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terça-feira, maio 10, 2016

OS BONS EFEITOS ECONÔMICOS DA LAVA JATO



A grande verdade é que, apesar das mudanças não acontecerem de uma hora para a outra, a Operação Lava Jato, com todos os problemas e objeções que possa ter, já mudou a realidade da justiça brasileira. Um sintoma evidente disto aparece, por exemplo, agora, quando, numa atitude inédita, a empreiteira Andrade Gutierrez, que aceitou pagar R$ 1 bilhão de indenização como pena, em nota, pede desculpas ao povo brasileiro reconhecendo que "erros graves foram cometidos nos últimos anos e, ao contrário de negá-los, estamos assumindo-os publicamente. Entretanto, um pedido de desculpas, por si só, não basta: é preciso aprender com os erros praticados e, principalmente, atuar firmemente para que não voltem a ocorrer". A empresa também diz que vai colaborar com as autoridades no decorrer das investigações e informou que concluiu a negociação de acordo de leniência com o Ministério Público Federal, iniciada em outubro de 2015.  
É um notável avanço na medida em que, como se observa, corriqueiramente, a prática das empresas, e das pessoas, tem sido sempre a de negar a realidade, mesmo diante das evidências e provas factuais. Em grande parte, este comportamento advém da histórica impunidade dos brasileiros mais poderosos e ricos e, neste sentido, também a Lava Jato inova ao demonstrar que ninguém, mas, ninguém mesmo, está acima da lei. Mas, isto somente foi possível pelo apoio da sociedade inclusive porque, como muitos são os atingidos, se busca mesmo nublar os fatos, distorcer uma ação que é apenas de aplicação da lei, da justiça como deve ser feita, sem considerar a posição da pessoa que comete o crime.

No seu desenrolar a Lava Jato revelou, com clareza, que as relações entre o governo, as empresas e os partidos criaram esquemas dolosos que, além de drenarem recursos públicos para fins ilícitos, criaram um ambiente econômico profundamente perverso no qual desaparece a concorrência e as boas práticas de mercado substituídas pelo apadrinhamento e um sistema de exclusão dos que não participam do clube da propina. Desta forma, sob o ponto de vista econômico, é o oposto da tese que muitos políticos defendem: a Lava Jato é muito saudável para a economia. Insalubre mesmo é a corrupção sistêmica, a combinação de preços, prevista como crime na legislação, que tem, como agravante, o superfaturamento de obras. Se, é lógico, no curto prazo, a renda e o emprego são afetados pelas punições da Lava Jato, sua ação tem o efeito corretivo de reduzir a corrupção, de injetar transparência e imparcialidade nos negócios públicos e colaborar para um ambiente econômico futuro melhor. A experiência comprova que não se constrói desenvolvimento sem regras claras, sem transparência e sem concorrência, em especial nas relações entre o governo e os fornecedores. Ainda que, amanhã, a Lava Jato possa ter seus efeitos diminuídos por outros fatores, sem dúvida, já obteve um efeito saneador ao expor as práticas ilegais e punir os infratores da lei. De qualquer forma será impossível entender este momento brasileiro sem levar em consideração os efeitos benéficos que estão sendo obtidos para a construção de um país com mais justiça e eficiência. 

domingo, maio 08, 2016

A RECONSTRUÇÃO NECESSÁRIA


É claro que os que usam viseiras ideológicas, que são bem menos do que se possa imaginar, e os que ganharam ou ganham, ou queriam ganhar com o governo Dilma, vão continuar sempre a dizer que o impeachment dela é um golpe. Se foi um golpe foi o primeiro golpe popular da história brasileira. Há até mesmo os mais sem parcimônia que utilizam a velha e surrada defesa de que só os governos do PT fizeram algo em favor dos pobres. O grande problema disto são os números, que, apesar de imensamente torturados nos tempos atuais, não conseguem mais esconder o malogro inevitável de um governo que teve como pretensão contrariar a lógica mais comezinha. Basta apontar que não existe um caso de desenvolvimento real via estado. Países desenvolvidos, todos os conhecidos, são de livre mercado e, mais do que isto, só com livre mercado pode existir liberdade.
Mas, os pecados dos governos do PT, além do pecado original de desejar que o estado dominasse tudo, passam também pelos erros primários de condução da administração pública. Lula, que saiu com uma aprovação recorde, no seu primeiro governo foi responsável pelo “Mensalão”, obra que por si só, já merecia o impeachment que ele havia pedido para todos os governos anteriores. E mais responsável ainda por, quando navegava em mar de brigadeiro, tendo herdado um país com todas as condições de criar um futuro melhor, sentou-se em cima do marketing para refazer sua própria biografia e não moveu uma palha para modernizar o país, melhorar a gestão pública, mudar a sociedade e, para completar a obra pífia, elegeu uma pessoa sem nenhuma experiência política, que não se elegeria a síndico de seu prédio, para governar o país vendendo a imagem de eficiência gerencial que, como seria de se esperar, foi decepcionante.
O governo de Dilma, por herança e continuidade do populismo barato, levou adiante a farsa de criar desenvolvimento via crédito e consumo, algo insólito na história humana, e acentuou, aliás, acentuou não, potencializou os erros nas políticas relativas aos combustíveis e à energia, área em que, supostamente, Dilma seria uma especialista. As denúncias da Lava Jato, a descoberta do Petrolão, foi a cereja do bolo. Se há um golpe é, sem dúvida, um golpe popular e legítimo. É o golpe do povo que foi às ruas dizer que precisa de um governo que cumpra seu papel. O governo Dilma chegou, e foi um pouco além, do limite suportável. E a classe política, verdade seja dita, foi empurrada, impelida a catapultá-la.
Por esta razão nem mesmo se espera muito do governo Temer, principalmente, porque o Brasil pós-PT é uma terra arrasada. Serão preciso muitos anos somente para recuperar o estrago de dois anos de Produto Interno Bruto-PIB caindo numa média de -4% e para recuperar a destruição das finanças públicas, porém, pelo menos, o Brasil passa a ter esperança em um governo melhor, um governo que, em primeiro lugar, faça o dever de casa, controle as finanças, para podermos retomar o desenvolvimento. O momento é de buscar reconstruir o país dos escombros de uma política ruinosa para o nosso futuro. Claro que desejaríamos ter políticos melhores, porém, não se pode fugir da realidade de que teremos que trabalhar com as cartas disponíveis e exercer a cidadania da forma como foi feita para limpar o caminho da reconstrução. 

domingo, maio 01, 2016

A FELICIDADE E O CRUEL PENSAMENTO DE FREUD


De repente, deve ser culpa dos tempos, me vejo refletindo sobre a felicidade. É preciso acentuar que sempre alimentei a ideia, ligada ao pensamento do inglês Bertrand Russell, do livro “A Conquista da Felicidade”, de ser necessário, para tentar ser feliz, alimentar uma multiplicidade de interesses e de relações com as coisas e com os outros homens. Para ele, em síntese, a felicidade seria a eliminação do egocentrismo. Neste sentido, o que não deixa de ser verdade, é impossível ser feliz numa sociedade infeliz. Não muito diferente do pensamento, por exemplo, de Freud que, num estudo que tem menos de psíquico do que de filosófico, conclui em “O Mal Estar da Civilização” que, face às exigências impostas pela civilização, a felicidade é uma meta irrealizável.
É evidente que a ideia de felicidade é indissociável da ideia de prazer. Aliás, prazer e desprazer são conceitos fundamentais para se entender a concepção de felicidade. No terreno filosófico sobre o qual Freud edificou o conceito de prazer sua leitura é de uma crueza e precisão impressionante. Só rememorando: acentuava que o princípio de prazer é um modo de organização que, governando o psiquismo do início da vida, baseia-se na busca de prazer, mas, também em evitar o sofrimento. Freud é cético e clínico a respeito:
[...] o programa está em desacordo com o mundo inteiro, tanto com o macrocosmo quanto com o microcosmo. É absolutamente irrealizável, as disposições do todo – sem exceção – o contrariam. Diria-se que o propósito que o homem seja “feliz” não está contido no plano da “Criação”..

