possível criar crescimento via o estado e que o estado tudo pode. Esta ideia errada, que levou o governo a manter políticas irreais dos preços da energia e dos combustíveis, além da intervenção desastrada das desonerações, para manter uma situação insustentável, agravaram os problemas das contas públicas e desembocaram nos aumentos da inflação e do dólar. Não há, agora, como esconder que tivemos, nos últimos tempos, uma sensível queda dos investimentos e do Produto Interno Bruto-PIB, por erros de condução da política econômica, nem existem formulas mágicas para sair da crise. O governo, no entanto, continua a não fazer o seu dever de casa quando não diminui a máquina administrativa, não melhora os gastos públicos e é incapaz de conseguir a confiança pública para criar um programa capaz de retomar o desenvolvimento. Por tal razão estamos num momento difícil onde a insatisfação é geral por se cobrar uma conta que, para a grande maioria da população, é indevida e contraria suas expectativas de uma vida melhor. Infelizmente, a crise está aí, e ainda teremos que conviver muito tempo com ela, se não houver um consenso sobre os rumos que o país deve tomar. Sob o ponto de vista econômico há até um consenso sobre as medidas que devem ser tomadas, porém, a economia é, acima de tudo, política e não se avança quando não se tem quem aponte os caminhos e tenha credibilidade para negociar os impasses. Os ajustes propostos pelo ministro Levy tem seus méritos, mas, não bastam para mudar o quadro de estagnação econômica em que estamos e, pelo jeito, sem mudanças políticas, ainda teremos dificuldade para sair do ponto morto por muito tempo. A crise, embora econômica, revela o que as ruas têm denunciado: falta representatividade e capacidade política para atender as demandas públicas que a população exige. Em suma: a crise, apesar de econômica, é, acima de tudo, profundamente política. 

Ilustração: www.jj.com.br

terça-feira, maio 05, 2015

Nem tudo é tão relativo


Não deixa de ser folclórico que, muitas das pessoas que se dizem de esquerda, fiquem babando e rejubilando-se pelo fato de terem divulgado que Vaccari, o tesoureiro petista, possui um patrimônio pequeno, como se isto fosse uma prova de honestidade. Convenhamos que, como em outros casos, é muito provável que os bens e valores adquiridos estejam em nome de outras pessoas ou até mesmo em contas no exterior. Afinal, devemos lembrar que, não é por acaso que a justiça o acusa: inúmeros os delatores que citam sua participação e/ou recebimento de parte das propinas da Petrobras.
Aliás, não é de meu feitio, nem me cabe ficar discutindo culpas. Continuo a dizer que, para mim, a culpa real é a de quem comanda seja a família, a casa, a empresa ou o país. E, neste sentido, é preciso lembrar que o principal acusado de tudo se diz um homem honesto, acima de todas as suspeitas, pelo menos, 90% melhor que todos os jornalistas das principais revistas do país “enfiados uns nos outros”. É claro que tal inocência somente pode ser entendida à luz da ideologia. Como se sabe, no passado, homens como Lenin, Stalin ou Trotsky, utilizaram a versão de que ao revolucionário, ou seja, para quem se diz de esquerda, a mentira, a distorção e até mesmo o assassinato possuem uma conotação diferente, qual seja a de que, como é feito em nome do futuro, do socialismo que, naturalmente, viria, tudo seria válido. Assim, por uma dicotomia bastante conveniente, para uma nova elite, há uma ética para os que atuam em nome do povo e a ética dos burgueses. Assim, quem rouba para o partido e para o suposto futuro, é inocente, por ajudar o curso da história e por construir a utopia socialista. De forma que se, qualquer um de direita, roubar por qualquer motivo será um ladrão mesmo, mas, quem rouba em favor da gloriosa revolução se preso, será, sem dúvida, um preso político. Ou seja, na cabeça de muitos os ideologizados valores como honestidade, respeito aos direitos do próximo, à vida, à liberdade etc., somente se justificariam em função dos propósitos revolucionários. De forma que tudo é relativo e a ética e a política se transformaram em valores instrumentais.
Seria de se esperar que tal relativismo ficasse no passado com a queda do Muro de Berlim e o fim melancólico do socialismo real que deixou suas viúvas inconsoláveis. Mas, não, apesar da evidência histórica, muitos persistem em viver a velha dicotomia entre esquerda e direita e, sob o pretexto de serem os defensores dos pobres, avançam sobre a riqueza de todos brandindo o velho pragmatismo revolucionário. E, mesmo quando se transformaram na elite, e usam (e abusam) do poder durante mais de uma década, se sentem e pregam serem os mais inocentes dos homens por tomar o que não é seu, desde que seja em favor do partido e da revolução, mas, sem abrir mão dos privilégios e das benesses (e muitas vezes alargando-os) que tanto criticavam na velha elite, a quem costumam atribuir tudo que é de ruim inclusive seus próprios erros. É fruto desta distorção mental e do desdobramento de uma lógica infeliz que qualquer um que não concorda com suas teses é perseguido e vira inimigo. Os monopolistas da verdade, e do bem comum, usam o poder que tomaram, graças às liberdades democráticas, para solapá-las e não medem os meios para facilitar a instauração de uma “ditadura do proletariado”, inclusive usando recursos públicos e tentando manietar a imprensa por meio de dinheiro ou até mesmo de supressão das vozes discordantes. O problema é que, num país complexo como o Brasil, é preciso, pelo menos, ter uma gestão eficiente da economia e, neste sentido, o velho hábito socialista de viver somente do trabalho alheio parece que se esgotou. Não é a política quem está enterrando as velhas ideias, mas, sim a economia. O governo vive da iniciativa privada e não pode, como tem sido feito sistematicamente, apenas sugar das classes produtivas sem afetar, drasticamente, os níveis de bem-estar e de crescimento econômico. O fim do ciclo do PT não será alcançado via política e sim pela economia. Pelo fato inconteste de que não há almoço grátis.