Para ele, portanto, se fazia necessária à introdução do princípio de realidade. Manter uma condição subjetiva de prazer sem desprazer é uma meta inalcançável. O mundo externo não nos permite a satisfação irrestrita, fora as questões psíquicas, como o tempo curto do prazer, a necessidade do contraste, ou seja, como ter prazer sem desprazer? Freud, é, para não ser pornográfico, um torturador mental de alto estilo, ao ressaltar que, sob o ponto de vista psíquico, há uma outra explicação para o fato do princípio de prazer ser irrealizável: a idéia segundo a qual a felicidade está relacionada ao estado zero de tensão, ou seja, à morte, sendo, nesse caso, incompatível com a vida, por conta da própria constituição do psiquismo. E, com a frieza de um estatístico, Freud nos afirma que as possibilidades de sentir infelicidade são muito maiores. A infelicidade provém do corpo, do mundo externo e dos relacionamentos humanos. Neste sentido, parece que ao seguir Russel e o grande neurocientista português, António Damásio, tenho navegado contra a corrente. Se for levar em conta Freud melhor é ter menos, inclusive relacionamentos, notícias, informações e até mesmo desejo de felicidade. Subjacente ao que diz, os homens que reduzem suas reivindicações de felicidade vivem melhor e são mais felizes somente por terem escapado ao sofrimento. O que me parece, apesar de como filósofo me encontrar num estágio mais rasteiro do que peito de cobra, é que, nem sempre o que se pensa, corresponde aos desejos, à capacidade psíquica e do corpo. Muitas vezes, abrir mão de algo é muito doloroso. Sendo assim como diminuir as reivindicações? Freud que me perdoe, mas, vou ouvir música. É muito desprazer ver que nos fornece uma análise pessimista, dura e implacável: a promessa de felicidade é uma miragem da sociedade moderna e, sob o ponto de vista filosófico, está destinada a permanecer nada mais do que uma promessa. Felicidade foi embora! 

Ilustração: http://divagacoesligeiras.blogs.sapo.pt/. 

sexta-feira, abril 29, 2016

O DISCURSO INSENSATO DOS NEOSOFISTAS


As participações, a chamada “defesa” da presidente Dilma Roussef, na Comissão especial de impeachment do Senado, nesta sexta-feira, somente podem ser classificadas de um teatro mal enjambrado. Se não houvesse já uma melancólica nomeação de um ministro de Turismo que parece mais uma piada sem graça, o que o ministro da Fazenda, Nelson Barbosa, fez, sob o ponto de vista técnico, não deixa de ser um strip-tease intelectual contra toda argumentação lógica, pois, nega que o governo tenha praticado fraude fiscal ao editar decretos para liberação de recursos suplementares ao orçamento em 2015 afirmando que os fez! Também chega a ponto de dizer, sem o menor pudor, aos senadores, que Dilma está isenta de responsabilidade na liberação de subsídios do Plano Safra, programa que, segundo a denúncia por crime de responsabilidade contra a petista, foi alvo das chamadas pedaladas fiscais. É ou uma confissão de completo desconhecimento, o que não é aceitável num ministro de uma pasta como a Fazenda ou, como afirmaram senadores, uma completa distorção dos fatos. Comprovadamente, é documental, inclusive atestado pelo Tribunal de Contas da União-TCU, que tanto foi feita a liberação de crédito suplementar sem aval do Congresso, por meio de decretos não numerados, como existiram os atrasos no pagamento de subsídios do Plano Safra, os dois argumentos usados pela Câmara dos Deputados para dar seguimento ao processo de impedimento. Afora muitos outros que já justificariam o afastamento, mas, os interesses espúrios limitaram o pedido a estes. Um escândalo, como o Petrolão, em qualquer país democrático, enterraria qualquer governo ou participante dele, como é o caso de Dilma.
Somente a dificuldade técnica do entendimento permite que se tente, como se tenta, dizer que não houve o que é flagrante. E mais: se joga com dois argumentos completamente furados. O primeiro de que foi feito no passado e não se responsabilizou os outros. Ora, este é um argumento maravilhoso. Digno de um advogado de porta de cadeia: houve roubo sim, mas, outros também roubaram e estão soltos! Me poupem! Mas, o segundo não é menos indigno. Alega-se que os créditos feitos à revelia da lei tinham finalidade social! É um exercício permanente de sofisma, como a história de dizer que é golpe o que a Constituição permite ou que é golpe por não ter fundamento (o que, pela lei, é atribuição do Senado dizer se existe ou não), o que mostra, de forma clara, o comportamento continuado da falsidade, de promessas e dados, da administração Dilma. A falta de bom senso e noção de realidade é tão grande que o senador Jorge Viana, em programa de Miriam Leitão, tem o desplante de dizer que Dilma vai deixar o Brasil melhor do que FHC deixou, agredindo os índices econômicos, e o advogado geral da União, na comissão do Senado, defendendo o indefensável, não cora de vergonha em dizer que Temer não tem legitimidade por “não ter votos” e que, por isto, não pode assumir a presidência quando, é cristalino, para qualquer iniciante de Direito, que vice é eleito e, constitucionalmente, sua única função é substituir o titular nos impedimentos. Constituição, leis, documentos, lógica, verdade, nem cerca de 80% da população pedindo a saída da presidente, nada disto importa. O que importa é se manter no poder e, sem pudor nenhum, fazem tudo para não largar o osso. O problema é que o País não aguenta mais os neosofistas. A economia é mais forte do que qualquer discurso falso quando começa a doer no bolso.


quinta-feira, abril 14, 2016

A DERROTA JUNTO COM A DESONRA


O impeachment será inevitável. Se, não ocorrer agora, tornará o país um barril de pólvora. Não há golpe, mas, sim rebeldia, manifestações espontâneas da população que não deixam dúvidas sobre a repulsa às pretensões hegemônicas do PT. Podem dizer que não foi o povo, mas, foram as massas populares mais conscientes, as mais informadas que se mobilizaram nas redes sociais e nas ruas, que mostraram aos políticos tradicionais que repudiavam o governo, a soberba e a prepotência da presidente Dilma, a ineficiência do governo e a complacência, e porque não dizer a cumplicidade dos partidos da base aliada. Foi o povo e a imprensa, que o governo petista tentou manietar, mediante verbas e ameaças de regulamentação, inspirado no modelo chavista, que fizeram com que o governo chama de “golpe”, na verdade, seja um “contragolpe”. O povo e o jornalismo livre cumpriram o seu dever na defesa da democracia e impuseram, mesmo aos políticos áulicos, o impeachment. É verdade que um segmento importante do MP, da Polícia Federal e da Justiça também fizeram a sua parte, inclusive o juiz Sérgio Moro, que democratizou o Código Penal, remetendo ao cárcere grandes empresários e notórios malandros da vida pública, que acreditavam na impunidade pela força do dinheiro, mas, nada seria possível sem a mobilização popular. A classe política, porém, aparece de uma forma decepcionante. Mesmo o PMDB, que é essencial para a mudança, compareceu muito ao reboque dos acontecimentos. É verdade que mamaram nas tetas, todos mamaram, mas, são políticos e, como políticos, tem a necessidade imperativa de dinheiro para sobreviver, mas, esta sobrevivência não pode abrir mão de representar a vontade popular sob pena de ser  o que se tornou o governo Dilma, uma fraude completa.  Lembro das palavras de Winston Churchill,  afirmando que “pior do que a derrota é a desonra”.  Lula e Dilma não tem nem sequer a capacidade de preservar o respeito que poderiam adquirir se cedessem à vontade popular. Vão tentar prolongar a posse do poder até o fim. Vão prolongar o nosso sacrifício por absoluta falta de bom senso e visão de futuro. Serão enterrados, sem a menor dignidade, pelos os que se fizeram partícipes da quadra mais negra da vida brasileira, pois, podem dizer o que quiserem, como disseram antes até mais contra, Sarney, Collor, Maluf, Renan, Cunha, Jucá e tantos outros, mas, a verdade é que, hoje, fazem um papel mais tosco e vergonhoso do que todos os que acusaram antes. Saíram da história como os vilões que venderam as esperanças de melhores dias e nos entregaram, ainda tentando nos enganar, a recessão, o desemprego, a inflação e a falta de perspectivas. Não terão as benesses mais do presente e no futuro serão vistos apenas como uma página negra da história do País que foi preciso virar para que se possa de novo retomar o desenvolvimento. 