Ilustração: coisasamenosbr.blogspot.com

terça-feira, abril 14, 2015

A informação no nosso tempo


Que tudo se acelerou ninguém tem dúvidas. A pressa, que sempre foi inimiga da perfeição, é quem nos escraviza no presente. A pressa e a novidade, ou, se quiserem, a presencialidade que se expressa na visão de que é preciso estar in, estar por dentro, num mundo altamente tecnológico e pós-moderno, ou seja, é preciso estar informado para se decidir. Mas, como estar informado num mundo onde a informação entra aos borbotões? Como tomar decisões onde há um imenso excesso de estímulos, de vertentes que, invés de dissipar incertezas, contribui para aumentar as dúvidas? Afinal com a evolução tecnológica, o volume crescente de dados que chegam por sistemas de informações, por e-mail, twitter, redes sociais, feeds, mídias convencionais, newsletter etc. é tão incrivelmente grande que a esmagadora maioria das pessoas não consegue nem ler e ver o que precisaria quanto mais filtrar o que é importante para direcionar sua vida, seus negócios, suas decisões.
São tantas e tão variadas as informações disponíveis que, por mais que se tente negar, o que acaba tendo, de fato, é  a desinformação.  No meio a tantos dados, de tantos fatos e números, muitas vezes, antagônicos, como não perder tempo e não correr o risco de não divagar ou fazer as escolhas erradas? Não há forma fácil. É preciso se ter uma estratégia de filtragem e uma percepção eficiente do que, realmente, faz, ou não, diferença, por isto, se precisa, como na agricultura, separar o joio do trigo, transformar a massa de dados em informações confiáveis e, o que é muito pior, cada vez mais rapidamente e, não raro, dispondo de menos especialistas que tenham a capacidade de selecionar o que é relevante.  Isto é muito mais visível ainda porque, muitas vezes, como é comum na política, hoje, existem estratégias que visam transformar em verdade, por meio da propaganda, os interesses de certos segmentos, seja na vida, seja nos negócios.
Também até os grandes meios de comunicação, numa política de cortar custos, empobreceram as suas análises e suas redações, de forma que, ao fim, as matérias parecem ter sido padronizadas e reproduzidas em massa. Acrescente-se que, mesmo os grandes analistas que restam, submetidos a um processo massacrante de produção em larga escala, não conseguem ter o tempo hábil para lapidar seus pensamentos e textos. Ainda por cima há um processo, intensivo e on-line, de grupos que se especializam em hostilizar quem não pensa da mesma forma e, não raro, de uma forma grosseira que revela a pobreza de seus horizontes e ideias. A verdade é que a informação, hoje, a informação real é um veio escasso de ouro sob um amontoado de lixo. E é o lixo que se propaga e tenta se instalar como se fosse verdade como se fosse um vírus moderno. E são bem pagos, justamente, o que produzem mais lixo. Por isto há uma legião de desinformados que sustentam até mesmo a ilusão de que é possível alcançar o paraíso sem esforço. E se vende até vaga no céu para quem não tem capacidade de discernir de forma adequada. São os tempos, os nossos tempos.




sábado, março 28, 2015

A crônica dor de barriga brasileira


A prisão de ventre ou intestino preso (termos populares pelos quais são conhecidos a constipação e obstipação) se observa quando a pessoa evacua menos de três vezes por semana. Na prisão de ventre as fezes, geralmente, ficam duras, secas, pequenas e difíceis de eliminar. Algumas pessoas com intestino preso acham dolorido tentar evacuar, e, frequentemente, experimentam a sensação de inchaço e intestino cheio. O fato real é que as funções normais de excreção do corpo não funcionam. Em geral as pessoas, embora se sintam incomodadas, com uma prisão de ventre moderada não precisam tomar laxantes. Porém, para muitos que fizeram mudanças na dieta e estilo de vida, e ainda assim continuaram com o intestino preso, o médico pode receitar laxantes por um período curto de tempo, afim de aliviar a situação. O duro mesmo é quando a prisão de ventre se prolonga, o que requer o uso de medidas mais drásticas que não as caminhadas, beber mais água e tomar os laxantes, normalmente, utilizados nesta situação. É preciso, em casos assim, um acompanhamento médico e, em alguns casos, medidas radicais. E tudo porque um setor importante do corpo não funciona bem e, justo, aquele que precisa expelir os elementos nocivos.
Infelizmente, no momento, o Brasil experimenta uma enorme (e prolongada) prisão de ventre, se formos comparados com um corpo. Efetivamente, para um país funcionar bem é preciso, indispensável que seus órgãos políticos processem bem as demandas públicas. É o oposto do que acontece no país: passamos por uma imensa e crônica incapacidade de processar as necessidades da população, ou seja, de fato, os organismos políticos não funcionam, não processam, nem expelem os materiais nocivos ao funcionamento da política. Estamos sim, emperrados, com um imenso bolo que faz com que os intestinos políticos fiquem presos não por dias, mas, por meses, anos e, o que é pior, o médico que nos trata deve ser um daqueles “sem noção”, cubano do “Mais Médicos”, que não entende nem as causas, nem da prevenção e/ou do tratamento para nos  ajudar a obter alívio.
Acontece que, para sobreviver, o corpo terá que, fatalmente, expelir os elementos nocivos. Afinal, com o constante agravamento da “prisão de ventre”, será impossível continuar negando os fatos. Infelizmente, conforme a experiência nos ensina, a dor irá se tornando insuportável e, com o tempo, será preciso, sem dúvida, buscar soluções, inclusive aquelas que exigem remédios mais drásticos. Não há muito a ser feito. Dor de barriga pode ser ignorada por algum tempo, relevada mesmo, mas, chega uma hora que o corpo não pode mais continuar mantendo o que lhe faz tanto mal. Há certas doenças que precisam ser tratadas e, é claro, quanto mais se demora o tratamento mais problemas teremos para voltar a ter uma vida normal.


Ilustração: www.comocurar.net

segunda-feira, março 16, 2015

O leão está solto nas ruas



Podem tentar esconder, escamotear, distorcer, mas, enquanto a manifestação “chapa branca” da sexta-feira foi um fiasco, um desperdício, por outro lado, tivemos, no domingo, um notável espetáculo cívico. E não há palavra melhor para descrever a horda verde-amarela que invadiu as ruas do Brasil pedindo o impeachment de Dilma e o fim da corrupção, coisas que estão, pelo menos no imaginário popular, amplamente ligadas.
Não se precisa nem discutir a diferença de números alegada. O fato é que um chamamento difuso, sem uma organização centralizada, sem a participação de partidos, sem lideranças claras conseguiu levar para as ruas milhares de pessoas, quase todas com roupas verdes e amarelas, sem apoio financeiro (não se distribuiu nada, nem se pagou ninguém) e até mesmo sem objetivos definidos, palpáveis, senão o de demonstrar sua insatisfação com o governo, não deixa de ser um fenômeno que famílias inteiras, estudantes, donas de casa, crianças, propiciassem um espetáculo de bom comportamento reclamando, democraticamente, contra o um governo inteiramente desacreditado, que diz uma coisa e faz outra e ainda tenta, de todas as formas, descaracterizar quem aponta os seus erros.
Diziam que era um movimento “gourmet”, de elite, que apenas iriam os “coxinhas”. Depois tentaram caracterizar o ato como antidemocrático que eram os que “pregavam o 3º turno” ou até mesmo “a direita fascista” que deseja a volta dos militares. Nenhum dos rótulos pegou. Pegou mesmo, e com o susto da surpresa, as avaliações dos números de cidades, não apenas nas capitais. Os números divulgados pela Policia Militar, que no Brasil, historicamente, sempre faz essas avaliações, foram contestados pelos estupefatos governistas que se negam a ver, o que o país todo já mostrou por meio de diversos panelaços e apupos: o povo quer democracia, de fato, e mudança na economia. O povo de fato está de saco cheio de enrolação, de candidatos que pregam uma coisa na campanha e fazem outra e, principalmente, da corrupção desenfreada que vem ocorrendo, nos diversos níveis governamentais, porém, que, como apontou Eduardo Cunha, tem sua fonte “do outro lado da rua”.

Não importa se foram os mais de um milhão em São Paulo ou se os quinze mil de Porto Velho ou os supostos 50 mil de Brasília. O que importa é que “nunca antes neste país”, nem mesmo Collor teve uma rejeição tão alta. O que importa é que predominaram os gritos de “nossa bandeira não é vermelha e sim verde e amarela” pedindo a saída de Dilma e do PT, demonstrando o cansaço com um governo pelo qual não se sentem representados. E isto é ainda mais fantástico por não se ter visto nenhuma presença política significativa, nenhuma citação, bandeira ou sigla de qualquer partido ou político. Voluntária, ou não, com toda a tranquilidade, transparência, a manifestação pacifica foi um gigantesco e homérico protesto contra o que o governo fez e faz. Foram manifestantes que, majoritariamente, se posicionaram contra o governo. E mais: em todo Brasil. O governo tentará desmentir, negar, dizer que isto é “democrático”, que “ouviu as ruas” e desculpas congêneres, mas, precisará fazer muito. Precisará se mexer, sob pena, de se tornar, em muito pouco tempo, completamente sem a menor representatividade, um governo tão sem rumo e legitimidade, que será impossível impedir que o impeachment seja a única solução possível. Sob a cabeça de Dilma pende a espada da insatisfação popular e esta não se pode comprar com os recursos da corrupção. Será preciso dar respostas às demandas das ruas. 

quinta-feira, março 12, 2015

Mídias sociais tendem a aumentar a influência no consumo


Uma pesquisa norte-americana, feita durante um período de mais de dois anos, pela CivicScience, mapeou o que influencia mais os consumidores na hora de comprar, onde comer e o que assistir: anúncios na TV, propaganda na internet ou conversa nas redes sociais. Observando os resultados durante um tempo a empresa chegou a alguns resultados:
1)      Que a influência da TV sobre o comportamento do consumidor está diminuindo. E mais pelo encolhimento significativo da influência da televisão;
2)      O clima (por lá, é claro) influencia muito. Quando o clima é quente, as pessoas são mais influenciadas pelas redes e com a temperatura mais baixa a influência da TV é maior;
3)      Os anúncios na internet apresentam um crescimento gradual, mas, com menos volatilidade que TV ou mídia social.

O questionário foi respondido por mais de 17 mil adultos norte-americanos e o total de respostas variou entre 2 mil e 5 mil, de forma que se trata de uma pesquisa bastante representativa. Há, no entanto, algumas análises que foram feitas que devem ser levadas em consideração. Apesar de tudo, a pesquisa mostra que existe uma crescente percentagem de consumidores dizendo que conversas em redes sociais são as que mais os influenciam. A proliferação dos dispositivos móveis, por exemplo, é outro fator importante de modificação. Durante este mesmo período de tempo, os dados mostraram que os possuidores de smartphones passaram de 53% para 67%, e os usuários de tablets passaram de 32% para 52%. Ou seja, o acesso a mídias sociais está ficando maior e, por incrível que pareça, isto não significa que há menos gente assistindo episódios inteiros de conteúdo de TV. Estes números continuaram praticamente iguais no mesmo período. Porém, os que se dizem mais influenciados pelos anunciantes da TV são muito mais “tradicionais” nos seus atributos. Eles tendem a ter mais de 45 anos, assistem a mais de quatro horas de televisão por dia, preferem meios tradicionais de comunicação (ligação via telefone fixo) e, a maioria, se não todos, compram em lojas físicas. Eles são mais propensos a dirigirem carros produzidos nos Estados Unidos e a comer nas redes de fast-food. Enquanto que o segmento que alega ser mais influenciado pelos comentários das redes sociais tem certa tendência feminina; são mais propícios a ter entre 18 e 29 anos; dizem ser viciados em devices digitais; preferem comer nos restaurantes casuais ou locais; dirigem carros feitos no Japão; e assistem TV por outros aparelhos. É neste grupo que os anunciantes precisam focar, já que são consumidores que prestam muita atenção em comentários, e o botão de compartilhar está a um toque de distância. A vantagem deste público é que podem ser fortes aliados para a aceitação de um produto. Há um dado importante que é o fato de que os anúncios digitais conseguem atingir no pico 14% dos consumidores, ou seja, não funcionam tão bem, o que é um fator de dificuldade para quem vive de publicidade digital. Vale ressaltar que a pesquisa é norte-americana. Mas, não deixa de ser uma luz de farol para o nosso futuro. Tenho sérias dúvidas sobre sua validade entre nós, porém, não tenho dúvida nenhuma de que o forte aumento do número de equipamentos móveis transforma o mercado brasileiro e, com certeza, modifica também a forma de avaliar os produtos e aumenta a influência das mídias sociais.