Ilustração: chicletedecarnemoida.blogspot.com

sexta-feira, abril 08, 2016

Até onde e quando a farsa vai?


Cunha, na opinião dos brasileiros, é culpado de crimes? A grande maioria entende que é. Renan Calheiros é culpado de crimes? A opinião pública entende que sim. Dilma é culpada de crimes? Só os seus seguidores e os petistas acreditam que não. A imensa maioria acredita que sim.  Então, qual a grande diferença entre eles? Sob o ponto de vista formal, certamente, nenhum, mas, quem governa o país? É Cunha, Renan ou Dilma? Supostamente é Dilma, e, por via de consequência, até mesmo os crimes de Cunha e Renan, como de uma quantidade imensa de outros parlamentares que teriam recebido propina da Petrobras, tem sua origem nos recursos do executivo. Em última análise, Dilma, no mínimo, seria culpada de não zelar pelo que é de sua responsabilidade. Dizer que não fez nada não resolve. No mínimo, seria culpada de omissão por não impedir o maior escândalo que, literalmente, quebrou a maior empresa do país.
Mas, segundo, muitos, nenhum deles  dos citados manda de fato. Quem governa seria quem não teve voto, nem se candidatou a nada, mas, trançou, e trança, os fios dos mamulengos,  por detrás dos panos, e se comporta como ministro, mesmo sem ter conseguido tomar posse, e se comporta como presidente, sem ter sido eleito, e, segundo tudo que se sabe, mesmo acusado de vários crimes também, manda, contra os interesses públicos na máquina administrativa e, inclusive, estaria negociando cargos para manter Dilma no poder.
É uma situação surreal. Quem desrespeita a Constituição, quem fala que defende o povo quer se manter no poder contra a vontade popular usando a mistificação de que tem mandato, usando todo o poder do governo apenas para se manter. Ora, Thomas Jefferson, o maior dos republicanos da América do Norte, dizia que, ao povo, era lícito se rebelar quando o governo não cumpria seus deveres, quando, pesava, como o atual governo pesa, duplamente, por arrecadar impostos e não devolver, em troca, senão desesperança, um futuro negro- e este argumento foi usado pelo próprio governo para se reeleger. Mesmo quem defende o atual governo não nega que se passaram já dois anos do seu mandato sem conseguir governar. Vai passar mais tempo para fazer o quê? Envergonhar ainda mais a nação. Quando até Paulo Maluf, que não é reconhecido publicamente, como nenhum padrão de moralidade, afirma que as práticas do governo não são nada republicanas, então, a grande pergunta é: o que o atual governo ainda pode nos proporcionar? Mais escândalos? Ou será preciso o derramamento de sangue para, depois de terem comido a carne, largarem o osso?


Ilustração: casamentodagabi.wordpress.com

sexta-feira, abril 01, 2016

A INSENSATEZ EM MARCHA FORÇADA


Na história e na política não é incomum que governos e políticos adotem medidas contrárias aos seus próprios interesses. Há uma obra que se tornou clássica de Barbara W. Tuchman denominada de “A Marcha da Insensatez”, que examina fatos em que isto aconteceu, de forma que Barbara acaba por considerar ser este um dos maiores paradoxos humanos: a insistência dos governos em adotarem políticas contrárias a seus próprios interesses. Porém, nenhum exemplo pode ser mais emblemático que, o que ocorre, hoje em dia, no Brasil. A trajetória do governo Dilma, neste segundo mandato, é uma bela comprovação da tese da marcha da insensatez.
A começar do fato de que, no primeiro momento depois de eleita, aliás, em uma eleição em que “fizeram o diabo”, como havia sido prometido, a presidente disse que estendia a mão à oposição. Se, efetivamente, fora as palavras, tivesse feito algo neste sentido, talvez, seu governo tivesse alguma viabilidade. Não o fez e, para piorar as coisas, adotou o programa do adversário, o programa que havia demonizado e hostilizado em toda a campanha eleitoral, pela metade, na medida em que vai contra tudo que o PT prega. Fez o que devia fazer, o que era pragmático. O aumento de consumo ancorado no crédito- motor da aprovação que Lula havia obtido-havia se esgotado no endividamento e o governo se afogava com o aumento da dívida e a queda de receitas externas das commodities. Não havia alternativa e se sabia disto bem antes das eleições. O problema real é que um governo, que prega o controle do mercado, somente tem programa quando o caixa está cheio. Sem recursos, e sem horizontes, a única preocupação, em dois anos de governo, foi a de continuar no poder. E continuou a fazer mais do mesmo, enquanto as condições se deterioravam com o aumento da inflação e dos gastos públicos. A investigação dos "malfeitos" da Petrobras, a Operação Lava Jato, fez o resto: acrescentou o carimbo da corrupção a uma administração desastrosa. 

Nesta semana o Ibope aponta que 82% da população é contra sua forma de governar. Mesmo assim tentou trazer Lula para ver se termina seu mandato. Lula, com a imagem desfeita pelas acusações que o cercam, está fazendo o possível, e o impossível, para mantê-la. Reuniu as tropas e conseguiu até mesmo mobilizar os sindicalistas e alguns movimentos sociais movidos a verbas públicas para as ruas. Tenta oferecer os cargos que o PMDB entregou como moeda de troca para manter o mandato de Dilma. É insensatez em cima de insensatez. Ainda que Dilma escapasse do atual pedido de impeachment viriam outros. Mas, o impeachment será inevitável. A prisão de Silvinho Pereira e de Ronan Maria Pinto, na Operação Carbono, é um fechamento de cerco sobre Bumlai e Lula. Embora os cargos oferecidos sejam atraentes, políticos são animais sociais. Alimentam-se de um ego alto e de votos. O risco é muito grande. E, ao tentar ganhar na votação do Congresso, Lula e o governo apenas deixam claro que o impeachment é legítimo e, chega a ser irônico, que a presidente, no seu discurso de defesa, no Planalto, afirme que não cometeu crime de responsabilidade justificando as pedaladas com o pagamento de bolsa família e outros programas sociais. Igual a Lula, que depois de ser conduzido à força para depor, diz que não cometeu crime explicando que vive às custas “dos amigos” e levou 11 contêineres, quando saiu do Planalto, mas, não tem recursos para guardar “seus presentes”. E assim caminha a desumanidade. 

Ilustração: Cartoon por J Stélio

segunda-feira, março 28, 2016

NO CAMINHO DO RETORNO DA ESPERANÇA


Apesar do ex-presidente Lula ainda afirmar, numa coletiva a veículos internacionais, que o governo deve buscar uma “coalizão” com parte do PMDB que ajudará a barrar o impeachment da presidente Dilma Rousseff, esta hipótese parece, cada vez mais, remota diante do andar da carruagem. Sua avaliação se assenta no passado, no tempo em que possuía credibilidade e governava. Hoje, ele e o governo gastaram seu capital de confiabilidade e passaram da hora de mudar. Não dá mais. Ainda que vá continuar lutando até o fim com o apoio de sindicalistas e militantes, não se tem mais dúvidas, segundo os melhores analistas, que, agora, a queda é só uma questão de tempo. Não adianta mais agrupar militantes para impedir um novo pedido de impeachment da OAB, nem buscar denegrir a entidade. O moinho da política se moveu e, até mesmo o ex-presidente Collor, que já passou por isto, sabe de sua inexorabilidade. Com Dilma, as coisas só piorarão e a população está avida por esperança que este governo não tem condições de suprir.
O anúncio de que o PMDB do Rio Janeiro se vergou à realidade foi a gota d’água. Com sua adesão irá todo o PMDB, e no seu rastro todos os partidos da base aliada abandonarão o governo. Com certeza só o PCdoB pode ser exceção por sua natureza, intrinsecamente, de esquerda, mas, ninguém, de sã consciência, nem internamente no governo, avalia, com realismo, que o governo não conseguirá obter 171 votos para impedir o impeachment, que será aprovado pela Câmara folgadamente. O Senado somente confirmará o afastamento, como o próprio presidente Renan Calheiros, mesmo contragosto,  já admitiu. No Congresso, todos já trabalham com um governo de união nacional de Michel Temer, que tentará repetir a formula de Itamar Franco. Como não é Itamar Franco, e conviveu com o PT e seus desvios e erros, é inevitável que, no decorrer do processo, como já se iniciou com a fala do líder do governo no Senado, Humberto Costa (PT-PE) comecem a acusá-lo, por diversos meios, e tentar impedir o processo com o “risco Temer”, como afirmou Costa que o vice-presidente Michel Temer “será o próximo a cair” caso a presidente Dilma Rousseff sofra o que ele chamou de um “golpe constitucional” (pelo menos, já admitiu que o golpe não é golpe com a adjetivação).