sábado, fevereiro 28, 2015

Jogo de velho é videogame


Jogar é da natureza humana. Não vou ao ponto, nem tenho a capacidade de pensamento, do filósofo Johan Huizinga que disse que “É no jogo e pelo jogo que a civilização surge e se desenvolve”, mas, percebo, no meu pobre horizonte de pensamento que, de qualquer forma, na vida, sempre se joga. E ainda, dentro de meus limites mentais, penso que somos bons em alguns jogos e outros não e, consciente, ou não, fazemos escolhas dos jogos que jogamos, porém, ninguém, nem mesmo os críticos dos jogos, deixa de jogar. Em suma, a política, a economia, a vida social, o viver, enfim, é um jogo.
E, sob o ponto de vista científico, no estado de saber atual, se divulga que jogar faz bem ao cérebro. Claro que não falamos do vício de jogar, mas, ao de cultivar o hábito de manter alguma atividade que exija a movimentação do cérebro. Segundo os cientistas, o sinal mais evidente do processo de envelhecimento é a redução da velocidade de absorver novos conhecimentos e problemas de coordenação motora. O motivo da velhice-dizem- não se deve, como se pensava, à perda de neurônios, mas, à diminuição do número de sinapses. De forma que, para eles, a melhor forma de se manter bem é criar novas sinapses. Trata-se de um processo semelhante ao exercício físico que mantém o corpo mais saudável. No caso do cérebro é preciso exercício mental.
Por conta disto se recomenda que se pratique alguns tipos de atividades que fortalecem a capacidade mental quanto mais se envelhece devido à função executiva do cérebro, necessária para atenção, percepção, memória e resolução de problemas, diminuir. Assim praticar leitura com reflexão, aprender uma nova língua, conviver socialmente, praticar exercícios físicos, fazer palavras cruzadas, realizar jogos de memória e praticar diversos tipos de jogos, mais modernamente, os vídeos games são fundamentais para criar novas conexões entre os neurônios, para a criação de novas sinapses.

É fantástico que as novas tecnologias sejam aconselháveis para os mais velhos (e a adesão das pessoas de mais 60 anos à internet, por exemplo, tem sido acima de 50%), porém, é mais interessante ainda que os videogames sejam considerados como excelentes para a prevenção e para o tratamento de algumas enfermidades. Especialistas afirmam que, se usados pelos mais velhos, o videogame melhora o condicionamento físico, a força, o equilíbrio e também ajuda o lado cultural e social. E, pasmem, ao contrário do que seria esperado, quanto maior o período de uso melhor é a concentração, a agilidade e até mesmo o processamento das informações e, meses depois que param, os benefícios permanecem. Confesso que fiquei com inveja de alguns deles que, ao jogar,  se esqueciam de tudo, inclusive mulheres, que deixavam as panelas no fogo queimar a comida. A minha razão é simples. Gosto de jogos. Futebol, basquete, futebol de salão, vôlei. Fui, até certo tempo, um jogador de gamão, um jogador de cartas, não muito aplicado, um razoável jogador de xadrez. Confesso que gosto de bingos, um pouco, e jogo, mesmo contra todas as probabilidades, nas loterias. Afinal jogar é humano,contudo, quando se trata de videogames, sinceramente, devo ter um problema geracional. Não que considere os games estranhos, embora considere muito pouco atrativo o fato de que, em geral, são violentos ou muito competitivos, todavia, me parece sempre como cigarro: algo com que não consigo ter prazer. É claro que isto não vale para os outros. Há pessoas que consideram os games funcionais, divertidos e até instrutivos. Até penso que a experiência com os denominados Exergames, os controlados pelos movimentos corporais e que são utilizados para tarefas e exercícios físicos, devem dar, de fato, alguma diversão, mas, não consigo me livrar da percepção de que os games, talvez, seja a idade mesmo, são algo meio infantil. É claro que esta é uma reflexão que só serve para mim e alguns dinossauros de estrutura parecida. Pelo estado da arte os games geram mesmo benefícios até mesmo sob o aspecto de integração geracional. E se é para o bem de todos, e felicidade geral da nação, digo aos mais velhos, com entusiasmo:- Vão jogar videogames, seus meninos levados! 

terça-feira, fevereiro 10, 2015

Um aniversário sem festa


O PT ao completar 35 anos de história conseguiu um feito inédito, nas palavras de seu guia, como “nunca antes neste país”, partido algum teve. A associação imediata que se faz com o nome do partido: corrupção. A grande contradição é a de que foi um partido que construiu sua reputação brandindo a bandeira da ética, com ferozes ataques aos adversários contra a corrupção! O Lula e seu partido que, agora, são acusados de patrocinar os dois maiores escândalos que o país já assistiu- o “Mensalão” e o “Petrolão” não podia ver, antes, qualquer sinal, de qualquer vírgula errada, sem apontar o dedo, e indignado, gritar contra o assalto aos cofres públicos. No entanto, hoje, diante dos esquemas muito maiores de corrupção fecha os olhos e até indulta e bate palmas para os acusados.
Longe estão os tempos onde Lula acusava Collor, Sarney, Maluf e Quércia de ladrões e o Congresso de ter “300 picaretas”. Hoje, abraça a todos desde que façam o que lhes pede, e o próprio Maluf, numa sincera “mea culpa”, disse que o PT entende muito mais da área do que ele e, perto do que o partido faz, disse se considerar um “trombadinha”. E o partido não vê nada demais no assalto organizado da Petrobras quando, em cima de um simples Fiat Elba, demonizou Collor e o arrastou ladeira abaixo do Planalto. Depois iria tentar o mesmo contra FHC sem sucesso. Infelizmente, a grande realidade atual é que pensar em PT é pensar em corrupção, seja isto uma realidade do partido ou não. Não há como fugir de que a corrupção sob as asas do governo petista assusta pela quantidade e qualidade. E, se antes, ainda podia se alegar que “tirou 30 milhões da pobreza”, hoje, se desconfia, de que seus militantes é que saíram da pobreza e os índices foram apenas manipulados para vender a propaganda eleitoral. Os pobres continuam aí e, pasmem, de um forma crescente vivendo nas ruas, pedindo esmolas e, o que é pior, principalmente os jovens, sem bons empregos, sem perspectivas, assaltando e matando.
Claro que a corrupção não é monopólio do PT. Mas, o agravante é que a corrupção petista assusta também porque nenhum escândalo atingiu figuras tão próximas dos mandantes, nem envolveu figuras tão relevantes de qualquer partido, como são, por exemplo, Dirceu, Palocci e outros tantos do núcleo de poder. Sem contar os “malfeitos” que permanecem sem apuração ou foram jogados para debaixo do tapete. E o agravante maior é o de que, em grande parte, a corrupção petista não foi feita para enriquecer os bolsos dos políticos nem dos empresários. Não. Foi feita por meio de um plano para se comprar o Legislativo, manietar o Judiciário e ter decisões partindo do Executivo que favoreciam a manutenção do poder. Assim, não há como Dilma, por exemplo, não responder pelo que foi feito, de vez que era beneficiária dos recursos usados para se impor aos outros poderes e impor uma pauta política. Fizeram assim da oposição meros fantoches, centralizando o poder e impondo o que desejavam enquanto gastavam milhões fazendo publicidade positiva de um governo que não avançava em nada. O Brasil se tornou um país pouco competitivo e voltou a ser agrário-exportador. Não adianta, hoje, quando colhe os frutos de seus erros, apelar para o “todo mundo faz isto” ou culpar o mensageiro (a “mídia”, sempre acusada de ser a verdadeira oposição) ou vender a versão fantasiosa de que estão querendo criminalizar o PT ou ganhar no “terceiro turno”. É só olhar o que Dilma dizia na campanha eleitoral e comparar com o que faz depois de eleita. É a tempestade que carrega quem semeou os ventos. Nada mais impactante para refletir a decadência e a imagem do partido de que a “piada” que circulou amplamente na internet e fora dela que não houve festa do aniversário do partido porque roubaram o bolo.


segunda-feira, fevereiro 02, 2015

Sem bons horizontes


Bem, mais uma vez, fui assaltado em Porto Velho. Claro que ser assaltado para o brasileiro não é nenhuma novidade. A nossa impotência diante dos assaltos se inicia com o próprio governo que nos mete a mão no bolso sem a menor apelação, pelos políticos que, brandindo a lei e a razão, nos assaltam de diversas formas fingindo nos representar, pela falta dos serviços públicos mínimos. Ainda assim nada nos parece tão invasivo quanto, em plena rua, ser impelido a entregar o seu celular e fazer esforço para nem olhar direito o ladrão porque não se sabe o que ele pode fazer, se não gostar da sua cara. Foi só um celular. E, na hora, com um guarda-chuva na mão, sem uma viva alma por perto, de vez que chovia, ainda pensei diante da autoconfiança do bandido em lhe dar uma pancada com o guarda-chuva e correr, mas, me lembrei, sabiamente, que, um garoto, por causa de um celular atirou e quase mata um conhecido que ficou numa cadeira de rodas. A precaução, o fato de que a voz imperativa, seguida de um xingamento, não era de quem brincava, me fez,  por instinto de sobrevivência-penso eu- entregar com a mansidão de um cordeiro o aparelho. E ainda me culpar por não ter os mesmos laivos de coragem (ou loucura) do passado.
O aparelho, aliás, nem era dos melhores. Mas, a questão não é o que se perde. E a única perda real-para mim-era dos telefones dos amigos. É a sensação ruim de insegurança, de impotência, de, no futuro, não poder, como sempre fiz, transitar por ali sem receio de um novo assalto. Claro que aconteceu por um acaso infeliz, todavia, quem me garante que não acontece de novo? Isto de que um raio não cai duas vezes no mesmo lugar anda muito desmoralizado. E o assalto não foi tão por acaso assim, pois, várias pessoas já haviam sido assaltadas nas proximidades do Porto Velho Shopping e até, recentemente, um jovem que reagiu foi morto. Para quem, como foi o meu caso, conheceu Porto Velho em um tempo onde se podia andar sem susto na noite e deixar as portas das casas e dos veículos abertas, esta violência crescente me faz, de fato, ser mais cauteloso, medroso mesmo. Afinal se não se pode andar armado como se defender se não existe um bom sistema de policiamento? Sei-como muitos fazem questão de acentuar- que se trata, hoje, de um fenômeno brasileiro. No ano passado, de uma forma menos traumática, já havia me acontecido também próximo de casa. Foi até prosaico por ser o dia do primeiro jogo do Brasil e, pasmem, o ladrão queria roubar bebida! Umas poucas garrafas de cerveja que levava. E só me mostrou que tinha uma faca na cintura. E claro que não discuti muito, mas, por sorte, apareceu um policial na hora e fiquei com a bebida e ele ganhou umas tapas.

Não tive tanta sorte agora. Mas, o que me incomoda mesmo é o fato de que há um crescimento da violência que se expressa, inclusive, no uso de armas, de ameaças maiores, de criar o receio de se ir até esquina e, de repente, se perder a carteira, o celular ou até mesmo ser espancado ou levar um tiro. E enquanto a vida piora os impostos só aumentam, aumenta o custo de vida e a insegurança nossa de cada dia. E só nos resta mesmo apelar para a oração, pois, do jeito que as coisas andam não há um céu azul visível no horizonte. As nuvens estão carregadas, negras, muito negras. E tudo indica que as coisas somente tendem a piorar. 