Porém, um olhar para o futuro mostra que Michel Temer já se prepara para convocar um governo de união nacional. Ou seja, vai convocar todos os partidos para governar junto, indicar ministros e integrantes dos primeiros escalões do Executivo. É o mesmo método de Itamar que, na época, somente encontrou recusa por parte do PT. Talvez, agora, só o PSOL recuse, pois, o PCdoB não tem um histórico de resistir a cargos públicos. O novo governo deve enfrentar a “herança maldita” do PT: a maior crise econômica da história, o mais alto patamar de gastos públicos, uma inflação alta, o descontrole da dívida pública e a falta de investimentos. Será preciso tomar medidas difíceis, porém, é preciso dar o primeiro passo para recriar as condições para o país crescer. Não será um caminho fácil nem de recuperação rápida, mas, pelo menos, se acena com a esperança, que estava morrendo à míngua com um governo que, nos últimos três anos, somente cuidou de tentar se manter no poder. 

terça-feira, março 22, 2016

VAI TER É IMPEACHMENT


O, agora, advogado-geral da União, José Eduardo Martins Cardozo, num discurso enraivecido no Palácio do Planalto, depois de um encontro de juristas a favor do governo, sem nenhum argumento convincente, tenta justificar as conversas nada republicanas, entre a presidente Dilma Rousseff e o quase ministro Lula, alegando que “Conversas privadas que nada têm a ver com delitos devem ser privadas”. Ora, se não houvesse fundadas razões para Lula ser interceptado nas suas conversas telefônicas, e dos em seu entorno, até que se poderia alegar que há uma intervenção na privacidade, mas, o que ficou claro no saldo das conversas é que existiu delito sim; é que o ex-metalúrgico, mesmo sob monitoramento, de forma inequívoca com Dilma ou sem ela, arquitetava manobras para obstruir as investigações sobre esquemas de corrupção e o trabalho da Justiça.
José Eduardo Cardozo, porém, como é comum entre os petistas, não consegue ver crime nenhum no que fazem, apesar da quantidade imensa de companheiros presos, dos crimes tipificados no Mensalão e no Petrolão, na já comprovada irrigação das campanhas petistas com recursos oriundos de propinas, nos dois anos de Operação Lava Jato, que, só de recuperação de recursos alcançou os R$ 3 bilhões que, não há como negar, vieram, e dizem que ainda muito pouco, de desvios de dinheiro público. Não há viés político algum na ação da Justiça ou da Polícia Federal. O que se trata na verdade, e isto é profundamente incomodo para o poder de plantão, é que os fatos anulam as narrativas que tentam impingir à população.
Entre outras narrativas inverídicas está a já desgastada e enfadonha cantilena do “não vai ter golpe”. Golpe se faz com a quebra da lei vigente. E quem a tem quebrado não é a Polícia Federal, quando prende quem infringiu a lei, nem os promotores que acusam, nem o juiz que julga. Quem a fere é um governo que, num regime democrático, não pode se manter ao sabor do seu livre arbítrio, mas, antes de mais nada, tem que ter respeito, incondicional, à legislação vigente, sem o qual a ordem, a tranquilidade da nação deixa de existir. É um governo que considera, por exemplo, normal a adoção das malfadadas “pedaladas fiscais”, bem como elevar, por medida provisória, a chefia de gabinete ao patamar de ministério para proteger  companheiros ou remanejar e gastar recursos públicos sem a devida autorização. E se justifica por se considerar o melhor governo que já houve, embora os milhões de cidadãos que estão indo para rua protestar não reconhecem esta maravilha de governo que os “companheiros” vociferam felizes, nem veem ganhos incontestáveis para a sociedade no governo petista. O que veem são os juros altos, a inflação caminhando para ser galopante, a falta de renda, de emprego e de governo.

Golpe não se faz com os parlamentares votando pelo afastamento de Dilma, nem com o rito sendo julgado pelo Supremo. É inaceitável que se fale em golpe quando a figura do impeachment consta da lei, assim como o processo que tramita na Câmara dos Deputados segue os preceitos legais e é um reclamo da maioria dos brasileiros, que fazem panelaços, buzinaços e caminhadas pedindo aos parlamentares para votarem o processo de impeachment da presidente da República. Golpe se faz com armas. E a única arma que o povo brasileiro possui, no momento, é gritar contra um governo que perdeu toda a legitimidade e cobrar dos seus representantes no Congresso para, democraticamente, retirar do poder um governo que só cuida dos seus próprios interesses, que é o de se preservar indefinidamente no poder. Isto sim que não tem nada de democrático. Isto sim que é golpe. Claro que não vai ter golpe. Vai ter mesmo é impeachment. 

segunda-feira, março 14, 2016

É UM GOVERNO MELHOR O QUE SE DESEJA




Hoje, quem defende o governo, quem defende o PT, embora o PT na verdade vá além do governo e esteja abaixo de Lula, não tem como se defender de um fato real. No Brasil, neste domingo 13 de março, se verificou uma constatação invulgar e inegável: a parcela mais significativa e politizada da população, mesmo que, preponderantemente, de classe média, mostrou que possui uma consciência forte de seus direitos e manifestou-se contra o sufoco da carga tributária, contra a má qualidade dos serviços públicos, contra a falta de atenção da classe política para resolução de seus problemas e mais ainda que não deseja mais Dilma como presidente e que há uma consciência de que os três Poderes da república se deixaram impregnar por níveis, até antes, impensáveis de corrupção, daí, a exigência que, mais que apenas a Lava Jato, haja uma limpeza na política para que se evite o desperdício e, até mesmo, o acinte no uso do dinheiro público.     
Que não se pense que as coisas irão parar por aí. Os protestos foram, sim, pacíficos, familiares, alegres mesmo, porém, havia por trás uma consciência de que a crise pela qual estamos passando é fruto dos desmandos, da corrupção e da falta de funcionamento adequado da democracia. Há, nas pessoas que protestaram, um certo cansaço, um certo desânimo, a sensação latente de que não estão representados pelas pessoas que governam e, mais do que nunca, pedem que se dê um rumo à desorganização, à falta de horizontes, a um desgoverno que parece obstruir qualquer possibilidade de um futuro melhor. Claro que as pessoas sabem mais o que não querem do que querem. Mas, também sabem que querem melhor transporte público, melhor educação, melhor saúde e mais segurança. E o que desejam é que o governo use os impostos, por sinal demasiado pesados, para isto.

Efetivamente, Lula e Dilma foram os alvos maiores por não terem cumprido suas promessas de dias melhores e por não terem, na opinião da maioria que os elegeu, mais condições, nem credibilidade, para reverter a situação. Ambos são apenas mais do mesmo. Tiveram suas oportunidades e jogaram fora. É também evidente que, numa quantidade tão grande de pessoas, há visões e propostas de todos os tipos. Há os extremamente raivosos que culpam Lula de tudo e o querem na cadeia, mas, a grande realidade é que a maioria somente deseja um governo melhor; um governo que lhe cobre menos impostos, forneça melhores serviços e crie condições para que se tenha um futuro melhor. 