domingo, janeiro 11, 2015

O custo real das campanhas eleitorais

Na campanha eleitoral os candidatos, em especial a nossa presidente, Dilma Roussef, com um marketing afiado, prometeram tudo, se disseram capazes de resolver todas as coisas. Aliás, pelo que se via, e as polianas, os petistas convictos por ideologia ou por dinheiro, atestavam o Brasil não podia estar melhor. O Brasil, pelo que entendi, se é que consigo entender alguma coisa, somente não estava melhor por causa do ambiente externo, mas, por aqui, os nossos dirigentes não erraram nada e tudo permaneceria no melhor dos mundos possíveis, como sempre esteve, pelo menos, depois que o PT alcançou o poder, ou seja, quando, por fim, descobriram ou inventaram este Brasil maravilhoso e novo do presente.
O problema, que, parece coisa de embriagado, é  agora, é a ressaca da felicidade que, supostamente, nos experimentamos. Já no final do ano a energia dava sinais de que seria mais cara, porém, os impostos, aqueles impostos que, no passado, o sr. Lula da Silva considerava exorbitantes, um asssalto ao bolso do contribuinte, que, infelizmente, ao longo do império petista, que também somente haviam aumentado, mesmo com as tais desonerações, só cresce, de vez que o Instituto Brasileiro de Planejamento Tributário-IBPT mostra que estamos próximos já de uma carga tributária por volta de 37%. Agora, eleito, o governo afirma, o que não dizia antes, que os impostos devem ser aumentados, o que nem o sr. Ministro da Fazenda nega, embora tangencie como e de que forma. E, como se sabe, se quando negam, fazem, imagine quando não negam...
E, pelo jeito, os aumentos virão da pior forma possível. Como não existe articulação de nada dentro do governo, nem nas suas esferas, e, se proclama aos quatro ventos, que em todos os níveis os governos passam por problemas de caixa, qual será a solução mais simples e mais lógica? Acertou quem pensou em aumento da tributação. Difícil não é? As prefeituras, logo no início do ano, despacham o primeiro golpe no bolso do contribuinte: o IPTU e outras taxas. Os governos estaduais, porém, não ficam atrás, logo no dia 04 de janeiro, em muitas rodovias do país, os pedágios subiram, de imediato, e o cidadão foi também brindado com mais ICMS, IPVA, cartórios e repasses judiciários e por aí vai. O governo federal segue a cantiga com a tabela fajuta do Imposto de Renda, alíquotas de contribuições, IPI etc.  O problema é que este desespero individual dos caixas públicos pós-eleições, com suas  ações desarticuladas nos vários níveis de governo, possuem um impacto negativo cumulativo que, adivinhem, no bolso de quem vai pesar? Os especialistas falam que serão cerca de mais R$ 60 bilhões nos cofres públicos. Dá para imaginar às custas dos bolsos de quem? Claro que todos desejam que as contas públicas sejam reequilibradas, mas, o problema é que não se cogita, em momento algum, em cortar as farras das despesas, o excesso de secretarias e ministérios, acabar com a farra dos cargos em comissão, eliminar os privilégios gritantes dos diversos poderes.  É do bolso do cidadão comum, e mais ainda de quem depende de salário, que tem seus descontos na fonte,  que se cobra a conta das eleições. E, num momento em que o consumidor está endividado, a indústria com altos níveis de estoque, os juros voltaram a ser um dos maiores do mundo e o investimento está em queda. Ou seja, a perspectiva é de tempos bicudos, aumento do desemprego e o caótico tarifaço que rouba ainda mais a capacidade de gasto das famílias.
E lá vamos nós: sem projeto de futuro, sem visão de longo prazo, sem a menor noção de quando as coisas poderão melhorar e, pior ainda, sem ter para quem apelar. Voltamos aos tempos de  Luís XVI, o último  monarca da França, que, como o governo Dilma e toda a estrutura governamental, somente sabe anunciar novos impostos mantendo o luxo e as mordomias da corte. Só nas redes sociais se exprime uma revolta inócua e, muitas vezes, degradante na medida em que zomba de si mesmo, da situação humilhante de que a elite que pensa (e gera riquezas)  não tem alternativas contra quem nos manda e impõe comer brioches digitais, enquanto se regogizam com vinho Romanée-Conti e charutos Cohiba cubano, verberando contra quem os sustenta e contra a imprensa paga para ficar calada. A economia, é claro, vai se desmiliguindo quando somente se aumentam os impostos e se premia a corrupção. E os nossos dirigentes continuam a se comportar como se tivessem sido eleitos para fazer farra e manter suas mordomias e privilégios sob os aplausos de um povo que pensa que poderá ter na vida sucesso sem estudar e/ou trabalhar. Claro que não estamos ainda no pior dos mundos possíveis. Ainda há muito espaço para piorar. E ninguém tem dúvidas de que temos competência nesta área. Só agora estamos começando a receber, em doídas prestações, a conta do custo da campanha eleitoral.



terça-feira, dezembro 30, 2014

A sombra da retrospectiva de 2014

Que retrospectiva se pode fazer de 2014? Em termos de fatos não se pode dizer que não tenham existido muitos, embora, de fato, o Brasil viva mais de marketing, de escândalos e manchetes do que de qualquer outra coisa. Foi um ano do qual não se pode falar sem citar dois momentos que galvanizaram a atenção dos brasileiros e, por incrível que pareça, ambos marcados por duas grandes decepções: a Copa do Mundo e as eleições. Da Copa não se precisa falar grande coisa na medida em que os expressivos 7x1 são uma clara demonstração de que não somente perdemos, mas, que perdemos vergonhosamente. As eleições não são tão claras, todavia, um exame acurado mostra que foi outra vergonha imensa: os mais pobres e os menos escolarizados, por uma opção imediatista, por pressão, ou mesmo por utilitarismo, escolheram o caminho de mais do mesmo, ou seja, tentarmos manter a ilusão de que é possível ter dias melhores sem esforço, sem trabalho, sem educação e sem um projeto de futuro.
Não entro pelo caminho da corrupção, nem pela estigmatização do PT ou mesmo pelo evidente uso (e abuso) da máquina pública que, se não é nada recente, não justifica quem ganhou o poder em nome da mudança dos costumes. A questão, para mim, é mais ampla. É o fato de que já se havia comprovado amplamente que não se faz desenvolvimento via consumo (embora consumir mais seja um sinal de desenvolvimento), porque consumo é o caminho da procura e desenvolvimento (que, necessariamente, requer crescimento) é um caminho que só se trilha via oferta, via investimentos. A fórmula petista (aliás, gerada mais pelo acaso do que por um pensamento econômico construído) teve seus méritos ao utilizar o crescimento do crédito (em especial de longo prazo) como forma de aumentar o consumo. E foi, por longos anos, um instrumento para dar à impressão que se melhorou a renda e criar uma demanda real maior, mas, alcançou seus limites no endividamento e na falta de um ambiente econômico saudável que pudesse criar mais e melhores empresas e empregos (não os de baixa renda e distanciados dos setores produtivos de maior inovação).
Com os programas sociais diminuindo a procura por empregos se criou a ficção de ter encontrado o caminho mágico de distribuir renda e gerar desenvolvimento a partir do governo e, pior ainda, que o governo tudo pode. Para manter esta ficção (e o poder que ela confere) valeu tudo na última eleição e continuará valendo pelo resto do 2º mandato de Dilma. Porém, que futuro isto nos aponta? Não será, decerto, o futuro prometido, no passado, pelo ministro Mantega que nos prometia 15 anos de crescimento a taxas de 5%. O que vemos, no momento, é a recessão técnica da qual saímos para, quem sabe, crescer 2% no próximo ano. Isto se não fizerem o que vem fazendo, sistematicamente, e não afastam a possibilidade de voltar a fazer, de aumentar ainda mais os impostos. Impostos que já se encontram entre os maiores do mundo e inibem, junto com uma burocracia infernal, os investimentos. De forma que optamos por gerar mais incertezas do que buscar o caminho da mudança. Não tem, portanto, por este caminho, nenhuma possibilidade de voltarmos a ser felizes como no passado. Nem mesmo a possibilidade mais de sermos endividados e felizes. Assim a retrospectiva, seja sob qualquer aspecto que fizermos de 2014, somente pode nos informar que continuamos onde sempre estivemos: empurrando os problemas com a barriga. E que há razões fundadas para pensar que 2015 tende a ser pior que 2014. Não é nada certo, mas, é uma projeção razoável da retrospectiva.