terça-feira, março 01, 2016

EM CHATÔ FALTOU ASSIS CHATEAUBRIAND


Sinceramente, que me perdoe Guilherme Fontes, mas, passar 15 anos para fazer de um tema como o de Assis Chateaubriand um filme menor, é passível mesmo de responder processualmente seja pelo que for. A grande realidade é que Fontes transformou “Chatô-O Rei do Brasil numa chanchada, numa autêntica e boa chanchada. Nada contra o gênero, que tem seu indiscutível valor, no entanto, se, é verdade, que a chanchada nunca sai de moda, nem por isto se aplica com perfeição a uma personalidade, como a de Chateaubriand, que carece de um tratamento muito mais sério, muito mais aprofundado de suas múltiplas facetas e vida atribulada e rica.
Acrescente-se que, para fazer o filme, Guilherme Fontes cercou-se de grandes nomes do cinema nacional e, pelo que ficou evidente, teve amplas condições de fazer um filme memorável. Não deve ter faltado também pesquisa, na medida em que o filme se imiscui em momentos fundamentais da vida do grande jornalista, todavia, opta por buscar o lado histriônico do personagem, no que se afasta bastante do livro de Fernando Morais, que busca traçar a trajetória e os motivos comportamentais do biografado. A adaptação livre, com momentos de flash back, escolhe diminuir o personagem a uma espécie de Macunaíma paraibano e tende a ter um lado de desvario, de alucinação tropical, quando centra os interesses de Chateaubriand apenas no seu lado sexual ou no acaso, perdendo de vista sua percepção prática do mundo e sua visão original, dada apenas como um viés meramente oportunista.
O filme tem seus méritos? Tem. Se não se tratasse do grande personagem que trata seria, sim, um filme muito bom. É de um tropicalismo surreal com os personagens de animadores de auditório, meio clowns, meio galãs, quase canastrões, numa mistura entre um Chacrinha estilizado e os apresentadores de circo Fellininianos. Não deixa de ser uma retomada do escracho nacional sobre as relações promíscuas do poder e do sexo, porém, nos deixa sem saber, de fato, quem foi, o que fez, qual a importância de Assis Chateaubriand. Seja a de criar uma grande rede de jornais, introduzir a televisão, ou criar uma coleção de arte, como a do acervo do MASP, por meio de achaques, tudo, como as próprias relações amorosas, vira anedota. Tudo bem. Podem alegar que Fontes flerta com a antropofagia e com a iconoclastia. Não nego que pode ser, mas, o filme acaba como se passa: sem deixar rastro. Quando se termina de rir, infelizmente, Chatô desapareceu.


sexta-feira, fevereiro 12, 2016

UM LIVRO COM CHEIRO E GOSTO DE AMAZÔNIA


MINEV, ILKO. Onde estão as flores?. São Paulo, Livros de Safra-Selo Virgiliae, 2014.

É prazeroso, em especial para quem conhece um pouco a Amazônia, ler o primeiro livro de Ilko Minev “Onde estão as flores”. É mesmo um momento de encantamento. O título provém de um hino pacifista cantado no período da Segunda Guerra Mundial, época de quando a história se inicia com o amor entre dois jovens búlgaros, que, fugindo dos horrores da guerra, imigram para o Brasil, um país cheio de promessas, um lugar de recomeço, um bilhete para uma nova vida.  E, com o toque do inesperado, de vez que, por um acaso, acabam em Belém e, depois, passam a viver em Manaus onde vão passar pelas grandes transformações da cidade, vivenciar uma realidade inteiramente nova, a borracha, com o esplendor do seu apogeu e sua queda. É na Amazônia, aliás, que o romance ganha intensidade e se mostra como uma história de vida de muitas pessoas que estiveram em situações similares e criaram uma nova civilização no coração das florestas. É, de certa forma, uma recriação, de como, os imigrantes se inseriram e fizeram parte da construção de um novo mundo na Amazônia.

O livro de Minev, que não deixa de ser uma memória de parte de sua vida, tem a beleza de ser também uma vivência de muitos, uma realidade social que foi compartilhada por muitas famílias imigrantes, daí, ter um gosto, um pé nos temperos da verdade e da história. Acrescente-se que deve ser motivo ainda maior de orgulho, ser um triunfo fantástico na vida de um escritor, mesmo com tanto tempo de vida no país, escrever numa outra língua que não é a sua, e ainda mais, captar, como Ildo Minev consegue captar, as nuances regionais, de tal forma que conseguiu escrever um livro amazônico e que, na sua essência, é universal, por enfocar o drama humano da sobrevivência, da luta contra a natureza, da superação dos medos e obstáculos. O maior mérito é que consegue tudo isto escrevendo uma história que prende o leitor com leveza, simplicidade e uma escrita que é gostosa, quase coloquial, mas, sem perder a beleza e a capacidade de ser exata. A trama é a cereja do bolo. Quem gosta de uma boa literatura, quem se interessa pela Amazônia não pode deixar de ler e, com certeza, há de encontrar um pouquinho de si mesmo nas flores que, Ildo Minev, plantou com a delicadeza de um grande jardineiro. 

quinta-feira, fevereiro 11, 2016

O ACASO QUE NOS PROTEGE...


Também deu nome à muitas ruas de Porto Velho

Alguns bons pensadores afirmam que o acaso tem um papel muito mais forte no sucesso ou na existência de algum acontecimento mais do que se pensa. Lembro-me que li a tese, num livro de grande qualidade, de Leonard Mlodinow denominado de “O Andar do Bêbado”. Nele Leonard consegue explicar que, na vida, a aleatoriedade é um fato e que, muitas vezes, ocorre contra a lógica comum. Ele ressaltou, por exemplo, que, ao contrário do que pensam os torcedores, que pedem a dispensa do técnico quando o time vai mal que, em média, elas não tiveram nenhum efeito num desempenho melhor da equipe. Efetivamente, embora tente criar uma teoria de como o acaso acontece, deixa bem claro que nem mesmo a quantidade de informações influem muito, ou seja, os insucessos acontecem com excesso ou falta de informações. Para ele, há, em qualquer série de eventos aleatórios, uma grande probabilidade de que um acontecimento extraordinário (bom ou ruim) seja seguido, por puro acaso, de um acontecimento mais corriqueiro. De qualquer forma o que ele escreveu, como escreveram outros, é que se o acaso é inevitável, então a sorte é fundamental para algum acontecimento, de forma que o diferencial pode não ser o talento (ainda que necessário), mas, a persistência. Digo mesmo a teimosia.
Tudo isto foi uma longa introdução para um evento de pura sorte que me aconteceu. O Flávio Daniel Pereira, que foi carnavalesco e sindicalista reconhecido em Porto Velho, precisava de uma dica de um economista e, vejam que, por acaso, veio me procurar. E, de fato, quem saiu ganhando fui eu. Na conversa ele me lembrou uma pessoa que teve um papel fundamental em Porto Velho que foi o seu Miranda, com o nome por extenso de Luis Borges de Miranda, que, por sinal, nem sabia é o pai da mulher dele. Seu Miranda, uma figura esquecida no tempo, foi um desses heróis anônimos, como a Maria Helita Ferreira, que também foi responsável pelo cadastro e abertura de muitas ruas e avenidas de Porto Velho e outras cidades, que dela dependiam no passado. Foram pessoas que fizeram história sem se preocupar em ficar ricos ou preservar seus feitos, mas, que merecem não serem esquecidas e terem o seu valor preservado.

Flávio Daniel, com uma excelente memória, recordou como seu Miranda deu o nome de muitas das ruas de Porto Velho. A rua Brasília, por exemplo, só teve este nome porque na ocasião a nova capital federal estava sendo inaugurada. Outros nomes que foram postos por seu Miranda foram os de Getúlio Vargas, Salgado Filho e João Goulart, uma homenagem que ele, como um bom “cutuba” fez aos políticos de seu partido. Assim como homenageou os amigos, como Elias Gorayeb, Rafael Vaz e Silva, entre outros, bem como, criado pela ditadura o Estado da Guanabara virou rua graças a ele. E, vejam o acaso dos acasos, quando abriram a rodoviária e permitiram novas ruas; ele começou a denominá-las com nomes de países, porém, como não gostava de argentinos, chegou na vez dos “hermanos” e ele , no meio dos países, colocou lá uma diminuição de importância e a rua virou rua Buenos Aires.  Como se vê o acaso é muito mais forte do que se pensa. Tanto que não fosse ele não seria lembrado da origem de muitos nomes das ruas de Porto Velho. 

domingo, janeiro 31, 2016

UM LIVRO DE UM REPÓRTER





Li, praticamente, sem parar o excelente livro de Marcone Formiga “Em Nome da Verdade-Cartas para o meu neto”, publicado pela Editora Dom Quixote, 2004. Trata-se de um testemunho importante de quem conviveu de perto com muitos dos personagens que fizeram parte da história recente do país. Como um bom repórter, que sempre foi, Marcone, que desenvolveu uma escrita marcadamente jornalística durante sua vitoriosa carreira, consegue, com habilidade e segurança, manter o leitor atento aos fatos que narra e curioso pelo que pode oferecer e, creiam, oferece muito para quem se interessa em ver além das versões correntes e sentir, um pouco, como os mecanismos do poder são acionados.
Embora não se isente de fazer julgamentos, e muitos deles, mesmo nas entrelinhas, extremamente duros, o repórter, que sempre viveu nele, tenta, na medida do possível, se ater aos fatos e julgar com a isenção possível. De fato, como uma testemunha de muitas histórias recentes do poder, Marcone Formiga nos faz visitar, e não se exime de tentar traçar um perfil, de figuras tão diversas quanto às de Jânio Quadros, João Agripino, Petrônio Portela, Geisel, Figueiredo, Golbery, Collor e tantos outros que se tornaria exaustivo, e tiraria o prazer de descobrir na leitura um desfile de novidades, bem como os caminhos que o levaram a participar da proximidade de tais figuras.
Como uma espécie de colunista social-mór de Brasília, na prática conviveu ou conheceu todas as pessoas que foram fundamentais para a cidade, como um jornalista que cobriu durante anos o Planalto e um editor da revista “Brasília Em dia”, onde fez das entrevistas uma espécie de confessionário e repositório de ideias, Marcone, foi um espectador privilegiado de muitas coisas que ele, sem sensacionalismo, mas, com o intuito de esclarecer e desvendar aspectos, mostra com serenidade e com sua visão liberal e crítica de um jornalista que sempre procurou se pautar pela ética. Mesmo quando relata sucessos de sua jornada não se abstém de mostrar que, além de muito trabalho, contou com a sorte, embora está tenha tido muita ajuda de seu faro de repórter.

O livro, além de ser um repositório de memórias, tem também o mérito de dar testemunhos insuspeitos sobre muitas figuras, inclusive resgatando a verdade de certos comportamentos. É o que faz quando revela que o ex-ministro Mário Andreazza, sempre visto como um aproveitador do poder, uma espécie de padrão de corrupção, na verdade, exerceu o poder e, gostava dele e de sua pompa, não para tirar proveito pessoal e sim como uma forma de fazer coisas, de buscar melhorar a vida brasileira. Morreu, como aconteceu com o governador de Rondônia, Jorge Teixeira de Oliveira, que teve um poder imperial naquele estado, com problemas financeiros e dependendo da assistência de amigos. Por essas revelações, e outras tão interessantes como esclarecedoras, o livro de Marcone nos sabe a uma boa aula de jornalismo, história e de política. E tudo isto, sem esforço, de vez que é uma leitura extremamente saborosa. 

quarta-feira, dezembro 23, 2015

Feliz 2019


Bem, verdade seja dita, não gosto muito de chegar no Natal, no fim de ano, falando de coisas horrorosas, mas, me digam, como não falar, como não escrever sobre as tristezas de um país sem rumo, de um ano horroroso, que termina de forma mais melancólica do que nunca? Não bastou a tragédia de Mariana.  As coisas andam tão ruins que, não foi o cinema que incendiou e sim, para tristeza geral, uma parte do magnífico Museu da Língua Portuguesa, em São Paulo, logo, um pouco antes da data em que entraria em vigor o Acordo Ortográfico. O incêndio, aliás, deve ser uma vingança dos fados, uma resposta simbólica, porém, incontestável, contra a manutenção do segundo mandato da presidente Dilma, numa artimanha judicial, que é um completo desrespeito à Constituição, pelos que deveriam preservá-la. É como se tivessem dito, os fados, se o país já acabou para que a língua?
Este ano, que, o seu final, ainda nos presenteia com um o novo ministro da Fazenda, Nelson Barbosa, o pedalador, que substituiu, Joaquim Levy, o Mão de Tesouras, que não cortou nada, é o mesmo que vê o aedes aegypti, que já havia sido banido há mais de um século pela determinação do sanitarista Oswaldo Cruz, vencedor da batalha da vacina obrigatória e do saneamento urbano, retornar, por incompetência, como vetor de transmissão da dengue, chicungunha e a febre produz fetos microcefálicos e,em crianças e idosos, a síndrome neurológica Guillain-Barré. Ou seja, procriar se tornou um risco e aos velhos, não bastava apenas deixá-los mais pobres e endividados, foi preciso garantir que, no futuro, sejam em número menor, numa diminuição dos custos das aposentadorias por mortalidade.  Até mesmo o whatsapp, que havia se incorporado ao cotidiano nosso de cada dia, para não nos dar sossego, para completar a intervenção indevida e a judicialização da vida brasileira, foi para o espaço, por algumas horas, atingindo por uma canetada. Se bem que já estamos nos acostumando com a criminalidade, o trânsito cada vez mais precário, a falta de energia, de internet, de tv a cabo, de Netflix, então, por que também não do whatsapp? O que, todavia, não nos falta são novas regras e novos impostos. Afinal, como nos afirma o sábio deputado líder de governo, falta mais governo.... E, para piorar, se é possível, mas, dizem que sempre pode piorar mais, vamos continuar a ser governados por Dilma, Renan e Cunha, em 2016. É Natal, um natal de vacas magras, diga-se de passagem, e de noticiário de gordas propinas que levaram muitos para as prisões sem que, no essencial, nada tenha mudado. A suspeita, e as previsões, são de que teremos um ano pior ainda. Será, dizem os astros, magos e pitonisas, um Annus Horribilis. Feliz 2019- para quem sobreviver. Com o que continuamos a ter, ainda teremos mais três anos, para poder pensar em mudar alguma coisa.


quinta-feira, dezembro 17, 2015

O inferno é aqui


Impossível, no momento, não lembrar de Igor Alexander Caruso, psicanalista e fundador da escola vienense de Psicologia Profunda, que, inclusive esteve no Brasil várias vezes, e cunhou a seguinte, e perfeita, frase: "O natural do homem é ser antinatural". E, como esclarece o sentido da palavra, antinatural é ser contrário às leis da natureza ou o que se opõe ou contraria a natureza ou as suas leis; contranatural. Se levarmos ao pé da letra, talvez com um certo e correto grau de extrapolação podemos dizer também que o absurdo se torna normal para o homem desde que o aceitemos, desde que nos familiarizemos com ele. A realidade disto foi comprovada, por exemplo, nos tempos de exceção do nazismo e do comunismo nos quais as pessoas se comportaram como monstros como se fosse tudo natural.
Em grau menor, porém, não menos perverso um fenômeno similar ocorre no Brasil atual quando olhamos para os nossos poderes e para a nossa vida cotidiana que parece uma peça de Beckett na sua essência, de vez que nós, os pobres e desamparados personagens  da história, esperamos ansiosos por uma solução, por uma ajuda para escapar do pântano, em que nos encontramos, numa terra onde nada acontece de inovador, onde tudo se repete sem cessar, e de forma crescente e mais absurda, somente aumentando nossa angústia, decepção, nos fazendo rir, do que é impossível de rir, para tentar iludir a tristeza e frustração. Vivemos um tempo onde o normal é que se tornou o verdadeiro absurdo.       

Os últimos tempos, sem precisar comentar, dizem tudo: a prisão dos maiores empreiteiros do país, a prisão de um líder do governo no senado, a aceitação do pedido de impeachment de Dilma, a pantomima do Congresso, as ações policiais contra Cunha, Renan, Lobão, ministros & uma penca de parlamentares, as multidões nas ruas, minguando diante do descrédito com as instituições. No cenário o maior grau de normalidade provém ainda do Judiciário. Até quando? Se os problemas só aumentam. Agora o Procurador Geral da República, Janot, pede o afastamento de Cunha. Perfeito. Mas, Cunha pode dizer, com razão, “Por que só eu?” Afinal qual a diferença entre o que se alega que é o comportamento de Cunha do que faz o próprio Planalto? Ou o senador Renan Calheiros? O deputado Chico Alencar, se considerando uma vítima deste teatro do absurdo, se esgoelou, gritando que “Está tudo errado”. E está certo. Não se precisa pecar nem morrer. Basta ser brasileiro para se ter direito ao inferno. O inferno é aqui. 