Ilustração: dorescronicas.com.br

quarta-feira, dezembro 24, 2014

Sentimento de Natal


É mais um natal. Os natais passam na nossa vida quase sem nos darmos conta. E, só depois de muito tempo, passei a compreender que cada natal é um natal diferente. Não que o natal mude, pois, na verdade, quem muda somos nós, quem muda são as condições do mundo, da economia, da vida. Não desejo ficar nostálgico nem olhar para o passado, porém, não há jeito. Para quem, igual a mim, carrega muitos natais nas costas, um olhar retrô é imprescindível, inescapável, fatal mesmo. E, por menos que se deseje negar, o natal, realmente, não é mais o mesmo. Também pudera! Qual o natal de comparação? Falar que o natal mudou, como numa série histórica, é preciso que se fixe uma base, um natal que sirva de comparação, uma espécie de natal padrão.
Esta é a grande dificuldade. Se examino o passado, constato, sem muito problema, que, de fato, o natal era diferente. Havia, no passado, uma religiosidade, talvez exagerada, que cercava a data. O natal do passado, do passado dos meados dos anos 60, 70, era um natal que exigia um longo tempo de preparação. Havia todo um ritual de compra dos presentes, das roupas, das ceias. Era, numa má comparação, um carnaval religioso para o qual se passava longo tempo nos ensaios. E a missa do galo era o ápice e o fim de toda a festa. Depois dela já não havia o que fazer, senão dormir e pensar no outro natal. Bem, é preciso acentuar que os natais do passado eram verdadeiros banquetes. Lembro-me que se comia e bebia de forma pantagruélica, abismal mesmo, no melhor estilo dos grandes abades, aqueles que apareciam nos rótulos sempre gordos, rútilos, eternos bebedores dos melhores vinhos, apreciadores dos melhores chocolates e bolos. Eram natais, por assim dizer, religiosos e, ao mesmo tempo, festivais de gula, onde o comércio aparecia de forma secundária. Não se dava, como se dá, na atualidade, uma predominância para o faturamento, as vendas. Hoje Natal bom passa, invariavelmente, por lojas cheias, por consumo, pelo tilintar dos caixas.
A mudança foi imperceptível, mas, com um impacto estrepitoso. O mundo se acelerou. Foram as mensagens, os transportes, as mercadorias, as pessoas e o dinheiro ganhando velocidade. E, de repente, estamos num natal onde tudo parece, como o tempo, digital. As cartas, os cartões de natal, que, no passado, marcavam a chegada do período são, hoje, lembranças dos antigos. O natal, agora, tem uma versão tipicamente digital e nos chega por e-mails, por cartões digitais, por imagens de internet e de televisão. Não há, a rigor, mais preparação para nada. E os símbolos natalinos, como as árvores, como Papai Noel, a ceia, os presentes, as próprias compras ganharam outro ritmo, outra forma de ser. É tudo regido pela pressa e pelos preços. No entanto, hoje, me peguei pensando que, com tudo isto, com tudo que se diz do comercialismo, da falta de sentido do natal, não é que acordei, feito criança que espera por brinquedo, meio alegre, meio envolvido pelo ritmo de natal. Não sei se foi o show, um dos mais fracos que já vi de Roberto Carlos, que me lembrou que o natal existe ou a família, que uma parte está reunida, mas, apesar de não ser o mesmo, estou aqui escrevendo e já pensando na ceia, em beber uma taça de champanhe, em lembrar que ( e olha que nem acredito muito nisto) centenas de anos atrás um menino veio para nos salvar. Enfim, o que quero dizer mesmo, é que o natal mudou sim, todavia, devo confessar, quando chega está época continuo a ficar ensimesmado, pensativo, comovido mesmo. Talvez seja porque sejamos eternas crianças que estamos sempre esperando um presente de natal. De qualquer forma tenho que lhe dizer: Feliz Natal! 


domingo, dezembro 21, 2014

Luiz Gonzaga e Anastácia, o rei e a rainha


Por uma dessas felizes coincidências estava lendo o livro “Eu sou Anastácia-histórias de uma rainha”, da historiadora Lêda Dias, com a própria Anastácia (Lucinete Ferreira), editado pela FacForm do Recife, na mesma semana em que a TV Globo veiculou “Gonzaga- De pai para filho”, sobre a trajetória de Luiz Gonzaga e Gonzaguinha, seu filho. É muito prazeiroso, como nordestino, estar assistindo, mesmo que por um tempo breve, homenagens que são feitas a verdadeiros ícones nordestinos (e brasileiríssimos, por sinal) como são Luiz Gonzaga e Anastácia. Um dos pontos fortes, por exemplo, do livro de Anastácia é, justamente, o fato por seu depoimento amplamente demonstrado, que jamais cultivou, como é usual hoje, o marketing, a busca de se tornar um ídolo, uma estrela. Caminho diferente não trilhou Luiz Gonzaga, que sempre foi o que foi, um operário musical com enorme talento. Luiz se tornou uma lenda muito mais pelo trabalho contínuo, por sua forma de ser e de se comportar, como um sanfoneiro, um artista de sua terra do que qualquer outra coisa. Anastácia, que não teve tanta fama, é sua face feminina. Ele foi uma “Anastácia de calças”; ela, um “Luiz Gonzaga de saias”. Ambos, artistas insuperáveis que percorreram o Brasil, ainda no tempo dos circos, levando beleza e alegria aos rincões mais longínquos de nosso país.
Se, no filme, o destaque está para a vida, nem sempre em linha reta, de Gonzaga e a tumultuada relação familiar, em especial com o filho, o que se destaca no livro de Anastácia é sua coragem, sua ousadia, sua alegria de viver, que se esparrama mesmo nas piores situações. Em ambos as criações tomamos contato com a figura real de Luiz Gonzaga, uma pessoa generosa, mas, ao mesmo tempo, casmurra, com certos padrões nordestinos antigos entranhados que, hoje, seriam considerados “preconceitos”, porém, que revelam os padrões éticos e o caráter de uma certa época, mesmo que com suas contradições, na medida em que não somos perfeitos. Mas, é a humanidade dos personagens, suas qualidades e defeitos que o tornam ainda mais louváveis. Ser artista jamais foi fácil e, ser capaz de ter destaque no meio, exige certos sacrifícios que só compreende quem os enfrenta, embora, hoje, o sucesso, seja, aparentemente, uma coisa mais fácil de ser conquistada.