Ilustração: prjefersonfabiano.blogspot.com

quinta-feira, dezembro 10, 2015

Basta de mais impostos


Na tarde da terça-feira (8) último, em Brasília, na sede da CNC (Confederação Nacional do Comércio), o secretário da Receita, Jorge Rachid, único representante governista convidado para participar do lançamento do “Manifesto contra o aumento do PIS/Cofins”, acabou sendo constrangido por discursos inflamados de empresários insatisfeitos com a situação econômica do país. Apesar de tentar afirmar que existe a intenção do governo de não aumentar impostos, o diretor da Cebrasse Central Brasileira do Setor de Serviços) , Erminio Alves de Lima Neto, só não o chamou de mentiroso, mas, sublinhou: “A gente não acredita no Estado”. O Estado, acrescentou ele, "é perdulário e adora criar insegurança jurídica" por meio de um emaranhado de normas e medidas e completou, sem medir  palavras  cobrando de Rachid mais respeito. “O setor de serviços precisa ser mais respeitado. O Ministério da Fazenda desrespeita muito o setor. Há um medo em conversar com quem gera riquezas neste país”.
Porém, mais duro ainda foi o presidente do Sinduscon-DF (Sindicato da Indústria da Construção Civil do Distrito Federal), Luiz Carlos Botelho, que disparou “Não é só chegar aqui e apresentar isso aí. Aqui se sabe de matemática e aritmética. O desafio do senhor é tirar a complexidade (do sistema tributário)” e, foi mais além e  agressivo. “É preciso dizer a verdade”, chegou a afirmar o empresário, apontando para Rachid. “Com todo o respeito, vamos resistir a você e a seus funcionários”, emendou, sendo aplaudido pelo auditório. Na mesma toada o diretor-executivo do SindiTelebrasil (Sindicato Nacional das Empresas de Telefonia e de Serviço Móvel Celular e Pessoal), Eduardo Levy, engrossou os constrangimentos impostos a Rachid. “Repelimos de forma energética a proposta do governo. No nosso setor, aumento de carga tributária implica exclusão social”, comentou. O evento da terça-feira foi o início de uma série de atividades organizadas por entidades de diversos setores produtivos que encaram a reforma do PIS/Cofins como uma estratégia para aumentar a carga tributária.

Este comportamento tende a se alastrar na medida em que, com a crise, e a consequente queda das receitas, os governos, tanto federal, quanto estaduais, tomam a decisão mais fácil que é a de aumentar impostos, que, por sinal, já se encontram num patamar muito elevado. Aqui mesmo, em Rondônia, apesar do governo alegar que as contas estão em dia, também foram propostas várias leis para “recompor o caixa” e prevenir inadimplência. A alegação é de que todo mundo sofre com a crise, o que é verdade, porém, entre os empresários há a sensação de que estão transferindo a inadimplência dos cofres estaduais para o cofre deles. E se alastra, cada vez mais, um sentimento de resistência contra o pagamento de mais impostos. Até já se fala em criar uma campanha sob o slogan “Basta de impostos”, todavia, há os mais radicais que pregam uma paralisação, mesmo que temporária, no pagamento de impostos como forma de protestar e fazer com que os políticos entendam que o aumento de impostos chegou ao limite suportável. 

terça-feira, dezembro 08, 2015

Até onde um plano de desenvolvimento sustentável se sustenta?


Não deixa de ser um avanço significativo, com todos os problemas que possa ter, o lançamento na última segunda-feira, dia 07, do Plano de Desenvolvimento Sustentável de Rondônia (PDES- 2015/2030). Foi anunciado que Rondônia passou a ser referência para restante do país, segundo Maria Tereza Teixeira, representante do Ministério da Integração Nacional, com um planejamento que estabelece metas para os próximos 15 anos, levando em conta os três pilares da sustentabilidade que são: prosperidade econômica, qualidade ambiental e justiça social. No lançamento o governador Confúcio Moura disse que é comum, no país, cada governante fazer um planejamento, que acaba ignorado pelo sucessor, que por sua vez faz outro, que também será ignorado na administração seguinte. Segundo ele, é um dos problemas do Brasil, cujo modelo federativo está exaurido e não agrada a nenhum setor da sociedade. Também propôs um debate sobre o que fazer para que a crise não chegue ao estado e indicou que a solução está mesmo em Rondônia, de onde devem sair boas ideias que se contraponham ao modelo desgastado existente. Segundo ainda ele, os planos e programas devem  incorporar a sabedoria que vem das ruas, do povo, que deve participar da condução dos seus destinos. Ele ainda defendeu que as preocupações se voltem para setores como a agricultura familiar e os adolescentes que estão fora de sala de aula, sem perspectivas.
Bem, Confúcio tem muitos méritos. Entre eles de ser resiliente, de conseguir, mesmo quando os fatos são adversos, vender otimismo e, no lançamento do PDES, estava até mesmo entusiasmado. É verdade que, desde uma tentativa de um projeto ainda do tempo do governador Raupp, quando se tentou fazer um plano estratégico, o Úmidas, não se tem no Estado um plano de longo prazo. E, temos que admitir que ter um, já é uma vitória, mas, o que, no passado, já era difícil, que é fazer planejamento governamental no Brasil está, praticamente, se tornando impossível. Digo isto porque um plano, para ser um verdadeiro plano de governo, deve ser compartilhado, deve ser um plano do qual a população, o povo, saiba o que esperar, ou seja, atue como uma sinalização para o futuro.

O grande problema, logo de início, é o de que, nos tempos atuais, como o planejamento se faz para um espaço geográfico, um espaço político, são tantos os atores, tantas as instâncias que fica difícil se ter uma coordenação e um controle das ações. Basta verificar que, em Rondônia, por exemplo, existem diversas regionalizações diferentes  e o governo federal, por meios diversos, ainda cria seja unidades de planejamento, como os territórios, ou legisla por meio da criação de áreas ou até mesmo, de forma fática, pela legislação, de tal forma que, mesmo o governo estadual, não tem domínio sobre seu território. Pior ainda: nem mesmo possui os recursos indispensáveis para promover o seu desenvolvimento na medida em que, engessado pelas leis, possui muito pouco para investir.  E, como não existe um planejamento regional brasileiro, ainda que existam planos para tudo, a construção do futuro fica extremamente dificultada porque, por melhor que seja o plano elaborado, não se dispõe nem dos meios, nem de forma de se direcionar todas as ações na mesma direção. Enfim, devo dizer que fico contente com Rondônia ter um plano de desenvolvimento sustentável, o que não deixa de ser um resgate da nossa tradição de pioneirismo em planejamento, porém, como não estamos isolados do Brasil, temo muito que sem mudanças profundas, como tudo mais, o nosso plano fique atado nas teias burocráticas do governo e na falta de recursos e de atenção, que são uma marca do descaso com que a Amazônia sempre foi tratada. 

quarta-feira, dezembro 02, 2015

UM ZUMBI EM GESTAÇÃO


Não tem outra palavra senão a que Boris Casoy usa como bordão: “É uma vergonha!”. Mas, contra toda a lógica política e de decência, o que se viu foi que a Comissão Mista de Orçamento (CMO) aprovou a inclusão da Contribuição Provisória sobre Movimentações Financeiras (CPMF) na arrecadação de 2016. A votação aconteceu durante a apreciação do relatório do senador Acir Gurgacz (PDT-RO) à receita da proposta orçamentária de 2016 (PLN 7/2015) e, pelo texto aprovado, se pretende com a arrecadação do tributo, a partir de setembro do próximo ano, transferir do setor privado cerca de R$ 10,1 bilhões de receita para os cofres da União. Num momento de crise, num momento em que são comprovados que uma grande quantidade de recursos públicos saí pelos ralos do desperdício e da corrupção, com uma carga tributária que já é das maiores do mundo, isto representa, no mínimo, um desrespeito à opinião pública e uma comprovação de que os parlamentares fazem jus ao conceito geral de que somente cuidam dos interesses próprios.
É verdade que a aprovação não importa em que o tributo seja recriado, porém, que o valor da arrecadação com ele foi incluído na proposta orçamentária, ou seja, que se deixou a porta aberta para o governo pressionar por sua aprovação e, como já contou com o apoio de PT, PMDB, PCdoB, PP, Pros, PTB, PRB, PSD e PDT  (Só votaram contra PSDB, PSC, DEM e PSB) pode-se esperar uma grande ofensiva no sentido de que a proposta que recria a CPMF (PEC 140/2015) tramitando na Câmara, e que ainda não passou pela primeira etapa de votação, acabe, por vias e travessas, tendo sua análise de admissibilidade feita na Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania (CCJ). De qualquer forma, ao ser incluída no orçamento, se oferece a oportunidade do governo tentar fazer o tributo virar realidade até  maio, prazo máximo para garantir a promulgação da PEC e cumprir o princípio da noventena.