Todavia, o que se destaca nas figuras de Luiz Gonzaga e de Anastácia não é, simplesmente, o sucesso. É o fato de que se tornaram símbolos, exemplos de trabalho, de determinação, de permanência, de qualidade. São padrões que, de uma forma ou de outra, estão presentes no imaginário popular por sua importância e representatividade. Muitos outros existem que trilharam os mesmos caminhos. Impossível, por exemplo, não lembrar de Marinês, de Jackson do Pandeiro, de João do Vale, de Waldick Soriano, de Genival Lacerda, do Trio Nordestino e do próprio parceiro maior de Anastácia, Dominguinhos. São nomes de pessoas, entre muitas outras, que, no Brasil do passado, enchiam os circos de plateia, levavam multidões aos auditórios de rádios e televisões, encantavam cantando nas ruas, se necessário. São artistas que, em Luiz Gonzaga e Anastácia, tiveram representantes máximos do forró, do baião, do maxixe, de canções de amor e de sofrimento que marcaram e marcam a alma nordestina. Luiz e Anastácia, são, de formas diferentes, os expoentes máximos de uma época, embora ele o seja pelo todo de sua obra e ela, pela sua capacidade de transformar em canções a vida de seu povo.  

sábado, dezembro 06, 2014

A fé que nunca se acaba


Parece, hoje, até brincadeira, mas, a grande verdade é que, quase, mas, quase mesmo, fui um dos fundadores do Partido dos Trabalhadores em Rondônia. Na época era muito amigo, e compartilhava as ideias de esquerda, de muitas pessoas com as quais até mesmo criamos um centro, que editou uma única revista e promoveu um único seminário, para discutir as eleições e as ideias vigentes. É certo que já sabíamos dos problemas políticos do socialismo, porém, nem o muro de Berlim havia caído, nem, como veríamos depois, todo socialismo pode ser tudo menos democrático, na medida em que o estado passa a tudo gerir o que, de partida, exige um partido único e a obediência cega aos governantes. Fora disto não há socialismo possível, de vez que o estado tem que organizar a economia. Não participei do PT por já, naquela época, ter um membro do partido caído de paraquedas para comandar os locais.
Bem, mas, isto é passado. Importa dizer que, naquele tempo, havia fé. A fé na revolução operária. A fé, vinda de uma teoria que tinha razão de ser na época da produção industrial, das massas compactas de operários. O tempo, e a falta de base da teoria de produção marxista com o fim da teoria do valor trabalho, reduziram o edifício teórico compacto de Marx a ruínas que, os seus crentes, procuram remendar sem sucesso. Uma teoria geral da sociedade, do movimento, como sonhou o velho sonhador alemão, é uma utópia irrealizável. Assim, quem pensa, quem raciocina, sobre a realidade concreta ou, como queiram os marxistas, sobre as “condições objetivas” não tem outro horizonte que não o capitalismo que, pode ser melhor, ou pior, de acordo como se organiza a sociedade. Esta é a realidade. Ser esquerda, esquerda moderna, hoje, é desejar promover a inclusão e não o sonho caduco dos Ches, dos Chavezs, dos Fidels da vida, que são múmias ambulantes do pensamento, pré-históricos mesmo.

Por mais que os petistas neguem é este o sonho último que os alimenta. Basta ver a admiração e os afagos deles a pessoas como Putin, Castro, Maduro et caterva, para colocar ao sol o amor nutrido por totalitarismos. Acontece que a riqueza para existir precisa ser gerada. E governos não geram riquezas. Administram o que retiram da sociedade através de impostos. É muito bonito falar em direitos, porém, não há almoço grátis. E o PT prega o almoço grátis para todos. É correto dizer que o partido tornou universal um programa de assistência social cuja abrangência não era satisfatória. É fato também que o PT, por outros interesses até, incentivou o crédito ao consumo, que possibilitou a muitos a aquisição de bens de consumo. Porém, é melhor parar por aí. A ideia de que o PT melhorou a vida do país é mero efeito de marketing. A dívida pública, de R$ 4,4 trilhões bate recorde histórico, o país perdeu participação no mundo, o governo Dilma é o de menor crescimento da história, mas, o pior é a perspectiva de futuro (até esqueço a corrupção alastrada). A verdade é que ambientes que criam riqueza necessitam de estabilidade e de contraditório. Não o do “nós x eles”, o de dividir para conquistar. Como ter um ambiente propício ao contraditório tentando impor um discurso único como o PT deseja? Como vai se estimular o consumo, sem aumentar a produção, como distribuir riqueza, e não criá-la? Onde o estado é um ente centralizador o que se cria é pobreza. Das duas uma: ou há uma enorme fé no equívoco, na dogmática certeza de que o estado é o caminho para criar riqueza ou estamos, contra todas as teorias econômicas, utilizando uma receita que incentiva o consumo, mas, não dá a mínima atenção à criação da riqueza, o que é um amadorismo imperdoável. Queiram, ou não, os petistas não há salvação fora do mercado. E se as regras do jogo mudam durante o jogo quem vai querer jogar para perder? E mudar as regras sem a atenção ao prejuízo alheio é o que os governos do PT mais tem feito. O resultado é o que temos visto: menos investimentos, crescimento pífio, descrédito no governo. E, enquanto houve um crescimento geral dos países emergentes, na primeira década do século XXI, nós continuamos a patinar sem um horizonte visível de melhores dias. E é bem possível, muito provável até, que com qualquer outro partido político governando, com ideologia que não seja igual ou pior, com certeza, o padrão de vida geral tivesse melhorado muito mais. Claro que não adianta discutir isto com os religiosos petistas. Eles acreditam em Lula e Dilma contra todas as coisas e fatos. É a fé que nunca se acaba.