O comportamento dos parlamentares é mais vergonhoso ainda quando se sabe que a CPMF é um tributo denominado de gilete, que corta dos dois lados, de vez que pesa sobre a produção e também sobre o consumo. Na produção aumenta os custos dos insumos e diminui a disponibilidade financeira das pessoas e das empresas nas retiradas de dinheiro dos bancos. Ainda por cima é de natureza cumulativa e antinacional na medida em que aumentando os custos da nossa produção favorece a importação de produtos. É um tributo que estimula o uso do dinheiro vivo (para fugir da tributação) e invasivo ao incidir sobre todas as fases da produção onerando toda a economia formal. Também é injusto por não expressar a capacidade contributiva, base indispensável para incidência tributária. Enfim, é um imposto ruim, péssimo para a economia ainda mais numa economia em depressão. Deveria estar morto, enterrado e sepultado. Não está. E, vergonhosamente, os parlamentares dão sobrevida a um morto que pode se tornar um zumbi, mais um, que atormentará ainda mais a vida dos brasileiros. 

quinta-feira, novembro 26, 2015

O comportamento nas redes sociais exige limites


Há certos tipos de comportamento que me incomodam e, por ser uma pessoa até certo ponto antiga, ainda do tempo em que o Brasil possuía tecnologia de boas maneiras, me incomodam muito mesmo, até mesmo em alguns bons amigos que tenho, a forma como agem na internet. Não sei explicar, sob o ponto de vista psicológico, que, por sinal, não é meu forte, a razão, porém, elas existem, pois, assim como acontece com muitas pessoas que pegam na direção de um veículo ou de motoqueiros, que se acreditam ases do motociclismo, muitas vezes, também as pessoas que se colocam diante da tela de um computador parecem perder a própria personalidade e passam a agir como se fossem selvagens ou brutos. É a impressão que tenho quando vejo certas coisas, em especial, no Facebook ou no Whatsapp, embora seja quase ausente de sua utilização pela interatividade que provoca.
Sou um dos que creem que as redes sociais são um importante instrumento de relacionamento. Acredito mesmo que, hoje em dia, seja imprescindível estar nelas que nos auxiliam sob diversos aspectos da vida e da profissão. Para mim, é impossível não estar, por exemplo, na internet e, com extrema frequência, uso os e-mails, sou um blogueiro permanente e gosto de passear no Instagram. Enfim, sou um dinossauro com certa tendência para o mundo digital, mas, embora faça diferença entre as mídias digitais e o  mundo real, não creio que a ética que nos move possa ser diferente e não nortear o nosso comportamento em ambas as esferas. Não é o que parece acontecer com muitas pessoas que parecem mudar completamente de personalidade pelo seu comportamento no mundo digital.  
É comum que, por exemplo, me surpreenda com pessoas que, face a face, sejam muito delicadas e tolerantes em relação as opiniões alheias e se comportem na discussão virtual como se fossem verdadeiros trogloditas. Também me espanta, fora a quantidade de besteirol que se reproduz, os convites inumeráveis para jogos ou temas que, em nada, nos interessam, além da quantidade de comportamentos e fotos inapropriadas, de vídeos preconceituosos ou até mesmo pornográficos, de correntes sem sentido, de convites religiosos ou orações sem consideração pela religiosidade do outro e comentários completamente descabidos. E, para minha surpresa, partem, justamente, de pessoas que jamais pensaria que se comportariam assim. Como sou tolerante e democrático prefiro não dizer nada, todavia, também, em muitos casos, surgem as ameaças de ser excluído pelo silêncio ou deixar de ser amigo por não ler algo que, no fundo, é coisa de quem não tem o que fazer no momento. São formas comuns que costumam desfazer as imagens pessoais nas redes (e, por via de consequencia, fora delas). Isto sem contar os casos de vaidade explicita, de pessoas que não dão um passo sem um selfie ou um comentário. Longe de mim querer moldar todo mundo, mas, por que se expor além do necessário, se isto é até perigoso para a própria vida? Não, não pretendo ter uma resposta. Mas, previno aos amigos, que evitem certas imagens, que usem as imagens privadas com moderação. Afinal ninguém precisa saber o que você come e bebe nem passa suas férias.  Menos ainda ficam bem os palavrões ou os comentários maldosos  ou falar mal de colegas de trabalho, de faculdades ou até mesmo de empresas. É preciso lembrar que seu procedimento na internet pode subsidiar tanto os bandidos que assaltam pessoas como também os conteúdos podem gerar uma imagem completamente falsa de sua pessoa. Lembre-se que o ambiente digital é público e tudo que se vê nele é como um cartaz posto no meio da rua. Seja prudente e cuide da sua imagem.



domingo, novembro 08, 2015

A desmaterialização e a imprecisão da imprensa


Uma das dúvidas mais interessantes, no momento, e, isto ficou bem claro, no 19º ENAI - Encontro Nacional da Imprensa, que reuniu as associações e entidades de imprensa e jornalistas, no último sábado, dia, 07 na Assembleia Legislativa de Rondônia, é o que a imprensa se tornou hoje. No passado isto era muito claro. Se podia determinar com clareza quem pautava a notícia, quem divulgava, quem fazia ser e acontecer. Havia até mesmo jornalistas que faziam, no bom sentido, a notícia. Antes a imprensa tinha nome, sobrenome, endereço certo, uma identificação precisa. É o que não acontece, agora, quando a imprensa, como o mundo, se desmaterializa, se desmancha no ar. Snodew, por exemplo, foi mais devastador que qualquer das grandes redes mundiais de imprensa.
Na verdade a imprensa, hoje, como acentuou José H. Oliveira Júnior, presidente da Agência Brasileira de Notícias-ABN, pode ser um blog. Pode também ser um vídeo que se espalha na internet e vira viral. Uma foto no Instagram, um comentário no Facebook pode se tornar, num instante, mais forte que páginas e páginas num jornal ou telejornal repetitivo, de vez que, ao mesmo tempo que a imprensa se desintegra, se fragmenta, parece, aos olhos de todos, mais igual do nunca, mais a mesma coisa, nas notícias “pega e cola” de todos os órgãos de comunicação, que surgem padronizados, iguais, pasteurizados de tal forma que as imagens, fotos, palavras são as mesmas, como se fosse modificado apenas a marca de quem veicula. Em certos momentos parece que só existem algumas notícias e algumas pessoas tal a falta de assuntos novos. Tudo fica parecido como os restos num grande lixão. É o grande paradoxo: uma imprensa imensamente fragmentada para produzir notícias padrões. Um mar de veículos com as mesmas notícias compactas, iguais, simulacro de verdade que se afirma mais pela repetição do que pela qualidade. E, em geral, repetição de notícias ruins no teor e na essência.

É o por isto que se pergunta, os jornalistas se perguntam, o que é a imprensa hoje? Uma boa resposta, tomada pela média das conversas, é de que ninguém sabe. Vivemos uma fase de transformações que deve construir um novo modelo, um novo paradigma de imprensa. Hoje, porém, parece que circulamos sem definição entre o velho e o novo, sem saber bem o que flutua ou afunda. De certo sabemos que a imprensa nunca mais será a mesma. E também que terá que ser exercida, cada vez mais, como sempre foi dentro de determinados parâmetros de ética, com qualidade e, quando bem feita, contra. Seja contra o governo, contra as grandes empresas, contra os interesses escuros e escusos, mas, a favor da verdade e do esclarecimento. E, como disse muito bem Domingues Júnior, diretor do Departamento de Comunicação Social do Governo de Rondônia (Decom), buscando a excelência no que se faz, pois, a essência de qualquer imprensa não pode deixar de ser a notícia bem feita. 

Ilustração: conversasdavida.blogspot.com